Capítulo 35 – Mere Haath Mein (Minhas mãos nas suas)
O tempo perdido havia sido recuperado com folga, era preciso admitir, vendo-se o treino de Goku poucos dias antes da partida para o grande evento do Eid Mubarak.
Nos dois meses anteriores ao evento, os mestres Karin e Kame o haviam treinado nos fundamentos que ele já conhecia e o levado a expertise em outros, como chutes, golpes e movimentos de muai thay e jiu jistu brasileiro. Além disso, ele assumira uma rotina tão rígida de treinos aeróbicos e musculação, que antes do amanhecer já estava correndo e quando chegava em casa estava tão exausto que praticamente só tinha energia para sua última refeição do dia antes de ir para a cama.
O resultado era visível na forma física dele: ao enfrentar Broly, ele pesava 106 quilos, o que havia sido uma visível desvantagem diante do gigante de 119 quilos, que, além de tudo, era bem mais alto que ele. Mas, quando se pesou na sua consulta no final de junho ele descobriu que havia chegado peso de 109 quilos, apenas três a menos que Jiren, que pesava em torno de 112 quilos.
Ainda assim, o lutador de Telangana era maior que ele e tinha um repertório de golpes que ele estudara, era tão ou mais perigoso que o gigante Broly, e por isso, ele não podia perder a sua concentração por nem um minuto. No entanto, toda noite ele reservava um tempo para uma ligação com vídeo para Chichi. Seu treino, a agenda de ambos cheia e o fato de ainda não poderem ser vistos juntos para não alimentar rumores sobre a relação dos dois não diminuíra a vontade que tinham de se ver. Naquela noite, particularmente, tinham um motivo para comemorar.
Era dia 30 de junho, no dia seguinte acabaria o contrato de imagem conjunto que o prendia a Caulifla, e ele se sentia eufórico. Chichi atendeu a ligação dele quase imediatamente, com um grande sorriso e disse:
– Enfim me ligou! – ela estava, como todas as noites, no seu quarto, já preparada para dormir, com os cabelos soltos e um longo robe sobre a camisola de seda. Apesar da intimidade dos últimos meses, eles não haviam avançado para sexo virtual por um motivo muito simples: Chichi e ele eram tímidos demais para isso.
– Estou acabado – ele disse, se atirando na cama de costas, olhando para ela pelo celular – mas estou mais motivado que nunca. E o que você fez hoje?
– Gravei em estúdio. O meu filme seguinte está em vias de produção, você sabe. É bem estranho fazer par com aquele Zamasu. Acho que eu me acostumei com Vegeta.
– Como é a história mesmo?
– Ah, eu sou uma médica e ele é um paciente terminal. O fim é bem triste, aliás.
– Vai ser bom para você. O difícil é acreditar que um paciente terminal está dançando com a sua médica, numa cena de música.
Ela deu uma gargalhada e disse:
– São sequências de sonho, ninguém disse que era um filme realista...
– Você sabe que dia é amanhã? – ele olhou para ela diretamente, mordendo os lábios. Não aguentava mais se esconder.
Ela sorriu para ele e disse:
– Finalmente livres! Mas... você tem treinado tanto, como podemos nos ver?
– Bem... eu não posso parar meus treinos. É um momento muito importante, Chichi.
– Eu entendo – ela suspirou – vejo o esforço que está fazendo para conseguir vencer essa luta.
– É a luta da minha vida – ele disse, dando um suspiro longo – tudo depende disso, você sabe.
– Não é assim, Goku – ela disse, franzindo o cenho – se você perder não é o fim do mundo.
Ele a encarou, com um certo estranhamento, meio aborrecido. Não era a primeira vez que falavam naquilo.
– Eu já te disse o que está em jogo, Chichi. Eu apostei muito alto quando decidi me tornar um peso pesado. Agora é vencer ou vencer...
– Sim, você apostou muito alto e quase pagou com a vida, Goku! Como acha que eu me senti quando te vi naquele hospital? Você quase morreu e a culpa, em parte é minha! Esqueceu por que você decidiu, do nada, virar peso pesado e desafiar o Broly? Eu não!
