Capítulo 13 – Main agar kahoon (Se eu te disser...)
– Quanto disse que é a bolsa de ajuda, Kakarotto? – Raditz olhava o irmão sério, os dois sentados na boleia do caminhão estacionado em frente ao estádio.
– Oitenta mil rúpias (pouco mais que 5000 reais) por mês... mais as despesas em Déli pagas. Isso até começarem a filmar...
– Filmar?
– Os lutadores que realmente se destacarem nos treinos é que vão ser selecionados para a liga dentro de seis meses. Mas quando a preparação para os primeiros eventos começar, vão fazer um reality show, e, dependendo dos patrocínios e da popularidade de cada um, os ganhos podem aumentar muito...
– E se você não for um dos selecionados, bhaee?
– Eu vou ser, Raditz. – Kakarotto disse, determinado. – Eu vou ser o lutador mais forte e o primeiro da liga. Vou conseguir o cinturão, ganhar muito dinheiro e mudar a nossa vida. – ele encarava o irmão, certo do ceticismo dele, mas disposto a tentar, por isso, completou – Eu entendo sua preocupação, mas é a melhor oportunidade da minha vida.
– Eu não nego isso – disse Raditz – mas me preocupo com nossa maan. Como ela vai ficar sozinha e sem você para as vendas e entregas? Eu preciso pagar o caminhão... posso passar a pegar entregas apenas aqui em Mumbai, mas ganharia menos...
– Sei que sempre é você que se sacrifica, bhaee – disse Kakarotto, com uma nota triste na voz – mas, pense...
– Já pensei – disse Raditz, irritado – não estou pedindo para que não aceite! Quando você tem que ir ao escritório deles?
– Segunda-feira. Daqui a três dias.
– Bem, temos três dias para pensar numa solução.
O jantar naquele dia foi uma mistura de lágrimas de felicidade e tristeza de Gine:
– Que coisa maravilhosa – ela ria e chorava – mas por Krishna, Nova Déli é do outro lado do país, meu filho! Como vou aguentar essa distância?
– Não faça drama, maan. Eu falarei com a senhora todas as noites pelo Skype. Como a Bulma faz!
Bulma, que tinha vindo aquela noite para casa, para passar o fim de semana, disse:
– Não é a mesma coisa, seu tonto! Eu estou aqui pertinho no pensionato! Você vai estar lá longe, em Déli!
– Podia ser pior! Eu estou no Time Mumbai/Deli, o time Bengali vai ter como sede Calcutá, que é MESMO do outro lado do país! E eu vou ter direito a 4 passagens e 2 fins de semana em casa por mês!
A mãe encarou o filho, com os olhos cheios de lágrimas. Desde a formatura dele e de Bulma, ele havia se tornado seu autêntico companheiro: nas manhãs, acordava muito cedo, antes do amanhecer, para a sua corrida, e voltava sempre com uma fruta fresca para eles comerem no café da manhã, quando ela estava com o chapati, o pequeno pão chato indiano, prontinho. Era um café da manhã muito melhor do que o que haviam comido por anos, restrito a arroz chato com ghee, mas agora, graças ao esforço dele e de Raditz, a vida deles era um pouco menos apertada.
Depois, ele revisava as entregas do dia e saía com seu tuctuc pela cidade, normalmente tendo que dar várias viagens até as 14 horas, quando ele saía para seu treino de luta ou para se preparar para algum torneio. Ele era seu menino precioso, e, quando voltava para casa, sempre vinha com histórias engraçadas e com o entusiasmo de um jovem sonhador pelos seus sonhos de lutas e torneios... e era para isso que ele treinava tanto, não era? Diante disso, Gine deu um profundo suspiro e disse:
– Eu sei que eu nunca fui assistir a uma luta sua porque não quero ver meu menino precioso, meu pequeno Krishna com o rosto do meu Bardock, apanhando. – o filho corou e ela prosseguiu – mas, já que é assim, já que é isso mesmo que você quer e essa é a sua grande chance... então, filho, eu prometo a você que quando estiver valendo um título importante eu vou estar lá para torcer para você... Ela o encarou séria e disse – e trate de vencer sempre, para honra de nossa família! Mesmo que você tenha cismado de usar um outro nome para isso, não esqueça que você é Kakarotto, filho de Bardock!
