Disclaimer: Os personagens de Free! não me pertencem, mas me diverti abusando deles para escrever esse presente para minha amiga Kyun e minha amiga xará. Espero que elas gostem deste final alternativo. Um beijo!

Todos têm cicatrizes

Everything in the beating of your heart

Everything in the feeling of your skin

I want your everything (I want your everything)

Everything in the past that you regret

Everything in the future we can win

I want your everything (I want your everything)

-x-

Acordou com o segundo toque do alarme. Piscou os olhos lentamente enquanto encarava o teto escuro. Tentava em vão se lembrar do sonho que tivera, mas era o mesmo que tentar segurar areia nas mãos, os grãos se esvaindo entre os dedos com cada novo piscar de olhos. Suspirou e começou sua rotina matinal ao som de Ramones.

Enquanto fazia o café da manhã, se perguntou se hoje seria um dia diferente dos outros. Não que estivesse triste com suas escolhas, mas ultimamente sentia como se algo estivesse faltando. Não sabia dizer se era apenas saudades de casa - o aniversário de Gou estava chegando afinal -, ou se estava ansioso com as provas.

- Heh… - sorriu enquanto serviu seu prato - Gou me mataria se me visse assim.

Terminou de comer, calçou seus tênis e saiu para correr.

A primeira vez aconteceu enquanto dormia. Acordou gritando e não conseguia entender o que estava acontecendo. Seus pais correram para seu quarto e o abraçaram até a dor passar. Não tinha nenhum ferimento, mas podia jurar que seus braços e rosto tinham sido cortados em vários lugares. Não conseguia manter os olhos abertos, uma vertigem tomou conta de seu corpo e sentia uma dor que atravessava de seu ombro direito até sua cintura.

Demorou alguns dias até entender que a dor que sentiu não era sua, mas sim da sua alma gêmea. Seus pais brincaram, dizendo que algumas vezes até sentiam falta de saber o que o outro sentia.

Achou ao mesmo tempo interessante e mórbido. Sentir o que sua alma gêmea sente pode ser incrivelmente assustador, afinal o que poderia ter acontecido com ela para que sentisse tanta dor? Será que estava bem? Sua irmã o olhava encantada, mal podia contar os minutos para também sentir algo, saber que alguém a esperava no mundo.

Doeu muito, mano?

Passou as mãos no ombro direito, ainda sentia a dor que atravessava seu peito.

Agora nem tanto, Gou...

Vamos, Rin... não se preocupe. Tenho certeza que tudo ficará bem. - seu pai bagunçou seu cabelo enquanto terminava de se arrumar para ir ao trabalho.

Tentou sorrir e desviou o olhar enquanto seus pais se despediam. Seus pais disseram que despertaram muito cedo, seu pai com 10 e a mãe com 8 anos, mas só se encontraram no ensino médio. Voltou a observá-los, sua mãe acenava sorrindo para seu pai.

Com certeza não tinha com o que se preocupar.

- Rin! - tirou o fone de ouvido e diminuiu a velocidade enquanto Hannah se aproximava correndo para alcançá-lo.

- Não entendo porque insiste, Hannah. - continuou a correr, um tanto mais devagar agora que estava acompanhado.

- Bom dia para você também. - ela bocejou e pegou uma liga de cabelo enquanto corria - Não tenho culpa se você inventa essas coisas.

Balançou a cabeça e segurou o braço da amiga antes que ela caísse ao tropeçar. Esperou que ela terminasse de prender o cabelo e recebeu um pequeno sorriso antes que ela bocejasse novamente e se espreguiçasse.

- Você se preocupa demais.

- E você se preocupa de menos.

A garota sorriu ao voltar a correr, deixando-o ligeiramente para trás.

- Não é como se você estivesse atrasado para o treino, não é mesmo?

Acabou soltando uma gargalhada e a alcançou facilmente.

- Você sabe que poderia dormir um pouco mais se não insistisse em me acompanhar, né? - ainda se impressionava todos os dias. Não achou que a amiga o acompanharia todos os dias, mas já havia se passado um mês e ela insistia em acordar mais cedo e correr com ele até o clube da faculdade.

- E perder a chance de ver toda a equipe de natação se preparando para o torneio? - seu riso foi interrompido por um longo bocejo - Não me importo de acordar mais cedo pra isso.

Voltou a balançar a cabeça. A verdade é que não entendia muito bem porque Hannah decidiu, bem, adotá-lo. Fazia seis meses que começara a trabalhar na cafeteria e lá conheceu a morena. Ela estava sentada atrás do caixa e lia um dos mangás lançados na última estação e mal o encarou quando se apresentou. Ainda não sabia como se tornaram amigos, mas logo estavam sempre se esbarrando no campus ou na piscina.

- Estarei na arquibancada, bom treino Rin!

Acenou e se dirigiu ao vestiário. Cumprimentou os colegas de time e escutou quando dois deles comentavam sobre a amiga.

- Ela só lê ou arruma as unhas… Não é como se se interessasse.

Ao contrário de seus amigos de Iwatobi, Hannah não se preocupava com competições. Era ainda mais decidida a nadar apenas por prazer do que Haru, tanto é que se negou a entrar para o time de natação feminina, mesmo que às vezes os ajudasse a treinar, mas só quando se sentia inspirada.

Hannah era uma verdadeira incógnita.

A segunda vez aconteceu ao voltar da escola.

A mãe sempre gostou de cantar e vivia cantarolando enquanto cozinhava. Chegar em casa e escutar a sua voz era sempre motivo para sorrir.

- Cheguei..! - sussurrou para que a mãe não interrompesse a cantoria. Foi pé ante pé até a porta da cozinha escutando a voz clara da mãe, até que de repente ela parou de cantar.

Escutou quando ela se engasgou, viu a mãe cair no chão segurando o pescoço como se não conseguisse respirar.

- MÃE! - correu até ela, segurou suas mãos e viu quando a mãe conseguiu respirar novamente. Ela chorava copiosamente e escondeu o rosto nas mãos. Não sabia o que fazer, então apenas a abraçou firmemente.

Se assustou quando ela começou a sussurrar o nome de seu pai. E soube então que algo estava realmente muito errado.

Quando a polícia chegou para contar que o barco de seu pai havia se perdido no mar durante a última chuva, não foi de fato uma surpresa. A surpresa veio pelo fato de que não conseguia chorar. Estava triste, porém não sentia a dor da perda, não da mesma forma que Gou.

O treino decorreu com certa tranquilidade. Acabou não sendo um dos melhores treinos, seu ombro direito voltou a doer com certa intensidade. Suspirou ao sair da piscina, o que estava acontecendo com sua alma gêmea, afinal?

- Se continuar com essa cara, vou começar a me preocupar.

A voz de Hannah o chamou de volta para a piscina.

- Como se você não se preocupasse… - caminhou até o vestiário, ainda sentindo uma pontada no ombro direito. - Vai acabar se atrasando para a aula se for me esperar.

- Sim senhor, pai. - ela dá de ombros e volta a ler seu mangá - Se não quer que eu me atrase, se apresse.

Gostaria de ser um pouco mais como Hannah, despreocupada com o futuro e com essa história de alma gêmea. Ainda se lembrava da primeira vez que conversaram sobre isso na cafeteria. Hannah estava preparando um capuccino e quando foi vaporizar o leite, a máquina estava desajustada e ela acabou se queimando na mão e no rosto. Correu para ajudá-la, mas ela apenas se secou e, após ajustar a máquina, terminou de preparar o pedido do cliente. Acabou com uma queimadura de segundo grau e foi proibida de preparar bebidas quentes até melhorar.

- Você deveria ser mais cuidadosa, Hannah… - pegou uma toalha molhada para que ela pudesse colocar nas queimaduras.

- Não é como se eu estivesse sentindo dor. - se recostou no balcão e aceitou a toalha gelada.

- Não se preocupa com o que o seu par está sentindo? - a encarou ligeiramente preocupado.

- Evolutivamente falando, não sentir dor é a pior coisa que pode acontecer a um animal. - ela colocou a toalha em cima da pia e observou as bolhas na mão direita, encostando em uma delas antes de voltar o olhar para ele - A dor nos deixa cuidadosos, nos mostra nossos limites, o valor de nossas vidas.

Ficou a encarando, tentando entender o que ela dizia.

- Não vou ficar me lamentando e não vou deixar de viver a minha vida por isso, Rin. - ela deu de ombros.

Fechou o chuveiro e se secou, o ombro ainda o incomodava. Se estava sentindo esta dor, imaginava que seu par estivesse abusando novamente. A dor estava ficando recorrente e demorando mais tempo para melhorar. Estava começando a concordar com a amiga.

Aparentemente seu par não sabia qual era o seu limite.

Encontrou Hannah na porta do vestiário.

- Estava quase indo te procurar, você demorou. - ela o encarava com um olhar preocupado - Achei que estava se afogando no chuveiro porque seu tempo está horrível.

- Ouch. - passou a mão pelos cabelos úmidos e sorriu de lado - Assim vou acabar me magoando.

- Se levasse o treino realmente a sério, poderia ser o primeiro colocado. - ela dá de ombros e entrega sua garrafa térmica com chá - Mas continua com essa bobagem de não querer se arriscar.

O primeiro gole do chá ajudou a diminuir a dor no ombro e a relaxar um pouco a musculatura. Não entendia muito bem qual a propriedade do chá - se era algo que realmente acontecia ou se era absolutamente psicológico -, mas sabia que ajudava. Usou o chá de desculpa para não responder as críticas da amiga.

Sabia que ela não aprovava seu estilo de vida.

A terceira vez aconteceu quando estava nadando.

Havia se mudado para Sydney e estava disposto a seguir o sonho do pai de se tornar um nadador olímpico. Foi um choque perceber que por mais que fosse um ótimo nadador no Japão, existia uma grande competição nesse novo país.

Sentia saudades dos amigos e da família, na verdade mal tinha amigos ali. Não tinha uma grande motivação para competir como antes.

Era dia de avaliar o tempo para a competição que se aproximava, sabia que era importante dar tudo de si para não perder ainda mais colocações dentro do time.

