Capítulo 27 – Allizwell (Tudo está bem)
– Você está LOUCO, Kakarotto? – Raditz, que levara o irmão até o estúdio do programa de Karan Johar no seu enorme SUV Mahindra totalmente preto, dirigia enquanto gritava com o irmão a caminho do apartamento deles em Church Gate. – tem noção que você acabou de jogar pela janela absolutamente tudo pelo qual você lutou nos últimos oito anos? O que deu em você, seu maldito irresponsável?
Goku riu do ataque do irmão e disse:
– A última vez que você gritou assim comigo foi quando eu cortei sua calça preta e roubei o choli vermelho da vizinha para me fantasiar de pirata no Holi, quando tinha dez anos... – ele tornou a rir – mas eu acho que não adianta muito agora, o que está feito está feito... eu vou achar legal se o Hitto ficar com o cinturão, sabia? Ele tem prioridade na disputa, pelas regras da SFL...
– Kakarotto, eu devia te dar uns tapas! É a situação mais séria da sua vida e você está BRINCANDO? Tem noção do que vai acontecer quando o senhor Sanjay Dutt e o senhor Raj Kundra souberem disso? Eles podem simplesmente te chutar para fora da liga, sabia? E desafiar ainda por cima o Brolly, seu maluco idiota! Você tem noção que ele pesa 123 quilos?
– O Jiren pesa 112 e derrotou ele.
– O Jiren é um sujeito fora da curva, ao contrário de você, ele é focado e concentrado.
– O Broly é pesado mas tem cintura dura. Eu sei exatamente como vencê-lo.
– O Broly pesa 20 quilos a mais que você e basta cair em cima para que você nem se mexa, seu idiota.
– Eu posso ficar mais forte se treinar pesado. Eu não ia conseguir voltar para 97 quilos, bhaee...
Eles pararam num semáforo. Raditz encarou o irmão, sério, enraivecido e disse:
– Independente de qualquer coisa, Kakarotto... por que fez essa loucura? Por que, sem falar comigo, sem perguntar com ninguém? E os contratos? E os patrocínios? Tem noção do risco que estamos correndo? Amanhã pode amanhecer simplesmente descoberto! Nosso apartamento não está totalmente pago, mas eu coloquei todo nosso capital em investimentos de longo prazo e baixo risco, que não nos dão liquidez! Agora a doceria da nossa maan está dando algum lucro, mas não sei se o rendimento cobre nossas despesas, tem ainda a carreira da Bulma, ela ainda não tem contrato para nenhum novo filme.
– Resumindo: tudo depende de mim, certo? – Goku disse, calmamente. – Eu sei que é ganhar ou voltar a entregar doces, irmão. Não se preocupe comigo. Se tiver de voltar a pilotar meu velho tuctuc por Andheri, volto. Melhor que passar fome e me tornar um lutador peso-médio medíocre que só vence lutas fáceis.
– Não foi por isso! – acusou Raditz – você queria tirar a atenção daquela garota que adora. Kakarotto, se ela te amasse também já tinha largado aquele sujeito rico...
– Você não sabe de nada, Raditz. Cale essa boca. Não esqueça que, por sua causa, eu estou preso àquela intragável da Caulifla até o Eid Mubarak. Não vejo a hora de me livrar dela.
– Que deve estar rindo de orelha a orelha. Se você perder, todos os lucros dos contratos, todas as aparições, vão para ela. O que você tinha na cabeça, Kakarotto?
O semáforo ficou verde e os dois seguiram, em silêncio. De repente, a multimídia do carro sinalizou que o telefone de Raditz tocava e ele sentiu um arrepio na espinha.
– É o senhor Raj Kundra – disse Raditz, olhando o painel. – Eu nem tenho noção do quanto ele deve estar PUTO com você...
– Atenda – disse Goku – se for para tomar bronca, melhor que seja logo.
Raditz hesitou e Goku apertou o botão de re ceber a ligação no painel e disse:
– Alô. Telefone do Raditz.
– Raditz seu malandrão! – gritou uma voz animada do outro lado – essa jogada foi sua? Me diga? Só pode ter sido você que teve essa ideia!
– Eu... – disse Raditz, hesitante.
– Os patrocinadores acabaram de ENLOUQUECER porque a internet não fala em outra coisa! Número um no trending tops do twitter, pode ver aí: #dewaarbravery e #Ibetondewaar.
