Capítulo 6 – Radha, Krishna, Sita

Lunch havia amarrado sáris em Chichi muitas e muitas vezes, mas aquela era a primeira vez em que ela mesma usava um sári e ela sentia-se absurdamente confusa e inadequada. Não que ela não soubesse como vestir um sári, mas fazer aquilo em Chichi era muito mais fácil do que nela mesma. Mirou-se no espelho. Seu cabelo cheio e louro estava solto, mas ela ia prendê-lo logo. Ela sorriu e, estranhamente, sentiu-se bonita naquele traje.

O choli, a blusa curta que se usava sob o sári, era lilás e tinha as mangas douradas, feito de um tafetá brilhoso que seria over em sua terra natal, mas, ali, era puro luxo. O sári de seda pura, que ela havia ganhado de Chichi há um ano e não tivera coragem de usar ainda, tinha a bizarra combinação verde alface e lilás num degradé até o violeta com bordados dourados, mas, agora, com todas as dobras na sua cintura e o pallu (sobra do pano do sári) jogado sobre o ombro, ela sentia-se, de fato, linda.

Prendeu os cabelos num coque, deixando alguns cachos soltos e maquiou-se com o mesmo estilo que maquiava Chichi. Ela sentia-se um pouco nervosa. Era como se estivesse se enfeitando para Tenshinhan, o que, na verdade, ela não sabia se o agradaria ou o ofenderia. Quando terminou a maquiagem, olhou-se no espelho e pensou que faltava a tikka, o pequeno ponto vermelho pintado na testa, que tantas mulheres usavam na Índia, mas ela não tinha kunkum ou nada que pudesse usar para issoenem mesmo um bindi, o adesivo de fantasia que enfeitava a testa das mulheres indianas. Achando que seria ridículo fazer uma tikka com batom, saiu assim mesmo.

Acabou por deixar como estava. Era melhor não exagerar. Olhou o relógio, sabendo que ele era irritantemente pontual. Faltavam 5 minutos. Ele a levara em casa na véspera, muito respeitador, e haviam tido a primeira conversa apenas os dois. Ela falara demais e ele comentara pouquíssimo sobre sua vida.

Tenshinhan falava com o típico sotaque dos indianos, mas seu inglês era muito bom, e ele era sério e formal como um inglês. Justamente por isso, ela não sabia exatamente o que era aquele encontro. Ele tinha se oferecido para levá-la a um Ganesha Chaturthi, porque ela havia prometido a Chichi que procuraria o rapaz por quem a jovem estava encantada. E ela tentava mentalmente se convencer que não havia nada demais, mas estava há mais de dois anos na Índia, sozinha, tendo como única amiga uma menina de 16 anos e era impossível não se imaginar agarrando e seduzindo o sisudo chefe da segurança dos estúdios Sadala.

Tentava se convencer que a atração que sentia por ele era falta de sexo, mas sabia que havia algo mais, pelo menos da sua parte. Quanto mais ele respondia a seus jogos de sedução com sacudidas estranhas de cabeça e sorrisos enigmáticos, mais atraída por ele ela ficava, mas não queria se iludir… já tinha quebrado a cara algumas vezes na vida.

Eles haviam combinado de se encontrar à porta do prédio, mas ela só desceu um minuto antes do horário. Uma das coisas mais complicadas para ela, desde que havia se mudado, era a falta de liberdade das mulheres indianas. Ela tinha medo de sair sozinha, o que acabara fazendo com que, durante os últimos dois anos, ela fosse praticamente uma dama de companhia para Chichi.

Não que ela reclamasse: tinha conhecido os lugares mais caros e sofisticados da Índia sem gastar um tostão. Também tinha ido a Bali, ao Sri Lanka, a Dubai e até mesmo a Nova Iorque bancada por Chichi. Ela entrara para o staff antes de Tenshinhan, a quem, desde que conhecera, tentava, em vão, impressionar.

