Capítulo 26 – Koffee with Karan (Café com Karan)

Diante de um calmíssimo Raaja, Shallot dava um ataque apoplético de raiva por conta da contratação de Goku para fazer par com Chichi em "Anarkali", que ele descobriu pela imprensa na noite após a gravação do clipe promocional de "Shakti".

– Quem autorizou essa loucura, alguém pode me dizer? Quem teve essa ideia absolutamente cretina e sem sentido de contratar um amador para fazer par romântico com Chichi? Foi ela ou o imbecil do seu filho, que agora ficou amiguinho desse slumdog metido a lutador?

– Nem um, nem outro. A ideia foi minha.

– Sua? – a resposta soou como um balde de água fria sobre a cabeça de Shallot, que imaginava que teria o apoio de Raaja para reverter a contratação de Goku e agora descobria que, mais uma vez, estava sozinho nas suas ideias.

– Sim, minha. Ao contrário de você, eu estava aqui e assisti à gravação do promo. Raramente conseguimos gravar um clipe decente em um dia, mas dessa vez, a Farah Khan se superou. E o sujeito dança melhor que muito ator, sabia? Perguntei a opinião da Farah e ela disse que se eu depois do promo não o contratasse era um idiota. Ele e Chichi parecem perfeitos juntos.

– Como é que é? O que quer dizer com isso? Esqueceu que ela é minha noiva?

Raaja olhou bem para o rosto vermelho e irritado de Shallot. Sua menina não merecia mesmo aquele sujeito. Com um suspiro, ele disse:

– Eu acho interessante, Shallot, que você exiba sua "noiva" para os príncipes de Dubai sem o menor pudor e tenha ciúmes dela dentro da sua profissão. Não tomou conhecimento de nada em relação a essas produções, a não ser para reclamar de tudo, porque não te parecia o ideal do que você acha que merece ser um filme de Bollywood. Então, meu caro, não reclame. Os filmes vão te fazer mais rico.

– Eu tenho 15% desse estúdio – ele disse de forma arrogante – e consigo dinheiro para os filmes com os príncipes. O que você faz, Puraana (velho), além de emprestar sua imagem que nem é mais a mesma?

Raaja aproximou-se lentamente de Shallot, os olhos pretos faiscando de raiva:

– Esse estúdio, que num momento de dificuldade recebeu o socorro de sua família, tem o meu sangue e o meu esforço. Eu já produzia filmes aqui quando você mamava nas tetas da sua mãe, seu idiotinha metido. E Anarkali vai fazer tanto dinheiro que você vai engolir palavra por palavra do que está dizendo.

– Acho bom! – disse Shallot, levantando-se para ir embora da sala de Raaja – Porque Chichi já tem uma boa dívida comigo. Ela me deve bastante para simplesmente ter a ideia de arrumar outro e me deixar para lá! Se ela pensa que vai me trair e continuar tendo uma carreira, está enganada!

Raaja encarou Shallot sabendo o quanto ele era perigoso. Mas era bom que o sujeito o subestimasse, dava a ele espaço e tempo para agir. Decidiu ignorar as alfinetadas e disse:

– Se você precisa de uma dívida para segurar uma mulher é porque provavelmente não a merece. – Raaja abriu a porta e disse – Não apareça mais aqui. Não quero ver seu focinho intrometido no meu estúdio por um bom tempo!

Shallot saiu, furioso, e foi até o estúdio, onde Chichi gravava uma cena de Shakti com Bulma. Era uma cena doméstica em que Anarkali e Anjali conversavam sobre como poderiam ajudar nos treinamentos de Shakti, o que, mais adiante, faria Anarkali despertar para seu próprio talento para a luta. Ficou observando Chichi atuando e começou a pensar ela que estava evitando-o, ele podia sentir. O luto era apenas uma justificativa para mantê-lo longe, mais uma. Ele ficou parado, vendo a gravação até que o diretor cortou e ele chamou Chichi.

– O que foi, Shallot? – ela disse, no tom frio e formal que adotara para falar com ele desde a morte do pai.

– Precisamos conversar sobre o filme.

– O que você quer?

– Bem... eu não gostei da contratação desse cara e...

