Capítulo 30 – Paheli (Enigma)
Começava mais um dia na sede em Mumbai do CBI (Central Bureau of Inteligence), equivalente indiano ao FBI, localizada no distrito de Kala Ghoda, na área nobre de South Mumbai, num conjunto de salas bem equipadas num prédio governamental dos anos 60. Como braço indiano da Interpol, o CBI investiga, na maior parte dos casos, rotas internacionais de entorpecentes e contrabando de materiais proibidos, como marfim e determinadas madeiras nobres indianas.
No entanto, muitas vezes surgiam investigações sobre criminosos em fuga, ou sobre criminosos indianos se movimentando em outros lugares, como a Malásia, o Sri Lanka e a Indonésia. Como a Índia tem muitas polícias, entre forças militares, civis e a Guarda Nacional, trabalhar no CBI era um tanto estressante, porque muitas informações se cruzavam e cabia aos agentes especiais coordenarem muitas operações que envolviam, muitas vezes, mais de uma polícia.
O coordenador desses agentes, Meerus Ishwaar, era um homem descrito como calmo e distante, e era facilmente distinguível entre seus pares por seu biotipo pouco comum: cabelos precocemente grisalhos e olhos claros, herdados da mãe estrangeira. Ele tinha 4 telefones fixos na sua mesa, dois terminais de computador e uma enorme e estressante lista de investigações em curso.
O seu dia normalmente começava lendo seus e-mails com informações sobre casos já em andamento e cheios de memorandos sobre encaminhamentos de autorizações judiciais para escutas e outras demandas que cabia a ele solicitar aos órgãos judiciais, como supervisor regional do CBI. Era uma tarefa aborrecida e que, para ele, representava uma perda de tempo imensa em relação a outras, que julgava mais importantes.
Por isso sua paciência pela manhã nunca era das maiores e não era diferente naquele primeiro de abril. Ele estivera de férias por uma semana, desde os festejos do Holi, e ao voltar ao trabalho, constatou uma caixa postal anormalmente cheia. Xingou mentalmente o programa de e-mail corporativo que não havia atendido o comando "férias" que encaminharia os seus e-mails para os seus substitutos e subordinados imediatos.
Ele soltou um palavrão baixinho e começou a ler os e-mails, primeiro os que eram marcados como "urgentes", abrindo arquivos e encaminhando solicitações judiciais e memorandos o mais rápido que podia. Quando chegou aos menos urgentes, suspirou. Eram quase onze horas da manhã e ele ainda tinha 162 e-mails para ler. Ia passar o dia naquilo.
Mas um e-mail de repente o assustou. Reconheceu o domínio como sendo do M16, agência de inteligência da Grã Bretanha, e abriu, apreensivo. Mesmo sem nenhum aviso de urgência, os ingleses sempre eram exigentes quando havia investigações conjuntas, e aquele e-mail estava ali há dez dias. Porém, quando ele abriu a mensagem franziu a testa em estranhamento.
Era um e-mail em hindi. Mas num hindi muito mal escrito e ele pensou: "As pessoas não deviam tentar usar o google translator para comunicação tão importante." O que mais o ofendia era a suposição de que ele, um agente internacional qualificado, que havia feito cursos de especialização nos EUA, Inglaterra e Japão, não soubesse ler uma solicitação em Inglês. Releu o e-mail tentando entender o que era solicitado:
"Agente prezado Iswaar.
Agente aqui Bonyu Anand, M16 policia especial.
Em recente curso de investigação, surgiu possibilidade de desaparecimento não dissolvido desde 1995 pista provável ter em Mumbai.
Notável semelhança guarda atriz indiana Bulma Sayajin, que diz adotada ser por casal indiano com sequestrada criança filha de desaparecido casal. Agente especial solicita autorização para solicitar teste de DNA da atriz com confronto de familiar remanescente.
Respeitos devidos e Namastê."
Ele olhou para aquele e-mail e sentiu-se irritado ao extremo. Aquele hindi terrivelmente mal escrito era de uma agente com provável ascendência indiana. Parecia, pensou ele, um e-mail escrito pelo Yoda de Star Wars, se ele soubesse alguma coisa de hindi. E terminar com "Namastê" uma correspondência oficial era uma tremenda falta de noção em relação à própria religião Hindu, aquela era uma saudação muito importante para uma fria comunicação oficial. Fora isso, não havia nada naquela solicitação que provasse que o teste de DNA de uma atriz indiana era realmente necessário.
