Capítulo 20 - Mash'Allah (A vontade de Deus)
Quando percebeu que Caulifla queria brigar e fazer uma cena depois do episódio da pista de dança, Goku simplesmente sentiu-se farto e disse, levantando-se:
- Vou para casa dormir.
Não era um convite, ou um chamado, mas ela levantou-se e foi atrás dele, dizendo:
- Vai me deixar aqui? Viemos juntos, Son Goku!
- Se quiser, peço para o homem da limusine te deixar em casa... mas eu não vou para seu apartamento hoje.
Ela não disse nada. Entraram na ampla limusine, cujos bancos eram um de frente para o outro e ela sentou-se de frente para ele dizendo:
- Então agora eu que estou errada, Son Goku? Eu sou sua namorada e aquela vadia...
Ele a encarou. Era o momento para terminar tudo, ele sabia. Então olhou pela janela. Passavam na frente de uma loja de suplementos e havia um cartaz dos dois juntos, anunciando mais um produto, um dos muitos contratos que Raditz praticamente assinara por ele. Os tais planos, projetos... ele fechou os olhos e respirou fundo, dizendo:
- Caulifla, não quero falar sobre isso hoje, só quero dormir. Foi uma noite cansativa. Nós dois lutamos... você não está cansada?
Ela seguiu de braços cruzados e não disse mais nada. Ele tinha dado instruções para deixa-la na porta do apartamento dela, em Mantralaya, e ela ainda disse, ao descer:
- Não quer descer?
- Não. Quero ficar um pouco só, por favor.
Ela saiu batendo a porta com raiva. O motorista seguiu e ele pediu que passasse na área do Queen's Necklace em Chowpatti, a orla da Baía de Mumbai, iluminada e linda àquela hora e disse ao homem que ia saltar. O homem perguntou se ele precisava esperar e ele disse que não.
Sem dizer nada, ele ficou apenas contemplando a fachada do prédio de luxo onde ele vira Chichi, e que ele sabia que era onde ela morava, então, ele começou a andar pela orla de Chowpatti, as mãos nos bolsos, sentindo o ar frio que vinha do Oceano Índico e o cheiro forte do mar poluído da Baía de Mumbai, onde um ou outro navio brilhava ao longe.
Chowpatti era uma linda praia, um dos metros quadrados mais caros da Índia. Milionários e atores de Bollywood disputavam cada cobertura ali acirradamente, e havia muitas que eram apenas alugadas a preço de ouro para os executivos ricos de outros países que trabalhavam em Mumbai. Paradoxalmente, tinha sido uma praia suja e poluída por muitos anos, situação que mudara um pouco graças a recentes mutirões de limpeza promovido por jovens da cidade, mas a água seguia imprópria para o banho.
Ele deu um longo suspiro conforme caminhava pela longa faixa de areia pedregosa da praia, e pegou uma pequena concha e sorriu, lembrando de quando fizera isso em Goa, quando era muito pequeno, na visita que a família fizera por lá. Foi andando pela praia, pensando em sua vida, sem se importar do quanto estava longe da sua nova casa. Apenas esvaziando a mente dos problemas que ele havia encontrado na sua nova realidade.
Não se sentia muito dolorido ou machucado, mesmo após ter passado por uma luta dura, embora tivesse algumas equimoses no rosto e no peito, nos lugares onde Hitto o atingira. Mas tinha o coração pesado e doído. Por que Chichi brincara daquela forma com ele, se ainda era comprometida com o noivo? Por que ele não arriscara tudo e não a puxara para si no meio da boate, transformando a dança num beijo como os que eles já haviam trocado antes?
O peso da responsabilidade doía nos seus ombros. O irmão havia multiplicado seus ganhos, ele havia recebido tantas rúpias em tão pouco tempo que nem entendia direito como ganhara tanto dinheiro com algo tão simples. Lutar era seu instinto natural. Ele andou por um longo tempo pela praia, então, voltou para a calçada e foi andando a longa extensão da Marine Drive até a área onde a calçada se alargava, onde pessoas olhavam o mar, casais namoravam e a vida seguia, alheia a tudo que se passava dentro da confusão da sua mente. Sentou-se na mureta e, depois de um tempo sem pensar em nada de útil, ele fez sinal para o primeiro táxi que passou e deu o endereço onde morava.
