Capítulo 22– Kajra re tere kare naina (Teus negros olhos contornados)

Lunch coçava a cabeça diante do laptop aberto em seu colo, eventualmente mordia os lábios nervosamente, ou soltava um murmúrio irritado. Tenshin, já se vestindo para ir acompanhar King Cutelo em um compromisso, perguntou:

– Por que tanto mau humor logo pela manhã, posso saber?

– Essa história de filme de luta... a Chichi não podia fazer mais uma mocinha? NÃO, ela tinha que querer ser uma lutadora – ela apontou para a tela, onde se via em tela cheia uma mulher que acabara de vencer uma luta. Ela tinha o cabelo todo trançado e o rosto congestionado e feio – como eu faço para isso parecer glamouroso e atraente?

Tenshin riu e disse:

– Talvez ela tenha cansado de ser glamourosa e atraente...

Lunch deu um suspiro cansado e então fez uma careta de náusea, correndo para o banheiro. Tenshin ficou olhando desconfiado e disse:

– É a terceira vez essa semana. Tem certeza que está tudo bem?

Ela se demorou um tempo e voltou, pálida. Então disse:

– Não sei. Deve ter sido alguma coisa que eu comi no Diwali.

– Foi há quinze dias! Não é possível. Você tem certeza que...

– Eu menstruei, Tenshin!

Ele olhou de perto a esposa, conferiu seus olhos, puxando a pálpebra inferior para baixo e disse:

– Você vai acabar anêmica. Vou te levar a um médico.

– Não precisa... eu tenho que me preparar para o teste de maquiagem em dois dias, discutir as possibilidades com a Chichi... – ela passou por ele e foi se vestir também. Tenshin não desistiu e disse:

– Eu sei que tem sido traumático e difícil – ele abriu a gaveta do armário do banheiro e pegou um teste de gravidez fechado. – Mas se tem certeza, porque comprou isso?

Ela deu um suspiro e disse:

– Comprei semana passada. Mas eu tinha menstruado... pouco, é verdade, mas você viu.

– Você disse que menstruou. Eu não sei se é possível que você esteja grávida, mas tem sintomas. – ele estendeu o teste para ela e disse – Faça.

Ela o encarou com uma expressão zangada. Ele a conhecia bem, lá no fundo ela tinha medo de ter uma nova decepção, mas ainda nutria uma certa esperança: o sangramento que tivera dois dias após o Diwali tinha sido muito diferente de seu fluxo normal, por isso ela comprara o teste. Junto com os enjoos podiam ser uma evidência, mas ela estava cansada de ter esperanças falsas. Ele sacudiu a cabeça de um jeito que ela aprendera a interpretar como "não seja teimosa" e ela pegou o teste da mão dele e se encaminhou para o banheiro.

Eles haviam feito aquilo mais vezes do que gostariam, então sempre costumavam agir da mesma forma. Tenshin apoiado na pia do banheiro e ela, como sempre, sentada no vaso, contemplando o pequeno visor do teste, dessa vez com menos expectativas do que das outras vezes. Uma linha azul tênue apareceu e ela ia suspirar resignada quando a sombra da segunda linha, que indicava positivo, começou a surgir.

Ela mirava incrédula a pequena janelinha, os olhos verdes arregalando-se à medida em que a fina linha azul se tornava mais nítida. Ela queria gritar, mas a única coisa que conseguiu foi olhar para o rosto do marido, que sorria para ela, radiante, um segundo antes de puxá-la para um abraço e um beijo longo antes de dizer:

– O que eu sempre digo para você?

– Nada acontece antes ou depois do tempo dos Deuses. – ela riu. – Não acredito que me converti para o hinduísmo. – ela se soltou dele para se arrumar e ele disse, numa seriedade fingida:

– Mas não dê conversa pra esse pessoal da Índia. Eles são muito supersticiosos! – ele disse e ela tornou a sorrir, beijando-o de leve.

