3. Histórias
Ângelo foi para a escola pensando na conversa que tivera com Mu na noite anterior antes de irem dormir.
‒ Você veio me perguntar sobre o Shaka, não é? – Disse Mu, sentado na cama.
‒ Se não for me intrometer demais nos seus assuntos...
‒ Não, tudo bem. Senta aí que eu te conto.
Ângelo sentou na cama ao lado do primo, que começou a falar:
‒ O Shaka era... – Ele pareceu meio sem jeito. – Ele era meu namorado.
‒ Seu o quê?
‒ Isso mesmo, meu namorado.
Mu riu da cara de espanto de Ângelo e continuou:
‒ Ele se mudou para cá quando eu tinha 13 anos, morava no prédio da frente e o quarto dele ficava exatamente de frente para o meu. Passamos a estudar juntos e nos tornamos melhores amigos. Quando tínhamos 15 anos, percebemos que essa amizade tinha deixado de ser só uma amizade para ser amor. Estávamos apaixonados um pelo outro.
‒ Isso é estranho.
‒ No início nós também achamos, mas aí já não conseguíamos viver sem o outro. Então eles apareceram.
O semblante dele ficou sério.
‒ Aqueles garotos, Io e os capangas dele, descobriram que eu e Shaka éramos mais que amigos e passaram a nos perseguir. Eu, que sempre fui introvertido, nunca reagi, mas Shaka não deixava que eles nos incomodassem demais.
‒ Eles brigavam?
Mu riu.
‒ Não, Shaka era um cavalheiro. Resolvia as coisas do jeito dele, sem sair no braço. Até Alberich, que era considerado aluno-modelo na época, foi suspenso por causa do meu namorado. Foi assim até o mês passado.
‒ O que aconteceu?
O garoto abaixou a cabeça, com os olhos fechados. Parecia estar buscando coragem para dizer.
‒ Shaka... Foi encontrado morto na beira da estrada. – Algumas lágrimas escorreram pelo rosto dele. – Foi o começo das mortes estranhas que estão acontecendo agora. Ele estava com os pais, todos morreram naquele dia. Foram encontrados na floresta na beira da estrada com as gargantas cortadas. – Ele terminou de falar com a voz um pouco embargada.
Ângelo colocou a mão no ombro do primo, numa tentativa de confortá-lo. Mu deu um sorriso triste.
‒ Obrigado. – Disse com a voz baixa. – É... É melhor irmos dormir, não?
‒ Certo.
Antes que ele saísse do quarto, Mu falou:
‒ Aquele telescópio... Foi o último presente de aniversário que Shaka me deu.
Ângelo ficou pensando naquilo o resto da noite. Ainda achava meio estranho o fato de Mu ter namorado um garoto, mas sentia pena do primo por causa do fim trágico de seu romance. Apesar de tudo, Mu ainda mantinha uma aparência de que estava tudo bem. A tristeza e o vazio causados pela perda de Shaka ainda estavam lá, mas ele os escondia. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz do primo.
‒ Ângelo, parece que aconteceu alguma coisa.
Ele olhou para a porta da escola e viu algumas viaturas policiais paradas. Várias pessoas da imprensa também estavam ali. Ele imaginava o que teria acontecido quando os alunos foram chamados ao auditório e, lá, foram informados de que as aulas do dia seriam canceladas devido ao assassinato da professora de literatura, Hilda. Depois desse aviso, foram mandados para casa com várias recomendações de cuidado. Ainda não tinham pistas do assassino.
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Dohko Chiang chegou na escola local pronto para colher o máximo de informações possíveis. Tinha acabado de se tornar investigador e seu chefe logo o mandara para esse caso, dos assassinatos estranhos naquela pequena cidade. Não entendia como não havia nenhum suspeito àquela altura. Com certeza o investigador anterior deveria ter deixado passar algum detalhe.
Não era por acaso que Dohko fora chamado para susbstituir o cargo de investigador principal daquele caso, mostrara sua competência na polícia da capital solucionando casos que muitas vezes pareciam impossíveis. Chinês, criado na Suécia desde a adolescência, lutara para entrar na corporação e mostrar seu valor. Agora, havia esse caso.
Após saber que os assassinatos vinham ocorrendo há dois meses e sempre com as mesmas características, ele cogitou a idéia de um serial killer, mas precisava de mais informações. Entrevistou alguns professores da escola para saber dos hábitos da professora Hilda, seus conhecidos na cidade, com quem costumava conversar, com quem saía, entre outros dados. Depois, ia pesquisar sobre os outros casos e buscar as pistas que seu antecessor não conseguiu encontrar. Resolveu começar do início, pesquisando os primeiros casos.
oOoOo
O assunto mais comentado no condomínio era a morte da professora. Os gêmeos conversaram com Shion durante tanto tempo, discutindo a notícia, que Shion acabou se atrasando para preparar o jantar. Ângelo aproveitou o tempo extra para passar um tempo do lado de fora. Não demorou muito para que Afrodite se juntasse a ele.
‒ Parece que hoje eu cheguei primeiro. – Disse Ângelo.
‒ Ainda não cansou de procurar por mim?
‒ Não.
Afrodite passou por ele e sentou em seu balanço de costume.
