Capítulo 29 – Holi hai!

Onde ele estava, a dor havia desaparecido de repente. A princípio, estava escuro, e, então, clareou e ele abriu os olhos. Tudo estava iluminado, ou antes, luminoso, como se o ambiente inteiro fosse brilhante, azulado como se imaginava que era o palácio sagrado de Krishna nos céus.

Goku olhava para aquela luz, maravilhado, sentindo uma paz invadi-lo e, de repente, viu diante de si um vulto tomando forma:

– Pai? – ele perguntou, surpreso, porque lá estava ele, exatamente como se lembrava: o porte, a altura, a pele morena e os cabelos arrepiados, o bigode preto cuidadosamente cultivado, e a cicatriz na face, produto de um confronto com um criminoso que ele gostava tanto de contar.

– Lutou bem e venceu, filho – sorriu Bardock e Goku sentiu as mãos do pai apertando seus braços, como ele fazia quando ele era garoto e vinha contar que tinha feito muitos pontos num jogo de cricket – eu estou muito orgulhoso!

– Pai, eu... – ele tentou abraçar Bardock, mas o pai o deteve e disse:

– Você precisa voltar!

– Voltar para onde, pai? – o aperto de Bardock se tornou mais forte e ele disse:

– Volte agora, filho!

Bardock empurrou Goku, que se sentiu puxado para baixo, como se estivesse sendo sugado e, de repente, um impacto nas suas costas. Ainda sentia como se Bardock o segurasse, mas, subitamente, a dor de cabeça voltou e ele ouviu seu nome:

– Goku, volte!

Num estalo, ele abriu os olhos e sentiu-se confuso. Havia luz, realmente, mas ele estava no chão, no corredor que levava à sala de imprensa, mas não percebeu isso, na verdade, a sensação de não saber onde estava perdurava. Havia uma mulher debruçada sobre ele que disse:

– Voltou, preparem a maca!

Ele tentou dizer qualquer coisa, mas a mulher disse:

– Fique de olhos abertos e não durma!

Ele viu Raditz logo atrás da mulher e viu que seguranças fechavam o acesso da sala de imprensa e logo dois homens de branco do corpo de enfermagem e medicina da SFL chegavam com uma maca de rodas, que foi baixada para que ele subisse.

– Acomode-se e fique comigo, senhor Goku! – disse a moça – vamos leva-lo para o hospital Wockhard, aparentemente o senhor teve uma concussão cerebral...

Bhaee? – ele esticou o braço para Raditz, que ia atrás, acompanhando a maca e ela disse:

– Ele vai conosco na UTI móvel, precisamos de um parente seu para dar entrada, com documentos e tudo.

Raditz já tinha pego a pasta com os documentos e o celular de Goku que era deixada sempre no escritório da SFL antes da luta, para o caso de uma saída de emergência como aquela, e seguia, sério, enquanto Goku era levado para a ambulância que o levaria para o hospital.

Em cerca de 10 minutos a ambulância entrava no hospital e Goku era levado direto para um exame mais preciso. Raditz ficou na recepção preenchendo papeis até que viu a mãe e a irmã chegando com Yamcha e Caulifla.

– Onde ele está? Como está? – perguntou Gine, agarrando o filho pelos ombros. – meu pobre Kakarotto!

– Calma, mãe... levaram ele para fazer exames, mas acho que vai estar tudo bem, ele só está um pouco confuso.

– Quero vê-lo! – disse Gine, agarrada ao braço de Raditz que disse, calmamente:

– Tudo que podemos fazer agora é esperar que tragam notícias. Mas ele estava consciente por todo trajeto e a médica da SFL que fez o primeiro atendimento disse que isso é bom. Deixe-me terminar de preencher os papeis e vamos ver se conseguimos notícias.

Bulma levou a mãe, seguida por Yamcha, para sentar-se na recepção. Caulifla, visivelmente deslocada por sua falta de intimidade com a família do praticamente ex-namorado, sentou-se um pouco distante, com ar aborrecido. Logo Raditz vinha com um copo de água para a mãe e disse:

– Eu perguntei, parece que ele vai fazer uma tomografia e alguns outros exames, mantenha a calma, mãe!

