Capítulo 10 - Chay Chayya (Entrar nas sombras)
Somente o profissionalismo de Chichi poderia fazê-la aturar a pareceria dela com Vegeta Jr. Raaja havia superestimado a preparação do seu filho ao dizer que ele estava 60% pronto. Na verdade, na opinião de Chichi, teria sido melhor colocar um babuíno ou até mesmo um crocodilo para fazer par romântico com ela.
Na leitura de texto, já havia sido simplesmente um pesadelo trabalhar com ele. Como ficara toda a adolescência na Europa, Vegeta simplesmente não compreendia como seria uma narrativa de filme indiano, então, quase toda leitura do texto foi marcada por tiradas irônicas e comentários sarcásticos em relação aos diálogos do filme.
- Que cara hoje em dia chama a namorada de "maçã dos meus olhos"? – ele zombava ao ler sua própria fala – ainda mais olhando para essa vesga maníaca.
- Ninguém espera que um diálogo de filme juvenil indiano seja maduro ou realista, seu demente cabeçudo – respondia Chichi, e a leitura de texto era interrompida imediatamente para que eles se xingassem à vontade.
Quando os ensaios começaram, na verdade, o pesadelo piorou ainda mais. Vegeta, mesmo tendo treinado com Vados, na verdade não estava preparado ainda para dançar como um profissional ou atuar como um verdadeiro ator de Bollywood. Para completar, sentia-se desconfortável no figurino do príncipe, roupas que imitavam a antiga realeza indiana com um exagero que o aborrecia. E ele se recusava a usar um turbante, ficando com os sapatos de bico curvado, a túnica e as calças bufantes que o faziam sentir-se como um bobo da corte.
Nada favorecia a parceria dos dois: Vegeta era inexperiente e Chichi completamente impaciente. Cada vez que tentavam dançar ou atuar, acabavam se xingando mutuamente, porque desde crianças haviam se detestado e aparentemente nada podia mudar o asco confesso que sentiam um pelo outro.
- Esse filme vai ser um completo FRACASSO! – gritou Chichi, depois do milésimo erro de Vegeta no último ensaio antes do início das filmagens – isso é o pior pesadelo da minha vida e eu amaldiçoo o dia em que Yamcha se acidentou e sobrou você para ser meu par!
- Acredite, eu preferia estar ainda treinando com Senhora Gelada do que estar ensaiando com você, sua pequena megera!
Suspirando, Whis, o coreógrafo dos filmes de Chichi, e Vados, sua irmã, que havia treinado Vegeta mas achava que só em um ou dois anos ele estaria apto a dançar no nível de exigência de Bollywood, observavam calados o desastre se formando. De repente, Whis disse:
- Irmã querida... pelo visto teremos que nos aposentar em Bollywood. Quando nossos nomes surgirem nos créditos dessa desgraça dificilmente alguém vai querer nossos serviços...
- Percebo, querido irmão... – disse Vados, num tom que não demonstrava nenhuma emoção. – acho que teremos que convencer nossos empregadores a mudar esse roteiro.
- Mudar o roteiro? – Whis olhou para a irmã, incrédulo. – Como assim, mudar o roteiro?
- Francamente, não acha as discussões dos dois engraçadas?
- Sim, acho, mas... é a Princesa Shanti... ela não xinga nem se comporta mal!
- Então esse filme tem tudo para fracassar... – disse Vados, com cara de tédio. – Mas veja, a química dos dois... imagine-os com um roteiro menos no estilo "Herói salva a princesa" e sem essas roupinhas de príncipe com mangas bufantes... Poderia dar certo.
Whis ficou chocado, porque, de fato, era verdade. Mas ele lembrou-se de um pequeno detalhe:
- E a coreografia? Vegeta não dança bem...
- Isso pode ser ajeitado. Temos que fazer coreografias diferentes para os dois. Levando a consideração o nível de cada um deles. Ela pode dançar em volta dele, ensinamos alguns trechos mais simples para ele, fazemos muitas pegas e agarramentos, que o público gosta... e pronto. Temos um filme para um cara de habilidades limitadas.
- Será que vai dar certo?
