Capítulo 5 – Dil se (Do coração)

Raditz Sayajin não era muito de acreditar ou apoiar qualquer tipo de sonho que não tivesse resultados práticos ou imediatos, por isso mesmo ele era o inimigo número um da ideia dos dois irmãos de ensaiarem danças e coreografias para festivais e concursos de dança. Achava que eles, principalmente Kakarotto, perdiam um tempo precioso com aquilo, tempo que deveriam gastar estudando (no caso de Bulma) ou trabalhando (no caso de Kakarotto, uma vez que que ele já perdera a esperança de ver o irmão numa faculdade).

Mas ele não era assim por maldade ou falta de amor pelos irmãos, a quem ele, legitimamente, adorava. O que acontecera com ele era muito simples: por ser o mais velho, aquele que mais se cobrava, Raditz acabara desistindo de seus sonhos um por um. O primeiro ao qual ele dera adeus tinha sido o esporte. Ainda no colégio tinha feito parte do time de críquete da escola e tinha sido cogitado para um teste na liga juvenil, mas a morte do pai o empurrara para fora do time, uma vez que precisara ajudar a mãe nas tarefas de casa e com os irmãos assim que ela começara a fazer doces para vender.

Terminando o ensino médio, e contra a vontade da sua mãe, que não se importaria de se sacrificar para que ele tivesse ensino superior, ele desistira do sonho da faculdade de engenharia mesmo aprovado para uma boa universidade, porque sabia que aquilo diminuiria a renda da família dramaticamente. Sendo então maior de idade e vendo que o negócio dos doces ia bem, ele foi atrás da carteira de motorista e de um emprego no ramo de transportes. Chegou a cogitar dirigir um tuc-tuc, mas viu que os ganhos não compensariam se ele não tivesse o seu próprio veículo e ele não tinha dinheiro para aquilo, então, empregou-se, depois de tirar carteira apropriada, numa transportadora de carga, dirigindo primeiramente pelas redondezas de Mumbai.

Depois de um ano, ele estava preparado para um passo maior, então, se candidatou a transportar cargas para fora de Mumbai, e era isso que fazia agora, o ano todo, rodando o país com cargas por vezes perigosas e por estradas que tinham terríveis estatísticas de acidentes. Mas Raditz era um motorista habilidoso e prudente, então, assumia muitas viagens e assim, ia economizando para comprar seu próprio caminhão. Aquele, sim, em sua opinião, um sonho prático e palpável que valia a pena acalentar.

Mas, quando chegava em casa depois de mais de um mês de estrada para um descanso, às vezes de cinco, às vezes de dez dias, o primeiro sonho da sua vida voltava ao seu coração, e por isso, naquela tarde, quando Kakarotto chegou com sua bicicletinha, encontrou aquele homem enorme no meio de um bando de meninos de 11 e 12 anos, jogando críquete.

Bhaee! (irmão) – ele gritou e Raditz, que segurava um taco, sorriu, porém sem desconcentrar-se ou tirar os olhos do jogo. Os meninos do segundo time, ao virem Kakarotto chegando, gritaram desesperados por ele porque era desvantajoso ter um adulto no time adversário e ele se juntou alegremente a eles, equilibrando um pouco o jogo, mas não o suficiente para virar o placar para eles porque Raditz era bem melhor que ele nesse jogo.

Quando terminou a partida e os meninos todos correram para casa, os dois irmãos se abraçaram novamente e Raditz disse:

– Você ainda está crescendo, bhaee? Parece maior que da última vez que estive em casa. E está mais forte também.

Kakarotto coçou a cabeça, sem jeito e riu para o irmão, dizendo:

– Deve ser de carregar as caixas de doces e pilotar a bicicleta de entregas. Estou entregando agora até mesmo fora de Andheri East!

– Que orgulho! Então os doces da Viúva Gine irão até fora de nossa região e em breve, por toda Mumbai?

– Trabalhamos para isso! – Sorriu Kakarotto. – Mas, para isso teríamos que comprar um cargo tuc-tuc... eu não ia conseguir pedalar tanto assim.