– Bem... – começou Raditz.
– Raditz foi contra, senhor Kundra – disse Goku, rindo – a ideia foi minha. Não queria ser desclassificado, seria desonroso, e não consigo mais baixar o meu peso. Pode ligar para o doutor Beerus para confirmar.
– Eu liguei e ele me confirmou seu peso recente de 103 kg. Em quanto tempo acha que chega aos 105, 110? Precisamos ter um certo equilíbrio para sua luta com o Broly...
– Ele topou?
– Se topou? Você nos livrou de um problema, Goku! O Broly estava deprimido, chateado pela derrota e ele ainda está no nosso rol de lutadores, mas estava em baixa e não estávamos dispostos a pô-lo numa revanche contra o Jiren. Só a raiva que ele tinha de você para motivá-lo!
– Se é assim, acho que tenho que treinar um bocado – riu Goku. – Quando podemos marcar?
– No próximo evento, daqui a um mês e meio! Grave logo sua participação no filme da Sadala para não perder o foco! A luta é sua prioridade agora, ouviu bem?
Goku riu e disse:
– Claro, senhor Kundra. Vencer ou vencer.
– Vencer ou vencer. Assim que se fala. Gosto do Broly, mas vou apostar em você, garoto! E Raditz, amanhã venha ao nosso escritório. Seis novos patrocinadores estão querendo nosso Deewar!
Ele desligou e um silêncio breve se seguiu até que Raditz disse:
– Cacete. O povo realmente te ama, seu cabeça de vento! – ele deu uma gargalhada então – seis novos patrocinadores. Bahee... eu não sei se te bato ou se te abraço.
– Me bata. Preciso treinar.
Os dois deram uma risada alta e Goku disse:
– Mas duvido que o senhor Raj Kundra esteja realmente apostando em mim. Só que eu vou vencer, bhaee... eu vou vencer.
– Vencer ou vencer, Dewaar.
– Vencer ou vencer. – repetiu Goku, certo de que deveria ter o máximo de determinação para vencer Broly.
A gravação da participação de Goku como "Tyger", o lutador que tinha um romance com Anarkali foi gravada para três dias após a participação dele no programa de Karan Johar. Eram apenas cinco cenas, porque eles se conheciam apenas no terço final do filme, quando ela já havia superado as dificuldades e se tornava uma lutadora. A última cena dos dois juntos era uma externa gravada no Amarson's Park, uma área verde de Mumbai à beira mar, ao pôr do sol e foi a primeira a ser gravada, para espanto de Goku, que tinha decorado as falas em dois dias com a ajuda de Bulma.
Nenhuma das cenas era muito longa, mas as gravações, ainda assim, eram programadas para durar horas. Goku não se arrependia, mas sabia que tinha que fazer tudo mais certo possível, porque deveria começar a treinar duro e pesado todos os dias logo depois das gravações.
– Por que a primeira cena que a gente vai gravar é essa? Não é a última do filme? – ele perguntou, confuso, para Chichi, que gargalhou:
– O boletim meteorológico dizia que a partir de amanhã deve chover, não podíamos arriscar, Goku!
Shallot, que ao lado da cadeira do diretor acompanhava as filmagens não gostava daquela intimidade que os dois demonstravam. Como podiam conversar tão bem, como velhos conhecidos? Ele achava que tinham se visto pouquíssimas vezes. O ciúme o corroía porque Chichi simplesmente não sorria daquela forma para ele.
E ele realmente não engolira a história de que o encontro dos dois em Varanasi havia sido um mero acaso.
A cena foi gravada relativamente rápido e o diretor se surpreendeu com a naturalidade de Goku ao contracenar com Chichi.
– Então – dizia Tyger, o personagem de Goku – agora você é uma campeã. Não há mais nenhuma desculpa para não tomar um sorvete comigo.
– Dieta – disse Chichi, e sorriu – mas hoje eu posso abrir uma exceção.
Os dois se aproximaram de uma carrocinha de sorvetes cenográfica e pegavam cada um seu sorvete, e saíam andando em direção ao pôr do sol. Mais adiante, ao comando do diretor, de uma vez, as mãos dos dois enlaçavam-se e eles seguiam andando juntos. O final perfeito e romântico que seria completado por um clipe dos dois dançando juntos que seria gravado em estúdio no último dia de gravações.