- Só saberemos se tentarmos!
As sugestões de Vados precisaram ser dadas através de Whis para Raaja, que tinha uma grande resistência a ouvir sugestões vindas de mulheres. Mas conforme Whis falava, tudo fazia sentido, e o velho produtor começou a considerar as diferenças entre as duas ideias de roteiro.
A verdade era que a história original não era tão divertida, e, por causa do súbito romance, destoava um pouco das histórias da série dos filmes da princesa: o príncipe, chamado Aman, viria em missão diplomática até o reino de Shanti e eles teriam um amor à primeira vista, sendo atrapalhados pelo velho conhecido, o vilão Kabir Shankara, o vizir do reino vizinho que vivia infernizando a vida de Shanti e tentando roubar a pérola perfeita da coroa da falecida rainha. Com a ajuda do amado, Shanti derrotaria o malvado Kabir definitivamente, depois de um emocionante duelo de espadas entre os dois, que acabava com o vilão, que normalmente era apenas expulso, caindo num abismo e morrendo.
O roteiro feito a partir das sugestões de Vados transformava o jovem no príncipe dos piratas, que tentava ele mesmo roubar a pérola perfeita, e quando Shanti ia escondida ao navio dele recuperar a pérola, o vilão Kabir atacava o navio do príncipe, o pirata e a princesa superavam as diferenças para derrotar o vilão, que acabava afundando com seu navio. O romance, que no filme anterior começava com 15 minutos de filme, na nova versão desenvolvia-se em meio a discussões ríspidas e tensões entre os dois protagonistas e só era, de fato, consagrado no terço final do filme, com direito a um casamento no navio e o casal partindo para uma grande aventura no mar.
Whis explicou a ideia para Raaja usando todo seu talento dramático e expressão, e, antes mesmo de terminar, o produtor já estava convencido que aquela seria a forma de salvar a lucrativa série de um desastre anunciado. Whis ainda apelou para o sentimento de pai do novo ator principal, dizendo que o tradicional número de abertura que normalmente era um musical com Chichi cantando e dançando com um coro, poderia ser transformado num dueto inusitado plano a plano, alternando Chichi e Vegeta cantando em cenários separados. Isso convenceu o produtor a gritar imediatamente:
- Oolong, ligue para todos os roteiristas imediatamente! Temos duas semanas para consertar a história do filme da Princesa Shanti!
Bulma acordou gritando. Ela sempre tinha aquele pesadelo. Menos de um minuto depois, Gine entrou no quarto. E abraçou a filha:
- Calma, calma, minha neelam (safira), minha pequena joia da coroa de Krishna... mamãe está aqui.
- O homem, maan, o homem do rabo-de-cavalo... ele vai me pegar... eu sei, eu sei...
- Calma, calma minha pequena! Não tem nenhum homem do rabo-de-cavalo...
Bulma aos poucos se acalmou. Mesmo aos 17 anos ainda tinha o pesadelo recorrente com o tal homem "de olhos verdes e rabo-de-cavalo". Quando ela era criança, sempre acordava com aquele pesadelo, e talvez aquilo tivesse feito Bardock desconfiar que seus pais haviam sido assassinados, mas ela jamais ligara uma coisa à outra.
Só se lembrava do homem estendendo a mão para ela, mas não de onde o conhecia, muito menos de quem ele era.
Só sabia que ele era perigoso e ela deveria correr dele, mas nos sonhos, ela ficava paralisada e o homem conseguia pegar o seu pescoço e apertar, e ela acordava sufocada e gritando.
Gine suspirou olhando para a parede do quarto da filha, coberta de posters de Yamcha Kapoor, e pensou que mesmo com sua menina crescendo, os pesadelos persistiam. Não tão frequentes como quando ela era uma criança, mais ainda assustadores o suficiente para que ela a visse tremendo e chorando cada vez que acordava alertada pelos gritos.