– Eu não morri! E eu ia fazer aquilo cedo ou tarde, estava ficando pesado para o peso médio. Não se dê tanto crédito para esse fato. Foi o momento, talvez eu tenha me precipitado porque não queria que você fosse acusada de nada, mas...
– Mas assim mesmo eu me sinto mal. Você poderia estar fazendo lutas fáceis, tendo um caminho mais tranquilo e...
– É claro que eu podia, Chichi. É claro que você gostaria que eu fizesse as coisas dessa forma, não é? Por que seria diferente? Você nasceu em berço de ouro, não eu. Você teve o mundo na sua mão, em uma bandeja, mas eu comecei entregando doces aos quinze anos. Sabe o que é isso? Não, não sabe. Você não sabe o que é ir dormir com fome, porque só tem arroz para que cada um coma um prato e ainda se sentir feliz porque tem arroz para comer quando vê tantos por aí passando fome! Não sabe o quanto foi duro para mim chegar a cada ponto onde cheguei, lutar em lugares sujos, aprender de forma dura, achar que nada vai dar certo, porque o prêmio depois de apanhar e bater como louco não chega nem a três mil rúpias, e ainda dividir isso com o mestre, porque afinal ele me aceitou por caridade. Eu fui lutar, Chichi, eu aprendi a lutar, porque percebi que quem nasce onde eu nasci, quem acorda todo dia sabendo que não passa de um slumdog tem sempre diante de si o caminho mais difícil! E foi por isso, sim, que eu decidi ir para os pesos pesados. Porque se eu vencer a luta contra Jiren eu finalmente posso olhar para você e dizer: veja, Chichi, eu cheguei ao topo. Eu agora mereço você. Agora não serei proibido de chegar perto de você porque não sou mais um refugo sujo das ruas de Mumbai!
Os olhos de Chichi estavam cheios de lágrimas e ela não sabia nem mesmo o que dizer.
– Eu nunca me importei com quem você era, Goku... eu...
– Mas eu me importo com quem eu sou. Eu me importo em ser o mais forte. E eu não me esqueço como fui tratado por aquele... aquele porco rico que foi seu namorado. Você viu o que ele falou de você para mim?
– Não me diga isso, não dessa forma! Você sabe que assim que pude... eu fiz tudo para me livrar dele, você sabe disso! Eu dei para ele um avião!
– Um avião? O que é um avião para você, princesa Shanti? Como você se deixou prender àquele cara? Nunca percebeu o que ele era? Ou era porque ele era um magnata? Sim, porque para quem não se importava com a minha condição... quando conseguiu um namorado ele não poderia ser mais oposto do que eu era. Trocou o slumdog por um milionário!
Chichi enxugou as lágrimas, sentida e com raiva. Já havia tempos que o passado aparecia eventualmente nas conversas e incomodava os dois, então, era a hora dela também evidenciar seu incômodo.
– E o que você acha que EU senti te vendo dizer meu nome em rede nacional, fazendo o papel de fã apaixonado para logo em seguida ir para a cama com aquele pedaço de tripa seca arrepiado? Oh, tenho um amor puro por Chichi, minha princesa Shanti, mas vou fazer sexo com a pequena lutadora do Canadá porque ela é moderna e boa de cama, é sexy como Chichi nunca foi!
Aquilo foi como um tapa na cara, mesmo à distância, para Goku. Ele ficou olhando para a tela com espanto. Abriu a boca para dizer algo, mas Chichi o interrompeu:
– Os contratos, ah, os benditos contratos. Foram uma ótima desculpa, não, Son Goku? Eu sei que no começo, ainda manteve um acordo sexual com ela. Não deve ter sido um grande sacrifício para você... os deuses sabem o quanto eu fugi de Shallot a partir do momento que percebi que eu não o amava. Ele vivia me dizendo isso: me achava fria, ruim de cama, dizia isso para os outros, chegava em meus ouvidos. Eu estava louca para me livrar dele e fiz isso assim que pude! Naquele dia, se eu não tivesse dinheiro ou posses para me livrar do maldito eu teria encarado a miséria ou pediria esmola nas ruas de Mumbai, porque aquele anel de compromisso, quando eu percebi que te amava de verdade, se tornou um peso, quase queimava meu dedo, mas hoje eu percebo, Son Goku, que nem ele e nem você sabem o meu valor. Para os dois eu sou apenas uma pequena joia, uma recompensa pelos seu grande valor. Mas se é assim, se é dessa forma, sua liberdade vai ser a liberdade de ficar com qualquer outra que não seja eu, sabia? Porque, dessa forma, me julgando como você me julga, sou eu que já não sei se te quero!
