Capítulo 25 – Gerua (a cor do amor)
Nos meses seguintes, Chichi conseguiu fugir de Shallot por causa do período de luto, que poderia durar até seis meses, período em que ela pretendia se livrar das dívidas e dele, mas o rapaz se tornou desconfiado e mal humorado em relação à produção de "Anarkali", que seguiu, sem problemas, porém, com um atraso de cerca de um mês em relação a "Shakti", cujo cronograma estava bem adiantado.
Logo estariam em janeiro e, então, haveria a temporada de entrevistas no Talk Show de celebridades mais famoso da Índia: o Koffee with Karaan, apresentado pelo ator, diretor, repórter e roteirista Karan Johar, que era conhecido por sua alegria, por ser o único gay assumido do primeiro escalão de Bollywood e por colocar seus entrevistados em posições constrangedoras ou comprometedoras.
O convite enviado com antecedência de um mês para a presença do elenco comum a "Shakti" e "Anarkali", extensivo a Tarble, que assinava o roteiro não animou muito Chichi. Havia muitos rumores nos sites de fofoca de que seu relacionamento com Shallot não ia muito bem. Ela não se importava mais com Shallot, mas esse tipo de fofoca costumava tumultuar produções e lançamentos de filmes. Até o meio do ano ela receberia toda sua herança e poderia finalmente quitar o empréstimo, então, planejava terminar tudo discretamente dois meses antes do lançamento de "Shakti", programado para o Eid Mubarak, em Julho, assim, quando "Anarkali" fosse lançado, no Dilwali, em outubro, já estaria tudo esquecido.
As filmagens corriam bem, tirando o fato de que o ator inicialmente escalado para viver o lutador que se tornava interesse romântico de Anarkali tinha saído da produção porque o atraso da produção atrapalharia a agenda do ator. Como o romance na tela acontecia apenas bem no final do filme, era uma participação de apenas algumas cenas, eles estavam adiantando o resto das filmagens e deixando aquilo para o final.
Em compensação, Vegeta e Bulma haviam funcionado extremamente bem como o jovem casal pobre que já começava o filme como namorados. A personagem de Bulma, Anjali, era o tipo da mocinha ideal indiana: doce, carismática e que apoiava totalmente o namorado Shakti, o lutador vivido por Vegeta. Vendo os dois atuando juntos, Chichi pensou que ninguém mais insistiria que ela e Vegeta eram um casal perfeito.
A química entre Bulma e Vegeta era mais que perfeita. Vegeta havia assimilado muito do que Goku ensinara a ele sobre o MMA, mas a forma como olhava para Bulma quando atuavam juntos nas cenas de romance era que mostrava como ele havia evoluído ao interpretar Shakti, o lutador pobre que chegava ao topo com muito esforço apesar das inúmeras tentativas de sabotagem de outro lutador, interpretado por um ator jovem e promissor chamado Zamasu Singh.
Mas toda tranquilidade da produção estava prestes a ser sacudida por uma novidade bombástica que agradaria a alguns mas não tanto a outros. Vegeta e Goku treinavam numa tarde e Goku estava um pouco estressado: o Doutor Beerus constatara que depois da sua luta com Dispo ele simplesmente atingira o absurdo peso de 101 quilos. Ele não estava a fim de fazer uma dieta rigorosa para perder o quilos que o médico cobrava que ele perdesse. Não podia se culpar porque não havia engordado, mas ganho massa muscular.
Tinha sido advertido pelo irmão que se perdesse ou fosse desclassificado, seus ganhos e popularidade declinariam rapidamente. Estava acontecendo isso com Broly, que viu sua onipresença nos cartazes de suplementos, roupas e equipamentos esportivos diminuir drasticamente enquanto o soturno, sério e caladão Jiren ia se tornando uma presença cada vez mais frequente, perdendo em popularidade apenas para Goku. E era nisso que ele pensava quando, no seu treino com Vegeta, distraiu-se e levou um mata-leão do ator que disse, se levantando triunfante:
- Consegui te surpreender, Kakarotto! Já posso dizer que te venci?
Goku olhou para ele, rindo e disse:
- Fique à vontade. Não é todo mundo que consegue pegar Deewar distraído...
