Capítulo 17 – Deewaar (O muro)

As semanas seguintes passaram como um turbilhão para Goku. Dos lutadores remanescentes ele era o mais popular, o mais querido e o mais desejado para comerciais e campanhas publicitárias. Ele permaneceu em Déli, mas recebeu dezenas de propostas de contratos de patrocínio, com tantas cláusulas e letras miúdas que ele não conseguia simplesmente tomar nenhuma decisão. Então teve uma ideia.

Bhaeee! – ele disse desesperado quando ligou para o irmão pelo celular. Não sabia onde ele estaria, mas precisava dele para ajudar nas decisões que deveria tomar. – Eu preciso que você venha IMEDIATAMENTE para Déli. Estão me oferecendo um monte de contratos, para que eu ganhe um monte de dinheiro, mas eu não tenho certeza se os negócios são realmente bons!

– Pela coroa de Krishna! Duas semanas atrás foi a Bulma com a história do papel no filme, agora, você com esse negócio de patrocínio de lutador? Não assine nada sem mim. Eu estou em Jaipur, você deu sorte. Ia pegar outra carga, mas para chegar mais rápido, assim que eu descarregar eu pego o caminhão e vou para Déli. Chego aí em umas cinco ou seis horas, bhaee!

Demorou menos de 5 horas, no entanto. Antes do fim daquela tarde, um caminhão enorme parava na porta da mansão e um rapaz alto, forte e cabeludo descia, martelando a campainha como um desesperado. Ele, assim como Bulma e a mãe, não via Kakarotto há três semanas, quando ele fora para a última visita a Mumbai antes da luta. Não haviam ido para a sua luta decisiva porque o patrocínio da SFL não garantira a presença de parentes de fora. Assim, quando o irmão abriu o portão da enorme propriedade, Raditz o abraçou como se ele ainda fosse o garotinho que seguia o irmão por todo lado.

– Kakarotto, seu moleque! Eu te vi derrubando aquele sujeito de bigode preto, você foi incrível!

– Você viu? Você realmente viu a minha luta, bhaee? Mas me chame de Goku, poxa... é meu nome agora!

– Para mim vai ser sempre o pequeno Kakarotto... Claro que vi sua luta, e disse para todo mundo no bar em Nagpur que você era meu irmão. Me fizeram pagar uma rodada por sua conta, mas valeu a pena, bhaee. Eu fico muito feliz que você tenha me mandado tomar conta de minha vida quando eu quis que você largasse esse negócio de luta, viu? Eu estava realmente errado!

– Eu tenho certeza de que ainda vou vencer muitas lutas, mas, por enquanto, eu preciso que você me ajude: me disseram que meus ganhos podem chegar a mais de 1 crore ($10.000.000,00Rp ou R$ 686.000,00) por mês. É mais dinheiro que eu consigo imaginar, bhaee!

– Você... tem certeza disso?

– Não. Por isso te chamei aqui. Querem me empurrar um monte de agentes e eu não sei se confio em ninguém... e eu quero negociar melhores contratos, e não quero anunciar nada que eu não acredite... é muita coisa para a minha cabeça.

– Ok, ok! – disse o irmão. – Vamos ver esses contratos. Tem treino hoje ou coisa parecida?

– Não, temos essa semana de descanso antes do intensivo para as lutas... devo viajar para Telagana em um mês, o time Mumbai/Déli desafiou o time Orissa/Telangana para o primeiro evento. Eu vou lutar, e outros do meu time. E agora são eventos profissionais, a SFL começou a ranquear a gente dentro da liga e as coisas estão acelerando. Meus contratos vão sempre até a luta seguinte, sabe? E se eu perder eu renegocio ou perco... e eu estou um pouco... tenso.

– Entendo. Vamos ver esses contratos. Essa vai ser a minha parte, ok? A sua vai ser treinar e ganhar... até ter tanto dinheiro que possa se dar o luxo de perder.

– Mas eu não quero perder, nunca!