Respirou fundo e pulou do bloco de largada. Fez um mergulho perfeito, sentiu uma paz ao iniciar o nado borboleta, a cada braçada sentia-se mais leve, como há tempos não se sentia.

Se aproximou do final da piscina, realizou a volta e quando estava se recuperando, errou a braçada.

A dor em seu ombro direito foi tão intensa que gritou, engolindo água e afundando. Ficou em choque, não conseguia mexer o braço. O desespero substituindo completamente a paz que sentira momentos antes.

A comoção foi tanta entre seu time que nem soube dizer o que exatamente aconteceu. Em um momento estava na piscina da escola, no próximo estava no hospital, passando por diversos exames.

Demorou semanas para conseguir voltar a nadar.

Os médicos foram categóricos, não havia nada de errado com seu ombro. A dor não era sua, precisaria se acostumar com essa situação.

Bocejou ao sair da última aula. Definitivamente não aguentava mais a aula de administração e marketing desportivo. Só queria se formar logo e buscar carreira como treinador.

- Só mais dois anos.

Se alongou antes de pegar a mochila do chão e ir em direção ao café Moka Latte. A fachada em tons claros não era de todo chamativa, mas Moka Latte era um dos pontos de encontros mais frequentados pelos estudantes. Nada como estar localizada há algumas quadras do campus e da biblioteca. Era comum que o local estivesse cheio, principalmente em época de provas, de estudantes pedindo seus cafés para terem ânimo.

Se não estivesse tão preocupado em se manter sem problemas, provavelmente nunca teria imaginado que trabalharia meio período ali, só não aguentava mais ficar encarando o teto de sua casa, sabendo que não estava dando tudo de si.

Não tinha a menor vontade de assumir para Hannah que não estava de todo satisfeito com suas escolhas.

Abriu a porta dos fundos e entrou, cumprimentando os colegas de trabalho do turno que ia embora. Achou estranho que a amiga ainda não tivesse chegado, afinal a faculdade de física era mais perto da cafeteria do que a de educação física. Deu de ombros e começou a arrumar a sua bancada de trabalho.

Por sorte o movimento estava brando, as férias tinham acabado a pouco tempo, então ainda demoraria algumas semanas antes do grande movimento pré-provas. Conseguiu manter o atraso das entregas de pedidos no mínimo, até que viu a amiga entrando esbaforida.

- Você está atrasada.

Ela suspirou enquanto prendia o cabelo.

- O professor se empolgou… - ela sorriu com tranquilidade - acabamos entrando numa discussão intensa sobre a característica dual da luz e começamos um experimento de dupla fenda na sala. - ela se sentou no caixa e tomou o próximo pedido antes de completar - Foi interessante.

A encarou por um instante antes de balançar a cabeça.

- Se você diz.

Para uma pessoa que não se mostrava interessada nas coisas ao redor, Hannah mudava completamente ao começar a falar do seu curso. Ela se encantava por física e não se cansava de falar sobre isso, mesmo quando não entendia quase nada do que a amiga dizia.

A quarta vez aconteceu no trabalho.

O ombro ainda incomodava bastante, então Hannah havia feito um novo chá para ele. Já havia tentado arrancar dela o que colocava ali, mas ela era irredutível e não o ensinava a receita. Já tentara fazer em casa o chá de alecrim com gengibre, mas não parecia fazer o mesmo efeito que o chá que ela fazia.

- Nitori. - chamou enquanto terminava de colocar o chantilly na taça de cappuccino machiatto, e entregou para o rapaz de cabelos cinza que se aproximou do balcão.

- Você deveria tomar mais do chá, trouxe uma térmica cheia para ver se para com essa cara de cachorro sem dono. - a garota entrega a próxima comanda.

Começou a preparar o café americano, colocando o pó no filtro individual.

- Já não passou da hora de você me contar qual a macumba que faz? - despejou a água fervendo no pó e foi buscar o brownie que acompanhava o pedido - Ikuya.

Ela riu enquanto entregava mais um pedido.

- E perder a minha única utilidade nessa amizade? Jamais.

Enquanto colocava os grãos para moer aproveitou para dar um peteleco na testa da garota.

- Como se isso fosse verdade… - preparou a prensa francesa - você também não me deixa descansar nos fins de semana. - ela o encarou com os olhos apertados - Yamazaki.

Colocou a louça preta em cima da bandeja e sentiu como se todo o peso que carregava nas costas estivesse sendo levantado. Respirou fundo como há tempos não respirava, livre, calmo.

Sem dor.

- Ei.

- Hannah… O que diabos colocou nesse chá? - sorriu para ela.

- O de sempre. - ela segurava uma nova comanda - por quê?

- Ei. - uma voz se fez ouvir.

- Não estou sentindo mais nada…

- Eu ainda estou esperando meu café.

Virou-se para o dono da voz que o chamara mais cedo. Estava tão entretido com a falta de dor que não percebeu que ainda segurava a prensa francesa.

- Opa, me desculpe pela demora. Yamazaki? - deu um meio sorriso que foi se desfazendo lentamente quando viu que o rapaz moreno à sua frente segurava o ombro direito e fechava a cara.

- Sim, sou eu. - ele virou o rosto para o restante da fila que aguardava os pedidos, soltou um suspiro e pegou a bandeja com a mão esquerda - Era só o que me faltava - saiu murmurando.

- Ele é bonito. - Hannah voltou com mais comandas para ele - Quer tirar sua pausa?

Balançou a cabeça e continuou o trabalho, não podia parar agora. Sentia o coração disparado e sabia que se parasse acabaria saindo correndo. No momento bastava que finalmente não sentia dor.

Continuou servindo os cafés e lanches. Estava em modo automático, a cada nova comanda, a cada novo pedido, preparava, chamava pelo nome e levantava o olhar para o moreno que se sentara sozinho.

O tal Yamazaki permanecia ali mesmo após ter terminado o café. Havia pego um livro e parecia entretido.

- Chega. - mais sentiu do que viu Hannah se escorar ao seu lado, encarando o rapaz - Estamos tranquilos agora, vai tirar sua folga.

- Não é hora de pensar nisso, Hannah, não vou te deixar sozinha. - se espreguiçou e se forçou a se escorar de costas para o balcão.

- Você está se escondendo. - ela estendeu um prato com dois muffins - Se você não for, eu vou.

Riu enquanto balançava a cabeça.

- Você não presta, sabia? - tirou o avental, dobrou e o deixou atrás do balcão, aproveitou para pegar uma água com gás e se dirigiu para a mesa.

Não havia muito o que fazer, não é mesmo? O ombro não dava sinal de dor, o rapaz continuava ali. E Hannah não o deixaria em paz tão cedo.

- Yamazaki? - colocou o prato na mesa e puxou uma cadeira - Posso?

Os olhos turquesa se encontraram com os seus, sentiu o coração bater mais rápido enquanto o rapaz fechava o livro.

- Claro.

Se sentou em frente ao Yamazaki e indicou o prato.

- Espero que goste de morango. - abriu a garrafa de água e tomou um gole - Os de mirtilo já acabaram.

O rapaz continuava em silêncio, apenas observando. Não o achava estranho, mas com certeza não se encontraram antes, certo? Será que ele tinha costume de vir ao café? Será que não se esbarraram em algum lugar?

Ficaram se encarando por vários minutos. O silêncio fazendo companhia de uma forma insistente.

Como podia ser tão difícil?

- Rin. - sorriu acanhado - Rin Matsuoka. 20 anos, estudante de educação física na Universidade Hidaka, participo do time de natação da universidade.

O rapaz à sua frente finalmente deu um meio sorriso, e ficou admirado no quanto ele ficava ainda mais bonito ao sorrir, e pegou um dos muffins.

- Sousuke Yamazaki, 20 anos, estudante de biomedicina na Universidade de Shimogami. - comeu um pedaço do muffin antes de continuar - Também faço parte do time de natação da universidade.

E simples assim a conversa começou a fluir com mais tranquilidade.

- Rin! - levantou o rosto para Hannah, que vinha até a mesa - Já está na hora de fechar.

Sorriu e se levantou sem graça.

- Foi mal Hannah. - indicou o moreno à sua frente - Este é o Sousuke.

- Desculpe atrapalhar, Sousuke, mas precisamos encerrar por hoje. - ela sorriu e deixou uma garrafa térmica na mesa - Aqui, para a dor.

Sousuke fechou um pouco a expressão, mas deu um sorriso amarelo. - Valeu. - ele se levantou e gemeu ao pegar a mochila.

- Sabe, você deveria dar uma olhada nesse ombro. - Hannah comenta enquanto volta para a cozinha.

- Tsk.

- Ela não está errada, sabe… - não conseguiu não concordar com a amiga - e o chá que ela faz é quase milagroso.

Yamazaki manteve o semblante fechado, mas não reclamou.

- Então até depois, Rin.

- Espero que tenham trocado seus números, não vou aguentar o Rin chorando porque não tem o seu contato… - a garota comentou em voz alta.

- HANNAH!

A risada do Sousuke valeu o comentário, ainda mais porque realmente havia se esquecido de pegar o contato do rapaz.

- Aqui. - entregou o celular para o moreno e o viu discar seu próprio número, salvou o contato dele e se despediram.

Seu coração ainda estava disparado quando fechou a porta e virou a placa para "fechado". Se recostou ali e se deu alguns segundos para recuperar o fôlego.

- Nunca imaginei que o veria tão emocionado… - Hannah abriu uma lata de refrigerante e tomou um longo gole - E você me deve uma, me abandonando assim no meio do expediente.

- Eu te devo várias. - foi para o lado dela e bagunçou seu cabelo. Riram enquanto terminavam de organizar tudo no café.

Com certeza o dia valeu a pena.

O celular tocou quando estava saindo do café.

- Mas já? - Hannah bocejou - Vocês acabaram de se ver…

- É a minha irmã. - sorriu de lado ao atender - Gou.

- Então você ainda sabe que eu existo! - a voz de sua irmã veio com tudo - Você sabe que existe uma tecnologia fantástica que nos permite conversar, né mano?

- Eu bem que digo pra ele te ligar mais, Gou, mas ele nunca me escuta. - Hannah reclamou puxando seu celular - Como estão as aulas?