Mais irritado que o de costume pelo conjunto da obra daquela manhã, ele escreveu uma resposta bastante malcriada no seu impecável inglês, pensando em mostrar àquela britânica metida que ele podia perfeitamente se comunicar na língua dela:
"Estimada agente Anand,
Não vislumbro evidência, sem a devida documentação que a comprove, da necessidade de abordar e exigir um exame tão revelador de uma cidadã registrada como indiana. Na qualidade de supervisor da agência posso, no entanto, verificar a origem do registro de adoção da Senhorita Sayajin e encaminhar para a agência britânica, caso haja evidência de alguma ação criminosa que tenha resultado em sua orfandade.
Atenciosamente,
Meerus Iswaar, supervisor regional para casos internacionais, CBI."
Ele enviou a resposta e anotou na sua planilha de solicitações a fazer: "Entrar em contato com central de registro de adoções e vara de família, assunto confidencial Bulma Sayajin".
E simplesmente seguiu adiante com as tarefas do dia.
Em Londres, depois de mais de dez dias de espera, Bonyu recebeu o e-mail do agente Iswaar com muita irritação. Na sua mente, tinha sido uma gentileza escrever o e-mail com a solicitação em hindi, e a negativa sumária a irritou demais, afinal, ela sentia que era uma pista quente e aquele agente antipático vinha com aquela história de "cidadã indiana"... foi então que ela parou para refletir e percebeu que estava fazendo uma abordagem completamente equivocada.
Se um agente indiano enviasse um e-mail para ela pedindo uma solicitação daquelas em relação a um cidadão britânico, ela teria a mesma reação. Bateu a mão na testa. Depois de toda uma vida criticando os malditos ingleses por trata-la como uma criaturinha inferior por ser filha de imigrantes, ela repetia a mesma atitude em relação a um indiano nato. Entre envergonhada e preocupada, ela escreveu um e-mail agradecendo a atenção e dizendo que aguardava as informações para poder prosseguir com as investigações.
E dessa vez, fez isso num impecável inglês britânico.
Os dedos de Goku tamborilavam nervosamente na mesa do Dr. Beerus, que tinha diante de si uma série de papéis com resultados dos inúmeros exames que Goku fizera durante as 48 horas de internação depois da luta contra Broly.
– Hum – repetiu o médico pela terceira vez, fazendo Goku se remexer na cadeira e tamborilar os dedos com mais força, fazendo o médico dizer – pare com isso. É irritante.
Ele não disse nada, mas se empertigou e começou a tamborilar os dedos nos braços da cadeira, fazendo o médico o olhar, irritado. Ele então engoliu em seco, tomou coragem e perguntou:
– E aí, doutor? Eu posso voltar a treinar? Já estou nervoso com isso!
O médico ajeitou os exames diante de si calmamente antes de dizer:
– Você teve uma concussão.
– Todo mundo já me disse isso e diz que eu tive sorte, doutor!
– Não me interrompa! Claro que teve sorte, se tivesse tido azar tinha morrido, seu idiota! Não foi uma concussão grave. Você fez um hematoma no lobo frontal do cérebro, o que deve ter doído bastante. Logo depois, esse hematoma provocou um ligeiro edema e...
– Ede... o quê?
– Já disse para não me interromper! Edema, seu ignorante, um inchaço! E foi isso que te fez perder a consciência! Felizmente nas horas seguintes não houve sangramento interno, a lesão evoluiu bem e você não teve nenhuma sequela séria! O tecido cerebral é perfeitamente capaz de se recuperar, mas isso leva um tempo, e, se nesse tempo se você bater a cabeça, pode ter problemas...
– Problemas como?
– Problemas como virar um vegetal, seu idiota!
– Eu posso morrer se treinar?
– Treinando ou não você pode morrer se bater a cabeça com um pouco mais de força enquanto se recupera, portanto, por um mês pelo menos, todo cuidado é pouco.
– UM MÊS? O que eu vou fazer?
