Capítulo 37 – Jai ho! (Avante!)
Dubai parecia um mundo de sonhos para a família Sayajin.
Goku achava que não dava para ficar mais impressionado do que já tinha ficado até então. Eles haviam chegado depois do voo de três horas e meia ao Aeroporto de Dubai, então foram conduzidos na van que a SFL disponibilizara pelas largas avenidas até o luxuoso hotel Jumeirah Al Qasar. Não era, ao contrário de vários hotéis de Dubai, um arranha-céu envidraçado e de arquitetura espalhafatosamente futurista, mas parte de um conjunto de resorts 5 estrelas com arquitetura neo-mourisca e lindas suítes com varandinhas cobertas de treliças de onde se via um conjunto de canais que circundava o hotel, dando a impressão de um palacete árabe modernizado.
O caminho já provocara neles estranhamento, porque nunca haviam visto ruas tão vazias. Em vez do trânsito caótico como o de Mumbai ou Déli, a van cortou rapidamente por uma via expressa e logo eles estavam parando diante da luxuosa recepção, onde um exército de funcionários os recebeu e mimou até que o Check-in estivesse completo. Gine parecia uma criança feliz, sorrindo e dizendo "namastê" para cada funcionária que se aproximava. Nem em seus sonhos mais ambiciosos ela um dia imaginara ser recebida num ambiente assim.
Da varanda da sua suíte de luxo, Goku viu, maravilhado, o complexo de piscinas, um dos maiores de Dubai, que mais parecia um gigantesco conjunto de lagoas cercado por cabaninhas tropicais onde o hospede podia ser massageado, tratado, cuidado como num spa e, lá adiante, depois de mais canais cercados por tamareiras exuberantes, a praia de Jumeirah, a mais famosa de Dubai e os outros hotéis Jumeirah: . Espichando o pescoço, ele viu, numa ilhota praticamente dentro da praia, o luxuoso arranha-céu do Burj-al-Arab e, olhando para o lado oposto, o Atlantis "The Palm", na ilha artificial onde dois anos antes havia sido filmado o blockbuster de Bollywood "Happy New Year" e, para o outro lado, um dos complexos de ilhas artificiais que ele sempre via nos comerciais que anunciavam Dubai como destino turístico na TV.
Rindo como um bobo, ele andou até a imensa cama e se atirou de costas, sentindo os lençóis macios de algodão egípcio e pensando que aquilo tudo parecia sonho. Sabia que Chichi, que só iria para Dubai no dia seguinte, ficaria no mesmo hotel, provavelmente numa suíte ainda mais luxuosa, mas, mesmo sem querer, ao pensar nela e naqueles lençóis macios foi impossível não a imaginar ali, naquela cama king size com ele. Era a primeira vez na vida que tinha um quarto enorme, com um banheiro enorme, com uma pequena antessala e uma inacreditável varanda só para ele. Nem acreditava que aquilo era possível: aquele quarto era quase do tamanho de sua antiga casa em Mumbai, antes deles erguerem o segundo andar. De repente, alguém bateu na porta. Era Raditz. Ele já havia trocado de roupa e ostentava um terno castanho-claro e tinha os cabelos alinhados num rabo-de-cavalo, como agente profissional que era.
– E aí, bhaee? – ele perguntou rindo – o que achou?
– O que eu achei? O que eu achei? Nossa, isso aqui é o melhor lugar do mundo! Quero me esconder numa gaveta e ficar para sempre!
– Vença a luta e poderemos voltar muitas vezes! – brincou Raditz, sorridente. Mas, de repente, ele ficou sério e disse:
– Tem umas coisas que precisamos conversar...
Goku olhou para o irmão desconfiado e disse:
– Não vou mais bancar o namoradinho da Caulifla. Já falamos sobre isso.
– Não é isso – ele riu – Não é bem isso. Você sabe que eu também agencio Chichi agora, não sabe?
– Sei, claro que sei. – ele suspirou – todo mundo quer ser representado por você numa mesa de negociação se for minimamente inteligente.
