Capítulo 4 – Kabhi khushi kabhie gham (Às vezes alegrias, às vezes tristezas)
Chichi baixou os olhos, subitamente consciente de que estava fora do set, numa vizinhança estranha e que podia ser perigosa, dentro de um bar provavelmente mal frequentado, diante de um completo estranho, que podia ser um sequestrador maluco, um psicopata ou um tarado. Ela fez menção de sair mas o rapaz disse:
– Espere! Por favor, espere! – ele pulou com uma agilidade impressionante o balcão e logo estava diante dela, e, num gesto de respeito, tocou-lhe os pés, então levou a mão aos lábios e ao alto da cabeça, que manteve baixa dizendo – Namastê e meus respeitos, senhorita Chichi. Vi todos os seus filmes, sou seu fã desde o primeiro filme, que eu assisti 17 vezes!
Ela de repente riu e disse:
– Não precisava ter feito isso... tocar o chão que eu piso... eu sou só... uma garota.
– Uma atriz famosa, e eu sou só um entregador de doces e... estudante! – ele disse, hesitante, porque embora matriculado, ele achava cada vez menos que conseguiria terminar o ensino médio, porque não era um bom aluno e acabava faltando bastante para dar conta das entregas dos doces da mãe.
– Isso é uma bobagem – ela riu – não me sinto em nada superior a ninguém. E eu gostei de ver você dançando.
– Ahn – ele coçou a cabeça, sem jeito – eu estava... ensaiando, sabe? Para o concurso do Festival do Ganesha Chaturthi no templo perto da minha casa. – ele se aprumou e disse – eu ganhei o concurso infantil três vezes, e eu e a minha irmã vencemos o de dupla jovem ano passado, e eu dancei como o senhor Sharukh Khan no ano passado e venci o concurso jovem. Estou ensaiando com Dhoom Again para estrear no concurso adulto, porque eu já tenho 16 anos! – ele a encarou, orgulhoso. Ela sacudiu a cabeça pensativa e disse:
– Qual música? Digo, com qual música você venceu o concurso jovem?
– Khaike Paan Banaraswala. – ele disse, empertigado.
– Uau. Essa música é difícil.
– Sim, é. Mas eu ainda sei dançá-la inteira – ele sorriu – quer ver?
Ela hesitou um instante. Olhou para a porta. Já a deviam estar procurando. Mas era só uma música.
– Pode ser! – ela tentou não soar empolgada, mas estava – mostre!
Ele foi até o som, onde seu mp3 meio bugado estava servindo de drive para ele ensaiar, precariamente ligado ao aparelho. Depois de alguns segundos com ele xingando o aparelho e procurando a música, os versos sobre o rapaz perdido que só tinha como alternativa esquecer os seus problemas mascando folhas de paan (uma mistura de folhas anestésicas e ligeiramente entorpecentes) soaram alto no ambiente. A coreografia era engraçada e divertida, e em determinados momentos, simulava que ele estava bêbado ou chapado, e ela riu quando ele começou a dançar em volta dela, da mesma forma que Sharukh Khan dançava em volta de Pryanka Chopra no filme. De repente, sem perceber, ela estava dançando com ele, de improviso, o que para ela não era difícil, e, quando terminou os dois estavam rindo, e ela disse:
– Essa música é muito divertida, não é? Você dança muito bem. Onde aprendeu?
– Imitando os filmes – ele disse – com a minha irmã Bulma. – de repente, ele olhou para ela e disse, ingenuamente: – você deve conhecer todos os artistas!
– Alguns – disse ela, ficando séria, de repente lembrando-se que ele era alguém que não era do seu mundo.
– O senhor Sharukh Khan?
– Sim. Um pouco.
– Como ele é?
– Mais baixo do que parece – ela riu – aliás, o Aamir Khan e o Salman Khan também. As atrizes? Quer saber se conheço alguma?
Ele baixou a cabeça e ficou vermelho ao dizer:
– Você é a minha favorita. Temos a mesma idade, sabe?
