Capítulo 24 – Suraj hua maddham (O sol desceu no horizonte)
Para Shallot, em Dubai, eram onze e meia da noite e a diversão estava apenas começando. Ele estava no palacete do príncipe Janemba, sheik de um pequeno emirado árabe que também tinha residência ali em Dubai, numa festa magnífica que acabaria apenas no dia seguinte. Ele adorava a temporada anual em Dubai, porque o permitia sair da rotina em todos os sentidos, inclusive sexual.
Os negócios de sua família não incluíam apenas cinema, aliás, essa era a menor parte. Os milionários Khan eram mega operadores de negócios de distribuição de combustíveis e todos os anos Shallot e seus irmãos se revezavam nas rodadas de negociação do óleo cru que seria refinado na Índia. Era quando ele aproveitava para conseguir financiamento para os filmes. Financiar "Anarkali" tinha sido facílimo. As imagens iniciais do filme com Chichi em roupas de luta haviam enlouquecido os príncipes.
Mas depois dos negócios, sempre vinha o prazer. Os príncipes davam festas suntuosas, com mulheres lindas vindas de todas as partes do mundo, mas ele preferia as americanas, como as que ele conversava naquele momento, uma ruiva e uma loura, ambas lindíssimas. Sabia que seria fácil levar as duas para um quarto, até mesmo juntas: o palacete tinha mais de 40 e o dono não esperava que seus convidados agissem de forma diferente. Quando as festas de negócios começavam, as esposas e filhos dos anfitriões eram levadas para os luxuosos resorts da orla, e os homens, fossem casados ou solteiros, ficavam livres para "entreter-se", com mulheres e também com"substâncias proibidas" como diziam os príncipes. Essas substâncias iam desde o álcool, consumido escondido por ser vetado e proibido pela religião até outras substâncias proibidas não apenas em Dubai mas em outros lugares do mundo, como Cocaína, Heroína e Ecstasy.
Shallot adorava poder, pelo menos por um tempo, aproveitar tudo que lhe era negado na Índia e era isso que fazia, no meio das duas garotas, quando seu celular tocou. Ele viu o nome de Chichi no visor e considerou atender ou não. Em Mumbai seriam quase duas da manhã, não era normal que ela ligasse. Ele pediu desculpas e atendeu.
– Chichi? – ele perguntou, curioso. Chichi não era do tipo romântico que ligava apenas para dizer boa noite para ele, ainda mais àquela hora.
– Shallot, meu pai teve um infarto há três horas. Vim com ele para o hospital Saifee...
– Ele está bem?
– Não. Ele morreu.
Shallot não sabia o que dizer. Aquilo era um choque, mas, ainda assim, ele teve um momento de confusão e perguntou:
– Bem... qual dos seus dois... pais?
Houve um instante de silêncio do outro lado da linha e Chichi então disse:
– O único que eu considerava pai.
– Oh... eu... bem, precisa da minha ajuda para algo?
– A cremação é depois de amanhã, ao amanhecer.
– Bem... eu preciso conseguir um voo, mas com certeza vou estar aí.
– Certo. Te avisei para que não soubesse pela mídia. Já tem repórteres na porta do hospital. Ainda não anunciei publicamente.
– Quer me esperar para fazer isso?
– Não. Vegeta vai me ajudar. Até amanhã.
– Até amanhã.
Ela desligou e ele praguejou em hindi. Como o velho morria bem numa sexta-feira? Ele perderia todo fim de semana de diversão, as garotas e tudo mais que ele gostava tanto. Esperava que Chichi não quisesse que ele ficasse os dez dias do luto fechado em Mumbai. Tinha assuntos a resolver na semana seguinte. Dirigiu-se ao anfitrião, para despedir-se, mesmo sabendo que aquilo era algo extremamente malvisto pelos príncipes ricos dos Emirados.
– Shallot! – disse o príncipe Janemba, quando ele se aproximou. – Algo não está do seu agrado? A comida, a bebida... as mulheres? Oh, sim, claro... nenhuma delas se compara à sua maravilhosa noiva... mas são uma bela distração. Não são?