Como fazia quando ela era pequena, Gine ficou perto da filha adotiva até ela dormir. Depois ficou olhando para a jovem adormecida, pensando de onde teria vindo aquele terror que ela sentia. No fundo, como Bardock, Gine sabia que tinha a ver com a morte dos pais dela. Jamais associara a morte do marido àqueles sonhos ou a desconfiança dele de que a filha houvesse testemunhado o assassinato dos pais, porque ele jamais havia comentado com ela sobre isso.
Mas no silêncio da noite, enquanto voltava para seu quarto vazio, a doceira pensou, antes de deitar-se, em como a presença do marido fazia falta naqueles momentos.
- Ah, Bardock... mere sonyie (meu querido) como queria ter você aqui para me abraçar...
Chichi olhou-se no espelho, empolgada como nunca. O figurino era diferente. A maquiagem era mais adulta. Ela estava mais adulta e linda que nunca. Lera o roteiro e era MUITO MELHOR que o original. Mesmo tendo que contracenar com aquele insuportável, ela sentia-se feliz como nunca na pele da princesa Shanti. Era pena que aquele fosse o último filme, mas ela sentia-se pronta, de fato para novos papéis e novos desafios. Faltava agora apenas livrar-se do suplício que era contracenar com Vegeta Jr.
Ela saiu do trailer. Vegeta já a esperava, impaciente, totalmente vestido e maquiado para uma das cenas dos dois. O cronograma estava inacreditavelmente adiantado, porque, pelo menos, Vegeta era capaz de decorar textos incrivelmente rápido, embora ainda fosse um dançarino bastante limitado e um ator bastante inexpressivo. A sorte era que tinham muitas e muitas cenas onde eles discutiam no filme, e isso ele conseguia fazer bem, porque ambos se detestavam e a raiva era real.
Ele olhou para ela como se ela fosse parte da mobília e disse:
- Enfim. Vamos gravar, peçonhenta?
- Claro, babuíno cabeçudo. Já te disseram que você fica parecendo um sorvete de casquinha quando usa turbante?
- Não. Já te disseram que você lembra uma naja vesga?
- Não, mas eu consideraria um elogio. Najas sabem se defender muito bem, exatamente como eu...
- Se eu fosse você, jamais iria ao zoológico, te trancariam na jaula das cobras.
- E eu espero que você não tenha devoção a Hannuman...
Ele parou, sem entender nada e ficou encarando a garota, esperando qual era o veneno que ela tinha para destilar e ela disse:
- Se for adorar Hanuman no templo, vai encontrar seus verdadeiros parentes e nunca mais vai sair de lá, e o filme vai ficar inacabado... – ela disse, referindo-se aos macacos que costumavam infestar templos de Hanuman, o Deus macaco.
- Ora... sua...
- Chichi, Vegeta Jr, em suas marcas. Vamos ensaiar antes do gravando! – gritou o pai dela, que dirigia o filme, como sempre.
Era uma cena de discussão que terminava em dança. Chichi dançava bem mais que Vegeta, que se limitaria a pegá-la algumas vezes, rodopia-la e fazer passos bem simples em sincronia com ela – o que havia sido aprendido a custa de muitas horas de treino com Vados – e no fim, eles terminavam a cena com ele segurando Chichi numa pose galante.
- Então, príncipe – começou Chichi, atendo-se ao texto ensaiado – devolva a minha pérola e eu não derrubo a sua frota, que está absolutamente cercada pela minha poderosa armada. Posso parecer piedosa, mas há um canhão voltado para cada navio nessa baía!
- Ora, ora, ora – disse Vegeta, também atendo-se ao texto – Eu não me importo com essa frota, de onde vieram esses navios, há muitos mais – ele se aproximou, fazendo o gesto que havia sido ensaiado várias vezes, de acariciar o rosto de Chichi – mas uma pérola preciosa é única e vale mil navios... ainda que seja venenosa como uma naja vesga – ele completou, saindo do texto, dando vazão à raiva que sentia da garota.
- Mas imagine – Chichi segurou a mão dele, fazendo menção de afastá-lo, como haviam ensaiado anteriormente – que tesouros inestimáveis um pirata como você não contemplou, príncipe Aman... com esses belos olhos, colocados sob essa testa de elefante, nessa cabeça descomunal colada nesse seu corpo atarracado de macaco... – ela mesma acrescentou texto, caprichando na ofensa.