Depois de meia hora de angustiante espera, a médica da SFL apareceu e Raditz foi direto até ela.

– Então? Como ele está?

A médica sorriu brevemente para Raditz antes de dizer:

– Boa noite, eu sou a doutora Arale. Calma, vai ficar tudo bem... ele está sendo examinado por um neurologista agora, porque está um pouco confuso e com uma pequena perda de memória... aparentemente a luta foi apagada da cabeça dele, mas isso é temporário, típico de uma concussão leve... quando tudo acabar vocês vão poder falar com ele, mas não todos de uma vez... acredito que ele não vai precisar ir para a UTI.

Yamcha, que seguiu Bulma quando ela se levantou para falar com a médica, ficou observando a conversa por um tempo, e, quando terminou disse a namorada:

– Bulma, você sabe que preciso viajar amanhã cedo para os Estados Unidos para a finalização dos efeitos especiais do meu filme... eu não posso passar a noite aqui com você...

Bulma não disse nada, Mas sentia-se desapontada, porque esperava que ele adiasse a viagem, mas ele seguiu justificando-se:

– Olha... se eu pudesse adiar, mas a agenda dos caras é apertada, não tem como cancelar e...

– Tudo bem, Yanny – ela disse – eu entendo...

– Olha, eu posso deixar o meu carro com motorista à disposição de vocês e...

– Não precisa, – disse Raditz, se metendo na conversa – a SFL vai nos dar total suporte, Yamcha. A gente te entende. Pode ir...

O rapaz encarou Raditz, que o olhava com um ar de irritação e se despediu de Bulma, saindo pela porta do hospital sem olhar para trás. Não demorou mais do que dez minutos para que um burburinho começasse entre as recepcionistas. Bulma olhou para a porta e seu rosto se iluminou, porque Vegeta vinha chegando com Chichi, o que fez Caulifla fechar a cara numa carranca.

As recepcionistas se acotovelaram para falar com Vegeta, o que não havia acontecido antes, com Yamcha, e Bulma sentiu-se um tanto indignada porque percebeu Vegeta jogando algum charme para elas, talvez atrás de informações. Mas nesse instante Chichi a enxergou e veio até ela, acelerando o passo quando Bulma deu um sorriso encorajador que a fez abraçá-la, aflita.

– Ai Bulma, como ele está, tem alguma notícia?

– Ele passou por exames, mas parece que foi só um susto! O neurologista está com ele, daqui a pouco teremos notícias.

De repente, os olhos de Chichi se encontraram com os de Caulifla, que se levantou e perguntou, irritada:

– O que você veio fazer aqui?

Chichi a encarou, altiva e disse:

– Que eu saiba não estou proibida de me preocupar com Goku.

– Você não tem nada o que fazer aqui. Não é nada dele! – respondeu, agressivamente, Caulifla, ao que Bulma interrompeu, gentilmente:

– Caulifla... eu sei que você gosta ainda do meu irmão, mas acho que tem que se conformar porque assim que os contratos de imagem conjuntos acabarem, o suposto namoro de vocês acaba, porque o namoro de fato acabou antes, não foi?

Caulifla encarou Bulma, irritada e disse:

– Mas... eu que devo aparecer ao lado dele, se a imprensa aparecer e...

– Se a imprensa aparecer eu e o Ditz colocamos eles para correr. É nosso irmão que está internado e isso aqui não é um circo, é um hospital. O que interessa aqui é a recuperação dele e não seus contratos de mídia.

Caulifla fechou a cara e tornou a sentar-se sozinha no canto da recepção.


Quase duas horas depois, outro médico apareceu e disse que eles estavam liberados, três de cada vez, a passarem apenas 5 minutos no quarto com Goku. O médico então perguntou quem poderia acompanhar Goku durante a internação de 48 horas para observação e Gine, antes que qualquer um dissesse qualquer coisa clamou:

– Claro que eu que vou ser a acompanhante. Eu sou A MÃE dele.

Ninguém se atreveu a contestar.