No dia seguinte gravaram as primeiras cenas dos dois juntos, num estúdio que simulava um centro de treinamento da SFL. A primeira cena era um convite de Tyger para Anarkali para tomar sorvete depois do treino, que era respondido com um inflamado discurso dela sobre a determinação em ser campeã não deixar espaço para nada além do treinamento.
Tyger então respondia com um sorriso e dizia apenas:
– Você vai ser campeã. E aí vai me dever um sorvete.
Ao longo da terceira parte do filme, havia pequenas interações como Tyger aparecendo do nada e dando um squeeze de água para Anarkali que parecia exausta, e então seguindo em frente depois de virar e dar uma piscadela para ela, acenos ao longe durante o treinamento e outras pequenas bobagens. Mas, no fim do dia, gravaram a cena mais significativa dos dois juntos.
Anarkali parecia frustrada num canto, depois de um treino particularmente difícil e Tyger, a essa altura campeão, a abordava.
– O que houve, garota? – ele perguntava, com uma bolsa de treino a tiracolo, como que pronto para deixar o ginásio.
– Não sei porque acreditei. Não é porque sou irmã de um lutador vencedor que posso também ser campeã... eu... fui muito mal hoje e minha luta está chegando. – ela olhava para o rapaz e dizia – acho que nunca vou vencer.
– Levante-se – dizia Tyger, jogando a bolsa de academia no chão.
– O que pensa que está fazendo?
– Treinando uma campeã – ele sorria para ela e dizia – onde foi seu treinador?
– Desistiu por hoje. Disse que sou muito insegura.
– Então, levante-se, Anarkali – ele gritou, e ela levantou-se, o encarando.
– É a sua vez, é a sua chance e pode ser a última – ele disse, olhando diretamente para ela e abrindo as mãos espalmadas – bata aqui, e aqui, acerte. Use toda sua força.
Eles se encararam um instante e ele gritou:
– Bata, Anarkali!
Chichi, interpretando Anarkali começou sua série de socos e chutes, acertando as mãos de Goku, que amparava os golpes e gritava, para motivá-la:
– Agora chute, use a sua força, Anarkali, você é forte. Você pode!
Ela chutava e gritava e a cena, para quem via no estúdio, era espetacular, porque não parecia que Goku jamais havia atuado. De repente, Vegeta sussurrou para Bulma, que, como ele, observava de longe:
– O miserável é um gênio... como ele conseguiu isso sem nunca ter atuado?
– Porque ele não está atuando, seu bobo – sussurrou Bulma – ele é assim mesmo. Quando você e Tarble escreveram esse roteiro por acaso criaram um lutador igual ao meu irmão.
Vegeta riu e ficou observando a cena até o clímax, com Anarkali terminando com as duas mãos seguras pelas dele e os dois se encarando com os rostos muito próximos e ele dizendo:
– Seja campeã. Você pode. – ele então retomava a bolsa de academia no chão, olhava para ela de lado e dizia – e vai me dever um sorvete.
Quando o diretor disse "corta" quase todos no estúdio aplaudiram. Era difícil conseguir uma cena daquelas de primeira, mas tinha sido a tomada perfeita, que foi vista e revista nos monitores de vídeo até que todos foram dispensados e Goku deu uma piscadela marota em direção a Chichi que sorriu.
– Se estou dispensado, vou treinar. Ainda está cedo! – ele sorriu e disse – te vejo amanhã.
Quando ele se afastou, a única pessoa no estúdio a não aplaudir a performance apareceu do lado dela.
– Não gosto desse sujeito perto de você – disse Shallot para Chichi, que respondeu secamente:
– E eu não gosto de você pegando no meu pé. Vou ao trailer porque tenho outras cenas para fazer e preciso me aprontar para elas.
Shallot a viu se afastando, na mesma direção que ia Goku, e ficou irritado. Ia seguir atrás dela, mas Vegeta o abordou para falar sobre qualquer bobagem e o atrasou.
Fora da vista de todos, num corredor do estúdio, Chichi alcançou Goku e disse:
– Você não devia ter desafiado Broly. Eu estou preocupada, Goku!
Ele virou-se para ela e disse:
– Não se preocupe. Vou treinar duro e vou vencê-lo.
Ela o olhou, séria e disse:
– Me diga que não fez isso para que parassem de falar do nosso encontro em Varanasi.