Depois da reunião frustrada com Raaja e King após o Diwali, Vegeta, Chichi e Tarble tinham dado uma guinada de 180º e cancelado tudo que Raaja Vegeta havia planejado para o ano seguinte, sem a mínima sombra de oposição dele, que, pelo contrário, autorizou Vegeta a contratar todo esforço de pré-produção, inclusive uma assessoria profissional que transformou os dois roteiros que ele e Tarble haviam escrito em dois roteiros profissionais de primeira qualidade em apenas dois dias.

O resultado desse ambicioso esforço foi o projeto principal da Sadala Filmes para o ano seguinte: Dois filmes especialmente para a SFL, o primeiro, "SFL: Shakti!" (Força) seria protagonizado por Vegeta e o outro, "SFL: Anarkali" (nome da personagem principal) por Chichi e mais algumas participações dos dois em diversas outras produções que não exigiriam tanto quanto os dois filmes de luta.

Vegeta participariacomo coadjuvante num filme protagonizado por Hrikit Roshan e em um outro filme de romance fazendo o papel dele mesmo, o ator por quem a protagonista teria um crush. Chichi participaria como dançarina em diversos promos (vídeos de dança feitos com atores convidados para promover outros filmes) e faria uma participação especial dançando num filme protagonizado pelo medalhão Aamir Khan, além disso, faria um filme de romance médico quase todo em estúdio com gravações previstas para o começo do período da monção.

Seria um ano bastante produtivo e ocupado para ambos e os três primeiros meses uma corrida contra o tempo para gravar dois filmes praticamente ao mesmo tempo. A SFL tinha pressa, porque queria os filmes coincidindo com os grandes eventos de luta, por isso, todo esforço possível seria feito para nada atrasar o cronograma anormalmente apertado: em vez de um ano, os dois filmes seriam lançados em questão de poucos meses. Mas na primeira reunião com todo staff da Sadala pelo menos uma pessoa estava bastante frustrada por ter sido deixada de lado:

– Eu já disse que sou contra! – berrou Shallot, batendo na mesa.

Chichi encarou o namorado friamente e então disse:

– É contra o quê, exatamente?

– Bem... toda essa história de SFL... O Vegeta tranquilamente vai convencer como lutador... mas você, Chichi? Pretende mesmo arriscar toda sua carreira com esse filme idiota fazendo o papel de uma lutadora? Não basta participar do filme dele, tem que fazer uma bobagem dessas?

Chichi ia abrir a boca para argumentar quando Raaja disse

– Eu li o roteiro e achei ótimo o papel dela nos dois filmes. Acredito que vão ser filmes de sucesso.

– Nós já pagamos um preço bem alto pelas ideias dela no passado... – disse Shallot, de forma maldosa. – não me lembro de ser tão simpático às ideias dela antes de descobrir...

Raaja levantou-se e disse:

– Se continuar nessa linha, Shallot, vai se arrepender de ter começado. – A ameaça era velada, mas séria. Raaja Vegeta era um sujeito que poderia perfeitamente dispensar os serviços do produtor, mesmo com ele tendo participação no estúdio. Ele prosseguiu – você deve se lembrar que também tem alguns fracassos no currículo. E foi você quem escolheu o diretor que numa edição mutilou o roteiro que ela escolheu para "o filme fracassado", lembra? Seria bom assumir sua parte nas desgraças e não apenas nos sucessos.

Shallot calou-se. Não entraria em guerra com Raaja Vegeta. Na verdade, o problema dele com todo aquele projeto era sentir que Chichi afastava-se do modelo de atriz ideal que ele apreciava, sempre fazendo mocinhas românticas e doces. Que ela, quando criança, tivesse feito uma princesa que vivia aventuras, tudo bem. Mas o roteiro do filme o incomodava demais porque ele percebia que ela fazia uma mulher que estava mais preocupada em vencer o campeonato do que ter um romance. E o que mais o incomodava era justamente porque no filme a heroína largava o noivo que não a apoiava no sonho de lutar e acabava apaixonada por um lutador, cujo ator ainda não havia sido escolhido.