Ela desligou a ligação, chorando copiosamente. Goku tentou retomar a chamada via whatsapp, tentou mandar mensagens, mas ela, mesmo lendo, não teve vontade de responder. Do outro lado, Goku, sem vergonha de suas lágrimas, também chorava. Não sabia como e nem porque, mas na véspera de poder ficar com ela, ele havia estragado tudo com a sua preciosa princesa Shanti, seu primeiro e único amor desde os dezesseis anos.
Goku dormiu mal. Mas o dia seguinte teria de ser outro dia. Não era uma opção desistir porque Chichi havia dito coisas tão duras para ele quanto as que ele havia dito para ela. Quem tinha razão? Talvez ambos ou nenhum dos dois, mas ele só sabia que a possibilidade de perder o amor de sua vida machucava e doía.
Às cinco da manhã, ele se levantou, como todos os dias. Os olhos ardiam da noite mal dormida e das lágrimas que ele derramara por ela, mas a determinação, a vontade de vencer o impeliam. Ele queria mais que nunca vencer Jiren. O seu orgulho estava intensamente ferido, porque ele amava Chichi, e a amava de um jeito puro e inexplicável, mas parecia que na verdade o mundo de obstáculos que havia entre apenas parecera ter sido transposto. A conversa da véspera mostrara a ele que ainda havia diferenças.
Ele começou a sua corrida de todos os dias, primeiro pelo bairro de Churchgate e depois correndo até Chowpatti. Às vezes, quando passava em frente ao prédio luxuoso onde Chichi morava, ele mandava uma mensagem dizendo "main hoon naa" (estou aqui) e ela corria para a varanda, apenas para acenar para ele na sua corrida matinal. Mas naquele dia ele não queria fazer aquilo simplesmente porque as coisas já não eram como antes entre os dois e ele tinha medo de ter sido definitivo. Se ela soubesse que ele estava ali e deliberadamente o ignorasse, partiria ainda mais seu coração. Melhor deixar tudo como estava.
Ele parou, no entanto, olhando da praia para a janela de Chichi. Àquela hora ela já deveria estar acordada, ele sabia a rotina dela, esperando sua primeira aula, de ioga ou de dança, que era feita de forma particular, no apartamento. Chichi era como um pássaro que crescera numa bela gaiola dourada, nunca tivera a liberdade que ele tivera. Nunca andara pelas ruas de Mumbai, jamais sentira o vento quente que vinha do Mar Arábico ou sentira no rosto a chuva fria da monção de agosto. Não conhecia as dores que ele conhecia, não passara pelas provações e privações que ele, como um jovem pobre da periferia de Mumbai, tinha tido que encarar, mas não tinha culpa disso.
E tudo isso não significava, no entanto, que ela não houvesse sofrido. Goku começou a correr de novo, recordando de sua primeira infância, lembrando da notícia da morte de Kyra Cutelo. Chichi tivera pai e mãe ao mesmo tempo por menos tempo que ele. Lembrou-se de si mesmo, aos dez anos, vendo o primeiro filme com a princesa Shanti. Era estranho, mas na sua cabeça infantil, Goku não se apaixonara imediatamente por ela, desejara, sim, viver as aventuras que ela vivia na tela, enfrentar monstros, tigres, piratas, bandidos, hackers (tá, esse filme ele não entendera muito bem, Bulma tivera de explicar a ele algumas coisas)... depois, ele crescera junto com ela, o rosto infantil se transformando aos poucos na bela adolescente que o surpreendera no bar sujo do senhor Popo, numa rua obscura de Andheri East.