– Goku?

– É. Ele vai ser seu par romântico e eu não o quero com intimidades com você, entende?

– É apenas um filme, Shallot. Me deixe em paz, por favor.

– Eu , mas... escuta. Eu acho que precisamos de um tempo juntos. No fim de semana, poderíamos ir a Goa. Consigo um helicóptero e...

– Não. Não quero. Você sabe que estou de luto, estamos em regime de separação de corpos. Eu vou passar o fim de semana no Asram Prem Sadam. É uma casa de órfãos.

-Vai passar dois dias com crianças carentes? O que deu em você?

– Os vedas dizem que o período de luto deve ser gasto em atividades que engradeçam o espírito. Me chamaram para esse evento, um encontro de dois dias com pessoas do mundo todo para angariar fundos para os órfãos. Realmente, nunca fiz algo assim, Shallot. Nunca cuidei de ninguém a não ser de mim mesma... afinal, eu mesma fui uma órfã. Mas estou disposta a mudar daqui em diante. Nosso país tem muitas pessoas que precisam de ajuda, sabia?

– Chichi, vai sobrar algum momento na sua vida para cuidar de mim? Eu serei seu marido, lembra?

– É, Shallot... talvez não sobre momento algum para você na minha vida. – ela disse, já saindo.

– Você não pode me deixar assim, Chichi – ele disse, irritado, segurando-a pelo pulso – você se lembra que temos uma dívida juntos, não é?

– Claro. – ela disse, ainda friamente – meu maior pensamento em relação a você, agora, é essa dívida. Mas não se preocupe: eu vou pagá-la, rúpia por rúpia. Ou dólar por dólar, se preferir.

– Isso é um rompimento, Chichi? – ele perguntou, irritado.

Ela o olhou, calada. Queria muito terminar, naquele momento. Mas não o fez, antes disso, precisava ter calma para evitar um escândalo naquela semana, afinal, o elenco teria uma entrevista no programa de Karan Johar. Ela então respirou fundo e disse apenas:

– É apenas um tempo para mim, Shallot. Respeite-o.

Ela saiu, respirando fundo, pensando que precisava muito resolver sua vida ou explodiria.


Faltavam poucos dias de gravação para a produção do filme "Shakti" ter encerradas as filmagens quando veio a semana de ir ao ar, ao vivo, no programa de Karan Johar. O diretor chamou Bulma e Vegeta para uma conversa.

– Então... a cena é o ápice do romance de vocês, depois da pesagem e da entrevista anterior à luta decisiva. É o momento em que Shakti finalmente pede para que Anjali se case com ele. E sabemos o que o público anda cobrando ultimamente, não sabemos?

Bulma e Vegeta ficaram, ambos, estáticos, como que congelados. O diretor sugeria algo que não estava no roteiro: um beijo, velho tabu no cinema indiano. Vegeta argumentou, sem jeito:

– Não estava no roteiro original... mas eu entendo que... – ele deu um suspiro – mas não podemos fazer se Bulma não se sentir confortável. A decisão tem que ser dela.

Os dois olharam para Bulma. Ela ficou vermelha antes de dizer:

– Olha... eu preciso conversar sobre isso com o Yamcha, afinal ele é meu noivo. E quando vamos gravar a cena, mesmo?

– Bem – disse o diretor – a entrevista de vocês é amanhã, não? A gravação da cena está agendada para depois de amanhã... você tem até lá para se decidir.

– Ótimo – disse Bulma – Eu vou jantar com o Yamcha amanhã, depois da entrevista... vou conversar com ele e me decido, ok?

Os dois assentiram, mas Vegeta ficou um pouco irritado. No fundo, queria que ela decidisse por si mesma e quisesse beijá-lo, ainda que não fosse um beijo real.


Mesmo com um elenco bem maior, apenas Bulma, Vegeta e Chichi foram convidados para lançar o promo no programa de Karan Johar. Tarble também foi chamado para falar do roteiro do filme. Karan Johar, como único gay realmente assumido do primeiro escalão da indústria, adorara a novidade de ter alguém como Tarble ingressando em Bollywood, que podia ser bem hostil aos homossexuais.