O homem era um dos que claramente tinha um olhar perverso quando via Chichi, mas Shallot não ligava. Isso normalmente rendia alguns Laks (milhões de Rúpias) para investir nos filmes dela. Chichi, no entanto, não o suportava. Uma vez ele contara a ela, rindo, que Osama Bin Laden tivera, no passado, um plano para sequestrar a cantora Witney Houston e maliciosamente dissera que "se fosse um terrorista, coisa que ele achava abominável, com certeza faria um plano para sequestra-la. Mas não ficaria apenas no plano. ouve
– Majestade... houve um contratempo e...
– Não aceito desculpas para deixar minha festa agora, oh, não! – o homem consultou um rolex, vistosamente, como era seu estilo e disse – não é nem meia-noite!
– Bem, senhor, o problema é que é um caso de vida ou morte... o pai de minha noiva acabou de falecer.
– Oh, não! Mas que lástima, por Allah. Pena que era um hindu. Sabemos o destino desses idólatra mas precisa ir para Mumbai?
– Sim, e preciso conseguir um voo, a cremação é depois de amanhã...
– Não precisa conseguir um voo! Eu te mando no meu jato! Mas não assim, às pressas. Fique, fique, divirta-se e amanhã à tarde, ou à noitinha no máximo, te mandamos para Mumbai.
Shallot sorriu e agradeceu. Era ótimo não perder a diversão.
Chichi desligou o telefone. Ela estava no quarto para onde seu pai teria sido trazido caso tivesse sobrevivido. Vegeta e Goku estavam conversando com os médicos sobre a presença do lutador no hospital, pedindo discrição. Vegeta havia aconselhado Chichi a ligar para Shallot, mas ela esperara até estar sozinha para fazê-lo. Não queria constranger Goku.
Ele havia entrado pelos fundos do hospital, enquanto Vegeta chamava atenção chegando pela frente. A entrevista depois da luta tinha sido curta, não deram muita atenção a ele porque tinha sido uma luta fácil, ao contrário da luta seguinte, que tinha sido um combate feroz que acabara com o campeão Broly derrotado pelo soturno e calado Jiren, lutador que não havia se destacado tanto na temporada do SFL Fight Show, mas se qualificara para derrubar o campeão e conseguir o cinturão. Com os holofotes todos sobre o novo campeão, Goku conseguiu sair discretamente e ir para o hospital, depois de avisar Raditz para dizer que ele estava cansado e por isso evitaria a festa da vitória.
Chichi correu para os seus braços quando o viu, e em meio a um longo e apertado abraço ela chorou copiosamente. Sentia-se desamparada, sozinha. Foi preciso que Vegeta surgisse e arrastasse os dois para o quarto dizendo:
– Não façam isso em público! Vão arruinar a imagem dos dois se algum médico for indiscreto.
Os dois entraram no quarto de repente e ela disse:
– Falei com Shallot. Ele vem. – ela e Goku se entreolharam e ela completou – preferia que ele ficasse em Dubai. Não aguento mais essa situação.
Goku a abraçou e Vegeta disse, de modo prático:
– Infelizmente, Kakatotto, você não deve ir à cremação. Já acertei os detalhes, Chichi. Você não precisa se preocupar... O Antima Saskar (rito funerário) será no crematório Shivaji.
– Vegeta... – ela disse, e olhou para Goku – só me restaram agora você e o Tarble. Acha que vão achar muito estranho se você comandar a cerimônia? Não quero que Shallot faça isso.
Goku olhava de um para o outro estranhando porque Chichi pedia que Vegeta, que não era seu parente, conduzisse o funeral. Então Vegeta percebeu e disse:
– Não acha que é hora de Kakarotto saber o nosso segredo?
Ela sacudiu a cabeça, incapaz de contar, e Vegeta esclareceu:
– Somos irmãos biológicos. Por parte de pai. Mas descobrimos isso apenas agora, há algumas semanas. E ela tem uma certa dificuldade em aceitar o velho canalha Raaja Vegeta como pai. Não a culpo, eu não o aceito como pai há quase 27 anos...
– Eu pediria a você para ser o líder da cremação, já que a religião me impede porque sou mulher – ela disse a Goku – mas enquanto perdurar esse segredo...