Foi a vez dela ruborizar. De repente se deu conta de algo:
– Como é seu nome?
Ele a olhou, espantado. Por um instante, pareceu hesitar, então disse, usando o nome que escolhera para si, já se acreditando artista:
– Goku, Son Goku. Mas pode me chamar só de Goku – ele sorriu.
Chichi se permitiu olhar para o rapaz. Ele era lindo, e ela estava acostumada a ver rapazes lindos, porque as festas, o ambiente que a cercava estava sempre repleto de jovens bonitos, modelos, atores, aspirantes a atores... mas ele tinha algo de diferente dos rapazes que ela conhecia, e ela demorou a perceber o que era, e quando se deu conta, pareceu se encantar mais ainda por ele.
Goku era bonito, mas seu desalinho não era calculado como o dos rapazes que ela conhecia. Ele não estava mal barbeado por "estilinho", mas porque era um adolescente comum de Mumbai. Não ficava horas passando cremes para conservar a pele clara e sem manchas, tinha um bronzeado de quem andava pelas ruas, um cheiro de quem trabalhava para se sustentar. E um brilho nos olhos que ela não tinha visto jamais. De repente ele disse:
– Isso está acontecendo mesmo? Quer dizer... eu estou mesmo falando com a Princesa Shanti? Ou eu fiquei maluco e estou delirando porque peguei sol demais na cabeça?
Chichi deu uma gargalhada e se aproximou dele dizendo:
– Sou eu mesma. Estamos fazendo uma gravação aqui do lado, na fábrica fechada. Finalmente estamos terminando de filmar "Princesa Shanti e a Jóia de Mumbai". Ufa... eu detesto esses nomes idiotas, parece até que eu sou o Harry Potter, que tinha nomes em todos os livros e filmes. – ela disse, querendo parecer mais madura que seus 16 anos.
Ele olhou para ela e sorriu, dizendo:
– Mas todos os seus filmes são bons, maravilhosos. Eu adoro "A Princesa Shanti na floresta de Sumatra". Assisti 12 vezes! Aquela sua dança com o tigre é tão legal! – ele a encarava com os olhos brilhando – como é um tigre de verdade?
– Ah – ela disse – ele não era bravo... eu só precisei dançar um pouquinho perto dele, a maior parte das cenas foi feita diante de um fundo verde, depois as cenas com o tigre foram inseridas.
– Parece que você estava dançando pertinho dele, puxa... – ele riu e disse – eu... eu não acredito que estou falando com você. Sempre sonhei em dançar com você!
Ao dois tinham se aproximado, e Chichi se deu conta de que estava flertando com ele. Ela já tinha se sentido atraída por muitos garotos, mas agora ela se sentia mais que isso, sentia-se encantada pela forma como ele a olhava. Não era um guri interesseiro como os que tentavam se aproximar dela nas festas de estúdio, modelos e jovens atores querendo encantá-la para tentar ser seu próximo par e usá-la para abrir as portas de Bollywood, todos filhos de gente rica e esnobe, criados entre Mumbai, a Europa e Dubai. Não, ele era um verdadeiro garoto sonhador de Mumbai, aquela figura tão cultuada nos filmes que ela acreditava que não existia. Ela sorriu e disse:
– Vamos dançar, então! – ela disse, e sentiu seu coração acelerar um pouco. Nunca tinha sentido aquilo. Completou – por que não escolhe uma música?
– Posso? – ele perguntou, os olhos arregalados e esperançosos encarando os de Chichi e ela assentiu. Ele voou até o som e logo uma música invadiu o ambiente e ele se aproximou dela. De repente, havia hesitação no rosto dele, mas ela se aproximou e segurou a mão dele, sentindo-se estremecer ligeiramente. Eles começaram a se mover ao som de Suraj Hua Maddham (O Sol desceu no horizonte):
O sol desceu no horizonte
A lua se tornou mais brilhante
Por que o céu
Se fundiu na escuridão
Eu estava parado
Enquanto girava a Terra
Meu coração batia...