O cenário era o típico de um talk show: o número de sofás costumava variar de acordo com o número de convidados. Naquela noite, eram dois sofás largos, onde sentaram-se Bulma e Vegeta e Tarble e Chichi, diante do alegre e espontâneo Karan, que começou a entrevista elogiando Bulma e Chichi:

– Eu fico impressionado como um filme consegue juntar atrizes incríveis como vocês duas e não haver um mísero rumor sobre rivalidade ou estrelismo. Qual o segredo, garotas?

Chichi olhou para Bulma. Ela era mais experiente nesse ramo, conhecia o apresentador e sabia onde ele queria chegar:

– Karan, é impossível alguém não gostar de Bulma, sabia? Ela, além de incomum e linda, é alegre, espontânea, bem-humorada... bem mais que eu, não é, Vegeta? Ele sofreu muito comigo no passado. Perto de mim, Bulma é um docinho.

Vegeta riu e concordou, dizendo:

– Não queira estar perto quando Chichi explode. – a plateia veio abaixo em gargalhadas e ele disse – Bulma é minha descoberta, na verdade...

– É mesmo? Conte para a gente como isso aconteceu, Bulma – disse Karan, que gostava de forçar todos os entrevistados a falarem.

– Bem – disse Bulma, suavemente – o Vegeta e eu frequentamos a mesma universidade. No primeiro dia ele se trancou na sala onde eu estava estudando fugindo das meninas que queriam tirar a sua roupa – novamente as gargalhadas da plateia encheram o estúdio – e nós ficamos amigos. Aí um dia ele viu um vídeo meu dançando com meu irmão.

– Gente, que família! – interrompeu Karan Johar – ela é IRMÃ do Son Goku! O lutador, Dewaar! Melhor luta da SFL, ele e Hitto! – ele disse, fazendo um gesto para Bulma – talento então é de família?

– Bem, na verdade eu sou adotada, como dá para imaginar, afinal, somos muito diferentes, né? – disse Bulma, com um sorriso – mas nós amávamos os filmes da Chichi, nós dois. E ensaiávamos as coreografias dos filmes para apresentar nos festivais. Quando ele ficou conhecido viralizou o vídeo que Vegeta viu... eu fiz um teste...

– E agora está num filme com o grande casal jovem de Bollywood! Não é fantástico? Chichi, vai sentir falta de fazer par com Vegeta? Nesse filme vocês são irmãos! Olha que inusitado, depois de tantos pares românticos!

– Não vou sentir falta dele – disse Chichi, com uma cara falsamente zangada – a gente brigava desde criança.

– Saímos no soco algumas vezes – completou Vegeta – mas somos como irmãos hoje – ele completou olhando para a plateia com ar de riso irônico, fazendo novamente explodirem risadas. – a ideia dela ser minha irmã no filme, na verdade, é dele – ele apontou Tarble.

– E eu nunca briguei com a Chichi – disse Tarble, de maneira afetada – me apaixonei por ela à primeira vista, digo, da forma como alguém como eu se apaixona por uma garota: vendo-a como DI-VA! – ele disse e foi a vez de Karan dar uma gargalhada e perguntar:

– Como foi escrever esse roteiro, Tarble? Você chegou aqui com dezessete anos! Praticamente um gênio, pelo visto.

– Calma que eu já tenho dezoito, Karan! – ele disse e a plateia riu novamente – bem, digamos que eu amo os filmes, cresci com eles, na Europa eu via mais filmes do que fazia qualquer outra coisa: me faziam sentir em casa. E quando Vegeta falou do convênio com a SFL, as histórias brotaram naturalmente. Vão ser dois filmes imperdíveis! Prometemos isso!

– Temos um clipe? Um promo para lançar aqui? – a plateia começou a gritar e ele disse – vamos passar e quando terminar, vai estar disponível no canal da Sadala filmes, gente, mas vamos ver.

O clipe começou a passar. O primeiro a aparecer, cantando os versos que falavam em luta, motivação e determinação, num close, foi Vegeta. Flashes de luz e dançarinos se movimentando e, para surpresa geral, surgiu Goku, repetindo os mesmos versos que Vegeta havia cantado antes, no mesmo ritmo. Os dois se olhavam, na tela e gritavam "Shakti!"