Ele pegou o rosto dela entre as mãos e disse, suavemente:
– Só quero que você saiba, Chichi, que mesmo que eu não possa estar presente, vou estar lá contigo.
Ela olhou para ele e deu um sorriso, entre as lágrimas. E finalmente sentiu-se menos só.
O dia seguinte foi tumultuado, com ela fugindo de entrevistas e refugiando-se de todos da melhor forma possível. Shallot chegou e ela só queria evitá-lo. Ele não parecia especialmente à vontade, mas tomou o desejo dela que Vegeta conduzisse a cerimônia com certo alívio. Como muçulmano, não se sentia nunca muito à vontade nos ritos hindus.
O crematório Shivaji ficava próximo ao tradicional ponto de cremação de Chaityabhoomi, próximo à orla da praia de Dadar, mas era um local onde se podia fazer a cerimônia de forma mais discreta, ainda que não tão tradicional. Ao invés de uma pira funerária alta de toras de sândalo e bambu, o corpo de King Cutelo foi levado para uma câmara elétrica de cremação, mas os ritos, as leituras e a preparação do corpo foram feitas da forma tradicional. Chichi era a pessoa mais próxima a Vegeta, que era o único autorizado a tocar no corpo, que, na tradição hindu, se tornava impuro após a morte.
Ele leu os trechos apropriados dos Vedas e conduziu os mantras e, no fim, acionou a alavanca que liberava fumaça do crematório para o céu, o equivalente ao antigo e tradicional ritual de quebrar o crânio do falecido no meio da cremação para liberar o espírito. No fim, os rituais foram concluídos e os administradores do crematório disseram a Chichi que as cinzas de seu pai estariam disponíveis para ela em algumas horas.
Ela se dispôs a esperar, o que visivelmente contrariou Shallot. Ele havia ficado à parte da cerimônia durante todo período dos ritos. Desde que chegara, na véspera, eles haviam conversado muito pouco. Não era considerado apropriado nem mesmo para um esposo estar muito próximo de uma mulher enlutada, o que tinha sido um alívio para Shallot. Ele não saberia o que dizer para consolar Chichi. Haviam dormido cada um em sua casa, e deveria ser assim por pelo menos dez dias. Mas ele não esperava passar os próximos dez dias ali, ainda havia muito a fazer em Dubai.
– O que você pretende fazer com isso? – ele perguntou, assim que o funcionário trouxe a urna dourada, ainda morna, que continha as cinzas de King Cutelo. Vegeta havia se prontificado a esperar junto com ele e Chichi até que os funcionários terminassem de resfriar e refinar os restos, mas, mesmo sendo um hindu não muito praticante achou aquele comentário grosseiro e disse:
– São as cinzas de um homem, de um bom pai. Tenha respeito, Shallot.
– Eu sei, eu sei – o outro resmungou – não estou tão familiarizado com seus ritos... quanto tempo você precisa até...
Chichi, até então calada, olhou para ele. O conhecia o suficiente para saber que ele estava ansioso para se livrar dos ritos e voltar a Dubai, para seus negócios e seus abomináveis amigos, os príncipes. Ela sabia o que queria, e, na verdade, quanto mais distante ele estivesse naquele momento triste para ela, melhor.
– Eu preparei um lugar para as cinzas no apartamento, como o costume. Em dez dias terei o dia da lembrança do meu pai, e, no dia seguinte, vou pegar nosso avião e levar as cinzas dele para Varanasi. Na volta darei uma refeição para mil pobres em seu nome. Graças aos Deuses, tudo isso poderei conduzir sozinha. A religião não obriga que esses ritos sejam conduzidos por homens.
– Dez dias? – perguntou Shallot, um pouco irritado. – eu posso ficar esse tempo, mas...
– Pode voltar a Dubai – ela disse, friamente – você disse que ficaria mais cinco semanas por lá, não foi isso?
– Eu... bem, se é assim...
– É assim. Não se prenda por mim.