– Pois bem, eu já conversei com ela. Vocês precisam começar a ser visto juntos aos poucos, pode ser aqui, com a devida discrição. Mas vão com calma. Ela ainda precisa lançar Anarkali e não fica bem ela ficar com fama de destruidora de relacionamentos. E aqui em Dubai, é bom lembrar, casais não casados não podem demonstrar afeto em público!
Goku bufou e o irmão prosseguiu:
– Eu sei que é chato, mas amanhã a imprensa da Índia que não é a esportiva vai invadir isso aqui atrás de uma história, furo ou fofoca quando ela e Vegeta chegarem. E eles não vão dar sossego a nenhum dos dois, visto que são vinte vezes mais famosos que a nossa Bulminha, que, mal ou bem, deve estourar mesmo com esse filme agora. Então, bhaee, protejam-se. E não seja rude com a Caulifla em público.
– Vou me segurar.
– Aliás e a respeito... – Raditz coçou a cabeça, sem jeito – eu estou no quarto da frente, não fiz questão de uma vista espetacular, maan e Bulma estão numa suíte dupla bem do lado direito da sua... e você viu por acaso uma porta ali no vestíbulo?
– Ves o quê?
– Vestíbulo – ele levantou-se e mostrou a porta para o irmão, na antessala. Goku deu de ombros e perguntou?
– Um armário?
– Não... você sabe que estamos num país muçulmano onde os costumes são bem rígidos, por exemplo, casais solteiros nunca se hospedam juntos, mas os caras aqui sempre dão um jeitinho... sem que eu soubesse, a SFL hospedou a Caulifla numa suíte contígua à sua, e essa porta dá para ela. Eu tinha comentado isso contigo quando falamos sobre essa viagem pela primeira vez.
– O quê? – berrou Goku – posso ir lá embaixo e pedir pra trocar e...
– Não faça escândalo, bhaee... essas suítes só abrem pelo lado do homem. É só você não bancar o curioso e não abrir a porta.
– Ok – disse Goku, levantando-se. – Mas, por precaução... – ele foi até uma cadeira com aparência pesada, deslocou-a e apoiou na porta, tirando ainda a chave da porta e jogando dentro de uma gaveta, que ele depois fechou – não quero chegar do treino de hoje e dar de cara com aquela louca aqui dentro.
Raditz riu do exagero do irmão.
A coletiva da imprensa da SFL havia sido marcada para o fim daquela tarde no centro de imprensa da Cidade dos Esportes de Dubai, um complexo multiesportivo que tinha toda a estrutura para sediar qualquer tipo de evento e que abrigaria, no dia seguinte, o maior evento de lutas da história do Emirado, que estava atraindo repórteres de toda Ásia. O evento estava programado para começar no início da noite do dia seguinte para coincidir com o horário nobre da Índia, por causa da diferença de uma hora e meia no fuso horário para Dubai. A luta de Goku seria por volta de sete horas da noite, fechando a programação esportiva.
Logo depois, às 22h um salão do hotel Jumeirah seria transformado temporariamente num luxuoso cinema para a exibição de "Shakti", que, com duas horas e meia de duração, que deveria acabar depois da meia noite, quando realmente começaria a festa no Terrace, o principal pátio de eventos do hotel, com direito a muitos requintes, mas com o consumo de álcool restrito a quatro drinks por pessoa, por causa das leis do emirado.
Goku e Raditz chegaram pontualmente ao centro de imprensa às 16h, para a pesagem e a entrevista coletiva, Raditz com o terno que vestira assim que chegara e Goku com um conjunto esportivo da marca que patrocinava a liga, reclamando do calor que o abraçou assim que deixou o ar condicionado da van da SFL. Raditz o repreendeu avisando que logo estariam no ar condicionado novamente, mas ele só se sentiu realmente satisfeito quando pôde tirar a roupa e ficar apenas com a boxer de luta para subir na balança.