Goku acelerou o passo e pensou: não, ele nunca desejara Chichi como um prêmio, como uma recompensa. Ele a amava e a amava como ela era porque sentira que ela se apaixonara por ele, apesar das roupas desgrenhadas e um pouco sujas, da mesma forma como ele se apaixonara por ela no meio daquela dança que resultara num beijo inocente e meio desastrado. Tinha sido algo tão forte que os anos não haviam apagado, a vida dos dois, por voltas e voltas, os tinha unido novamente, e ele não jogaria fora aquela chance. E aqueles meses conversando todos os dias haviam provado que eram compatíveis, tinham muito em comum, mesmo vindo de mundos tão diferentes.
Ele resistiu a aparecer na porta dela, não era ainda o momento. Em sete dias, eles estariam juntos em Dubai, livres e desimpedidos. Em algum momento, antes ou depois da sua luta com Jiren, vencendo ou perdendo, ele iria até Chichi e abriria seu coração. Não, ele não se importava com o passado, com Shallot ou com nada do que tinha dito a ela. Não mais. O passado já não importava, tudo que ele queria, em algum momento no futuro próximo, dar com ela os sete passos em torno do fogo sagrado e passar com ela o resto de sua vida.
E ele diria isso a ela ainda naquela noite, quando ligasse para ela.
Chichi desmarcou o primeiro e o segundo compromissos daquele dia. Ela deixou-se ficar na cama até quase a hora de sair para as gravações em estúdio. Era fácil desmarcar compromissos durante os meses de monções, mesmo os do começo do dia, bem antes da hora em que habitualmente a chuva castigava Mumbai, por volta das duas ou três horas da tarde. Às dez da manhã, ela saiu para o estúdio, levada por Tenshinhan, que nos últimos dias, não demonstrava nenhum nervosismo, apesar de estar próximo o momento do parto da sua esposa, Lunch.
Ela chegou ao estúdio pontualmente, arrumou-se em silêncio. No último mês ela havia dispensado Lunch para ficar em casa esperando o parto, afinal a maquiadora estava com a barriga imensa do último mês de gravidez, e ela estava com uma maquiadora substituta que não tinha o mesmo talento e nem era alguém que ela pudesse chamar de amiga, por isso, as gravações de "Aatma Jee" (alma gêmea), o seu filme atual, eram as primeiras em que ela não tinha praticamente nenhum rosto amigo na produção, uma vez que Vegeta e Tarble também não estavam envolvidos e o diretor era alguém que ela não conhecia muito bem.
A gravação daquele dia exigiu dela um grande esforço. Eram muitas cenas em estúdio, sendo a pior um longo e exaustivo diálogo entre a médica Sanjana, que ela interpretava, e o doente Keshar, interpretado por Zamasu Singh, um ator jovem e em ascensão que havia filmado com ela Anarkali no papel do namorado que era abandonado por ela. Os dois se entendiam bem e ele era bom ator, mas Chichi sentia-se solitária e vazia.
A gravação estava quase acabando quando ela viu Tenshinhan falando ao telefone num canto do set de filmagem. Ele parecia nervoso e ela pressentiu o que seria. Correndo até ele perguntou:
– Chegou a hora? Ela está sentindo as dores?
– Senhorita Chichi, a criança vai nascer, ela já está com uma vizinha a caminho do hospital – ele disse nervoso, ao finalizar a ligação – a senhorita compreende que eu preciso...
– Vá, vá, Tenshin, – ela disse – eu... ah, senhora Laksimi dê a ela um bom parto...
– Ela está indo para o Saboo Sadique... – era um hospital não muito longe de onde ele e Lunch moravam – espero que chegue antes de cair a monção – ele olhou o relógio.
Ela olhou para o estúdio. Como conseguiria terminar a cena depois daquilo? Foi até o diretor e explicou-se, dizendo que sua melhor amiga estava em trabalho de parto. O homem fez um ar aborrecido, mas ela foi salva por Zamasu, que disse:
– Com uma cena apenas por gravar não precisamos nos preocupar com o atraso no cronograma! Vá, vá ver sua amiga.
