It was rare

We were there

We remember it all too well

Em 2013 tudo voltou ao seu devido lugar.

Fazia quase um ano que Ginny estava de volta ao seu país de origem e essa era a primeira vez que tirava férias desde que começou a trabalhar no museu.

Havia sido um ano agitado, em que ela escolheu se doar totalmente ao trabalho e à família. A mais nova dos Weasley havia passado muitos anos fora e decidiu que sua prioridade imediata era aproveitar seus pais, irmãos e sobrinhos o máximo que pudesse. Programas em família eram o que preenchia praticamente todos os seus finais de semana, e ela não poderia estar mais satisfeita com isso.

Quando acordou em seu primeiro dia de férias, pelas janelas do apartamento onde morava no centro de Southampton Ginny conseguia ver o céu azul típico dos dias quentes de início de julho. Ela estava empolgada para começar os planos que fizera para aqueles dias. Sua família era do norte da Inglaterra então poucas vezes ela tinha ido ao sul, assim a ruiva pensou que explorar sua nova região seria uma ótima maneira de aproveitar seus dias de descanso.

Victoire, sua sobrinha mais velha que já tinha treze anos, havia perguntado se poderia acompanhá-la por alguns dias e Ginny achou a ideia ótima. A ruiva buscou a garota por volta do horário do almoço e as duas passaram cinco dias viajando pelos arredores, conhecendo pequenos vilarejos, cidades histórias, cenários de alguns filmes e aproveitando cada parada para um sorvete.

Estacionaram em frente à casa dos pais de Ginny no fim da tarde de sexta e ela se divertiu vendo Vic contar com empolgação tudo o que tinham feito naqueles dias. Alguns dos irmãos chegaram no sábado de manhã e ficaram para o final de semana, Molly e Arthur mal podiam conter a felicidade com a casa cheia como estava.

Ginny se despediu dos pais na segunda-feira após o almoço e entrou no carro para voltar para casa. Ela virou na rodovia que a levaria ao seu destino e cantarolou a música que tocava no rádio, deixando seus pensamentos vagarem enquanto prestava atenção no trânsito à sua frente e no dia ensolarado que fazia.

Ela ligou a seta e se posicionou para pegar a próxima saída para sua cidade, mas o segundo nome na placa de sinalização a fez hesitar por um breve segundo: Portsmouth a 35 quilômetros.

Ginny nunca tinha ido a Portsmouth. No último momento ela cancelou o sinal, retornou para a faixa do meio e decidiu que poderia fazer mais uma pequena expedição antes de voltar para casa. Talvez até jantasse por lá.

A cidade tinha certo charme, não tinha como negar, e o centro se estendia em ruas paralelas repletas dos mais diferentes comércios. Ginny deixou o carro estacionado na primeira vaga que achou e caminhou a esmo, se perdendo pelas ruas como havia feito com a sobrinha na semana anterior. No meio da tarde ela foi até a praia, comprou um sorvete e se sentou na areia para aproveitar o calor do dia, sem pressa.

Quando o relógio em seu braço marcou cinco e meia da tarde ela se levantou e espanou a areia da saia do vestido curto. Ainda que o sol desse as caras até as dez da noite durante aquela época do ano, Ginny sabia que em pouco menos de uma hora todos os comércios já estariam fechados e não haveria mais nada para fazer por ali, então deixou de lado os planos de um jantar fora e se virou para começar o caminho de volta para casa.

Ela tinha um senso de direção razoavelmente bom e se lembrava perfeitamente de onde havia deixado o carro, então calculou que as chances de chegar no local se pegasse uma rua paralela à que tinha usado antes eram bem grandes e resolveu assumir o risco.

Depois de alguns minutos de caminhada seus olhos se detiveram em uma fachada de madeira que ela achou bonita o suficiente para prestar mais atenção e descobrir que se tratava, o que fez seu rosto se iluminar: uma livraria. A última vez que Ginny entrou em uma livraria havia sido na Nova Zelândia, então ela achou que valia a pena chegar em casa alguns minutos mais tarde para fazer aquela pequena expedição.

