Capítulo 21 – Kya hua tera vada? (O que foi feito da sua promessa?)
King Cutelo tinha ambas as mãos apoiadas no tampo da mesa, a cabeça baixa, pesando entre os ombros largos, olhando fixamente para o nada, evitando os demais olhares chocados. Chichi derrubara seu chayy sobre a mesa, mas ninguém parecia preocupado com o desastre; Vegeta Jr. parecia catatônico, assim como o irmão, que tinha as mãos espalmados no rosto e os lábios em um "o" de choque absoluto; Shallot paralisara segurando o laptop e Oolong olhava para o próprio colo, como que completamente perdido. Mas era Raaja Vegeta que tivera a reação mais chocante. Ele erguera-se de um salto da cadeira e dissera, num rompante:
– Que história é essa, Cutelo? De onde tirou isso? Não é verdade porquê... ela me disse que...
– É verdade. – disse o diretor, ainda de olhos fixos no tampo da mesa – eu sei que ela te disse que não era... e eu sei de tudo, Raaja. De absolutamente tudo. Eu sempre soube, na verdade. Ela foi boa em te convencer que Chichi não era sua filha, e fez isso por mim, mesmo que eu não merecesse... e ela fez por ela mesma e pela filha, Chichi, a única completamente inocente nessa história.
Raaja olhou em volta, como que avaliando a situação e então disse:
– Ela... ela contou a você?
– Quando aconteceu. Logo no dia seguinte. – respondeu Cutelo, olhando então para o rosto de Chichi.
– Pai... – disse Chichi, com lágrimas brilhando nos olhos negros – que... que história é essa? Do que você está falando? – ela olhou para Raaja Vegeta, que a mirava com olhos arregalados – minha mãe e... esse homem horrível?
– Você está louco, Cutelo? – Gritou Raaja – isso é hora de revelar algo... Por Shiva! Na frente de Oolong e Shallot?
– Oolong sabe. – disse King – e Shallot vai se casar com Chichi. Um casal não deve ter segredos, pelos Deuses como eu sei que isso é importante...
Raaja olhou para o secretário, que continuava com os olhos concentrados em algum lugar no seu próprio colo. Chichi explodiu, então:
– Você está me dizendo que a minha mãe realmente... – ela tornou a olhar para Raaja e completou – ela não pode ter feito isso com você, pitah! Ela não pode... ter traído você com esse... com esse... – ela explodiu em choro sem encontrar palavras.
Cutelo olhou nos olhos da filha, com uma expressão tristonha e severa e então, disse, com a voz embargada:
– Antes de julgar sua mãe... antes de pensar que ela foi cruel comigo ou que me traiu... você precisa saber que eu não fui um bom marido por muito tempo... – ele hesitou antes de dizer – Kyra ... ela era perfeita e eu... a maltratei. Eu fui horrível por tanto tempo...
– Do que você está falando, pitah? Você e a mamãe... eram um casal perfeito. Todos falavam... eu me lembro bem e... vocês eram meus pais! Eu saberia se fossem infelizes!
– Não – disse Raaja, soando subitamente calmo – Você não sabe de tudo, garota. Não foi assim que as coisas aconteceram, não foi, Cutelo? Conte, conte à garota. Ela tem o direito de saber. Ela tem o direito de saber tudo, então. E eu também, afinal!
King suspirou profundamente, e começou a contar:
– Vocês sabem que Raaja e Kyra tinham um relacionamento. – ele começou, de cabeça ainda baixa, então se afastou da mesa – e eu, bem, eu não tinha nada a ver com aquilo, embora, secretamente, morresse de inveja de Vegeta. Éramos todos muito jovens. Kyra tinha 16 anos quando foi eleita Miss India Juvenil... mas em vez de ir para o concurso adulto ela foi para Bollywood aos 17 anos. Um contrato maravilhoso, irrecusável. E ele – ele apontou Raaja, que abaixou a cabeça, envergonhado – ele logo se aproximou dela, esse abutre mulherengo, não bastava ter todas as mulheres aos 19 anos, ele queria ela. Eram lindos juntos, era verdade. Todos diziam isso – disse Cutelo, com raiva – e ele não a respeitou... não a valorizou e...