Balançou a cabeça, onde foi que arranjara duas mulheres tão problemáticas em sua vida?

- Vocês têm o número uma da outra, precisam mesmo conversar agora?

- É que é mais legal quando estamos juntos… - Gou comentou rindo - Mas de qualquer forma, a mãe queria saber se você vem para casa no próximo feriado.

Hannah levou o dedo indicador aos lábios, sorrindo. Céus… O feriado.

- Ainda não sei, Gou… Acho que vou me decidir mais perto da data. - suspirou, sabia que tinha que contar para a família, mas tinha que ser agora?

- Bem, se você vier, talvez conheça meu namorado.

Parou de andar e ficou completamente em silêncio, com certeza escutou errado. Ou ela estava brincando. Hannah riu ao seu lado e continuou a caminhar.

- Como?

- Oras, mano, não estava esperando que eu não fosse encontrar alguém, estava? - sua irmã voltou a rir - Se me seguisse nas redes sociais já estaria sabendo.

- Espera, Gou…

- Bom, já que ainda não se decidiu, não esqueça de mandar uma mensagem quando se decidir. Preciso ir! Boa noite maninho! Manda um beijo pra Hannah.

E Gou desligou o telefone como se nada tivesse acontecido. Encarou a amiga que se distanciava e correu para alcançá-la.

- Quer dizer que a minha irmã está namorando?

- Bem, se você tivesse alguma rede social ou o bom senso de mandar mensagem pra ela de vez em quando, tenho certeza que ela teria te contado quando tudo começou… - ela sorriu novamente - dois meses atrás.

Novamente parou de andar, boquiaberto enquanto a amiga continuava a andar.

- Dois… meses..?

- Você realmente deveria ligar mais vezes pra casa…

- HANNAH!

E saiu correndo atrás dela. Sabia que estava deixando seu papel de filho e irmão a desejar, mas…

A primeira vez que bateu o tempo no treino, ninguém conseguia acreditar, nem mesmo ele.

- O que aconteceu, Matsuoka? Estava escondendo o jogo?

Deu um sorriso sem graça e deu de ombros, ainda impressionado com a falta da dor constante que o acompanhou por tantos anos.

- Acho que estou inspirado… - podia sentir o olhar de Hannah em suas costas.

- Se continuar assim, poderemos chegar ao torneio fechado do Japão. - o capitão apertou seu ombro - É bom que continue inspirado.

Recebeu uma foto de quando terminou de nadar. Tinha um sorriso no rosto ao perceber que tinha vencido o tempo do time. Encaminhou a foto para Sousuke logo antes de receber uma nova foto, de quando estava saindo da piscina "Fica a seu critério qual vai mandar, mas acho que ele gostaria mais da segunda. Nos vemos mais tarde no trabalho!".

Acabou rindo sozinho, e terminou de se arrumar. O celular vibrou com uma selfie do Sousuke ainda na cama. "Que jeito de ser acordado…". O sorriso do moreno já bastava para fazer seu coração disparar.

"Não imaginei que estivesse dormindo ainda… Desculpa."

"Não estou reclamando, é uma ótima forma de ser acordado."

Continuou o caminho até a sala, tinha um sorriso idiota no rosto. O celular vibrou novamente e sentiu o rosto esquentando ao ler a última mensagem.

"Mas consigo imaginar jeitos melhores."

- Eu já não te aguento mais… - Hannah reclamou enquanto se largava em frente à mesa vazia - Você está radiante.

- E você diz como se fosse um problema… - riu enquanto terminava de arrumar os guardanapos nas mesas - Não era você que reclamava que eu não sorria tanto?

- Mas precisava ficar tão estupidamente feliz? - ela se deita na mesa de uma forma pouco característica - Isso cansa minha beleza.

Sentiu o celular vibrando e sabia que estava sorrindo enquanto lia as mensagens de Sousuke. A realidade é que não se lembrava da última vez que se sentiu tão completo, talvez quando ainda era pequeno?

As conversas com Sousuke seguiam tranquilas, a cada dia descobrindo um pouco mais um do outro. Descobrira que o moreno tinha um cachorro, que morava sozinho em Tóquio, mas que tinha um irmão mais velho que era chef de cozinha e herdaria o restaurante da família.

Ficou sabendo que a primeira vez que sentira a dor do rapaz ele sofrera um acidente de carro com os pais, por isso ainda tinha algumas pequenas cicatrizes no rosto e nas mãos.

E acabou descobrindo que não conseguia manter o coração sob controle quando ele chegava.

- Rin.

Tomou um susto quando escutou a voz do moreno no pé do ouvido.

- Sousuke.

Sorriram um para o outro enquanto Hannah gemia e ia para a cozinha.

- Ela está bem?

Encarou a amiga que estava com a cara fechada enquanto terminava de organizar a bancada.

- Acho que ela está com enxaqueca. - observou o calendário pregado atrás da amiga, a semana de eventos estava se aproximando - Se não me engano é sempre nessa época que ela fica doente.

Sousuke levantou uma sobrancelha.

- Eu tenho uma teoria de que o par da Hannah é um professor universitário… - o rapaz deu um meio sorriso - Ela sempre fica com crises de enxaqueca quando a semana de eventos das faculdades estão para começar.

- Interessante. - o celular de Sousuke toca - Preciso atender, nos falamos mais tarde?

- Claro.

Quando o moreno dá um leve beijo na sua bochecha antes de se afastar, sente seu rosto esquentar e o coração voltar a disparar.

- Meu. Deus. - a voz da garota o chama do caixa - Você é um romântico irreparável.

- Ah, cale-se… - iniciou seu horário de trabalho enquanto observava cada movimento de Sousuke.

Já estavam saindo há algumas semanas.

Inicialmente imaginou que as pessoas poderiam estranhar, mas ninguém olhava duas vezes para os dois. Os casais eram dos mais diversos e ninguém se preocupava com o que faziam.

É claro que ainda não haviam feito nada.

Era torturante estar ao lado de Sousuke, os toques eram naturais. Arrumavam o cabelo, acariciavam as mãos, encostavam-se. Tudo muito casto, inocente.

- Você está com tesão. - Hannah nem ao menos levantou os olhos do mangá que lia - Dá para sentir daqui.

Sentiu o rosto esquentando e chutou a canela da amiga por debaixo da mesa.

- Não fale essas coisas. - balançou a cabeça e tomou um gole de água - É vergonhoso.

- Pode ser, mas não é mentira. - ela bocejou - Não seja tão puritano, se quer algo vá atrás.

Encarou a amiga sem acreditar. A cada dia que passava era uma nova pérola que o impressionava.

- Não é como se eu fosse agarrá-lo simplesmente.

Ela finalmente levantou os olhos da história, podia sentir seu julgamento.

- Vocês estão namorando, não?

Sabia que estava sorrindo como um idiota, mas não podia evitar.

- Sim.

Ela fechou o mangá e apoiou o rosto sobre as mãos.

- Então porque acha que é errado agarrá-lo? - seus olhos castanhos brilhavam divertidos - Você não está esperando que ele faça tudo, está?

Respirou fundo, bem… Ela tinha um ponto. Até agora foi Sousuke que tomou todas as iniciativas. Era ele que o visitava, ele que o procurava.

Assim mal parecia que eram um casal…

- Rin..?

Levantou o olhar para o rapaz de cabelos rosa que parou ao lado da mesa. Não se lembrava dele, mas reconheceu a jaqueta da Shimogami.

- Rin Matsuoka, certo?

Hannah deu de ombros e voltou para o mangá.

- Sim… - levantou uma sobrancelha - E você?

O rapaz sorriu e puxou uma cadeira.

- Você é exatamente como o Môsuke disse!

- Mô… suke?

Hannah fecha com força o mangá e encara o intruso com cara feia.

- A ideia de ir a uma biblioteca é poder ler em paz. - ela se levanta - Até mais tarde, Rin.

- Imagino que ela seja a Hannah, certo? - o rapaz riu - Ela realmente é meio estressada, mesmo que só esteja lendo um mangá…

- Desculpe, mas quem diabos é você? - esse cara estava começando a irritá-lo.

- Ah, foi mal! - ele sorriu e estendeu a mão - Sou o Kisumi.

Continuou o encarando com uma das sobrancelhas erguidas.

- Vai me dizer que o Môsuke nunca falou sobre mim… - ele suspira dramaticamente - Môsuke é tão malvado!

- Kisumi, não seja irritante.

Bastou escutar a voz grave de Sousuke para o coração bater mais forte.

- Môsuke! Você chegou! - o rapaz se levantou e o abraçou feliz, recebendo olhares raivosos das pessoas que estavam estudando ali por perto.

- Já disse para não me chamar assim. - empurrou Kisumi e sorriu de lado - Oi Rin.

- Sousuke… - impossível não sorrir para ele - Ou deveria dizer Môsuke..?

- Viu o que você fez, Kisumi? - o moreno balançou a cabeça - Pelo menos a Hannah não escutou isso…

- Mas ela escutou… - riu da careta que o namorado fez - Inclusive, acho que vou deixar vocês estudarem e vou atrás dela.

- Assim vou ficar com ciúmes, Rin…

Sorriu e beijou seus lábios delicadamente.

- Não precisa se preocupar… - acenou enquanto se afastava - Você tem o Kisumi, Môsuke.

Tinha perguntado se poderia encontrá-lo, mas não queria realmente atrapalhar o treino. Então ficou nos fundos da arquibancada, acompanhando o treino da equipe de natação da Shimogami enquanto esperava dar o horário para poder encontrar com Sousuke.

O que não esperava era ver Kisumi ali, com um caderno de desenho em mãos.

- Rin-Rin! - o rapaz sorriu de orelha a orelha e o abraçou - Veio assistir o treino da Shimogami, é..?

- E aí… - se sentou ao lado do rapaz enquanto ele voltava a olhar a piscina.

- O Môsuke não vai nadar hoje.

- Ah é..? - encarou o rapaz ao seu lado.

- Ele ainda está afastado das piscinas por um tempo, sabe como é, por conta do ombro e tal… - ele continuou desenhando os rapazes que se preparavam para entrar na piscina - Acho que ele deve estar na academia.