Ela cruzou as portas de entrada e caminhou sem pressa por entre as prateleiras, aspirando o cheiro característico de livros novos que ela tanto gostava. Ao contrário do que Ginny esperava devido ao horário, o local estava agitado para os padrões de uma loja que vende livros, então ela se permitiu não se apressar. Haviam indicações escritas por funcionários ao lado de alguns exemplares e ela se deteve em várias delas na prateleira de ficção e fantasia.

Quando chegou ao final das estantes ela notou que a loja era estreita e comprida, com entrada para a rua de trás também. Haviam longas prateleiras dos dois lados, um balcão redondo no cento, que abrigava o caixa, e a parede lateral era repleta de itens de papelaria. Ela se lamentou não ter um lugar assim mais perto de casa e continuou sua visita.

Ginny percebeu que o barulho de vozes havia diminuído e resolveu se apressar para não ser a última cliente na loja. Apanhou os dois livros cujas indicações mais lhe chamaram atenção e se dirigiu ao caixa, onde o que parecia ser o único funcionário restante estava atendendo a outra cliente de costas para ela. Sem dispensar um segundo olhar na direção do dois, ela se virou e esperou sua vez enquanto se admirava com quantas versões diferentes e bonitas de canetas estavam penduradas na vitrine.

Quando ouviu a gaveta do caixa se fechando, indicando que a transação havia acabado, Ginny se virou novamente para frente e sorriu automaticamente para o rapaz que a atenderia, mas assim que ele se virou também ela se sentiu congelar e não conseguiu dar nem mais um passo.

Harry se considerava uma pessoa de raciocínio rápido, mas não havia equação ou lógica nenhuma que explicasse de maneira convincente como Ginny Weasley poderia ter se materializado ali bem diante de seus olhos. Um lado dele ainda não acreditava que isso estava acontecendo de fato e ele estava apreensivo de piscar e ela desaparecer tão rápido quanto surgiu. A verdade é que ele estava paralisado e qualquer outra coisa além daquele olhar que nenhum dos dois parecia conseguir quebrar não tinha a menor importância.

Faziam catorze anos que os dois não se viam ou sequer tinham notícias, mas bastou aquele olhar para eles confirmarem de uma vez por todas que nem uma vida inteira seria suficiente para fazê-los esquecer do rosto que os encarava de volta.

Ginny foi a primeira a voltar a se mover e continuou seu caminho até o balcão, onde pousou os livros que segurava com as mãos levemente trêmulas.

-Eu não…

-Mas como…

Os dois começaram ao mesmo tempo e se detiveram imediatamente quando viram que o outro iria dizer algo, então voltaram ao silêncio que os fez rir nervosos.

-Ginny. - Harry disse mais para ele mesmo do que para ela, parado do outro lado do balcão.

Agora que estavam completamente convencidos de que o outro era real, eles se permitiram relaxar os ombros e olhar em volta para respirar fundo. Quando voltaram a se olhar já pareciam menos em choque.

O turbilhão de pensamentos que circulava em suas cabeças eram praticamente idênticos: Harry e Ginny estavam eufóricos com o encontro e com vontade de sorrir de orelha a orelha, mas ao mesmo tempo apreensivos com os detalhes que já não conheciam mais um do outro. E se a reação que viam no outro era apenas surpresa? E se fossem o único com o coração descompassado e todo um borboletário no estômago? E se o outro tivesse outra pessoa? E se o outro não fosse mais quem se lembravam?

Eram tantas perguntas e ironicamente nenhum dos dois parecia sequer saber como dizer oi.

-Você também está tentando entender quais são as chances de isso acontecer? - Ginny perguntou com o tom mais estável que conseguiu.

-Na verdade eu não estou conseguindo formular um pensamento coerente.