Ela correu para alcançar Tenhsin, que pegava um carro do estúdio que provavelmente depois deixaria na garagem do escritório de Chowpatti.
– Tenshin, eu quero ir contigo!
O segurança sorriu e disse:
– A senhora é mesmo uma benção dos Deuses. Vamos, eu ficaria muito nervoso sozinho no carro!
Eles seguiram pela longa via que cortava Mumbai de Norte a Sul, com Chichi no banco de trás pela força do hábito de anos. Como era o fluxo contrário do trânsito pesado, logo se aproximavam do centro de Mumbai quando a chuva forte começou a cair. Ela percebeu o nervosismo de Tenshin e disse:
– Está tudo bem, vai dar tudo certo, Tenshin!
Ele olhou para ela pelo retrovisor e deu um sorriso preocupado. De repente, Chichi teve necessidade de falar sobre algo que conversara várias vezes com Lunch, mas nunca com ele.
– Como teve a ideia de... como soube que Goku seria um bom lutador?
Tenshin sorriu brevemente, sem tirar os olhos do caminho e disse:
– Sempre esperei que a senhorita me fizesse essa pergunta. Eu sabia que ele havia sido... impedido de encontrar a senhorita, mas achei que, por algum motivo, isso era uma interferência ruim no carma dos dois. Eu vi o olhar de um para o outro. Era algo que eu só tinha visto uma vez... e que tornei a ver apenas quando nos olhos da minha Lunch quando disse que a amava pela primeira vez.
– Onde tinha visto esse olhar antes? – ela perguntou, curiosa.
– Quando minha mãe recebia meu pai todas as noites. Era um olhar como aquele que eles trocavam. Mas se eu ou Lunch contássemos para a senhorita o que estava acontecendo, perderíamos o emprego. O senhor Raaja daquele tempo não era como o de hoje, não tinha o coração amolecido como agora... era só orgulho e teimosia.
– Mas isso não responde a minha pergunta! Como sabia que ele se tornaria um grande lutador?
– Na verdade, eu não sabia. Não tinha como saber, não sou um vidente ou tenho uma terceira visão... mas quando o vi se movendo naquele palco, pensei: ele seria um bom lutador. Se os caminhos da dança para ele estão fechados... posso ajudá-lo a trilhar o caminho que acabou sendo o que me ajudou. Ele tinha agilidade, poderia ter força... e tinha o brilho.
– Brilho?
– Sim... o brilho no olhar de quem pode vencer, qualquer que seja o desafio. Eu não acho que um dia eu mesmo cheguei a ter esse brilho: assim que consegui um caminho mais fácil, mais simples que a competição de luta, eu trilhei. Fui para a Universidade, garantir meu futuro. O senhor Goku, no entanto, parecia querer sonhar grande. Não era justo que terminasse seus dias apenas entregando doces porque uma porta havia sido fechada. Eu procurei ajuda-lo com uma oportunidade, uma porta aberta para que ele procurasse realizar seus próprios sonhos. E parece que ele se encontrou quando essa porta foi aberta.
Chichi refletiu sobre as palavras de Tenshin, principalmente o que ele dissera sobre o brilho no olhar de Goku e sua vontade de seguir seus próprios sonhos, de perseguir a vitória. E, de repente, ela tinha sobre ele um novo e generoso olhar, lembrando-se de todas as conversas que haviam tido todas as noites, por todo aquele tempo em que durara seu romance escondido.
Ela agora entendia que Goku tinha o fogo do Deus Shiva Nataraja na sua dança criadora: era inquieto e feroz, sempre buscando por mais... ele tinha razão quando dizia que cedo ou tarde ele buscaria um desafio maior e mais difícil, sempre um adversário mais forte, ele precisava sempre de um novo desafio para viver. Ele tinha decidido anunciar a migração para os pesos pesados naquela noite para tirar o foco dela, mas era uma decisão que, cedo ou tarde, ele realmente tomaria.