Ele e Jiren mediram-se silenciosamente antes da pesagem. Goku permanecia com os 109 quilos da pesagem anterior, mas Jiren perdera 1kg, chegando aos 111, apenas 2 kg de diferença entre eles, o que não iludia de forma alguma Goku: Jiren derrotara Broly em melhor forma do que o gigante estava quando lutara com Goku, e não deveria jamais ser subestimado. À pesagem deles, seguiu-se às dos demais lutadores terminando com a de Heles e Caulifla, que abririam a noite de luta, mas foram as últimas a serem pesadas, marcando ambas os mesmos 65kg.
A entrevista sobre a luta foi logo em seguida, e Goku entrou no salão sorridente e sentiu os flashs todos sobre ele. A verdade era que Jiren não era dos mais amigáveis com a imprensa. Sentou-se e a primeira pergunta para ele foi:
– Gostando de Dubai?
– Adorando! Poderia morar até mesmo na casa de cachorro de alguém por aqui... pena que é ilegal.
Todo salão riu, menos Jiren. Um repórter mais indiscreto perguntou, então:
– Você e Caulifla não chegaram no mesmo voo? Porque não os vimos juntos ainda?
– Porque não estamos mais juntos – ele disse objetivamente – o término foi amigável e daqui em diante prefiro responder sobre a luta.
Um burburinho seguiu-se pelo salão e ele, ao virar para o lado, rindo, viu Caulifla nos bastidores, porque esperava sua vez de ser entrevistada, levantando o dedo do meio para ele e depois passando o indicador horizontalmente pelo pescoço, como dizendo que ele perderia a luta. Ele tornou a olhar para frente e se concentrou na entrevista. Um repórter perguntou, de forma maliciosa:
- Como é ser o mais popular, mas não ser o favorito na bolsa de apostas, Goku?
- Estimulante! – disse ele, sorrindo – eu gosto sempre de lutar com quem é mais forte que eu para me sentir motivado e empolgado. E se eu vencer vai ser mais legal ainda.
A entrevista seguiu por mais alguns minutos e Goku não viu o rosto preocupado do irmão que o olhava dos bastidores, preocupado.
Depois da entrevista, ele foi para um ginásio de treinamento que fazia sua academia em Mumbai parecer um barraquinho. Mesmo sabendo que aquele era um treino leve, apenas para não perder o ritmo, ele se concentrou com toda seriedade. Seus mestres e treinadores haviam chegado num voo mais tarde e estavam hospedados numa ala menos luxuosa do mesmo hotel que ele, e ficavam comentando sobre a beleza das turistas hospedadas em Dubai.
– Veja lá, mestre Kame, aqui não é Mumbai e isso pode te dar problemas – disse Goku entre um soco e um chute no saco de areia de 100kg – vai arrumar de ser preso...
– Olhar não tira pedaço! – disse o velho mestre.
– O problema é que você nunca foi de apenas olhar – disse o Mestre Karin, que segurava o saco de areia para que Goku batesse – aqui passar a mão na bunda de uma moça te poria na cadeia. Agora os chutes, Goku!
Goku começou a chutar compassadamente o saco de areia, sem sinal de cansaço. Ele havia treinado com bons sparings ainda em Mumbai e sabia que não havia mais como melhoras, agora seu papel era apenas lutar e dar o seu melhor para tentar vencer. Quando os mestres o liberaram era quase hora do jantar. Ele e Raditz voltaram ao hotel para encontrar a mãe e a irmã e Goku ficou brincando com Bulma como faziam quando eram crianças. Quando terminaram, Goku disse, com um ar matreiro:
– Vou vestir uma roupa de banho e dar um mergulho! Está quente para caramba e eu vi que a piscina fica aberta até meia-noite!
– Eu vou com você, bhaee! – disse Bulma, finalmente animada. Se aqueles eram seus últimos dias de relativa liberdade, ela queria aproveitar.
O embarque de Chichi e Vegeta para Dubai, acompanhados de Raaja e Tarble, além de Oolong e parte do staff foi diferente do embarque da família Sayajin. Já havia repórteres esperando por eles na entrada do aeroporto, e paparazzi por todo caminho. Doze seguranças, sem a presença de Tenshinhan que estava liberado por quinze dias por conta do nascimento do bebê de Lunch, cercavam o grupo. Vegeta, que estava bem arrumado e de óculos escuros resmungou:
– Como eu "amo" sair de Mumbai quando sabem que vou para um evento... em pensar que minha querida irmã tinha um avião e deu para aquele seboso do Shallot de brinde...