– Eu não vou esquecer, mamãe!
Faltava uma semana para o início das gravações do novo filme de Chichi e Vegeta: "Sarasvatee", a história de um pintor e sua musa inspiradora, que ele via do outro lado da rua e pintava todos os dias. Finalmente eles fariam uma história romântica e leve, com final feliz, cujo dado mais dramático era o fato do personagem de Chichi ser uma cantora cega que, portanto, não poderia se impressionar pelas pinturas de Vegeta.
A abertura de uma filmagem era sempre um evento fabuloso no estúdio: normalmente apresentava-se e primeira canção da trilha sonora, depois apresentava-se a sinopse resumida do filme, mas antes disso tudo, havia a pooja, a oração inicial aos deuses pelo filme com uma pequena oferenda à deusa das artes, Sarasvati na forma de um coco que era quebrado antes de tudo, na escada de acesso ao estúdio.
Como gostara demais da história, Chichi pressionara Shallot para que ela participasse mais das decisões sobre o filme, ao contrário de Vegeta, que não fazia muita questão daquilo. E uma das primeiras tarefas da produção era preparar a festa no estúdio, e, para isso, Chichi se empenhara em encomendar o melhor buffet de eventos de Mumbai, mas o buffet não fornecia doces, e ela fazia questão de uma mesa cheia de doces, porque Sarasvati era aplacada por doces e arroz, e era esse o dilema na primeira leitura do texto.
– Shallot! – ela dizia, enlouquecendo o namorado – você não me conseguiu ainda nenhuma doceira! Temos pouco tempo! Precisamos de uma boa doceria para fornecer os doces, falta muito pouco!
– Eu... – o rapaz havia se esquecido completamente que prometera procurar um bom fornecedor e, certamente, encolheu-se diante do olhar de fúria de Chichi, que reclamou:
– Como posso organizar essa festa sem o empenho de vocês?
Vegeta olhou para a colega de elenco, que bufava e lembrou-se, de repente, de Bulma. Estavam em um pequeno recesso pré-monção e há uns dias não se falavam, mas ele lembrou-se da garota apregoando os doces da pequena fábrica de sua mãe, doces que ele já provara em algumas ocasiões, e disse:
– Eu acho que tenho um contato...
– Pode me passar? – perguntou Chichi, aflita.
– Em um minuto... preciso ligar para a minha colega de faculdade.
Ele discou o número de Bulma e ela atendeu depois de um tempo:
– Vegeta? O que houve? O recesso só termina semana que vem! Precisa de alguma ajuda num trabalho de férias?
– Não é nada disso... sua mãe não fabrica doces? Ela gostaria de fornecer para Bollywood? Há uma oportunidade...
Os presentes na sala ouviram o grito da garota, de tão alto que foi. Depois que ela se acalmou, passou a ele o telefone comercial da mãe e ele desligou com um sorriso meio idiota no rosto. Pela primeira vez desde que a conhecera, conseguira impressionar Bulma. Ele passou o telefone para Chichi e disse:
– Os doces da mãe dela são bons realmente... comi alguns que ela levou para a faculdade.
Chichi passou o telefone para Shallot, sem imaginar que aquilo a faria reencontrar aquele garoto de Mumbai que um dia a encantara.
Os dias de Kakarotto estavam sendo corridos na sua preparação para embarcar para Nova Déli. Assinara o contrato com a SFL depois que ele, Raditz e Bulma leram exaustivamente cada cláusula e viram que não havia nenhuma armadilha escondida por ali. Ninguém pagava quase 100.000 rúpias por mês a ninguém à toa... a bolsa de um atleta olímpico, por exemplo, não chegava a 50.000 rúpias, com sorte, se conseguia cerca de 40.000, mas o normal era cerca de 30.000.