Por um instante, ela pensou em como seria a vida dos dois juntos. Sempre havia sido protegida, mas a proteção que tivera também a privara, por muito tempo, de qualquer tipo de liberdade. Seus pés nunca haviam, de fato, tocado o chão. Pensou no dia que se aconchegara a ele no voo de volta vindo de Varanasi, logo depois de aspergir as cinzas de seu pai... Goku a protegia, sim, mas jamais a impediria de ser ela mesma. E era por isso que começara a amá-lo e não se via com mais ninguém no mundo.
A chuva da monção batia forte nos vidros do carro da produção conforme avançavam pelas ruas de Mumbai, agora mais lentamente, até que chegaram à porta do hospital. Tenshin deixou o carro de qualquer maneira no estacionamento e os dois seguiram até a recepção, onde uma mulher disse a Tenshin, de forma apressada quando ele disse o nome da esposa:
– Ela está na sala de parto C do segundo andar! A criança pode nascer a qualquer momento, senhor!
Tenshin e Chichi chegaram até o segundo andar rapidamente. Em outros tempos, Tenshin teria sido proibido de entrar na sala de parto, mas na moderna Mumbai do século XXI, pessoas de condição privilegiada como eles podiam ter a presença do pai na sala de parto. Na antiga tradição a sogra deveria ajudar no parto ou estar presente, mas como a mãe de Tenhsin já era falecida, Lunch tinha apenas ao seu lado a vizinha que a levara até o hospital e despediu-se assim que soube da chegada do marido:
– Ah, que benção dos Deuses! Espero que tudo corra bem com ela!
A mulher rapidamente saiu, e Chichi riu. Para muitas pessoas, era de mau agouro assistir a um parto, um momento que parte dos hindus considerava "de impureza e maus eflúvios". Mas ela, logo reconhecida pelas enfermeiras obstétricas, foi conduzida ao quarto para onde Lunch iria depois de dar à luz o bebê enquanto Tenshin era vestido com um roupão médico para assistir ao parto da esposa. Ela acreditou que não demoraria, porque sabia que as grávidas só eram realmente levadas para a sala de parto quando estavam trabalho avançado.
O trabalho de parto de Lunch revelou-se muito mais difícil do que ela imaginara que seria, e as horas foram passando e nada acontecia, deixando-a apreensiva. Pela janela, ela viu as chuvas diminuírem sua fúria e um sol poente surgir timidamente atrás dos prédios de Mumbai, que se preparava para a noite, sempre agitada e inquieta como toda metrópole populosa.
Chichi, sentada diante da TV ligada numa novela melodramática, pensava em como ela e Goku precisavam se ressignificar naquele momento. Finalmente, nada os amarrava ao passado, era a hora de olhar para o futuro juntos e era difícil não admitir o quanto aquilo era assustador. De repente, se deu conta que a noite chegara e procurou notícias de Lunch, descobrindo que ela estava ainda enfrentando alguns problemas, mas com o sorriso protocolar dos hospitais, a enfermeira disse que tudo estava, apesar de tudo, correndo bem.
Ela voltou para o quarto e foi surpreendida pela ligação em vídeo de Goku. Seria tão tarde assim? Queria acreditar que não. Atendeu e viu o rosto cansado dele do outro lado, parecendo também triste e assustado. Sorriu e disse:
– Não é cedo para a sua ligação?
– Eu... tive um dia ruim e terminei mais cedo. – ele olhou para ela, percebeu imediatamente que ela não estava num ambiente habitual e disse – que lugar é esse?
– Um hospital. Estou esperando o bebê de Lunch nascer – ela suspirou e disse – também não tive um bom dia. Não queria ter dito tudo que te disse e...
– Não! – ele a interrompeu – você devia ter dito, sim, Chichi. Eu e você precisamos entender um ao outro antes... antes de tudo. Eu fui duro com você também, duro e desnecessariamente grosseiro e...
– Goku... eu entendo e aceito você como é. E entendo o quanto essa luta é importante. Treine, treine até a exaustão para vencer...
– Mesmo que isso signifique que só vamos nos ver frente a frente... em Dubai?