– Você a ajudou a descobrir, não, Cutelo? Era um miserável invejoso. – Raaja disse, com amargura na voz – eu... eu fui um estúpido. Mas ela poderia ter sido... poupada.
– Dos seus deslizes? Das suas escapadas com garotas do coro? Você tinha o coração da mulher mais linda de todas, Raaja. Mereceu quando ela te deixou.
Raaja o encarou, e era a primeira vez em mais de trinta anos que olhava para King da forma que o enxergava. Com inveja.
– Você... você a tirou de mim. Você a roubou de mim.
– Eu estava lá para ela...
Os dois se encararam em silêncio e então, Tarble interrompeu tudo dizendo, com a voz alta e ligeiramente alterada:
– Ok, ok. Isso está nas fofocas antológicas. Todo mundo sabe disso. O que então fez o nosso adorado diretor, que sempre me pareceu o melhor homem do mundo ser esse tal péssimo marido?
Um riso malicioso apareceu no rosto de Raaja. Ele encarou King e disse:
– Ela te contou ou você descobriu, Cutelo?
Cutelo demorou um longo instante antes de dizer, calmamente:
– Ela tinha vergonha. Naquela época, bem... naquela época nós não costumávamos ser liberais como agora. Nosso namoro e noivado foram bem breves e ela se comportou como uma autêntica noiva indiana... Então, na lua de mel ela me contou que você e ela... e eu me senti traído, enganado... mesmo que tivesse sido antes, bem antes... eu não aceitei o fato de que ela tinha perdido a virgindade contigo. Na minha rígida cabeça, ela era pura e você... você tinha sujado ela com as suas mãos imundas.
– Ela tinha apenas 17 anos e eu 19. – disse Raaja – eu tinha sido criado fora daqui... não dava importância a essa bobagem de virgindade. Não como você deu, depois.
Cutelo fechou os olhos. Ele encarou Chichi e disse:
– Eu não a rejeitei, como faria um indiano tradicional, ou anulei o casamento, como a lei me facultava na época. – ele suspirou – o que eu fiz, na verdade eu vejo hoje, foi muito pior. Eu me tornei um homem amargo e cruel, sempre pronto a ofender Kyra . Ela gostaria de pedir o divórcio, mas o agente desaconselhava. Não tão rápido, não tão logo... e eu... apesar de tudo, apesar de tudo que eu fazia... eu a amava. Eu era horrível, mas não admitia perde-la. Não queria perdê-la. Preferia tê-la ao meu lado machucada do que não tê-la mais...
Ele ergueu os olhos para Raaja e disse:
– Você não ajudava, com suas provocações, com seus... ah, como eu o odiava.
– Mas você estava lá com ela... no dia do meu casamento com Fasha. Se teve um dia na minha vida que eu soube que Kyra não me esquecera foi aquele. Você poderia ter poupado Kyra de me ver dar os sete passos com outra mulher... mas fez questão, não fez? Fez questão que ela visse eu jurando fazer feliz outra mulher. Você não é muito melhor que eu. Nenhum dos dois honrou as promessas feitas aos deuses. Ora, no fundo, Cutelo... você é igual a mim. Somos bons em fazer mulheres sofrerem.
– Nós havíamos brigado horrivelmente antes do seu casamento – disse Cutelo – e ela disse que pediria o divórcio logo – ele soluçou – e, então, pedi perdão e disse que mudaria. Mas... logo depois disso Fasha engravidou. E eu e ela estávamos tentando há mais de um ano... fomos ao médico e descobrimos que o problema... o problema era eu. Eu era estéril, completamente estéril. – ele encarou Raaja – mas você nunca soube desse pequeno detalhe. Você, que logo se tornou pai, continuava cercando-a, me enchendo de ciúmes... e ela rejeitava suas investidas, não rejeitava?
