5. Comida
Afrodite chegou em casa e viu que Shura já estava lá, sentado no sofá como se estivesse esperando por ele. O espanhol se levantou para recebê-lo e o rapaz notou que ele estava mancando.
‒ O que houve, Shura? Você está bem?
‒ Estou bem, não se preocupe. – Disse, abraçando-o. – Onde você estava?
‒ Eu saí com um amigo.
Shura se afastou, colocando as mãos nos ombros do outro.
‒ Estava com aquele rapaz outra vez?
Afrodite se afastou um pouco.
‒ Não comece com crise de ciúmes, Shura. Somos apenas amigos, só isso.
O espanhol voltou a se sentar no sofá.
‒ Estou ficando velho, Afrodite. Não sou mais aquele Shura de quando nos conhecemos, é normal você começar a... Começar a se interessar por outro.
O sueco se sentou no sofá e passou os braços em volta de Shura.
‒ Não estou interessado nele. É você quem eu amo.
Shura sentiu as mãos frias de Afrodite em seu rosto e logo seus lábios estavam colados nos dele. O loiro foi levemente empurrado para que se deitasse no sofá e puxou o espanhol para mais junto de si.
‒ Shura... – Ele sussurrou em seu ouvido. – Eu quero você. Agora!
oOoOo
Ângelo não conseguia parar de pensar no encontro que tivera com Afrodite. Não que ele tivesse considerado realmente um encontro, já que não rolou nada demais entre os dois, mas ele estava se interessando cada vez mais naquele belo garoto. Estava olhando pela janela da sala de aula quando Mu estalou os dedos na frente de seu rosto.
‒ Ei, viajante. Terra para Ângelo. Vamos, é hora do intervalo e eu estou com fome.
‒ Eu também. Vamos logo.
‒ Aposto que estava pensando naquela garota. Estou certo?
Ângelo ficava impressionado em como Mu conseguia ser insistente quando queria.
‒ Vocês saíram ontem à noite, não saíram?
‒ Saímos. Mas não rolou nada, nem precisa me olhar com essa cara.
‒ Certo, agora vamos comer.
Enquanto comiam no refeitório, o italiano reparou no grupo de Io, que passou encarando os dois garotos. Ângelo lançou-lhes um olhar nada amigável e eles passaram direto.
‒ Gosto do jeito que você intimida esses valentões. Como consegue?
‒ Experiência. Na Itália ninguém mexia comigo.
‒ Eu gostaria que esses caras parassem de mexer comigo.
‒ Você precisa aprender a se defender.
‒ Como? Eu não sou forte e nem tenho essa sua personalidade.
‒ Não sei, mas vou pensar nisso. Não seria bom você ficar sempre dependendo de mim.
Mu concordou e começou a imaginar o que seu primo faria para que ele deixasse de ser um alvo fácil, apesar de que preferia o modo de Shaka para lidar com aquilo. Enquanto Ângelo gostava de partir para a briga física, Shaka preferia ser indireto. Infelizmente, seu namorado já não vivia mais, então só cabia a Mu confiar no primo.
O restante das aulas transcorreu normalmente e os dois voltavam para casa à pé depois do horário escolar. Aproveitavam para conversar durante o percurso. Mu tentava fazer Ângelo contar mais sobre a garota do apartamento do lado e o italiano tentava mudar de assunto.
‒ Droga, Mask, você sabe que pode me contar as coisas. – Pela proximidade entre os dois, o garoto começara a usar o apelido do primo. – Eu não comento com meu irmão.
‒ Ah, Mu, eu sei, mas é que eu ainda não estou certo sobre isso. Como é que eu vou comentar com outra pessoa uma coisa sobre a qual nem eu mesmo tenho certeza?
‒ Experimente me contar suas suposições, então.
Ângelo pensou um pouco antes de dizer.
‒ Ela não é... Uma garota.
‒ Como assim?
‒ É isso mesmo que você ouviu. Ela, na verdade, é ele.
‒ Não precisa tirar com a minha cara só porque eu to insistindo pra você conversar comigo sobre isso.
‒ Olha, eu também achei que ele estava tirando com a minha cara, mas é verdade.