Mas não era realmente uma armadilha. Kakarotto recebeu uma sacola esportiva com materiais de diversos patrocinadores: agasalhos, tênis, camisetas... tudo de uma qualidade que ele jamais pudera comprar e ainda uma caixa com suplementos alimentares permitidos e barras de proteínas, de cereais e outros mimos de patrocinadores da SFL. Antes do contrato ser assinado, ele ainda foi encaminhado para médicos onde fez um checkup completo e constatou que tinha a saúde perfeita de um jovem de 22 anos.
Ele teve uma longa conversa com Mestre Karim, que não sentiu rancor, e sim, orgulho por ver seu pupilo de longa data finalmente dar um passo adiante e ganhar o mundo.
– Eu vou levar o nome do seu Dojô comigo para sempre, e quando tiver muito dinheiro vou reformar tudo aqui! E se tiver sucesso, vou leva-lo para trabalhar na SFL!
– Faça sucesso primeiro, e não perca o foco! – disse o velho senhor, arrepiando os cabelos do pupilo.
Na sua última semana em Mumbai, foi abordado por uma ex-namorada, Sanka, que foi tirar satisfações:
– Então você vai para Nova Déli? E quando eu ia saber disso?
– Sanka... – ele disse, sem jeito – eu acho que você terminou comigo no mês passado!
– Claro que terminei! Porque você era um péssimo namorado com essa mania de luta e treino! Me deixava sozinha nos dias que ia lutar!
– Mas você mesma dizia que não suportava minhas lutas!
– E eu não suportava mesmo! – disse a moça – mas eu não achava que você ia para Nova Déli e se tornaria um lutador de sucesso.
– Mas o que você quer que eu faça?
– Você não pode terminar comigo e me largar aqui!
– Sanka... você que terminou comigo!
– Ora, então quero voltar.
Kakarotto olhou para a garota. Ela tinha sido sua quarta namorada e a única garota com quem ele havia passado dos inocentes beijinhos e chegado às vias de fato, em encontros sempre atrapalhados e corridos. Não era muito fácil para um garoto arrumar uma namorada em Mumbai, normalmente, mas ele costumava dar sorte porque era bonito e forte. Mas nunca tinha gostado realmente de nenhuma das suas namoradas a ponto de dizer que tinha se apaixonado. Sanka não era diferente, e ele olhou para ela incrédulo antes de dizer:
– Ora, Sanka... você é bonita e tudo mais, mas terminou comigo! E agora só quer voltar porque acha que eu vou ficar famoso ou bem-sucedido. Então, não!
Ele rumou para sua casa, um pouco chateado, achando que Sanka o tratava como se fosse um bobo. Quando namoravam, todos os colegas diziam que ele deveria segurar Sanka, não era fácil achar uma garota como ela... mas por mais que Kakarotto a achasse bonita, havia algo que ele não confessava a ninguém: no fundo do seu coração ele achava que jamais iria se apaixonar porque desde aquele encontro com Chichi, aos 16 anos, achava que seu coração pertencia à jovem estrela de cinema.
"Ela nem sabe que eu existo" – ele pensava, deitado no seu quarto, olhando para a velha foto que ela tinha autografado naquele dia, que parecia ter acontecido em outra vida ou com outra pessoa, de tão distante que parecia agora. Mas sorriu. Tinha esperança que ela o reconhecesse quando ele começasse a aparecer na TV. "E ela vai saber que sou eu, afinal, meu nome de lutador é Goku".
Com um sorriso bobo, ele adormeceu, sem saber que no dia seguinte mesmo encontraria Chichi.
