And I know it's long gone
And that magic is not here no more
And I might be okay
But I'm not fine at all
Em 2000 Ginny foi aceita na Ulster University, na Irlanda do Norte.
Os Weasley tinham uma vida financeira limitada, sem grandes luxos, viagens longas ou roupas de marca. Ainda assim, Molly e Arthur trabalharam e economizaram tudo o que puderam para que todos os sete filhos pudessem ter acesso à universidade, a qual nenhum dos dois tivera a oportunidade de frequentar.
Depois de chorar pela partida de Harry por aproximadamente um mês, Ginny começou a pensar no próprio futuro e enviar cartas para as universidades que estavam dentro do orçamento limitado da família. Ela deu preferência a todas as opções que a permitiriam continuar na cidade, pois não estava preocupada em esconder a esperança de que Harry talvez retornasse depois dos estudos e ela queria estar onde ele pudesse facilmente encontrá-la.
A aceitação mais promissora que recebeu, no entanto, acompanhada de uma bolsa parcial que traria grande alívio aos pais, veio da Irlanda do Norte. Ela sabia que pelo bem do seu futuro e da própria família, não poderia recusar tal chance, mas ainda assim não foi uma escolha fácil. Ginny sabia que sair da cidade significava cortar o laço que, pelo menos dentro dela, ainda existia com o namorado, mas essa era sua vez de pensar em si própria, e assim o fez.
Ginny adoraria ter tido a oportunidade de compartilhar com Harry para onde estava indo, talvez combinar de tentar se ver no verão e receber aquele abraço apertado de despedida que ela já conhecia. Para preencher um pouco do vazio que a impossibilidade trazia, ela ajeitou o cachecol dele ao redor do pescoço e se recostou para olhar a paisagem através da janela do avião. Já fazia um ano e muito provavelmente estivesse só em sua cabeça, mas ela ainda conseguia sentir o cheiro dele no tecido que ela segurava com tanto carinho.
Em 2002 Harry conseguiu o primeiro estágio numa editora.
A bolsa de estudos que a faculdade pagava a Harry todos os meses era estritamente suficiente para suas despesas com aluguel, alimentação e livros escolares. Os dois primeiros anos do rapaz na Hungria não foram fáceis e ele precisou economizar de todos os lados para conseguir se manter com o pouco que tinha, pois sabia que não havia ninguém a quem ele pudesse recorrer caso precisasse.
Quando o terceiro e último ano de graduação começou, trazendo junto a possibilidade de finalmente procurar um estágio, Harry mandou todos os currículos que conseguiu e dedicou todas as horas livres se preparando para entrevistas. Algumas negativas depois e ele finalmente recebeu duas propostas para se juntar a pequenas editoras que ficavam perto de Budapeste, a qual ele optou pela que oferecia o maior salário.
Ele mal conseguia conter a felicidade de finalmente começar a fazer aquilo que sempre quis, então o trabalho passou então a ocupar o primeiro lugar em sua lista de prioridades, juntamente com a faculdade. O primeiro salário foi recebido com felicidade e a primeira coisa que ele fez quando passou a finalmente ter mais dinheiro do que precisava para suas necessidades estritamente básicas, foi estabelecer uma lista de coisas que gostaria de comprar para melhorar a qualidade de seus estudos e trazer um pouco de praticidade para sua vida.
Com as economias dos primeiros sete meses de salário, Harry comprou seu primeiro computador. Era uma máquina grande e pesada, com um monitor de tubo que ocupava boa parte da mesa de estudos do seu quarto, mas ainda assim ele morreu de orgulho quando o ligou pela primeira vez e comemorou o fato de que não mais precisaria ficar na faculdade até o último horário todos os dias para conseguir digitar seus trabalhos.
Mais quatro meses de economia e ele se deu o luxo de comprar um celular. O aparelho cabia na palma de sua mão e a tela era apenas suficiente para acomodar os cento e noventa caracteres que uma mensagem SMS suportava, mas lhe permitiria se manter acessível e era o que importava.