O jipe Mahindra Thar de Tehsinhan estacionou em frente ao prédio dela e ele deu um único toque na buzina. Lunch desceu e ele saltou do carro para abrir a porta para ela, que parou diante dele, um pouco chocada porque era a primeira vez que ela o via e ele não estava usando um terno, mas uma túnica indiana no estilo nehru, com calças largas, acompanhada de uma espécie de echarpe conhecida como dupatta, além de sapatilhas típicas. Na testa ele tinha uma tikka vermelha, já esmaecida.

- Uau... se usasse um turbante estaria parecendo um príncipe indiano. – ela brincou.

Ele parou um instante diante dela e sorriu. Então, abriu a porta e disse, quando ela entrou:

– Boa noite, Lunch. Você realmente fica bonita de sári.

Quando ele sentou ao volante, tornou a olhar para o rosto dela e disse:

– Você ficaria ainda mais bonita com um bindi.

Ela balançou a cabeça, sem jeito e ele sorriu e disse:

– Não tem problema. Vou comprar um para você na festa.

– Onde vamos? Quer dizer... em que festival?

– Temos duas opções... – ele disse, sério. – se quiser realmente ver o tal garoto dançar, podemos ir no templo de Ganesha que fica em Andheri East. É uma festa bem concorrida. Eu me informei... – ele olhou para ela – mas se dermos qualquer informação para Chichi, arriscamos nosso emprego. Ou podemos ir ao festival do templo de Jarimari, perto de onde eu moro. Você tira umas fotos, mostra e ela nunca vai saber que...

– Vamos a Andheri East, por favor, Tenshin...

Ele olhou para ela, sério.

– Você vai dizer a ela se o vir?

– Não. Mas... eu acho que ele merece uma satisfação, não acha? Deveríamos falar com ele...

Ele deu um suspiro resignado e deu uma sacudida estranha com a cabeça, dando a partida no carro. Ela então perguntou:

– Você pode por favor me dizer o que é isso?

– Isso o quê?

– Essa sacudida estranha de cabeça... – ela disse e ele deu uma gargalhada. A primeira que ela via nele, desde que se conheciam.

– É tão engraçado... – ele disse, ainda rindo – porque eu não sei explicar. Isso é algo nosso. Um indiano sabe quando significa concordância, aborrecimento, tédio... mas para vocês... é como um código secreto, não?

– Exatamente! – ela bradou – e eu fico sempre perdida. Vocês sacodem a cabeça às vezes da mesma maneira, concordando ou discordando.

– Já que vamos para um pouco longe – ele riu – vou te explicar. Quando um indiano concorda, ele sacode a cabeça assim – ele pendulou firmemente a cabeça para frente e para trás, o que não era tão diferente do jeito ocidental – Mas não somos muito de concordar com tudo totalmente, então sacudimos a cabeça dessa forma – ele pendulou ligeiramente a cabeça e ela disse:

– É isso! Esse negócio aí.

– Significa que eu estou te ouvindo e pensando no que você está dizendo, tendendo a concordar, mas temos muitas outras "sacudidas de cabeça": se eu te perguntar uma coisa eu farei isso – ele moveu a cabeça uma vez para trás, e ela reconheceu o movimento – e, finalmente, se eu quiser te convidar para alguma coisa, eu moverei a cabeça assim – ele moveu a cabeça para o alto e para o lado, rapidamente – é como se eu dissesse: "Vamos por ali? Fugir?"

– Vamos? – ela perguntou, divertida. Ele tornou a sacudir a cabeça do "jeito estranho" e ela perguntou:

– Por que você foge de mim, Tenshin?

Ele deu um suspiro resignado.

– Eu não estou fugindo. Eu apenas não a conhecia... e eu confesso que ficava envergonhado com seu jeito direto. Indianas não costumam agir assim. Elas mandam bilhetes por colegas, que entregam para outras colegas, e quando o bilhete chega na sua mão ele andou tanto que você não tem certeza de qual garota te mandou... quando eu estava na Universidade...

– Ei, espere aí... você esteve numa universidade?

– Sim. Eu sou formado. Analista de Sistemas.

– E trabalha como motorista e segurança?