– Sossegar no seu canto e fazer exercícios leves como alongamento e ciclismo na ergométrica, assim mesmo com todo cuidado. Depois disso, pode retomar AOS POUCOS e evitando golpes na cabeça.
– Por quanto tempo?
– Eu diria pelo resto da vida, já viu o que aconteceu com o Mohhamed Ali? Síndrome do pugilista, pode ficar com lesões cerebrais permanentes. Mas nenhum lutador que se preze consegue evitar golpes na cabeça... então eu diria que pelos próximos meses, você seja mais cauteloso.
– Como eu posso ser cauteloso se quero desafiar o Jiren, doutor?
– Bem, Goku, isso é problema seu e não meu. Lute com alguém mais fraco. Ou vença sem apanhar.
Goku ouviu tudo que o médico disse e pensou que lutar com alguém mais fraco não era uma opção. Então ele deveria aprender a vencer sem apanhar, porque sua ideia era desafiar Jiren. E ele não queria perder.
– Um mês inteiro sem treinar? – perguntou Raditz.
– Sim. Ele me deu até uma data. Até 29 de abril pelo menos. – respondeu Goku, desanimado.
– Isso te deixa apenas com dois meses, se quiser estar no evento do Eid Mubarak da SFL.
– Eu tenho que estar nesse evento. Eu quero desafiar o Jiren.
– Vai ser em Dubai. O primeiro evento da SFL fora da Índia. Tem um antes em maio, em Calcutá mas vai ser bem caído. Se o Broly não for expulso até lá, vai lutar com o Magueta de novo...
– Acha que ele vai ser expulso?
– Bom... quando ele soube que você havia desmaiado, surtou e começou a contestar o resultado... disse que se você tivesse vencido não teria desmaiado e então ele considerava um empate – Raditz então não conseguiu segurar o riso – e aí o repórter perguntou como ele pretendia fazer valer um "nocaute" que aconteceu fora do octógono e depois dele cair com o nariz quebrado e quando todo mundo na sala de imprensa começou a rir ele ficou lá, puto da vida e ficou fungando e tentando segurar o sangramento nasal...
Goku e Raditz deram boas risadas e Goku disse:
– Tem isso no YouTube? Quero muito ver.
– Claro que tem. Não te mostrei enquanto estava no hospital para a maan não brigar comigo. Mas eu sei que ele levou uma sarrafada da SFL porque a decisão é incontestável. Você o derrubou, e derrubou feio.
– Quebrei mesmo o nariz dele?
– Sim... e ele dando entrevista com o nariz inchado e sangrando foi bem engraçado.
– Bem... ele me atingiu aqui – Goku apontou o supercílio – e sangrou bastante.
– Mas não estragou seu belo rosto – disse Raditz, se levantando – se tudo der certo, ainda pode tentar a carreira em Bollywood com sua bela Chichi.
– Pois é – Goku riu – tenho falado com ela todos os dias... mas ainda não podemos ser vistos juntos. Não enquanto eu ainda estiver preso à Caulifla...
– Bem... vocês ainda tem dois compromissos juntos. Uma foto para o lançamento daquele novo suplemento e a campanha final para aquela loja de artigos esportivos. Já avisei que não renovam mais nada juntos... a vigência desses contratos acaba em 1º de julho. Cinco dias antes do Eid Mubarak.
– Então já posso viajar sem nenhum compromisso com ela?
– Bem... se vocês estiverem no evento e as passagens forem, como foi dito pelo senhor Raj Kundra, pela Fly Emirates, vocês vão ter que ir no mesmo vôo. E como as reservas são feitas com certa antecedência, vão provavelmente ficar em quartos separados no hotel. Em Dubai não se reserva quartos para solteiros juntos, por causa da orientação muçulmana, então, pelo menos de ficar no mesmo quarto que ela você está livre.
– Ufa, pelo menos isso!
– Além disso, sua Chichi vai estar lá para assistir a luta. A SFL vai lançar o filme do Vegeta numa sessão logo depois da luta, e certamente seremos convidados. Mas não recomendo que assumam nada antes da luta, ou mesmo em Dubai, mesmo que tenha terminado com a Caulifla. Pode ser ruim para a carreira da Chichi, acho que devem esperar um ou dois meses.
– Desde quando você se interessa tanto pela carreira dela?