– Ok. Isso a gente vê depois.

O que era para ser uma estadia de algumas horas acabou com Raditz passando cinco dias em Déli e negociando com cada potencial patrocinador em nome do irmão. Os empresários se achavam espertos, mas não chegavam aos pés dos transportadores de carga que Raditz enfrentara ao longo dos quase oito anos que passara como caminhoneiro. Logo, todos os lutadores da casa, menos Broly, estavam pedindo ajuda ao rapaz que começou a considerar a ideia de se tornar um agente profissional.

A SFL não reclamou nadinha, afinal, a exigência da liga era apenas que ele não anunciasse nenhum dos suplementos proibidos por doping, não anunciasse cigarros ou bebidas e que desse 15% de cada contrato para a liga. Quanto maiores os contratos que o irmão conseguisse, maiores seriam os lucros da liga. Havia ainda os contratos de participação dos patrocinadores da própria liga, materiais e roupas esportivas, uma marca de carros e uma marca de sabonetes. Todos queriam lutadores populares nos seus comerciais, e Raditz conseguiu os melhores cachês para Goku por causa da popularidade dele, cada vez mais alta.

Quando soube que Goku começara um relacionamento com Caulifla e que eles haviam viralizado como casal perfeito nas redes sociais, Raditz teve uma ideia que pareceu excelente na hora... mas que depois Goku perceberia que era péssima.

Goku e Caulifla negociaram mais de seis contratos de publicidade juntos. Enquanto estivessem lutando e vencendo, era óbvio que venderiam qualquer coisa. E no princípio, enquanto tudo parecia tranquilo entre os dois, fazer fotos sorrindo e em clima de romance não foi muito difícil. Goku sabia que não estava apaixonado por Caulifla, e, pela forma como ela falava com ele, achava que ela também não estava apaixonada e que os dois estavam apenas se divertindo.

Mas ela não era exatamente uma pessoa fácil de se lidar. Ela não gostava da ideia de dormir separada dele, mas a segunda parte da primeira temporada do reality começou a ser gravada com eles morando exatamente onde moravam antes. Logo a temporada do reality acabaria, depois, se permanecessem competitivos, poderiam voltar para seus lares e manterem sua rotina como profissionais, afinal, a SFL precisava diversificar o elenco e começaria a procurar novos lutadores.

Só que Caulifla era canadense de nascimento e, mesmo ainda faltando seis meses para a decisão da liga da SFL, começou a pressionar Goku para que eles morassem juntos em Mumbai quando se tornassem profissionais, o que, obviamente, Goku não queria. Pelo menos ela não o pressionava a casar.


Enquanto isso, chegara a temporada de monções e Chichi se preocupava com a finalização para o lançamento de Saraswatee, que conseguira a cobiçada data do Diwali (feriado hindu), no início de Novembro, e que, pelo que ela podia perceber pelo que já vira finalizado, seria um sucesso. Mas o filme que ela fizera depois, a comédia romântica bobinha que tivera o nome original "Nakalee deting" (Namoro de mentira) trocado repentinamente pelo bizarro nome em inglês "Crazy for love" e seria lançada bem antes, logo após o Eid Mubarak (feriado muçulmano de 3 dias julho), e aquilo a preocupava.

O filme tinha sofrido inúmeras alterações desde a filmagem, a maioria capitaneada por Shallot. Ele havia trocado a diretora original, que seria Farah Khan, por outro diretor que era conhecido de sua família como um favor, e o homem mexera no roteiro original e modificara muito a história na edição, o que tornava o filme completamente diferente do roteiro original que Chichi achara tão divertido e interessante.

Chichi tinha consciência de quão sofrível havia sido a sua atuação por causa da inexperiência do diretor e estava preocupada porque justamente aquele era o filme que ela e Shallot estavam produzindo juntos. Se ela e ele contraíssem dívidas por conta do desempenho, ela sabia que demoraria pelo menos dois anos para se recapitalizar e conseguir alguma independência. E o que ela mais temia, aconteceu: "Crazy for love" foi o primeiro fracasso da sua parceria com Vegeta.