Ficou observando a equipe concorrente treinar. Eles realmente eram um time de elite. Voltou o olhar para o caderno de desenhos de Kisumi.

- Você desenha muito bem.

- Obrigado, Rin-Rin! - ele sorri feliz - É para um projeto do clube de artes.

Ficaram mais alguns minutos assim, conversando calmamente sem se preocupar com o tempo. Kisumi era um dos melhores amigos de Sousuke e conseguia entender o motivo. Ele era muito carinhoso e prestativo.

O celular vibrou com uma mensagem. "Acho que vou ter que cancelar…" Encarou a tela do celular com o coração apertado. Sabia que havia chegado muito antes do previsto, mas realmente queria surpreender o moreno.

- Sabe, esses últimos dias têm sido difíceis. - Kisumi continuou desenhando, sem voltar o olhar para ele - Sousuke tem sentido mais dor do que o normal…

"Tem certeza?"

- Droga… - suspirou, esperando a resposta do namorado - Queria poder fazer algo.

O rapaz ao seu lado sorriu.

- Você poderia ir até a academia… O time está inteiro aqui, então imagino que ele esteja sozinho.

"Desculpa. Podemos nos ver amanhã?"

- Valeu, Kisumi. - acenou - Nos falamos outra hora.

Caminhou rapidamente até a academia, ela estava vazia. Será que ele foi embora mais cedo?

"Eu diria para olhar para a porta, mas aparentemente você já foi embora…" Suspirou ao olhar para a tela do celular, caminhando pela academia vazia.

- Rin?

Escutou a voz de Sousuke vindo do vestiário e se dirigiu para lá.

- Foi mal, Sousuke, eu cheguei mais cedo… - parou de chofre, encarando o torso nu do moreno - Não queria… - engoliu em seco e voltou os olhos para o rosto do namorado - atrapalhar.

Sousuke sorriu de lado com a sua reação.

- Tenho certeza que não… - ele se levantou do banco e começou a desatar o nó que segurava sua calça - Ia tomar uma ducha.

- Uma pena que cancelamos o encontro… - deu alguns passos para frente, chegando próximo o suficiente para tocá-lo - Seria uma pena se algo acontecesse.

Os olhos azuis fixaram-se nos seus lábios, podia sentir o rosto esquentando, o coração disparado no peito. E quando o rapaz levantou a mão para tocar-lhe o rosto, viu quando o movimento lhe causou dor. Apoiou o braço em seu ombro e o abraçou.

- Exagerou hoje? - respirou fundo e levantou o rosto para encarar o namorado - Posso ir embora se quiser descansar.

- Você não ousaria… - ele segurou seu rosto e o puxou para um beijo quente. Tudo o que gostaria no momento era se perder na intensidade do beijo do namorado, mas sabia que se continuasse ali, acabaria perdendo o pouco controle que ainda conseguia manter. E honestamente não o excitava tanto assim a perspectiva de ter sua primeira relação sexual em um vestiário.

- Sou… - gemeu de leve enquanto sentia as mãos possessivas do moreno em seu corpo - Vamos para casa.

Sentiu o quanto Sousuke precisou se concentrar para retirar as mãos de dentro de sua camiseta.

- Vamos…

Não podia acreditar que estavam tendo sua primeira briga. Ainda mais por um motivo tão idiota.

- Eu já pedi desculpas.

- Hmmm... - Sousuke ainda estava bravo, tinha receio que tivesse estragado o dia por uma bobeira.

Caminhavam juntos, as mãos no bolso da calça enquanto Sousuke mexia no celular e o ignorava.

- Rin, Sousuke! - Hannah acenou - Vocês estão atrasados.

- Foi mal... - suspirou e tirou o boné, arrumando o cabelo - Não estou fazendo nada certo hoje.

Ela o encarou por alguns segundos antes de voltar os olhos para o moreno que permanecia em silêncio e novamente me encarar.

- O que você fez?

Cruzou os braços e se recusou a encará-la. Não estava preparado para esta conversa. Não era justo.

- Vou comprar um café. - Sousuke lhe lançou um olhar reprovador antes de seguir para a padaria ali perto.

- Rin... - Hannah chama, forçando a encará-la - O que você fez?

Suspirou.

- Ele dormiu em casa ontem. - a amiga deu um sorriso - E hoje de manhã ele queria um café...

- Não... - a garota foi fechando a expressão enquanto o encarava - Você não fez.

- É... ele requentou o café de ontem. - Sousuke acabara de voltar para o nosso lado, um grande copo de café nas mãos.

Hannah encarou Sousuke com os olhos brilhando.

- Eu sinto sua dor... - ela pega a mão livre dele - É uma experiência traumática.

- O que eu não consigo entender é como... - ele aperta a mão dela sobre o coração - Ele trabalha numa cafeteria.

- Tch... - sentiu o rosto esquentar, não era nem um pouco justo que seu namorado e sua melhor amiga fossem dois viciados em café.

Não era sua culpa, bem, na verdade era sim, mas a questão é que nunca gostou de café. Começou a trabalhar na cafeteria por conveniência, mas aparentemente isso bastava para que as pessoas esperassem dele algo que não conseguiria dar.

Estava tão entretido em seus pensamentos que não sentiu quando Sousuke o abraçou.

- Não precisa ficar com essa cara... - ele sorriu - Você só vai precisar de umas aulas.

Hannah soltou uma risada antes de pegar o copo de café do moreno.

- Boa sorte, eu já desisti. - e saiu caminhando na nossa frente.

O beijo fez seu coração disparar, como sempre. Ainda se impressionava em como não conseguia se controlar perto do namorado.

O café não tinha um gosto tão ruim assim.

"Não é que eu esteja cobrando…" o celular vibrou o acordando no meio da noite "Mas a mãe realmente quer saber se precisa arrumar seu quarto."

Suspirou e olhou o horário.

"Gou, são 2 horas da manhã…"

"Vai me dizer que você estava dormindo."

Gemeu e questionou se valia a pena jogar o celular na parede.

"Sua vida universitária parece ser tão entediante."

"O nome disso é responsabilidade."

Sentiu os braços fortes do namorado o apertando e se acomodou melhor contra seu corpo, diminuindo ainda mais o brilho da tela para não atrapalhar o sono dele.

"E você está me enrolando. V ocê vem ou não? Sabe que será o primeiro natal que não passaremos juntos se não vier, né?"

"Gou…"

"Meu primeiro aniversário sem meu irmãozão…"

- Rin…

Fechou os olhos com força e respirou fundo. Odiava quando Gou fazia esses dramas. Sentiu os olhos ardendo e sabia o que logo aconteceria.

- Volte a dormir, Sousuke… - sussurrou enquanto acariciava o rosto do namorado, a voz embargada.

- Está tudo bem? - o moreno bocejou, mas focou o olhar em seu rosto.

Suspirou e deu um sorriso amarelo.

- Minha irmã está fazendo drama… - o celular vibrou novamente "Você dormiu?"

Sousuke piscou os olhos lentamente, encostando o nariz no seu.

- Ela sabe que está atrapalhando o seu sono e que amanhã você tem sua última competição do ano? - ele sorriu cansado - E que é sua chance de ser escalado para o torneio fechado?

Acabou rindo de leve, abraçando o pescoço do moreno.

- Está com ciúmes por que não deixei você atrapalhar meu sono?

"Rin… Eu estava brincando."

- Sim. - ele o beija por um longo momento, calidamente - Ela parece realmente preocupada. Quer conversar?

"Eu sei, Gou."

- O aniversário dela está chegando e ela quer saber se eu vou para casa… - se levantou nos cotovelos para observar melhor o rosto de Sousuke - Como o aniversário dela é no Natal, geralmente sempre vou para casa, mas…

Sousuke o ficou encarando sem expressão. Não era exatamente assim que ele pensou em convidar o namorado para passar as festas de fim de ano com ele…

- Você gostaria de ir comigo, Sousuke? - se deitou sobre o peito do namorado, escutando as batidas do seu coração - Sem pressão, vou entender se quiser passar com a sua família.

O moreno o abraçou, beijando o topo de sua cabeça. Os segundos se arrastavam enquanto esperava uma resposta.

- Não será um problema?

Riu de leve.

- Nem um pouco. Na verdade será um prazer tê-lo ao meu lado.

- Então será um prazer. - o rapaz bocejou - Podemos voltar a dormir agora?

"Pode arrumar meu quarto, Gou. E vou precisar de uma cama extra."

"A Hannah vem?!"

"Boa noite, Gou.~"

- Boa noite, Sousuke… - murmurou contra o pescoço do namorado que já dormia, mal podia acreditar que apresentaria sua alma gêmea para sua família.

Estava nervoso.

Não era sua primeira competição, mas estava realmente nervoso. E o fato de que sua colocação no torneio fechado do Japão dependia de sua vitória o deixava ainda mais ansioso.

- Você vai se sair bem. - Sousuke estava ao seu lado enquanto terminava de se trocar, mesmo que ele fosse do time rival - Treinou muito para esse momento.

- Ainda mais agora que está treinando pra valer… - Hannah também estava ali, mesmo que fosse o vestiário masculino, aparentemente nada ia impedi-la de me acalmar - O seu tempo é superior até mesmo à Shimogami. Agora só precisa nadar como sempre.

Sorriu para a amiga e para o namorado. Respirou fundo e pegou seu óculos e touca. "Boa sorte na competição, mano! Estaremos assistindo!"

- Vocês estão certos.

O chamado para a prova de 100 metros nado borboleta ressoa pelo complexo e me despeço dos dois na porta do vestiário enquanto caminho para a piscina. O nervosismo ficando para trás a cada passo.

Agora era a hora de se concentrar, estava muito próximo de voltar ao sonho de competir profissionalmente. Subiu ao bloco de partida e ajustou o óculos de natação, puxando a tira de ajuste como seu pai fazia. Se preparou para a prova e fez uma entrada perfeita.

Na água não havia nada que o impedia de ser quem era. Sabia exatamente o que estava fazendo, sentia o corpo respondendo ao menor dos seus comandos em perfeita harmonia.