Ele segurou a mão dela, trançando-a na dele, puxando-a mais para perto, ao dizer:
- Nenhum tesouro é tão belo quanto sua pele branca, princesa... o que mostra que eu só posso estar louco ou preciso urgentemente de óculos – ele colocou a fala ofensiva no meio do texto e prosseguiu – mas se este for meu último dia... será um dia muito feliz, princesa... porque meus olhos já a contemplaram!
A música de marcação dizia que a canção "shub din" estava começando. Chichi fez um movimento de katak gracioso e começou a dublar a música, que dizia:
"Dia feliz, dia feliz dia feliz... foi o dia em que te encontrei!"
A partir dali, entrou um coro, acompanhado atentamente por Whis, que corrigia cada movimento das moças e dos rapazes que dançavam com eles e anotava, para a orientação final antes do "gravando". Chichi girou, dublando a música, fez graciosos movimentos entre os demais casais, e pulou no colo dele, que girou, fingindo cantar a música com ela nos braços, para então soltá-la e estrategicamente fazer dois ou três passos fáceis, antes de se aproximar para novos passos juntos, bem fáceis.
A música chegava ao fim com ele segurando-a, debruçado sobre ela e os dois sorrindo, olhando para a câmera. Era um dos momentos mais fofos do filme, mas, quando o pai dela gritou:
- Ótimo! Agora faremos tudo valendo e por favor, crianças, parem de se ofender no meio dos diálogos!
- Certo – disse Vegeta, largando Chichi, que caiu no chão gritando em protesto.
- EU O ODEIO! – gritou Chichi, entrando no camarim para uma troca de roupa para outra cena, a última daquele dia. Lunch, que voltara há um tempo da lua de mel com Tenshin, deu um sorriso e disse:
- Olha, mas você devia ver como fica legal quando vocês dois contracenam! Há uma química, realmente, entre vocês!
- A única química que eu queria era um potente ácido para derreter o corpo daquele maldito. Ele me deixa cair DE PROPÓSITO, Lunch!
- É, ele não é nenhuma flor de educação. Tenshin disse que viu poucos atores mais mal-educados que ele – ela disse, enquanto retirava toda maquiagem de pele de Chichi com demaquilantes importados, para refazer outra, condizente com o figurino seguinte – mas até que eu o acho bonitinho.
- Ele é medonho! Aquela testa de um quilômetro! Argh! E ainda diz que sou vesga!
- Hum, na América dizemos que quem desdenha quer comprar!
- Aqui eu digo que quem quiser, pode levar! Não vejo a HORA de me livrar desse maldito.
Mal sabia ela que teria de aturá-lo ainda por mais alguns anos...
O Carnival Imax, um dos maiores cinemas de Mumbai, e certamente um dos mais luxuosos, recebeu a pré-estréia de "Princesa Shanti feliz para sempre" dias antes do feriado prolongado do Diwali, que era uma das datas mais disputadas por filmes para a família. Mas Raaja Vegeta conseguira a data para o filme e projetava um grande sucesso, porque muita gente queria ver o crescimento de Chichi, que estava com quase 18 anos, na tela.
Chichi e Vegeta, absolutamente contrariados por isso, foram juntos numa limusine especial, junto com Cutelo e Raaja. Entraram lado a lado, mas não de mãos dadas, e ela sorria de forma protocolar para os repórteres e fotógrafos quando viu a cara fechada de Vegeta, e se aproximou, dizendo baixo:
-É a sua estreia, cabeçudo – ela sorriu para ele, apesar da ofensa – vê aqueles abutres ali, na primeira fileira? Se eles não gostarem de você hoje, está acabado. Portanto, sorria e acene – ela acenou graciosamente e olhou para ele, convidando-o com os olhos a fazer o mesmo.
Vegeta não era muito de rir, mas sabia o preço que pagaria se fracassasse ali, portanto, sorriu e acenou aos repórteres, o que fez uma centena de flashes estourarem. Ele então segurou a mão de Chichi e a puxou pelo tapete vermelho dizendo baixo:
- Há mais alguma coisa a fazer?