O lançamento no meio da temporada de monções não ajudava, o enredo não ajudava, as críticas foram terríveis, a resposta do público foi péssima... e, é claro, que Ribrianne mandou as fofocas de sempre, dizendo que ela e Vegeta já não se entendiam tão bem...

– "Visivelmente, Vegeta sofre bastante com o fato de sua parceira de cena não dar a ele a mesma atenção de antes, agora que se encontra firmemente comprometida com o produtor Shallot Khan..." – leu Vegeta para ela, logo depois do lançamento, quando eles estavam apenas os dois, reunidos para tentar selecionar os primeiros scripts para as produções que fariam a seguir. Por que será que essa bola de maldade não para de dizer que eu sou apaixonado por você?

– Bah... você deveria arrumar uma namorada bem bonita para que ela parasse de falar besteiras – disse Chichi, sem tirar os olhos do roteiro que lia – mas essa é a menor das minhas preocupações no momento. Perdemos 40 crore com aquele filme idiota... onde eu estava com a cabeça em escolher aquele roteiro?

– Pareceu bom quando você leu, vai – ele disse – e o que você vai fazer quanto ao prejuízo?

– Bem... Shallot conseguiu um empréstimo para pagar o prejuízo dos distribuidores e o nosso, mas estou comprometida com prestações pelos próximos dois anos... triste.

– Podemos recuperar com um filme que arrebente. Lembra quanto faturamos com "A obrigação do soldado"? É só fazer algo romântico e muito triste que o público volta...

Chichi olhou para ele. Vegeta andava estranho nos últimos tempos e ela o conhecia bem. De repente, perguntou:

– E a sua afilhada de cabelos azuis? Como foi a estreia dela?

– Bem... Badaboom 4 fez sucesso, mas acho que é o último da série. A fórmula está meio desgastada, mas... a cena dela foi um dos pontos altos do filme. Soube que ela assinou para participar do próximo do Yamcha, sabe como é, ser a garota de shortinho que corre com ele... não é exatamente como ser protagonista, ninguém leva filmes masala muito a sério – a voz dele soou amarga – mas eles estão saindo juntos.

– Ela e Yamcha?

– Sim.

– Estranho. Nunca vi Yamcha saindo com garota nenhuma depois do namoro com a Suno, ele sempre foi tão reservado...

– Pois é... – ele não disse, mas pensou "justo a única que ele deveria ignorar, se interessou".

– Você deveria ligar para ela, Vegeta, chame-a para a pré-estreia de Saraswatee, ela vai adorar o convite.

– Para ela ir com o verme? Não, obrigada. E sei porque você está tão animada para isso... ela é irmã daquele carinha lá da SFL, o ex-entregador de doces que só fala em você. Acho que quer vê-lo na nossa estreia...

– Você não sabe de nada... ele agora está com uma lutadora, uma magricela que parece uma lagartixa. Caulifla... até o nome é ridículo.

De repente, Vegeta deu uma gargalhada alta e Chichi olhou para ele com estranhamento. Ele então completou:

– Pense, certamente vamos começar a ganhar muito dinheiro daqui para frente, Chichi... dizem que não se pode ter tudo, ou se tem sucesso, ou se tem amor. Não conheço no momento pessoas mais infelizes no amor do que eu e você.

Ela fechou a cara e voltou a olhar para o roteiro, irritada, mas pensando que, na verdade, ele tinha alguma razão no que dizia.


Enquanto isso, Bulma vivia um sonho.

Ela havia estourado com sua participação em "Badaboom 4": choveram convites para participações, aparições na TV, comerciais, e, para sua surpresa, uma proposta excelente para ser o par de Yamcha em mais um filme policial protagonizado por ele "Mumbai Master Cop" que estrearia no ano seguinte. Ainda era um papel pequeno e não muito expressivo, não era uma protagonista, a participação era para o terço final do filme apenas e se restringia a algumas cenas em que ela parecia sexy e meio burrinha, como todas as garotas que faziam par com ele em filmes.