Ele fez questão de trabalhar até o último dia fazendo suas entregas habituais. Yajirobe, que, afinal, era apenas um agregado do mestre Karin, aceitou o emprego de entregador que ele ofereceu, porque não atrapalharia suas tarefas no dojô. Sua mãe tinha se tornado uma pequena empresária de sucesso com sua ajuda, e agora a pequena fábrica de doces em Andheri East podia caminhar sem a sua presença, mas ele sentia que deixava uma parte muito importante da sua vida para trás. Alguns dias antes, ele e Raditz haviam raspado suas economias e trocado o pequeno tuc-tuc por um furgão usado que ele e a irmã haviam enfeitado depois de colarem um grande adesivo com o logotipo "Doces viúva Gine" na lateral.
E ele arrumava a sua última grande entrega no veículo quando perguntou à mãe:
– Quem dá uma festa dessas, com tantos doces, numa manhã de terça-feira, maan? Nunca vi a senhora preparar dez mil ladoos numa segunda-feira!
– Dez mil ladoos, seis mil halvas e mais oito mil doces sortidos. Ainda bem que minhas ajudantes e eu demos conta, meu filho... é uma festa nos Estúdios Sadala... foi aquele rapaz que estuda com a Bulma, aquele dos filmes, que arranjou.
O nome "estúdios Sadala" era, para Goku, sinônimo dos filmes de Chichi, que perguntou, tentando disfarçar:
– É mesmo? Que tipo de festa?
– A pooja a Sarasvati por algum filme, pelo que disse o rapaz que ligou para fazer a encomenda, eles são ricos mesmo, nem mesmo barganharam! Uma encomenda de cinquenta e cinco mil rúpias! Eles pagaram o adiantamento e você deve pegar o cheque com um tal de... – ela leu o nome no papel – Shallot Khan. A entrega é no estúdio seis.
– Estúdio seis... – ele disse, olhando a ordem de serviço minuciosamente organizada por sua mãe. – pode deixar, maan. O que foi? – ele disse, interrompendo o gesto automático de todos os dias, de dar um beijo no alto da cabeça da mãe antes de sair ao ver que ela o encarava com as duas mãos juntas no peito e uma expressão aflita nos olhos marejados de lágrimas.
– Meu pequeno Krishna vai sair de casa! – ela o agarrou de repente, como se ele fosse fugir e ela disse:
– Calma, maan, calma! Eu vou visitar!
– Eu sei, eu sei! Mas seu irmão já não para aqui, sua irmã só nos fins de semana... ah, por que, por que, Senhora Lakshmi, permite que minha família se esfacele dessa forma! – ela chorava abertamente e Kakarotto batia no alto da sua cabeça, sem jeito.
– Maan... não perturbe a deusa com essa bobagem... eu não estou te abandonando! E quando tudo der certo e nos mudarmos para uma mansão bonita a senhora nem vai lembrar disso.
Ele fez uma série de piadas que fizeram Gine rir em meio ao choro e conseguiu finalmente sair para sua entrega de doces. A região dos estúdios era até bem mais próxima de Andheri East do que do centro mais urbanizado e rico de Mumbai. Ao contrário da do escritório produtora, localizado entre Chowpatti e Gandhi Nagar, uma região rica, estúdio Sadala ficava na área periférica de Lokawanda, que era mais próxima de Andheri do que do centro de Mumbai, então, ele não precisou dirigir mais do que 20 minutos até o portão imponente dos estúdios.
Ele nunca havia entrado naquele estúdio, embora, quando mais jovem, tivesse feito excursões escolares a outros. Identificou-se na portaria e disse que tinha uma entrega para Shallot Khan e o segurança mandou dirigir-se ao estúdio seis onde poderia entregar a encomenda.
Chichi observava o estúdio, arrumado para a festa exatamente como ela idealizara, orgulhosa do seu trabalho. Ela já estava impecavelmente pronta, e estava com os cheques para pagar o DJ, o buffet e a enorme encomenda de doces. Olhou em volta. Havia a pista de dança, iluminada em tons de azul, e um palco onde o cantor Sonu Niga e a cantora Shreya Goshan cantariam a primeira música do filme Saraswatee, que depois seria dublada por ela e Vegeta numa cena muito romântica do filme, que, ela tinha certeza, seria um sucesso.
