Ele apenas ouvia as suas próprias lamentações então surpreendeu-se quando ouviu um choro seguido de gritos… gritos de sofrimento, algo que ele conhecia bem. Parecia ser de uma fêmea, seria uma das suas assistentes demoníacas? Elas rapidamente apareceram ao lado dele. Nenhuma delas com sinais de ser a fonte de tal pranto. Claro que não… são demónios…
"Senhor, uma mulher humana entrou." Ella apressou-se a dizer sem demostrar qualquer emoção.
"Senhor, sabe o que isto pode significar?" A sua assistente mais pessoal Linda diz. Ele quase podia dizer que havia esperança na sua voz, mas não…
"Senhor, os Hellhounds estavam atrás dela… é uma ameaça." Mazikeen ou Maze diz agitando uma das suas facas.
Ele olhou para o rosto deformado de Maze. "Ella e Linda, vocês podem ir perceber o que se passa? Não a assustem." Ele deu-lhes um último olhar antes de se dirigir novamente para Mazikeen, o seu guarda mais leal. "Coloca a tua máscara Mazi."
"Lucifer! Isto é uma má ideia… como pensas que ela vai reagir quando vir o teu rosto ou o meu?" Ela diz seca.
"Eu não pedi a tua opinião. Pedi?" Ele colocou umas luvas e abotoou uma camisa.
"Não te iludas."
Os olhos dele brilharam ainda mais. "Não vais ser tu a ser apagada da existência Maze. Eu vou!" Ele rugiu, a sua voz rouca e poderosa ecoando nas paredes próximas.
Ela olhou para baixo em submissão quase envergonhada. "Desculpe senhor."
"É melhor ficares aqui. E não te atrevas a mostrar-lhe o teu rosto descoberto." Ele diz passando por ela.
Ele caminhou pelo corredor mantendo-se na penumbra. As sombras seriam as suas aliadas. Ele conseguia reduzir o brilho do fogo que queimava nos seus olhos. Ele aproximou-se do corrimão o seu corpo alcançando uma área visível pela humana que chorava junto à janela. O seu rosto permanecia na sombra.
Ella e Linda já estavam no andar de baixo, relativamente perto da mulher trémula que ainda não tinha notado ninguém.
Ele tossiu para ser notado, a mulher logo olhou para cima e ele prendeu a respiração. Ela era linda mesmo no seu pior estado. Ela levantou-se e olhou também para as duas figuras mais próximas. "Eu. Desculpe, eu… eu…" Ela não conseguiu ir mais longe nas suas palavras.
"Não te lamentes minha querida, certamente tudo pode ser corrigido. O que aconteceu?"
"Lobos… eles atacaram-nos, eu fugi." Ela dizia recordando os eventos.
"Mais alguém contigo?" Ele perguntou.
"Já não." Lágrimas novas caíram do seu rosto. "O meu pai, ele morreu." Ela diz num soluço.
Ele não se importava muito com a morte humana, ele sabia o que viria depois… portões perolados ou tortura eterna. E se os Hellhounds atacaram tiveram alguma razão… ou estavam entediados… Mesmo assim ele tinha um grande fascínio por aqueles seres, pelas suas emoções. "Lamento minha querida…"
"Chloe, o meu nome é Chloe Decker senhor." Ela tomou alguma postura. "Desculpe por invadir a sua casa, pensei que ninguém vivesse aqui. Queria apenas escapar dos lobos." Ela explica enquanto mexe as mãos nervosa. "Eu devo ir." Ela começou a aproximar-se da porta.
"Mas é quase noite, não será seguro." Diz Ella.
"Claro que não." Diz Lucifer prontamente com a sua maior educação. "Não haverá qualquer incómodo em passar quantas noites forem necessárias. Tenho imensos quartos, algum te deve agradar."
"Seria muita gentileza senhor…"
"Morningstar." Ele apresentou-se. "Seria um prazer ter uma convidada para alguma companhia. Sente-te livre para pedir o que mais desejares."
"Muito obrigado Sr. Morningstar." Ela parecia muito aliviada.
"A Ella e a Linda vão encarregar-se de tudo. Até mais tarde." Ele volta para o seu quarto.
O banho quente e roupas limpas mesmo que antigas foram um alívio para ela. O seu velho vestido desbotado e capa foram descartados para lavar por uma das empregadas. A loira e a morena seguiram-na e serviam-na como se fosse uma princesa. Ela não foi habituada a tanto mimo mesmo que as duas mulheres fossem sérias e um pouco grosseiras.