Vegeta olhou bem para ele e perguntou:
- Que houve? Problemas?
- Pequenos. Nada demais.
- Não é nada em relação à minha... – ele ainda hesitava em chamar Chichi de irmã, e Goku complementou:
- O único problema em relação a ela ainda é não podermos ficar juntos. Mas não é isso, deixa para lá. Coisas dos meus contratos... presença de mídia, essas chatices. Cada vez que me encontro com a minha ex ela ameaça fazer uma cena, criar problemas, essas coisas... – ele deu um suspiro resignado.
De repente, Vegeta olhou bem para Goku e teve uma ideia, perguntando diretamente:
- Você dança, não dança? Vi uns vídeos seus com a Bulma...
Goku coçou a nuca, sem jeito:
- Ah, cara... essas paradas que eu fiz quando adolescente... muito mico, né?
- Não é isso! Precisamos de um promo (um clipe pré-lançamento) da música "Shakti" para lançar no programa do Karan Johar, e estamos tendo uma enorme dificuldade de acertar alguém para participar, sabe? Todo mundo gravando, agenda cheia... sabe como é, essa época é tumultuada, mas um promo sempre tem participação especial... e se você dançasse com a gente, com o elenco do filme, ia gerar muito comentário, visualizações no Youtube... essas coisas.
- Eu... não sei, cara. Tem tempo que eu não faço isso e...
- A Chichi dança com você, ela está sem par porque não achamos ainda um ator para substituir o que ia fazer o lutador.
O semblante de Goku de repente iluminou-se. Dançar com Chichi num clipe parecia irresistível demais para ele, que aceitou imediatamente. Depois de algumas ligações de Vegeta para Raditz e para alguns representantes da SFL foi acertado um cache praticamente simbólico e os ensaios e a gravação marcados para dali a dois dias.
- Está nervoso, irmãozinho? – perguntou Bulma, provocando Goku.
- Nervoso, eu? Nem um pouco. – disse Goku, pouco antes da gravação. Tinha passado a manhã ensaiando com Bulma, porque Chichi adiantava uma gravação do seu filme em outro estúdio. Não a via pessoalmente desde o dia em Varanasi, era uma questão de cautela para ambos que a relação permanecesse incógnita. Mas a verdade era que ele estava ansioso para estar com ela. De repente, Vegeta apareceu e Bulma sorriu para ele. Goku olhou de um para o outro e percebeu alguma coisa, mas sacudiu a cabeça. Talvez fosse só impressão.
- Vamos gravar depois de passar a coreografia algumas vezes. – disse Vegeta – ele aprendeu toda coreografia?
- EU ensinei, tá? Quando nós dois dançávamos juntos não tinha Whis nem Vados para ensinar. Só a TV e nós dois. – ela deu uma reboladinha na frente de Vegeta e disse – e como disse a Ribrianne no Bollywood Reporter, eu sou a nova sexy lady de Bollywood!
- Mulher vulgar – disse Vegeta, segurando o riso e ela deu uma gargalhada gostosa, fazendo Goku olhar com ainda mais estranhamento para os dois. Tinha conhecido o noivo dela recentemente e simplesmente achara que os dois eram o casal mais sem graça que ele vira na vida. Tudo bem que o rapaz seguia a ideia de casamento indiano tradicional, mas não via como sua irmã ia ser feliz presa naquela relação formal. De repente, Goku disse:
- Vocês já pensaram em namorar?
Os dois olharam ao mesmo tempo para Goku, sem jeito e sem saber o que dizer e enrubesceram visivelmente. Bulma disse, de repente:
- Ora, que bobagem, Goku. Você sabe que eu estou com Yamcha. Logo vamos nos casar e...
- Ainda não fizeram a cerimônia do Chunni ("cerimônia do aceite", uma espécie de noivado que compromete o casal a se casar no espaço de duas luas cheias).
- Kakarotto – disse Vegeta, de repente – Isso... isso não tem nada a ver. Nós somos um par... – ele olhou brevemente para Bulma, um pouco carrancudo – mas na tela. É isso.
