O luto não é sobre morte. O luto é sobre perda, sofrimento e dor. Muita dor. Imagine que você tem uma filha, e tudo parece lindo. Anos mais tarde, você é surpreendido mais uma vez com a imagem da mulher que você ama carregando um ser no ventre. "Parabéns, papai" ela diz. Tudo parece lindo. A mulher é forte, educada, cuida bem da sua filha e de você. Casados muito jovens por imposição das famílias, vocês descobriram no outro as dores e prazeres que uma vida em par carrega, e ainda assim ela nunca deixou de pensar por você e por ela. Imagine perder essa mulher. Imagine perder a mãe das suas filhas. Aquela que serviu de berço, e por fazer-se berço, teve no parto sua campa. Ela, que vendo na maternidade a luz de sua vida, decidiu deixar este mundo vil e cinza por completar sua missão.
Essa era a vida de Charlie, meu pai. Renee deixou-me com 4 anos de idade, uma irmã chorosa ainda bebê e um pai destroçado.
Muitas pessoas não possuem memórias sobre a infância, e algumas, ainda que as possuam, não lembram de grandes detalhes, mas eu me lembrava de quase tudo. Eu lembrava das noites em que corria para o quarto de Charlie tropeçando pelo corredor, puxando a barra da minha longa camisola branca numa mão enquanto a outra tateava as paredes na busca pelos interruptores que, quando bem sucedida, pintava sombras negras do meu desfile caótico nas paredes. Lembrava de como eu precisava acalmá-lo de longe, para que as angústias de seu pesadelo não fossem aumentadas pelo meu pavor em vê-lo tão desesperado. Em sua agonia, ele debatia-se, por isso a distância. Os gritos estridentes eram clamores para que qualquer intruso de seus sonhos deixasse minha falecida mãe e minha irmã caçula em paz, e eles eram constantes. Eu acordava com gritos de "Deixe Renee em paz" ou "Socorro, levaram Carlie" ou algo parecido.
As crises noturnas começaram logo depois do enterro, e eram muito recorrentes no começo, até que diminuíram de intensidade, e meses depois começaram a se espaçar pelo tempo. Nos anos seguintes, elas só ocorriam em datas comemorativas especiais que pudessem disparar memórias. Ainda assim, meu pai se esforçava para dar-nos o melhor que podia. Em todas as manhãs ele acordava Carlie e eu com beijos. No desjejum, mesmo com o jornal religiosamente em mãos, ele batalhava para dar atenção a nós duas. Nunca nos faltou nada, tínhamos atenção, educação elitizada e luxos dos mais variados.
Quando a Grande Guerra chegou, eu tinha 14 anos e Carlie 10 e, ainda que muito jovens, fomos tomadas pelo medo de Charlie ser chamado, no entanto isso não aconteceu. Charlie possuía uma desordem metabólica que o impedia de realizar certos movimentos com a mão, causado pelo acúmulo de uma substância em seus membros superiores, deixando-o impossibilitado de usar uma arma em campo.
O medo agora era outro: os alemães sobrevoavam a Inglaterra com zepelins. Foram 700 mortos no total, entre eles muitos conhecidos, como Elizabeth Masen, minha professora de inglês, uma viúva com muita classe e intelecto infindável que criava seus filhos sob o olhar iluminista de que a educação seria a salvação do mundo. Sua irmã, Esme, auxiliava-a com as crianças, já que o marido da última, Carlisle, viajava muito em prol de sua profissão. Imagino, hoje, o desgosto de Elizabeth ao notar tamanho avanço das artes e da Ciência deslanchando num conflito armado de escala industrial e mundial; tanto avanço resumido a tristeza e dor. Os órfãos, apesar de muito educados, possuíam a grande habilidade de se meter em encrencas, e quando a convocação para defender a pátria chegou para eles, a imagem tornou-se iconográfica para mim. Sempre que imaginava as lutas, eram imagens deles que inundavam minha cabeça. Anos mais tarde, ao voltar,, foram congratulados por disciplina e coragem com medalhas que decoravam seus peitos por sua performance na Guerra, mas a morte da mãe os destruiu de forma tão profunda que não me surpreendeu vê-los envolvidos em brigas de rua e atividades ilegais. A imagem deles havia passado de "filhos da minha professora" para "problema".