Minha respiração ficou mais profunda
Este é meu primeiro amor
Meu amor
Ele a girou, então pôs a mão em sua cintura. Como os atores Kajol e Sharukh Khan, no filme "Khabie Kushi Khabie Ghan", eles se aproximavam, se afastavam e então, rodopiavam no ritmo da música, a jovem atriz, linda, arrumada e perfumada, parecendo perfeita no seu sári caro com bordados e o garoto de Mumbai, vestido em roupas simples e suado depois de horas conduzindo uma bicicleta de entregas e entregando doces.
Mas ali, as diferenças tinham desaparecido graças à sua sintonia perfeita. Ele a girou e abraçou-a por trás. Ela fechou os olhos quando o rosto dele se aproximou do dela, sentiu sua respiração na sua bochecha. O coração dos dois estava disparado, e a música os envolvia:
Esses momentos são lindos
Tudo está mudando
Os sonhos se misturando à realidade
Esta é a nossa hora
Quando nos encontramos
É por isso que estou te olhando assim
Deixe durar para sempre
Este instante de amor
Encontre-me assim
Em todas as vidas que eu viver
Chichi já tinha dançado com outros rapazes, mas apenas em festas ou em aulas, para aprender os movimentos de dança em casal, porque cedo ou tarde teria que ter um par de dança. Mas nada a preparara para aquele momento. Goku a girou e eles giraram logo depois juntos, olhos nos olhos. Ela prestou atenção na música, tentando se concentrar, mas era difícil, com a letra dizendo:
É com sua cor
Que eu fui colorido, amor
Tendo te alcançado
Estou perdido e apaixonado
Oh, meu amado, em seu amor
Estou me afogando a ponto
De secar um oceano...
A noite começou a acordar
Corações em brasas
Ardendo como fogo vivo
Foi repentino, e, no meio da dança: seus rostos se aproximaram, sem que eles conseguissem controlar, e ela fechou os olhos, enroscando os braços no pescoço dele no meio de um rodopio, e, quando pararam, os lábios se tocaram e Chichi sentiu um arrepio. Aquele era seu inesperado primeiro beijo. Suave, sentido... ela entreabriu os lábios e o sentiu fazendo o mesmo. Nenhum dos dois conseguiu frear a vontade de deixar as línguas se tocarem, e Goku apertou sua cintura com mais força, como se para se certificar que ela estava de fato ali, não era delírio ou miragem.
Deixe o sol continuar a queimar
Deixe a lua ficar esmaecida
Esse sonho é difícil
Pois nossos mundos são separados
Os últimos versos da música a despertaram do transe e fizeram que os dois, de repente, se soltassem, como que envergonhados, um instante antes da música cessar e o bar ficar em silêncio. Goku se desculpou imediatamente, dizendo:
– Des... Desculpe, não sei o que... me deu e eu...
– Não... – ela baixou a cabeça, enrubescida – eu acho que também... quis...
Ele a encarou. O batom dela havia borrado ligeiramente e ele levou a mão ao rosto dela, dizendo:
– Desculpe, desculpe... parece que eu... ai... borrou aqui...
Ela riu, e ele riu também, timidamente. De repente, ela ficou séria e perguntou:
– Você... você já tinha beijado alguém antes?
Ele congelou na pose que estava. Não queria parecer idiota, mas não conseguia mentir então disse:
– Não. Nunca... e você?
– Também não.
Os dois se encararam, por um instante. Os rostos rubros, a atração incomodamente presente. Goku queria dar nela mais um beijo, mas não queria ser abusado, então disse:
– Você gosta de besan ladoo?
Ela ia dizer que não podia comer doces, que fazia uma dieta rígida e saudável, mas, então, o encarou e disse:
– Eu adoro!