Eles riram e desviaram o olhar novamente. Quando olhou para baixo Ginny viu a razão que a havia feito chegar até ali e empurrou os livros na direção dele.

-Comecemos por pensamentos simples então, eu vou levar esses dois, por favor.

-Ótima escolha, fui eu que escrevi a recomendação de ambos. São seus. - Ele os empurrou de volta na direção dela.

Harry a olhou com a atenção enquanto dizia e gostou de vê-a rolar os olhos como ele poderia apostar que ela faria. Algumas coisas aparentemente continuavam iguais. Ginny pensou em negar, mas a ideia de ter um presente dele era atrativa demais.

-Tem certeza que não vai ter problema pra você?

-A loja é minha, tenho certeza absoluta de que não vou ficar bravo comigo.

Ela o olhou surpresa e os dois puderam sentir no peso daquele olhar tudo o que queriam saber um do outro, sobre o que mais havia mudado em todos aqueles anos.

-Você mora aqui? - Harry não aguentou a curiosidade e perguntou a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

-Em Southampton.

-Do lado.

-Sim, não são nem vinte minutos de carro.

Ela se preparou para fazer uma pergunta também, mas uma voz os assustou e eles olharam para o lado alarmados.

-Com licença, eu gostaria de pagar. - A senhora de aparência ranzinza falou sem muita paciência.

Harry se desculpou com o olhar, Ginny assentiu informando que aguardaria ali e se preocupou em organizar os próprios pensamentos enquanto ele finalizava a transação. Assim que a cliente apanhou a sacola e se retirou, ele não se preocupou em checar se já estava no horário ou não, apenas pediu um minuto e fechou a loja, agora eram realmente só os dois. Quando se juntou novamente a ela, não havia mais um balcão entre eles.

-Tem tanta coisa que eu gostaria de perguntar que não sei nem por onde começar. - Ginny expressou o que ambos sentiam.

-Você não imagina como eu estou feliz em te reencontrar.

-Acho que eu tenho uma ideia.

Eles não saberiam dizer quem deu o primeiro passo, mas em segundos estavam presos em um abraço silencioso que expressava muito mais que todas as frases que eles não conseguiam montar coerentemente. A primeira coisa que Ginny pensou com o rosto colado no peito dele é que aquele era exatamente o cheiro que ela conseguia sentir no cachecol que repousava dentro da terceira gaveta do seu guarda roupa. Harry estava aliviado e emocionado demais para que seus pensamentos pudessem fazer sentido em palavras.

Se separaram com relutância, mas não se afastaram mais do que um passo.

-Você não quer mais alguns livros? Ainda não estou pronto para me despedir.

Ginny riu da pergunta, mas ela também não queria dizer tchau.

-Não precisa, obrigada. Mas não sei, você tem algo pra fazer agora?

-Não, depois daqui eu iria para casa.

-Eu também só estava indo para casa. A gente pode, sei lá, você quer tomar alguma coisa? - Aquele não era a primeira vez que Ginny convidava alguém para sair, mas nunca antes ela tinha se sentido nervosa daquela forma ao fazê-lo.

-Claro, eu adoraria.

Harry desligou os computadores, ativou os alarmes e apagou as luzes o mais rápido que conseguiu. Ele puxou a carteira, a chave do carro e o celular de dentro de uma gaveta pelo lado de dentro do balcão e guiou Ginny até a porta lateral por onde sairiam. Eles estavam muito conscientes da presença um do outro, e caminhar por entre prateleiras de livros com as luzes apagadas e a mão dele apoiada na base das costas dela não ajudava.

Ele conhecia bem a cidade e os guiou até um pub que sabia ser tranquilo, onde escolheram a mesa mais ao canto e pediram duas bebidas. A princípio eles não sabiam bem como começar a conversa que queriam ter, mas as frases começaram a sair mais facilmente à medida que passavam mais tempo um com o outro e reconheciam gestos e expressões de que lhes eram familiares.