Shallot havia avisado a ela que pagasse os profissionais, porque ele estava chegando junto com os financiadores do filme, a quem ele escoltaria desde o centro de Mumbai. Era dele esse tipo de obrigação, enquanto o velho Raaja se ocupava apenas em ser o rosto confiável da produção.
Uma música suave dominava o ambiente vazio, o DJ deixara uma seleção de antigas músicas românticas de filmes tocando automaticamente, enquanto a festa não começava. De repente, as portas do estúdio abriram-se e ela viu uma silhueta de alguém alto e forte contra a luz, apertando os olhos para perguntar:
– O que deseja?
– Oi! – disse o rapaz, que ia entrando – eu estou com uma encomenda de mais de vinte mil doces lá fora... e ninguém me disse se eu entrego aqui, ou onde...
– Ah – disse Chichi, se aproximando, é para você levar para o trailer do buffet... eu te mostro onde...
O reconhecimento mútuo foi repentino e os dois pararam, chocados, um diante do outro.
– Chichi? – ele perguntou, com os olhos arregalados.
Os olhos dela percorreram o rosto, que era o mesmo que ela se lembrava, e os cabelos arrepiados, os olhos inocentes e escuros... mas agora ele estava mais alto, bem mais forte e absurdamente atraente.
– Goku?
Como que para coroar aquele momento absolutamente mágico, começou a tocar a introdução da música "Main agar kahoon" (seu eu disser) e os dois se aproximaram mais e ela disse, sem nem mesmo entender porquê:
– Dança comigo?
Ele nem mesmo respondeu. Apenas deu dois passos e a enlaçou pela cintura quando a voz de Sonu Niga soou, cantando:
Eu encontrei você e eu me perdi
Mesmo que eu queira falar, não sei o que dizer
Eu encontrei você e eu me perdi
Mesmo que eu queira falar, não sei o que dizer
Não há palavras em nenhum idioma
Que descrevam completamente o que sinto por você
Parecia que nem um dia havia se passado desde a última dança dos dois. Ele a rodopiou, e segurou-a firme, trazendo-a para junto dele. De repente, ele sorriu e ela sorriu de volta, completamente relaxada nos braços fortes do rapaz. Ele queria dizer tantas coisas a ela... mas a única coisa que conseguia era conduzi-la pelo enorme estúdio girando e rodopiando, como uma fada ou uma figura de sonho.
Se eu disser que não há criatura mais bela
Do que você em todo universo
Isso será como nada, comparado a toda a verdade
Eu encontrei você e eu me perdi
Essa graciosa alegria
Que percebo no seu rosto
Suas lindas e negras tranças
Emoldurando sua beleza com elegância
Este lenço que flui como uma nuvem em movimento
Em seus braços, sua beleza é como o luar.
Ele sorriu para ela, mais uma vez, e ela sentiu novamente seu coração batendo acelerado como naquela primeira vez, quase sete anos antes. Os olhos dela brilhavam mirando-o, irremediavelmente atraídos pelos traços que ela percebia, agora eram mais másculos e maduros. O garoto de Mumbai agora era um homem forte, que a segurou pela cintura e girou no ar ao som dos versos da linda balada do filme Om Shanti Om:
Se eu disser que jamais houve atração como a nossa
Que jamais alguém sentiu algo assim,
Isso será como nada, comparado a toda a verdade
Eu encontrei você e eu me perdi
Depois do rodopio no ar, quando ela se apoiou nos ombros fortes dele, os olhos dos dois não conseguiam mais desviar-se e foi inevitável, como no primeiro encontro, quando perceberam, estavam beijando-se, os braços fortes dele a envolvendo, enquanto ela o puxava para si, os lábios se reencontrando, famintos, depois de tanto tempo distantes.