O rosto dele se iluminou e ele disse:
– Vem aqui – ele a puxou pela mão, sorrindo, e a levou até o balcão. Abriu uma das caixas de papelão que havia trazido e retirou uma bolotinha doce do tamanho de uma bola de ping pong e disse:
– Desculpe eu só te dar uma... mas é que eu trouxe para o senhor Poppo, ele é um ótimo comprador... – ele estendeu a bolinha para ela, que deu uma mordida e disse:
– Nossa! Nunca comi ladoo um tão gostoso!
Ele riu, orgulhoso e disse:
– Minha mãe que faz! O melhor besan ladoo de Mumbai, tenho certeza, mesmo não tendo provado todos!
Ela gargalhou e pegou o resto da bolinha, que foi mordiscando para durar, sabia lá quando teria outro doce gostoso daquele para comer.
– Sua mãe é uma doceira maravilhosa, então! – ela sorriu – ela só faz besan ladoo?
– Não. Não, ela faz muitos doces, de todos tipos e sabores. Eu tenho certeza de que quando tivermos um pouco mais de dinheiro ela vai ser conhecida como a melhor doceira de Mumbai!
– Ela sempre fez doces? – Chichi agora lambia os dedos, deliciada e Goku disse, baixando os olhos.
– Não... ela precisou vender doces... por que meu pai... bem, ele era policial. Um bom policial, eu sei... mas um dia ele... bom, ele foi morto. – Goku ficou mudo, olhando para baixo.
– Oh, eu sinto muito! Sinto muito mesmo... mas eu tenho certeza de que a sua mãe... ela deve ser uma mãe... – o rosto dela, de repente, se entristeceu.
O rapaz olhou para ela. Engraçado como parecia que se conheciam há tanto tempo. Ele disse:
– Eu também sinto muito por sua mãe...
Os dois ficaram novamente em silêncio. Chichi olhava para os pés de Goku, calçados em sandálias simples. Ele usava uma calça surrada, com a barra desfiando. Os olhos dela subiram até o peito dele. Era largo, porém magro, seus ombros também eram largos, os braços um pouco musculosos, talvez por pegar muito peso. Então ela percebeu que, todo tempo, ele olhava para seu rosto e o encarou. Os dois ficaram se olhando e pensando, sem saber, ao mesmo tempo, se existia mesmo amor à primeira vista.
O momento mágico foi abruptamente interrompido pelo som da portinhola da loja abrindo-se, fazendo os dois darem um pulo. Antes que Goku desse por si, estava sendo jogado no chão por um segurança careca, enquanto várias pessoas invadiam o bar falando ao mesmo tempo, cercando Chichi, que, de repente se deu conta e gritou:
– Largue-o, Tenshinhan!
O segurança olhou para ela, e então para Goku e perguntou:
– Quem é você, ladaka (garoto)?
– Ai, me solta – Goku não parava de tentar lutar com o outro, mas tinha sido pego de surpresa e estava em posição desvantajosa – eu trabalho aqui!
– Solta ele, Tenhsinhan! – Disse Chichi – a gente estava apenas conversando!
O segurança afrouxou o aperto e Goku se levantou de um salto, esfregando o pescoço e olhando feio para Tenshinhan, que o encarava sério.
– Como você veio parar aqui, minha filha? – o pai de Chichi apareceu, esbaforido – e quem é esse aí? – ele apontou para o rapaz, que se empertigou e disse:
– Son Goku, senhor. Esse é meu nome. – Ele tinha plena consciência de que estava usando um nome falso, mas não era como mentir para a polícia. – Eu só estava conversando com a senhorita Chichi.
– É verdade, papai – disse Chichi com uma pequena nota de desespero na voz. Ela então decidiu contar a verdade, ou melhor, a parte da verdade que ela achava aceitável – Eu saí da fábrica e ouvi uma música. aí vi esse rapaz dançando. Ele me disse estar ensaiando para um Ganesha Charturi do bairro. E eu fiquei conversando com ele.
