Dia seguinte
"Não, absolutamente não!" O Lucifer diz pegando a Chloe que estava de joelhos no chão.
"Porque não? Eu já o fiz antes de ontem? Qual é a diferença?"
"Eu não gosto de te ver ajoelhada a limpar o chão… não dessa maneira pelo menos… (ele diz com tom sugestivo) a Ella pode fazer isso sozinha." Ele diz.
Ele tinha acabado de fazer uma referência a um assunto sexual? É melhor esquecer isso. Ela não aceita, foi ela que sugeriu a limpeza… ela deveria fazê-lo para compensar a sua estadia. "Mas eu quero fazê-lo." Ela cai novamente de joelhos e ele puxa-a pelo braço dessa vez obrigando-a ficar de pé.
"Eu disse não." Ele disse baixo, quase num sussurro, mas audível. Como uma ameaça.
Isso não a demoveu. Ela respirou fundo. "Então irei embora." Ela diz num tom idêntico, mas sem o tom de ameaça. Como ela deixou escapar isso? Depois de uma noite tão emocional como a de ontem.
Ele afrouxou o aperto no seu braço, mas não se moveu. "Faz como quiseres, mas proíbo-te de fazer essa tarefa." Ele diz claramente mais exaltado e não desistindo da sua ideia. "É a minha casa! As minhas regras."
Ela engoliu em seco. Porque ele era tão casmurro? Ele esperava que ela fizesse tudo como ele queria. Ela não percebia esse vai e vem de emoções entre eles. Porque ele era tão gentil e meigo e depois tão áspero e ditador? Era quase como se ele fosse duas pessoas ao mesmo tempo. Ela puxou o braço, ele deixou-a ir. Ela estava cansada, ela ainda tinha pesadelos com a morte do pai, ela ainda sofria com a sua perda. E lentamente ela sentia-se a fechar para o mundo. Ela não se sentia como se ele se importasse. As pessoas naquele palácio pareciam desprovidas de qualquer empatia… a sua estadia quase um favor… que ela faz o melhor para retribuir. Ela não acredita que se deixou importar por um estranho que nem mostrou o seu rosto. "Eu claramente não me encaixo aqui."
"Também acho que não!" Ele diz zangado sem pensar duas vezes.
Ela deu um passo atrás. "Eu…" Ela sentiu-se triste com as palavras dele... claro que ela era insignificante para ele. Ela não é ninguém e ele é rico. "Não importa." É a única coisa que ela diz antes de largar o pano e sair da biblioteca.
"Senhor!"
"Cala-te Ella!" Ele bufa. "Porque ela é assim? Ela sempre questiona os meus atos, nunca faz o que eu lhe digo… ela só faz o que quer."
"Ela faz-me lembrar alguém." Linda diz entrando ao ouvir o seu mestre falar. Ela tinha o mesmo fogo que o Lucifer tem.
O Lucifer ignorou-a. "Onde ela foi?"
"Para o quarto dela. Parecia muito chateada e… Como se diz?" Linda estalou os dedos. "Triste." Ela parecia satisfeita com a sua realização. "Ela estava a chorar. Podem ser lágrimas de alegria, mas se discutiram de certeza que é tristeza."
"A chorar?" O Lucifer pergunta. Ele sentia-se culpado. "Eu sempre arruíno tudo… não devia ter dito que ela não pertencia aqui."
"Isso são más notícias. Eu acho que ela irá apreciar se ouvires o que ela tem a dizer. Pedir desculpa." Ela faz uma curta pausa. "Lucifer, perguntaste-lhe sobre o pai dela?"
"Nós falamos, mas ela parecia triste quando falava disso então mudei de assunto." Ele diz.
"Hum… mas dizem que os humanos têm de desabafar, mesmo que seja triste. Ela tem de falar ou então vai explodir."
"Explodir?" O Lucifer perguntou sobressaltado. Ele viu humanos desmembrados por canhões antes, mas nunca viu ninguém a explodir por não falar.
"Não de uma forma literal… é mais fazer coisas loucas e inesperadas." Diz a Linda.
"Então é isso… eu vou falar com ela." Lucifer sai.
