Ela tentou não pensar nele por mais de um quatro de hora, manter-se ocupada não estava a resultar. Quando descia a escada para arrumar mais livros podia sentir o calor dele mesmo sem um único toque. Era como se ele estivesse a respirar no seu pescoço a cada passo. Uma sombra.

"Lucifer." Ela olhou para o capuz. Agora que pensava bem quase que parecia um carrasco ou uma vítima de rapto. "Vais mesmo ficar aí o dia todo? Apenas de pé? Atrás de mim?"

"Eu quero recuperar o tempo que tive afastado." Ele diz.

"Certo." Ela inclina-se sobre a mesa para organizar mais livros. Nesse movimento ela empinou o seu traseiro no ar e o Lucifer como é obvio não se absteve de olhar e gemer baixinho inclinando a cabeça para apreciar melhor. O seu vestido levantando um pouco e revelou os tornozelos. O espetáculo principal era quando ela se empoleirava nas escadas das estantes. O que aquilo fazia com ele… Um limiar que deixou as suas calças ligeiramente mais apertadas.

"Eu posso te passar os livros." Ele diz-lhe.

Ela limpou o suor da testa com as costas da mão. "De certeza?"

"Sim claro." Ela subiu para a escada e esperou que ele lhe estregasse os livros. Ele foi eficiente nesse trabalho e juntos demoraram metade do tempo a organizar todos os títulos.

Apenas faltava limpar o pó do topo da estante. Ela ficou em bicos dos pés no último degrau. Isso quase dando uma visão completa e perfeita nas suas pernas, ela elevou uma das pernas ficando apenas apoiada num dos pés para alcançar toda a área da estante. Inconsciente de todo o show que estava a dar ao Lucifer. O gemido dele foi audível, ela distraiu-se. "O que...? AAH" Ela escorregou no degrau, mas antes que batesse no chão que ela sabia que doeria muito duas mãos estavam na sua cintura e ela estava de pé. Segura e em terra firme. Ela respirou ainda assustada com a sua quase queda. "Muito obrigado."

"Precisas de ter cuidado amor." Ele tocou levemente o seu rosto, o couro das suas luvas suave na sua pele.

Ela concordou. "Já terminamos as estantes de qualquer forma. É quase noite." Chloe diz e olha para o outro lado da sala. Ella está lá em pé apenas a olhar entre os dois com a boca aberta num semi-sorriso. O Lucifer limpou a garganta e retirou a mão da sua cintura.

"Sim eu já terminei esta parte." Ella diz colocando almofadas nos sofás limpos que estavam em frente à lareira igualmente limpa e com lenha nova.

Chloe nem podia acreditar que tinham praticamente terminado, faltariam as janelas, as cortinas e o chão para o dia seguinte. A ajuda de Linda boa parte da tarde também foi preciosa.

"Bem, vou-me trocar." A Chloe desculpa-se e deixa a biblioteca.

O Diabo e Ella ficaram algum tempo em silêncio ouvindo-a afastar. "O olhar dela senhor, ela parecia… tão perfeita perto de ti daquela forma."

"Eu ouvi algo." Linda entra.

"Eles estavam tão perto… eu tenho a certeza de que havia algum sentimento no seu olhar."

"Senhor!"

"Provavelmente é apenas gratidão." Ele diz, mais para si mesmo. A ilusão era uma armadilha cruel.


Chloe já tinha subido para o quarto e se trocado para dormir. Ela olhou-se no espelho de corpo inteiro, a camisa de noite longa e rendada era sem dúvida muito bonita e confortável. Ela penteou o cabelo para remover os nós e sentou-se na cama espaçosa de dossel. Ela ainda se intrigava com toda a qualidade dos objetos daquele palácio. O quarto dela estava incrivelmente limpo desde o dia em que chegou, quase como se a esperassem. Ela ainda não tinha verificado o resto do piso dos quartos, mas o piso inferior parecia o mais antigo e desgastado, quase como se não fosse habitado há anos e elas confirmavam isso. Ninguém entra nesta sala há anos. Agora parte da casa já brilha e ela sente um pouco de orgulho disso, mesmo que seja tão exaustivo. Por fora o palácio tinha um aspeto horrível, mas por dentro ela podia ver a beleza em cada pequeno detalhe.