Ao terminar a prova em primeiro colocado foi ovacionado por toda a equipe de natação, abraçado pelos colegas e o capitão gritava com ele por ter escondido o jogo por tantos meses. Sorria de orelha a orelha, completamente satisfeito com sua performance.

Só não ficou ainda mais satisfeito ao ver o olhar que o namorado tinha no rosto.

Viu quando Hannah - completamente feliz - se virou para falar algo com Sousuke e eles começaram a discutir em voz baixa na arquibancada. Foi para o vestiário e tomou uma longa ducha, ainda sentindo a adrenalina da corrida, a felicidade da conquista.

Colocou o uniforme da faculdade e calçou os sapatos, pronto para enfrentar de peito aberto a vida.

Gou mandou uma enxurrada de mensagens, mesmo durante a prova, mas a que mais o tocou foram as duas últimas. "Parabéns mano! Você foi incrível!" logo seguida por uma mensagem claramente de sua mãe "Seu pai teria ainda mais orgulho de você."

Sentiu quando as primeiras lágrimas caíram de seus olhos. Estava finalmente seguindo os passos dele, conseguiria fazer aquilo que seu pai abriu mão para criá-los.

- Ei… - assustou-se com a voz grave do namorado e voltou o olhar para a porta do vestiário - Está tudo bem?

Sorriu e enxugou as lágrimas. Como poderia explicar tudo para Sousuke?

- Muita emoção… - riu sem graça.

- É pra ser emocionante mesmo… - ele sorri de lado, mas baixa os olhos para o chão, sem querer encarar seus olhos - Afinal, agora você vai para o torneio fechado.

Levantou do banco e pegou a bolsa com suas roupas, encarou o namorado escorado na porta e se aproximou.

- Você está bem?

O moreno suspirou e passou a mão no rosto, antes de voltar o olhar para ele e dar um sorriso amarelo.

- Desculpa Rin, acho que não. - ele estica a mão para tocar o rosto de Rin, mas para com os dedos a milímetros de sua bochecha.

O peito se apertou, a adrenalina voltando com toda a força.

- O que houve? - mal conseguia respirar.

Ele suspira e abaixa a mão, colocando ela no bolso da jaqueta e volta o olhar para a parede a sua frente.

- Hoje senti inveja pela primeira vez. - podia ouvir a dor na voz do namorado e isso partia seu coração - Vê-lo nadando, vencendo essa competição me deixou com raiva. Era para ser eu.

Respirou fundo, sabia o quanto Sousuke se frustrava por conta da lesão do ombro e não pela primeira vez se perguntou se talvez ela só tenha chegado ao ponto que chegou porque o namorado não sentia a dor da lesão.

- Sou…

O rapaz a sua frente piscou os olhos turquesa e abriu um sorriso amarelo.

- Mas a Hannah me falou poucas e boas. - ele riu sem graça e finalmente se desencostou da parede - Você tem uma boa amiga.

Deu um passo para mais perto do namorado.

- Eu sei… - deu um pequeno sorriso - Espero que ela não tenha sido muito direta, às vezes ela não sabe ter tato para falar com as pessoas.

- Ela disse exatamente o que eu precisava escutar. - sentiu o puxão que o moreno deu na alça de sua bolsa, aproximando seus corpos - Parabéns pela vitória, Rin…

O beijo que se seguiu conseguiu desarmar suas defesas, tirar o medo que havia se apossado do seu coração.

- Você sabe que não precisava vir comigo, né? - Hannah bocejou mais uma vez enquanto caminhava ao meu lado - Não é como se eu não soubesse onde ir...

Acabou rindo da alfinetada que ela dá em Sousuke, seu namorado não tem o menor senso de direção e faz uma careta para a morena.

- Mas se eu não tivesse te chamado você perderia o vôo de qualquer forma... - bagunçou o cabelo dela - Você estava dormindo ainda.

Ela dá de ombros.

- Não é minha culpa se minha mãe comprou a passagem nesse horário, acordar de madrugada não é de Deus.

- Eu sinto sua dor, Hannah...

- Para dois viciados em cafeína, vocês são muito moles. Já são 7 da manhã! - os dois se abraçam e o olham como se fosse o errado da história - Céus, olha o drama!

Pelo menos vê-los assim, brincando junto - mesmo que às suas custas - o deixa feliz. Teve medo de que a briga dos dois trouxesse problemas para a amizade.

- Bem, estamos aqui. - Hannah pega o celular e olha a passagem - Nem um pouco empolgada para as próximas 13 horas e 4 escalas que me aguardam. - suspira audivelmente e retira um pacote de dentro da bolsa - Isso é pra Gou, de aniversário. O presente de Natal eu trago de casa.

- Não se preocupe com isso, só tenha um bom vôo e diga oi para os seus pais por mim. - a abraçou e bagunçou novamente seu cabelo - E não brigue muito com eles, está bem?

- Não prometo nada. - ela abraça Sousuke e dá um beijo na sua bochecha - Boa sorte, você vai precisar.

- Certo... - ele a encara sem entender e eu acabo rindo - Boa viagem!

Ela acena uma vez e entra para a área de embarque.

- Rin...

- Hmmm? - nos viramos para sair do aeroporto.

- Por que a Hannah me desejou boa sorte?

- Não faço ideia... - rio enquanto ele faz careta - Não precisa se preocupar, Môsuke, os Matsuoka não mordem. - sorrio de lado mostrando os dentes pontiagudos.

O moreno leva a mão no ombro esquerdo.

- Não mordem? Tem certeza?

- Só quando merecem... - o empurro de leve - E quando pedem.

Acabamos rindo e saindo para o sol fraco de inverno que iluminava Tóquio.

- Está tudo pronto para irmos para Iwatobi? - me aproximo de Sousuke para enfrentarmos a caminhada até a estação de metrô.

- Quase. - ele fecha o casaco e esconde as mãos no bolso, o rosto uma carranca para o frio - Só preciso pegar o restante das roupas.

- Não esqueça das roupas de banho. - esse comentário valeu um olhar assassino - Bem, eu não vou deixar de treinar só porque estamos de férias.

- Você não entende a concepção de descanso, não é mesmo?

Entramos no metrô, o carro estava vazio devido ao horário e às férias. Sousuke se escora na parede ao lado da porta e fico em pé na sua frente.

- Claro que entendo, mas tenho amigos que só vejo nas férias. E o Haru só funciona bem quando tem água envolvida... - balanço a cabeça - Ele é incrível nadando, você vai ver.

Por um instante um brilho de rancor apareceu nos olhos do namorado, mas logo ele sorriu quando perdi o equilíbrio e cai em cima dele.

- Eu sempre soube que não consegue tirar suas mãos de mim... - Sousuke coloca a mão em meu quadril para me estabilizar enquanto deixo minha mão em seu peito.

- Imbecil... - sorrio e permaneço apoiado nele.

A viagem até Iwatobi foi tranquila. Chegamos ao final do dia na estação e descemos à pé até minha casa, o pôr do sol tingindo o céu e o mar de tons avermelhados.

- Lar doce lar... - inspiro o ar marítimo, relaxando um pouco mais a cada passo dado.

- É uma cidade bem tranquila... - até mesmo Sousuke parece mais relaxado enquanto caminhamos - Consigo entender porque sente falta daqui.

- Bem... - sorrio e o empurro de leve - É um contraste e tanto com Tóquio, não é mesmo?

Chegamos à porta da minha casa e a encaro por um longo momento, juntando coragem para entrar. Não é que estivesse preocupado com a recepção da minha família, mas... Suspiro antes de abrir a porta. Existe a questão do "namorado", não é mesmo?

- Cheguei.

Havia três pares de sapato organizados na entrada. Entramos e nos descalçamos, escutando minha mãe cantarolando da cozinha.

- Vamos deixar as coisas no quarto...

Quando dou o primeiro passo para entrar, Gou aparece no corredor.

- Aonde pensa que vai?

Aponto para nossas bagagens.

- Você não pode! Tem que beijar a Hannah!

- Você não está fazendo o menor sentido. – cruzo os braços e a encaro enquanto ela aponta para o ramalhete de visco pendurado no hall de entrada – Gou...

Sinto o rosto esquentando quando Sousuke ri atrás de mim.

- Você não é a Hannah... – minha irmã comenta.

- Não, eu não sou a Hannah.

Gou fica nos encarando por alguns instantes antes de cruzar os braços.

- Bem, não tenho a noite inteira.

Sinto como se fosse morrer, não posso acreditar que minha irmã está se portando como a pirralha adolescente que ela é.

- Bem… Regras são regras… - escuto Sousuke murmurar antes de me puxar para um beijo, um tanto mais profundo do que o momento exigia e Gou praticamente vibra de alegria.

Logo ela nos deixa ali, estou tendo dificuldade para aceitar o que está acontecendo e me deixo ficar com o rosto escondido no pescoço de Sousuke.

- Acho que agora entendi porque a Hannah me desejou boa sorte…

Rio do seu comentário.

- Vamos lá, você precisa conhecer minha mãe. - entro em casa já procurando a terceira pessoa - Gou, cadê o seu pretendente?

- Rin, seja educado. - minha mãe se aproxima enxugando as mãos em um pano de prato e eu a abraço com força - O Seijuro é uma ótima pessoa. - ela sorri para Sousuke - Muito prazer, sou Miyako.

Ele estende a mão para cumprimentá-la, com um sorriso no rosto.

- Muito prazer, dona Miyako. Sou o Sousuke, espero não estar atrapalhando.

Ela ignora sua mão estendida e o abraça, Sousuke demora um instante para retribuir o abraço.

- Deixe de bobagens, é um prazer tê-lo aqui. - ela sorri e volta para a cozinha - Agora entendo porque o Rin não vem nos visitar…

- Mãe… - reclamo - Não é como se eu não tivesse passado as férias de verão aqui.

- Bem, poderia vir mais vezes. - ela aponta uma espátula na minha cara - O Seijuro mora em Tóquio e vem pelo menos duas vezes no mês nos visitar.

Sousuke acaba rindo e eu encaro o homem ao lado de Gou. Ele sorri acanhado enquanto arruma o cabelo laranja.