– Mas minha filha… – Cutelo não sabia o que dizer, então Chichi aproveitou essa vantagem.
– Será que agora nem mesmo conversar eu posso? – ela aumentou o drama na voz – eu nem fui longe, estou sempre obrigada a ficar presa naquele trailer…
Ela observou o pai, como estava acostumada a fazer. Apareceu um certo ar de culpa nele, como se ele estivesse sendo injusto nas suas preocupações. Ela então disse:
– Papai, eu vi Son Goku dançando e ele é realmente muito bom, deveríamos conseguir um teste para ele com o Whis…
Embora Chichi tivesse realmente gostado do jeito dele dançar, queria mesmo era poder prolongar o contato com Goku. Mas ela era proibida de fornecer seu telefone pessoal a desconhecidos, e, como qualquer adolescente indiana, não costumava ignorar proibições feitas pelo pai. Mas claro que a melhor forma de continuar a encontrar o rapaz era torná-lo um conhecido, trazendo-o para o seu meio.
– Mas minha flor… como vamos saber se…
– Apenas um teste, papai, um pequeno teste. Dê a ele o cartão de Oolong para que ele ligue e possa mostrar suas habilidades.
Goku, ou melhor, Kakarotto, observava o diálogo em pura expectativa. Não podia crer que aquilo estava realmente acontecendo. Um teste de dança? Conseguido pela própria estrela Chichi Cutelo?
– Está bem! – disse o pai – Oolong, venha cá. Entregue um cartão para o...
Nesse momento, Raaja Vegeta apareceu na porta do bar e Cutelo estremeceu. O produtor disse:
– Que história é essa de que a menina está de conversa com um pequeno vagabundo de Mumbai? E o que você está fazendo, Cutelo?
– Bem, ela disse que o rapaz dança bem e…
– Dança bem? Agora vamos sair dando chance a qualquer um que, na visão da garotinha, "dance bem"?
– Ele dança bem sim! – protestou Chichi, já ciente do poder que o antigo par da sua mãe tinha para influenciar seu pai – papai, dê o cartão.
– Está louco, Cutelo?
– Bem…
– Senhores? – de repente, a voz firme do rapaz chamou a atenção dos dois homens mais velhos. Ele olhou para um e outro e disse – Eu realmente sou apenas um garoto de Mumbai que dança. – ele sorriu seu sorriso bonito – apenas mais um. Lá fora está a bicicleta de entregas de doces, é assim que eu trabalho, e eu estava aqui no bar que limpo, porque sou honesto e trabalhador. – ele se empertigou e encarou Raaja Vegeta, que era pouca coisa mais alto que ele – Não sou um vagabundo ou um malandro.
Raaja Vegeta o encarou de volta. Sabia que ele tinha impressionado Chichi de alguma forma. Então, tentou usar a carta da casta:
– Qual sua casta, jovem?
O rapaz apertou os lábios. Aquilo era indelicado de se perguntar. Mas ele estufou o peito e disse:
– Sou Xátria (classe dos guerreiros). Mas minha mãe e meu pai ensinaram-me que isso não tem a menor importância. Tanto que cá estou, trabalhando duro como um Sudra (trabalhador braçal) faria, em outros tempos e vendendo os doces que minha mãe faz, como um bom Vaixá (casta comerciante) faria.
Chichi riu-se interiormente. Toda vida seu pai havia se sentido inferiorizado por Raaja Vegeta, que tinha origem Xátria, sendo ele um Sudra, a classe mais baixa, que estava acima apenas dos párias e dos sem casta. Falando de igual para igual com o arrogante produtor, Goku havia conquistado o respeito do seu pai, que disse:
– Não há nada demais que o menino faça um teste. É apenas um teste, e para dança. Não é como se ele fosse se tornar o novo Salman Khan. – entende isso, meu jovem?
– Perfeitamente.