Não demorou muito para que relaxassem completamente e a partir daí a conversa fluiu leve e facilmente, fazendo-os se agarrar a cada informação nova que recebiam, como se estivessem tentando montar um quebra-cabeças e torcendo para que o resultado final fosse parecido com a imagem que guardavam um do outro.

Harry contou a ela sobre a Hungria, a faculdade, a especialização, a herança que ele nem sabia que existia e a visita a Warrington quando foi até sua casa e descobriu que eles haviam se mudado, sobre a mudança para Berlin, a péssima experiência que havia tido como editor e até sobre Cho. Ele queria que Ginny soubesse tudo o que havia acontecido nesses anos todos, como se de alguma forma isso fosse fazê-la um pouco presente em cada um deles, porque de certa forma ela sempre esteve. Sua narrativa terminou com a abertura da livraria e quão profissionalmente feliz ele estava desde então.

Ginny falou sobre Belfast, a faculdade que havia escolhido e que surpreendeu o rapaz, os diferentes empregos pelos quais passou, a experiência incrível que viveu na Nova Zelândia, o trabalho que realizava no museu, que foi o que a fez se mudar de volta para Inglaterra, e dispensaram vários minutos falando sobre Fred, que era um assunto sobre o qual ela não falavam com mais ninguém. Ela odiava ter que explicar para as pessoas como o irmão era maravilhoso, mas com Harry isso não era necessário porque ele o conheceu, ele sabia.

Ao final daquela conversa os dois já sabiam tudo de principal que havia acontecido durante o tempo em que se perderam um do outro. Ouviram tudo com toda atenção do mundo, mas duas informações específicas os fez imediatamente alertas: estavam solteiros e eram ambos felizes e bem sucedidos a apenas vinte minutos de distância um do outro.

A noite havia começado com cada um sentado de um lado de uma mesa redonda e grande o suficiente apenas para duas pessoas, mas à medida que descobriam mais da pessoa a sua frente e barreiras invisíveis começaram a ser quebradas, inevitavelmente as físicas também ruíram. Era como se eles soubessem que toda a intimidade que compartilhavam na última vez em que se viram só estivesse adormecida, mas acordando com bastante facilidade.

Depois de toda a atualização sobre o que havia acontecido, Harry e Ginny estavam agora falando sobre suas vidas atuais. Ele não tinha muito sobre o que dizer, já que passava a maior parte de seu tempo na livraria, mas a ruiva tinha família o suficiente para lhe render muito assunto.

As cadeiras estavam agora lado a lado, os pés passando por cima um do outro para caber no espaço apertado e as cabeças coladas em frente ao celular que ela usava para mostrar fotos de todos os sobrinhos. Harry não havia convivido muito com todos os seus irmãos porque metade deles já não moravam mais com os pais quando os dois começaram a namorar, mas ele se lembrava de todos eles.

-E essa aqui é a Victoire, a mais velha. Nós viajamos juntas na semana passada.

-Uau! - Harry se aproximou mais da tela e Ginny já sabia o que ele diria, porque já tinha ouvido aquilo milhares de vezes. - Ela é a sua cara, só que loira.

-Todo mundo diz isso, mas eu não sei se enxergo essa semelhança toda.

-Se ela fosse ruiva, seria idêntica a você quando começamos a namorar. - Ele olhou diretamente para ela antes de continuar. - E acredite, eu me lembro muito bem.

Eles sorriram um para o outro e sentiram um arrepio gostoso com a expectativa do que viria a seguir, mas antes que pudessem aproximar seus rostos um grito vindo do bar os fez dar um pulo e olhar na direção da voz que lhes interrompeu.

-Fechando em vinte minutos. - A atendente falou enquanto limpava o balcão com um pano molhado e a cara fechada.

Ginny puxou a cortina atrás de si e olhou pela janela com os olhos arregalados, a noite já ia alta.

-Mas já? Que horas são?