‒ Você viu...?
‒ O quê? É claro que não. Preferi acreditar nele.
‒ Ok. Essa foi bizarra.
‒ Você não imagina o quanto.
Ainda estavam conversando quando chegaram ao condomínio. Quando chegaram à porta do apartamento, viram o investigador que tinha conversado com Shion na noite passada tocando a campainha do apartamento do lado. Ângelo e Mu entraram no apartamento, mas colaram os ouvidos na porta para tentar ouvir alguma coisa. Pelo visto o apartamento estava vazio, pois eles ouviram a campainha ser tocada várias vezes e nenhuma resposta. Os dois deram um pulo de susto quando ouviram a campainha do próprio apartamento tocar. Ângelo correu para o sofá e ligou a TV enquanto Mu atendia a porta.
‒ Sim?
‒ Com licença. Sou o investigador Dohko Chiang, conversei com seu irmão ontem à noite. – Disse ele, mostrando o distintivo. – Pode me dizer quando posso encontrar o morador do 22c?
‒ Não sei, senhor. É um espanhol que mora aí, mas raramente o vejo.
‒ Certo. Voltarei mais tarde para tentar mais uma vez. Obrigado.
Mu fechou a porta após Dohko sair e se juntou a Mask no sofá.
‒ Que estranho não ter ninguém em casa, não acha?
‒ Agora que você falou, também achei estranho. Vou comentar isso com Afrodite se eu o vir essa noite.
‒ Afrodite?
‒ Eu não tinha dito o nome dele para você?
‒ Não. Que nome estranho para um garoto.
‒ Também acho. Mas é bonito, combina com ele.
‒ Mask...
‒ Que foi?
‒ Você está interessado por um garoto?
‒ Ora, Mu... Eu não... Eu só...
Mu deu uns tapinhas no ombro do primo.
‒ Tudo bem. Eu te entendo. Não vou comentar isso com outras pessoas.
‒ Grazie.
‒ O quê?
‒ Eu disse obrigado, em italiano.
‒ Ah, ta.
oOoOo
Dohko saiu do condomínio pensando no que o garoto do apartamento 22b tinha dito. Um espanhol morando ali? Ele não tinha encontrado registros de estrangeiros morando na região quando começou as investigações. Tinha alguma coisa estranha ali e ele ia investigar mais a fundo.
oOoOo
Ângelo estava no quarto, terminando de copiar os deveres de Mu para o dia seguinte quando ouviu alguma coisa se espatifar contra a parede do outro lado. Ele largou os cadernos na cama e encostou a orelha na parede. Ouviu vozes alteradas no apartamento do lado. O italiano não conseguia distinguir com clareza o que diziam, mas tinha certeza que era uma discussão. Uma porta bateu com força e as pessoas se calaram. Ângelo saiu de perto da parede e ia voltar para os cadernos, mas uma olhada pela janela o fez desistir de terminar as tarefas no momento. Afrodite estava sentado no balanço de sempre, descalço, olhando para o chão. O italiano saiu do quarto e deu de cara com Mu.
‒ Já posso pegar meu caderno?
‒ Já. Amanhã eu termino.
‒ Achei que você ia fazer isso hoje.
‒ Vou dar uma saída. Diz pro Shion que eu volto pro jantar.
Mu deu um sorrisinho.
‒ Ok, vai fundo. Já até sei o que você vai afzer.
‒ Não enche. Até mais.
Ângelo saiu e foi até o playground. Afrodite ainda estava lá, mas parecia diferente. Ele estava mais pálido e os cabelos pareciam opacos.
‒ Afrodite?
O loiro se virou rapidamente com uma expressão nada amigável no rosto, mas sorriu quando viu quem era.
‒ Oi, Mask.
‒ O que houve?
‒ Nada, eu estou bem.
‒ O que aconteceu mais cedo no seu apartamento?
Ele ficou apreensivo.
‒ Você... Você escutou alguma coisa?
‒ Não! Quer dizer, não deu pra entender nada, só sei que estavam discutindo. Quem era?
‒ Eu briguei com o Shura. Só isso.