O motorista o reconheceu e foi comentando sobre a luta, que ele apenas ouvira pelo rádio, e, no fim, tirou uma fotografia ao lado dele com o celular e não queria cobrar a corrida, mas ele, tirando uma nota de mil rúpias do bolso disse:
- Faço questão, chaacha(tio)! Todos que trabalham em Mumbai precisam de dinheiro para viver.
O homem agradeceu com lágrimas nos olhos, mas isso não o fez se sentir melhor. Eram mil rúpias. Ele ganhara 30 bilhões delas numa luta de menos de dez minutos naquela noite, e ainda assim sentia-se tristemente vazio por causa de uma garota.
Sua mãe estava acordada, vendo um filme na enorme TV na sala. Ele parou, diante dela, que vibrava vendo Amithab Bacchan atirando para todos os lados numa cena de um filme que ele sabia que devia ser muito antigo. Ela o olhou e disse:
- Que houve, meu pequeno Krishna? Eu achei que iam se divertir. Onde estão seus irmãos?
Ele se jogou, de repente, no sofá da sala, deitando a cabeça no colo da mãe, sem dizer nada. Ela repetiu a pergunta e ele disse, de olhos fechados.
- Eu estava cansado, maan. Deixei eles lá...
- E Caulifla? Não foi para casa dela nem a trouxe para cá?
- Nós brigamos, maan.
- Hum... meu priy beta (filho amado)... eu gosto dessa moça, ela é esquentada, divertida... mas você a ama?
Ele virou o rosto para encarar a mãe, que o encarou de volta, as mãos pequenas acariciando os cabelos pretos.
- Não, maan. Eu não a amo. – ele deu um suspiro – mas nós dois ganhamos muito dinheiro juntos, Raditz acha que podemos ganhar muito mais... eu quase acabei tudo hoje, mas eu sei que se eu terminar ele vai me perturbar muito. Investimos na sua franquia de doces, investimos tudo que eu ganho... e eu tenho ganho mais dinheiro que eu imaginava que existia! Quando que eu ia imaginar, quando ficava feliz porque o senhor Popo me pagava 1000 (R$ 56,00) rúpias por semana para limpar o bar, que um dia iria ganhar 30 milhões de rúpias em uma única luta? Eu tenho ganho tanto dinheiro e, ainda assim, me sinto vazio e triste quando não estou lutando ou treinando. Porque eu vou aos lugares e as mesmas pessoas que antigamente me chamavam de Slumdog agora me bajulam... e ainda assim... a garota que eu realmente amo vai se casar com outro e...
Os dedos de Gine juntos, tocaram seus lábios para calá-lo. Ela o mirava com aqueles olhos grandes e pretos que ele aprendera a ler desde pequeno e eles não tinham aquela expressão severa e dura de quando cobravam dele responsabilidade ou seriedade, mas tinham uma suavidade cálida, transbordando carinho.
- Priy beta... é engraçado, mas eu vejo você ,e dizendo isso... eu nunca arranjei casamento para você ou para o Raditz e todos os deuses sabem o quanto eu quero que os dois casem e me dêem noras boas e netos fortes, pensando que queria a felicidade de vocês e quando você me arruma uma nora você tem a coragem de dizer que não a ama? Espero então que não case com essa moça, Kakarotto. Não mesmo...
- Eu... não é que ela seja ruim. Mas eu amo... eu amo outra moça.
- Ah. A atriz?
- Sim, maan... a atriz. – ele suspirou, resignado - Que eu vi de perto poucas vezes, que eu beijei duas vezes... mas que não me sai da cabeça.
- Hum... sabe, beta (filho) quando eu tinha 19 anos meus pais arranjaram casamento para mim, e parecia um ótimo partido! Ele tinha um negócio em Lohar Chawl, uma loja de computadores e meus pais achavam isso o máximo. E eu trabalhando no escritório de telemarketing por 12 horas por dia para ajudar em casa e pensando que seria bom ter um bom marido... meu pai tinha juntado dinheiro para a cerimônia e dizia que os pais do noivo fariam uma enorme festa... parecia que seria ótimo, até eu conhecê-lo...