-Onze e trinta e sete. - Harry respondeu olhando em seu relógio de pulso.

Olharam ao redor e viram que eram os únicos ali.

-Acho que precisamos ir.

Harry concordou com um aceno e os dois se levantaram, pegaram seus pertences, agradeceram a atendente que não respondeu e saíram. Mal haviam pisado na calçada e a porta se fechou atrás deles com um baque. Harry virou para a direita e Ginny o acompanhou, os dois perdidos nos próprios pensamentos, até que alguns metros depois ele tirou a chave do carro do bolso, parou e se virou de frente para ela. Estavam no meio da calçada de uma rua escura e deserta, Ginny olhou para a direita e depois para a esquerda com a expressão confusa e começou a rir.

-Não sei onde deixei meu carro.

A verdade era que Ginny não estava tão preocupada assim com o carro e também não tinha pressa em ir embora. Nenhum dos dois queria que aquele encontro acabasse, só não sabiam como dizer isso.

Harry bagunçou os cabelos e sorriu um pouco nervoso.

-Vou te ajudar a encontrá-lo, imagino que você queira ir logo para casa e descansar para acordar cedo amanhã. - Aquela frase era pura especulação.

-Na verdade eu estou de férias pelo resto da semana. - Ginny entendeu perfeitamente e resolveu dar o segundo passo para o desfecho que queria para aquele dia que já tinha se provado surpreendente o suficiente.

Os dois se encararam por alguns segundos, os rostos sérios. Poderiam ter passado catorze anos sem saber nada um do outro, mas se conheciam o suficiente para saber o que vinha a seguir, porque já haviam protagonizado aquela mesma cena. Ao contrário do abraço apressado que trocaram sem nem saber direito como havia começado, dessa vez eles aproveitaram a expectativa e absorveram cada detalhe da cena que se estendeu. Os passos na direção um do outro, os rostos se aproximando, a mão dele passando pela bochecha dela para se acomodar por baixo do cabelo em sua nuca e, enfim, o beijo que confirmou que estavam perdidos.

Podiam até ter começado calmos, sem pressa, mas não se mantiveram assim por muito tempo. Passados alguns segundos, a única pressa que não tinham era de quebrar aquele contato, porque em todo o resto só havia urgência. Harry desceu a mão para sua cintura e a empurrou até seu carro, onde se encostaram. Ginny gostou de sentir o corpo dele tão grudado a ela, enquanto corria as mãos pelas costas largas do rapaz não pode deixar de notar que algumas coisas haviam definitivamente evoluído desde a última vez em que apalpou aquele corpo.

Estavam um pouco ofegantes quando se separaram o suficiente para respirar um pouco, as mãos continuaram exatamente onde estavam e Harry não se moveu um centímetro para longe.

-Eu não sei como me despedir de você outra vez, fica aqui comigo essa noite. - Harry a encarou com o rosto sério enquanto dizia.

Ginny não conseguia olhar para nenhum outro lugar além daqueles olhos verdes cravados em seu rosto, e nem queria.

-Fico. - Respondeu sem titubear ou precisar pensar, ela mesmo teria se convidado caso ele não fizesse.

A atração venceu e eles se beijaram mais uma vez antes de entrar no carro. Harry não morava longe dali, então nem dez minutos se passaram até que Ginny se encontrou novamente prensada entre seu corpo e a porta com cuja fechadura ele brigava em meio ao beijo afoito. Assim que a sentiu se abrindo atrás de si, Ginny olhou para baixo assustada quando algo gelado tocou sua perna.

-Sai Jane! - Harry chamou a atenção da beagle que cheirava as pernas de Ginny com a empolgação de quem está fazendo um novo amigo.

-Jane?

-Jane Austen. - Ele explicou e chamou a cachorra que o acompanhou saltitante pelo corredor ao lado.