- Quando chegar bem na porta vire-se e levante a mão, como se acenasse para alguém distante. E por favor, solte a minha mão ou vão dizer que estamos noivos.
Ele largou imediatamente a mão dela e perguntou:
- Como sabe tudo isso?
- Eu cresci nessa indústria que você passou a vida rejeitando... acredite, o sucesso ou fracasso de um filme não depende apenas do que se vê na tela... agora.
Os dois viraram-se e acenaram ao mesmo tempo antes de entrar no cinema. Atrás deles, Raaja observou atentamente e percebeu que aquele casal era uma mina de ouro: jovens, bonitos e fotogênicos. Mesmo que se detestassem, ele faria tudo para que continuassem trabalhando juntos.
Todo filme da série da Princesa Shanti começava com uma canção que dizia "Sou Princesa Shanti, do reino de Lashmar!", que era cantada pelos fãs de Chichi onde quer que ela aparecesse. E foi exatamente assim que o filme começou, mas, depois da primeira estrofe, a cena foi cortada para a visão de um navio gerado em computação gráfica, porém muito realista, que se aproximava da tela desde longe até focalizar no tombadilho, onde Vegeta surgia, sendo focalizado até quase o close, debruçado num balaústre e com um sorriso abusado no rosto cantando "Eu sou Aman, príncipe pirata dos sete mares, governante da Ilha de Kazaam!", entrando na canção de forma absolutamente precisa, com a voz do tradicional cantor Sonu Nigan, que cantava para diversos atores de Bollywood.
Foi um caso de amor do público por um casal à primeira vista. Alternando-se na tela, Chichi e Vegeta pareciam perfeitos e a plateia estava ganha ao final da primeira canção. Chichi, do seu lugar, percebeu instantaneamente que o filme faria um sucesso imenso, porque exaltava as qualidades de Vegeta e conseguia esconder seus inúmeros defeitos.
Ela se sentiu um pouco incomodada com aquilo, sabia que não havia tido a mesma atenção porque ela já era uma estrela, mas sentia que tudo havia sido preparado para que ele roubasse a cena. Porém, quando ela aparecia, reconhecia que estava mais linda do que nunca e que agora parecia mais adulta até do que era. Isso a fez sentir orgulho por si mesma.
Ao final da sessão, ela sabia que aquele filme seria sua melhor estreia e provavelmente a melhor bilheteria de sua carreira e pensou, aliviada, que podia dormir tranquila porque estaria, em breve, livre de Vegeta.
Quatro meses depois, houve a premiação do Filmfare, uma espécie de Oscar Indiano, e muita coisa que ela imaginava aconteceu: Vegeta, a exemplo dela alguns anos antes, venceu o Filmfare de Revelação Jovem e "Princesa Shanti feliz para sempre", que já havia sido uma das maiores bilheterias do ano, venceu a votação popular, embora tivesse perdido o prêmio do Júri, que nunca contemplava filmes juvenis. Mas o melhor de tudo havia sido a consagração de seu pai, que venceu o primeiro Filmfare de melhor diretor desde a morte da esposa. Whis e Vados venceram o prêmio de coreografia e diversas categorias técnicas, inclusive efeitos visuais e coreografia foram vencidas pelo filme.
Mas uma surpresa foi preparada por Raaja especialmente para sua jovem estrela, algo para adoçá-la para o que viria depois: Chichi venceu um prêmio especial pelos seus 10 anos de carreira – ainda que ela só tivesse 9 – que seriam completos naquele ano. Um clipe com ela desde criança foi exibido e ao final, o consagrado ator Sharukh Khan chamou-a ao palco para receber sua homenagem. Chichi tinha apenas 18 anos e sabia que poderia ser ainda melhor e maior, mas desconfiou um pouco daquela premiação.
E sua intuição estava certa, porque, assim que acabou o Filmfare, Raaja Vegeta chamou-a, junto com Vegeta e anunciou a intenção de produzir um novo filme com os dois, o que ambos rejeitaram imediatamente. Foi quando ele deu a cartada final:
- Sei que vocês querem muito livrar-se um do outro... mas isso, nesse momento é arriscado demais. Estão vinculados a mim por um contrato de agenciamento, lembram-se? Se não atuarem juntos em pelos menos mais três filmes, não atuarão com mais ninguém.