– Então dê a ele um cartão, Oolong…
O homenzinho deu a ele um cartão e ele sorriu. Oolong o encarou de má vontade e disse:
– Dias de semana, a partir da semana que vem, de 9 às 20h. Fora disso não atendo. Ligue e eu agendo um teste com Whis. Indo bem, você pode entrar para o coro…
– Obrigada – ele sorriu – virou-se para Chichi e disse – ninguém na minha rua vai acreditar nisso.
– Não seja por isso! – Chichi sorriu e disse – Oolong, uma foto, por favor.
O homem revirou os olhos e retirou da bolsa da qual nunca se separava, uma fotografia da jovem estrela e uma caneta. Chichi assinou, cheia de floreios e escreveu "Para son Goku, Chichi Cutelo. Namastê" Ele ficou olhando a foto, feliz, enquanto a comitiva se retirava.
Por um instante, ele achou que deveria ter dito seu nome verdadeiro para ela, mas achou que aquilo não faria diferença, afinal, quando ele fizesse o tal teste e se tornasse um dançarino ou até mesmo, quem sabe, um ator. Terminou suas tarefas nas nuvens pela novidade, esperou o senhor Poppo e voltou para a casa pedalando no asfalto, mas com o coração e a cabeça flutuando nas nuvens.
Na sua mente ingênua, bastaria ligar e dizer que era Son Goku e tudo mais se ajeitaria. Mas ele estava enganado.
Raaja Vegeta estava furioso. Ele não gostava de ser desafiado, ainda mais por um reles garoto tolo de Mumbai e pela, sempre rebelde, filha de Kyra. Uma das coisas que o fazia ter implicância com a menina era o fato dela não ser sua filha. Ele tinha dois filhos, era verdade. À luz da sociedade indiana, aquilo era tudo que um homem na posição dele podia querer e almejar.
Mas era o maldito Cutelo que tinha uma filha que, além de tudo, era o retrato fiel da mãe, não se parecendo em nada com o feioso pai. Era triste existir alguém para lembrá-lo que ele perdera o amor de Kyra. Tinha sido por Kyra que ele entrara de cabeça naquela história de produção de filmes, porque ele jamais conseguiria, sequer em cena, jurar amor por outra mulher. E a pequena vivia desafiando-o, como Kyra o desafiara a vida inteira. Era uma pequena estrela rebelde e voluntariosa, mas ele sabia o que fazer com ela. Ora se sabia.
Quando acabaram a gravação, ele disse a Oolong que ficasse. O secretário não estranhou, era normal ele repassar a agenda de Chichi com o produtor. Ele era o agente, afinal. Mas assim que entraram no carro, Raaja olhou para ele e disse:
– Não importa o que a garota diga ou faça ou o que o pai dela tenha dito. Quando esse tal de Goku ligar, diga que o teste dele está cancelado e que não estamos contratando dançarinos, entendeu bem?
Oolong encarou Raaja Vegeta. Ele sabia quando o homem estava falando sério.
– Claro, Mestre Raaja. Vou dizer a ele.
Enquanto isso, Chichi e Goku, ou melhor, Kakarotto, repassavam mentalmente aquele momento de encantamento que haviam vivido juntos. Sob pretexto de tratar da pele após uma exaustiva jornada de gravações, Chichi pedira a Lunch para ir à sua casa após a gravação para uma sessão de estética, e lá fora a maquiadora munida de seus cremes e preparados esfoliantes para a casa da jovem estrela. Durante o trajeto de carro, Chichi, nada disse, por causa dos ouvidos sempre atentos de Tenshinhan, que não se decidia se estava incomodado ou excitado pela presença da maquiadora da atriz no carro. Mas assim que chegaram ao apartamento enorme onde Chichi morava com o pai e trancaram-se na sala de estética, onde Chichi relaxava e podia receber os tratamentos ela disse:
– Você viu aquele rapaz? O Goku?
– O menino da bicicleta? O da confusão com seu pai e o senhor Vegeta? Sim. – ela sorriu, maliciosa – eu sabia que não era apenas pela dança… ele é muito bonito mesmo, sua danadinha.