Chichi estava escapando dele, ele podia sentir. Primeiro tinha sido transformar o noivado em simples "compromisso", com a desculpa do mestrado. Mas ela trancara a matrícula do tal mestrado e se fizera de desentendida. E os dois mal haviam conversado depois da revelação de King Cutelo. Com a desculpa de "pensar" ela se afastara dele por duas semanas, e ele sentia que se não fosse o empréstimo que os dois teriam de honrar juntos, ela já teria terminado o romance dos dois. E ela não havia embolsado nenhum tostão dos fabulosos lucros de Saraswatee, apenas aplicara tudo e honrara com mais de 60% da sua parte no empréstimo.

Ele sentia que a pressa dela em pagar os investidores tinha a ver com o relacionamento dos dois, cada vez mais frio e distante. Não pareciam namorados, mas um casal casado por conveniência há anos, ele devia admitir. Mas ele era orgulhoso demais para perder Chichi. Ela era uma espécie de joia a que um grande herdeiro de Mumbai como ele acreditava ter direito de possuir. Não se importava muito se ela realmente o amava, achava que se ela fosse sua esposa, todo o resto se ajeitaria.

Chichi manifestou-se de repente, dizendo:

– Eu sei o risco que esse papel representa, e é exatamente o tipo do risco que eu quero correr. O roteiro é maravilhoso, o papel excelente. Eu quero um Filmfare na categoria principal, vocês todos sabem disso. E Vegeta merece um também, depois do primeiro como revelação ele não conseguiu mais nenhum, nem mesmo por "O dever de um soldado" onde ele era um dos favoritos,k e eu acho que já amadureceu como ator.

Vegeta sorriu sardonicamente olhando para Shallot. No fundo não simpatizava em nada com o namorado da sua recém descoberta irmã. A recente união dele com Chichi e Tarble e a súbita e inesperada adesão de seu pai haviam isolado o jovem produtor, que tinha a terrível mania de mudar as coisas a seu bel-prazer, sempre usando a desculpa de agradar os "investidores de Dubai", normalmente avalizado por Raaja. Vegeta sabia que os sujeitos botavam dinheiro em qualquer coisa que parecesse que daria lucro, não eram assim exigentes.

-Bem – disse enfim Shallot, contrariado – Não adianta discordar, pelo visto. Mas quero garantias para os investidores de Dubai.

– Minha casa em Juhu – disse Raaja – eu a coloco como garantia do investimento. Só para você saber, ela é avaliada em 24 milhões, não de Rúpias, mas de dólares.

Vegeta e Tarble olharam para o pai. Ele nunca havia apostado assim antes em nada na vida. Mesmo Chichi olhou para o homem, incrédula e até mesmo um pouco aborrecida.

– Eu creio – disse Shallot hesitante – que é uma boa garantia.

– Venha – chamou Raaja – vou preparar os documentos de garantia para entregar a turma do investimento. Vamos lucrar como nunca.

Os dois saíram e Tarble espalmou as mãos no rosto.

– Menina! O velho Raaja pirou mais que um adolescente tomando baang pela primeira vez no Holi! Meu poderoso Shiva!

– É para impressionar você – disse Vegeta para Chichi – ele quer conquistar a filha, sua pequena sitara (estrela).

– Perda de tempo – disse Chichi, irritada. – Não é meu pai e nunca será. Não importa o que faça.

– Sabemos disso – disse Vegeta, rindo – se pudesse não seria meu pai, mas não tenho essa opção. Mas precisamos discutir a preparação. Precisamos de consultores. A SFL me deu uma lista de lutadores e lutadoras que se dispõem a nos ajudar nos treinos. – ele passou a lista para Chichi – eu já escolhi o meu.