Os dois se entreolharam. Estavam definitivamente ferrados.
Notas:
1. SURPRESA! Vamos passar a atualizar duas vezes por semana, terça ou quarta e sábado ou domingo (dependendo da minha disponibilidade).
2. Hannuman, o Deus Macaco indiano é um dos avatares do Deus Shiva, segundo o Ramayana e o Mahabaratha, textos sagrados do hinduísmo, que vem à Terra para ajudar o rei Rama, um dos avatares de Vishnu, a salvar Sita Devi, sua esposa, e derrotar o demônio Rama. É o segundo Deus com forma meio animal mais popular, perdendo apenas para Ganesha em termos de culto. Nos seus templos fora das grandes cidades os devotos costumam alimentar macacos do tipo rhesus, mas em cidades grandes como Mumbai normalmente um ou dois macacos são mantidos como avatares vivos do Deus, sempre soltos.
3. Falando no Ramayana, o Diwali ou Deepwali ou Deepawali é a celebração da derrota do Demônio Ravana pelo Rei Rama e a expulsão das forças das trevas, dando início à chamada "era da luz". Simbolicamente, é a derrota da ignorância pelo conhecimento e do egoísmo pelo altruísmo, por isso é o feriado comemorado com mais devoção tanto pelo hinduísmo tradicional como pelo divergente Jainismo e o derivado Sikhismo ao longo de três dias do mês lunar Kartika, o que faz a data cair entre outubro e novembro do calendário gregoriano. A preparação do Diwali inclui rezas e jejuns e sua celebração o acendimento de várias luzes e lamparinas, simbolizando a luz de Rama, Krishna e Vishnu, três avatares do mesmo Deus, que derrotam a escuridão e o mal do mundo. É, junto com o feriado muçulmano do Eid Mubarak (entre junho e julho) e o Dia da República Indiana, uma das datas mais disputadas para estreias de filmes.
4. O Filmfare é como um Oscar e um dos três prêmios mais importantes da Indústria de Bollywood. Uma curiosidade: Jackie Chan, que já fez filmes em Bollywood nos anos 90 e 2000, foi um dos estrangeiros convidados a apresentar uma parte do prêmio, em 2010. John Travolta também já foi convidado para uma homenagem especial e dançou com Pryanka Chopra num Filmfare. O prêmio tem mais categorias do que o Oscar porque inclui votações populares, além do prêmio do júri.
5. A carreira de Chichi aqui lembra um pouco a da atriz Alia Bhat, que começou como criança e hoje é uma das atrizes mais populares de Bollywood.
6. Sonu Nigan é um cantor nascido em 1970 que já emprestou sua voz a mais de 50 atores em filmes de grande sucesso e também um compositor consagrado.
7. A canção que dá título a esse capítulo, Chay Chayya ou Chay Chayya Chayya ou ainda Chayya Chayya, foi composta por A. R. Raman, notório compositor de sucesso, cantada por Sukinder Singh e Sapna Awasti para a trilha sonora do filme que já citei aqui, Dil Se, de 1999. O clipe da música é bem conhecido e foi gravado sem dublês por Sharukh Khan, Malaika Arora e um coro de mais de 30 dançarinos sobre um trem em movimentos na estrada de ferro das Cristas do Himalaia. O cineasta Spike Lee ficou tão impressionado com essa cena que usou a música na abertura do filme "O Plano Perfeito" (The inside man), do ano de 2006.
8. Ah, sim: repitam comigo: pessoas que não vão uma com a cara da outra não precisam se envolver romanticamente. Repitam de novo. E agora de novo. E mais uma vez. Entenderam que essa não é uma história de romance entre Chichi e Vegeta? Se não entenderam, vão entender no próximo capítulo, quando o Vegeta FINALMENTE conhece uma certa moça de cabelos azuis que, por algum motivo, tem pesadelos com o Zarbon.