– Sim. Eu vou estar aqui para você em caso de vitória ou derrota. Mas entendo que você precisa e quer vencer. E quero que vença com todas as minhas forças!
– Chichi... – ele olhou nos olhos dela, pensando que queria estar diante dela, com os braços em volta dela... – Quero ter tuas mãos nas minhas e dar os sete passos contigo assim que for possível, mas antes, preciso muito vencer essa luta! Por isso eu vou trabalhar duro essa semana. E vou vencer em Dubai. Por mim, por você, por nós dois.
– Eu sei que vai – ela sorriu, e sentia-se profundamente emocionada ao finalmente ter a ideia da dimensão do sonho dele – e eu vou estar lá para te abraçar depois da vitória. Eu te amo.
– Eu sei que vai. Eu te amo.
Nesse momento, a porta do quarto abriu-se e a enfermeira disse:
– Estamos trazendo a paciente para o quarto! Foi tudo bem e nasceu muito saudável! É uma menina! A senhora pode encontrar o pai diante da janela do berçário para ver o bebê assim que nós terminarmos a higiene dela!
Chichi despediu-se de Goku e correu. No mesmo andar, diante de um janelão envidraçado por onde se via os bebês no berçário, Tenshinhan sorria com lágrimas nos olhos, contemplando um pequeno bebê careca e clarinho que a enfermeira segurava antes de pôr no bercinho hospitalar.
– Veja ela, Chichi, nossa pequena joia, ela não é linda?
Chichi sorriu para o bebezinho e disse:
– Nossa, ela é careca que nem você!
Tenshin deu uma risada como ela jamais vira e disse:
– Foi bem difícil! Mas Lunch foi corajosa e aguentou as dores com uma bravura enorme... não vejo a hora de estar com ela novamente!
Chichi sorriu para ele. Em outros tempos, ou em lugares menos avançados, Lunch e o bebê seriam isolados por 8 dias, antes da criança finalmente ser considerada pura e digna de receber um nome, mas Tenshin era um homem moderno e não levaria a cabo essa tradição antiquada, embora Chichi tivesse o bom senso de não perguntar o nome do bebê, que só deveria ser conhecido na sua cerimônia de Namkaram, que acontecia tradicionalmente 9 dias após o nascimento. Chichi deu-se conta disso e disse, tristemente:
– Acho que vou estar voltando de Dubai no dia do Namkaram dela, sinto muito!
– Entendemos, senhorita Chichi! Mas não se preocupe, se não puder ir podemos enviar uma mensagem com o nome para a senhorita, que é tão importante para nós!
Os dois seguiram juntos para o quarto para esperar Lunch e Chichi sentiu-se finalmente leve e esperançosa. Uma nova vida começava ali, para a pequena filha de Tenshin e Lunch e para ela, finalmente livre para amar o seu Goku.
Notas:
1. Susto, hein? Acharam que eu ia separar os dois, né?
2. Mas era muito necessário o acerto com o passado, não? Para seguir em frente sem nenhuma mágoa.
3. E o primeiro "final feliz" dessa fic é o de Tenshin e Lunch, que ainda aparecem mais adiante, sim, mas já com sua história de amor fechadinha. O nome da filha deles? Adiante vocês vão conhecer.
4. Na Índia é proibido por lei revelar o sexo do bebê durante a gravidez para evitar o aborto de meninas, a cultura machista costuma desejar que pelo menos o primeiro filho seja menino.
5. A tradição do Namkaram é comum tanto no hinduísmo como no jainismo e no sikhismo: ela consiste em preservar por sete a nove dias o nome da criança e só revela-lo durante um complexo ritual que vocês verão mais adiante.
6. Saudades de Vegeta e Bulma? No próximo capítulo eles aparecem... e vamos começar nossa jornada para o emirado de Dubai. Muitas emoções para nossos dois casais pela frente.
7. Mere Haath Mein é uma música do filme Faana, com Aamir Khan e Kajol, a única parceria dos dois atores e o primeiro filme em que o ator não fez um bom moço indiano.