Você foi generoso
É por isso que existe essa história de amor
Agora ambos, o seu e os meu caminho são os mesmos
Onde quer que você vá, eu estarei lá
Se eu disser, minha alma gêmea
Que você é um anjo do céu ou uma fada
Isso será como nada, comparado a toda a verdade
Eu encontrei você e eu me perdi
A música acabou, mas o beijo dos dois, não, até que ela se separou dele, ofegante, e os dois se abraçaram, ela enterrando o rosto em seu peito antes de dizer:
– É você mesmo... depois de tanto tempo...
Ele a abraçou mais forte, envolvendo-a nos seus braços, querendo, como quisera pela primeira vez, que o abraço durasse para sempre. Sentiu o perfume dos cabelos de Chichi antes de dizer:
– Seu cheiro bom ainda é o mesmo...
Ela riu. Os dois, de repente, se encararam e enrubesceram juntos, exatamente como da primeira vez, separando-se quando ele disse:
– Eu tenho a sua foto até hoje! Aquela que você me deu e...
– Por que você nunca ligou? – ela perguntou, de repente, com a testa franzida – eu esperei e...
– Eu liguei sim! – ele disse, com uma expressão de estranhamento – mas o homem que me atendia dizia que não era para eu continuar ligando... que o teste estava cancelado... e eu achei... eu achei que você não queria me ver...
– Eu? Quem disse isso? Quem foi? Ora... eu fiquei esperando você ligar para fazer o teste... por semanas. Meses, na verdade! Só um ano depois percebi que... então alguém do estúdio te dispensou? Contra as minhas ordens? Eu vou descobrir quem foi... ainda podemos conseguir um teste... você ainda dança tão bem – ela sorriu – como isso aconteceu? Vê? É o destino, Goku! Nos encontramos de novo!
Ele olhava para ela fascinado, mas, de repente, percebeu que a realidade deles não era mais aquela onde ele fazia um teste e se tornava ator. Suavemente ele pôs a mão no ombro dela e disse:
– Chichi... já foi... Eu... não danço mais. Nunca mais dancei. Desisti disso.
– Mas... Não, Goku! Não, você precisa...
– Na verdade – ele sorriu – eu tenho outro caminho me esperando. Essa é minha última entrega de doces. Eu estou partindo para Nova Déli na quinta feira! Eu sou um lutador agora... vou entrar para a liga de MMA que o senhor Sanjay Dutt formou e estou muito feliz com isso.
Chichi o encarou, um pouco decepcionada. Ela achava que podia retomar as coisas do ponto onde haviam se perdido um do outro... mas parecia que não era aquilo que o karma havia determinado para eles.
– Lutador? – ela perguntou – como assim?
– Pouco tempo depois do nosso encontro eu estava decepcionado e triste... então um homem que eu nunca conheci me viu dançando na minha última apresentação num festival e achou que eu tinha vocação para luta e... deu muito certo. E eu vou ter sucesso nisso, pode acreditar!
Ela ia perguntar que homem tinha sido aquele, o que o dera a oportunidade, quando a porta do estúdio se abriu e Shallot entrou, acompanhado de Vegeta e de alguns investidores de Dubai, e as palavras morreram na garganta de Chichi. Shallot olhou para os dois, que ainda estavam mais próximos do que recomendaria a boa etiqueta indiana e disse, no tom de voz que ele reservava para quem julgava inferior:
– O que está fazendo aqui esse darhidr (pobre coitado)? Quem permitiu sua entrada?
Goku, reconhecendo aquele que as revistas apontavam como o noivo de Chichi, uniu as mãos diante do peito e curvou-se respeitosamente, assumindo uma posição subserviente que ele, como entregador, estava acostumado e disse:
– Namastê! Perdão, senhor. Eu vim apenas entregar os doces... que estão no meu furgão. A senhorita Cutelo acabou de me dizer que devo entregar no trailer do buffet. Já estava de saída...