Tudo isso veio na mesma época em que ela viu seu irmão Raditz vender o caminhão para alugar um pequeno escritório em Mumbai para representar lutadores e artistas e fazer um belo investimento tirando de vez a mãe deles de Andheri East para uma área melhor, no bairro de classe média-alta de Church Gate, onde eles conseguiram comprar um apartamento bom com todas as economias de família e mais alguns dos primeiros ganhos expressivos de Kakarotto como lutador. Além disso, depois de vender a pequena casa em Andheri, Raditz alugou e reformou um galpão pequeno próximo ao lugar onde moravam agora para se tornar a fábrica de doces da mãe, que passou a atender clientes numa pequena loja num shopping local.

As coisas iam muito bem para a família deles, e para ela, Bulma, melhores ainda. Yamcha começou a leva-la a lugares caros, aparecer com ela em reportagens, e eles se tornaram o "novo casal sensação" da animada cena de fofocas de Bollywood.

Seria perfeito se Yamcha não tivesse dito a ela que era um hindu tradicionalista. Isso significava que eles não teriam grande contato físico até o momento em que se casassem. Claro que ele a beijava todas as noites quando a levava em casa. Mas eram beijos tímidos e protocolares, e Bulma ficava se perguntando o que havia de errado com ela, que antes tinha dúzias de pretendentes e era considerada bonita, e só permanecera virgem porque sua mãe tinha sido feroz na defesa "da sua castidade".

Mas agora, aos 23 anos parecia que seu corpo gritava, mas o namorado não escutava. Era praticamente surdo, pelo jeito.

Mas era o seu sonho, não era? O galã da sua infância... uma hora ele acabaria deixando a tradição para lá, era o que ela esperava.

Quando mudavam-se da velha casa de Andheri para o amplo apartamento, no entanto, algo a perturbou. Ela achou, no fundo de seu velho armário, a caixa onde Gine guardara tudo que havia sido encontrado sobre ela e seus pais biológicos anos antes. Não era muita coisa. O vestido azul de corte ocidental que ela estava usando quando fora encontrada, cheio de babados. Uma caixa com duas ou três fotos da sua família. Uma dela com os pais, em que ela aparentava uns 3 anos e outra dos pais juntos e mais uma, dela sozinha. Havia uma quarta foto. Era uma menina de uns dez anos, e tanto ela quanto seus pais adotivos sempre haviam tomado aquela foto como sendo de sua mãe biológica quando mais jovem.

Mas agora, olhando bem, Bulma já não tinha tanta certeza, porque, apesar da semelhança, havia algo diferente no olhar daquela menina de cabelos louros. E seus cabelos eram lisos, não cacheados como os de sua mãe. "Bobagem!" – ela pensou – "Minha mãe devia usar os cabelos lisos quando era mais jovem". Juntou tudo aquilo e mais um caderno que tinha umas anotações meio sem sentido, mas que ela guardara porque tinha o nome de seu pai biológico na capa, e, jogando tudo dentro de uma caixa maior, sepultou novamente as lembranças quase inexistentes de uma vida passada.


O desafio ao time Orissa/Telangana começou com uma luta entre Caulifla e uma menina chamada Kakunsa, que Caulifla venceu sem dificuldade. A luta seguinte foi entre Kuririn e um sujeito com jeito de louco chamado Frost, que riu de forma humilhante do jovem careca quando o nocauteou.

Aquilo tinha enfurecido bastante Goku. Como nem todos do time eram selecionados para o combate, coube a Kyabe a luta seguinte, e ele também perdeu, para um camarada chamado Jimizu. Olhando bem para o desafiante telugo, Goku o achou meio grande demais para um leve-ligeiro.