– Eu estava na Universidade de Mumbai e era atleta. Lutador. Mas atletas não tem bolsa de estudos e eu sou de fora, precisava me manter aqui. Comecei a ser contratado como segurança, e fui me especializando nessa área, fazendo cursos... quando me formei, estava tão qualificado como segurança pessoal que apenas peguei o diploma para mostrar uma qualificação de nível superior, empregadores amam. E atualmente ganho melhor do que se trabalhasse como programador numa terceirizadora de mão de obra. Eu sou um analista de sistemas muito bem qualificado. Mas não quero trabalhar para homens estrangeiros que fiquem gritando comigo, pressupondo que sou um idiota apenas porque eu nasci na Índia. Os senhores Cutelo e Vegeta reconhecem o meu valor e profissionalismo me pagando muito bem.

Aquele comentário fez Lunch sentir-se mal. Tenshinhan era o primeiro indiano por quem ela se interessava, mas tinha que admitir que a aparência dele a atraíra porque ele não se parecia um indiano típico e no trabalho não se portava como um. De repente, ela disse:

– Eu nunca frequentei nenhuma universidade. Sou apenas uma caipira do Meio Oeste. Aposto que você é muito mais qualificado que eu... eu só ganhei um reality show de maquiagem que Chichi assistiu quando estava viajando pelos EUA e ela cismou que deveria me contratar... me ofereceu mais que qualquer emprego que eu tive na vida.

– Não precisa se desculpar, Lunch – ele riu – seu interesse por mim, na verdade, me honra. É motivo de orgulho, não por você ser branca ou americana... mas por você ser uma mulher que pode escolher o homem que quiser. Aqui os homens escolhem, ou, às vezes... a família escolhe.

– A... família?

– Casamento arranjado. Os pais combinam o casamento dos filhos – ele suspirou – muitas vezes com alguém que eles jamais viram, ou com quem não têm nada em comum.

Lunch então pressentiu que aquele era o problema, e então, perguntou, direta:

– É o seu caso? Você tem alguma noiva escolhida por sua família?

Ele suspirou. Então disse:

– Sim. Meu pai arranjou meu casamento com ela quando ela nasceu... e ela é da idade de Chichi. Dez anos mais jovem que eu.

– O quê? – Lunch gritou – você está saindo comigo e... é noivo?

– Eu estou saindo contigo? – ele perguntou e deixou Lunch confusa.

– Como assim? Você acha que... o quê?

Ele guiou o carro por mais algumas quadras, até chegarem próximo a um lugar onde a rua estava fechada. Ele parou o carro num estacionamento num terreno sem calçamento, então, desligou o carro e olhou diretamente para ela.

– Eu estou realmente saindo contigo, Lunch? É o que você quer, ou quer apenas diversão com um indiano tolo que amanhã ou depois você vai deixar para lá e seguir sua vida?

Ela abriu a boca e tornou a fechar. Tenshinhan era sério demais e, de repente, ela entendeu o que ele queria dizer. E ela não sabia a resposta. Então perguntou:

– Se eu estivesse saindo contigo, assim, de verdade... você poderia recusar esse casamento com a garota de 16 anos?

– Eu posso recusar a garota a qualquer momento, aliás, eu evitei conhece-la até hoje para que eu não fosse obrigado a dar uma resposta – ele disse – e, na verdade, evito pensar nisso apenas porque seria uma desonra para a família dela... a não ser que...

– A não ser que?

– Que meu irmão mais novo concorde em casar-se com ela. Mas ele tem apenas 18 anos e faz faculdade em Nova Déli, entende? Eu não sei se quero empurrar meu irmão para esse compromisso, mas eu também não pretendo me casar com ela porquê...

– "Porquê" o quê?

Ele olhou para ela e disse, sério:

– Porque eu estou interessado em uma outra pessoa. Uma pessoa que provavelmente não vai agradar a meu pai; eu já não tenho mãe, ela morreu. Mas como meu pai mora em Agra, no estado de Utar Pradesh, e eu moro aqui, não preciso me preocupar tanto com isso. – ele olhou diretamente para ela – Quero apenas saber o que a garota sente por mim.