Goku olhava atento para a mãe, ela jamais havia contado essa história. Ela sorriu para ele e prosseguiu.
- Ele era gordo e feio, mas não isso não seria um problema se ele fosse um bom homem, mas ele era uma pessoa horrível, grosseiro e rude, um homem que eu simplesmente abominei à primeira vista. Na noite que ele foi me conhecer eu chorei por horas! Disse a meu pai que eles não me amavam! Como podiam me dar em casamento para aquele sujeito? Meu pai estava irredutível, o pai do sujeito era seu amigo. Deveríamos nos casar em um ano.
- Eu ia e voltava triste para o trabalho, então... quase fui atropelada numa rua em Vadala, mas dois braços fortes me puxaram para calçada, um segundo antes de ser esmagada por um caminhão descontrolado. E era o seu pai. Ele estava trabalhando, perguntou se eu estava bem... eu fiquei olhando aquele rapaz fardado e pensei: é um deus ou um principe? Como o achei bonito. E ele me ofereceu um chay, porque eu tremia da cabeça aos pés. Nós conversamos por uma hora... e ele me levou até o ponto do meu ônibus.
Ela sorria, nostálgica, e prosseguiu:
- Nós nos víamos todos os dias, mas eu não tinha coragem de contar sobre o meu noivado com o maldito Pambukim, o sujeito horroroso e mal-educado... Então, quando conversávamos já fazia duas semanas ele me perguntou se poderia conversar com meu pai sobre nós... e eu desabei no choro. Disse a ele que tinha um casamento arranjado, contei tudo e ele me segurou pelos ombros, enxugou minhas lágrimas e disse: "Eu me caso com você, nem que tenhamos que fugir para isso." E ele foi até meu pai, se apresentou e disse que me amava. Seu avô o detestou, o achou abusado. Mas admitiu que ele era corajoso e percebeu que se não desse o consentimento, eu fugiria com Bardock, então, não houve nada que ele pudesse fazer.
Não foi tão complicado desfazer o arranjo de casamento com Pambukim
Nós nos casamos, mesmo contra a vontade do seu avô. E não tivemos uma grande festa, Bardock era órfão, não tinha família, e seu avô ficou muito zangado comigo, tanto que se recusou a pagar pelo casamento. Eu e seu pai juntamos o que tínhamos e fomos morar em Andheri, num conjunto não muito bom... mas vivemos, fomos felizes. Então seu avô ficou muito doente e precisou de dinheiro para o tratamento, e acabou usando o dinheiro que não gastou no meu casamento tratando da sua saúde...
- Eu me lembro do daada (vovô) doente... – disse Kakarotto, pensativo. – mas ele gostava do pitah (papai).
Gine riu e disse:
- Um dia quando seu pai o levava para o hospital disse: "que bom que o senhor não pagou nosso casamento, imagina como iríamos pagar seu tratamento, senhor Nirah...". E seu avô começou a chorar, porque Bardock fez de tudo para ajuda-lo, até o fim. E foi isso, filho... Mash'Allah.
- O quê?
- Mash'Allah... não é algo que nós, os hindus, falemos muito, mas eu aprendi. É a vontade de Deus, ou dos Deuses... e se for assim, você terá a sua Chichi... e não é Raditz, ou eu, ou qualquer pessoa que vai impedir – ela tocou a marca suave da tikka que fizera nele cedo naquele dia, antes da sua luta e disse – deixe o tempo dos Deuses agir, meu filho.
Kakarotto olhou para a TV, que exibia os créditos do filme e disse, para si mesmo:
- Mash'Allah.
Mais tarde, deitado em sua cama, ele começou a pensar nas coisas que queria para si, e, involuntariamente, seus pensamentos saíram um pouco do seu relacionamento amoroso e ele lembrou da zombaria de Broly, e do namorado de Chichi chamando-o de Slumdog... e, por difícil que fosse, decidiu que terminaria o relacionamento com Caulifla no dia seguinte. Dormiu em paz, cansado pela luta, um pouco dolorido, porque, afinal, os golpes de Hitto não eram leves, mas, apesar de tudo, feliz consigo mesmo.