Mais uma vez, enquanto se divertia com o jogo da serpente que se movia cada vez mais rápida pela tela, o rapaz pensou em como sua vida havia mudado para melhor desde que saiu da Inglaterra e se perguntou se Ginny por acaso também teria um aparelho como aquele, pois ele adoraria que a primeira mensagem de texto que mandaria em sua vida fosse para dizer que ainda sentia saudade.
Em 2003 Harry foi até Warrington.
Harry ficou confuso quando a secretaria da universidade o contactou informando que alguém havia entrado em contato com o campus tentando localizá-lo. O papel que recebeu junto com o recado continha um número de telefone e o nome da tia, o que o deixou ainda mais incerto sobre o que aquilo significava.
O motivo da ligação o surpreendeu: a tia havia decidido vender a casa que era dos pais dela e ele precisaria ir até a Inglaterra para assinar a autorização e receber metade do valor, correspondente à herança de sua mãe. O rapaz precisou usar todas as economias dos últimos quatro meses de estágio para pagar a passagem e os três dias de hospedagem no hotel mais barato que conseguiu encontrar, porque nunca mais nessa vida ele dormiria embaixo do mesmo teto que os Dursley.
A quantidade de dinheiro que aquela casa renderia ele não fazia ideia, mas certamente era mais do que ele jamais havia visto na vida. Para completar a surpresa, Harry nunca havia sido sequer informado da existência de tal herança. O dinheiro, no entanto, não era o motivo do tamanho do seu nervosismo ao entrar em um avião pela segunda vez na vida, um mês depois da ligação da tia.
Será que Ginny Weasley gostaria de vê-lo? Será que ela também ficaria tão nervosa quanto ele estava quando os dois se encontrassem? Será que ela ainda estava lá? Ele esperava que a resposta fosse sim para todas as perguntas, porque ele ainda pensava nela com muito mais frequência do que aqueles quatro anos implicariam a princípio.
A burocracia da venda do imóvel e transferência do dinheiro tomou um dia inteiro da viagem, que Harry passou praticamente em silêncio ao lado dos familiares. Quando os tios se despediram e foram embora, deixando-o na porta do banco, ele olhou novamente o extrato impresso de sua conta e seu queixo caiu como em todas as outras vezes: nunca antes ele havia sequer imaginado ver tantos dígitos naquele papel.
No dia seguinte Harry acordou cedo, tomou café da manhã e saiu em direção ao seu antigo colégio, porque ele fazia questão de visitar a professora McGonagall. Ele aguardou até que ela terminasse sua aula e foi surpreendido com um abraço quando ela o viu. Ficaram ambos muito felizes em se ver e ela não conseguiu esconder o orgulho que sentiu de tudo o que ele contou sobre sua vida na Hungria.
O próximo destino era a casa dos Weasley, cada passo que Harry dava fazia seu coração bater mais forte ainda, ao ponto de ele achar que estava à beira de um ataque cardíaco quando finalmente virou na esquina da rua que tanto frequentara alguns anos antes.
Ao chegar na frente da casa, no entanto, tudo estava diferente: as cortinas não eram as mesmas, o jardim bem cuidado tinha dado lugar a uma segunda vaga de garagem e haviam alguns brinquedos infantis espalhados na varanda da frente. Ele não encarou as mudanças como bom sinal, mas se preparou para bater mesmo assim. Antes de alcançar a campainha, no entanto, ouviu seu nome ser chamado.
-Hey Potter? Quanto tempo!
Harry girou nos calcanhares para encontrar Olívio Wood, seu ex companheiro de futebol, cruzando a rua em sua direção. Os dois conversaram por alguns minutos, suficiente para o amigo dizer que seria pai em breve, e Harry contar que ainda estava morando na Hungria, agora a caminho de um mestrado.
-Hey Olívio, você sabe se os Weasley ainda estão morando aqui?
-Oh não, você não soube o que houve com um deles?
O tom usado fez o estômago de Harry se embrulhar um pouco em antecipação à notícia ruim que certamente viria.