Quase como por magia ela começou a ouvir música, era baixa e sem dúvida do piso inferior. Ela abriu a porta do quarto e espreitou. O corredor estava escuro como sempre à expectação de uma pequena lamparina perto das escadas. Ela voltou ao quarto. Deveria ir? Ela pegou na sua própria vela e aventurou-se. Ela foi capaz de seguir a luz da escada, desceu e no piso inferior a luz mais forte vinda do bar, a mesma sala que ostentava um piano. Ela parou na porta, vendo o Lucifer tocar uma linda sinfonia. Ela ficou tentada a dizer que a música tinha sido composta por um anjo, mas ela apenas sorriu com o pensamento e a felicidade de se deixar levar um pouco pela melodia.

"Querida!" O Lucifer exclama ao mesmo tempo que pára de tocar.

"Oh… por favor não pares." Ela diz não o querendo interromper.

Ela ouviu o sorriso dele abafado. "Junta-te a mim querida." Ele diz deslizando um pouco no banco, abrindo espaço para ela.

Ela juntou-se a ele. A sala tinha outro chame à luz das velas e dos cristais. Ela não pode deixar de corar. Ela sentou-se ao lado dele e deixou a vela em cima do piano.

"Tocas?" Ele pergunta.

"Não." Ela diz. "Tu tocas muito bem, onde aprendeste?" Ela pergunta.

Ele começou a tocar uma melodia descontraída. "Nasci com vários dons." Ele diz.

Ela olhou para as suas mãos movendo-se sobre as teclas. "Não seria melhor sem luvas? E sem capuz?" Ela quase sussurrou, mas ela sabia que ele ouviu.

"É muito cedo."

"Não tens de ter medo, eu não vou julgar." Ela diz.

Ele quase ri enquanto pára de tocar. "Isso é impossível… é monstr…"

"Monstruoso eu sei, tu disseste, mas… não pode ser tão mau." Ela tocou no braço dele.

Porque ela era tão bonita naquela luz? Porque ela ficava tão bonita com o seu cabelo solto e numa simples camisa de noite de renda e linho? Ele não se podia parar de perguntar. Ele não a merecia, ele sabia.

"Não é tão simples."

"Mostra-me. Deixa-me ser eu a dizer-te o que acho." Ela diz na maneira mais suave que ele já a ouviu falar.

"Eu… fecha os olhos." Ele fica apreensivo, mas ela obedece. "Não abras os olhos nunca, até que eu permita. Promete!"

Ela concordou com a cabeça. "Eu prometo." Ela acrescenta.

Ele tirou o capuz, por um segundo ele ficou em silêncio então pegou a mão dela e levou-a a tocar no seu rosto. "Não abras, apenas sente." Ele diz nervoso e inseguro.

Quando ela tocou pela primeira vez foi estranho para ele. As mãos de alguém sem ser ele. "Dói?" Ela pergunta.

"Não." Então ela começou a explorar por conta própria, tocando a pele crua com uma textura irregular como uma crosta. A mão dela era mais fria do que o seu rosto.

"Quando ficou assim?" Ela quebrou o silêncio e levou a outra mão para o tocar também.

"O meu pai…"

"O teu pai fez isso contigo?" Ela parecia chocada. Ele leu isso no rosto fechado dela.

"Foi um castigo." Ele disse categoricamente.

Então ela tocou na sua testa, não havia cabelo e as irregularidades parecia piores. Ela suspirou. "Não justificaria isto." Ela deslisou as mãos do seu rosto para a camisa.

Ele suspirou e voltou a usar o capuz. As mãos dela ainda estavam no seu peito e os seus olhos fechados.

"Podes abrir os olhos querida."

Ela abriu lentamente. "Lucifer…" Ela não o queria pressionar, as feridas ainda pareciam frescas dentro dele.

"Podes dizer… é… feio…" Ele diz quase envergonhado.

"Não…" Ela abraçou-o, apanhando-o de surpresa. "É apenas diferente Lucifer. Eu não acho menos de ti. Para mim não és feio…és gentil." Ela afastou-se. Agora ela parecia envergonhada e incerta, "É melhor ir para o meu quarto, é tarde."

"Claro. Boa noite amor."

"Boa noite Lucifer."