– Verdade...

– Me diga que você chegou e já foi em casa e não parou aqui para jogar críquete antes de ver a Dona Gine Sayajin...

Um ar de culpa apareceu no rosto de Raditz e Kakarotto caçoou:

Bahee! Você é um filho desnaturado! – ele riu e correu na direção da pequena casa de dois andares com uma pequena garagem, no fim da rua, com o irmão em seu encalço gritando:

– Não faça isso, bahee, não me entregue!

– Eu vou contar para a viúva Gine que seu primogênito põe o críquete à frente de sua bênção... você vai estar encrencado até o dia do Divali! – ria-se Kakarotto, ziguezagueando pela rua com o irmão em seu encalço. De repente, se deixou apanhar e Raditz disse:

– Seu pequeno chantagista! O que quer para não contar para nossa mãe que eu cheguei e fui jogar com os meninos antes de ir para casa?

– Vai nos levar ao cinema. Eu e Bulma.

Raditz fechou a cara.

– Está bem...

– E vai pagar um combo de pipoca para cada um... e uma porção de samosas para mim!

– Ora seu...

Maan, maan (mamãe) – começou a gritar Kakarotto, como fazia quando eram crianças.

– O que foi, Kakarotto? – disse Gine, a voz soando abafada vindo de dentro da casa.

– Está bem – murmurou Raditz entredentes, fazendo o outro sorrir e gritar a plenos pulmões.

– Encontrei o Raditz aqui fora... ele acabou de chegar, maan!

A porta se abriu e Gine veio, os cabelos protegidos por um lenço colorido porque ela ainda finalizava uma encomenda de doces. Raditz empurrou o irmão para o lado, fazendo com que ele fosse atrás da sua bicicleta rindo, e Gine se atirou nos braços do mais velho.

– Meu priy beta (filho adorado) olhe só para você – ela disse, apertando o rosto do filho entre as mãos de um jeito quase doloroso – está tão magro... o que come nessas estradas? Teve alguma desinteria? Eu te disse para não ir para Déli ou Calcutá... a água de lá, ela não presta, é cheia de amebas e...

– Não, mãe, eu não tive desinteria e nem estou mais magro. – o rapaz riu-se e disse: – a senhora ainda está fazendo doces? Até essa hora?

Gine deu de ombros e disse:

– Uma encomenda de gajar halwa e pista rolls para um casamento enorme amanhã. Mas já estou acabando. Chame aquele malandrinho ali para me ajudar. Muitas caixas para encher...

Bhaeee – disse Raditz, com um sorriso radiante nos lábios, vendo Kakarotto guardar a bicicleta e o olhando desconfiado – Maan precisa de sua ajuda... tem doces para pôr nas caixas...

– E do senhor também, trate de lavar as mãos. – ela disse, fazendo o sorriso do mais velho murchar– Quanto mais cedo terminarmos mais cedo jantamos. – Gine disse, puxando Raditz pelo braço.

– Isso não é justo! – começou a resmungar Kakarotto, que, no entanto, calou-se apenas com o olhar da mãe. – e eu vou chamar a Bulma. Ela fica de boa só estudando...

Meia hora depois, a viúva Gine tinha seus três filhos em volta da enorme mesa na antiga garagem onde ela colocava os doces para secar. Cada um deles e ela mesma embalavam delicadamente os doces em papel celofane antes de colocar cada um em pequenas caixinhas abertas antes de juntá-los nas caixas grandes.

– Dizem que depois de tanto tempo sentindo cheiro de doces você enjoa – disse Kakarotto, embrulhando um pequeno halwa e pondo na caixa – mas eu nunca enjoo de doce nenhum, principalmente desse halwa que maan faz... eu nadaria numa piscina desse doce... morreria afogado em halwa sorrindo e feliz...

– Como você é exagerado, Kakarotto – riu a irmã. – Eu gosto de doces, mas não tanto quanto gostava antes da maan começar a fazer assim...