Quando se viu sozinha e olhou ao redor, reparou que estava na sala onde uma estante repleta de livros tomava toda a parede oposta. Ela caminhou até lá e correu os olhos rapidamente pelas lombadas, se perguntando se o livro que ela deu a ele estaria em algum lugar por ali.

Ginny ouviu os passos rápidos de Harry se aproximando pelo corredor e antes mesmo de conseguir se virar ela sentiu as mãos dele fazendo o trabalho por ela e retomando à mesma urgência de antes, agora sem um animal de estimação faminto para interromper. Passaram afoitos pela porta do quarto e propositalmente acenderam a luz, pois tudo o que ambos queriam era absorver o momento por todos os sentidos possíveis, então seria um desperdício deixar justo a visão de fora.

Tudo naquele momento tinha simultaneamente a familiaridade de algo que já conheciam muito bem e a empolgação de uma novidade gostosa: conheciam aquelas mãos, mas o toque estava mais experiente, se lembravam perfeitamente do cheiro e do corpo um do outro, mas não conheciam todas as curvas que o tempo havia criado, sabiam qual era a sensação de se perderem um no outro, mas agora certamente sabiam muito melhor como dar e sentir prazer.

Nenhum dos dois estava muito interessado em saber as horas quando tinham o outro confortavelmente sem roupa ao alcance das mãos, as pernas enroladas embaixo do lençol fino enquanto exploravam a gama infinita de assuntos sobre os quais queriam conversar. Só se lembraram de olhar no relógio quando notaram que o quarto, até então iluminado apenas pelo abajur que Harry acendeu quando voltaram para a cama depois de um banho compartilhado, estava claro demais: 6:18 da manhã.

-Nem dormir eu quero, o que está acontecendo? - Ginny perguntou e colocou o celular de volta sobre a mesa de cabeceira.

-Eu também não quero. - Harry a puxou para um abraço.

Ainda que não quisessem dormir, o cansaço e o conforto da proximidade venceram e os dois caíram no sono. O que pareceu ser apenas minutos depois de fecharem os olhos, um barulho alto e irritante os fez acordar assustados.

-Merda! - Harry resmungou enquanto se esticava sobre Ginny para alcançar o celular e silenciar o despertador. - Esqueci que tenho uma loja.

Ginny o olhou entre sonolenta e preocupada enquanto ele digitava alguns números no celular e começou a se sentar.

-Não Gin, já me junto a você outra vez. - Harry a impediu de se levantar e ela ia perguntar o que ele estava fazendo, mas se calou porque alguém do outro lado da linha atendeu a ligação. - Oi Luna, desculpe o horário. Será que você pode abrir a loja para mim hoje? Eu tive um imprevisto. Sem problemas, obrigado, te vejo mais tarde.

Ginny até pensou em perguntar quem era Luna, mas estava com sono demais para isso e deixou para lá. Harry se acomodou novamente e a abraçou, segundos depois estavam dormindo outra vez e não abriram os olhos até bem depois da hora do almoço. Ele precisava ir até a loja e ela precisava encontrar seu carro, então decidiram sair juntos depois de comer alguma coisa.

-Quais são os planos para os seus próximos dias de férias?

-Não sei, eu estava aproveitando o tempo livre para dirigir meio sem rumo por aí, gostaria de conhecer melhor o sul do país agora que me mudei para cá. Foi assim que vim parar em Portsmouth ontem.

-Que ideia legal, já estou aqui há mais de dois anos e ainda não tirei tempo para conhecer quase nada.

-Vem comigo. - O convite saiu num impulso, mas não poderia ser mais sincero.

Harry só levou três segundos para pensar em suas duas únicas responsabilidades: Jane e a livraria, felizmente Luna poderia cuidar de ambas.

-Vou.

O sorriso que trocaram dispensava mesmo qualquer palavra, então terminaram de comer em silêncio.