No dia seguinte, acordou muito cedo e vestiu seu conjunto de corrida. Desceu pela rua principal de Church Gate. Era engraçado, mas ele agora descia a enorme avenida, rumo a Mantralaya, e ali, bem perto, ficava o Raz, onde todo o drama da sua vida se desenrolara. Tocou o interfone e Caulifla atendeu, sonolenta. Quando abriu a porta, ela tinha um ar triunfante, e ele sabia que ela pensava que ouviria um pedido de desculpas.
Mas não foi isso. Ele simplesmente disse a ela que não a amava e não a queria iludir. Nunca tinha amado, na verdade... e que não conseguia ficar com ela, simplesmente não tinha como continuar aquele namoro. Ela o encarou, com uma expressão neutra nos olhos pretos, não parecendo a garota furiosa da véspera. Quando ele finalmente acabou de falar, ela disse:
- Você leu os contratos que a gente assinou junto, velhote?
- Os... contratos?
- Nem sabe quantos foram, né? – ela riu. – Olha só... só aquela marca de suplementos nos quer juntos até o meio do ano. E se um de nós roer a corda... sabe aquele apartamento grande e lindo de Church Gate, onde você levou sua linda maan para morar? Pode dar adeus. E isso é só um contrato, temos outros, um até o Valentine's Day, o outro até maio. A multa por quebra de contrato de cada um deles, querido, é bem violenta... se quer saber, eu já percebi que você não me amava, mas achava que com o tempo ia acabar esquecendo aquela...
- Não fale assim dela!
- Eu falo do jeito que eu quiser! – gritou Caulifla – sabe, esse negócio sentimental de vocês, filmes e tudo mais... isso tudo me enoja. Eu queria mesmo era ter feito sucesso no Canadá, não nesse maldito país escroto, cheio de Deuses, costumes idiotas e sujeira.
O rosto dele se endureceu. Ele odiava que falassem assim do seu país, como todo indiano.
- Você pode tentar a sorte no Canadá ou nos EUA. Mas não reclame se ficar barrada na imigração e for tratada como indesejável – ele disse, friamente.
Ela o encarou, irritada, e disse:
- É o que eu pretendo, sabia? Assim que tiver um bom cartel. Não é tão difícil para uma mulher quanto para um homem conseguir um lugar no UFC... Mas eu estou presa a essa maldita SFL por um ano. E eu não pretendo ser feita de trouxa por você.
Ele não sabia o que dizer. Ela o encarou e disse:
- Proponho um acordo, Son Goku. Vamos até o fim desses contratos e nós separamos, amigavelmente. Mas enquanto isso... não quero saber de você se engraçando com essa cretina pelos próximos meses... não quero ser feita de idiota e aparecer em sites de fofoca como uma idiota feita de trouxa por vocês!
Ela o encarava de braços cruzados, irritada. Goku se sentia impotente. Ela prosseguiu:
- Vocês, indianos, não são bons nesse negócio de "arranjos"?
- Que eu me lembre, você também é indiana...
- Mas cresci num país civilizado. E quero outra coisa no nosso arranjo. Sexo. Uma vez por semana, pelo menos... eu sou humana. Ou isso, ou quebre o contrato por sua conta e risco.
Ele a encarou, chateado. Ela o tinha nas mãos, afinal.
- Ok. Feito. – ele disse – te vejo então... na próxima sessão de fotos. – ele se virou para sair e ela disse:
- Não tão rápido... eu disse que queria sexo uma vez por semana, lembra? E quero agora porque essa semana não transamos nem uma vez.
- Agora? – ele a olhou, não acreditando no que ouvia. Era a humilhação máxima.
Ela se adiantou e o agarrou, puxando-o pelo pescoço, beijando-o com violência. Ele fechou os olhos, constrangido, e deixou-se levar. Ela protestou quando ele pegou um preservativo dos que ela sempre tinha na gaveta, mas ele disse, sério:
- Um filho não faz parte do nosso acordo e eu não confio em você.
Depois, quando terminaram, ele se levantou imediatamente e começou a se vestir. Ela o olhou, estranhando e disse:
- Onde vai?
- Para casa. Você queria um prostituto e agora tem um – ele a encarou brevemente – mas não me peça que seja carinhoso ou que fique para almoçar ou jantar. Você pode até ter o meu corpo, mas nunca vai ter nada além disso, muito menos meu coração. Quer sexo? É tudo que vai ter.