- Sabe que não me importaria de vir mais vezes, Miyako, mas a senhora insiste para que a Gou tenha seus dias para estudar.

- E ela está certíssima. - dou um sorriso cheio de dentes para ele - Minha irmã precisa estudar. - comento, dando ênfase à visível diferença de idade entre eles.

Por um instante parece que ele não vai falar nada, mas então ele sorri e bate em meu ombro.

- Agora eu o reconheci! - ele sorri - Você foi incrível na competição, Matsuoka! Infelizmente eu não consegui me colocar para o torneio fechado, mas você se saiu muito bem…

E simples assim, nos sentamos e ficamos conversando por todo o restante do dia, enquanto Sousuke ajudava minha mãe a cozinhar e Gou atrapalhava os dois experimentando de tudo.

Acordei ao raiar do dia seguinte. Estaria atrasado se não estivessem no inverno, mas quem correria antes do nascer do sol em pleno inverno, não é mesmo?

Sentir o aroma marítimo enquanto estava nos braços de Sousuke, embrulhados embaixo de cobertores e, pelo peso em cima das pernas, com um gato aconchegado era quase um sonho.

Sentia que traía todos os seus sentidos ao se forçar a levantar, mas ainda havia uma visita em especial que precisava fazer.

Suspirei ao me desemaranhar delicadamente dos braços do namorado, esforçando-me ao máximo para não o acordar. Sousuke já não era feliz ao acordar cedo normalmente, imagina nas férias. E no frio.

- Onde... – a voz grave de Sousuke foi interrompida por um longo bocejo – pensa que vai? – sinto os braços se apertarem ao meu redor – Eu exijo pelo menos um dia de folga.

Rio me deixando ser preso nesse abraço.

- Mas hoje é seu dia de folga... – mordisco de leve o pescoço dele. Escuto quando Sousuke respirou fundo, levantando o rosto e expondo mais do seu pescoço – Só estou indo visitar meu pai...

- Oh... – Sousuke suspirou lentamente e baixou os olhos até me encarar – E não ia me chamar?

Sinto o rosto esquentar e sorrio sem graça.

- Não queria te acordar tão cedo no nosso primeiro dia aqui para leva-lo lá...

Sousuke fica alguns segundos me encarando, com o semblante fechado até que ele se levanta, me puxando com ele até nos sentarmos, envolvo sua cintura com minhas pernas para ficar mais confortável.

- Não adianta tentar me confundir, senhor Matsuoka... – ele sorri de lado e me beija – Você não vai escapar me provocando.

- E era para tentar escapar..? – sorrio entre os beijos até que ele encosta sua testa na minha e me encara sério.

- Não ache que eu não faria questão de participar da sua vida, Rin. – ele suspira e fecha os olhos – É um prazer estar aqui com você, com sua família. – e sorri de lado – Mesmo que você seja um viciado em acordar cedo e treinos.

Sinto os olhos se encherem de lágrimas, o coração bater mais forte. Não é que não queira que Sousuke fizesse parte de toda a minha vida. Pelo contrário, sentia como se não fosse eu mesmo se ele não estivesse ali, ao meu lado. Mas...

- Desculpe-me Sou... – dou um pequeno sorriso entre as primeiras lágrimas que caem de meus olhos – Só não queria sobrecarrega-lo depois da noite de ontem...

Sousuke sorri e beija o caminho de uma das lágrimas antes de me dar um beijo casto nos lábios.

- Não chore, Rin. – ele me abraça forte uma última vez antes de me empurrar para se levantar – Não quero que seu pai ache que não sou bom o bastante para você.

- Imbecil... – não seria assim que conseguiria parar de chorar. Resolvi me levantar e terminar de me arrumar – Estarei na sala.

Pego o celular e sou bombardeado de mensagens assim que o ligo. Nagisa como sempre parecia sentir quando eu colocava os pés em casa. Ou Gou simplesmente contou para eles. Ignorou as primeiras 10 mensagens e leu a última.

"Você não vai mesmo nos mandar mensagem? Não seja tão ruim, Tutu!"

"Pra que perder meu tempo se você sempre me sobrecarrega de mensagens, Nagisa?"

"Tão mau! Assim vou achar que não gosta de mim, Tutu!"

Sirvo um copo de suco de laranja e observo a rua deserta. O celular vibra descontrolado ao meu lado.

- Quem mais é louco o suficiente para estar acordado a essa hora? – Sousuke se aproxima bocejando – Não vá me dizer que é um costume de Iwatobi...

Sorrio e entrego uma caneca para que ele tome seu café.

- Não é um costume daqui, mas o Nagisa é animado demais para seu próprio bem... – trocamos um beijo antes dele se virar para pegar o café – Ele me cansa às vezes.

- E eu pensando que era o único que te cansava... – Sousuke desvia do chute que miro nele – E quando você pretende me apresentar aos seus amigos? Inclusive... Tem certeza que são amigos? Porque até agora você não pintou um quadro muito bonito deles...

Fico encarando enquanto ele levanta os dedos contando.

- O Haru é um desesperado por água e antissocial, o Nagisa hiperativo, o Rei é viciado em estatística e teorias... – ele ri – Não parecem ser muito normais.

- Como se você pudesse dizer muito em relação a isso, Môsuke. – levanto uma sobrancelha e ele ri mais – E você se esqueceu do Makoto. O Makoto é bem normal. Ele cuida do resto do grupo, meio como a Hannah cuida da gente.

- Você chama aquilo de cuidar?

Dessa vez consigo acertar um chute em sua perna e ele ri alto.

- Besta... – coloco o copo na pia e olho o relógio na parede – Vamos? Se não vamos acabar atrasando para o Natal.

Sousuke coloca a caneca vazia na pia e se espreguiça, me acompanhando porta afora. Ao contrário de todos os dias, caminho tranquilamente, apontando lojas e casas pelo caminho até a estrada de terra que sobe a encosta do morro. O moreno arqueia uma sobrancelha, mas não comenta nada.

- Acho que nunca te contei a história do meu pai, né? – era sempre agridoce a subida até seu túmulo.

- Não... – ele se aproxima um passo, nossos braços se tocando enquanto caminhamos lado a lado.

- Meu pai era um nadador de primeira. Ele venceu vários torneios quando criança e sonhava em se tornar um nadador competitivo... – passo a mão esquerda pelos cabelos antes de entrelaçar os dedos com os de Sousuke – Só que então ele encontrou minha mãe. E daí você já deve imaginar a história...

Ele aperta minha mão de leve, me observando de rabo de olho enquanto escuta com atenção.

- Quando eu nasci, meu pai percebeu que teria que abrir mão do seu sonho para cuidar da sua família e se tornou pescador. – ainda me lembrava perfeitamente do dia em que minha mãe percebeu sua morte – Ele se perdeu no mar durante uma tempestade de verão. Muitos barcos se perderam naquela tempestade, ela veio sem nenhum aviso.

- Rin...

- Está tudo bem... – sorrio pequeno – Só que é por isso que o túmulo dele está aqui, ele amava o mar.

Chegamos à clareira com o túmulo, ele foi limpo recentemente e finalmente percebo que deveria ter trazido alguma flor e incenso.

- Você está atrasado, Tutu!

Abro um sorriso incrédulo ao escutar a voz do Nagisa. Que logo pula em mim. Por que as pessoas gostam de pular em mim?

- O que vocês estão fazendo aqui? – empurro a cabeça do loiro enquanto encaro Haru, Makoto e Rei – Eu não avisei ninguém...

- E nem precisa não é mesmo, veterano Rin? – Rei arruma seus óculos com um meio sorriso – Esta é sua tradição.

- Bem vindo de volta, Rin! – Makoto sorri e estende uma sacola com incenso e flores de ameixa – Espero que tenha feito boa viagem.

- Obrigado, Mako! Você me salvou! – abraço o rapaz e depois pego a sacola.

- Ei, Tutu, não vai nos apresentar o seu amigo? – Nagisa já rodeava Sousuke, que havia colocado as mãos nos bolsos da blusa de frio e nos observava impassível.

- Desculpe-me Sou... – abro um sorriso para ele – Este é o Sousuke, Nagisa, meu namorado.

- Olá.

Abro um sorriso da seriedade de Sousuke e o deixo lidando com o loiro, que já o enchia de perguntas, e me aproximo do último integrante do grupo. Haru estava observando o mar, mas me cumprimenta com a cabeça.

- Bem vindo, Rin.

- Obrigado, Haru.

Ficamos em silêncio por alguns instantes até que Nagisa chia atrás de nós.

- Assim não vale! Tem meses que vocês não se encontram e essa é a reação? Gol e Tutu são tão sem graça! Nem parece que são rivais!

- Já disse para não me chamar assim, Nagisa. – Haru o encara por sobre o ombro – Não faz o menor sentido.

- Gol? Tutu? – Sousuke parece no limite da sua curiosidade – Que apelidos são esses?

Os olhos de Nagisa brilham enquanto ele se vira para explicar, com o indicador a centímetros do rosto de Sousuke.

- Você já deve ter percebido que o Tutu nada muito bem, né? – recebeu um levantar de sobrancelhas – O que você não sabe é que o Gol nada tão bem quanto! Ele parece um GOL-finho nadando! – Haru desvia o olhar enquanto eu coloco a mão na testa, o Nagisa realmente me cansa – E se o Haru é um golfinho, o Rin é um tubarão! Não tem como ser outra coisa com esses dentes serrilhados!

- Nagisa...

E qual não é minha surpresa ao ver Sousuke rindo abertamente. Nagisa abre um sorriso gigante enquanto eu balanço a cabeça.

- Não vamos prestar nossas homenagens?

A pergunta de Haru me traz de volta ao momento, mas tenho certeza que meu pai estava sorrindo para nós. Coloco o incenso e as flores dispostas em frente ao seu túmulo e ficamos ali por algum tempo. Os meninos saem na frente enquanto fico para trás com Sousuke.

- Eles são interessantes, Rin. – ele sorri de lado e entrelaça os dedos com os meus – Acho que vamos nos dar bem.