– Por nada desse mundo quero assessoria dessa tal de Caulifla – rosnou Chichi e Tarble e Vegeta riram ao mesmo tempo – não riam. Ela me odeia e eu a ela. Tem um nome desconhecido aqui... Helles. Quem é?

– Ela é nova. Estava na pré-seleção mas não participou do reality. Entrou para a SFL no lugar de uma de lá que foi flagrada no doping.

– Ótimo. Vai ser minha consultora. – Chichi olhou para Vegeta e perguntou – e o seu, quem vai ser?

– Está assinalado aí no papel, peçonhenta... – ela olhou melhor o papel e viu o nome "Son Goku" sublinhado e Vegeta completou – mas como ele é irmão de Bulma eu o chamo pelo nome que ela sempre se referiu a ele: Kakarotto.

Vegeta sorriu de lado e Chichi olhou para ele atônita. Não acreditava que ele estava trazendo Goku para a produção. Mas não iria reclamar.

Dois dias depois, num trailer ao lado de um dos grandes estúdios da Sadala Produções, Lunch finalizava a produção que havia imaginado da caracterização da lutadora Anarkali para o primeiro teste de câmera. Ela virou Chichi para o espelho e perguntou, apreensiva:

– Que tal?

Chichi mirou a mulher que a contemplava no espelho, chocada. Não estava lá o clareamento forçado típico das maquiagens de Bollywood, mas sim o seu tom de pele natural, com os contornos do rosto sombreados de forma que ela percebia que luzes e sombras seriam reforçados, dando um efeito dramático. Seus longos cabelos haviam sido trançados junto ao crânio no modo africano, exatamente como os de uma lutadora profissional de MMA, em pequenos caminhos que se juntavam numa longa trança que, em vez de descer pelo meio de suas costas, era presa num coque elaborado. Mas era nos olhos a maior transformação em Chichi.

Sempre usara maquiagens que realçavam a beleza e a delicadeza de seus traços, mas, para a lutadora, Lunch carregara nas tintas e no contorno preto dos seus olhos e o resultado era a aparência forte que poderia ser comparado ao de Deusas guerreiras como Kali e Durga. O preto dos olhos dela era realçado pelo contorno delineado e sombrio e o resultado de toda produção era uma aparência quase feroz. Anarkali era o nome da lendária dançarina, amor impossível do príncipe Jahangir posteriormente condenada à morte por encarceramento, uma lenda contada no famoso filme Mughal-e-Azem (O dever do rei).

Tinha sido Chichi que escolhera esse nome para a personagem, justamente por amar a atuação da atriz Madhubala, com quem sua mãe havia sido comparada inúmeras vezes, no filme que contava a triste história da dançarina condenada. Mas ela queria dar ao nome Anarkali um novo significado: no lugar de uma mulher que se dispõe a morrer no lugar do amado, como no filme, alguém que luta ferozmente, que renuncia a um amor que não se dispõe a estar ao seu lado. Lentamente, Chichi sorriu e então se voltou para Lunch e disse:

– É perfeito! – ela abraçou a maquiadora pela primeira vez desde que descobrira a verdade sobre Lunch saber o paradeiro de Goku sete anos antes. Lunch, que era grata a ela de inúmeras maneiras sentiu-se confiante então para dizer:

– Eu estou grávida, Chichi!

Chichi deu um grito de felicidade. Não podia acreditar! Ela sorriu e abraçou Lunch novamente dizendo:

– Estou tão feliz por você! – Quando descobriu? Quanto tempo?

– Há dois dias – disse Lunch, timidamente – e ontem confirmei numa consulta médica, com o exame de sangue... oito semanas – ela sorriu.

– Bem... vamos ter que ver o cronograma, não queremos te cansar e...

– Chichi... – Lunch disse olhando para ela – por favor, volte a confiar em mim!