Ele olhou para os lados, viu o corredor vazio e disse no ouvido dela:
– Pararam de falar nisso, não pararam? Mas eu sempre quis bater no Broly. – ele deu um beijo no rosto dela e saiu correndo pelo corredor gritando mais adiante – e eu preciso treinar muito!
No dia seguinte, o último em que gravariam, era prevista uma rotina cansativa. Pela manhã, ele gravaria junto com um dublê cenas da "luta" de Tyger, num estúdio simulando um octógono com poucos figurantes e um fundo verde. O outro ator era, na verdade, um dublê que normalmente trabalhava com Yamcha, chamado Piccolo. Ele tinha porte e biotipo de lutador, e ele e Goku conversaram brevemente sobre como seria a luta, que não duraria mais que 3 minutos na tela, mas era importante por causa da presença de Anarkali na plateia e uma breve troca de olhares entre ela e Tyger.
– Já lutou? – perguntou Goku para Piccolo que disse:
– Brevemente, na adolescência, participei de um torneio e fiquei em segundo lugar.
– O diretor quer uma troca de soco e umas pegadas, chutes, um mata-leão... vamos ensaiar um pouco antes.
– Tudo bem.
Vegeta e Bulma assistiam a tudo. As filmagens deles estavam praticamente concluídas, mas os dois acabavam se encontrando sempre nas filmagens de Anarkali, onde apareciam em algumas cenas, como as que gravariam naquele dia. Estavam vendo o ensaio quando Vegeta perguntou:
– Vamos ter que começar a pensar na estreia de Shakti.
– Estreia? Mas é só no Eid, no meio do ano...
– Sim, mas teremos de ir a eventos, promoções... talvez fazer um segundo promo. Talvez só com nós dois, com uma das músicas que ainda estão inéditas e...
Vegeta pretendia se aproximar de Bulma, pensando a ausência constante de Yamcha da vida dela, imaginando que, talvez, ele pudesse acabar conquistando-a. O beijo dissera bastante sobre ela. Ele sentira que a abalara. Queria ter a oportunidade de beijá-la de verdade, e não num cenário de filme. Mas, exatamente no momento em que pensava em detalhar seus planos sentiu o inconfundível e enjoado perfume de Yamcha, que chegara nesse momento com um enorme buquê de calêndulas do tipo marigold, que entregou afetadamente para Bulma, que deu um gritinho de prazer:
– Para mim, Yanny?
– Sim. Flores para minha lótus azulada!
Ela se agarrou a ele e deu um beijo no rosto, como era combinado entre eles, que nunca se beijavam na boca em público, seguindo o protocolo hinduísta tradicional imposto por Yamcha.
– Que surpresa boa, Yamcha!
– Ah, eu vim ver o Piccolo, ele me avisou da gravação.
Vegeta olhou de um para o outro e, de repente, algo não soou bem para ele, que disse:
– Você não veio a nenhuma gravação de Shakti.
Yamcha olhou para ele, meio de lado e disse:
– Não tinha te visto aí, Vegeta, como está?
– Sério, não veio vê-la em nenhuma gravação. Por quê?
– Bem... eu estava gravando. Sabe que eu vou estrear um novo masala policial.
– Bem, pelo menos esse não vai mais se chamar "Badaboom". Já te disseram que é um nome idiota?
– Vegeta! – disse Bulma – que grosseria! Yamcha tinha compromissos. E veio hoje... qual o problema? Vai ficar até a tarde, Yanny? Vão gravar o musical final, vai ser lindo!
– Não, querida. Tenho um compromisso em Navi Mumbai, coisas da minha mãe... aliás, ela está me pressionando para procurar uma casa de casamentos... já disse que temos tempo, mas ela quer que nos casemos logo depois do Eid.
Bulma sorriu, radiante, e Vegeta sentiu seu coração afundar dentro do peito. O que ela via naquele sujeito afetado e almofadinha? Nem ele sabia. Devia ser uma ilusão antiga.
Enquanto isso, Piccolo e Goku tinham se entendido nos ensaios e o diretor começava a gravação. Os takes de Chichi tinham sido pré-gravados e ela nem precisava estar presente no estúdio. A gravação sequer pareceu uma luta de verdade para Goku, e, quando terminaram, ele se dirigiu a Vegeta e disse:
– Tem certeza que vai dar certo isso? Nem parecia mesmo uma luta, sabe? Parecia quase uma dança.