-Um dos gêmeos, Fred, sofreu um acidente de moto quase dois anos atrás e não resistiu, foi um trauma horrível para a família. Os pais eram os únicos morando aqui na época, porque os dois mais novos haviam ido estudar fora, então ano passado eles resolveram vender a casa e se mudaram.
-Você não tem ideia de pra onde eles foram, né?
-Nem ideia Harry, desculpa, eles se tornaram bem fechados depois que tudo aconteceu, o que é compreensível, então ninguém por aqui tem muita certeza de onde eles estão agora.
Harry agradeceu as informações e voltou para o hotel. Ele se lembrava muito bem dos gêmeos, eram sem dúvida os dois integrantes mais espirituosos da família, saber da morte de um deles o deixou profundamente triste.
"Os dois mais novos haviam ido estudar fora", Olívio dissera, o que queria dizer que Ginny provavelmente nem estaria na Inglaterra. Naquela noite, muito mais do que em qualquer outra, Harry pensou nela até dormir, mas pela primeira vez desde que deixou seu país, tais pensamentos tinham um tom de despedida que ele nunca antes imaginou. Se os Weasley não estavam mais em Warrington, isso queria dizer que ele não tinha mais como encontrá-la.
Em 2005 Ginny concluiu sua especialização em Biologia Marinha.
Seria difícil encontrar em todo o Reino Unido alguém com um sorriso maior do que o de Ginny enquanto cruzava o corredor de formandos se equilibrando em seu salto e ostentando com orgulho o canudo recém adquirido, a beca balançando no ritmo dos seus passos. Os pais, que haviam vindo apenas para a ocasião, sorriam orgulhosos e emocionados ao participar da última formatura da família. Dean Tomaz, seu namorado, também aplaudia a cena com entusiasmo.
Os três a abraçaram com carinho quando Ginny se juntou novamente a eles depois das fotos e juntos foram a um restaurante elegante comemorar a ocasião. Os quatro tiveram uma noite agradável e repleta de sorrisos, que se estendeu por mais três dias até Molly e Arthur voltarem para casa.
Agora com os estudos concluídos, Ginny havia decidido aceitar a proposta que o namorado vinha fazendo há algumas semanas e se mudar para a casa dele. Os dois estavam juntos há pouco mais de um ano e o relacionamento estava indo muito bem, então não viu por que continuar adiando. Ela já tinha saído com outras pessoas desde que chegara à Belfast, mas era a primeira vez que se sentia verdadeiramente envolvida.
Dean se prontificou a ajudá-la com a mudança e passaram o sábado inteiro separando e encaixotando coisas. Ele ficou encarregado de pegar as caixas organizadoras no alto do seu armário, e assim que colocou a primeira delas em cima da cama fez um comentário que causou uma sensação familiar em Ginny, embora ela não a sentisse há vários meses.
-Que cachecol bonito, nunca te vi usando. Parece masculino. - A última parte da frase continha certa desconfiança, que ele tentou disfarçar girando a peça nas mãos casualmente.
O primeiro impulso de Ginny foi puxar a peça de sua mão, mas ela se refreou e continuou onde estava.
-Era do meu irmão.
-Oh, sinto muito.
Dean sabia que a namorada havia perdido um irmão em um acidente, embora aquele assunto não era fosse levantado entre eles porque ele conseguia sentir sua dor. Muito sem graça, ele dobrou a peça novamente com o maior cuidado que conseguiu e a retornou exatamente aonde estava.
Embora tenha passado os próximos minutos se perguntando por que havia mentido, Ginny não soube identificar todos os seus motivos. O que ela tinha certeza era que não queria levantar suspeitas infundadas e nem precisar justificar o motivo de não se desfazer da única lembrança que tinha do que até então ela ainda considerava a fase mais mágica de sua vida.
Em 2006 Harry conseguiu um emprego como editor.
A vida de Harry mudou muito pouco depois do recebimento de sua herança. Muito sabiamente ele decidiu que não usaria nada daquele dinheiro enquanto não tivesse um ótimo motivo para fazê-lo. No entanto, o rapaz não via mais a necessidade de guardar parte de seu pequeno salário mensal agora que sua poupança estava bem abastecida.