Ele colocou algumas peças de roupa na mochila enquanto Ginny andava ao redor de seu quarto mexendo em alguma coisa aqui e ali, até que ela parou em frente à prateleira que ele tinha ao lado da porta, onde alguns objetos aleatórios repousavam, entre eles uma edição de colecionador de Alice No País Das Maravilhas. Ela o apanhou e abriu na primeira página, onde encontrou o texto que havia escrito anos atrás, do qual já não se lembrava mais com exatidão.

Com um sorriso bobo nos lábios ela fechou o livro e o devolveu ao lugar onde estava, quando se virou e seus olhos encontraram os de Harry, ele apenas deu de ombros como se fosse óbvio que o único lugar possível para encontrar um presente que sua primeira namorada te deu catorze anos atrás fosse a prateleira de frente para sua cama. Ginny certamente não reclamaria.

Desceram do táxi e entraram na livraria por onde Harry caminhou com segurança e um olhar clínico. Quando chegou ao balcão central ele cumprimentou pelo nome o rapaz que estava ali atrás e perguntou por Luna. Assim que ouviu a resposta, ele guiou Ginny por uma porta à direita e os dois entraram no que aparentemente era o depósito. Atrás da única mesa havia uma menina com os cabelos loiros bem claros que faziam contraste com alguns dreadlocks coloridos, usando roupas um tanto alternativas e um piercing no nariz. Ela não devia ter mais do que vinte e poucos anos.

-Oi Luna, obrigado por hoje de manhã. Eu vou precisar de mais um favor seu.

A garota olhou para cima e se surpreendeu ao ver que o chefe não estava sozinho. Luna desceu o olhar e reparou na mão dele repousando na cintura da ruiva que o acompanhava e se virou para Harry com um sorriso divertido:

-Que imprevisto mais bonito esse seu.

Ginny riu e continuou olhando em volta depois de apresentações rápidas por parte de ambas, enquanto Harry conversava com a amiga e lhe pedia para cuidar da loja e de Jane até sábado. Com tudo resolvido os dois saíram em busca do local onde Ginny havia deixado o carro, que à luz do dia ela não teve dificuldades em encontrar. A primeira parada foi a casa dela, onde o ritual de apanhar algumas peças e uma mochila se repetiu.

-Terceira gaveta. - Ginny falou quando viu que Harry estava parado em frente à sua cômoda.

Ele suspeitava o que encontraria ali, e não se enganou quando encarou o tecido escuro do cachecol que havia sido seu um dia.

-Eu juro que ainda sinto seu cheiro nele, também não sei como isso é possível. - Ela se encostou às costas dele e plantou um beijo na altura de seu ombro. - Vamos?

Não se importavam muito com o destino da expedição, afinal o que queriam verdadeiramente aproveitar estava a um banco de distância. No fim acabaram não indo tão longe, pois logo no segundo dia encontraram uma cidadezinha que lhes agradou e resolveram ficar por ali.

Nos poucos dias que tiraram apenas para si, Harry e Ginny tiveram tempo de descobrir que nenhum dos dois jogava futebol havia muitos anos, ela contou a ele como ganhou uma cicatriz na coxa durante um mergulho na Nova Zelândia em que bateu a perna na ponta de um coral, os dois se divertiram com o fato de Harry ainda gostar de sorvete de chiclete e Ginny ainda não suportar o sabor, conversaram sobre as viagens que fizeram, pessoas que conheceram e todas as outras coisas que lhes vieram à cabeça.

No fim da tarde de sexta estavam assistindo um filme no quarto do hotel, o dia estava bonito e quente, mas preferiram aproveitá-lo esparramados na cama e usando pouca roupa. Ginny estava encostada na cabeceira com Harry deitado entre suas pernas, os dois prestando atenção na TV, quando ela recebeu uma mensagem da mãe perguntando se ainda estava viajando e se estaria no almoço de sábado, pois todos os irmãos já haviam confirmado.