– Minha vantagem é passar meses fora... quando volto estou com saudades dos doces... – disse Raditz salivando de olho comprido numa caixa de halwa que ele fechava, louco para roubar um doce.

– Se qualquer um de vocês pegar um desses doces eu vou saber! – ameaçou Gine e Raditz e Kakarotto ficaram em silêncio, mas rindo. Com a ajuda dos filhos, logo uma pilha de caixas se acumulou numa mesa que ficava debaixo do retrato de Bardock, muito sério, olhando para a câmera com um ar sisudo acentuado por seu bigode muito preto. Quando pôs a última caixa, Gine disse:

– Magnífico, por Krishna, Magnífico. Agora vão se lavar os três. Vou esquentar o O Tika Maala (ensopado de frango) ... Bulma, me ajude a assar os chapatis (pão indiano).

Meia hora depois, os três filhos se preparavam para sentar-se à mesa, quando a mãe veio com a pasta vermelha, da mistura de kumkum (pigmento vermelho) e óleo de sândalo, e aplicou na forma de um ponto na testa de cada um dos filhos:

– Que satisfação ter meus três pequenos baachan (a prole) em casa e poder fazer a tikka (ponto ritual do hinduísmo, feito na testa) em cada um deles...

Ela mesma tinha um ponto alongado na testa, que ia até a raiz dos seus cabelos. Quando Bardock era vivo, ele quem fazia a tikka na esposa, como mandava a tradição. Agora, viúva, ela mantinha o formato ritual de mulher comprometida, porque não pensava em se casar de novo.

Os quatro sentaram-se, agradecendo à mãe Lakshimi, deusa do lar, pela comida e começaram uma refeição animada.

– Você demorou mais que o normal na rua hoje, Kakarotto – disse a mãe, olhando para o filho, desconfiada. – Não me diga que se demorou demais no bar daquele indecente do Poppo?

Kakarotto ficou vermelho e, incapaz de mentir para a mãe, disse:

– Havia uma gravação de filme lá perto e...

– Gravação de filme? – perguntou o irmão, desconfiado, e ele disse:

– Bem... eu vi uma atriz famosa...

– Que atriz? – perguntou Bulma, já aumentando o tom de voz.

– A senhorita Chichi Cutelo...

Bulma deu um grito. Ela também era fã da jovem atriz e dos filmes da princesa Shanti, embora seu grande ídolo fosse Yamcha Kapoor, um jovem ator de filmes de ação.

– Eu não acredito, que sorte danada, bahee!

– Isso é verdade? – disse Raditz, incrédulo – me parece mais um desses sonhos bobos do Kakarotto...

O irmão o olhou aborrecido e pegou na bolsa a tiracolo que usava para entregas a foto autografada da jovem. Raditz olhou e disse, depois de jogar de lado.

– Isso é falso. Diz aqui que é pra um tal de "Son Goku" com carinho. Você comprou essa porcaria no brechó. Pare de botar minhocas na cabeça da Bulma. Ela precisa estudar e não ficar sonhando com essas bobagens de Bollywood.

– E em arranjar um bom casamento apenas quando for a hora certa... – completou Gine – aliás, por falar nisso, Raditz... eu vi a filha da viúva Anand, a Ahlia... está tão bonita...

– Nem pensar, maan... nem pensar em arranjar casamento para mim agora...

– Eu não penso em arranjar casamento. Só quero saber quando você vai sossegar e arrumar uma moça bonita para me dar netos!

– Quando eu tiver um caminhão de ouro – gracejou Raditz – o Kakarotto deve casar antes de mim, ele é que é um bobalhão romântico!

– O filho mais velho deve sempre casar primeiro! – disse a mãe, indignada – eu já disse que não vou arranjar casamento para você nas suas costas, mas antes dos trinta você precisa achar uma esposa!

– Quando eu fizer trinta anos a senhora arruma uma para mim! – ele disse, debochado.