A primeira coisa que fez quando retornou de viagem foi alugar um pequeno apartamento de dois cômodos e sair da acomodação estudantil em que morava. Com uma casa para chamar de sua, a primeira aquisição de Harry foi uma estante para colocar todos os livros que planejava comprar. Os quase três anos que morou ali foram suficientes para que ele enchesse quase todas as prateleiras.
No mesmo mês em que concluiu sua especialização em literatura e gestão editorial, Harry conseguiu o emprego de seus sonhos em Berlin. Quando ele contou a novidade a Cho, sua namorada há quase dois anos, e ela aceitou se mudar para lá junto com ele, ele julgou que a vida estivesse bem perto de perfeita naquele momento.
Na noite anterior à mudança, já com tudo encaixotado e pronto para ser colocado na van que eles haviam alugado, Harry estava deitado sozinho em seu apartamento, aproveitando o silêncio e o escuro para pensar em quanta coisa havia mudado desde que ele pisara na Hungria pela primeira vez.
Como acontecia vez ou outra, seus pensamentos se voltaram para Ginny Weasley e uma vez mais ele se lamentou por não ter uma foto dela, apenas porque adoraria confirmar se ela era realmente tão bonita quanto ele se lembrava. Ele se perguntou também se o cheiro dela, que ainda era seu cheiro preferido no mundo, era mesmo tão bom quanto em sua memória já meio defasada pelo tempo.
Quando acordou na manhã seguinte, Harry colocou na mochila as roupas que havia usado para dormir e se arrumou para sair. Com tudo pronto, ele se aproximou da caixa que continha seus livros e pegou o exemplar branco e rosa que havia deixado de fora. O rapaz abriu o livro e leu, pela milionésima vez, o texto que já sabia de cor, apreciando a letra bem desenhada do seu primeiro amor, aquele que nunca realmente teve um fim. Pensando que talvez Ginny estivesse certa e ele iria mesmo longe, outra vez desejou que tivesse um jeito de dizer isso a ela.
Com muito cuidado Harry colocou sua edição de Alice No País Das Maravilhas dentro da mochila e desceu as escadas com a primeira caixa nas mãos. Depois de tudo acomodado no veículo ele dirigiu até a casa da namorada, onde ela já o aguardava com um sorriso empolgado, e juntos partiram para mais um recomeço.
Em 2007 Ginny descobriu que estava sendo traída.
Ginny não poderia dizer que o relacionamento estava maravilhoso e que eles viviam no mesmo clima de romance e perfeição de quando decidiram morar juntos, mas isso não mudou o quanto doeu encontrar a confirmação de que suas suspeitas estavam certas. Dean sabia que a namorada não era boba, mas decidiu tentar a sorte mesmo assim e se envolveu com uma colega de trabalho. Os sinais estavam ali e Ginny os captou rapidamente, mas a evidência que ela buscava levou algumas semanas para aparecer.
Dean chegou em casa um pouco mais tarde naquele dia, deu um beijo apressado na namorada e pendurou o casaco de qualquer jeito antes de se dirigir apressado ao quarto.
-Hey Gin, vou sair com o pessoal da empresa, ok? É aniversário de um colega e vamos comemorar todos juntos.
Ginny o observou se afastar e voltou o olhar para o livro em seu colo, mas algo no meio do caminho chamou sua atenção, uma olhada mais minuciosa e ela notou que se tratava de um pequeno envelope caído no chão embaixo de onde o recém chegado havia pendurado sua roupa. Deixando todos os pudores de lado, ela o abriu e correu os olhos pelo conteúdo do cartão de aniversário que encontrou ali dentro, sentindo todas as peças se encaixarem.
Sem nenhuma pressa, Ginny caminhou até o quarto e se encostou no batente da porta, o cartão aberto nas mãos. Ela não chamou a atenção de Dean, mas ele a viu ali quando se virou e toda a cor sumiu do seu rosto quando percebeu o que ela segurava.