Assim como para os 2 irmãos, a vitória da Tríplice Entente não foi suficiente para trazer paz. Os pubs estavam sempre lotados com homens bêbados tentando esquecer os dias e noites em que se viram enfurnados em trincheiras - nas valas ocorriam as mais diversas atrocidades e eram comuns as amputações realizadas para frear a ação dos vermes que comiam os pés úmidos e sujos, assim como era comum usá-las para abrigar os corpos em decomposição daqueles que deram a vida por seu país. Os funerais eram arranjados aos montes e era muito comum encontrar mulheres vestidas de preto nas ruas, agonizando no luto e na pobreza. A cidade, tomada pela tristeza, foi também tomada pela cocaína e opióides, uma vez que o álcool já não era tão eficaz para lidar com tamanha dor deixada. Aqueles que precisaram de auxílio estatal para se restabelecer após a guerra foram rejeitados pelo governo e, naquela situação, os ex-combatentes, mutilados, mentalmente abalados, perdidos e desolados se viram traídos, cuja única gratificação foram medalhas, que nem ao menos valiosas eram. Mas no capitalismo nada é desperdiçado, e não existe vazio de poder, apenas ninguém por perto para observar quem comanda a cadeia hierárquica. Assim, aquela "mão-de-obra" que lutara nos campos e nas trincheiras foi absorvida, servindo agora como força bruta nas disputas territoriais das famosas gangues, como a Gangue dos Mansen, ou Cullens, como eles agora se chamavam. Os homicídios, as fraudes, a prostituição e as apostas ilegais permeavam meu mundo.
Em 1914, quando eclodiu o grande conflito, o controle estatal das indústrias obrigou a Black Swan a parar a produção de peças automotivas, voltando suas máquinas para a artilharia bélica. Foi dessa forma que nossa amada fonte de renda, e última lembrança de nossa mãe, quase tornou-se nossa ruína. A receita que entrava não comportava os luxos e despesas que tínhamos, e mesmo assim meu pai recusou-se a cortar excessos, e como se isso não bastasse, 1918 e toda sua depressão foram o início dos problemas do meu pai com jogo e dinheiro, que ficaram evidentes com as constantes noites de carteado em nossa casa e as assustadoras ameaças, que começaram apenas com bilhetes mal-educados deixados para meu pai.
Eu já tinha 18 anos quando recebi uma caixa toda ornamentada. Ela parecia ser um presente e me tinha como destinatária, mas seja qual fosse o presente, desconfiei que ele pertencia à lixeira mais próxima pelo forte odor de podre. Ao desembalar me deparei com o cadáver de um pombo. O sangue, há muito seco, já apresentava um único tom de marrom, contrastando com o fundo branco da caixa. Vermes comiam o que sobrara de sua carne enquanto larvas brancas se retorciam ali. Senti o almoço voltar e a bile queimar minhas entranhas. Aquilo era outro patamar alcançado nas ameaças. Significava que Charlie estava com problemas em pagar qualquer dívida que fosse.
"Bella, meu anjo, por que tão pálida? Bella?!". Ainda tentando organizar as peças daquele quebra-cabeça, calculei errado a distância da voz que eu escutava, então tomei um grande susto quando meu pai arrancou a caixa de minhas mãos.
Com 20 anos me tornei redatora do jornal da cidade, e meus instintos investigativos me impulsionaram a observar meu próprio pai mais de perto, mesmo sabendo que ele era muito discreto e sabia cobrir seus rastros. Em uma de suas festas do baralho, ele deixou, por desleixo, a porta do escritório destrancada. Sorrateiramente, escorreguei para dentro do cômodo. Aquela era uma parte da casa que eu não possuía acesso; ela era mantida trancada, o que já era suficiente para instigar minha curiosidade, mas além disso, era ali que Charlie mantia seus acordos e transações secretas.
Na caixa de 2 anos atrás havia um símbolo muito específico, o mesmo que agora eu encontrava em diversos papéis e comprovantes de pagamento. Era, na verdade, um brasão de uma família renomada, os Masen. Não mantinhamos nenhum tipo de negócios com aquela família, já que era sabido em toda cidade que agora eles eram uma gangue.
Aqueles papéis trouxeram-me uma angústia profunda, porque eu já os havia visto em alguns casos no jornal que eu mesma redigia. Eles eram usados para pagar gangues. Charlie, o ser bondoso e íntegro que me criara tão bem, envolvido com gangues.