Ela olhou para ele, que não tirava os olhos dela. Seria possível estar se apaixonando por ele? Tinha visto tantos filmes daqueles de Bollywood desde que havia ido trabalhar por lá. A mocinha apaixonada, o mocinho impedido de ficar com ela ou vice-versa. Às vezes não dava para saber se o filme era um drama, uma comédia, uma aventura de ação ou tudo isso ao mesmo tempo, nem sempre com o final esperado, mas, mais de uma vez ela havia chorado e se sentido um pouco ridícula porque era uma mulher adulta, não uma mocinha, vendo o tanto de drama que os indianos podiam colocar numa história de amor. Então, ela sorriu para Tenshinhan e disse:

– Me dá até o fim da noite para te responder, Tenshin?

Ele baixou a cabeça e então, fez o movimento de concordância, dizendo:

– É justo. – ele olhou para ela e disse – já saiu com algum indiano antes?

– Não – ela riu – você é o primeiro.

Ele deu a volta no jipe e abriu a porta para ela, oferecendo o braço e dizendo:

– Então, me permita te mostrar como somos... Ainda bem que tem esse estacionamento aqui.

Ela sorriu ao pegar no braço dele, e eles foram andando para a área do festival. O templo não era muito grande, mas foi o primeiro lugar onde foram. Havia uma grande piscina na frente do templo e ela estranhou ao chegar perto, porque no centro dela estava uma grande imagem de Ganesha, o deus que tinha a cabeça de elefante, imersa na água. A tinta com que havia sido pintado se dissolvia visivelmente, e as flores que provavelmente o haviam enfeitado flutuavam à sua volta. Ela então percebeu que havia centenas de pequenas reproduções do mesmo deus em volta daquela, algumas mais toscas, todas feitas de argila, dissolvendo-se. De repente, ela viu que Tenshin pegava algo no bolso e, espantada, o viu desembrulhar um pequeno Ganesha que cabia na palma de sua mão de um lenço branco e, repetindo um mantra, mergulhá-lo na água. Ele então virou-se para ela, sorrindo, e disse:

– Passado o momento de devoção, podemos ir para a festa.

Eles foram andando e ela, curiosa, perguntou:

– O que é aquilo? Porque você pôs... o elefantinho na água?

Ele riu e disse:

– O "elefantinho" é o Deus Ganesha, que protege as famílias e traz boa sorte. O costume é fazer uma pequena imagem, ou comprar, enfeitá-la para pedir proteção e sorte, então, no dia em que a lua está apropriada para isso, deixar que ele se dissolva na água, para que as bênçãos venham de Ganesha para nós, trazendo proteção e sorte.

– Sua família mora em Agra?

– Sim. E sim, o Taj Mahal fica lá, se é o que o que vai perguntar.

– Fico torcendo para um dia Chichi gravar lá para eu conhecer... – ela disse – ou eu posso ir com você. – ele sacudiu a cabeça daquele jeito que ela começava a gostar e ela sorriu. – É um túmulo ou um palácio?

– Os dois... – ele disse – foi construído por um rei daquela área, quando a Índia era um conjunto de reinos e Utar Pradesh estava sob domínio Muçulmano... o seu nome era Shah Jahan, e a sua esposa favorita, Mumtaz Mahal, havia morrido dando à luz seu 14º filho e ele, desolado, construiu sobre o túmulo dela o palácio que a havia prometido em vida.

– Puxa... que história mais triste – ela disse e ele sorriu.

– Sim... mas é uma história de amor, não é? Algumas são bem tristes.

– Não sei – ela disse – eu tenho 24 anos... e eu não vivi nenhuma grande história de amor, e as que vivi posso dizer que se não eram tristes, me deixaram bem furiosa... Eu não sei se sou muito romântica – ela deu de ombros – deve ser porque meus pais se separaram quando eu tinha 7 anos e brigaram por tudo até eu sair da casa da minha mãe, com 19. Seus pais brigavam?