– Eu já te disse que odeio quando você faz essa piadinha besta... teu pai disse que vamos num voo fretado. É a mesma coisa. Só vamos nós no avião. Você é muito chato, bhaee... – ela completou, e ele a olhou dizendo:
– Fale baixo que se um desses sabujos da imprensa escuta você me chamando assim vai dar o que falar. Estão loucos para arrumar uma história...
– Eu sei que ficou emocionado porque eu te chamei assim, admita. – ela olhou para ele sorrindo e ele sorriu de volta dizendo:
– É, pode ser...
Chichi sentiu os flashes espocando por ali por perto e disse:
– Pronto. Eles já tem uma história... vão inventar um romance entre a gente... de novo.
Tarble se enfiou entre dos dois e disse:
– Não me excluam! Eu sou o mais novo, mas quero participar da fofoca também! O velho Raaja tá super mal humorado hoje, ele detesta andar de avião!
Os três foram rindo, se encaminhando para uma sala vip dos voos particulares onde poderiam se livrar dos seguranças, quando viram um casal mais à frente, o homem de cabelos arrepiados e a mulher com longos cabelos azuis soltos. O homem tinha as mãos na cintura da mulher, que usava um vestido muito curto e decotado e saltos altíssimos. Vegeta empacou, de repente e disse:
– Aquela é a...?
– Não, não pode ser a Bulma, falei com Goku e eles chegaram a Dubai ontem. – disse Chichi.
O casal entrou na sala vip e ela revirou os olhos dizendo:
– Não acredito...
– Aquele é o Shallot? – perguntou Tarble, olhando de um pro outro – e ele comprou uma real doll da Bulma, por acaso? Já tá avançada assim a tecnologia?
Os três foram empurrados para dentro da sala vip por Raaja, que disse:
– Como são moles, depois eu que sou um velho...
Tudo que Chichi menos queria no mundo era ficar num ambiente confinado com Shallot, mas foi inevitável dar de cara com ele, que a encarou com um sorriso presunçoso, dizendo:
– Ora, que incrível coincidência... veio pedir carona no meu avião, Chichi?
– Shallot, eu preferiria lamber os pés de um asceta que não tomasse banho há trinta anos a ficar cinco minutos em qualquer lugar do mundo contigo. Vamos, Vegeta...
A garota dos cabelos azuis sorria para Vegeta, que desviava os olhos, sem jeito. De perto percebia-se que era apenas parecida com Bulma. Shallot percebeu e disse:
– Quer conhecer minha amiguinha? Ela foi Miss Bengala na última edição, acho que venceu porque parece com aquela sua amiguinha comprometida com o Yamcha... ela está indo comigo porque quer um papel na produção que eu estou financiando, meu primeiro filme.
Embora o sangue de Chichi estivesse fervendo ela olhou para a garota, que contemplava Shallot apreensiva, e disse diretamente para ela:
– Você é linda, moça... pode procurar meu agente, podemos coloca-la numa produção sem que você precise sair com alguém que fica te oferecendo como presente para os outros... ele pegou esse hábito ruim com aqueles príncipes horrendos de Dubai – Chichi estendeu um cartão para a moça, que pegou com uma expressão de dúvida ao que Chichi perguntou – qual seu nome?
– É... é Maron.
– Espero te ver nas telas, mas não imite ninguém, seja você mesma...
Shallot arrancou o cartão das mãos de Maron e rasgou, dizendo:
– Ela não precisa da ajuda da amantezinha de um lutador de classe baixa!
Ele nem mesmo soube de onde veio o tapa que o atingiu, mas Maron levou as duas mãos à boca, espantada e Chichi disse:
– Lave sua boca para falar de mim ou do Goku, seu cretino patético...