– Todos os dias – disse Raaja – ela me dizia para respeitar Fasha... dizia que eu tinha uma família. Quando Vegeta nasceu eu estava fora do país, na América. Gastando dinheiro e bebendo. – ele olhou para o filho – eu não levei a sério a depressão pós-parto de Fasha. Não era nada melhor nessa coisa de ser marido que você era...
– Um ano inteiro... – disse Cutelo – Um ano inteiro filmando "Kya hua tera vada"... maldito filme. Nós três no set... eu vendo você naquelas cenas com ela. Eu imaginava vocês juntos, e quando chegava em casa... eu e Kyra não tínhamos mais vida, era uma questão de tempo.
– Então... então você sabia do que aconteceu naquela noite... esse tempo todo?
– Da noite da monção? Claro que eu sabia, seu idiota. Acha que ela me esconderia isso? Kyra era a mulher mais incrível e sincera que eu conheci. Você chegou na sua casa, em Juhu e descobriu, horrorizado, que Fasha havia abandonado a casa, largado Vegeta chorando em seu berço e você estava bêbado. Claro que foi para ela que você ligou chorando, agentes, secretários, ninguém aturava você, maldito astro arrogante e sem amigos. Nós dois fomos até lá, lembra?
Raaja balançou a cabeça, envergonhado.
– Eu confesso que tive pena de você, Raaja. Você me pareceu patético, chorando por não saber o que fazer. Sem nenhuma condição de dirigir, quando Fasha ligou, dizendo que estava num Bar em Chowpatti. Cheguei a pensar em levar Kyra comigo. Mas alguém precisava cuidar do garoto, já que você não tinha a mínima ideia do que era uma criança e suas necessidades. – ele olhou para Vegeta Jr. – Kyra era encantada por você, sabia? Eu tinha ciúmes, porque sabia que ela via em você... o filho que poderia ter tido. Então, eu fui atrás da esposa dele e o deixei com a minha. Como eu fui estúpido.
– Não foi como você imagina – disse Raaja – não foi... por luxúria ou algo assim. Eu amava Kyra. Foi a única mulher que eu amei em toda minha vida. E ao vê-la cuidando do meu filho eu senti todo o arrependimento que poderia ter sentido por toda uma vida. Ela cantava com sua voz suave, fazendo Vegeta dormir, depois de cuidar dele... eu era idiota o suficiente para sequer querer criadas na minha casa e não via que Fasha... Fasha não estava em condições de ser mãe. E Kyra , quando pôs Vegeta no berço estava radiante. E eu disse isso a ela, e pedi perdão... e confessei o quanto a amava – a voz de Raaja embargou-se – acho que foram os deuses que nos prenderam naquela casa por causa da monção, a pior chuva do ano caiu naquele dia, estávamos presos naquela casa... Nem eu e nem ela queríamos pensar no dia seguinte. – ele olhou para Cutelo – e eu disse a ela que te deixasse. Eu disse a ela que ficasse comigo, que se casasse comigo. E naquela noite aquilo fazia todo sentido do mundo.
Raaja e Cutelo se encararam. Não havia vencedores ali, porque ambos haviam perdido a mulher que amavam. Então Raaja prosseguiu:
– Na manhã seguinte, acordamos com o choro de Vegeta. Era a realidade nos acordando. Kyra me disse: "você tem uma mulher doente e um filho que precisa de você, Raaja..." e eu soube que ela jamais seria minha. Kyra não era o do tipo de pessoa que faria da sua felicidade a desgraça de alguém. Ela sabia que um divórcio poderia ser desastroso para Vegeta, ela sabia como Fasha era desequilibrada e como ele ficaria em jogo entre nós dois... e ela foi embora sem olhar para trás. – ele encarou Cutelo – e depois eu não soube porquê... porque ela e você se tornaram aquele casal que parecia que havia sido sempre... tão feliz.