Ele olhou para ela, longamente e deu um suspiro, então disse, enquanto caminhavam por entre barracas de doces na rua iluminada pelo festival, em direção ao palco:

– Meus pais não se conheciam até se casarem... e eles se casaram muito jovens, mas demoraram muito a ter filhos. Minha mãe achava que tinha algum problema, mas meu pai descobriu que era ele que tinha problema de fertilidade, então, fez um tratamento longo e doloroso, e minha mãe ficou sempre ao lado dele. Aos 30 anos ela conseguiu finalmente engravidar de mim. – ele sorriu para ela, que pensou em como ele ficava mais bonito sorrindo – aqui em Mumbai não existe o costume do Karva Chauth, que é celebrado onde eu nasci. É uma celebração a Krishna, herança de uma época de muitas guerras no Norte, em que as mulheres pediam a Krishna para preservar seus maridos e prometiam amor e devoção, como Sita, a esposa de Krishna quando ele esteve na sua encarnação como Rama demonstra por ele e pedem que os maridos a amem como Krishna ama Radha, seu reflexo feminino, a amante da sua encarnação anterior, que passou a fazer parte dele. O costume é que as mulheres jejuem do nascer do sol ao nascer da primeira lua do mês de Krishna, orando por seus homens. Mas meu pai, depois que minha mãe esteve ao lado dele no hospital por tantas vezes, habituou-se a jejuar junto com ela. A tradição diz que a mulher deve olhar para a lua nascente e então, olhar através de uma moldura vazia o rosto do marido, como se fosse o espelho e, antes de pôr um halwa (doce de cenoura) na boca da mulher, o homem pergunta se ele ainda é o espelho onde ela pode se refletir. É como perguntar "mereço seu amor?"

– E aí? – ela perguntou, curiosa, encarando-o com os olhos arregalados e ele riu.

– Bem, meus pais amavam esse ritual, mesmo passando fome juntos o dia inteiro... mas minha mãe sofreu um acidente horrível, foi atropelada no centro da cidade por um caminhão há oito anos e morreu – ele disse, sério – eu estava na universidade... e foi terrível, achei que meu pai morreria.

– Eu sinto muito... – ela disse, num fio de voz.

– Naquele ano meu pai jejuou só e criou um ritual só para si: ele pôs uma fotografia da minha mãe na moldura do espelho do Karva Chauth. Ele a guarda o ano todo e olha apenas sob a lua de Krishna... tem muitas fotografias da minha mãe pela casa, mas aquela ele guarda para olhar longamente apenas no dia do jejum.

– Eles deviam se amar muito.

Ele anuiu e disse:

– O que eles passaram juntos, consolidou o amor deles. Para alguns casais, a dificuldade separa. Talvez tenha sido o caso dos seus pais. Não se sinta mal por isso – ele disse, e pegou sua mão, de repente, dizendo – venha, tenho algo para você.

Lunch sentiu um arrepio quando ele segurou sua mão. Ele a arrastou até uma barraca onde uma mulher com cara de poucos amigos vendia pulseiras de contas de amarrar. Já ganhara algumas pulseiras daquelas de Chichi, significavam amizade, sorte, dependendo da combinação de cores das contas. Tenshin perguntou em hindi quanto era uma pulseira e a mulher deu um preço, de cara feia. A partir dali, foi difícil para Lunch acompanhar a altercação dos dois, com ele pechinchando e a mulher argumentando num hindi cada vez mais difícil para ela entender. Então terminaram de repente, com ele dando uma nota de 100 rúpias a ela e pegando três pulseiras. A mulher então olhou para Lunch, e dela para Tenshin e pegou uma cartela de bindis e disse, mau humorada:

– Bindis para namorada, meu jovem. – a mulher então sorriu e disse, numa tentativa de inglês – pulseira de Radha e de Sita... – ela riu e sacudiu a cabeça – significa muito...

Tenshinhan ficou vermelho e puxou Lunch para longe da barraca e ela perguntou:

– O que foi isso, pode me explicar?

Ele riu e disse:

– Não foi nada. Velha maluca, fala demais... eu quis comprar pulseiras para você.

– Pulseiras? – ela riu e estendeu o pulso – então amarre-as no meu pulso.

Ele segurou o pulso dela e disse:

– Essa é a pulseira de Sita Rukmani. – ele amarrou uma pulseira azul e cor de rosa no pulso dela – ela foi a esposa de Krishna que o acompanhou na sua encarnação como Rama, quando derrotou o demônio Ravana. – ela não soube o que dizer e ele pegou uma segunda pulseira, mais bonita, dourada e azul e disse – e essa é a pulseira de Radha... Radha é o grande amor de Krishna e sua alma gêmea. Quando Krishna esteve na Terra, o amor dos dois foi tão grande que eles tornaram-se o espelho de um só. Não se sabe mais onde Krishna termina e onde Radha começa.