Eles saíram do crematório. Vegeta conversando com Shallot para deixar Chichi livre acabou distraindo-o, mas Chichi, ao olhar em volta, na direção do grande monumento de Chatyaboomi, viu uma pessoa que ela reconheceria em qualquer lugar. Ele usava um conjunto de corrida claro e um capuz cobria seus cabelos, o que ajudava a deixá-lo incógnito. Ele usava óculos escuros, que baixou por um instante quando olhou na direção dela, apenas para que ela, e somente ela, soubesse que ele estava lá.
E, pela segunda vez desde a morte de seu pai, seu coração aqueceu-se e ela se sentiu menos só.
Nos dez dias seguintes, Chichi ficou em casa, resguardando o luto, como a tradição hindu. Tarble fez companhia e agiu como um autêntico irmão, mas Vegeta, comprometido com o cronograma de filmagens, apenas aparecia à noite. Com o prédio cercado de repórteres que queriam ver quem a visitaria durante o luto, Goku podia apenas falar com ela pelo telefone. Sua presença no hospital acabou sendo descoberta, mas, para sorte de ambos, a especulação era de que ele havia se machucado na luta, não houve associação entre os dois.
Chegou o dia do almoço de lembrança por King Cutelo, no décimo dia após sua morte, e Chichi optou por fazê-lo no estúdio Sadala, estendendo aos técnicos e funcionários do estúdio. Ela acabou sabendo de histórias sobre seu pai, algumas acontecidas muitos anos antes, que encheram seu coração de orgulho. Tenshinhan, segurança pessoal da família e da família Vegeta, revelou que ele, havia dois anos, escoltava secretamente King às visitas a um médico cardiologista porque descobrira que estava com o coração muito grande.
– Na última vez ele me disse que sentia que seu tempo estava acabando, mas me pediu segredo, e eu obedeci. Hoje vejo, senhorita Chichi, que ele teve essa atitude para preservá-la. Para que não se preocupasse durante a preparação do filme, que ele me disse que seria o seu maior orgulho.
Chichi sorriu. Como era triste a mania dos homens de preservar esposas e filhas de preocupação e sofrimento. Ela pensava nisso quando Raaja Vegeta tomou a frente e disse:
– Ao longo da minha vida eu admirei e invejei King inúmeras vezes... ele teve coisas que eu cobicei, e os deuses sabem quantas vezes eu devo pedir perdão por isso... Nós dois tínhamos esse jogo de raiva e inveja... mas há alguns anos, depois da morte de Kira, nós nos unimos... porque queríamos dar o melhor futuro possível a você, Chichi... – ele olhou para Chichi, que se esforçou para não fechar a cara – e cabe a mim agora assumir o papel dele como seu pai, mesmo que eu não seja pai de fato, porque ele, antes de morrer, me confiou essa missão na última conversa que tivemos. E eu prometo que cumprirei esse papel exatamente como ele cumpriria – ele disse e seu olhar suavizou-se – sem forçá-la a nada e sem prendê-la numa gaiola. Você, como sua mãe, é um pássaro e não pode ser impedida por ninguém de voar!
Aquilo surpreendeu Chichi mais que tudo. E pela primeira vez em sua vida ela sorriu para Raaja Vegeta e não era um simples sorriso educado ou protocolar. O seu pai biológico finalmente dizia algo que, ao invés de irritá-la, a enternecia.
– Eu quero uma passagem para o próximo vôo para Varanasi, por favor.
– Em nome de quem? – a mulher no balcão sorria para ele, era óbvio que o reconhecia, apesar dos óculos escuros. Ele sorriu e disse:
– Kakarotto Sayajin.
A mulher o encarou com estranheza e ele baixou os óculos escuros e disse:
– É que nem em um filme, sabe, quando um homem tem outro idêntico a ele... Vivem me confundindo com o tal do Goku... – Goku riu, passando seu cartão de crédito com seu nome verdadeiro para a moça do balcão, que disse:
– O próximo vôo é em uma hora, posso já fazer o check-in para o senhor.
– Perfeito! – ele disse e olhou para o relógio.