Os dois começaram uma discussão sobre vantagens e desvantagens de um casamento para ele, e Bulma e Kakarotto ficaram de lado. O rapaz fez um gesto para a irmã, e, depois que todos terminaram de comer e a história estava completamente esquecida, eles subiram juntos para o quarto da irmã e ele mostrou a ela o cartão que recebera do empresário de Chichi e contou toda história, dizendo então:

– Você não tem ideia, irmãzinha… eu e ela… dançamos juntos e nos beijamos.

– Você beijou…Chichi Cutelo, a princesa Shanti? Uma atriz famosa assim?

– Nem eu acredito, mas sim!

– E ela quer que você faça um teste de dança?

– Sim! Basta ligar a partir da semana que vem, não é incrível? – ele se atirou de costas na cama da irmã e disse – eu dancei com a garota dos meus sonhos… com a garota dos sonhos de todos os garotos de Mumbai. E ela me beijou. E foi o primeiro beijo dela, e o meu primeiro beijo também.

– Kakarotto, isso é incrível... ainda bem que você não contou para o Ditz... e você disse a ela que se chama Son Goku. Isso não é errado? Como ela vai saber que você é você? – Bulma era a única pessoa que sabia do "nome artístico" dele.

– Ah, Bulma... eu sei que devia ter dito meu nome... mas quero que ela já pense em mim com o nome que eu vou ter... você sabe, o meu nome de artista.

– Eu deveria pensar em um para mim também. Quer dizer...

– Quando eu for ao teste, você vai comigo. E vamos arrumar um lugar para você também. Prometo. Prometo de coração que vamos ser artistas juntos! Vamos mostrar para eles a dança que fizemos no último festival. E eles vão amar a gente!

Os irmãos começaram então a dançar e cantar como dois bobos, e só foram interrompidos por Raditz, que ouviu o barulho e brigou com os dois, que sentaram e foram repassar as tarefas do dia, o que para Kakarotto era bem mais difícil.

Mas naquele dia, foi menos complicado. Ele tinha a cabeça cheia de sonhos e o coração cheio de esperanças.


Nos dias seguintes, Chichi se pegou várias vezes pensando no jovem Goku e imaginando quando o veria de novo. Sua rotina voltou ao ritmo que tinha quando ela não estava filmando, e ela se preparou para os exames finais daquele ano, que seriam dali a um mês. Embora ela tivesse professores e preceptores, seus exames eram feitos numa escola particular, e ela nunca tirara menos que 9.

Mas estava difícil estudar e se concentrar para acompanhar a edição de seu último filme e a leitura de seu próximo roteiro, que teria ela e o tal "par romântico". O mais cotado para isso era Yamcha Kapoor, um ator de 20 anos, que, como ela, também iniciara a carreira ainda criança. Era a aposta certa em 10 entre 10 fofoqueiros de Bollywood.

Mas ela não queria mesmo estrear aquele filme com ele, mas, acalentava a esperança de que seu pai assistisse Goku e se encantasse por ele como ela havia se encantado. Só havia um problema:

– Oolong, ele ligou para você? – era a primeira coisa que ela perguntava ao assistente todos os dias.

– Não, querida – ele respondia – e se eu fosse você não teria muita esperança... é um menino pobre, sabe como é... talvez ele ache que não merece... esse pessoal é imprevisível. Ou ele pode ter perdido o cartão.

Ela se irritava e não se conformava. Imaginava por que não pegara endereço ou nenhum contato dele. E assim os dias foram se passando e a esperança foi morrendo em seu coração.

Talvez ela jamais visse de novo o jovem dançarino. Chegou a pensar e ir ao Ganesha Chaturthi do templo da região de Andheri East, mas Lunch, que sabia de sua angústia, disse a ela que mesmo que ela fosse incógnita, seria uma loucura, porque ela poderia ser descoberta e seria impossível garantir sua segurança. Ela então se ofereceu para ir ao tal festival e tentar achar o rapaz.

Mas parecia realmente que o destino não queria colaborar com eles.