Vegeta saiu e Goku viu Bulma se afastar para o fundo do estúdio de ensaio. Bufou brevemente. Tinha certeza que tinha percebido alguma coisa entre eles.
Raaja Vegeta tinha decidido, por algum motivo que nem mesmo ele imaginava exatamente qual, assistir à gravação do promo. Shallot, por todas as divergências que tivera durante a pré-produção e aborrecido com o afastamento que Chichi impunha, quase nunca aparecia nas gravações, preferindo passar os dias cuidando de seus outros empreendimentos. Raramente, aparecia no fim do dia, tentando arrastar Chichi para algum compromisso, mas ela normalmente declinava.
O pai de Vegeta sentou-se numa cadeira de produção ao lado da diretora Farah Khan, uma mulher poderosa de Bollywood que começara a carreira como coreógrafa, que costumava dirigir produções românticas e normalmente era chamada para fazer vários clipes como aquele, uma produção de um dia cujo vídeo de coreografia ela assistira antes, enviado por Whis e Vados. Ela sorriu para ele e disse:
- Veio ver seu filho brilhar, Raaja?
- Os dois – disse Raaja sem se dar conta do ato falho.
- O Tarble está nesse clipe? – ela perguntou, estranhando – eu não sabia que ele era ator também!
- Ah, não – disse Raaja, sem jeito – é que desde que King morreu... bem, eu estou meio que adotando Chichi. – ele disse e a diretora olhou meio de lado e ficou quieta.
Mas achou aquilo bastante suspeito.
Goku ria, colocando o figurino, pois o ensaio já seria direto com as roupas. "Shakti" não era uma música romântica, mas alegre, com os homens todos vestindo calças modelo saruel e as garotas em três modelos de roupa diferentes, sáris, lehengas (conjunto de saia e blusa) e orissis (sári amarrado como uma espécie de macacão de um só ombro). Fariam tudo com vários figurinos, um azul e verde, um marfim e, por último, vermelho-sândalo.
- Essa calça... – ele disse, olhando para as próprias pernas no figurino amplo – deixa tudo solto aqui dentro, Vegeta.
- Por Krishna, como você é retardado, Kakarotto – respondeu o outro, tentando permanecer sério – espero que tenha aprendido a coreografia.
- Olha, dançar e lutar, no fundo, é tudo parecido. – disse Goku, sorridente – se você luta dançando, dança lutando. É tudo uma questão de elasticidade, coordenação e força.
- Ah, tá, tá, quanta besteira.
- Escuta – ele perguntou, sem cerimônia – há quanto tempo gosta da Bulma?
Vegeta parou, petrificado. Seria ele assim tão transparente? Não queria dar o braço a torcer e disse:
- Isso que está dizendo é uma bobagem. Bulma está noiva daquele inútil do Yamcha.
- E daí? Chichi usa um anel de compromisso com aquele palhaço do Shallot, mas vai casar comigo. Pode apostar.
- Não aposto, detesto perder dinheiro. Detesto perder, aliás.
- Então, cara – Goku terminou de amarrar a cintura da calça larga e se dirigiu à saída do figurino para ir até a maquiagem mas antes voltou-se e completou – se não gosta de perder, entre logo no jogo antes que a perca para o outro.
Vegeta ficou olhando para Goku se afastando e engoliu em seco. Como seu orgulho permitiria que ele lutasse por Bulma?
- Prontinho! – Lunch, com sua barriguinha de quatro meses de gravidez, finalizou a maquiagem de Chichi. Bulma que aguardara, ansiosa, vendo a americana trabalhar, já havia sido maquiada por uma maquiadora de estúdio e disse:
- Uau! Que trabalho lindo você fez! – Lunch olhou para ela e disse – olha, está na hora da gente achar uma maquiadora exclusiva para você. Pode render muito mais quando deixar de ser maquiada igual qualquer menina do coro e tiver atenção exclusiva!
Bulma baixou os olhos, sem jeito e disse:
- Estou só começando! E quem cuida desses contratos é meu irmão Raditz e ele acha...
- Ah, os homens acham muita coisa, afinal estão sempre perdendo algo! – brincou Lunch, olhando para Chichi e dizendo – É ou não é? Quanta gente opinou na sua vida até aqui? É a sua primeira protagonista de verdade depois apenas de dois filmes, Bulma. Comece a fazer exigências, afinal, você pode e deve, é quase uma estrela!