– Bem – Raditz deu um sorriso de tigre – desde que o senhor Raaja Vegeta me chamou para ser agente dela e do Vegeta.
– O quê?
– O agente anterior era ligado ao falecido pai dela e assumiu o lugar do Shallot, que saiu da produtora... e aí precisaram de alguém para cuidar da carreira dos dois... ele gostou de mim porque eu liguei para ele para reclamar do seu cachê em "Anarkali".
– Em pensar que ele me detestou quando me viu pela primeira vez...
– Bem, todo mundo pode mudar de opinião.
– Duvido que mudasse se eu ainda dirigisse uma carroça de doces, mas tudo bem...
Os dois riram e Raditz foi ligar para Raj Kundra e dizer que o irmão estaria pronto para desafiar Jiren no Eid Mubarak, E tudo estaria perfeito, mesmo que ele precisasse ficar um mês sem treinar…
É difícil ser uma celebridade na Índia e passar despercebido, ainda mais em Mumbai. Só que depois de cair no ridículo durante a entrevista depois da luta contra Goku, Broly não estava muito visado pela mídia, pelo contrário, a fama de mau perdedor estava colando nele com uma desagradável rapidez. Já havia sido ruim perder para Jiren, mas Goku era um recém-chegado na categoria e o havia derrotado por nocaute.
E ele realmente nunca achara que poderia perder para alguém tão menor e que ele mesmo julgava tão mais fraco.
Mas sempre podiam acontecer surpresas agradáveis, por pior que fosse o momento. O telefonema de Caulifla, uns dias depois da luta, foi uma dessas surpresas. Ele a princípio achou que era um trote. Mas quando ela disse que tinha informações interessantes sobre Goku que tinham que ser passadas pessoalmente, ele decidiu pagar para ver e topou ir ao apartamento dela. Sozinho, conforme ela exigiu.
– Então, o que você tem de tão importante para me contar sobre o seu namoradinho?
– Já te disse que é ex. Ele me chutou faz uns dois meses. Por causa daquela vagabunda que se diz atriz.
– Isso é só fofoca de mulher, garota. Não me interessa em nada.
– É mesmo? E o boletim médico não divulgado do que aconteceu com ele depois que você o apagou, te interessa?
– Você sabe alguma coisa que eu não sei?
– Sei que você realmente o MACHUCOU. Não divulgaram, mas foi uma concussão. Um negócio sério. Um monte de tomografias, ressonâncias e tudo mais. Você acha que ele ia ficar 48 horas internado se não fosse nada?
– Então...
– Eu liguei para o médico dele, fingindo interesse, afinal sou a "namorada", né? E ele me disse que o Goku vai ficar bem... depois de um mês de repouso.
– Ele vai ficar um mês inteiro sem treinar?
– Nadinha. Perigo de ter outra concussão, mais grave.
– Isso sim é uma boa informação, docinho... – ele olhou para Caulifla com mais interesse. – o que você quer em troca por essa informação tão valiosa?
– Quero que espalhe isso. Para derrubar a cotação do babaca na bolsa de apostas.
– E o que você ganha com isso?
Caulifla riu.
– Só vou compensar meu orgulho ferido. E fazer ele perder dinheiro. Quero ver ele negociar contratos vantajosos de publicidade com a cotação dele lá embaixo... eu vou lutar no mesmo evento que ele e sei que vou acabar com a tal da Helles, ninguém vai apostar numa desconhecida.
– Seu agente não é o irmão dele?
– Pois é. Vou ganhar a luta e mandar aquele cabeludo ridículo pastar. Já tenho um agente interessado. Você devia mudar de agente também, não me leve a mal, mas seu pai não ajuda nada.
– Isso não te interessa. Não pedi tua opinião. – ele então olhou para ela com malícia e perguntou, diretamente – esse orgulho ferido todo não te faz querer dar um troco assim, com um cara grande e forte?
Ela o encarou. Broly era atraente. Mas era um perdedor e ela não gostava de perdedores e então disse:
– Por enquanto não. Vença sua próxima luta e eu penso no seu caso. Mesmo para uma lutadora de MMA a fama de puladora de cerca não faz bem nenhum...
Broly riu e disse:
– Que seja... mas se mudar de ideia, tem meu telefone.