Ele deu a entender que não queria conversar sobre o assunto e Ângelo resolveu não insistir. Tinha vontade de perguntar quem era Shura, mas ficou quieto e sentou no balanço ao lado.
‒ Você está estranho.
‒ Eu só estou com fome.
‒ Se quiser ir lá em casa comer alguma coisa...
‒ Não, não precisa. Tenho comida em casa, o problema é que fiquei tão irritado que saí sem comer nada.
Os dois pararam de conversar quando viram um dos gêmeos do prédio da frente saindo de casa. Esperaram ele sair para voltarem a falar.
‒ Hoje um homem veio aqui procurando o espanhol que mora com você.
‒ O que ele queria com o Shura?
‒ Era um investigador. Ele está fazendo perguntas para todos os moradores.
Afrodite ficou apreensivo novamente.
‒ Mask... Acho melhor você ir para casa. Não estou legal, também vou entrar, mas quero só tomar um pouco de ar antes.
‒ Certo. Se precisar, pode bater lá em casa.
‒ Obrigado.
Assim que o italiano entrou no prédio, Afrodite começou a pensar na discussão que tivera com Shura mais cedo.
‒ Como assim não trouxe? – Dizia o sueco, depois de procurar algo na geladeira. – Por que não me avisou ontem?
‒ Eu tentei, mas estávamos muito ocupados para pensar nisso, caso não se lembre. – Shura respondeu com um pouco de sarcasmo.
‒ É claro que eu me lembro, mas você deveria ter me contado! E agora?
‒ E agora o que?
‒ Você não tem mais a sua moto...
‒ Já mandei consertar.
‒ ...não trouxe comida para mim e eu estou com fome!
‒ Posso dar um jeito amanhã.
‒ Amanhã não dá! Eu preciso me alimentar agora!
Após dizer isso, Afrodite saiu, batendo a porta do apartamento e deixando Shura para trás, sentado no sofá, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça nas mãos.
Agora Afrodite pensava no que ia fazer. Ocupara sua mente com Shura na noite anterior, se esquecendo até de que estava ficando com fome, e agora descobrira que ele não trouxera seu alimento. Se o espanhol não conseguira lhe trazer algo, ele mesmo ia procurar o que comer.
oOoOo
Kanon saíra para caminhar à noite. Gostava de fazer isso de vez em quando, mas ultimamente seu irmão o impedia de sair depois que escurecia. Saga tinha medo do tal assassino da região, uma vez que os vizinhos do andar de cima tinham morrido há menos de dois meses, mas Kanon era menos preocupado que o irmão. Riu ao se lembrar de como as pessoas diziam que ele era exatamente o oposto de Saga, que o irmão era responsável e organizado, entre outras comparações. Já estava voltando quando resolveu cortar caminho por um beco escuro. Ali era o caminho de um bom bar e ele queria beber alguma coisa antes de voltar para casa. Ele só não esperava encontrar alguém sentado no chão, encostado na parede. Chegou mais perto e viu que era uma garota. Ela lhe parecia familiar, mas não se lembrou de onde a teria visto. Estranhou o fato de ela estar descalça.
‒ Ei, o que houve?
‒ Eu... Eu caí. – Ela respondeu com voz fraca.
‒ Quer ajuda? Posso te carregar, se quiser.
‒ Obrigada. Torci meu pé e não consigo andar direito.
Ela estendeu os braços e Kanon a pegou no colo. Apesar de aparentar ter uns dezessete anos, ela era mais leve do que parecia. Subitamente, ela o agarrou e cravou os dentes em seu pescoço. Kanon tentou lutar, mas ela era muito forte e o derrubou, quebrando seu pescoço em seguida. Morreu antes de ter todo o seu sangue sugado.
oOoOo
Shura saiu de casa andando o mais rápido que podia com a perna machucada. Ele sabia o que acontecera pelo estado em que Afrodite se encontrava quando chegou em casa.
‒ Mierda! Por que ele não se livra do corpo depois de comer? Por que tem que deixar que eu faça isso?
Ele encontrou o corpo de Kanon no local indicado sem muita dificuldade e logo o arrastou para fora dali. Jogou o cadáver no rio, encobriu os rastros com a neve e voltou para casa.