Ginny mordeu a unha do dedão e olhou para ele em dúvida antes de fazer o convite, por uma fração de segundos ela se perguntou se não estavam indo rápido demais. No fim, ela concluiu que não fazia nenhum sentido adiar se já tinham feito isso uma vez, não era como se estivesse apresentando à sua família toda alguém que conheceu três dias atrás.

-Você tem algo para fazer amanhã?

-Não, estou livre até segunda.

-Quer participar de um almoço em família, agora com nove sobrinhos além de todos os irmãos?

Harry virou o rosto para encará-la e sorriu empolgado, pois a menos que todas as suas memórias estivesse muito erradas, ele tinha certeza de que seria um dia memorável.

-Com certeza eu quero.

Sorriram um para o outro daquele jeito que fazia seus estômagos se agitarem e Ginny confirmou para a mãe que estaria lá e que levaria alguém com ela, mas não quis dizer quem e insistiu em fazer surpresa.

Se em alguma coisa os Weasleys eram bons, era em superar expectativas. Harry já imaginava que seria um dia louco, no melhor sentido possível da palavra, mas a verdade é que foi caótico. Molly estava tão curiosa para saber quem acompanharia a filha que saiu correndo de dentro de casa quando ouviu o carro se aproximando. Assim que colocou os olhos em Harry ela demorou quase um minuto para se convencer de que estava enxergando direito, depois o prendeu em um abraço demorado e o guiou para dentro de casa aos gritos de "Arthur, você não vai acreditar!".

Apenas Ron e Carlinhos estavam ali quando eles chegaram, então a cada nova cabeça ruiva que passava pela porta o padrão se repetia e Harry e Ginny contavam mais uma vez como tinham praticamente se materializado na frente um do outro, no que provavelmente era o maior acaso do mundo. As crianças o olhavam curiosas e um pouco envergonhadas, mas todas disseram oi muito educadamente.

A presença de Harry não alterou em nada a dinâmica da família, foi com satisfação que ele notou que ainda se encaixava ali e se sentia bem, da mesma forma como há catorze anos quando ainda convivia com aquelas pessoas regularmente. Seu olhar cruzava o de Ginny as vezes e a cumplicidade que havia entre eles também era satisfatória, a sensação que tinham era a de retomar algo que estava apenas em intervalo, mas que nunca deixou de existir.

Ginny se recostou no sofá ao lado dele e assistiu calada e satisfeita enquanto todas as peças de sua vida voltavam ao devido lugar: sua família estava ali, ela tinha um emprego que a fazia feliz e havia reencontrado Harry. Pensar nisso ainda a surpreendia e assustava, porque até segunda-feira de manhã ela poderia jurar que sua vida estava completa, no entanto agora tinha certeza de que Harry sempre havia faltado de alguma forma.

-Tia Gin. - Victoire sussurrou do lado dela, cutucando seu braço. - Quem é ele?

Ela demorou mais tempo do que o necessário para responder à pergunta da sobrinha, pensando consigo mesma em como apresentá-lo.

-É o tio Harry. - Respondeu por fim.

Harry ouviu a resposta e se virou para ela com um sorriso cúmplice e feliz. Desde que se reuniram ao restante dos Weasleys haviam apenas andado lado a lado e não demonstrado nenhum envolvimento, mas aquele olhar indicava o que os dois estavam pensando: para que adiar o inevitável? Ginny esticou a mão e ele entrelaçou seus dedos, ninguém ao redor pareceu minimamente surpreso com o gesto.

Não tinham a mínima ideia de como seria dali para frente e de como as coisas se equilibrariam entre eles, pois infelizmente não poderiam continuar para sempre grudados como estavam desde o momento em que se reencontraram, mas de alguma forma eles sabiam que não se largariam mais. Afinal, se catorze anos não foram suficientes para acabar com a mágica que havia entre os dois, algum período de tempo seria?

Algumas coisas simplesmente estavam destinadas a acontecer e, contrariando todas as estatísticas, Ginny e Harry não estavam errados no auge de seus dezesseis e dezessete anos: eles eram uma delas.