Chichi baixou o rosto e ficou intensamente vermelha quando disse:
– Eu e ele… dançamos uma música juntos. E nos beijamos – ela olhou para Lunch, que arregalou os olhos incrédula – eu tenho certeza, Lunch… eu fiquei apaixonada por ele!
Enquanto isso, Kakarotto pedalava rumo à sua casa, sonhador, pensando no beijo que dera na sua princesa Shanti, imaginando quando a veria de novo. Mal podia esperar para contar para a irmã o que havia acontecido. Talvez não contasse nada para a mãe e o irmão. Eles não entendiam o que era aquele sonho que ele e a irmã compartilhavam: o sonho de fazer parte de um filme de Bollywood.
Era um dia muito, muito feliz. Os dois imaginavam que se reencontrariam logo logo… mas antes que se vissem novamente, aconteceriam muitas coisas felizes e tristes para ambos. E se passariam sete longos anos.
Notas:
1. Ganesha Chaturthi é um feriado hinduísta que cai sempre entre o fim de agosto e o início de setembro precedido por 10 a 14 dias de preparação que envolvem a confecção de estátuas de barro ou gesso do Deus Ganesha e orações e rituais em família até a imersão da imagem em água no dia final das celebrações. A ideia é que o ídolo se dissolva e traga bênçãos e sorte para a família de quem o imergiu.
2. Khaike Paan Banaraswala (Mascando o paan de Banaras) é uma canção do filme Don (2006) de pegada cômica, mostrando um momento de festa num filme de ação que conta a história de um rapaz que é sósia de um gângster e troca de lugar com ele.
3. Paan é uma mistura de folhas de betel, um anestésico ligeiramente entorpecente às vezes mascado em conjunto com folhas de tabaco bastante popular em todo Sudoeste Asiático, popular na Índia especialmente em festividades como o Holi e o já mencionado Ganesha Chaturthi.
4. O "jovem de Mumbai" é uma figura recorrente dos filmes indianos, assim como o "jovem de Déli": o cinema indiano pós-1970 gosta de colocar na posição de herói o jovem comum, uma tendência que começou com os clássicos de ação do ator Amithab Bacchan, conhecido na época como "o jovem furioso", o rapaz comum colocado numa situação bizarra que precisa agir para salvar a própria vida.
5. Suraj Hua Maddham (O Sol desceu no horizonte) é uma música romântica do filme Kabhi khushi kabhie gham, de 2003, que chegou a passar no Brasil nos canais HBO e Max com o título "Uma família indiana". É um filme sobre o amor de um rapaz rico e de alta casta por uma jovem doceira da casta Sudra, embora a questão das castas não seja mencionada literalmente porque desde a independência da Índia a indústria de Bollywood faz um esforço para não mencionar diferenças de casta.
6. O sistema de castas tem origem no hinduísmo antigo, devido à crença de que o Deus Brahma criou a vida de partes do seu corpo, da seguinte forma: os brâmanes (sacerdotes e letrados) nasceram da cabeça de Brahma; os xátrias (guerreiros) nasceram dos braços de Brahma; os vaixás (comerciantes) nasceram das pernas de Brahma; os sudras (servos: camponeses, artesãos e operários) nasceram dos pés de Brahma. Abaixo deles estariam os dálitis, os intocáveis que nasceram da poeira sob os pés de Brahma. Depois foram surgindo subcastas de acordo com as posições sociais e profissões, mas o sistema foi abolido pela Constituição Indiana após a independência, embora o preconceito de origem sobreviva, especialmente entre as castas mais altas. Sendo Goku (Kakarotto) um policial, presume-se que seja um Xátria, que é a casta de origem predominante entre policiais e funcionários públicos.
7. Sim, o pai do Vegeta não vai permitir a aproximação dos dois, mas vocês sabem que essa é uma história onde o conceito de carma é bem presente, afinal, é uma história onde o destino pode estar escrito... ou não.
