4. Encontro
Mu tentou arrancar mais informações de Ângelo sobre a vizinha misteriosa, mas ele não falava muito, apenas o necessário. Na aula, dava a desculpa de que estava prestando atenção para não ter que responder mais alguma pergunta.
‒ Eu sei que você está viajando na maionese aí e não prestando atenção na aula. Será que dá pra me responder?
‒ Que saco, Mu. Ok, ok. Eu não a vi novamente desde aquele dia que eu conversei sobre isso com você. Não sei por que ela não aparece mais.
‒ Vai ver aconteceu alguma coisa. Você consegue escutar alguma coisa do outro lado da parede?
‒ Já tentei, mas não dá pra ouvir muita coisa. Outro dia ouvi risos, no outro ouvi o que parecia uma discussão. Não dá par saber o que está acontecendo lá dentro.
Mu não ficou pensando muito nisso, apesar da sua curiosidade. Os dois garotos acompanharam o resto da turma para a aula de educação física, onde a professora Marin os aguardava.
‒ Venham comigo até o outro ginásio. – Ela chamava os alunos. – Hoje vamos ter aula na piscina.
‒ Droga. – Murmurou Ângelo.
‒ O que foi?
‒ Nada não, Mu.
‒ Pode falar.
Ele hesitou antes de dizer:
‒ Tá... É que eu não sei nadar.
‒ Não sabe?
‒ Não, não sei e nunca tive paciência pra aprender. Só não saia espalhando isso por aí.
‒ Ok.
Enquando o resto dos alunos, incluindo Mu, acompanharam a professora na piscina, Ângelo ficou sentado na arquibancada observando, já que Marin não fez muitas perguntas. No final da aula, os dois primos saíam do vestiário quando o grupo de Io apareceu na frente deles.
‒ Estava demorando pra vocês aparecerem hoje. – Disse Ângelo, com um sorriso irônico.
‒ Não enche, carcamano. Eu tava doido pra te dar uns caldos hoje, mas você não entrou na água. Por acaso é feito de açúcar?
‒ Não é da sua conta. Agora é melhor sair da minha frente se não quiser perder um dente ou dois.
Io apenas observou os dois se afastarem anets de se virar para os outros.
‒ Qual é a desse italiano maldito?
‒ Parece que você achou alguém que tem coragem de te encarar, Io. – Disse Alberich.
‒ Esse cara me irrita.
‒ Me irrita também. – Disse Isaak. – Escuta... Acho que ele não sabe nadar.
‒ Por que você acha isso, espertinho?
‒ Porque ele não parece estar resfriado e não vejo outro motivo para um garoto ficar fora da piscina. Se fosse uma garota, tudo bem.
‒ Finalmente você disse alguma coisa que faz sentido, Isaak. Parece que descobrimos o ponto fraco do carcamano.
O rapaz de cabelo rosa sorriu maldosamente para os amigos após dizer isso.
oOoOo
Dohko chegou no pequeno condomínio no meio da manhã. De acordo com suas fontes, uma das primeiras vítimas morava ali, em um daqueles prédios. Bateu em um apartamento para tentar conseguir mais alguma coisa e foi recebido por Saga.
‒ Sim?
‒ Bom dia. Eu sou o oficial Dohko Chiang, estou investigando o caso dos assassinatos nessa cidade.
‒ Bom dia, oficial. Deve estar à procura de informações, não?
‒ Correto. Se puder me ajudar, agradeço. Como é seu nome?
‒ Saga Halkias. Moro aqui com meu irmão gêmeo, Kanon.
Dohko olhou em volta antes de perguntar:
‒ Já viu alguma atividade suspeita pelas redondezas?
‒ Infelizmente, não.
‒ E seus vizinhos, sabe de alguma coisa?
‒ Não, não tenho muito contato com eles, exceto Shion, que mora no 22b. Ele cria o irmão mais novo sozinho, então às vezes eu ajudo. Atualmente ele também cuida de um primo italiano.
‒ Certo. – Disse Dohko, enquanto fazia algumas anotações.
‒ Eu sei também que o irmão mais novo do Shion era muito amigo do garoto que morreu, que morava no 42b, um andar acima do meu.
O investigador anotou também essa informação e colocou um lembrete ao lado para não se esquecer de falar com o tal Shion.
‒ Esse homem de quem me falou, Shion, está em casa agora?
‒ Não, ele trabalha o dia inteiro. O irmão dele fica em casa com o primo à tarde, quando voltam da escola.
‒ Certo. Entrarei em contato com Shion à noite. Obrigado pelas informações.