– Você não diz que "dança lutando", Kakarotto? Então, foi isso, mas quando editarmos vai ficar perfeito, o diretor é perito em lutas. – ele disse, sem desfazer a carranca. Nesse momento, Piccolo viu Yamcha e abriu um sorriso, indo na direção dele e de Bulma.
– Yamcha... você veio mesmo! Que bom. Bulma, você está linda. Vai gravar?
– Só um pedacinho com o Vegeta, nossos rostos para a luta, no meio da multidão. E uma fala curta com ele. Vai ficar para ver, Yanny?
Yamcha olhou para Piccolo, que disse, sério:
– Ele não sei, mas eu vou. Quero ver vocês em ação.
– Ah, vou ficar também – completou Yamcha. – mas vou ter que sair antes do meio dia.
– Ótimo – disse Bulma – Vamos, Vegeta, é nossa hora, os rapazes acabaram – ela disse, puxando Vegeta, que foi e ficou olhando para Yamcha e Piccolo, que, afastando-se um pouco de Goku, começaram a conversar em voz baixa. Ele sacudiu a cabeça. Precisava parar de pensar bobagens e se concentrar nas poucas cenas que gravaria naquele dia.
À tarde, Goku e Chichi se aprontaram para o clipe final, num cenário que simulava um octógono, mas muito estilizado e com tochas de fogo cenográfico e outras parafernálias. Chichi e Goku vestidos de vermelho com os figurantes de preto dançaram a coreografia de "Fight your dream", uma música que seria lançada também como promo do filme, com refrão em inglês porque havia a pretensão de fazer o filme (e a SFL) ser conhecido nos mercados externos.
Shallot assistia à gravação com uma raiva crescente. Ele simplesmente odiava aquele slumdog intrometido que parecia se entender tão bem com sua princesa, seu prêmio, sua futura esposa perfeita que agora já não parecia mais nem um pouco interessada nele.
Os dois riam juntos na gravação, a cada "corta" e a cada retomada de cena, numa sintonia que o incomodava mais que qualquer coisa. Aquele filme faria sucesso, ele sentia. O lucro tiraria Chichi para sempre de suas mãos. E ele não poderia sabotar o próprio estúdio porque tinha o seu dinheiro ali também, mas não queria perder Chichi, não depois de tanto investimento.
O diretor comandava os dois e Whis coordenava a coreografia, e ele ficava vendo Goku e Chichi aos risinhos, dançando e se aproximando, se agarrando numa cumplicidade e tensão sexual visíveis que o enchiam de ódio. Em um momento, estavam tão próximos, olhando-se nos olhos que pareciam prestes a se beijar e ele explodiu, gritando:
– Isso não!
O diretor virou-se para ver Shallot furioso. Goku e Chichi, ainda abraçados, olharam na direção dele, que tornou a gritar:
– Tire as mãos dela, slumdog imundo!
Goku fechou a cara e disse:
– Estamos apenas gravando.
– Eu estou vendo você se aproveitando disso, seu sujo, sem classe e sem casta. Ela é minha, entendeu, ela sempre vai ser minha.
Goku cruzou os braços. Ele não queria brigar com Shallot porque sabia que seria covardia. Olhou para Chichi, que mirava Shallot entre apavorada com o escândalo e indignada pelas palavras dele e disse:
– Eu estou farto de você. Você sem o seu dinheiro é nada. Nunca fez nada de importante por ninguém. Chichi é boa demais para você.
– É mesmo, seu insignificante? E ela é boa suficiente para quem? Para você?
– Não. Ela é melhor que eu, que você. Ela não precisa de nada e ninguém para brilhar. Se você não percebe isso, vai perde-la. E vai ser bem feito.
O rosto de Shallot se contraiu num esgar irônico e ele se aproximou dos dois. O diretor tentava contemporizar, afinal, era o produtor do filme. Ele chegou em frente a Goku e disse baixo:
– Se eu perde-la para você não importa tanto para mim quanto vai importar para você ter uma mulher que já foi... usada.
Goku levantou a mão para socá-lo, mas Chichi segurou-o. Shallot disse:
– Não o impeça. Deixe que ele mostre do que é feito, esse lixo do resto de Mumbai.