- Espere só até os ver na piscina, parece que se transformam. – deito a cabeça em seu ombro com delicadeza para não o machucar.

Sousuke me abraça e baixa o rosto para me encarar melhor.

- Quer dizer que você escondeu sua verdadeira face todos esses meses, Tutu?

Sorrio mostrando os dentes.

- Não comece, Môsuke.

Era sempre incrível ver Haruka nadando. Mesmo a contra gosto, sabia que Nagisa tinha uma certa razão. A forma como o moreno nadava era tão pacífica, tão completa que parecia realmente um golfinho.

É claro que nunca diria nada para ele.

- Você tem certeza que não vai entrar, Sou? – estava pronto para entrar na piscina, enquanto observava os quatro amigos brincando na água.

- Tenho. – ele sorriu de lado – Vou acabar querendo vencer seus amigos e ganhar um apelido e provavelmente só ganharei mais uma lesão...

Deu um leve empurrão com a perna no namorado.

- Bem, quando quiser ir embora é só me chamar, ok? – deu um pequeno sorriso e se voltou para a piscina, já se preparando para saltar.

- Pode deixar, Rin.

E simples assim, voltaram a um companheirismo, mesmo à distância. Por mais que o moreno não estivesse dentro da piscina, passou todo o tempo conversando com o namorado, dando dicas e ajudando o mesmo a melhorar ainda mais o tempo e a forma como nadava.

Enquanto Sousuke dava algumas dicas para Rei, Makoto se aproximou do ruivo.

- Agora entendo como você melhorou tanto desde nossa última reunião... – o rapaz sorriu de lado enquanto encarava o moreno fora da piscina – Com um treinador desse, eu me impressionaria se não melhorasse.

- Ele não é meu treinador... – sorriu sem graça e voltou a se preparar para atravessar a piscina – Ele só não quer exagerar. Em Tóquio nadamos juntos por diversão.

- Ele também não compete? – Haru acabou se aproximando.

Suspirou e passou a mão no rosto, não era uma informação que os amigos não conheciam, afinal, eles o ajudavam sempre que sentia a dor no ombro.

- A lesão do ombro dele é um tanto séria... – voltou a encarar os amigos depois de lançar um olhar para o namorado que agora lidava com Nagisa – Ele não nada competitivamente há quase um ano.

O silêncio que essa informação trouxe o deixou ligeiramente irritado. Sabia exatamente o que os amigos estavam pensando, porque era o mesmo que pensava diariamente antes de conhecer Sousuke. Como poderia viver sem fazer aquilo que tanto amava?

- Eu sei que faz tempo que não se veem, e não me levem a mal, mas ver Rin sem treinar é quase um sonho... – a voz grave de Sousuke os chama da beira da piscina – Mas eu realmente esperava vê-los mais competitivos do que isso...

E abriu um sorriso cheio de dentes ao encarar Haru.

- Realmente, Haru... Que tal uma corrida?

E simples assim, deixou seus pensamentos lentamente se afastarem da dor do namorado. Sabia o que o moreno sentia e o quanto ele se irritava quando as pessoas só viam sua lesão.

O restante das férias transcorreu com tranquilidade. Rin corria com os amigos pela manhã enquanto deixava Sousuke dormir um pouco mais, depois se juntavam e passeavam, brincavam, treinavam.

A rotina logo os envolveu e quando menos esperavam, chegou o dia de voltar para Tóquio.

- Apenas me prometa que virá mais vezes, Rin.

Abraçou a mãe com força, sentindo os olhos marejarem.

- Claro, mãe.

- E você sempre será bem vindo para nos visitar, Sousuke.

O moreno sorriu de lado e a abraçou também.

- Pode deixar, dona Miyako, não deixarei que o Rin fique bitolado nos treinos e esqueça de visitar.

- Ei!

- Sabe mano, eu já gosto do Sousuke.

Já tinham se despedido dos amigos, mas eles acabaram os acompanhando até a estação mesmo assim.

- Não esqueça de escrever, Tutu!

- Não é como se eu estivesse indo para outro país...

- Bem, Rin, da última vez que foi embora, demorou quase 3 meses antes de dar notícias.

- Tch... – coçou a cabeça, sem graça.

- Parece que a sua inabilidade de manter contato com as pessoas é o tema dessa despedida... – Sousuke o empurrou com a perna.

O grupo riu do comentário e então Haruka se aproximou de Sousuke e estendeu a mão.

- Saiba que sempre terá um lugar para treinar, quando se sentir bem o suficiente.

Os morenos se encararam, e Sousuke acaba por apertar a mão estendida de Haruka.

- Obrigado, Haru.

O trem acabara de chegar à estação, encerrando as despedidas e os namorados entraram juntos, sentando-se em seus lugares e Rin permaneceu encarando a janela. Já sentindo o familiar aperto no peito ao deixar sua casa, sua família, seus amigos, sua cidade...

- Ei...

Voltou o olhar para Sousuke que o encarava com um pequeno sorriso nos lábios.

- Obrigado por ter me convidado, Rin.

Sorriu para o namorado e deixou que os sentimentos o cobrissem. Estava mais do que feliz com o fato de que o namorado o acompanhou nessa viagem.

- Eu que agradeço por você ter vindo, Sou... – deitou a cabeça no ombro dele – Sei que posso ser um fardo de vez em quando, mas foi incrível que tenha conhecido minha família e meus amigos...

Ficaram em silêncio por algum tempo, as mãos entrelaçadas e as respirações sincronizadas. Chegou até a pensar que o namorado tinha dormido, mas a voz de Sousuke o chamou baixinho.

- Ei Rin... – o namorado o encarou de canto de olho – Tem algo que eu preciso te contar.

- Hmm..? – sentiu o coração se apertar no peito, Sousuke não o encarava e se lembrou de como o namorado ficou após se classificar para o Torneio Fechado. Será que fizera alguma coisa?

Sousuke respirou fundo e pegou a sua mão, entrelaçando os dedos e encarando as mãos unidas.

- Antes de sairmos de férias, eu conversei com meu médico. – ele fazia movimentos circulares com o dedão na palma de sua mão – E ele disse que existe uma grande chance de eu poder voltar a nadar competitivamente se eu fizer a cirurgia.

- Cirurgia..? – o sangue pareceu correr mais devagar em suas veias, tentou olhar nos olhos turquesa, porém o namorado ainda desviava o olhar – E quando decidiu isso?

O moreno ao seu lado deu um sorriso amarelo e passou a mão livre pelo cabelo.

- Não fique chateado, Rin. Eu ia te contar sobre isso, mas não queria atrapalhar nossas férias... – finalmente ele voltou o olhar para seu rosto – E não queria perder a oportunidade de ficar com você, conhecer sua família e amigos...

Passou alguns segundos encarando o nada à sua frente, sem conseguir de fato encarar o rosto tenso de Sousuke. Não sabia o que dizer. Não fazia ideia do que sentir ou pensar.

- Rin?

Respirou fundo antes de encarar o namorado ao seu lado, com um pequeno sorriso nos lábios.

- Você nunca mais poderá brigar comigo por conta dos meus treinos... – sentiu a emoção tentando pressioná-lo, mas precisava ser forte o suficiente para acalmar o moreno – Afinal, vai passar por uma cirurgia só para poder voltar a competir.

Trocaram um sorriso e se abraçaram. Estavam tensos, mas tinha a certeza de que estaria sempre ali, ao lado dele, o ajudando a passar por esse momento delicado.

- Então a cirurgia é amanhã? – Hannah estava com o cabelo pintado com mechas lilases, impressionante como ela sempre voltava com alguma coisa nova de casa – E tem certeza que não quer deixar o trabalho amanhã pra ficar com o Sousuke?

- Bem... – pegou a ficha com o pedido da mão da amiga – O médico dele disse que antes da cirurgia só os familiares poderiam entrar, mas que depois da cirurgia, quando o Sousuke acordar, os amigos poderão visita-lo.

- Hmmm... – a amiga continuou anotando os pedidos antes de voltar a falar – Continuo achando que você deveria pelo menos sair mais cedo.

- Hannah... – encarou a amiga longamente – E você acha que eu vou conseguir ficar quieto esperando notícias dele?

Ela deu um leve sorriso e deu de ombros.

- Até parece que você é uma pessoa ansiosa, Rin...

Deu um peteleco na cabeça dela e continuaram o atendimento até o fim do dia sem mais problemas.

Trocou mensagens com Sousuke, que já estava no hospital, durante todo o dia, contando das coisas mais banais do seu dia até os mínimos detalhes das conversas com Hannah.

"Inclusive, a Hannah disse que é melhor que você não fique fazendo muito drama depois da cirurgia." digitou ao chegar em casa "Ela disse que não vai conseguir aguentar."

"É... Foi a mensagem de boa sorte mais estranha que eu poderia ter recebido..." a resposta de Sousuke foi rápida "Não se torne uma drama queen, já me basta o Rin."

"Ah! Aquela demônia! Ela mal perde por esperar amanhã!" riu enquanto mandava a mensagem, mas logo sentiu os olhos arderem "E como está a preparação para a cirurgia?"

"O pior de tudo é ter que dormir no hospital. Eles não vão me dar mais cobertores e esse ar condicionado está de congelar." sorriu imaginando a carranca do namorado para o frio "Mas tudo bem. A cirurgia será depois do almoço e no final do seu expediente já devo estar de volta ao quarto. Grogue. Talvez te mande umas mensagens estranhas."

"Mais estranhas do que perguntando qual a minha My Little Pony favorita?"

"Se você nunca assistiu My Little Pony, saiba que iremos maratonar enquanto eu estiver de molho."

E riu do namorado. Pelo menos ele parecia estar encarando tudo com tranquilidade.

"Rin... Queria que estivesse aqui comigo."

"Também queria estar aí, mas prometo que assim que acordar serei a primeira pessoa que você verá!"

"Eu te amo."

Abriu um sorriso de orelha a orelha enquanto digitava sua resposta.

"Eu também te amo Sousuke Yamazaki. Durma bem e que tenha uma cirurgia tranquila."