– Assim que chegou em casa ela me pediu o divórcio. – disse Cutelo – no mesmo instante que pisou em casa. E eu a acusei de ter dormido contigo, e, então, ela finalmente despejou tudo que eu merecia ouvir em cima de mim e sim, ela confessou e me disse que pela primeira vez desde que havíamos nos casado ela tinha se lembrado do que era ser amada – ele deu um longo suspiro – e eu percebi como era eu o responsável por nossa infelicidade. Eu percebi o quanto eu a empurrei para sua cama... e me surpreendi com o quanto aquilo doía porquê... era culpa minha. E eu pedi perdão a ela pela primeira vez, não pela carreira, ou por causa da reputação... porque eu havia chegado muito perto de destruir a mulher que eu amava. E ela me rejeitou. E disse que iria para Varanasi, a sua terra, para ficar um tempo longe de nós dois. E que de lá ela enviaria os papéis do divórcio. Eu a havia perdido. Perdido para sempre, eu imaginava.
– E eu me lembro que ela foi para Varanasi – disse Raaja – e eu achei que era questão de tempo, mas...
– Eu fui atrás dela um mês depois – disse King – disposto a derramar meus sentimentos mais uma vez, pedir mais uma chance. – ele olhou para Raaja – e ela me recebeu, na casa dos pais, polidamente, como uma esposa em processo de divórcio faria, usando roupas de algodão cru. Eu me ajoelhei aos pés dela. E disse que faria qualquer coisa para tê-la de volta... que eu jamais levantaria a voz, ou faria desfeitas... e então ela me disse: "Estou grávida. É tarde demais para nós, King... eu terei de tirar esse filho se voltar para você, você não aceitaria um filho dele...". Então eu vi. Eu percebi. Eu me ergui e disse a ela: "Maahi-ve... eu te juro que o filho que você espera será criado como meu... com o maior orgulho, com o maior amor. E eu nunca pensarei nele como filho de outra pessoa que não seja eu."
– E ela voltou com você para casa – disse Raaja, amargamente – Mas não imediatamente. Vocês ficaram em Varanasi tempo o suficiente para Chichi nascer, despistar... e quando eu perguntei a ela...
– Ela disse a você que Chichi era a filha de nossa reconciliação. Nós não anunciamos seu nascimento até ela ter dois meses, não era difícil porque estávamos fora da cidade, numa propriedade rural. – disse Cutelo – E foi quando você finalmente desistiu dela, porque fez as contas e acreditou que Chichi fosse minha filha... eu deveria pedir perdão para minha filha, porque ela foi registrada com dois meses de diferença, até mesmo seu horóscopo é uma enorme mentira... mas foi o preço do nosso sossego. – King Cutelo encarou Raaja altivamente e disse – A mentira foi o preço que pagamos pela nossa paz e depois de três anos de inferno, eu tive os sete anos mais felizes de minha vida, e sei que Kyra também. Eu descobri o bálsamo que é perdoar e ser perdoado. Claro que os Deuses não me permitiram viver até a velhice com ela, mas eu a tive até o último dia de sua vida inteiramente. Ela te deixou sem jamais olhar para trás e eu sei que você sabe disso.
Os dois homens se encaravam, sérios. A verdade entre eles era que os dois haviam amado e sido amados por Kyra. Raaja com paixão, Cutelo com carinho. Mas ela não pertencera a nenhum dos dois, no fim. Então King disse:
– Você se lembra do meu conselho de enviar Vegeta para a Europa? Foi a minha tentativa de afastá-lo de Chichi na adolescência. Eu tinha pânico que eles se apaixonassem. A minha vontade, quando você os colocou para contracenar, foi contar tudo para você. Mas eu não queria de jeito nenhum dizer... eu não queria te dar a chance de tirar minha Chichi de mim. Então, quando os dois se detestaram, eu fiquei em paz. Não havia um pingo de atração entre os dois. Meu alívio quando ela começou a namorar Shallot foi maior... mas quando você disse que eles deveriam se beijar... não, Raaja, eu não poderia permitir isso. Seria um crime contra os deuses e contra a memória de Kyra .
– Não vai acontecer – disse Raaja – aliás... precisamos repensar...