Gine, Bulma e Raditz entraram primeiro. Goku estava recostado na cama com um grande sorriso e Gine praticamente pulou sobre a cama e o abraçou, dizendo:

– Pri Beta (filho adorado)! Como você pode fazer isso com a sua mãe, eu estava apavorada!

Ele riu e disse:

– Foi só um susto, mãe... a cabeça tava doendo mas eles me deram um negócio aí pela veia que fez a dor passar, mas parece que eu não posso dormir...

– Como eles conseguiram te furar, Kakarotto? – perguntou Raditz, em tom de zombaria ao ver os acessos para soro na mão do irmão.

– Bom... eu tava meio grogue e a médica me distraiu. Quando eu vi já tinham posto esse negócio aí – ele riu – e ela disse que isso era para não darem nenhuma injeção e aí achei até melhor...

– É verdade que esqueceu da luta, bhaee? – perguntou Bulma, parecendo aflita.

– Olha... a última lembrança que eu tenho é do vestiário. Lembro de ter visto vocês e... a Chichi! Ela sabe que eu estou aqui no hospital?

– Claro que sabe, seu tonto – riu Bulma – ela está lá fora esperando com o Vegeta e... a Caulifla.

Goku pôs a mão na testa e disse:

– Não acredito... isso deve ser muito ruim. Bulma, e o seu namorado? Ele foi embora?

– Viaja amanhã bem cedo e não pôde ficar – ela olhou o relógio – afinal, já passa de duas da manhã.

– O médico disse que só posso dormir depois das quatro – Goku sorriu – e me fez um monte de perguntas pra ver se eu estava pirado. Vai todo mundo ficar aqui?

– O médico disse que você só pode ter um acompanhante, e vai ser a maan – disse Raditz – eu vou levar a Bulma em casa e trazer roupas para ela ficar por aqui. Amanhã eu e a Bulma podemos voltar e...

– Vocês não vão ao Holi? Bulma sempre adorou o Holi.

– Kakarotto, você está hospitalizado... – disse Raditz, espantado.

– Sim, eu estou, mas vocês dois não! Eu sei que você é chato e detesta se sujar com o pó do Holi, mas a Bulma sempre gostou. Não é justo com ela...

– Bhaee... eu não me importo e... – Bulma começou e Goku disse:

– Já sei o que fazer. Raditz, chame o Vegeta aqui.

– Não podem entrar mais que três pessoas no quarto, bhaee... o médico disse que você ia ficar confuso e...

– Não vou ficar confuso só porque o Vegeta vai entrar aqui, anda. Chama ele lá.

Raditz saiu e um minuto depois voltava com Vegeta, que disse:

– Vem cá, Kakarotto, ficou doido? Teu irmão disse que você me chamou antes daquelas duas que estão lá fora a um passo de se estapearem?

– Quero só que me prometa uma coisa, Vegeta.

– Prometer?

– É, prometer. Favor de amigo.

Vegeta abriu os braços, numa expressão de confusão e Goku disse:

– Leve minha irmã amanhã a uma festa do Holi. Eu sempre ia com ela mas esse ano estou aqui e ela não deve perder a festa que ama.

Vegeta e Bulma se entreolharam, constrangidos. Goku parecia firme na sua decisão, mesmo tendo batido a cabeça tão forte. Então Vegeta disse:

– Se ela quiser... eu não me importo. Tem uma festa boa e exclusiva num hotel em Nariman... se ela quiser, claro.

– Eu vou – disse Bulma, de repente. Raditz e a mãe se entreolharam e Goku sorriu – mas é só porque bhaee pediu.

– Divirtam-se. – disse Goku. Ele virou-se para a mãe e disse: – maan, quero falar um pouco a sós com a Caulifla e com a Chichi, uma de cada vez... a Cauliflla primeiro, ok?

A mãe concordou e todos saíram. Caulifla entrou no quarto e disse, animada:

– E aí, velhote... quis falar comigo a sós por que? Por acaso sua batida na cabeça te fez reconsiderar e...

– Caulifla, eu agradeço a sua visita. Foi muito legal da sua parte vir. Mas você sabe que eu amo a Chichi, não sabe?

Ela fechou a cara.