Estav para o time de Telangana quando Botamo subiu na arena contra o enorme Narirama. Quando viu os dois frente a frente, Goku tremeu um pouco. Ele sabia que Botamo era forte, mas ele já tinha visto vídeos do tal Narirama e, um pouco contrariado, lamentou que tivesse sido o amigo e não Broly o selecionado para lutar naquele desafio.

Broly, por sua vez, disse alto, quando acontecia a luta que ele assistia com um ar debochado:

– Vamos perder por causa desse gordo idiota... – ele olhou então para Goku e debochou também – se bem que você não é muito melhor que ele.

Goku olhou para o outro lado, irritado, contendo a vontade de dar um soco direto no rosto do companheiro de equipe. No octógono, Botamo apanhava e só um milagre o salvaria. Goku sabia que se o time Mumbai/Déli fosse derrotado, seria mais difícil para eles terem alguma projeção no cenário nacional, então, ficou tentando pensar em algum Deus, qualquer um, de Shiva a Krishna, que pudesse dar uma forcinha ao colega de equipe.

Nesse momento aconteceu algo que lembrou a Goku as palavras do sujeito que o levara do aeroporto até a casa dos lutadores em Déli: a sorte era importante na decisão de uma luta também. Botamo cambaleou para frente e Narirama precipitou-se para tentar agarrá-lo pela cintura a fim de uma imobilização rápida que levasse à esperada finalização, garantindo antecipadamente a vitória do time Telangana... mas Botamo cambaleou para o outro lado e jogou todo seu peso sobre o oponente, que desequilibrou-se e abriu a guarda, proporcionando ao grande "urso" a oportunidade perfeita para agarrá-lo, derrubá-lo no chão e, usando o peso como vantagem, terminar a luta com uma vitória improvável.

Goku não podia acreditar. Subiria ao octógono com tudo igual e a vitória dependendo exclusivamente dele. O seu oponente se chamava Ginyu, e era um sujeito feio, cabeçudo e visivelmente maior que ele. Goku concentrou-se em não perder.

O sujeito avançou para ele com uma fúria demolidora, mas Goku fechou a guarda e se protegeu, estudando os movimentos do oponente. Nesse momento ele ouviu o locutor gritar:

– É como um muro, senhoras e senhores! Son Goku é como um muro! (Deewaar = o muro)

O estádio torcia contra ele, ele sabia. Mas precisava virar aquele jogo, ele precisava vencer, o time precisava vencer. Goku pensou rápido, enquanto era atingido pelos repetidos golpes de Ginyu: todos sempre esperavam dele, que viera do Wrestling, que atacasse com movimentos típicos desse tipo de luta. Mas ele ficara por 6 meses aprendendo todo tipo de técnica. Era hora de mostrar tudo que aprendera, pôr em prática tudo que agora ele sabia. Então, de repente, saiu da defensiva e atacou, surpreendendo Ginyu com uma sequência de socos e chutes rápidos e precisos, que o atingiram sem que ele tivesse muita chance de defesa.

Com uma expressão de fúria no rosto, Goku avançou pela última vez e deu um soco certeiro que derrubou o oponente, que simplesmente não conseguiu mais levantar. Uma finalização por nocaute sem imobilização, algo muito valorizado no MMA.

O locutor ergueu os braços dele e anunciou que Son Goku dera a vitória ao time Mumbai/Déli.

A multidão, mesmo tendo visto o time de Telangana e Orissa perder, gritava o apelido que o locutor colocara nele: "Deewaar! Deewaar!" (o muro)

Goku olhou para os companheiros e viu que um deles tinha o mesmo ar insatisfeito que ele observara muitos anos antes, num circuito de rua de Vadala: Broly. O peso-pesado, que não participara da vitória naquele desafio, tinha claramente uma expressão de raiva porque Goku tinha sido o herói da vitória do time Mumbai.