Chichi apenas sorriu e disse, olhando para Bulma:
- Lunch... maquie ela também para o promo. Eu autorizo. E pago o extra.
- Senta aqui, moça bonita! – disse Lunch, animada – sabia que a minha chefinha não ia se importar em me dividir com você!
Meia hora depois, Bulma se encarava no espelho, estarrecida. Seu rosto havia sido realçado de tal forma que ela parecia a melhor e mais bela versão de si mesma. Lunch se debruçou sobre ela e aplicou o mesmo batom que passara em Chichi, dizendo:
- Embora seus tons de pele sejam diferentes, vai ficar bem mais bonito se as duas usarem esse batom lindo... só o descobri aqui na Índia. Na América esse tom vermelho é chamado de terracota escuro, ou vermelho-sândalo... mas aqui o nome é bem mais bonito!
- Gerua! – disse Chichi – você adora essa história, não é Lunch?
- Ah, sim, desde que você me contou. Gerua, a cor dos lábios de Rada, contraparte de Krishna e, portanto... a cor do amor. Ah, me perdoem – ela acariciou a barriga suavemente – desde que eu descobri que estava grávida, finalmente, eu fiquei tão romântica e sentimental... – ela olhou para as duas, que riam e disse – vão lá, moças... encantem os rapazes. Encantem os dois com a cor do amor, meninas.
- Mas – começou Bulma, sem jeito, querendo dizer que era noiva e que seu contato com Vegeta era estritamente profissional, mas o máximo que conseguiu foi ficar com o rosto quase tão vermelho quanto o batom que ela usava.
- Vamos, Bulma – sorriu Chichi – você e Vegeta vão ficar perfeitos na tela.
Ela piscou um olho e quando as duas saíram Lunch jogou-se na cadeira e pegou um caqui cujo tom de vermelho era o mesmo gerua do batom que aplicara nas duas e sorriu, antes de fazer seu lanchinho. Tinha percebido o clima entre Bulma e Vegeta e torcia pelos dois tanto quanto sempre torcera por Goku e Chichi.
Goku surpreendeu positivamente a todos, à exceção de Chichi que já sabia do seu talento, ao dançar perfeitamente bem logo no primeiro ensaio, afinal, não havia perdido o jeito. Whis ajeitou a coreografia em duplas, às vezes Goku e Vegeta, às vezes Chichi e Bulma com coros exclusivamente femininos ou masculinos atrás e, finalmente, partes de casais com um dos casais ou os dois e todo o coro dançando junto. Logo estavam gravando a primeira parte.
Raaja ficou observando o rapaz enquanto Farah Khan o ajeitava e ria das bobeiras que ele dizia. Raras vezes na sua vida ele vira um talento natural, e o garoto se comportava como se tivesse feito aquilo a sua vida toda. De repente, Vegeta apareceu do lado dele, quando gravavam uma parte em que Goku dançava solo com Chichi.
- Gostando da minha ideia, velho? – Vegeta provocou o pai, como sempre gostara de fazer. Raaja ao invés de morder a isca, acabou dando o braço a torcer:
- Onde achou esse sujeito? É mesmo um lutador? Parece um dançarino nato.
Vegeta riu e disse:
- Chichi me contou que o conheceu há anos e o senhor o proibiu de fazer um teste. Aí, graças a uma dessas reviravoltas estranhas do destino ele acabou lutador da SFL e estava treinando movimentos de luta comigo e eu pensei que, já que ele é famoso pra caramba, ia cair bem no nosso promo.
- Pensou bem... senti agora orgulho de você.
Vegeta encarou o pai com certo estranhamento e prosseguiu, ignorando o elogio:
- Mas quem o descobriu mesmo foi Chichi. Só que o velho e orgulhoso Raaja nunca vai pedir desculpas a ela – provocou Vegeta, mais uma vez.