Goku havia cancelado todos os compromissos naquele dia, os treinos, uma sessão de fotos e o treino com Vegeta. Chichi, na véspera, tinha dito a ele que iria a Varanasi para o último ritual do Antyesti (funeral) do seu pai: a aspersão das cinzas na escadaria sagrada de Dashashwamedh, o mesmo lugar onde, quase 15 anos antes, o pai dela havia aspergido as cinzas de sua mãe. Conforme a vontade expressa de seu pai, suas cinzas deveriam ser derramadas no Rio Ganges ao pôr do sol.
Goku sabia que a aspersão era uma cerimônia íntima, que Chichi deveria fazê-la sozinha, mas, ao mesmo tempo, sabia que não era fácil terminar a despedida de um ente querido, então, decidira ir de surpresa até lá. Com duas horas de vôo e mais quarenta minutos de deslocamento mais ou menos do aeroporto até a escadaria sagrada, ele sabia que chegaria a tempo de confortar Chichi. E isso era o mais importante.
Sorriu para a moça do balcão e pegou a passagem. Não tinha certeza de como voltaria de Varanasi, mas sabia que era onde queria estar.
O sol se punha lentamente quando Chichi desceu sozinha a escadaria que levava ao Rio Ganges. Barcos com oferendas cruzavam o rio e outras pessoas aspergiam as cinzas de seus familiares no rio sagrado. Ela tirou as sandálias, estava usando um sári de algodão cru, sem maquiagem, com os cabelos soltos, sem joias e quase irreconhecível. Era o último dia em que ela poderia chorar a morte do seu pai, segundo a tradição. E era o que ela fazia naquele momento.
Ela chegou ao último degrau e, descalça, deixou as águas do Ganges molharem seus pés antes de abrir a urna dourada e, lentamente, verter as cinzas nas águas sagradas. Nenhum indiano se importava com o fato de o Ganges ser o rio mais poluído do mundo: suas águas desciam do Himalaia e cortavam o Norte da Índia até Bangladesh e ali, em Varanasi, terra natal de sua mãe, havia uma curva que era considerado um dos pontos mais sagrados pelas religiões Hindu e Sikh. A casa da Deusa Ganga, cultuada desde tempos imemoriais, quando os ribeirinhos começaram a tirar seu sustento daquele rio enorme, um dos maiores do mundo que irrigava plantações de arroz, chá e sorgo ao longo de toda sua extensão havia milhares de anos.
Quando terminou, Chichi jogou também a urna dourada longe, na parte mais funda, e, com os olhos tomados de lágrimas, sentiu-se só como jamais se sentira. Ela tinha vindo de Mumbai pela manhã e deveria partir naquela mesma noite no seu pequeno jato particular. Um carro alugado com motorista a aguardava fora da entrada do templo que levava à escadaria. Ela tinha vindo sozinha até ali e planejava voltar para Mumbai ainda naquela noite.
O dourado do sol poente refletido nas águas do rio a fizeram sentir com o coração apertado, e ela deu vazão às lágrimas, finalmente. Não importava se ele não era seu pai biológico. Nunca importaria. Ele a havia amado como filha antes mesmo dela nascer, mesmo sendo filha do seu maior rival. E isso não tinha comparação com nada. Ela orou silenciosamente pedindo que Brahma acolhesse seu pai e o fizesse reencontrar sua mãe em uma nova encarnação, onde pudessem se amar sem obstáculos ou vaidade.
E foi quando sentiu que era observada e virou-se, assustada. Não conseguiu disfarçar a expressão de surpresa ao ver, dois degraus acima dela, todo vestido de branco como era recomendado num funeral indiano, Goku. Ele abriu os braços para ela, em silêncio, e ela subiu os degraus e o abraçou, sentindo-se acolhida e amada por ele.
– Você veio... – ela sussurrou, em meio aos soluços – seu maluco!
– Nunca te deixaria sozinha agora, Chichi... peguei um avião e fiz o que meu coração mandava. Uma vez ao menos eu consegui... por você.
Ela deu um suspiro profundo e, finalmente, parou de chorar. Os dois subiram as escadas de mãos dadas, como um casal cujo amor havia sido consagrado por Krishna no reino das águas consagradas pela Deusa Ganga.
– Você volta no meu avião – disse Chichi, aconchegada a ele no banco de trás do carro que os conduzia de volta ao aeroporto – basta que eu ponha o seu nome como passageiro no plano de voo.