Bulma se preparava para a temporada de lançamento de "Shakti" e sentia-se um pouco chateada porque todos os convites que Raditz tinha em pré-negociação, alguns para aquele ano e outros para o ano seguinte eram para filmes em que ela atuaria com atores que ela não conhecia. Vegeta não se manifestara ainda sobre novos projetos e ela, por algum motivo, queria trabalhar novamente com ele.
Mas desde que pedira a ele um beijo no Holi, as coisas entre eles estavam bem estranhas. Ele se afastara e só a procurava para falar da edição do filme, da eventual remixagem de algumas cenas... enfim, questões profissionais. Por sua vez, Yamcha falava sem parar em marcar o "Kurmai" ou o "Chunni" dos dois para logo, com o casamento logo depois do Eid Mubarak, em julho.
Ela deveria estar animada, mas não estava mais tão certa se casar com ele era uma boa ideia. Ela era virgem, uma típica noiva indiana tradicional, artigo raro na elite de Bollywood. Mas não se sentia amada ou desejada por Yamcha. E custava a admitir, mas sentia-se irremediavelmente atraída por Vegeta.
Se mulheres indianas fossem incentivadas a lidar de outra forma com seus sentimentos, talvez ela se aproximasse de Vegeta de outra forma ou simplesmente dissesse a Yamcha que não havia como continuar com aquele noivado. Mas havia um milhão de questões que a faziam ficar imobilizada, presa a um e pensando em outro. E talvez por isso ela tivesse se refugiado em si mesmo e tivesse tornado uma missão a ideia de decodificar as anotações do seu pai.
Estava nesse trabalho quando Vegeta ligou para ela avisando que precisavam ir até o estúdio para remixar uma fala do filme cujo áudio havia ficado ruim. Coisa para uma tarde, no máximo. Ela foi para o estúdio levando o inseparável caderno. E enquanto esperava, relia as anotações, que ela já concluíra que usava um código criptográfico até bem simples, que substituía letras por símbolos. Ela concluíra que os símbolos mais usados eram as vogais, mas não conseguia entender o que estava escrito, por algum motivo.
Vegeta chegou e perguntou:
– Ainda esse caderno? Te vejo com ele desde a faculdade.
Ela o olhou, um pouco aborrecida. Detestava quando Vegeta parecia desdenhar de tudo e disse:
– Há coisas em código aqui. Mas nunca consegui decifrar. Veja, por causa do número de símbolos usados, sei que não está escrito em Hindi. Achava que era inglês, mas não é também. Ela apontou uma palavra codificada e disse: cada página, cada trecho começa com essa palavra. Por causa da frequência dos símbolos em outras palavras e frases, eu cheguei à conclusão que aqui está escrito "Bulma".
– Faz sentido, se ele deixou o caderno para você.
– Não, não faz sentido, Vegeta. Meu pai não tinha como saber que ia morrer, foi um afogamento acidental. Ele e minha mãe. E eu rodo e rodo e não concluo nada. Nunca consegui decifrar nem isso que parece uma dedicatória, na primeira página. Além de codificado, está escrito em alguma língua que eu não domino. Ela então disse que algumas palavras ela conseguira decodificar e anotar, mas a maioria ela não compreendia.
– Bem... eu estudei num colégio suíço... embora eu não seja um expert, além do inglês tenho noções de italiano, alemão e francês. Seu pai falava uma dessas línguas?
– Não sei. – ela disse. Dê uma olhada aí e me diga o que acha.
Ele olhou para as palavras codificadas, admirando a forma como ela raciocinara. De repente, logo na primeira frase, viu um pequeno detalhe que podia fazer diferença. A criptografia havia sido usada apenas para codificar as letras. Mas os símbolos de pontuação e acento eram usados de forma que ele pôde imaginar que o pai dela fizera aquele alfabeto simbólico às pressas, apenas para proteger de olhos curiosos as anotações.
Uma das palavras que ela decodificara "tout" o fez ter quase certeza que aquilo estava escrito em francês. Aplicando a decodificação de vogais que Bulma presumira e preenchendo as lacunas com as consoantes que ela conseguira descobrir, ele olhou para frase e murmurou:
– Isso está em francês.