-Você estava mexendo nas minhas coisas? - Ele tentou se defender, ela riu sem humor.
-Não, isso caiu do seu casaco quando você o pendurou, mas ainda que eu estivesse você acha mesmo que essa é a parte relevante dessa conversa?
Dean não disse nada, apenas continuou encarando-a.
-Belo cartão de aniversário, mas pessoalmente esse não é o tipo de texto que eu considero apropriado para uma colega de trabalho. "Não vejo a hora de ter você só pra mim e comemorar do jeito que a gente mais gosta". - Ginny leu pausadamente, e Dean ficou mais vermelho a cada palavra pronunciada. - Só fiquei com uma dúvida, quando você disse que vão comemorar todos juntos quer dizer que você está saindo para uma orgia ou esse era seu jeito de tentar me fazer de trouxa mais uma vez?
-Não estou te fazendo de trouxa.
-Você até estava, mas não está mais. Aqui está o seu cartão, boa festa de aniversário para você e não se apresse em voltar para casa, eu não estarei mais aqui.
Ginny deixou o cartão sobre a cômoda e voltou para a sala aparentando uma calma que ela não sentia. Dean veio atrás, tentou argumentar, derramou algumas lágrimas e implorou, mas tudo isso só serviu para aumentar a mágoa e a raiva da ruiva que nem por um segundo reconsiderou sua decisão.
No fim ele se calou, mas não saiu de casa. Sentado na mesa de jantar, Dean assistiu a pessoa com quem dividiu os últimos quatro anos colocar caixas e malas perto da porta de entrada, se vestir e deixar a chave em cima da mesa antes de dizer um simples "tchau, Dean" e sair assim que o táxi chegou.
Dentro do veículo a caminho da casa da amiga que a receberia por alguns dias, Ginny se permitiu derramar algumas lágrimas. Enquanto absorvia a dor do término ela se lembrou da única outra vez que havia terminado com alguém, porque no fim era isso o que a despedida de Harry havia sido ainda que eles tivessem teimado em não decretar o fim em palavras. Os motivos haviam sido completamente diferentes, mas ambos doíam mais do que ela gostaria de admitir.
Ginny sempre pensou em seu primeiro relacionamento como algo mágico, perfeito pelo tempo que durou e nunca propriamente encerrado, mas ali pela primeira vez ela se perguntou se tal perfeição se devia apenas ao fato de que Harry Potter não havia tido tempo de magoá-la, porque em algum momento no passado ela também achou que o que tinha com Dean era perfeito, não mágico, mas ainda assim muito bom.
Apesar de toda a mágoa, Ginny ainda achava que não, que Harry não a teria magoado nem que tivessem tido todo o tempo do mundo. Tal constatação adicionou à sua lista de pesares a dor por nunca poder descobrir.
Em 2008 Harry se casou.
A decisão veio de forma natural, afinal já estavam juntos há quase quatro anos e há dois haviam se mudado para Berlin. Assim, Harry e Cho acharam que formalizar a união era só um detalhe na vida de casados que de fato já levavam.
Ela queria fazer uma festa pequena, mas ele foi contra e no fim acabaram ficando só com a cerimônia no cartório mais perto da casa deles, onde estariam presentes apenas os dois, a juíza e os pais da namorada, que chegariam da China em três dias para participar do casamento de sua única filha.
Na semana anterior ao grande dia, estavam abraçados no sofá quando ela puxou novamente o mesmo assunto:
-Harry, tem certeza que não quer adiar e convidar sua família?
-Cho, já falamos sobre isso. Mesmo que eu quisesse ver meus tios ou compartilhar qualquer coisa com eles, eles não viriam. Os Dursleys foram só as pessoas que me deixaram morar na casa deles, nunca fomos uma família.
-Eu sei, mas na verdade eu estava pensando nos Weasleys.
Era a primeira vez que ela os citava, e isso o deixou tenso.
-Nos Weasleys?