– Eu também não acho justo te prender a esse compromisso por contrato. Mas se quiser, quando eu sair daqui, falo com bhaee e nós dois chegamos a um acordo... para livrar nós dois disso e...

– Você acha que só porque ganhou três crore numa luta pode se livrar de mim assim?

– Não – ele disse, fechando a cara – mas eu acho que quase morri hoje. E descobri que ia morrer preso a alguém que eu nunca amei. Vai que eu sofro um acidente, sei lá... não é certo posarmos de namorados se não temos mais nada.

Ela o encarou, recostado no leito do hospital. Se amaldiçoou por ainda o achar atraente e por seu orgulho ferido pelo término da relação. Então disse, parte por puro orgulho, parte apenas porque gostava de ser irritante:

– Não vai se livrar de mim tão cedo, velhote. Se quiser posar de namoradinho da atriz medíocre, espere até julho.

Ela saiu, irritada, e Goku deu um suspiro profundo. Um instante depois, no entanto, a cabeça de Chichi apareceu no vão da porta e ele sorriu. Sem dizer nada, ela foi até a cama e sentou-se na beiradinha perguntando:

– Você está bem?

Ignorando qualquer risco, Goku a puxou para si e a beijou profundamente, com vontade, envolvendo-a com seus braços. Quando separaram-se, ela disse:

– Seu doido! Não pode fazer isso.

– Não posso é não fazer – disse ele segurando o queixo dela e mordendo o lábio inferior num riso maroto – minha última lembrança é você no telão, sabia? Queria até me lembrar da luta... mas tudo se apagou da minha cabeça.

– A cada soco que você levava eu tinha vontade de chorar – ela disse, com um ar aflito – e quando ele caiu, depois que você o encheu de socos... foi um alívio para mim. Aí quando veio a notícia eu tive tanto medo... – uma lágrima solitária desceu pelo rosto dela e ele enxugou, dizendo:

– Mas eu estou aqui. Foi só um susto. Tentei fazer um acordo com a Caulifla para acabar a nossa farsa, mas ela não topou – ele deu um suspiro – mas falta pouco. No Eid, quando seu filme for lançado, vou finalmente estar livre! E vamos ficar juntos.

Ele a puxou para mais um beijo e então, Gine entrou no quarto e disse:

– Muito bem, muito bem... sei que estão apaixonados, mas o Kakarotto tem que descansar.

Goku separou-se de Chichi, rindo e disse:

– Chichi... essa é a dona Gine Sayajin, minha mãe...

Chichi deu um pulo e se postou diante de Gine, sabendo que deveria ter uma atitude respeitosa com a mãe dele. Juntou as mãos diante de si e disse:

– Namastê, senhora Sayajin! – ela então, como o costume, se antecipou para tocar os pés de Gine, com o respeito devido, mas ela impediu, dizendo:

– Sou sua futura sogra! Não precisa tocar meus pés, querida! Aceito-te como aquela que vai fazer um filho feliz! – Gine então tomou o rosto de Chichi entre as mãos e disse – Como é linda. Mais que no cinema. Não vejo a hora de ver os dois casados.

– Obrigada – disse Chichi, sem jeito. – espero que a senhora tenha uma boa noite aqui... hospitais são complicados para mim. Não tenho boas recordações...

– Fique tranquila, vou cuidar do meu Kakarotto. E ele vai ficar bem, garanto! Meu coração de mãe me diz isso.

Chichi saiu, sentindo-se menos aflita. Goku, afinal, estava bem.

Quando estavam à sós, finalmente, Goku olhou para a mãe e disse:

– Mãe... quando eu estava desacordado eu vi uma coisa...

E, diante dos olhos cheios de lágrimas da mãe, contou a visão que tivera com o pai


No dia seguinte, por volta de duas da tarde, a Ferrari de Vegeta parou diante do prédio onde a família de Goku morava. Por toda cidade, havia pontos onde se celebrava o Holi no meio da rua desde cedo. Mas Vegeta, apenas para cumprir a promessa a Goku e porque queria ficar perto de Bulma, optara por leva-la a uma festa privada num hotel com convites caríssimos que ele comprara logo cedo. Se ia se lambuzar com as tintas do Holi, que ele mesmo não gostava tanto, pelo menos que fosse num ambiente para ele familiar.