"Há muito tempo que trabalham aqui?" Ela perguntou.
"Praticamente desde o início dos tempos." Disse a mulher que ela aprendeu ser a Linda. A mulher deu-lhe um sorriso que não era nada para além de falso e deixou a Chloe desconfortável.
"Deve ser difícil estar tanto tempo no mesmo sítio. Imagino que não recebem muitos convidados." Chloe diz tentando ser casual.
"Na verdade, não temos muita diversão." Diz rapidamente a mulher mais nova. "O Luci-, quer dizer, o Sr. Morningstar não recebe muita gente desde que…" A loira deu uma cotovelada na morena.
"O que a Ella quer dizer é que o patrão não gosta que o vejam, ele tem um problema… um problema de pele." Ela disse.
"Oh… foi por isso que estava tão escuro? Ele não pode tomar sol? Eu li algo sobre uma doença assim." Chloe diz.
"Sim ele apenas fica nas sombras e é importante não se aproximar demasiado a menos que ele permita."
Chloe concordou, não queria deixar o anfitrião desconfortável, muito menos que ele a expulse para ser comida por lobos.
Uma outra mulher entra no quarto está com uma máscara que lhe cobre parte da cara. "O jantar está servido." A mulher manuseou uma faca curva na mão, Chloe nunca tinha visto nada assim.
"O nome dela é Mazikeen, ela é a mão direita do patrão e guarda pessoal." Diz Ella.
"Prazer! O meu nome é Chloe." Ela estendeu a mão.
Mas a mulher olhou para ela com desconfiança. "Eu sei." Ela foi seca. "O patrão não gosta de esperar." Ela saiu pela porta. Quando Chloe a seguiu admirou-se por já não a ver no corredor.
"Onde ela foi?"
"A Maze é um pouco ninja às vezes." Diz Linda.
Ambas as mulheres a acompanharam para uma sala de jantar enorme. Ela não podia ver toda a sala e era um pouco assustador como a penumbra a envolvia. Apenas um prato se via sobre a mesa e um candelabro com uma vela solitária à sua frente. "Vou jantar sozinha?" Ela perguntou.
"Na verdade, eu já estou aqui minha querida." Ela seguiu o som, olhou para o espaço negro da sala. "Peço que compreenda que prefiro me manter discreto."
"Sim." Ela disse, o problema de pele… claro que ela compreendia. Ela sentou-se no seu lugar designado e começou a sua refeição. O silêncio era mantido, se não fosse o leve toque nos talheres ela diria que estava sozinha.
"Espero que esteja do teu agrado." Ele diz.
"Sim, tudo é muito bom. Nunca poderei agradecer o suficiente." Ela ajeitou o vestido preto, afinal ela deveria fazer o seu luto pela morte do pai.
"Sem agradecimentos amor, é um prazer." Ele diz numa entoação um pouco imprópria.
Ela não lhe queria passar uma ideia errada. Ela não sabia que tipo de maluco Morningstar poderia ser, mas pelo perfil das empregadas/ninjas ela podia imaginar que a solidão poderia deixar uma pessoa ligeiramente demente.
"Quais serão os teus planos futuros?" Ele perguntou.
Ela bebeu um gole de vinho. Ela não tinha pensado nisso. "Eu não sei o que vou fazer. Pela primeira vez estou completamente sozinha."
"Podes passar o tempo que desejares amor. Podes partir a qualquer momento, peço apenas que não seja a meio da noite." Ele diz para a deixar à vontade.
Era aliciante, ela não tinha mais família, ela não tinha onde ir, ela nem sabia se ainda tinha sonhos. Ser atriz ou detetive não fazia mais sentido se não tinha o seu pai ao seu lado. "Diga-me Sr. Morningstar, não precisa de um par de mãos extra? Tenho a certeza que posso ajudar em troca da sua hospitalidade. Eu reparei nas teias de aranha." Ela diz.
Ele ri. "Se assim desejas, tenho a certeza de que terás algo para te manter ocupada. No entanto, não quero que penses nisso como um trabalho. Não temos absolutamente qualquer vínculo, és minha convidada."
Ela concorda. Isso quer dizer que ele a podia expulsar, que o lugar dela sempre seria outro… uma estranha. "Apenas para retribuir o favor, ficaria mais tranquila se ajudar."
"Claro."
Muito obrigado ao novo seguidor e ao Guest por comentar. Ficou sempre feliz por saber que estão a gostar!