Escutou o toque do alarme do celular. Acabou que não dormiu quase nada durante a noite, ansioso com a cirurgia de Sousuke. Não sabia exatamente o que sentia, o que dizer. Há muito não rezava, mas pediu aos deuses para que tudo desse certo com a cirurgia e que o namorado ficasse bom. E logo.

Encarou o celular e não pode deixar de mandar uma mensagem para Sousuke. Tinha certeza que o namorado não a leria tão cedo, mas não resistiu à selfie antes de sair para a corrida matinal. "Mal posso esperar para correr com você..."

Antes de sair de casa recebeu a resposta "Assim que eu sair desse hospital, você pode começar a pensar em outros jeitos de se manter em forma... Eu tenho algumas ideias."

E riu enquanto seguia com seu dia. Sabia que seria um dia mais silencioso que o normal com toda a preparação para a cirurgia, mas não deixou que isso o incomodasse muito, afinal, tinha que se preparar para o trabalho e para a faculdade. E tinha o trabalho.

Não é como se estivesse só pensando no namorado o tempo todo.

Tentara se convencer que, por mais que fosse uma cirurgia, era uma cirurgia razoavelmente simples. Não havia muito com o que se preocupar, além de complicações que pudessem impedir o namorado de continuar nadando... Não é?

- Pare com isso, Rin.

- Parar com o que? – encarou a amiga como se nada estivesse acontecendo.

- Logo não terá mais unhas... – ela disse apontando para a mão em sua boca – Ligue para o irmão dele se está tão nervoso.

Estavam almoçando juntos. Hannah não dissera nada de mais, mas estava na porta de sua sala quando saiu para almoçar. Era eternamente grato pela amiga estar com ele nesse momento.

Lançou um olhar para o relógio do restaurante e suspirou.

- Pelos meus cálculos ele deve estar entrando para o centro cirúrgico agora... – ela olhou mais uma vez para o celular, antes de voltar o olhar para ele – Não consigo deixar de ficar nervoso.

- Bem... – ela tomou um longo gole de coca-cola – A última mensagem que ele me mandou dizia que a cirurgia seria às 13:00. E agora são 12:45. Respire, Rin.

Era difícil. Não conseguia deixar de ficar nervoso.

Logo, porém, Kisumi os encontrou e começaram a conversar sobre tudo e sobre nada, com os amigos logo caindo em alguma discussão besta sobre o último anime da estação.

Não achava nem um pouco estranho que os amigos se dessem tão bem, até porque os dois eram absolutamente viciados nos desenhos. Então aproveitou a presença de Kisumi para deixar a mente vagar.

A voz dos amigos logo se tornou um som distante enquanto os olhos passeavam pelo restaurante sem se focarem em nada. Ficou imaginando o que o namorado poderia enviar de mensagem quando começasse a se recuperar da anestesia. Já pensando no quanto iria encher o saco dele.

Acompanhou os amigos quando se levantaram para pagar a conta, porém sentiu uma pontada no peito.

Respirou fundo uma vez e continuou caminhando, levando a mão ao peito e sentindo um leve desconforto para respirar.

- Hannah... – sussurrou, a respiração falhando momentaneamente, não estava conseguindo raciocinar direito.

- O que foi Rin? – o sorriso dela se desfazendo ao observá-lo – Rin?

Isso não podia estar acontecendo. Não agora, não dessa forma. As lágrimas estavam escorrendo pelo seu rosto, o pânico apertando o peito.

- Meu ombro..! – sentiu as pernas falhando embaixo de seu corpo – Meu ombro está doendo.

O olhar que os amigos trocaram antes de o ajudarem a se levantar. Eles sabiam o que isso significava. A única coisa que podia significar.

Algo dera muito errado na cirurgia de Sousuke.

- Fique calmo, Rin. – Kisumi o ajudava a caminhar enquanto Hannah digitava loucamente em seu celular – Vamos para o hospital agora.

Em algum momento deixara de escutar os amigos. Só conseguia pensar na dor que sentia no ombro, na dificuldade para respirar, na moleza nas pernas. Estava sentindo algo que não era seu. Algo que não deveria acontecer.

Algo que só podia significar uma coisa.

- Sousuke... – murmurou, as lágrimas ainda rolando pelo seu rosto.

- Você não vai desmaiar agora, está escutando? – Hannah estava ao seu lado, batendo em seu rosto – Nós já estamos a caminho. Aguente só mais alguns minutos.

E tão rápido quanto veio, a dor o abandonou.

- Não... – a respiração continuava rápida, pior agora, inclusive – Não, não, não...

Os amigos pararam de caminhar, o encarando.

- Rin..? – Kisumi o encarou, o olhar assustado.

- Passou... – e se sentiu escorregando até o chão – Eu não sinto mais nada.

Acordou com o segundo toque do alarme. Piscou os olhos lentamente enquanto encarava o teto escuro. Tentava em vão se lembrar do sonho que tivera, mas era o mesmo que tentar segurar areia nas mãos, os grãos se esvaindo entre os dedos com cada novo piscar de olhos. Suspirou e começou sua rotina matinal em silêncio.

Ainda não sabia como tinha sobrevivido ao dia anterior. Lembrava-se de cada momento, cada mísero segundo da sua vida depois que sentiu tudo o que Sousuke sentira.

O celular vibrou na mesa de cabeceira. "Você está bem?" Hannah não o deixara em nenhum momento, tivera que convencê-la a ir para casa. Precisava de alguns minutos sozinho.

"Vou ficar..."

Encarou o nada. Respirou fundo e pegou a camisa preta. Ela estava um pouco amassada e se pegou pensando no quanto a mãe brigaria com ele pelo desleixo, mas não podia se importar menos.

"Está atrasado."

O celular passara a noite inteira pipocando de mensagens. Parecia que todos os amigos de Iwatobi, sua família, seus colegas do time de natação... Todos estavam preocupados, sem saber o que dizer.

Suspirou e saiu de casa.

- Você se preocupa demais, Hannah... – encarou a amiga que o aguardava na porta do prédio.

- Como se eu fosse deixa-lo sozinho. – ela deu de ombros e pegou sua mão – Está pronto?

Tentou dar um sorriso, mas tinha certeza que não fizera um bom trabalho. Ela fez uma careta.

- Só vamos.

A caminhada foi lenta, não havia nenhum motivo para pressa. Pela primeira vez se perguntou porque achava tão importante correr para os lugares, se esforçar tanto.

- Você sabe que se continuar com essa cara, serei obrigada a te bater.

- Não sei bem como fazer outra cara... Pelo menos não ainda.

O silêncio os envolveu novamente, deixara o celular em casa, não aguentava mais ouvi-lo tocando com as mensagens.

- O pior de tudo é que... – respirou fundo – Eu nem tentei vê-lo antes da cirurgia. Tinha tanta certeza que o veria hoje que nem me esforcei.

Hannah o encarou longamente antes de dar um soco em seu braço.

- Pare com isso. Já passou. – ela pegou sua mão novamente – Fora que ele também sabia que você não poderia entrar. Regras são regras.

Baixou o olhar para a amiga.

- Hannah dizendo que regras são regras? – e conseguiu dar um pequeno sorriso – Quem é você e o que fez com a minha amiga?

- Idiota.

E continuaram caminhando, um pequeno sorriso nos lábios de ambos. Logo estariam no hospital.

- Sabe... – Hannah começou baixinho – Eu não te contei uma coisa.

- Hmmm?

- Eu descobri quem é meu par. – ela fez uma pequena careta.

Parou de chofre e encarou a amiga.

- Como é que é?

- A culpa é exclusivamente sua, inclusive. – ela continuou andando – Ou de Sousuke, se for parar para pensar bem.

- Hannah, você não está fazendo o menor sentido.

Ela levou o dedo aos lábios e continuou andando na frente, forçando-o a alcança-la.

- Como assim? Me explica direito essa história! – se ela queria distraí-lo, estava conseguindo lindamente.

- Você logo vai entender...

E pararam na porta do hospital.

- Vamos entrar?

Apertou a mão da amiga e respirou fundo. Hora de enfrentar a realidade.

Entraram e logo se dirigiram para a ala correta. Sabia que Hannah comentava algo ao seu lado, mas não conseguia perceber nada além das batidas do seu coração, a respiração ficando mais difícil a cada passo.

Ainda não tinha certeza se estava pronto para o que encontraria depois daquela porta. Entretanto o tempo não estava a seu favor, logo já se encontrava ali.

- A porta não morde, sabe disso, né? – Hannah falou baixinho ao seu lado.

Permaneceu ali, a alguns passos da porta que o amedrontava. Percebeu quando a amiga acenou para alguém que se aproximou lentamente.

- Hannah, é bom vê-la.

Lançou um olhar para o homem que chegou. Hannah o encarava de braços cruzados.

- Não vá me dizer que ficou vigiando se eu voltava ou não. – a amiga tinha um brilho no olhar que não via há algum tempo.

- Não é minha culpa, se fez questão de não me passar o seu telefone. – observou o rapaz – É ele?

- Sim. Vamos, temos que conversar sobre limites. – pegou o homem moreno ao seu lado pelo braço e começou a caminhar – Estarei na cafeteria, Rin.

O rapaz sorriu de lado e acenou enquanto acompanhava a amiga. Será que ele era o tal par dela?

- Depois você tem muito a me contar, mocinha... – sussurrou antes de esticar a mão para a porta e empurra-la, o coração ainda disparado no peito.

A imensidão branca do quarto, o frio intenso, tudo parecia demais para ele. Encarou a cama e o namorado que se encontrava ali.

- Rin... – Sousuke sussurrou baixinho, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios.

- Maldito... – as lágrimas caíram de seus olhos e nem mesmo tentou contê-las enquanto se aproximava da cama e se sentava – Você não imagina o que eu passei ontem.

Sousuke leva a mão ao seu rosto, limpando as lágrimas de seus olhos.

- Me perdoe, Rin. – havia lágrimas em seu rosto também.

Sousuke sofrera uma parada cardíaca durante a cirurgia e fora isso que Rin sentira durante a tarde.

- Você não sairá do meu campo de visão tão cedo, Sousuke Yamazaki.

Eles se abraçam, Rin se aconchegando na cama do namorado.

- Como se eu quisesse...