– E essa aí? – ela perguntou, vendo a terceira pulseira na mão dele. Era cintilante em vários tons azuis. Ele a encarou e disse:

– Essa é a pulseira de Krishna, que é todo feito de amor. O que quer que eu faça com ela? Guardo ou amarro em você?

– E se eu a amarrar em seu pulso, Tenshin? – ela perguntou, encarando-o. Talvez não fosse a resposta que ele esperava e ele disse, sério:

– Eu cuidaria muito bem dela.

Ela pegou a pulseira e amarrou no pulso dele. Os dois se encararam por um instante. Sem dizer nada, ele a puxou e a abraçou. Beijos eram tabu por ali, ele não a beijaria numa festa, mas disse, baixinho em seu ouvido:

– Eu vou cuidar muito bem de você... se você quiser.

Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo, quando respondeu:

– Eu... quero. – ela sussurrou e ele apertou mais o abraço. Então, separou-se dela e pegou no bolso a pequena cartela de bindis, destacando um, que colou à testa dela, dizendo:

– Pronto... vamos fingir que é uma tikka. Eu te entrego as bênçãos que Krishna mandar para mim.

Ela olhou para o ponto vermelho que ele mesmo tinha na testa. Tinha aprendido o significado daquilo, era uma bênção, "shanti" como se dizia em hindi. O fato dele, um homem solitário em Mumbai fazer em sua própria testa uma tikka mostrava como era devoto daquela religião tão misteriosa para ela e ele, ao colocar um bindi na sua testa, estendia a bênção para ela. Começava a ficar encantada por ele. Ele então a puxou e disse:

– Vamos andar por aí. E ver se descobrimos o tal garoto no meio da multidão. E ver se Chichi estava certa e ele vai mesmo dançar no festival.

Eles estavam se dirigindo para a área de dança, onde havia um palco onde mais tarde haveria uma série de apresentações quando ela viu uma barraca de doces onde uma mulher mais velha, acompanhada de dois jovens, vendia doces. Ela mostrou o rapaz a Tenshin e perguntou:

– Olha... não é ele?

Ele olhou para o rapaz e sorriu para ela, dizendo:

– Parece que o encontramos. É, ele falava a verdade quando dizia que era apenas um vendedor de doces.

– O que vamos fazer, Tenshin?

– Observar. E ver se ele tem o talento que Chichi disse que tem.

– Não importa se ele tem talento ou não. – disse ela. – O senhor Raaja proibiu os dois de se aproximarem.

– Se for o destino dos dois – ele disse, e soou absolutamente confiante – não vai adiantar o senhor Raaja tentar atrapalhar, cedo ou tarde ficarão juntos.

Lunch olhou para ele e sorriu. Tenshinhan era um homem completamente diferente do que havia imaginado a princípio. Mas a sua curiosidade a fez perguntar:

- Os deuses... os seus deuses... quantos eles são?

Ele riu e balançou a cabeça antes de dizer:

- Nem mesmo eu sei. Nós temos deuses para quase tudo.

- Você... acredita mesmo neles? Digo, não se ofenda, por favor... mas acredita assim, na existência... tipo física de um Ganesha, de um Krishna... não acha que é muita coisa para acreditar?

Ele pensou um pouco e então, sorriu e disse:

- Se eu acredito que tem um Deus encarnado fisicamente em algum lugar decidindo a minha próxima encarnação e se zangando comigo porque eu não pintei a tikka na testa como minha mãe fazia todos os dias? Bem, eu fui a Universidade... estudei como tópico obrigatório filosofia, e, na época, reclamei muito disso, mas isso me deu a compreensão sobre certas coisas. Não, não acredito nos Deuses dessa forma, como entes tão humanos e temperamentais, tão egoístas como nós somos... Mas isso não significa que para mim os Deuses não sejam reais. Eles são, e, para mim, existem. Eles são a forma como nós, os hindus, entendemos a complexidade do Universo. Assim como Jesus e Maomé são as dos outros povos.