Dohko saiu dali e seguiu para bater nos outros apartamentos e entrevistar os moradores, pensando em voltar mais tarde. Seria fora do horário normal, mas ele precisava falar com todos os moradores. Ele não sabia por que, mas tinha um estranho pressentimento quanto àquele condomínio.
oOoOo
Mu e Ângelo estavam jogando um jogo de tabuleiro quando Shion chegou em casa à tardinha.
‒ Ei, garotos, aprontaram alguma coisa hoje?
‒ Nada, mano. – Disse Mu. – Só arrumamos a casa e agora estamos jogando.
‒ E a escola? Ângelo está se adaptando bem?
‒ Estou, obrigado. Mu está me ajudando bastante.
‒ Estou vendo. – Shion sorriu e colocou seu casaco no gancho atrás da porta.
Nesse momento, ele olhou para o chão e viu um papel dobrado com algo escrito.
‒ Meninos, esse papel é de vocês?
Os dois pararam o jogo e Mu foi ver o que era. Voltou com o papel, entregando-o ao primo.
‒ Acho que é para você.
Ângelo pegou e viu seu apelido em um pedaço de papel rasgado e dobrado que, quando ele abriu, leu: Me encontre amanhã, depois do anoitecer. Ele dobrou novamente o bilhete depois de ler e guardou no bolso, fazendo um sinal de positivo para Mu. Foi então que ouviram a campainha tocar e Shion, como estava mais próximo da porta, foi atender.
‒ Pois não?
‒ Boa noite, o senhor deve ser o senhor Shion Ahlman, estou certo?
‒ Sim, sou eu.
‒ Eu sou o oficial Dohko Chiang, estou investigando o caso dos assassinatos da região e coletando informações. Posso dar uma palavrinha com o senhor?
‒ Claro. – Ele se virou para os garotos. – Meninos, acho melhor vocês irem para o quarto.
Os dois recolheram o jogo e foram para o quarto de Mu enquanto Shion conversava na sala com o investigador.
‒ Sabe, já era hora mesmo de mandarem alguém investigar esse caso de perto. – Disse Mu.
‒ Pois é. Será que vão descobrir o assassino?
‒ Não sei, mas quanto mais cedo descobrirem, melhor. Agora, mudando de assunto, o que era aquele bilhete?
‒ Deixa de ser curioso, Mu.
Mu riu e cutucou as costelas de Ângelo.
‒ AI!
‒ Era daquela garota, não era?
‒ Pra que quer saber? AI, não cutuca!
‒ Conta, vai...
‒ Tá, era sim. Aqui. – Vencido pela curiosidade do primo, o italiano entregou o papel dobrado.
Mu leu rapidamente e devolveu.
‒ E aí?
‒ E aí o que?
‒ Você vai?
‒ Não sei.
‒ É melhor decidir rápido, o sol acabou de se por. Ela disse depois do anoitecer, não foi?
‒ Sim, mas...
‒ Oras, vá colocar uma roupa decente e vá ver o que ela quer.
‒ Certo.
Ângelo ficava impressionado com Mu. Como aquele garoto alegre e espontâneo se transformava em outro, tímido e introvertido, na escola. Talvez pelo fato de considerar o outro quase um irmão, já que agora moravam juntos. Nem fazia tanto tempo e o italiano já se sentia da família. Ele resolveu então seguir o conselho do primo e ir ao encontro de Afrodite, que ele ainda não contara a Mu sobre não ser uma garota.
Quando chegou na sala, Shion estava fechando a porta da rua. Pelo visto o investigador tinha acabado de sair.
‒ Não precisa trancar, estou saindo.
‒ E vai aonde?
‒ Encontrar um amigo.
‒ Certo. Tome cuidado e não volte tarde, entendeu?
‒ Ok.
Ele desceu as escadas mais rápido do que gostaria e viu que Afrodite já estava sentado no balanço de costume. O belo loiro se virou quando ele saiu do prédio e sorriu.
‒ Achei que não vinha.
‒ Pensei um bocado sobre isso. Por que me chamou?
‒ Não sei. Achei divertido conversar com você.
Ângelo sorriu. Ao se aproximar mais, viu que hoje o garoto estava usando botas.
‒ Belas botas.
‒ Obrigado.
‒ Escuta... Quer dar uma volta? Meu primo me mostrou uns lugares legais por aqui.
Afrodite olhou para as janelas de seu apartamento e depois para o italiano.
‒ Pode ser.
Ângelo estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar e, quando segurou a mão do outro, percebeu que ela estava bem fria.
‒ Sua mão é gelada.
Afrodite soltou a mão rapidamente.