– Que alívio – ele riu – não fazia ideia de como voltar a Mumbai ainda hoje. Não sabia se ia achar um voo.
– Mas temos que embarcar separados. Não podemos ser vistos juntos no aeroporto.
– Odeio essa situação – disse ele.
– Não menos do que eu odeio – ela disse, e ele acariciou suavemente os cabelos dela. Chichi fechou os olhos e relaxou. Nunca tinha se sentido assim, à vontade, com nenhum outro namorado, muito menos com Shallot. Goku parecia ter sido feito para ela e ela para ele. Juntos podiam ficar em silêncio e em paz, e ela se sentira assim com ele desde a primeira vez que o vira.
Chegaram ao aeroporto e Goku desceu no embarque internacional e ela no doméstico. Ela foi até o balcão de registro de voos particulares e colocou o nome Kakaroto Sayajin no plano de voo e emitiu um cartão de embarque que ele pegou, minutos depois, quando ela já estava embarcada no seu jato Bombardier Challenger, um avião de pequeno porte com luxo de primeira classe, que ela usara muitas vezes em turnês promocionais de filmes.
Oolong, que a havia acompanhado na viagem mas ficara na sala Vip do aeroporto o tempo todo, estranhou ao ver o rapaz embarcar, mas se manteve discreto. Os dois entraram e Chichi o conduziu diretamente à sua cabine particular, no fim do avião. Sentaram-se lado a lado e Goku começou a contar histórias engraçadas da sua vida para entretê-la: idas ao cinema ainda adolescente para ver seus filmes, calotes nos pequenos cinemas periféricos, coisas engraçadas que haviam acontecido quando ele era um simples entregador de doces.
Chichi contou histórias de sua infância, suas brigas de soco com Vegeta quando ainda eram pequenos, o quanto ela adorava estar nos bastidores dos filmes desde criança. Pouco tempo depois, ela estava aconchegada nos braços dele, e, protegidos pela privacidade da cabine, ele finalmente disse o que sempre soubera:
– Eu amo você, Chichi...
Chichi o encarou, enternecida e, num sussurro, respondeu:
– Também te amo, Goku.
Os dois deram um beijo terno, longo. Goku a estreitou nos seus braços e, depois de um tempo, simplesmente a aconchegou novamente no seu peito e disse:
– Nada vai me separar de você, Chichi... nunca. Eu e você logo vamos estar livres e vamos ficar juntos, eu prometo.
Ela sorriu, aconchegada a ele. Sabia que era inevitável ficarem juntos. Nenhum obstáculo era suficiente para separá-los. Conversaram, como namorados, pelo resto das duas horas de viagem, e, quando o avião pousou trocaram um último beijo antes de deixar a segurança da cabine e Goku, segurando seu rosto entre as mãos disse:
– Não vou me esquecer da minha promessa.
– Nem eu da minha. – ela respondeu.
Dolorosamente, eles se separaram assim que desembarcaram do avião. Goku saiu, puxando o capuz do casaco para cobrir os cabelos, na direção do estacionamento. Chichi sorriu observando-o se afastando e pensou que, mesmo que tivesse perdido o pai, jamais se sentiria sozinha.
Ela e Goku se pertenciam.
Notas:
1. Percebemos finalmente o grau de canalhice e hipocrisia de Shallot. Para criá-lo, eu li bastante sobre as classes ultra privilegiadas de Índia e tanto os hindus de casta alta quanto os muçulmanos muito endinheirados têm entre seus membros esse tipo de pessoa lamentável completamente alienada dos problemas da população mais pobre. Claro que nem todos são assim e a pressão da sociedade indiana vêm aumentando sobre os bilionários. A atitude de muitos atores de Bollywood contribui para essa pressão. Para se ter uma ideia: o ator mais bem pago da Índia, Sharukh Khan, durante a pandemia do Coronavirus financiou a entrega de cerca de 10 mil refeições por dia nos acampamentos de refugiados para evitar que essas pessoas saiam do isolamento. Outros atores ricos de berço como Saif Ali Khan, que é descendente de um dos últimos Marajás da Índia, divulgam muitas iniciativas em prol de pessoas carentes e atrizes como Pryanka Chopra e Deepika Padukorne têm se posicionado e contribuído para as questões de gênero, ajudando mulheres vítimas de violência doméstica e de atentados com ácido e estupros.