Broly era forte, certamente o mais forte do time... mas naquele momento, Goku teve certeza de uma coisa: quando todos fossem 100% profissionais, ele faria de tudo para subir de categoria e, por mais que isso parecesse loucura, desafiaria Broly para uma luta. Por mais improvável que fosse a sua vitória.

Mais tarde, depois de uma breve comemoração, ele foi para o hotel, exausto, porque queria apenas dormir. Não era comum lutadores serem hospedados com namoradas, Telangana era um estado bastante conservador, mas ele e Caulifla tinham um quarto contíguo com uma porta de ligação entre eles. Ela abriu a porta quando ele estava deitado, depois do banho, olhando sem muita vontade os canais de TV.

– Podíamos ficar mais tempo na boate – ela disse.

– Ah, não tava a fim... foi muito tenso... tava mesmo a fim de dormir. – ele disse, mudando de canal. De repente, ele achou um filme estrelado por Chichi e Vegeta e parou de zapear.

Caulifla ficou olhando incrédula e furiosa para o namorado prestando atenção nos diálogos de "A obrigação de um soldado" e disse:

– Eu não acredito que vai ficar vendo isso comigo aqui!

Ele olhou para ela e disse, dando de ombros:

– É só um filme. Pode deitar aqui comigo e ver também.

– Um filme dela! – ela disse, como se fosse autoexplicativa sua indignação.

– Você pode parar de bobagem? Vem pra cama logo...

– Mas não vou mesmo, Son Goku! Fica aí com a sua estrelinha que eu vou dormir no MEU quarto.

Ela bateu a porta do quarto contíguo e esperou um tempo. Goku não foi atrás dela. Ela abriu devagar a porta e o viu dormindo, a TV ligada ainda, numa cena bem triste do filme. Ela olhou para a tela e pegou o controle remoto da TV, apagando o aparelho antes de se enfiar debaixo das cobertas dizendo:

– Cretina.

Agarrou-se a Goku mas não teve jeito: ele estava apagado demais para atender às suas investidas.


Nos meses seguintes, a relação dos dois não melhorou muito, embora nas aparições públicas eles parecessem um casal bem feliz. O tempo voou, e, de desafio em desafio, vencendo todas as suas lutas por nocaute, Goku chegou até a final dos pesos-médios da SFL, sem nenhuma grande dificuldade pelo caminho. Com o fim do reality, que teria seu ápice no evento nacional, a grande final entre os melhores de todas as categorias, ele voltou a Mumbai, e, a despeito dos apelos de Caulifla, foi morar com a mãe e os irmãos no duplex deles em Church Gate, fazendo com que a própria Caulifla acabasse alugando um apartamento num bairro vizinho.

No dia da final da liga, ele acordou cedo, e saiu para a sua inevitável corrida pela vizinhança. Estavam no segundo dia do feriado do Diwali, mas ele não se importou muito. Só queria correr e esvaziar um pouco a cabeça, concentrada no seu adversário da noite, Hitto, "The Hit" como era chamado, um sujeito forte e rápido que tinha fama de finalizar lutas cedo demais.

Ele não saberia dizer porque seus pés o levaram direto à praia de Chowpatti. Não era muito bom correr pela orla, os fãs o paravam e perturbavam por fotos. Mas ele sentia, particularmente naquele dia, vontade de ver o mar.

Enquanto isso, Chichi saía de sua casa, havia marcado com Shallot para um café da manhã com a imprensa no Bay View. A véspera tinha sido um dia muito feliz para ela: "Sawarastee" estreara com um estrondoso sucesso de público e crítica, os primeiros números eram de um arrasa-quarteirão. Ela ficou esperando na porta de seu prédio o namorado, que ligara e dissera que estava chegando, olhando para a praia de Chowpatti. As águas eram poluídas e ninguém era aconselhado a nadar ali, mas a vista era linda.