‒ Desculpe.
‒ Por que não usa luvas?
O loiro apenas deu de ombros e respondeu:
‒ Não estou com frio. E então, onde vai me levar?
Como estava cedo, Ângelo tinha permissão para andar pelas redondezas e Mu tinha lhe mostrado alguns lugares interessantes enquanto voltavam juntos da escola. Um desses lugares era uma lanchonete próxima ao condomínio, que tinha algumas máquinas de fliperama e, segundo Mu, servia bons sanduíches. O italiano comprou algumas fichas e foi até uma das máquinas.
‒ Sabe jogar? – Ele perguntou a Afrodite.
‒ Acredita que nunca tentei?
‒ Tenta.
Afrodite jogava realmente mal. Ângelo não se conteve e começou a rir.
‒ O que foi?
‒ Nada, é que você é engraçado quando joga. Parece que não sabe o que está fazendo.
O outro também riu.
‒ Então por que não me ensina os comandos, Mask? Vamos ver quem vai rir por último.
Ângelo ensinou cada comando para Afrodite antes de colocar outra ficha na máquina e ficou surpreso com a velocidade com que o loiro movimentava os botões de controle, repetindo os movimentos exatamente como ele havia ensinado e se viu derrotado ao final da partida.
‒ Mas o que...
‒ Eu aprendo com facilidade.
Os dois riram juntos. Ângelo percebeu o quanto Afrodite era bonito quando sorria daquele jeito. Mesmo ele sendo um garoto, tinha certeza de que estava gostando dele.
‒ Quer comer alguma coisa?
‒ Comer? – O sueco pareceu apreensivo.
‒ É. Meu primo disse que a comida daqui é boa.
‒ Acho melhor não.
‒ O que foi, está de regime ou é vegetariano?
Ele não respondeu, apenas acenou negativamente com a cabeça.
‒ Certo, então vou só comprar um doce e vamos para casa.
‒ Ok.
Ângelo escolheu um dos doces no balcão e voltou para saírem juntos. No caminho, ele estendeu um pedaço do doce.
‒ Aqui. Pode pegar.
‒ Obrigado, mas...
‒ É só um pedaço, que mal pode fazer?
Afrodite pensou um pouco e acabou aceitando.
‒ É, isso é bom. – Disse depois de comer.
‒ Eu não disse? Se quiser mais, pode me falar.
Ângelo olhou para o lado e percebeu que o outro parara de andar. Olhou para trás e viu que ele estava com uma cara estranha.
‒ Afrodite? O que houve?
Foi até ele e colocou a mão em seu ombro. O loiro rapidamente se virou para o outro lado e vomitou.
‒ Afrodite! O que você tem?
‒ Não... Não é nada, Mask... – Disse ele com a voz fraca. – Não se preocupe. É só que... Eu não posso comer essas coisas.
‒ Eu não deveria ter te oferecido...
‒ Não, tudo bem. Estava gostoso. Eu é que não podia ter aceitado, então não se culpe. Vem. – Ele estendeu a mão para o italiano. – Vamos para casa.
Ângelo aceitou a mão fria de Afrodite e foram caminhando juntos para casa.
oOoOo
O espanhol subiu em sua moto depois de amarrar o galão na garupa. A vítima da vez fora um jovem desavisado que saíra para trocar um pneu na estrada. Sua armadilha não costumava falhar e ele podia conseguir sangue fresco quando precisasse. Shura fazia qualquer coisa por Afrodite.
Deu a partida e saiu rapidamente dali. Precisava chegar em casa o mais rápido possível e não se preocupava em acelerar um pouco mais a moto. Ainda que usasse roupas quentes, podia sentir o vento frio da região. Frio como ele, literalmente. Shura se distraiu pensando em seu belo garoto e não viu que se aproximava de uma barreira policial na estrada. Quando viu, ainda estava longe o suficiente, mas estava muito rápido.
‒ Mierda!
Ele diminuiu a velocidade e jogou a moto para fora da estrada, no meio das árvores. Se tivesse freado bruscamente, a queda teria sido muito pior, ele pensou enquanto tirava o capacete para observar os estragos. Teria que trocar uma roda que amassara e consertar a direção, mas, fora isso, não tivera muitos estragos. Se levantou para tentar voltar para casa e sentiu a perna esquerda doer.
‒ Ótimo, só me faltava essa.
Quando levantou a moto, viu que estava faltando alguma coisa. O galão que estava na garupa rolara em direção a uma árvore e agora seu conteúdo estava espalhado pelo chão.
‒ Droga! Afrodite vai me matar.