Bulma desceu, usando um sári claro como mandava a tradição, para que pudesse acabar colorido. Ele ainda se surpreendia com o quanto ela o encantava mesmo vestida de forma simples. Ela entrou no carro, sorrindo, e disse:

– Onde vamos?

– No Marriot, em Nariman.

– Nariman tem festa na rua também, não tem?

– Sim, mas nós não podemos ir para uma festa de rua. Você vê o que acontece comigo quando tento socializar em lugares públicos. – ele disse, parecendo aborrecido e ela riu com vontade:

– Como você é metido, Vegeta!

– É um fato, oras, sou famoso. Mulheres sempre me assediam, você vê...

– Eu nunca te assediei.

– Porque é uma mulher vulgar e metida. E porque achava que aquele sem graça do Yamcha era o homem mais lindo do mundo...

– Ainda acho. Vou me casar com ele. – ela provocou, para ver qual seria a reação dele, mas acabou decepcionada.

Vegeta emudeceu. Queria dizer algo espirituoso, mas o fato é que a ideia dela casando com Yamcha simplesmente o derrotava. Logo chegaram ao hotel e ele, usando a entrada exclusiva para celebridades, entregou os convites e a levou para o hotel. Como o Holi era um festival, por excelência, diurno, a festa já estava animadíssima quando chegaram. Havia celebridades do cinema e outros ricaços por ali e Tarble veio do meio do terraço completamente coberto de pó cor de rosa de braços abertos para eles:

Bhaee! Bulminha! Vamos, está animadíssimo. Dizem que vão liberar a piscina no final da festa, imagina que lindo, a piscina toda colorida!

– Esse pó aí não é tóxico, é? – perguntou Vegeta, fazendo o irmão torcer a cara para ele.

– Aqui é o Marriot! Acha que vão usar pigmento rico em chumbo ou pó radiotivo? E se fosse, é o Holi!

Ele fechou a cara. Bulma segurou a mão de Tarble e disse:

– Não vejo a hora de colorir esse chato do seu irmão! Como pode ser tão azedo?

– Por ele – disse o rapaz – não se usaria uma grama de pó colorido no Holi, sempre foi assim, desde criança. Festas assim, fechadas não são tão legais quanto as de rua, não acha?

– Sempre brinquei na rua! Em Andheri era muito divertido!

– Aqui não é Andheri, mas vamos nos divertir – ele arrastou Bulma para o meio do largo pátio, aquela hora ensolarado e repleto de pessoas dançando. Foram para perto de onde havia grandes potes cheios de pó colorido, e seus significados: amarelo-sol, prosperidade; laranja, alegria; vermelho, riqueza; azul, calma; roxo, felicidade; verde, saúde e rosa, amor. Bulma olhou para Tarble, rosa da cabeça aos pés e disse:

– Isso tudo é vontade de arrumar namorado? – ele riu e disse:

– Sou todo amor! – ele então baixou o a voz e disse – Que cor vamos jogar no meu irmão?

– Não acha melhor antes darmos um copo de bhang (leite com sementes de maconha) para ele?

– Certamente! Mas você tem que tomar também!

Os dois gargalharam juntos e Vegeta, que ficara mais atrás perguntou:

– O que estão tramando?

– Nada! Eu e Bulma vamos ali pegar um copo de bhang!

– Tá louco, Tarble? Os irmãos dela me matam se souberem que eu a deixei beber isso!

– Meus irmãos não mandam em mim, tomo bhang no Holi desde os 16 anos, Vegeta... você deveria tomar também! – disse ela, dando o braço a Tarble e se sujando também de rosa, como o rapaz. Vegeta os seguiu, aborrecido. Viu quando Bulma serviu-se de um copo da bebida e ficou apreensivo, mas o irmão deu um copo para ele também e disse:

– Relaxa, bhaee... é o Holi. Tudo pode acontecer!

– É, inclusive, nada... – disse ele, ainda mau humorado.