Não demorou muito até que outro presentinho com cheiro forte pousasse na minha porta, desta vez endereçado para Carlie.
Aquele episódio gerou uma das piores brigas que já tive com meu pai. Ela tinha apenas 16 anos, meu Deus! Como ele podia ser tão egoísta? Era claro que envolver-se com gangues traria problemas não só pra ele. Estúpido! Certamente meus gritos daquela noite poderiam derrubar qualquer zepelim alemão que chegasse perto. Eu chorei. Ele também. Eu me deitei, e ele deitou-se sobre o líquido caramelo ao qual se entregava todas as noites que seguiram após do evento do meu admirador macabro.
Na manhã seguinte, outro admirador. E novamente em 1 semana, com a diferença que agora nosso admirador havia perdido sua classe. O pobre animal agora era um rato vivo embrulhado em jornal, enfiado dentro de uma bolsa de tecido trançado feito a mão. Não parecia ser direcionado a alguém. Notei o jornal, Daily Mail, jornal conservador que fazia oposição àquele em que eu trabalhava, The Times.
Por mais um mês, tivemos paz. Sem grandes embrulhos, sem animais e sem morte ou desgraças. Até o desaparecimento de Carlie.
Eu não tinha palavras pra descrever o desespero. Eu chorava copiosamente, pedindo aos céus que minha irmã voltasse, e tudo que eu podia pensar era como eu desejava ser capaz de voltar o tempo. A dor me consumiu, sem deixar que eu tivesse paz por um dia inteiro e enquanto eu não possuía descanso, não deixei que mais ninguém tivesse. Todos os meus colegas e contatos dentro e fora da cidade foram notificados do desaparecimento. A polícia já havia fartado-se de escutar o som dos meus saltos pelos corredores e eu já não me importava em quão desgrenhada eu andava na rua. Era minha agonia, e eu tinha direito de senti-la.
Charlie, talvez consumido pelo álcool, não havia sequer desistido de procurá-la, já que nem ao menos se propôs ao trabalho da procura. Não nos falávamos tinha alguns dias.
Naquela manhã eu havia decidido perdoá-lo; não aguentava mais vê-lo sofrer. Sempre pensei em Charlie como um espírito livre e alegre; um passarinho amarelo. Mesmo na morte de Renee, mesmo no desaparecimento de Carlie, mesmo ébrio, por maior que fosse a dor, ele sempre possuía um sorriso a oferecer ou um carinho pra dar, e eu acreditava que era porque sua alma fora límpida pelo amor que sentia por nós e pela vida. Por ter aproveitado todo e qualquer tempo que tivesse com as pessoas que amava, ele era grato, e por ser grato, ele era livre. Livre de orgulho, de birras e de entraves. Ele fazia o que o fazia bem. Aquele era meu momento de fazer o que me fazia bem. Naquele dia eu fiz o café da manhã dele, porque essa era minha forma de demonstrar carinho. Ele comeu, agradeceu e me deu um beijo na bochecha dizendo que sairia pra resolver negócios. "Eu amo você minha filha, e eu sei que você se preocupa com Carlie, mas ela está bem". Questionado sobre como ele podia ter tanta certeza, ele respondeu apenas que "Todo pai sabe quando seu filho está bem ou não".
Ele cruzou a sala, em direção ao hall de entrada da casa. Era muita tranquilidade para alguém cuja filha desaparecera. Mas eu estava no meu momento de perdão.
Aquela fora a última vez que eu vira Charlie com um sorriso no rosto. Eu o veria novamente pálido e gelado, coberto de lama vermelha e terra. Sem cor, sem brilho, sem vida. Sua mão, já marcada por livor mortis, segurava duas moedas douradas.
Eu cuidei dos arranjos fúnebres e em uma semana meu pai descansava deitado na terra, enquanto eu agonizava deitada em minha cama. Meu passarinho amarelo, que nos últimos dias havia sido pintado de preto pelas dores e dissabores pelas quais passava, agora era livre em seu tom amarelo. Ele encontraria minha mãe, onde quer que ela estivesse. Restava agora na grande casa eu e as moedas douradas. Moedas ciganas douradas que chamaram a minha atenção. Por que Charlie segurava moedas douradas enquanto sua alma era roubada de seu corpo e de mim?