- Uau. Isso foi a coisa mais complexa que alguém já me disse e me fez entender mais sobre Deus do que todos aqueles anos em que minha mãe me obrigava a frequentar a Igreja Batista e ler a Bíblia em voz alta...

Os dois sorriram um para o outro e seguiram seu caminho.


Enquanto isso, na barraca de doces, Bulma discutia com o irmão porque queria logo sair para se arrumar, dizendo que o figurino dele era mais fácil, e que o dela exigia muito mais elaboração. O irmão brigava com ela e dizia que ainda havia muitos doces para vender e eles precisavam ajudar a mãe o maior tempo possível, afinal, Raditz já havia partido para mais uma longa viagem de caminhão.

Kakarotto não via a hora de terminar logo aquilo. Ele havia topado dançar apenas por causa da irmã, que o perturbara muito com aquela história. Por ele, jamais dançaria novamente, porque estava desapontado e chateado com a chance perdida.

Chegara à conclusão que um rapaz como ele, um pobre vendedor de doces, jamais teria chance com a linda estrela de Bollywood e sentia ainda seu coração irremediavelmente partido e incapaz de sentir prazer em dançar. Mal sabia ele que, realmente, naquele momento o destino daria uma volta e o tiraria, de fato do caminho da dança.

Mas daria a ele algo em troca, algo que, dali a alguns anos, o colocaria novamente na trilha do sucesso. Mas antes disso, ele ainda teria uma dança ao menos com sua amada Chichi.

Notas:

1. Tentei ser o mais respeitosa o possível com a religião hindu nesse capítulo. Agradeço à minha amiga Jorgette que me explicou o básico dos preceitos e a visão filosófica da religião.

2. Eu demorei ANOS para entender a complexidade do casal Radha-Krishna e a relação de Krishna com Sita, a tal esposa perfeita no modelo indiano. O fato é que Krishna, o oitavo "avatar" ou encarnação do deus Vishnu na terra, tem muitas sub-encarnações e vários amores. Desde as namoradas anônimas, chamadas "gopis", ou pastoras, que se encantam por ele (lembrando que o hinduísmo é uma religião que nasceu poligâmica e com o tempo se tornou monogâmica), até as suas duas consortes mais conhecidas, Radha – que é seu amor na encarnação de Vishnu como Krishna mas com quem ele não chegou a casar porque morreu antes disso, e que, após a morte se tornou "reflexo e parte de Krishna" e, após ela, Sita. No clássico "Ramayana", um épico que conta a história de como Rama, uma encarnação guerreira de Krishna, derrotou e expulsou do mundo o demônio Ravanna, e Sita, o arquétipo da esposa fiel e devota, foi essencial nessa derrota. Quando Krishna é representado como Rama, Sita está a seu lado, os dois sentados como um casal comportado. Quando ele é representado com Radha, por outro lado, os dois estão sempre com uma interação maior, mostrando que são um casal apaixonado.

3. Sobre Ganesha: o deus é o primeiro filho de Parvati e Shiva, tendo sido decapitado pelo próprio pai por engano, ao cumprir ordens da mãe, cumprindo o carma de Shiva, que havia decapitado antes um rei. Ao pedir perdão a Brahma e Vishnu, Shiva recebe a graça de ressuscitar o filho mas não consegue achar a cabeça dele, porque sua espada a havia lançado longe demais. Os deuses mandam então que ele troque a cabeça pela da primeira criatura que ele encontrar numa caminhada a oeste. Ele encontra um elefante jovem morrendo depois de uma queda e dá ao animal uma morte piedosa, aliviando suas dores. Então, Shiva leva a cabeça para seu filho, que se torna muito forte e passa a ser um protetor do lar e da família. A popularidade de Ganesha vem do fato dele também ser "O Deus da Sorte" no culto hindu.

4. Agora falando da nossa história: Tenshin começa a encantar Lunch. O que podemos esperar desses dois?

5. E qual será o caminho que vai levar Goku ao sucesso?