Daí em diante, o clipe era um frenético alternar entre os casais Bulma/Vegeta e Chichi/Goku, com todos os figurinos que haviam usado nas gravações, iluminações e jogos de cenários diferentes. "Força. Força. Você consegue, você pode! Força. Força!" era o refrão da contagiante música, que falava ao mesmo tempo de luta e amor. O clipe terminava com Vegeta e Bulma numa pose insinuante e o título do filme com a data de lançamento.

– Uau, meu povo! – gritou empolgadamente Karan Johar, quando o clipe acabou para interromper os aplausos entusiasmados da plateia, que se recusava a parar de gritar e ovacionar. – Quem esperava o Son Goku EM PESSOA no clipe do filme? – a plateia gritava e ele perguntou – Meu Krishna, ele dança bem! Alguém me explica como isso dele no promo aconteceu, gente? Foi sua ideia, Bulma?

– Não, não! – disse Bulma –quem ensinou a coreografia fui eu, como antigamente, mas a ideia foi do Vegeta!

– Sim, completou Vegeta – ele é o meu consultor de luta. Estava difícil achar alguém para participar do promo e aí, nem sei direito porque, o convidei. Foi uma boa ideia.

– Brilhante... mas não é só isso, não é mesmo? Tem um rumor circulando que ele vai estar no filme Anarkali. Procede?

– Procede – disse Chichi – ele faz o papel de Tyger. É um lutador.

– Não deve ser um papel difícil para ele... mas qual a relação dele com Anarkali? – perguntou Karan, assumindo um tom mais malicioso. Chichi pressentiu o perigo e disse:

– Bom... eu acho melhor que aguardem o lançamento do filme, em outubro. Não dou spoiler – ela disse, com um sorrisinho, fazendo a plateia lançar um "aaaah" decepcionado.

Karan olhou para Chichi, como que estudando-a e disse:

– Eu acho bem interessante a ideia dos dois na tela. Teve aquela coisa dele te citar várias vezes no reality da SFL...

– Nós realmente nos conhecíamos, mas muito superficialmente – disse Chichi, sem perder a pose.

– Eu tenho umas imagens... – disse Karan – parece que são da festa da primeira luta da SFL. São imagens interessantes.

Ele passou um pequeno slideshow de fotos. Não surpreendeu Chichi, ela sabia que isso sempre podia acontecer quando se ia a um evento público. As fotos mostravam Chichi e Goku dançando "Yeh mehra Dil" e, depois, mostravam Vegeta e Bulma na mesma festa, juntos, numa intimidade que podia perfeitamente ser mal interpretada. Chichi olhou para Bulma, que parecia petrificada, estática. Ela percebeu que a inexperiência dela com repórteres poderia prejudica-la.

– Então... – disse Karan, malicioso – a gente sente que essa química entre vocês... é bem forte, não? O que seu namorado achou dessa dança? Ele estava lá, não estava?

– O Shallot estava, sim – disse Chichi, da forma mais casual que conseguiu – mas foi só uma dança entre conhecidos. Agora posso dizer que somos amigos, mas na época eu só tinha visto o Goku duas vezes. Foi uma dança de cortesia para o campeão – ela sorriu – ele tinha acabado de conseguir o cinturão da SFL.

– E você e Bulma, Vegeta, estavam bem animados nas fotos também!

– Ah – disse Vegeta nós somos amigos, Bulma nesse dia estava sozinha, O noivo fora do país. Fiz companhia a uma amiga. – ele olhou para Bulma, que apenas sorriu.

– Mas Karan – disse Tarble, a fim de dar uma pequena alfinetada – você mostrou isso tudo e acabamos falando menos dos filmes, né? São imagens que mostram a química deles... imagina na tela.

– É verdade... – disse Karan – você tem acompanhado as filmagens?

– Ativamente. Quero me tornar diretor, querido.

– Olha... – Karan sorriu seu sorriso de pantera para Tarble e disse – eu já dirigi alguns filmes... tem pique para isso, jovem?

– Oh se tenho! Se prepare, Karan. Não vai mais dar pra dizer que é o único gay assumido de Bollywood.