2. O funeral de King Cutelo é o início de um processo de reflexão e transformação de Raaja Vegeta. Acreditem: o odiado personagem ainda vai surpreender muito tanto os três filhos quanto vocês, leitores. Não apenas descobrir Chichi como filha, mas também descobrir que, apesar de toda rivalidade, ele perdeu um grande amigo o farão refletir e mudar muitas de suas atitudes.
3. Já Shallot... bom, esse não vai mudar nadinha para melhor.
4. O primeiro "eu te amo" presencial do casal foi nesse capítulo. Mas muito ainda vai acontecer antes deles estarem finalmente juntos. Muitas emoções fortes nos próximos capítulos...
5. Não teve Vegebul nesse capítulo... mas em breve teremos um beijo. Aguardem.
6. Em Mumbai há alguns pontos de cremação e aspersão, mas o maior fica em Dadar, Chaityabhoomi, onde fica o monumento ao renascimento, um dos pilares da crença hinduísta. As autoridades determinam trechos para cremação e aspersão para evitar que se faça isso em qualquer lugar. O mais comum é que os restos sejam jogados na água logo depois da cremação, mas muitas famílias optam por fazê-lo em outros pontos, o que não é muito comum é guardar as cinzas do falecido, mas não é proibido por todas as vertentes do hinduísmo. Algumas aceitam até o enterro do corpo. A curiosidade: se um hindu for enterrado, ele precisa ser enterrado de pé porque acredita-se que um corpo que permanece com os pés e a cabeça no mesmo nível fica preso à terra.
7 Como lembrado no segundo capítulo, Varanasi era a terra de Kyra Cutelo, por isso King pediu para ser aspergido no Ganges. Normalmente maridos e esposas pedem que suas cinzas sejam jogadas no mesmo lugar. Não é incomum também o falecido pedir que os filhos, caso tenha mais de um, dividam as cinzas e joguem a mais de um lugar sagrado. Embora o costume seja jogar as cinzas em águas correntes ou no mar, não é bem visto joga-las em praias onde se realizem atividades mundanas, porque acredita-se que o momento da aspersão é um momento de reflexão e oração. Assim, Dadar, que fica ao lado de Juhu, é uma praia onde 90% do movimento vem de funerais dos mais de 30 crematórios das redondezas.
8. O almoço da lembrança é fundamental para "fechar o luto" na religião hindu. Não é obrigatório que as cinzas do falecido estejam presentes, mas a atitude é de acreditar na presença dele entre os vivos. O riso e as histórias engraçadas podem estar presentes, mas o almoço começa com uma oração pela paz do espírito do falecido. Já a caridade em nome do morto pode ser até mesmo uma esmola para um pobre, mas é obrigatória e quando a família é rica ela deve ser muito generosa e bastante divulgada, ou a família pode ser julgada como "com pouco apreço pelo falecido". Ela deve ser repetida todos os anos no aniversário de morte, por pelo menos nove anos. Nove anos porque os hindus acreditam que esse é o tempo médio que uma alma demora para reencarnar.
9. Esse capítulo é dedicado à memória de Irfhan Khan, um grande ator indiano que nos deixou na data de hoje, 29 de abril de 2020, depois de lutar por dois anos contra um raro câncer neuroendócrino. Conhecido no ocidente desde 2008, quando fez o papel do Policial que interroga o personagem Jamal e depois fez "Aventuras de Pi" e "Jurassic World". Eu assisti alguns filmes indianos espetaculares com ele, como "Bilu Barber", "Piku" e "The Lunchbox", onde ele interpreta um contador viúvo prestes a se aposentar que começa a se corresponder com uma jovem esposa que, tentando salvar seu casamento, acaba por acidente enviando a marmita que elaborou com cuidado para o marido para ele. Um filme belo e sensível sobre a solidão humana. Que sua alma encontre a merecida paz!