Na véspera do Chaturthi, ela foi se informar com Oolong sobre como chegar naquela região e o secretário a olhou com uma expressão aborrecida e chamou-a para uma conversa particular no seu escritório.

Ele foi logo ao assunto:

– Você acha realmente que o rapaz nunca ligou?

Os olhos de Lunch arregalaram-se e seu queixo caiu. Então... era Oolong que não repassava as ligações e nem marcava o tal teste.

– Como você pode fazer isso com ela! – disse Lunch – ela está... – ela não podia dizer apaixonada, então disse – muito disposta a dar uma chance ao rapaz e...

– Você tem ideia do que significa o envolvimento da doce princesa Chichi com um simples slumdog (cão sujo) das ruas de Mumbai para a carreira dela, Lunch? Você é americana. Vocês acreditam demais nessas bobagens de "sonhos" mas aqui... os pobres não se envolvem com ricos. Ela não pode se meter com um entregador de doces... e ele não é Aladim, não vai aparecer uma lâmpada com um gênio e transformá-lo subitamente num príncipe.

Lunch tentou dizer o quanto aquilo era injusto, mas Oolong deu a cartada final:

– Não fui eu quem decidiu isso, minha querida... mas o produtor dela, o empresário e o homem por trás de todo sucesso e toda grana que ela tem: Raaja Vegeta. Se ele souber que você ou eu estamos ajudando-a a encontrar aquele vira-latas de Andheri East, estamos ambos na rua. E não sei quanto a você, mas eu amo meu emprego.

– Mas eu prometi para ela... eu prometi que iria ao festival.

– Ora... essa cidade é cheia de festivais de Ganesha Chaturthi. Vá a um deles, tire umas fotos e diga que não o viu. Mas arrume companhia, uma mulher loura como você andando sozinha por Mumbai... vai ser muito importunada.

Ela baixou a cabeça, entristecida, e ficou assim pelo resto do dia, mesmo durante o teste de maquiagem para a aparição de Chichi num programa de TV no dia seguinte. Quando ia saindo, rumo ao seu apartamento, ouviu uma voz chamando-a.

Era Tenshinhan.

– Oi Tenhsin – disse ela.

– Você parece triste, hoje. É por causa do garoto que Chichi não pode encontrar?

– Você sabe? Sabe de tudo? Tem um sexto sentido, por acaso?

Ele sorriu para ela. Uma coisa que as pessoas esqueciam era que muitas vezes conversavam acreditando que seguranças e motoristas eram parte da mobília, e ele tinha essas duas funções. E em algum momento escutara uma conversa sobre aquilo. Ela explicou a ele tudo que havia acontecido e ele disse:

– Então... o Oolong te aconselhou a ir a qualquer festival e fingir que não viu o rapaz?

– Sim.

– E você pretende fazer isso?

Ela suspirou e disse:

– Meu emprego está em jogo... e eu não faço ideia de onde achar um festival... e eu nunca estive em um...

Ele sorriu para ela e disse:

– Eu te levo a um. Tem um muito bom perto da minha casa...

Ela olhou para ele, intrigada e perguntou:

– Isso é um encontro?

Ele riu, sacudiu a cabeça de um jeito estranho e nada disse. Ela ficou intrigada com ele, que disse:

– Vamos... sou eu que te levo em casa hoje... você mora em Dalal Nagar, certo?

Ela riu e disse:

– Se eu te chamar para subir... vai aceitar?

Ele tornou a sacudir a cabeça daquele jeito estranho e nada disse.


Kakarotto continuou treinando "Dhoom again" e para ganhar o prêmio principal do festival e uma uma música do filme "Kuch kuch hota hai" com a irmã para a dança para tentar o prêmio principal de casal com ela.

Mas não conseguia sentir-se alegre com aquilo, nem com nada que se referisse a dança. Porque havia ligado várias e várias vezes para o telefone do cartão que Chichi fizera o assistente entregar para ele e as respostas haviam sido sempre negativas e o teste jamais acontecera.