Chichi parou um instante e olhou para a maquiadora. Havia um ar de urgência no rosto dela, como se ela precisasse também da amizade de Chichi. Só então Chichi percebeu que havia realmente pensado apenas, sempre, em Lunch como alguém que ela precisava... e nunca se lembrara que ela era também a melhor amiga da maquiadora, que se mudara e fizera uma nova vida num país completamente diferente.

– Eu nunca deixei de confiar... disse Chichi. Mas é que eu... acho que perdi a esperança de ser realmente feliz no amor. Quando eu conheci Shallot eu achava...

– Que com o tempo, que com a proximidade, aquele relacionamento agradável, porém morno, poderia se tornar um grande amor... eu me lembro.

– E agora eu já tenho certeza de que ele não é o homem certo para mim, mas não consigo me desvencilhar dele. E quanto mais eu quero terminar parece que mais ele se fecha em torno de mim, como correntes.

Lunch olhou para Chichi. Os olhos negros, sempre tão confiantes estavam baços e tristes. Havia mais, ela sabia. Havia o fato de que agora o tal Son Goku não era mais uma fantasia de adolescente: era alguém próximo, que a atraía como um ímã atrai o metal. Ela lembrou-se das palavras do marido e as repetiu:

– Nada acontece nem antes nem depois do tempo dos Deuses, Chichi... e isso não é uma frase vazia de guru de TV. Eu vi acontecer comigo – ela acariciou docemente o ventre e disse – mas seja a sua própria Anarkali. Lute pelo que quer. Você vai conseguir. Agora vamos colocar o seu figurino e vamos ao teste de câmera, ok?

– Certo – disse Chichi, resignada.

O figurino para o teste de câmera chegara pouco antes, enviado por uma das patrocinadoras da SFL: Um top rosa vibrante com um short da mesma cor, os dois com detalhes em azul royal. Ela vestiu o figurino sem roupas de baixo e se olhou no espelho. Nunca vestira nada tão revelador. Mesmo em cenas de praia, ela jamais usara apenas um bikini, por exemplo, sempre havia uma saia ou um short largo. O figurino ajustava-se ao seu corpo esguio e curvo, mas achatava um pouco os seios e ela disse:

– O top aperta!

– Você não faz o mesmo tipo de exercício que as lutadoras – disse Lunch enquanto espalhava um spray sobre a pele de Chichi que tinha o objetivo de realçar seus músculos, realçando luzes e sombras durante o teste de câmera – elas costumam ter seios menores.

Ela sentiu-se insegura. A quem ia querer enganar? Ela não era musculosa como a tal Caulifla, por exemplo, embora seus vigorosos movimentos de dança tivessem tornado seus músculos tonificados como os de uma atleta. Lunch pareceu entender seus temores e disse:

– Quando começarmos a gravar você vai ver que os âgulos vão te fazer parecer forte na medida certa. O público vai se apaixonar pela Anarkali, mesmo que você não se sinta tão linda ao olhar-se no espelho com isso – ela deu a Chichi o incômodo protetor labial dizendo – use-o só durante o teste, esse protetor deixa o rosto horrível... Vamos logo para o estúdio.

Um instante antes de Chichi deixar o trailer, deu uma última olhada no seu corpo diante do espelho. Queria colocar um roupão, mas Lunch disse que isso estragaria a maquiagem corporal e ela, mesmo se sentindo um pouco exposta, deixou o trailer junto com a maquiadora.

Enquanto isso, Vegeta vinha com Heles e Goku, que haviam sido escolhidos por Chichi e ele para prepara-los para agirem e lutarem como profissionais durante as filmagens. Vegeta não gostara imediatamente de Goku, achando-o um idiota, e Goku não gostara nada de Vegeta também, talvez um pouco por ciúmes ao pensar nele ao lado de Chichi sempre como par romântico. Ele era um homem solteiro... seria apaixonado por ela?