‒ Acho que posso esperar algumas perguntas, não?
Ele riu e ocupou o outro balanço.
‒ E eu posso fazer essas perguntas?
‒ Poder, pode. Só não te dou certeza de que vou responder tudo o que você quiser.
O italiano pensou um pouco antes de dizer:
‒ Por que está sempre descalça? Não sente frio quando pisa na neve desse jeito?
‒ Descalça? – Estranhou o termo. – Ah, você ainda acha que sou uma garota, não é?
‒ E você não é?
‒ Não. Já lhe disse isso, não se lembra?
‒ Sim, mas... Eu não entendi o que você quis dizer.
Ângelo apenas olhava, confuso, para Afrodite, que parecia se divertir com a dúvida do outro.
‒ É isso mesmo que você pensou. Eu não sou uma garota, literalmente. Eu sou um garoto.
Ele arregalou os olhos. Como era possível que aquela criatura tão bela fosse um garoto? Então, começou a rir.
‒ O que foi?
‒ Certo, pare de tentar me fazer de idiota.
‒ Eu estou falando sério. Quer que eu te mostre?
Ele parou de rir.
‒ Não precisa, acredito em você.
‒ Mudou de opinião rápido, não?
‒ Que seja. – Resmungou. – Agora me explique como consegue andar descalço nessa neve.
Afrodite olhou para os próprios pés, que roçavam a neve.
‒ Não estou com frio. Só isso.
Ângelo entendeu que ele não diria mais que isso e resolveu mudar o assunto, mas o garoto loiro falou antes que ele pudesse dizer alguma coisa.
‒ Eu disse meu nome, mas não me lembro de você ter dito o seu.
‒ Me chame de DeathMask.
Foi a vez de Afrodite rir.
‒ Isso é seu nome?
‒ É claro que não, é meu apelido.
‒ E não vai me dizer qual é o seu nome?
‒ Vou, mas... Acho que prefiro que você me chame pelo apelido.
‒ Por quê?
‒ Soa melhor vindo de você.
Afrodite revirou os olhos, mas assentiu.
‒ Meu nome é Ângelo. Pronto.
O loiro riu mais uma vez.
‒ Nossa, achei que fosse alguma coisa esdrúxula. De fato, é um belo nome.
‒ Eu sei, mas acho esse apelido mais estiloso. E, dependendo de quem me chama por ele, chega a soar sexy.
‒ Também acho. – Disse Afrodite, estendendo a mão para o rosto de Ângelo.
Quando ele o tocou, Ângelo percebeu como a mão dele era fria.
E ele diz que não está com frio. Qual é a desse garoto? Ele é estranho, mas é tão bonito...
Seus pensamentos foram interrompidos por Mu, que o chamou pela janela de seu quarto para avisar que o jantar estava pronto.
‒ Posso te ver amanhã? – Perguntou Ângelo antes de entrar.
‒ Talvez.
Ele sorriu para o italiano e viu retribuir antes de entrar. Ficou ali fora durante mais algumas horas até outra pessoa sair do prédio.
‒ Não vai entrar?
Afrodite se levantou do balanço e foi até o homem, mas não precisou andar muito, pois ele também saiu na direção do rapaz.
‒ Está cedo.
‒ Você não costumava passar tanto tempo aqui fora.
Afrodite pareceu se irritar.
‒ E você não costumava se afastar tanto assim de mim! Desde quando voltou a se preocupar comigo, Shura?
O mais velho o puxou pelo braço e o abraçou.
‒ Eu sempre me preocupei com você e você sabe disso. Eu te amo.
‒ Eu também te amo, Shura. – Ele disse, abraçando-o mais forte. ‒ Não se afaste de mim, por favor.
Shura passou a mão pelo rosto pálido de Afrodite, seus olhos castanhos fixando os belos olhos azuis.
‒ Vem. Vamos entrar.
oOoOo
Ângelo voltou ao playground mais tarde, mas não viu nem sinal de Afrodite. Olhou para as janelas do apartamento ao lado do seu, mas não dava para perceber nada vindo de lá. Quando voltou ao seu quarto, Mu foi falar com ele.
‒ Você está interessado naquela garota? – Disse depois de sentar na cama do primo.
‒ Você é meio direto, não?
Mu riu.
‒ Você não é o primeiro a me dizer isso, mas só sou direto assim com pessoas próximas. Agora, vai me responder ou não?
‒ Ok, seu mala sem alça. Não sei.
‒ Como assim?
‒ Não sei, não sei mesmo. Ela é atraente. – Ângelo não tinha coragem de dizer que era, na verdade, um garoto. – Mas não sei se posso dizer que estou interessado nela.
‒ Se eu fosse você, tomava cuidado. Acho ela meio estranha.
‒ Também acho, mas... Ah, Mu, não sei.
‒ Tem alguma coisa que você saiba?
Ângelo jogou um travesseiro no outro, que saiu do quarto depois de dizer boa noite.
Já deitado na cama, o italiano se lembrou de uma coisa: a parede do seu quarto era a que dava para o apartamento do lado. Ele chegou mais perto para tentar ouvir alguma coisa, mas não ouviu nada além de alguém rindo ou coisa parecida. Só conseguiu dormir bem mais tarde.