Ele terminou de se vestir e saiu correndo, de volta para sua casa. Naquele momento as palavras de sua mãe não faziam mais muito sentido para ele. Se aquela era a vontade de algum Deus para ele, os deuses então não o amavam tanto assim.
Quando chegou em casa, avisou a Raditz que não assinaria mais nenhum contrato em conjunto com Caulifla, que o último seria o tal do Valentine's Day. Quando o irmão tentou argumentar, pela primeira vez na vida, Goku gritou com ele:
- Não, bhaee! Não vou fazer outra campanha, não vou tirar mais fotos e nem posar ao lado de uma mulher que eu agora simplesmente abomino e odeio!
- Odeia? Essa não é uma palavra muito forte? Ela é sua namorada e...
- Ela não é minha namorada, não a considero mais assim. É apenas uma mulher que cruzou o meu caminho e que, assim que eu puder, vou tirar da minha vida. Não insista em contratos com ela, ou serei obrigado a contratar outro agente, Raditz!
O irmão fechou a cara e saiu, visivelmente magoado. Goku suspirou e pensou que talvez tivesse pego pesado com ele, mas tomou a decisão de ler cada contrato melhor. Por mais que confiasse no irmão, ele agora sabia o que queria e o que não queria. E ele não queria Caulifla nem por um minuto a mais na sua vida além do combinado.
Três dias depois do fim do Diwali, a cúpula de produção de Raaja Vegeta estava reunida. Oolong anotava tudo no seu tablet, Shallot tinha um laptop com todos os números de "Saraswatee" atualizados em tempo real diante de si e, a cada minuto, a bilheteria do filme ia aumentando, para alegria de todos. Ao lado dele, Chichi fazia contas mentais de quanto aquilo representaria no resgate das suas dívidas financiadas com Shallot. Se continuasse daquela forma, com mais dois filmes de sucesso ela estaria livre. Era bom, porque ela não estava dando conta do seu mestrado direito e pensava que, cedo ou tarde, teria de desistir e a desculpa para adiar o casamento evaporaria diante de todos.
Ao lado dela, Vegeta e Tarble conversavam em voz baixa. O irmão mais novo, ousado para os seus 17 anos, pedira para participar de todas as etapas das produções, porque queria aprender, porque não tinha vontade de ser ator, mas era simplesmente apaixonado pela ideia de trabalhar em Bollywood.
Diante deles, ao lado de Oolong, King Cutelo observava tudo, quieto. Ele não era um homem de muitas palavras e nem costumava opinar tanto, mas estava ali, como sempre, para apoiar sua filha, há bastante tempo que ela decidia tudo que podia em sua carreira, com a mínima interferência do pai. O maior embate dela, sempre, era com Raaja Vegeta, que chegava naquele momento, munido do seu próprio laptop e uma cara fechada, por causa da presença de Tarble na reunião.
Quando uma copeira trouxe o seu chayy, Raaja levantou os olhos do laptop, que tinha aberto diante de si sem falar com ninguém e disse:
- Prontos para começar? –
Diante da concordância de todos, ele começou:
- Bem... Saraswatee foi maravilhosamente bem e...
- Continua indo! – disse Shallot, empolgado, tenho os números atualizados e...
- Não me interrompa! – cortou Raaja, rispidamente, fazendo Shallot calar-se – é notório que nosso casal ainda é popular para dramas românticos... mas "Nakalee deting"... "Crazy for love", seja lá como se chamou... foi seu primeiro fracasso... e é nesse filme que estou pensando. Por que fracassou?
- Ora pai querido – debochou Tarble – eu amo minha Saraswatee aqui do lado, mas o filme era simplesmente ruim! A história não foi das piores, mas aquele diretor era um preguiçoso! Imagino que maravilha sairia daquele roteiro, que nem era ruim, nas mãos da Farah Khan, que tinha sido escolhida primeiro... e, francamente... Chichi não parecia à vontade. Desculpa, minha linda... mas você estava tão apagadinha...