Mas a conversa entre eles estava civilizada até que Vegeta o chamou de Kakarotto.

– Meu nome é Son Goku – disse Goku, irritado.

– Ah, eu sei... mas depois de anos convivendo com Bulma o chamando de Kakarotto...

– Nem mesmo ela me chama mais assim – cortou Goku – só minha mãe e meu irmão Raditz ainda usam esse nome.

– É mesmo? – perguntou Vegeta, sarcástico. – Então, seremos três agora, sua mãe, seu irmão e eu, Kakarotto.

Goku não disse nada, apenas encarou o outro, um pouco irritado. Não queria brigar, não queria estragar a oportunidade de estar, pelo menos por algum tempo, perto de Chichi. Tinha sido por isso que ele tinha posto seu nome na lista de "interessados em dar consultoria aos Estúdios Sadala", e, para sua decepção, já tinha perdido uma hora e meia de treino e não a havia visto. Heles perguntou, cortando o clima ruim entre eles:

– Quando conhecerei Chichi?

– Ah, ela tem um teste de câmera hoje. Podemos ir até o estúdio onde ela está fazendo o teste.

Eles foram andando e Goku sentiu-se um pouco nervoso. E se aquele noivo irritante dela estivesse por perto? Ele não estava em posição de exigir nada de Chichi, mas não queria olhar novamente para o sujeito que o ofendera cada vez que o vira. Porque ela ainda estava com ele? Não conseguia entender, mas ele não era muito melhor, preso a Caulifla por compromissos que ele sequer entendera quando os havia assumido. Logo pararam diante da porta de um estúdio e Vegeta disse:

– Podemos entrar para ver o teste... – apontou a sinaleira luminosa apagada ao lado da porta – ainda estão nos ajustes...

Os três entraram no lugar e a diferença de temperatura foi brutal. O estúdio tinha um ar condicionado fortíssimo para preservar os equipamentos contra o clima quente e úmido de Mumbai. Goku viu a movimentação adiante, onde, ante um fundo verde, algumas pessoas preparavam-se para gravar. Ele não viu Chichi imediatamente e então, seus olhos passaram a percorrer o estúdio, olhando o teto cheio de refletores e cabos, as paredes cheias de sinalizações que ele não compreendia e todos os equipamentos de filmagem e iluminação, a maioria de função completamente desconhecida para ele. De repente, uma grua com uma câmera em sua ponta chamou sua atenção, ao comando do diretor, o operador aproximava e afastava a grua do centro do estúdio, e Vegeta ia falando sobre o filme, mais para Helles, que prestava atenção, do que para ele, que insistia em seguir o movimento da grua com os olhos:

– Não é ainda uma filmagem. Eu fiz isso ontem, usamos a maquiagem, o figurino e o diretor aprecia o contraste para determinar qual vai ser o tipo de luz e filtro ideais para conseguir um bom resultado... o fundo verde é eliminado e depois inserimos um tipo de cenário que poderemos usar, paisagens, para externos ou coisas diferentes, como a cena que Chichi está gravando ali, por exemplo: ele vai inserir algo que simule o octógono e a plateia, já que ela está com o figurino de luta...

Ao ouvir o nome de Chichi, Goku desviou a atenção da grua por um instante e procurou por ela no estúdio, olhando no entorno da cena. Nesse momento, o diretor deu o comando de "preparar gravação" e as pessoas no centro do estúdio se afastaram e ele viu que havia uma mulher com roupas típicas das lutadoras de MMA no centro, e de repente, ele finalmente reconheceu Chichi. Passara os olhos por ela diversas vezes, mas só então realmente a enxergou.

E seus olhos não conseguiram mais se desviar dela: o corpo, normalmente envolvido em sáris ou roupas menos reveladoras, agora podia ser visto, e o resultado era entorpecedor para ele... subitamente, Goku percebeu que tinha os primeiros pensamentos com ela que não eram simplesmente aquela idealização dos dois dançando e no fim se beijando: ele queria mais que isso. Ele finalmente percebeu o quanto desejava Chichi.