De repente, seu coração acelerou quando ela viu um rapaz correndo, vindo da praia na direção da sua calçada. Ele usava um capuz que o vento de repente baixou revelando os cabelos arrepiados e intensamente pretos. Ela levou a mão aos lábios. Sabia que ele agora estava em Mumbai... sabia que ele tinha uma luta importante aquela noite, Vegeta comentara que tinha ingressos. Mas não imaginara o impacto que sentiria quando o visse, daquele jeito.

E ele a viu também, subitamente, linda num conjunto de saia e cholli, com uma dupatta rosa e azul esvoaçando embalada pela brisa matinal da praia. Ele parou e os dois ficaram se encarando de longe, sem saber direito o que dizer ou fazer, até que o enorme SUV preto de Shallot parou diante dela e ele baixou o vidro, dizendo:

– Nossa, como você está linda!

Ela sorriu, sem jeito, e deu a volta no carro, entrando depois de dar uma última olhada na direção de Goku, que puxou o capuz sobre os cabelos e voltou a correr, passando ao lado do carro deles de cabeça baixa.

Em silêncio ela ouviu Shallot tagarelar sobre como deveriam se portar com a imprensa até que ele disse:

– E hoje à noite tem aquela luta... eu não sei se é uma coisa que te agrade muito, mas o Vegeta está com uns ingressos e disse que podemos ir... e depois ainda tem uma festa da liga no Raz... acho que vai ser interessante, o que você acha?

– Vamos – ela disse, simplesmente, vendo pelo retrovisor a silhueta de Goku, usando seu agasalho azul com capuz, afastando-se na direção oposta deles, correndo pela praia de Chowpatti.

Notas:

1. Pode parecer que foi repentina a mudança de vida do Goku, mas na SFL realmente os ganhos dos lutadores que vencem são muito altos por conta do tamanho da audiência que a Índia representa, assim, um lutador pode ficar rico realmente muito rápido.

2. Raditz vai ter também uma mudança radical e agora, dentro de casa, vai assumir o seu papel de "homem mais velho da casa". Numa família indiana esse é um papel importante e que é crucial nessa história... prestem atenção nele.

3. Em Bollywood um filme mudar de nome antes do lançamento é algo que a audiência presta atenção e não percebe como algo bom. Por isso, o fracasso da comédia romântica protagonizada por Chichi e Vegeta. Esse fracasso terá consequências adiante.

4. Por sua vez, Vegeta foi posto para escanteio e não sabe mais como se aproximar de Bulma. O que será que ele vai fazer?

5. Telangana e Orissa são dois estados vizinhos, o primeiro no centro e o segundo no Leste da Índia. Orissa (Hoje oficialmente Odissa) já foi sede do maior império Induísta antigo: Kalinga, um próspero reino que deixou muitas construções impressionantes que existem até hoje e foi conquistado pelo rei Asoka no ano de 210 a.C. Telangana ainda não é oficialmente um estado, mas uma região que tem em comum o idioma Telugo (ou telugu) que caminha para se tornar um estado da federação até o ano de 2122. Há uma grande indústria de filmes nesse idioma, chamada até pouco tempo de forma irônica de "Tollywood" como uma forma de deboche, porque diziam que os filmes de Telangana tinham pior qualidade. Isso mudou no ano de 2018 com o lançamento do filme Telugo "Baahubali – o início" que se tornou a maior bilheteria de um filme indiano de todos os tempos.

6. Deewaar é um clássico dos anos 70 que conta a história de dois irmãos, filhos de um sindicalista que é perseguido e desaparece, deixando a mãe e os filhos na pobreza, o que torna os dois completamente opostos: Vijay, o mais velho, se torna um gangster, Ravi, o mais jovem, um policial. O confronto entre os dois vai se intensificando e toma contornos dramáticos quando Vijay comete um assassinato por vingança. É considerado um dos 25 melhores filmes de Bollywood e a atuação de Amithab Bacchan como "O jovem indiano furioso" criou toda uma categoria de personagens com esse perfil. O curioso é que Amithab era mais jovem que Shashi Kapoor (já falecido) que viveu Ravi, o mais novo.