Com uma gargalhada para disfarçar sua irritação porque os convidados haviam conseguido fugir do constrangimento, Karan Johar encerrou a entrevista, fazendo Bulma suspirar aliviada. Tinha passado por sua primeira prova de fogo em Bollywood.

– O que achou da entrevista, Yanny? – Bulma perguntou para o noivo, que a pegara na emissora para jantarem juntos. Ele a olhou, distraidamente, enquanto manobrava o carro e disse:

– Bem... eu não assisti. Eu tive de sair de casa para te pegar aqui e...

– Oh... – Bulma tentou esconder o desapontamento. A emissora não era assim tão longe do apartamento de Yamcha para ele perder a entrevista toda apenas por se deslocar para busca-la.

– Mas depois eu assisto na internet – ele disse e deu um sorriso bonito – onde você quer jantar?

– Qualquer lugar que seja perto...

Eles jantavam num elegante restaurante à beira-mar, conversando banalidades. Bulma falava da entrevista e Yamcha escutava educadamente. Então ela falou sobre o momento em que Karan Johar exibiu as suas imagens com Vegeta e ele disse:

– O Karan é assim mesmo, querida... ele faz insinuações tolas.

– Você não se sentiria enciumado?

– Eu? Por quê?

Ela o encarou. Não era que ele devesse ser ciumento, mas o fato era que nada do que ela fizesse, absolutamente nada, parecia abalar Yamcha. Nem para o bem e nem para o mal. Ele sempre estava absolutamente calmo em relação aos dois, mas também nunca parecia empolgado com ela.

– Amanhã temos uma gravação importante – ela disse – o que você acha de aparecer por lá?

– Eu?

– É. Você não está gravando, está?

– Não... mas acho isso desnecessário. Parece que eu estou fiscalizando, sei lá...

– É uma cena de romance, a mais importante do filme... e eu pensei que você deveria estar lá...

– Para quê, Bulma? O romance na tela não é importante, não seja tão insegura...

Ela não disse nada. Mas decidiu naquele momento que a cena dela com Vegeta teria um beijo. E se ele não se importava, não precisava ser consultado.


No dia seguinte, o diretor restringiu a presença de pessoas no estúdio apenas às pessoas estritamente necessárias por ali. Vegeta usava um terno, porque era um momento após uma entrevista, antes de uma luta decisiva, já Bulma usava um sári sofisticado. Antes de gravar, Vegeta perguntou a Bulma, num canto:

– É isso mesmo que você quer, Bulma?

Bulma encarou Vegeta. Tão preocupado em deixa-la confortável, tão oposto àquela indiferença de Yamcha. Pena que ele nunca demonstrava nada além disso.

– Sim, Vegeta. É o que eu quero.

– É pelo filme? – ele perguntou, querendo perguntar algo mais, mas ainda sem saber como.

– Sim. Ela respondeu e os dois foram para a área de gravação. A cena era simples, a declaração definitiva de Shakti para Anjali e um pedido de casamento. Vegeta e ela estavam próximos quando ele pegou o rosto dela entre as mãos e disse:

– Anjali... você, você é que é a força que eu tenho. Você estava aqui comigo desde o princípio. Eu venci muitas lutas e passaram a me chamar assim, Shakti (força)... mas eu não seria nada sem você. Case comigo.

Ele disse isso e a beijou. Por um instante, a emoção tomou Bulma, porque ele a envolveu nos braços, e tudo mais desapareceu. Um beijo que tirou seu fôlego, mesmo sendo apenas um encostar de lábios, como era praxe em Bollywood. Então eles se separaram e ele disse:

– Eu te amo!

Bulma sorriu e os seus olhos estavam cheios de lágrimas. Por um instante, um fugaz instante ela quis que aquela declaração fosse de Vegeta para ela, não de Shakti para Anjali.

– Eu também te amo – ela sussurrou – Eu também te amo, Shakti.

Conforme o roteiro pedia, eles abraçaram-se e o diretor disse:

– CORTA!

Vegeta seguiu uns instantes abraçado a ela, percebendo que ela estava trêmula perguntou baixinho:

– Tudo bem?