Ele então se viu encarando-a, e aqueles olhos intensamente contornados de preto que ela usava agora pareciam querer, mais que nunca, seduzi-lo, porque ela o encarava de volta. Na verdade, o encarava, quase achando graça do ar inocente dele olhando tudo pelo estúdio como uma criança, desde que ele entrara ali e ela o percebera, afinal ela sabia que ele viria com Vegeta e esperava por aquele momento. Um instante antes dos olhares se encontrarem, ela viu a transformação no olhar de Goku quando ele percebeu as curvas e contornos do seu corpo revelados naquele traje, e sentiu que o desejava da mesma forma que ele a ela.

Por um longo instante os dois se olharam com intenso desejo, então, o diretor disse "gravando" e a mágica se desfez. Goku arregalou os olhos e balançou a cabeça, sem jeito, e passou a tentar ver a gravação como um simples expectador, tentando não imaginar coisas ao ver Chichi fazendo movimentos de chutes e socos no centro do estúdio com a graciosidade de uma corça. Ele não conseguia parar de imaginar os dois numa cama, os corpos se unindo dando vazão àquele desejo.

No silêncio do estúdio, os gritos de Chichi ecoavam, ela agia conforme o diretor a instruíra para avaliar expressões, movimentos e gestos. Quando acabou a primeira tomada, Vegeta perguntou a Helles:

– O que achou dela?

– Vai precisar aprender algumas coisas, mas é muito promissora – a lutadora sorriu – no fundo lutar e dançar não são coisas tão diferentes assim e ela é uma ótima dançarina, não?

– Ela é perfeita – interrompeu Goku, ainda hipnotizado pela garota, que, cessada a primeira tomada agora o olhava enquanto bebia água de um squeeze – ela é nada menos que perfeita. – ele repetiu.

Vegeta olhou para ele, então para Chichi e sorriu de lado... ele podia achar Kakarotto um idiota. Mas de alguma forma, sabia que ele e a irmã se queriam profundamente. E naquele instante, ele pensou que poderia dar uma mãozinha para eles ficarem juntos.

Notas:

1. Finalmente temos a Lunch esperando o bebê que ela sempre quis! E isso a aproxima novamente de Chichi.

2. Raaja mudou? O que vocês acham? Descobrir uma filha da mulher que ele sempre amou tantos anos depois pode mudar alguma coisa na sua personalidade ou isso é apenas uma estratégia? Lembrem-se do que ele pôs em jogo.

3. Shallot vai se tornando cada vez mais um peso para Chichi. Como será que ela vai conseguir aturá-lo até ter todo dinheiro para pagar a dívida?

4. E como ela e Goku vão conseguir descobrir que os dois tem problemas na sua vida que são empecilhos para a sua felicidade? Terão a ajuda de Vegeta?

5. Mas Vegeta e Goku não se bicaram de imediato. Será que vão ficar para sempre assim ou vão chegar a um bom termo?

6. Kajra re é uma música do filme Bunty Aur Babli (Bunty e Bably), que é a história de um casal que foge de casa, se conhece e depois começa a dar golpes hilariantes, como tentar vender o Taj Mahal. Foi um filme de muito sucesso em 2005 e a música ficou conhecida no Brasil por causa da trilha sonora da Novela "Caminho das Índias". A curiosidade sobre esse clip: Ayshraya Ray, uma grande estrela na época, faz uma participação especial apenas nessa parte do filme e passa o tempo todo flertando com Amithab Bacchan (pai) e rejeitando Abischek Bacchan(filho), que em 2007 acabou casando com ela. Hoje é engraçado vê-la flertando com o sogro e rejeitando o próprio marido, mas na época eles não tinham ainda um relacionamento, que só começaria um ano depois durante as filmagens de Dhoom 2.