Raaja olhou para o filho, aborrecido. Era impressionante como Vegeta gostava de provocá-lo e ele até entendia. Kyra o advertira várias vezes, quando Vegeta era um menino, que a forma como ele estava sendo criado o faria detestar o pai ao crescer, e ele sempre achara que nunca se sentiria mal com isso, mas a verdade era que tudo que queria era que o filho não o olhasse com aquele olhar rancoroso sempre.
- Como estão as gravações?
- Shakti tem mais dez dias, Anarkali um mês e meio de gravações e ainda não fechamos com ninguém para fazer o... como é mesmo o nome do lutador? O Tarble que inventou aquele nome brega...
- Tyger. – disse Raaja.
- Ah, sim, isso mesmo. Não temos o Tyger ainda, mas o outro ator, que faz o noivo que Anarkali deixa, que o Yamoshi Sharma interpreta, acaba a participação dele em breve, pelo menos não perdemos a agenda dele.
- E convidaram alguém para fazer o tal Tyger? – perguntou Raaja, olhando para Chichi e Goku, que dançavam juntos diante de um fundo verde e com o coro ao fundo. De repente, viraram-se juntos, abraçaram-se sorrindo e fizeram um gesto para a câmera antes de Farah Khan gritar "corta" e mandar todo elenco trocar de roupa para gravarem a parte seguinte.
Goku e Chichi riam, conversando entre si e Raaja deu um sorriso, vendo aquilo. Talvez fosse hora de corrigir um erro do passado.
Eles corriam pelo estúdio na direção dos trailers, quando Goku puxou Chichi para trás de um cenário vazio e beijou-a com vontade. Mesmo assustada, cheia de medo de serem descobertos, ela correspondeu abraçando-se a ele, era uma loucura fazerem aquilo, mas depois de estarem tão perto era quase irresistível.
- Que saudade – murmurou ele contra sua boca, quando se separaram – quis fazer isso desde e a hora que te vi...
- Eu nem acredito que estamos fazendo isso...
- Beijando escondido? – ele perguntou, com um ar de bobo, roçando o rosto no dela.
- Não só isso... estamos gravando, dançando... não parece um sonho? Pena que é só um promo.
Ele sorriu pra ela e a puxou para um novo beijo. Mas um barulho os fez separarem-se rapidamente e logo, iam cada um para o seu trailer de figurino, o riso nos lábios mal disfarçando o quanto ficavam felizes quando juntos.
O dia terminava com as garotas gravando juntas seu último momento com o figurino vermelho, quando Raaja levantou-se de sua cadeira e se aproximou de Farah Khan para falar sobre Goku. Durante as gravações, ele pegara seu inseparável smartphone e verificara todas as informações sobre o rapaz. Um ex-entregador de doces, que se tornara lutador e liderava o ranking de lutas dos meio-médios da SFL, dono do cinturão dos médios e número um em popularidade no site da liga, com votos até de fora do subcontinente indiano.
Uma mina de fazer dinheiro para a SFL, e, pelo jeito do rapaz, ele nem mesmo se tocava disso. Tê-lo num filme com Chichi garantiria o sucesso imediato, ele tinha certeza. Mas havia algo mais.
Ele observara a interação dos dois, desde o momento em que o rapaz aparecera com o figurino de dança. Havia um magnetismo entre ele e Chichi, uma atração explosiva, ele podia sentir. Algo que ele nunca presenciara entre ela e Shallot. Raaja podia parecer uma águia gananciosa, mas, no fundo, queria uma chance de se aproximar do seu último elo com Kyra. Ele perdera Kyra muitas vezes: quando a traíra, quando por orgulho não dissera a ela que a amava, quando casara com Fasha apenas para dizer que não se importava, quando, depois da noite em que ficaram juntos ele não fora atrás dela, dizendo que a amava, dizendo que sua única chance era ela. Kyra reconstruíra sua vida e seus afetos em torno de Chichi e Cutelo, e até sua morte trágica, ela tinha sido feliz. Mas ele nunca havia realmente superado a perda e seguido em frente, preso para sempre num círculo de raiva de si mesmo e mágoas do passado.