E, na derradeira vez que tentou, na véspera do Ganesh Charthuti o assistente dissera a ele para se enxergar, porque ele era apenas um garoto pobre de Mumbai e nunca poderia sonhar em se aproximar de uma estrela como Chichi Cutelo. Que aquilo tinha sido uma mera sorte, mas que não havia porquê abrir as portas de Bollywood para alguém como ele. Que esquecesse aquilo, porque ele não era um rapaz bem nascido.

E, assim, o sonho dele foi, junto com o cartão de Oolong e a foto autografada de Chichi, para o fundo de uma gaveta.

E por lá ficaria por um longo tempo.

Enquanto isso, um rapaz bem-nascido de Mumbai entrava numa cobertura faraônica, a residência de férias do pai, em Dubai, furioso. Raaja Vegeta deu um sorriso maldoso quando o primogênito atirou nele todos os cartões de crédito e gritou, furioso:

– Cancelado, cancelado, cancelado... TUDO CANCELADO. Por quê?

O pai levantou os olhos do roteiro que lia. Sempre passava uma parte da temporada entre os lançamentos de seus filmes em Dubai, porque era dali que conseguia financiamento para seus mais ambiciosos projetos. Mas o filho vivia na Europa desde os 11 anos, primeiro em uma escola caríssima na Suíça e, recentemente, de farra em farra entre Londres, Paris e Zurich. Até dois anos antes, havia sido aluno exemplar e jamais dera dor de cabeça a ele.

Então, veio o câncer da sua esposa, que morreu em menos de seis meses depois de descobrir um carcinoma extremamente agressivo num dos pulmões em estágio avançado demais. Vegeta Júnior culpava o pai por tudo de ruim que acontecia, e não havia sido diferente com a morte da mãe. Agora ele tinha diante dele um garoto de quase 19 anos, rebelde e agressivo, que terminara o ensino médio aos trancos e barrancos e havia sido rejeitado por todas as faculdades da Europa, e desde que completara a maioridade só sabia gastar seu dinheiro com mulheres e carros de luxo.

Raaja Vegeta encarou o filho e disse, sério:

– Eu mandei uma passagem para que você me encontrasse em Mumbai há dois meses e você ignorou. Lembra?

– Não tava a fim. Mumbai é um lugar chato.

– No entanto, agora você veio me encontrar aqui em Dubai. Dubai não é chato, também?

– Eu vim porque não podia ficar morrendo de fome na Europa, já que você cancelou todos os meus cartões. Posso saber por quê?

– A fonte secou. Você teria todo dinheiro que quisesse estivesse estudando decentemente. Como não se esforça para nada, decidi dar um rumo na sua vida. Se preferir, posso te deixar por sua conta e risco... mas acho que a vida de um jovem imigrante pobre na Europa ou de um garoto mal educado como você em Mumbai não seria muito fácil. E não vou te dar mais dinheiro para você ficar bancando o playboy às minhas custas.

– Está me ameaçando, puraana (velho)?

– Não. Estou te dando uma oportunidade e uma carreira. Vi que você gosta de moças...

– Não preciso me esforçar para conseguir nenhuma "moça". Basta chegar a Mumbai que todos os paparazzi me fotografam e elas se jogam sobre mim apenas porque eu tenho a infelicidade de carregar seu nome e ser parecido contigo, velho ridículo.

– Bem... esse velho ridículo aqui tem a chave do cofre. Se quiser que ele se abra... é simples. Basta se preparar para assumir uma carreira em Bollywood.

– O quê? – o rapaz o encarou, atônito e irritado – ser um atorzinho babaca?

Ele estendeu uma planilha para o filho e disse:

– Esses são os ganhos de alguns dos atores ridículos que você tanto despreza. Em dólares, e não em rúpias. – Ele olhou para o filho e sorriu. – Estou te dando a chance de ter uma carreira que muitos praticamente se matam para ter e que é perfeita para criaturas vaidosas e ególatras como você. E eu sei que esse traço você puxou de mim.