– S-sim – ela disse, gaguejando – só fiquei nervosa.

– Normal – ele disse. – mas você foi muito bem.

Os dois ficaram em silêncio, abraçados por um instante. Vegeta querendo dizer algo mais, querendo dizer que realmente sentia algo por ela que jamais havia sentido por ninguém mais. Bulma quase pedindo que ele dissesse de novo que a amava, mesmo que fosse mentira... porque adorara escutar aquelas palavras.

Mas eles se limitaram a se separar e ir cada um para o seu trailer, tentando esquecer o que havia acontecido, fingindo que não os havia abalado.


Dias depois, um pouco antes de gravar sua participação em "Anarkali" era Goku que estava no sofá de Karan Johar, ao lado de Jiren, que era o mais monossilábico entrevistado que alguém podia imaginar. Karan tinha tentado arrancar qualquer coisa dele, mas o máximo que conseguia era uma ou outra resposta de duas palavras. Goku, por sua vez, era falante e engraçado, fazia a plateia rir com seus comentários por vezes ingênuos. Depois de exibir um excerto das participações de ambos nos respectivos reality shows da SFL que cada um havia participado, Jiren do de Caulcutá/Bengali e Goku do Mumbai/Déli. As cenas de Jiren sempre envolviam algo com ele silencioso, como uma sequência de treino em que ele lutava com um colega de olhos fechados. Já as de Goku envolviam seus momentos engraçados. Terminava com ele sendo beijado por Caulifla, num momento da segunda parte do show que ele realmente não gostara de ter sido flagrado.

– Uau! – disse Karan – um é uma máquina. É verdade que houve dias que seus companheiros ficaram 24 horas sem ouvir uma palavra sua, Jiren?

– É – ele disse com voz monocórdia.

– Mas o Goku aqui é um Show Man! Nós vimos recentemente ele aqui num clipe do filme Shakti – a plateia o interrompeu gritando e aplaudindo – que já passou de 12 milhões de visualizações! Maravilhoso, não?

Goku apenas sorriu e deu de ombros de um jeito modesto.

– Você e Chichi parecem especiais juntos. – disse Karan, começando a mudar seu tom para algo mais malicioso. – Vai ser lindo ver os dois na tela. Sua namorada está ok com isso?

Goku o encarou de um jeito estranho. Era como se ele estivesse perguntando algo absolutamente idiota. Que namorada? Então ele lembrou-se de Caulifla e disse apenas:

– Ela não tem o que dizer.

– Hum... parece que o Jiren aí te contaminou, resposta curta... – a plateia riu com vontade. Mas nós temos mais imagens aqui para comentar, Son Goku. Mostrem no telão.

O telão se iluminou e apareceu o trecho em que Goku falava de Chichi para Kuririn, e ele teve vontade de rir. Tinha sido quase um ano antes, apenas, aquilo parecia um sonho distante, ele e e Chichi. Então, apareceu outra imagem, essa estática. Goku não reconheceu imediatamente, mas depois, a sequência revelou ele e Chichi fotografados ao longe, abraçados diante da escadaria em Varanasi. Fotos amadoras, provavelmente feitas com um celular. Em seguida, ele e ela subindo as escadas de mãos dadas. Aquilo acendeu um sinal de alarme na mente dele. Era a carreira de Chichi, a reputação dela, que estaria em risco. Ele pensou rápido no que viria a seguir e no que diria.

– Então... – perguntou Karan Johar – essas imagens foram mandadas por um colaborador. São vocês dois em Varanasi.

– Sim – disse Goku, sério – eu estava em Varanasi para cumprir uma promessa e por acaso a encontrei por lá... ela estava num momento muito complicado. Chichi é uma grande amiga – ele disse, na esperança de encerrar o assunto.

– Vocês pareceram bem próximos.

– O momento de aspergir cinzas de alguém que se ama é sempre assim, emotivo – disse Goku, um pouco apreensivo.

– Bem... – disse Karan – mas essa proximidade de vocês vai ajudar nas filmagens... pode ocorrer muita coisa bombástica ainda, não? Ainda nem gravaram...