– Repensar? – explodiu Vegeta, olhando para Chichi, que não parava de chorar, ainda que silenciosamente – como assim, repensar? Vocês, velhos, não veem que usaram a nós dois durante esse tempo todo? E eu e Tarble, velho? Acha que é apenas isso, apenas "repensar"? Que vamos sentar aqui, todos quietos, oh, ok, o segredo sujo dos dois veio à tona... tudo bem, vamos continuar filmando... não. Não é assim. – veja o que fizeram a ela – ele apontou para Chichi – acha que é fácil descobrir aos 23 anos que se é filha de um canalha amoral como Raaja Vegeta? Ela precisa de um tempo... eu preciso de um tempo...
– Eu não – disse Tarble, de forma debochada – nada que venha do velho Raaja me surpreende...
Chichi levantou-se, num rompante e saiu correndo, tropeçando nas mesas do escritório. Shallot a seguiu, mas quando a alcançou diante do elevador ela disse:
– Quero ficar sozinha! Me deixe!
Chichi desceu no elevador sozinha, ainda chorando, e entrou no seu carro, querendo fugir dali imediatamente. Mas não conseguiu dar partida, os olhos embaçados e as mãos perdidas, como se tivesse esquecido completamente como se girava a chave na ignição. Depois de um tempo, ela sentiu batidas no vidro do carro e abriu a porta ao ver Vegeta ali, parado ao lado da porta do motorista.
– Não precisamos de uma segunda estrela de cinema morrendo de acidente de carro.
– Por que me seguiu, Vegeta? – ela socou-o no peito. – eu não quero falar com você, ou com Shallot...
– Respondendo à sua pergunta, eu te segui porque Shallot não o fez. Ele não sabia o que fazer. Aliás... aquele tonto nunca sabe o que fazer.
Chichi, que chorava, de repente, riu. Vegeta ficou sério e perguntou:
– Quer conversar?
Chichi balançou a cabeça, em meio às lágrimas, e ele disse:
– Eu sei onde posso te levar. – ele a tirou do carro como uma criança e a conduziu pela mão até sua Ferrari, dizendo, antes de dar a partida: – vamos dar um passeio como irmãos, que tal?
De repente, seu telefone tocou. Era Tarble.
– Que foi? Sim. Estou com ela. Vou leva-la a Juhu. Não conte aos velhos. Me encontre lá. O quê? Ah, você se vira, pega um uber.
Ele saiu do estacionamento e disparou pelo Queen's Necklace, em direção à estrada onde 17 anos antes a mãe de Chichi perdera a vida. Quando passaram pela longa ponte de Bandhra-Forli, um longo caminho suspenso sobre o mar, Chichi, até então quieta, abriu a janela e deixou o vento do mar entrar. Ela fechou os olhos, inspirando profundamente, sentindo o cheiro da maresia do Oceano Índico, não querendo pensar muito em nada. Vegeta a olhou de lado e sorriu. De repente, fazia muito sentido serem irmãos. No fundo, eram parecidos. Depois de pouco mais de meia hora, chegaram a uma enorme mansão à beira da praia de Juhu, nos subúrbios ricos de Mumbai.
Apesar da família não ir mais muito lá, a casa estava impecavelmente limpa, embora fosse bastante velha e tivesse uma aparência antiquada e meio decadente. Raaja pagava criados para deixarem tudo limpo e polido, como se ainda frequentasse o lugar. Vegeta foi até a geladeira na enorme cozinha e pegou duas garrafas de refrigerante "Thum's up". Abriu as duas e deu uma para Chichi, que disse:
– Não bebo. Isso dá celulite.
– Deixe de bobagem. Você precisa de algo muito doce... e isso é a coisa mais doce que eu achei na geladeira. Vem – ele a puxou através da cozinha e da copa, passando pela sala e, então, abriu as portas de correr um pouco emperradas para um varandão que se debruçava para a praia mais bonita de Mumbai. O mesmo Oceano Índico que em Goa parecia tão azul, ali estava cinzento, triste como os olhos negros de Chichi, que ficou parada no meio da varanda até que Vegeta disse:
– Tem cadeiras aqui para sentar, não para enfeite.