Ella e Linda olham uma para a outra. "Ele também não devia guardar tudo dentro dele… ele também se devia abrir um pouco mais para ela." Diz Ella.
"Eles são duas bombas e fazem faísca juntas… ou acabam bem ou teremos uma tragédia."
Ele subiu para o seu próprio quarto. Ele precisava de um pouco de ar antes de ir enfrentar o problema. Ele tirou o capuz e abriu a janela da varanda. Atrás dele a sala brilhava quase como um farol. A estrela que controlava a sua maldição estava atrás dele dentro de uma redoma de cristal.
"Pergunto-me quanto mais tempo terei. Estou cansado." Ele admite para a estrela.
A estrela piscou. O aperto foi instantâneo no coração do Diabo. Ele não o tinha sentido antes, deixou-o fraco, a dor quase insuportável. Ele olhou para a estrela, ainda brilhava, mas ele não imaginou… estava perto… terrivelmente perto e ela tinha tudo menos amor por ele. A esperança que ele tinha estava a ser abalada… quem sabe o que poderia acontecer. Tudo estava nas mãos dele, mas era muito difícil. Cada passo parecia afastá-la mais. Ele estava perdido.
Ele voltou a colocar o capuz. Esperança. Ele viu-a no final do corredor, a colocar o manto sobre os ombros. A roupa dela tinha mudado para a mesma que ela tinha quando ali chegou. Ela ia mesmo embora?
"Chloe!?" Ele aproximou-se. "Onde vais? Não podes partir!" Ele diz.
Ela olhou para ele chateada. "Não podes me manter aqui! Eu não sou tua propriedade." Ela passa por ele e pára, olha por cima do ombro para ele. "Obrigado pela ajuda." Ela diz antes de começar a descer as escadas.
"Chloe!" Ele desce atrás dela. "Chloe não!" Ele pegou o braço dela. "Vamos falar!" Ele diz.
Ela permite, não fazendo esforço para se afastar dele. Ele guiou-os para a sala do bar. "Eu peço desculpa Chloe, não imaginas o quanto me arrependo por ter dito para saíres. Eu não quero que vás embora, eu gosto de te ter aqui. Tudo parece melhor quando estás aqui."
"Isso é verdade?" Ela pergunta.
"Sim, eu nunca minto" Ele diz.
"Porque continuas a agir assim, como se ontem há noite não tivesse acontecido nada?" Ela pergunta.
"Eu não sei o que dizer sobre ontem há noite." Ele diz.
"Tu abriste uma pequena porta para eu entrar, para sentir… mas tu não confias em mim para me deixar ver. Eu acho que nunca irás."
"Eu apenas te estou a tentar proteger Chloe!"
"De quê?"
"De mim! Eu sou o Diabo!" E com isso ele arrancou o capuz da cabeça deixando-a ver a pele vermelha e os olhos brilhantes com o fogo do inferno.
Ela deu um passo atrás com a explosão dele e com a visão que tinha na sua frente. "É verdade…" Ela sussurrou. "Tudo verdade." Ela continuou a afastar-se. "Este tempo todo…" Lágrimas acumularam-se na sua vista, ela mal podia ver. "Eu não posso…" E com isto ela fugiu. Correu para a porta da frente, ele seguiu-a.
"CHLOE! POR FAVOR VOLTA!" Os pássaros, sobretudo corvos levantaram voo com o som do rugido dele. Mas ela não parrou, ela continuou a correr e ele viu-a desaparecer na floresta.
"Senhor!" Os três demónios atrás dele.
"Ela fugiu, ela sabe tudo agora. Ela nunca aceitará, está horrorizada." Ele diz.
Maze agitou a faca. "Eu vou caçá-la e matá-la, não podemos deixar que ela conte a outros humanos."
Ele disparou nesse momento. Agarrou Maze pelo pescoço. "Não vais tocar nela."
"Se não for eu… tu sabes que os Hellhounds serão piores." Maze diz com dificuldade. Ele soltou-a. Ele não pensou naqueles cães do inferno que o querido Pai colocou de guarda.
"Eu tenho de salvá-la." Então ele também correu, o mais rápido que conseguiu até à floresta.