A incapacidade de olhar para o filho como Kyra olhava para Chichi o tornara infeliz. O mantivera no casamento infeliz com Fasha. E quando via Chichi ao lado de Shallot, percebia que ela seria infeliz com ele. Podia ser um herdeiro milionário, podia ser o melhor partido de Bollywood. Mas ele sabia que o rapaz era um cretino. Antes ele não se importava, achava que Chichi não era um problema dele. Mas agora, não podia mais não se importar, e, quanto antes ele agisse para estragar aquele namoro, melhor.
- O que você achou desse rapaz dançando com Chichi? – Ele perguntou para Farah Khan, que verificava num monitor com um técnico as sequências filmadas enquanto o coro e o elenco aguardavam para ver se estava ok e podiam ser dispensados. Vegeta, Bulma, Goku e Chichi conversavam animadamente no meio do estúdio. Tinha sido um ótimo dia de gravação, se podia sentir o clima ameno nos bastidores.
- Ouro em pó, Raaja – ela disse, animada – olhe isso – ela parou uma cena em que Goku sustentava Chichi numa pose de dança, os dois lindos no figurino vermelho-sândalo. – alguém tem que roubar esse menino da SFL antes que as porradas na cara estraguem seu belo rosto!
Raaja riu. Farah Khan era conhecida por não ter papas na língua e falar exatamente o que pensava, sempre.
- Tem mais uma coisa, Raaja! – ela disse, chamando-o novamente ao monitor. Dessa vez a imagem estática juntava Vegeta e Bulma, numa pose parecida com a de Goku e Chichi. – Olhe que lindos eles ficam juntos! Seu filho é lindo como você era na idade dele, e com essa moça diferente parece que tem um frescor... é algo novo. E eu aposto que ele está caidinho por ela, pelo jeito que a trata, sabia?
- O quê?
- Ah, os homens. Como são cegos. Olha, conselho é de graça, então vou dar: se não quer seu filho amargurado como você mesmo se tornou, faça que alguém mostre a ela o que ela ainda não sabe sobre o Yamcha Kapoor... pobrezinha. Deve estar muito iludida para estar comprometida com ele.
- Você acha mesmo que eu vou me meter nesse rolo? Envolve a carreira do Yamcha.
- É, eu sei. Mas entre a carreira do Yamcha e a felicidade do seu filho... bem, a decisão é sua.
Raaja ficou quieto, porque fazia tempo que também desconfiava que Vegeta tinha uma queda por Bulma... mas, em relação ao filho, ele achava que não deveria se meter: ele achava que Vegeta precisava encontrar seu próprio caminho, aprender a passar sozinho por cima do orgulho como ele mesmo, Raaja, jamais conseguira. Então, voltou ao que interessava:
- Mas o que você acha de chamar o garoto da SFL para fazer parte do filme... tem uma participação pequena no final, um lutador que se apaixona à primeira vista pela lutadora que Chichi interpreta...
- Depois desse promo, se colocar qualquer outro vai fazer seu filme flopar antes da estreia. Dê um rim para o Sanjay Dutt e para o Rajesh Kundra, mas garanta esse garoto no seu filme – ela deu uma risadinha irônica – eu adoraria ver a cara daquele nojo daquele Shallot vendo os dois juntos. Por que ele não está aqui hoje, aliás, se metendo em tudo como de costume?
- Pediu um tempo para cuidar dos negócios do pai. Na verdade, ele não concordou muito com nosso convênio com a SFL para esses dois filmes.
- Francamente... o que ele ainda faz em produção de filmes? É um cretino idiota, podia estar lá, apenas cuidado do petróleo do pai...
- A família dele tem 15% desse estúdio – suspirou Raaja.
- Mas ele tem 0% do coração daquela moça ali – disse Farah Khan. – Porque ainda estão juntos?
- Nem eu sei – disse Raaja – mas acho que é por causa do prejuízo daquele filme romântico que Shallot te barrou como diretora.
Farah Khan soltou um palavrão e disse:
- Eu espero que ela se livre dele… o quanto antes.
Raaja sorriu para ela e se despediu. Tinha assuntos a tratar.
- Como você vai gravar um clipe e acaba num FILME? – perguntou Raditz, que tinha diante de si o contrato para a participação de Goku em "Anarkali".
- Bom – Goku coçou a cabeça – o clipe foi bom demais, nós fizemos tudo tão bem, tão rápido e certo. Deve ter sido isso...