Ele puxou uma cadeira de palhinha de um conjunto meio gasto formado por uma mesa redonda e 4 cadeiras iguais e ela sentou-se, segurando a garrafa de refrigerante, quieta. Ele sentou-se logo em seguida e disse:
– Tome logo um gole. Isso aí quente é ruim demais.
Ela bebeu e fez uma careta, dizendo:
– Tantos anos que não bebo "Thum's up" que eu até esqueci como esse negócio é doce!
Ele riu e disse:
– Se tivéssemos puxado ao velho Raaja, seria Bourbon ou um Whisky 12 anos... se bem que ele parou de beber.
– Eu preferia um Lassi de Manga com gengibre. – ela disse, bebericando o refrigerante e então o deixando de lado. – minha mãe fazia um ótimo...
– Eu acho que a sua mãe foi a primeira mulher por quem eu me apaixonei – ele disse, de repente e ela o olhou, chocada – não dessa forma, claro. – ele esclareceu, olhando para ela – mas querendo que ela fosse a minha mãe. Só que ela nunca soube disso. Ela só conheceu o pequeno monstrinho que a combinação Fasha Sadala/Raaja Vegeta produziu... – ele deu um longo suspiro – eu era um pequeno poço de raiva. E nunca consegui aproveitar essa praia aí embaixo totalmente. Eu ia com criados. Minha mãe preferia ficar aqui, na sacada, fumando e destilando ódio contra meu pai – ele a olhou – ou melhor, nosso pai e sua mãe. Os criados tinham medo que eu me afogasse. "Lord Vegeta" – ele disse, imitando um falsete afetado – "No fundo não. A areia é boa... a água é fria... fique quietinho, por favor...".
– Lembra quando nós brigamos?
– Qual das vezes? – riu Vegeta e ela acompanhou.
– Você era um menino horrível! – ela disse e ele a olhou, indignada.
– Ah, sim... – ele respondeu – e você era tão educada quanto um moleque de rua Mumbai. Sempre acabávamos aos socos!
– Você puxava minhas tranças, eu me lembro disso.
– E você chutava minhas canelas!
Os dois riram e ela disse:
– Eu era doce e educada até Raaja Vegeta Jr. aparecer.
– A verdade é que eu era um garoto insuportável e mimado. Ainda bem que no colégio suíço me ensinaram a me virar e ser menos egocêntrico. Eu sofria bullying, sabe? O garotinho indiano de baixa estatura no meio de dezenas de ricaços brancos. Eu era mais rico do que boa parte deles... mas bem menos branco.
– Racistas de merda – disse Chichi, tomando um gole do refrigerante.
– Tem certeza que não tem álcool nesse negócio? – ele perguntou, rindo. – nunca vi a dama exemplar falando um palavrão...
– Não me falta vontade, quando estou naquelas recepções de Dubai... aqueles príncipes nojentos, Ugh. – ela disse – Shallot não faz nada.
Ele a olhou e disse:
– Você sabe porque meu pai se casou com minha mãe?
Ela o encarou, sacudindo a cabeça em negação.
– Ela era a cantora que sua mãe dublava nos filmes. Mas ela jamais cantou para mim. Ainda assim, eu a adorava, queria tanto o amor dela. Só o tive quando ela estava morrendo e eu voltei brevemente da Suíça. Sabe quais foram as últimas palavras dela para mim?
– Não. – disse Chichi. De alguma forma, aquela conversa a incomodava.
– Não se case sem amor. – ele disse, suspirando.
– É um bom conselho.
– Você devia segui-lo – ele disse a Chichi que o encarou, séria – você não gosta de Shallot. Eu vi como você olhou para o Kakarotto...
– Quem é Kakarotto?
– O lutador. O cara que você realmente gosta.
– Ah, o Goku?
– Sim... eu não consigo chama-lo por outro nome, ele é irmão da minha... da minha amiga. Ela sempre o chamou pelo nome real.
– Sua amiga? Aquela de cabelo azul que você jogou no colo do Yamcha?