– Com um copo de bhang é improvável que nada aconteça – riu Tarble, empurrando o copo de Vegeta na direção dele com um sorriso malicioso antes de deixar os dois um de frente para o outro, cada um com seu copo de bhang.

Bulma bebeu o dela de uma vez e riu tolamente. Vegeta ficou olhando para ela, sem saber muito o que dizer, e virou seu copo, sentindo o sabor doce e meio picante do leite entorpecente. Logo, sua cabeça estava um pouco leve e ele se sentia mais alegre. Bulma o puxou e disse:

– Ainda estamos sem cor nenhuma, Vegeta! – ela foi até o pote de pó laranja e disse: – é disso que você precisa, Vegeta! Laranja para alegria!

Ela o atingiu com uma mão cheia de pó, que manchou sua camisa branca e, em vez de se aborrecer, como imaginara que aconteceria, ele riu e pegou ele mesmo um tanto de pó vermelho e jogou nela dizendo:

– Você já tem muito, muito azul. Merece um pouco de vermelho para ser menos vulgar!

– Oh, sim, senhor príncipe de Bollywood – ela disse, enchendo a mão de pó azul – sei que adora o meu azul, então, tome um pouco dele para você! – quando o pó o atingiu, Vegeta acabou gargalhando e foi atrás de mais cores para jogar sobre ela, e ela sobre ele. E logo estavam os dois pulando na pista de dança loucamente, embalados pelo bhang, que tomaram juntos, rindo como crianças. Tarble eventualmente juntou-se a eles, e passaram, os três, a tarde toda rindo com as manchas de cores diferentes que conseguiam a cada tanto de pó que jogavam um no outro.

No fim da tarde, quando anoitecia, Vegeta puxou Bulma para a varanda e eles ficaram olhando o por de sol. Lá embaixo, numa praça, pessoas também seguiam jogando pó umas nas outras, aproveitando o tempo até o anoitecer, quando, segundo a tradição, era a hora de dar as boas vindas ao novo tempo que vinha com a primavera.

– Lá embaixo o pessoal também está se divertindo muito – ela apontou a praça. Vegeta, que olhava para o mar, colorido pelo pôr do sol, olhou para praça, sorriu e disse:

– Nunca tinha me divertido tanto num Holi. Sempre achei um festival idiota.

– Porque você não sabe se divertir – disse ela, passando a mão cheia de pó cor de rosa na bochecha dele, que riu e respondeu:

– Talvez nunca tenta aprendido, sempre preso em casa ou em colégios caros.

– Não é desculpa. Seu irmão é a pessoa mais divertida do mundo e foi criado como você!

Vegeta olhou para Tarble, pulando com um outro rapaz no meio da pista de dança e disse:

– Pois é. Ele tem essa alegria que eu não sei de onde veio e eu mesmo não tenho...

– Ah, Vegeta – Bulma pegou mais um copo de bhang de uma bandeja que passava e disse – tome mais bhang e fique mais alegre...

– Você já não tomou muito disso não? – ele perguntou, desconfiado, tentando contar mentalmente quantos copos ela tomara.

Ela riu e disse:

– No Holi nada é demais! – ela virou o copo e Vegeta se sentiu um pouco preocupado. Ela estava visivelmente alterada e já estava anoitecendo. Talvez fosse melhor levá-la para casa.

A piscina foi então liberada, e muitas pessoas, incluindo Bulma, correram, querendo aproveitar para tomar o banho de purificação em grande estilo. Vegeta acompanhou de longe, não querendo entrar na água sabendo que depois iria dirigir sua Ferrari. Subitamente, ele deu-se conta que Tarble não estava na água, e, quase ao mesmo tempo, o irmão surgiu ao lado dele, dizendo:

– Você gosta dela.

Vegeta fechou a cara e disse:

– Isso não é da sua conta.

– E digo mais. Gosta de um jeito que aquele noivo insosso nunca vai gostar. Devia roubá-la dele.

– Mas ela o ama. Vive dizendo isso.