O rapaz o encarou de volta.

– Pode escolher. Não ter mais o meu dinheiro para gastar ou começar, em mais ou menos um ano, a ganhar seu próprio dinheiro. O que você escolhe?

O filho o encarou por um longo tempo. Detestava o pai e detestava mais ainda depender dele. Mas, no fundo, sabia que aquela era uma escolha bem fácil.

– O que eu preciso, então, para me tornar um ator?

Raaja Vegeta sorriu. Tinha muitos planos para o seu garoto rebelde. E se seu feeling estava certo, ele era uma mina de ouro.

– Bom, antes de mais nada... vamos voltar para Mumbai. Tenho uma pessoa que vai cuidar do seu treinamento. Mas se desistir, não te dou outra chance.

– Não vou desistir – disse o rapaz, que sabia que o pai não costumava ceder.


Notas:

1. Cricket é o esporte nacional indiano, também popular no Paquistão, no Sri Lanka, na Austrália e Nova Zelândia. Confesso que por mais que eu tenha pesquisado, as regras ainda me parecem tão confusas que eu prefiro resumir e dizer que parece um baseball jogado com um taco achatado.

2. Tuc-tuc é um veículo que parece um triciclo invertido, com uma carroceria arredondada, muito popular como transporte de passageiros (no máximo 2) na Índia e na China, onde acabou substituindo os antigos riquixás, que eram carroças puxadas por tração humana.

3. A Índia é um dos países com maior frota de caminhões no mundo, mesmo tendo uma extensa malha ferroviária, grande parte do transporte de carga é rodoviário, especialmente nas regiões Norte e na área dos Himalaias Indianos. Ser caminhoneiro na Índia é uma profissão de risco e que exige alto poder de negociação, porque os transportadores são conhecidos por barganhar e tentar pagar menos do que o devido depois da carga entregue.

4. Existem 4 ou 5 tipos de halva – o popular doce de cenoura considerado o favorito do casal divino Krishna e Radha, a receita varia conforme a região da Índia, mas é um doce que não pode faltar em casamentos. A forma mais popular para festas é um quadradinho meio gelatinoso passado em açúcar e acondicionado em pequenas caixas. Já os pista rolls são doces enrolados como um rocambole minúsculos feitos de leite e castanhas.

5. Kumkum é um pigmento vermelho natural obtido a partir de uma mistura de açafrão e suco de limão. A tikka, ponto ritual do hinduísmo, cuja função é sensibilizar o chacra do terceiro olho, a chamada visão espiritual, é feita ou com esse pigmento ou com outro, de origem mineral chamado sindoor. O kumkum é considerado mais seguro porque o sindoor às vezes contém agentes tóxicos como chumbo.

6. No próximo capítulo Tenshinhan vai levar Lunch a um Ganesha Chaturthi e vai explicar a ela um pouco sobre sua vida e vamos descobrir o que ele realmente pensa sobre ela. Ah, e eles vão ver o Kakarotto dançando.

7. Sim, Vegeta virou um playboyzão e o pai decidiu cortar o barato do jovem... mas ainda demora alguns capítulos para ele fazer sua grande estreia em Bollywood. O mesmo Raaja que negou ao Goku um simples teste vai pôr o filho pela janela em Bollywood? Sim, vai. O hereditarismo é um traço clássico dessa indústria, quase todo ator consagrado desde 1940 colocou um ou mais filhos na mesma carreira, exemplos não faltam.

8. Dil se (do coração), o filme que eu citei lá no primeiro capítulo e que empresta o nome para este, ficou conhecido porque foi elogiado em Hollywood por Spike Lee, que ficou muito impressionado com os clipes musicais inseridos no filme, todos de grande complexidade, como o da música Jiya Jale (alma ardente), gravada por Lata Mangeshkar, uma cantora que tem impressionantes sete décadas de atividade (ela está com 90 anos), sua carreira começou em 1942 e ela emprestou a voz para canções em mais de 900 filmes desde então.