-Sim, não foram eles que você me disse que te acolheram muito bem e te trataram como sendo da família nos seus últimos dois anos na Inglaterra?
-Sim, é isso mesmo. Mas perdemos o contato há muitos anos, eu não teria como encontrá-los.
-Que pena, seria bem legal se eles pudessem vir, não seria? - Ela encerrou o assunto e voltou a se acomodar no peito do futuro marido.
-Sim, seria.
Por motivos óbvios, Harry nunca havia contado à noiva qual era a natureza da sua relação com a caçula Weasley, talvez por isso ela tivesse abordado o assunto tão naturalmente. Continuaram assistindo ao filme que passava, mas agora a mente do rapaz vagava ao redor de um questionamento que a conversa lhe trouxe pela primeira vez: ainda estaria se casando com Cho na semana seguinte se não tivesse perdido o contato com os Weasleys tantos anos atrás?
Em 2009 Ginny se mudou para a Nova Zelândia.
A verdade é que Ginny não estava mais feliz na Irlanda do Norte, mas também não sentia ainda que era hora de voltar para a Inglaterra. Ela havia escolhido biologia marinha com a intenção de trabalhar em museus, o que ainda não tinha sido possível no lugar onde morava desde que iniciou os estudos.
Fazia já algum tempo que ela pensava em se aventurar um pouco mais pelo mundo, quem sabe adquirir mais experiência profissional e viver em algum lugar onde nunca antes tivesse pisado, descobrir talvez uma cultura diferente. Com esses requisitos em mente, Ginny refinou suas buscas até ter certeza de que a Nova Zelândia era o destino perfeito.
Uma vez que a decisão estava tomada, se organizar para a mudança de país foi rápido. Quando deixou Belfast, sua primeira parada foi a casa dos pais, onde ela deixou todas as coisas das quais não gostaria de se desfazer, mas que também não precisaria pelo próximos dois ou três anos.
No dia marcado para a viagem ela chegou no aeroporto com antecedência e enfrentou todas as filas com um sorriso no rosto, tamanha a empolgação que sentia. Quando estava sentada em frente ao portão de embarque, passaporte na mão e a perna balançando de ansiedade, sentiu uma mão bater em seu ombro.
-Desculpa moça. - O menino nervoso que a olhava não deveria ter mais do que dezesseis anos. - Esse é o portão de embarque para Budapeste?
Essa pergunta a fez congelar no lugar por alguns segundos e diminuiu seu sorriso pouco a pouco. A expressão de confusão do garoto foi o que a fez chacoalhar a cabeça e enfim responder:
-Não, esse é o portão para Wellington, na Nova Zelândia. - Ginny se certificou de que o embarque não começaria imediatamente e se voltou novamente para o garoto. - Vem, vou te ajudar a encontrar o seu portão.
Eles caminharam por cerca de cinco minutos e se despediram quando ele agradeceu aliviado por estar no local correto. Ginny ainda encarou por algum tempo o painel que indicava a última chamada para o embarque, os pensamentos rondando as ruas daquela cidade em que ela nunca esteve, mas que sentia que já tinha feito parte de sua vida mesmo assim.
-Com licença senhora, você está embarcando para Budapeste? - A comissária educada perguntou a ela.
-Não, não estou.
-Obrigada. - Respondeu apertando a tecla que mudou o texto para "Embarque encerrado".
Mais uma olhada para onde o garoto havia passado e ela girou nos calcanhares para retornar ao portão de embarque que a levaria ao seu destino.
Assim que se acomodou para as horas de vôo que enfrentaria, Ginny se arrependeu profundamente de ter deixado o cachecol que Harry lhe deu em uma das caixas na casa dos pais, pois ela adoraria ilustrar com algo palpável todas as memórias que aquele adolescente perdido havia acordado e que ela certamente levaria algum tempo para fazer adormecer novamente.
Em 2011 Harry se divorciou.
Da mesma forma que haviam se casado por ser o mais adequado no momento, Harry e Cho chegaram juntos à conclusão de que o divórcio era iminente e necessário. A verdade era que não estavam felizes e duvidavam que voltariam a estar um com o outro.