Eles fizeram a mixagem do som e Vegeta seguia pensando no caderno. Quando terminaram, tornou a pedir o caderno para ela, que ficou admirada com a forma febril como aquilo o obcecara. Depois de meia hora tentando escrever frases numa folha de papel em branco, ele sorriu e a encarou, dizendo:
– Realmente está em francês. – ele mostrou a correlação que havia feito, preenchendo lacunas que ela não conseguira por não dominar o idioma. – Talvez o seu pai imaginasse que poderia pagar para você uma educação que englobasse o francês, e fez um código simples, que se você soubesse francês conseguiria facilmente resolver na vida adulta...provavelmente ele imaginava que você voltaria para seu país de origem.
– E o que diz a dedicatória?
Ele a encarou, sério e leu, num francês razoável:
– "Bulma, C'est le travail de toute ma vie. Veillez à ne pas tomber entre de mauvaises mains."
– E isso quer dizer o quê? – ela perguntou, um pouco aflita.
– "Bulma, esta é a obra de toda minha vida. Por favor, cuide para que não caia em mãos erradas."
Os dois se encararam, Bulma perplexa e Vegeta sério e então ele disse:
– Talvez seja a hora de você encarar que a morte dos seus pais pode não ter sido acidental, Bulma.
Notas:
1. Claro que a Bulma é a criança perdida, mas o Meerus não está errado, não se pede DNA assim, à toa... mas vão acontecer determinadas circunstâncias que levarão Bulma a fazer esse teste muito em breve.
2. Antes que vocês queiram me MATAR por causa do "não ata e nem desata" da Bulma com o Vegeta: calma. Fiquem zen. Acreditem no ship. Repitam comigo: oooooom. Agora que estão calminhos, vamos às notas seguintes...
3. Eu falei para vocês que a Caulifla ia querer fazer um estrago, né? Sim, é uma temeridade o Goku desafiar o Jiren nessas condições... mas ele é o Goku, né? Pena que nesse universo não temos sementes dos deuses.
4. Kurmai e Chunni são duas etapas do longo processo de casamento dos indianos. Hoje são menos etapas, a não ser em casamentos realmente arranjados, que começam com uma carta com foto (e o horóscopo, muito importante) direcionada AOS PAIS chamada Lagna-patra. Se os pais aprovarem e forem modernos (a maioria dos casos hoje) o casal pode se conhecer em um encontro na casa de um deles. A família da noiva tem a prerrogativa do aceite, normalmente. Não é considerado desonroso uma garota rejeitar um pretendente, o contrário, não é tão bem visto. Depois desse primeiro período, vem as duas cerimônias de noivado: O Kurmai, oferecida pela família da noiva, e o Chunni, oferecida pela família do noivo, após o qual o casamento deve ocorrer em data determinada astrologicamente no perído dos dois meses seguintes. Muitas vezes acontece do astrólogo determinar a data auspiciosa para o casamento de alguém sem mesmo haver um pretendente e a família correr para arranjar um às pressas. Caso não encontre, se faz um casamento simbólico para afastar o azar: se for uma moça, ela é casada com uma árvore que dê frutos (uma jaca ou uma mangueira, de preferência, porque são árvores de grande porte, prenúncio de um casamento sólido no futuro) e se for um rapaz, o casamento é com uma cabra ou vaca. Não, não envolve zoofilia, mas a família é livre para consumir o leite da "esposa" à vontade. Esses casamentos são tornados nulos quando a pessoa se casa de verdade.
5. Para quem acha que eu estou de zoação, veja na Netflix o filme "Toilet - Ek Prem Katha" que mostra um casamento como esse e vários problemas oriundos da natureza supersticiosa dos indianos tradicionais.
6. Bulma está a um passo de descobrir qual a grande invenção de seu pai. Qual será o impacto disso?
7. Paheli é um filme de 2006 com Sharukh Khan e Rani Mukerji nos papéis principais. É a história de um casamento arranjado onde o noivo se recusa a consumar o casamento enquanto não juntar determinada quantia. Enquanto isso, um espírito que repousa numa árvore se apaixona por ela e toma o lugar do marido, e o desenrolar da história é original demais para que eu dê spoilers. Vão lá e assistam! (mas esse não é tão fácil de achar).