Ele resmungou qualquer coisa e ela disse:
– Goku tem namorada. Eu tenho namorado, embora... só esteja com ele por causa do maldito empréstimo. Ele a olhou e disse:
– Eu vi como aquele cara te olhou no Raz e vi a cara de tédio dele quando a "namorada" o arrastou. Ele deve ter algum empréstimo na vida também para se manter ao lado dela.
– Só sei que enquanto eu não estiver livre das dívidas daquele filme idiota não vou conseguir me livrar de Shallot. Os deuses sabem o quanto quero – ela suspirou, olhando o mar.
Vegeta encarou Chichi. Eram parecidos, afinal. Saber que ela era sua irmã colocava uma peça num quebra cabeça que explicava a estranha relação deles, que se aturavam desde a infância. Então, olhando o mar disse:
– Vamos combinar uma coisa?
– O quê?
– Essa coisa de "casal" já deu. Ninguém precisa do escândalo de saber que somos irmãos... mas vamos agir como irmãos também na tela. Vamos enfrentar meu pai juntos e fazer agora apenas o que quisermos. – ele olhou para ela e sorriu – Eu vou cobrar dele e vamos fazer os dois filmes sobre a SFL e vamos pagar essa sua dívida antes do fim do próximo ano.
– Como? – ela disse, intrigada.
– Com um filme que vai render 300 crore ou mais. E onde vamos fazer papel de irmãos. Pode ser? Eu vou forçar meu pai a admitir logo o roteiro do filme que eu e Tarble escrevemos e ele ainda escreveu outro, protagonizado por uma garota, vamos transformar tudo numa história só, em duas partes, dois filmes para arrebentar, um continuação do outro!
Ela riu e disse:
– Claro. Vou adorar ser sua irmã na tela. Melhor que te olhar com um ar meloso.
– Era um sacrifício para mim também!
– Eu não acredito que vocês dois estão tomando thum's up sem mim! – a voz de Tarble, quase gritada, soou na sala através das portas abertas e Chichi estendeu sua garrafa para ele dizendo:
– Pode tomar essa porcaria. Detesto isso.
Ele riu e pegou a garrafa dizendo:
– Então... qual o plano para irritar o pitah? Poor daddy, quando saí estava olhando perdido pela janela da produtora.
– Qualquer coisa que te envolva irrita ele – disse Vegeta, rindo.
– Então... vou estar no próximo filme! Uhu!
Tarble conseguiu, finalmente, arrancar uma gargalhada de Chichi, que levantou-se e abraçou o irmão mais novo, dizendo:
– Tenho um irmão adorável.
– E um detestável – completou Vegeta, rindo.
Os três se encararam. Irmãos de verdade, finalmente.
Notas:
1. Quando eu comecei essa história eu queria que Chichi e Vegeta fossem irmãos mas não queria o peso de uma traição apenas que fizesse os dois serem irmão. Por isso a trama nos leva a um Cutelo que não é santo e tem uma atitude perfeitamente admissível para um hinduísta tradicional dos anos 80, quando acontece a história.
2. Raaja, que todo mundo que lê a história odeia, não é tão monstruoso assim. Kyra não era tão absolutamente santa e Cutelo definitivamente, não era tão bonzinho. Mas no fim, os três sofreram.
3. A aliança entre Chichi, Tarble e Vegeta é definitiva. E vai trazer Goku para o centro da história, como veremos no próximo capítulo.
4. Kya hua tera vada é uma das músicas antigas de Bollywood que eu mais gosto, do filme Hum Kisise Kum Naheen (Somos menos que nada), um dos poucos que o adorado galã (para os nossos padrões ocidentais ele é feio) Rish Kapoor faz um vilão. A história gira em torno de diamantes perdidos e de um rapaz que não sabe que os diamantes estão escondidos em sua casa. O dono dos diamantes, para descobrir onde estão, se aproxima do amor de infância do tal rapaz e a engana, fazendo com que ela se iluda e deixe seu verdadeiro amor. O clímax do filme é justamente a música, logo antes da grande reviravolta final.