Querendo desesperadamente tirar o foco daquilo e de Chichi, Goku subitamente teve uma ideia. Era uma loucura, ele sabia, mas a ideia vinha brincando há dias na sua cabeça e ele pensara nisso várias vezes. Uma decisão difícil que ele, a princípio pensara em tomar em conjunto com Raditz, com quem ainda nem conversara. Mas era o ideal para tirar o foco daquele assunto:

– Ainda tenho uma novidade para o público – disse ele e Karan levantou uma sobrancelha, intrigado:

– Que é...? – o apresentador perguntou, sem ideia do que ele diria. Ele sempre tinha a pesquisa sobre os convidados em mãos para poder prever as respostas dos entrevistados e tudo que ele acreditava saber sobre Son Goku já havia sido abordado, era pelo menos o que ele acreditava.

– Bom... eu estive no meu médico recentemente e descobri que passei do peso para ser considerado um peso-médio. Meus treinos tem me tornado forte demais para a categoria.

– Sério? Então... vai se aposentar, deixar o cinturão vago ou algo assim?

– O cinturão vai ficar vago... – riu Goku – mas nada de aposentadoria, porque eu quero ir para o peso pesado. Eu me informei sobre isso e eu ainda não posso desafiar o Jiren aqui – ele apontou para o rapaz ao lado, que agora olhava para ele espantado – eu preciso de uma luta de entrada na categoria para isso.

– Nossa, isso sim é uma grande novidade – disse Karan, agora absolutamente chocado. Ninguém da SFL antecipara essa novidade para ele – E... tem alguém em mente?

– Eu soube que um antigo colega que sempre revelou vontade de lutar comigo anda desesperado por uma luta depois que perdeu o cinturão... então é por isso que eu quero dizer que desafio o Broly hoje para uma luta quando a SFL decidir. Ele está no rol dos pesos pesados e eu quero entrar. Pode ser a chance de ouro de um dos dois para provar quem é o mais forte – disse Goku, com um sorriso brilhante, ignorando o fato de Raditz ter surgido do lado de uma das câmeras vindo dos bastidores perguntando em mímica se ele tinha ficado doido. De repente, para realmente encerrar o assunto ele virou para as câmeras e disse – Broly, sempre disse que me venceria fácil. Abri mão do meu título para provar que quero lutar com você. E não vou perder!

A plateia foi ao delírio e Karan Johar não teve nada a fazer a não ser encerrar o programa.


Notas:

1. Shallot não é uma pedra no sapato apenas da Chichi e do Goku, mas do Raaja, afinal, tem 15% do estúdio. Será que essa treta tem solução?

2. Chichi se preocupa com a carreira com razão: em 2017 o filme Rangoon fracassou por conta de um escândalo entre a atriz Kangana Ranault e o ator Hrithik Roshan. A atriz teria tido um romance com ele, que era recém divorciado e tentava supostamente retomar o casamento, mas o tanto que repórteres reviraram a história – que foi ficando cada vez mais feia – enterraram de vez essa possibilidade.

3. Beijos, como eu disse antes, são raridade em filmes de Bollywood e normalmente repercutem para os parceiros dos envolvidos na vida real, que são perturbados muito por repórteres. Bulma tinha essa preocupação com Yamcha, mas acabou tomando a decisão sozinha... significa?

4. Vegeta quer ter certeza sobre os sentimentos de Bulma, e para quem acha que ele é muito lento, queria dizer que eu tomei como inspiração alguns filmes indianos como Saawariya, Paardes e Parineeta, em que o galã se apaixona por uma moça comprometida e realmente não passa por cima do compromisso dela, porque isso é muito respeitado na cultura indiana.

5. Karan Johar é ator, diretor, produtor, roteirista e tem o citado programa de entrevistas onde costuma "emparedar" os entrevistados e muitas vezes, arrumar tretas. A citada Kangana Ranault num dos episódios mais controversos de todas as temporadas o confrontou diretamente sobre o nepotismo em Bollywood e acabou acusada por ele de ser "deselegante". Eu achei que seria fundamental para a história que eles fossem entrevistados.

6. Então é isso. Goku desafiou o Broly... e agora vamos ver o que vai acontecer.