– Não, Goku, não bata nele. – disse Chichi, ainda segurando-lhe o braço – ele vai usar isso contra você. É o que ele faz. Usa os outros. – ela então virou-se para Shallot e disse – Vá ao meu trailer. Na minha caixa de joias está aquele anel com o qual você tentou me acorrentar. Pegue-o. Suma da minha frente. Suma da minha vida. Eu não quero te ver nunca mais, Shallot. Acabou.
Ele olhou para Chichi, espantado e disse:
– Mas...
– Eu vou tomar parte da minha herança em breve e fiz um levantamento. Vou passar meu avião para o seu nome, paga mais do que eu te devo. E faça bom proveito enchendo-o com as vadias que você pensa que eu não sei que se deitam com você em Mumbai e na América, seu falso moralista de merda.
O silêncio caiu no estúdio. De repente, a voz de Raaja Vegeta trovejou. Algum segurança o convocara de seu escritório quando a confusão começou e ele viera correndo:
– Se isso que aconteceu aqui vazar para a imprensa, ninguém mais da técnica, da figuração ou da produção vai conseguir qualquer trabalho em Bollywood... Goku, Chichi, Shallot, venham comigo.
O escritório de Raaja Vegeta nos estúdios Sadala era uma sala pequena, se comparada ao da produtora, em Chowpatti. Mas era a maior sala do estúdio dedicada a um escritório.
– Sentem-se – ele disse para os três. – quero saber o que aconteceu.
– Esse slumdog nojento estava com as mãos em Chichi e...
– Cale essa boca, Shallot. Goku é nosso contratado. Cada ofensa que dirigiu a ele foi gravada e pode render a você um belo processo. E eu sei que seu pai não ia gostar nadinha disso.
Shallot empalideceu.
– Vou reformular a pergunta: antes do ataque de Shallot, vocês dois faziam algo que não fosse relacionado àquilo que gravavam?
– Não, senhor – disse Chichi – era apenas parte do vídeo. Shallot perdeu o controle.
– Entendo. – ele olhou para Shallot e disse – você sabe coisas sobre Chichi que destruiriam a carreira dela. Mas eu sei coisas sobre suas viagens a Dubai e à America e o seu consumo de substâncias ilícitas, principalmente para aqueles que professam seriamente a sua religião, como o seu pai, que o poriam em sérios apuros e eu tenho tudo documentado, inclusive com fotos. Se fizer um único movimento para prejudica-la, eu acabo com você. Ela não é apenas a minha estrela. Ela é minha filha. Suma daqui. Seu dinheiro com o filme está garantido, mas a sua parte do estúdio vai ser vendida. Eu já tenho compradores. Não se atreva a contestar ou eu acabo contigo. Vai receber um preço justo. E nunca mais se meta no meu caminho ou vai se arrepender. Juro que vai.
Shallot, sem ter o que dizer, levantou-se e saiu, bufando, furioso. Mais uma vez Raaja acabava com ele. O produtor então voltou seus olhos para Goku, antes de dizer:
– Você supostamente tem namorada.
– Contratos, senhor. Eu não a amo. Mas tenho contratos a envolvendo até Julho.
– Então sabe que se qualquer coisa em relação a esses contratos prejudicar a carreira da minha Chichi, você vai voltar para aquela favela de onde saiu mais rápido que possa pronunciar seu próprio nome. Chichi tem honra e nome a zelar. Respeite-a.
Goku levantou-se e estendeu a mão para Raaja, dizendo:
– Prometo que sim, senhor. E eu nunca descumpro uma promessa.
Raaja sorriu e apertou a mão que Goku estendia. Por algum motivo, pela primeira vez em anos, sentiu que não precisava de papéis, garantias, lastros para a palavra daquele com quem tratava.
O garoto de Mumbai tinha honra, e ele sabia disso.
Notas:
1. Então... Goku marcou um ponto e sua popularidade aumentou. Mas ele não pode perder para o Broly!
2. Vegeta e Bulma seguem com o Yamcha como pedra no sapato. Mas a frieza dele com a Bulma pode ser uma vantagem para Vegeta.
3. Chichi está livre de Shallot, mas ela pagou um bom preço. E agora, quando Goku vai estar livre para ficar com ela?
4. O termo "Allizwell" é muito usado pelos indianos quando querem assegurar a uma pessoa que está tudo sob controle, como Goku fez com Raditz no começo do capítulo, também é uma canção do ótimo filme "3 idiots" com Aamir Khan.