Ela riu. Raaja fechou a cara, mas não disse nada. Vegeta opinou:
- Foi uma temporada com muitas comédias românticas... foram 4 na semana do Ganesha Chaturthi... demos azar, ainda é um ponto fora da curva.
Chichi estava calada, ela sabia que era questão de tempo para Raaja culpa-la pela escolha do roteiro, exatamente como Shallot fizera. Então ele disse, olhando para ela:
- Qual sua opinião, Chichi?
- Uma série de escolhas erradas. Talvez não fosse o momento. E eu não dei o meu melhor. Mas eu já estou pagando pelo meu erro... recompondo meu fundo e me preparando para novos projetos, como todos nós.
Raaja admirava mas, ao mesmo tempo, detestava o jeito forte e decidido da garota. Ela era tão... exatamente como Kyra. Era como se a visse ali, diante dele, sempre a lembrá-lo do que ele perdera quando o destino separara os dois. De repente ele disse:
- Eu encomendei uma pesquisa sobre vocês...
- Puranaa (velho)... – suspirou Vegeta – lá vem o senhor com essas pesquisas. Eu e Chichi sequer queremos fazer mais filmes juntos como casal... aqueles roteiros que eu mostrei, os da SFL... dois filmes ótimos, podem suprir todas as dúvidas e...
- Antes de liberar vocês para produzir esses filmes, precisamos de um filme muito lucrativo, um que recupere a imagem do casal...
- Eu já disse que não estamos mais interessados na nossa "imagem de casal"...
- Calado! – ele disse, e Vegeta o encarou, com um olhar furioso, mas contido, afinal, ainda era o pai que mandava em tudo. – eu descobri o que a audiência quer, independentemente do tipo de filme que vocês dois façam... e é algo simples, mas que pode tornar qualquer próximo filme um arrasa-quarteirão imbatível... algo que ninguém imaginaria propor há uns anos...
King, de repente, virou o rosto na direção de Raaja, apreensivo, já adivinhando o que viria a seguir, a respiração rápida e o olhar atento para o que diria o produtor.
- É um modismo besta, na minha opinião... mas tem dado certo... desde que Hrithik Roshan apareceu assim com Ayshraya Ray em Dhoom 2, todos os medalhões estão fazendo... bem, a audiência se escandaliza, polemiza, mas no fim, ama. – ele olhou para Chichi e depois para Vegeta, que o encaravam, ambos perplexos, e disse – é hora dos dois protagonizarem um beijo na boca nas telas. É isso que a audiência de vocês mais quer ver!
Antes mesmo que Chichi ou Vegeta protestassem, King Cutelo bateu com força na mesa e gritou, a voz ribombando pela sala:
- NÃO! – ele encarava Raaja com um olhar furioso – mil vezes NÃO. Eles não podem fazer isso, Raaja! Eu não permitirei e eles não farão!
Raaja o encarou, com deboche, porque estava acostumado com o não inicial e depois com a desistência de Cutelo, era assim há anos, ele o encarava como um homem fraco.
- Por que não? Tem medo da sua preciosa filha ficar mal falada? Atrizes de maior prestígio que ela estão fazendo e...
- Não! Já disse que não! Eles não vão fazer isso!
- Se eu quiser, eles farão! – Raaja levantou a voz, erguendo-se ligeiramente, e encarou Cutelo, que olhou brevemente para a filha, com uma expressão penalizada e encarou Raaja de novo com raiva, antes de dizer:
- Eles não podem fazer isso, Raaja... eles não podem se beijar seja na tela ou na vida real porque... porque eles são irmãos!
O silêncio caiu imediatamente na sala, conforme Raaja, que se erguera um pouco na cadeira, caía sentado novamente, o rosto pálido numa expressão de surpresa.
Notas:
1. É isso. Chichi e Vegeta são irmãos, você leu direito. Isso será explicado no próximo capítulo...
2. Goku preso a Caulifla. Chichi presa a Shallot. E agora mais essa... que surpresas será que teremos a mais nessa história?
3. Mash' Allah é uma música do filme Saawaraya, de 2008. É um conceito muito usado em duas religiões da Índia, o Islamismo e o Sikhismo mas não tanto no hinduísmo, que é menos determinista no domínio dos deuses sobre os homens, que seriam mais governados pela lei do carma.