– Desculpe, bhaee... mas acho que ela diz isso apenas porque acha que você não a ama... e o dia que souber, vai correr para você. Mas agora, eu diria que você deve aproveitar o momento, irmão... o bhang baixa as inibições.

– Não vou me aproveitar dela porque está dopada de bhang! – ele disse, irritado.

– Não estou falando dela, mas de você. Aproveite enquanto está assim, mas soltinho, e diga o que sente. Passe por cima desse orgulho tolo...

Ele olhou o irmão de lado e disse:

– Acho melhor levar Bulma para casa. Olha o estado dela...

Ele foi até a piscina e chamou Bulma, que quando saiu, , o sari ensopado grudado no corpo, revelando as curvas sensuais de seu corpo, jogou os braços em volta do pescoço dele rindo tolamente e disse:

– Vegeta, a água estava maravilhosa! Porque não vem pra piscina também?

Ele a encarou, sério, e ela então disse, de supetão:

– Me beija, Vegeta.

– O quê? – ele perguntou, subitamente surpreso.

– Me beija, vai... – ela disse, com os olhos entorpecidos de bhang. – aquele beijo do filme... ele mexeu tanto comigo. Yamcha não me beija daquele jeito... eu queria mais um beijo daquele, só um. Só hoje. Depois você pode esquecer tudo. A gente põe a culpa no bhang!

Ele fechou os olhos. Era um tremendo sacrifício não realizar o desejo dela. Tirou os braços dela de volta de seu pescoço e disse, sério:

– Você não devia ter tomado tanto bhang. Não está dizendo coisa com coisa. Vem, vou te levar para casa.

Bulma fez uma cara desapontada e disse:

– Vegeta...

– Eu não vou me aproveitar de uma mulher dopada. Nunca, Bulma.

"Por mais que eu te ame" ele apenas pensou, e não disse.

Ele a puxou pela mão, sentindo raiva de si mesmo porque a desejava muito, mais que nunca, mas não a queria daquela forma, entorpecida e eufórica por causa de uma festa idiota.

Logo estavam no carro dele, que cobriu o banco com uma toalha para que ela não o molhasse e sentou-se no banco do motorista, mudo. O trajeto foi silencioso, mas ela às vezes olhava para ele, sem entender direito o que o aborrecera tanto. E, quando finalmente pararam diante do apartamento em Church Gate ela disse, sem jeito:

– Desculpe, Vegeta... eu acho que passei dos limites hoje. Não devia ter te...

– Vamos fingir que isso nunca aconteceu – ele disse, sério – foi apenas o bhang.

Ela não disse nada, apenas virou-se e correu para dentro do prédio, tentando segurar o choro para que ele não percebesse. Vegeta ficou olhando para ela, correndo para o prédio e as palavras do irmão pareciam muito claras agora: se ela realmente não sabia o que era amor e estava embarcando num casamento arranjado sem amor, parte da culpa era dele. Mas ele não tinha essa certeza. Não com ela pedindo apenas um beijo e dizendo que era só por um dia. Ele não queria migalhas, a queria inteira. E se não a tivesse por inteiro, preferiria perde-la.


Notas:

1. Sinto que todos desejam a minha morte depois disso, mas me deixem explicar: o Vegeta NÃO se aproveitaria do momento e da Bulma entorpecida pelo bhang.

2. Pois é, Caulifla não larga o osso e Goku teve uma concussão. Será que teremos sequelas?

3. O Holi é um festival que ocorre tradicionalmente em meados de março, porque segue o calendário lunar a data varia de ano para ano. Nele as pessoas, como descrito na história, brincam e dançam com pós coloridos e bexigas de água com perfume e tintas. Uma das brincadeiras permitidas é a "surra nos maridos" em que o homem segura um escudo de madeira agachado e a esposa bate várias vezes no escudo para descontar as besteiras que o homem fez durante o ano. Obviamente não é para bater com um pau diretamente no marido.

4. O bhang é uma bebida feita de leite fermentado com extrato de sementes de cânhamo (uma variação da maconha) e mel e especiarias. É ligeiramente entorpecente e seu consumo é regulado e em algumas partes da índia restrito aos festivais como o Ganesha Chathurti, o Shivaji e o Holi.