- E é claro que quando ele disse que você e sua amada Chichi seriam par romântico você disse sim na velocidade da luz – disse Raditz, ainda um pouco mal-humorado – não gosto quando negociam essas coisas sem mim.
- Ele ligou direto para o senhor Sanjay Dutt e arrancou a autorização em minutos! – Goku coçou a nuca novamente, sem jeito.
- Eu teria arrancado um cachê maior para você – disse Raditz, olhando para o irmão aborrecido – mas sei que não importa muito pra você, mas isso pode mudar toda sua carreira.
- Eu sei.
- Deveríamos arrumar umas lutas fáceis para você manter o título. Nada de se complicar, mas eu não tenho esse poder todo, vai depender dos humores da liga.
Goku ficou quieto. Não era um bom momento para dizer que estava acima do peso para a categoria. De repente, o telefone de Raditz tocou. Ele atendeu e fez uma cara espantada. Falou um pouco com o interlocutor, olhou algumas datas na agenda de Goku e desligou depois dizer que estava tudo acertado.
- Outro comercial? – perguntou Goku, curioso.
- Não. Era o Karan Johar. Querem você numa entrevista, com mais um ou dois lutadores da SFL, no mês que vem. Parabéns, irmãozinho – Raditz sorriu – você finalmente é uma celebridade nacional.
Notas:
1. Promo – vídeos que muitas vezes nem aparecem no corte final dos filmes ou aparecem modificados – podem ou não ter participações especiais de atores ou dançarinos que não fazer parte do elenco e são uma forma de garantir o sucesso de muitos filmes. Quanto mais visualizações e interações nas mídias sociais, maior a chance do filme ter uma partida de bilheteria boa. Por isso, os promo são ainda mais valorizados na Índia que os trailers e costumam tem um lançamento à parte, especial.
2. Já falei para vocês de Farah Khan e decidi que iria colocá-la na história numa participação especial porque ela é uma personagem muito divertida da cena indiana, com suas respostas sempre espirituosas e sua visão de cinema peculiar.
3. Então, agora Goku e Chichi, por obra do destino, estão JUNTOS num filme. Como será que o mau humorado Shallot vai digerir isso? E o que aguarda nosso casal durante essas gravações, será que alguém vai notar "o clima" entre eles?
4. Ponto para Raaja Vegeta... mas se esperam que ele faça algo por Vegeta e Bulma, percam a esperança. Ele não é tão protetivo em relação ao primogênito quanto se tornou em relação a ela.
5. Gerua – a cor do amor – é uma música do filme Dilwale, de 2015, cujo promo bateu record de visualizações do ano, ficando apenas atrás de Deewani Mastani, o promo do filme mais premiado daquele ano, Bajirao Mastani. É importante frisar que Gerua marcou a volta de uma grande parceria de Bollywood: Sharukh Khan e Kajol, um dos casais mais festejados de Bollywood que tornava a contracenar 5 anos depois do aclamado "My name is Khan", um dos melhores filmes da carreira dos dois.
6. No último capítulo falamos sobre a prematura e sentida morte de Irfhan Khan, e, logo no dia seguinte, nos deixou um outro grande e festejado astro dos anos 70: Rish Kapoor, que eu também já mencionei aqui, falecido aos 67 anos como consequência de uma leucemia severa. Começando ainda criança no cinema, ele era filho da lenda Raj Kapoor e se tornou "O príncipe de Bollywood' nos anos 70, em icônicos papeis de bom moço e fora dos padrões ocidentais, Rish era adorado no entanto na Índia e considerado um galã. Uma curiosidade sobre ele: nos anos 70 ele fez par inúmeras vezes com a atriz Neetu Singh, que posteriormente se tornou sua esposa e os dois continuaram atuando juntos até os anos 90 em muitos filmes, muitas vezes como marido e mulher na tela, embora ele tenha feito também outros filmes ainda tentando sustentar o papel de galã até diminuir drasticamente sua carreira no início dos anos 2000. . Dono de um humor peculiar, era um homem alegre e divertido e sua perda faz de 2020 um ano muito triste para a cena do cinema indiano. Que sua alma encontre a paz.