Harry, em particular, não estava feliz com muitas coisas além do seu casamento. Ele não demorou muito para entender que não gostava tanto assim da Alemanha, e talvez tenha levado menos tempo ainda para aprender na prática que o mercado editorial, com o qual ele tanto sonhou, era um pesadelo. Só estava relutante em admitir para si mesmo tal constatação.
Ele se imaginava em uma sala com pilhas de livros, lendo durante todo o dia e escolhendo os melhores. Mas a realidade lhe trouxe mais reuniões do que leitura e um processo de escolha de conteúdo baseado mais em indicações do que em mérito, com o qual ele não concordava.
Quando o casamento acabou, Harry decidiu num impulso certeiro que não se acomodaria em uma vida em que ele não estivesse completamente satisfeito e jogou tudo para o alto.
Assim que resolveram a burocracia do divórcio e ele cumpriu as semanas necessárias antes de abandonar o emprego, Harry mais uma vez arrumou caixas de livros que foram despachadas para seu novo destino, colocou seu exemplar de Alice No País Das Maravilhas com cuidado na mochila e deixou a Alemanha e o mercado editorial para sempre.
Havia chegado a hora de dar um destino digno à sua herança.
Em 2012 Ginny resolveu voltar para casa.
Ginny tinha muitas expectavas quando embarcou para a Nova Zelândia e o país se encarregou de atender a todas elas: ela foi selecionada para um estágio remunerado em um museu famoso, saiu completamente de sua zona de conforto, descobriu novos gostos, sabores, estilos de vida, fez todos os esportes radicais que o país oferecia e até viveu um desses amores loucos de verão, que ocupou seu tempo de forma muito gostosa e acabou naturalmente quando o rapaz em questão precisou voltar para a Austrália.
No entanto, desde o seu primeiro dia Ginny soube que não moraria ali para sempre e que quando a hora certa chegasse ela voltaria para casa.
O tempo havia feito com que Ginny parasse tanto de planejar e deixasse as coisas acontecerem, então foi exatamente assim que ela tratou seu retorno à Inglaterra. A ruiva estava feliz no lugar onde morava e sabia exatamente a vida que queria ter em seu país de origem, então se decidiu que entraria no avião quando os sinais surgissem.
Contrariando expectativas os sinais foram rápidos e vieram na forma de uma vaga de emprego no SeaCity Museum de Southampton, cidade costeira ao sul da Inglaterra que ficava a apenas trinta quilômetros de onde os pais moravam desde que se mudaram de sua cidade origem, no extremo oposto do país. Ela se candidatou no mesmo dia e foi contratada após quatro etapas de processo seletivo, todos realizados pela internet.
Os Weasleys recepcionaram a caçula com uma festa surpresa cheia de comidas das quais ela morria de saudade e transbordando o amor característico da família. Depois de uma noite que recarregou suas energias e a lembrou o motivo pelo qual sempre soube que voltaria, quando todos foram embora Ginny deu boa noite para os pais, tomou um banho relaxante e fechou a porta do quarto atrás de si.
Olhando ao redor para todas as lembranças e objetos que ela havia acumulado ao longo dos anos, era notável quanta coisa havia mudado da Ginny que deixou a Inglaterra aos dezoito anos para a Ginny que retornava agora aos trinta, disposta a viver numa cidade do outro lado do país e com tanta história para contar.
Ela se sentou e puxou aleatoriamente uma das caixas de papelão, quando a abriu encontrou alguns casacos de inverno, seu travesseiro e, embaixo de tudo, o cachecol que havia ganhado no aeroporto de Warrington aos dezessete anos.
-Só pode ser perseguição, não é possível. - Falou para si mesma, apanhando-o e trazendo-o para perto do nariz.
Ginny sabia que era psicológico, mas mesmo assim achava curioso e de certa forma interessante que treze anos depois ainda conseguisse se lembrar do cheiro do primeiro namorado com tanta exatidão que era capaz de senti-lo naquela peça.