– Espere! – disse Chichi, vendo Goku dar a ela as costas, sem se despedir.
Todos olharam para ela com espanto e ela disse, abrindo a bolsa-carteira:
– Se-seu cheque... muito obrigada.
Ele sorriu para ela e disse:
– Obrigada, senhorita Cutelo. – ele a cumprimentou respeitosamente e disse – estou indo, uma auspiciosa pooja Saraswati para os senhores...
Quando passou por Vegeta, este disse:
– Espere... você é o irmão da Bulma, não é?
– Sim – sorriu Goku – ela diz que o senhor é um bom amigo, Lorde Vegeta.
– É Kakarotto seu nome?
– Sim! – ele disse, olhando para Chichi num relance – mas... o senhor aprecia lutas?
– Claro – disse Vegeta – eu estive num time de Wrestling no ensino médio, por quê?
– Eu estarei em breve num reality show da SFL... mas serei conhecido por meu nome de lutador, Son Goku. – ele sorriu e olhou de relance para Chichi – é um programa de TV que vai acompanhar a formação dos nossos lutadores de MMA e eu fui selecionado... espero que o senhor acompanhe.
– É – disse Vegeta, com um ar de superioridade – pode ser que eu assista... boa sorte nas lutas, Kakarotto.
– Namastê, senhores – ele disse em resposta, juntando as mãos diante do corpo e dando um último olhar de soslaio para Chichi, o que não escapou a Shallot, que fechou mais a cara.
– Não gostei desse abusado – disse Shallot, quando ele saiu – estava próximo demais de você, Chichi. Ele não deveria sequer te olhar! Detesto inferiores que não conhecem seu lugar...
Chichi bufou silenciosamente. Não era hora de ver Shallot fazer uma cena, por isso ficou quieta. Mas queria descobrir quem havia barrado o teste dele, que ela agora sabia, tinha deixado um recado claro de que iria participar de um reality show de luta.
E ela não pretendia perder nenhum único episódio do programa.
Enquanto isso, Goku dirigia de volta a Andheri East com o coração dividido. Por um lado, havia encontrado novamente sua princesa Shanti, sua eterna Saraswatee... mas a havia perdido de novo... e sabia que tinha um rival rico, poderoso e nada disposto a perdê-la para ele.
Mas se o karma os havia juntado duas vezes, porque não juntaria uma terceira?
Notas:
1. Então, abriu-se uma nova chance para Goku subir na vida! Será que ele vai ser um bem-sucedido lutador? A Sanka perdeu a vez, mas, em breve, vai ter outra garota de olho nele... sabem quem vai ser? Palpites à vontade, galera.
2. Queria lembrar que a faculdade do Vegeta tá quase terminando e ele segue no zero a zero com a Bulma. Antes que vocês me perguntem, Vegeta é tão orgulhoso que não chega nela. É isso.
3. Então, o sonhado reencontro, mais de seis anos depois, quase sete. E finalmente a verdade veio à tona. Acham que a Chichi vai atrás de quem barrou o Goku?
4. A Pooja de abertura de filme é um ritual que nem todos os estúdios adotam mais, mas eu quis fazê-la aqui por conta do filme Om Shanti Om, que exibe o ritual. Os lançamentos de trilha sonora e início de filmagem, no entanto, são comuns.
5. Shallot: boy lixo detectado. A sociedade indiana tem ricos asquerosos que ostentam e acreditam-se superiores aos demais mortais, por conta do amplo privilégio de classe e casta. No caso, Shallot é muçulmano, mas a religião não tem nada a ver com a sua atitude, mas o fato de ser absurdamente rico e herdeiros de bilhões de rúpias.
6. Poucas músicas são tão bonitas quanto "Main agar kahoon", do filme de 2007 "Om Shanti Om", um dos meus favoritos! Já falei nele aqui, quando falei de Farah Khan.