Shallot a encarou com raiva e ia dizer alguma coisa quando Raaja surgiu e disse:
– Vamos, Chichi. Não se suje por pouco. Já podemos embarcar...
– Raaja, meu velho. – disse Shallot, não satisfeito com sua inconveniência anterior – Conseguiu alugar um jatinho para levar sua turma ao evento?
Raaja encarou Shallot por um instante com um ar risonho, como se achasse uma graça infinita do que ele dizia e então disse:
– Não, pateta, comprei um, melhor e mais caro que aquela lata velha que Chichi te passou para se livrar de você. Não tem ideia de como os filmes ficaram lucrativos depois que sua influência pouco auspiciosa deixou a Sadala filmes... vamos, meninos. – ele disse, puxando os filhos para o corredor que levava ao terminal dos voos particulares.
– Você disse que comprou um avião, puraana (velho)? – perguntou Vegeta, quando estavam suficientemente longe de Shallot – e não nos contou nada?
– Era para descobrirem quando embarcassem, aquele idiota me fez estragar a surpresa – disse Raaja, irritado.
Quando pegaram o cartão de embarque viram que a identificação da aeronave, além do código, levava o nome de "Shanti". Tarble e Chichi se entreolharam e o filho mais novo disse, alegremente:
– Claro, não tinha um nome melhor para a princesinha dos ares, senão Shanti!
O centro de esportes estava lotado. A maior parte do público presente era, no entanto, de indianos endinheirados que tinham pago uma fortuna em pacotes turísticos para o evento da SFL. Goku havia chegado ao centro pela manhã, feito um treino leve e agora mantinha-se aquecido enquanto o evento propriamente dito não começava. Ele já estava vestido com o calção e com um roupão por cima e as luvas estavam próximas, penduradas num gancho no vestiário, onde ele estava se concentrando, sozinho porque assim pedira ao seu staff.
Como ele chegara ali cedo, para o treinamento antes da luta, não tivera ainda a oportunidade de ver Chichi. Aquele dia, aliás, depois do café da manhã ele sequer vira a sua família: Bulma e Gine tinham passado a manhã num spa e Raditz ficara no hotel para receber Vegeta e Chichi e para conversar com alguns organizadores do evento sobre o pós-luta, sendo Goku o vencedor ou o derrotado.
Goku recapitulava mentalmente sua estratégia para a luta. Jiren era um lutador cauteloso, mas letal. Ele costumava prolongar a trocação de pequenos golpes indefinidamente ao longo do primeiro assalto, para então, atacar de forma rápida e definitiva.
Ele assistira a luta de Jiren com Broly mil vezes: depois da queda do gigante, como era válido nas regras do MMA, Jiren saltara sobre ele e, com uma chuva de socos, garantindo que ele não se levantasse sem a interferência do juiz da luta, que declarara o combate encerrado quando, ao separar os dois, Broly claramente não tinha mais condições de luta. Não importava o que acontecesse, ele não podia deixar "Naga" (Naja) como eles estavam chamando Jiren agora, conseguisse dar nele o seu bote fatal.
Mas... e se ele conseguisse?
Não havia uma resposta clara. Ele, de repente, se lembrou da sua conversa com o motorista da van no seu primeiro dia de SFL. O homem, que se chamava Beets ou algo assim, dissera a ele: "É preciso foco, disciplina e, talvez, um pouco de sorte!". As duas primeiras coisas, ele sabia que tinha. A terceira? Ele não sabia. Será que Lakshimi e Ganesha, os deuses da boa sorte, sorririam para ele aquela noite? Ele não tinha certeza.
Mas, certamente, até ali, haviam sorrido e muito para ele. Saíra de um bairro pobre para uma das áreas mais nobres de Mumbai, e, mesmo que perdesse aquela luta, agora a sua família já estava consolidada numa posição melhor, e ele fazia parte dessa conquista. Mas ele queria ainda muito mais que isso, portanto precisava ganhar. Silenciosamente, ele fez uma prece para os dois deuses pedindo boa sorte naquela luta e, quando estava de olhos fechados, ouviu uma voz feminina bem atrás dele.
– Eu não tenho muito tempo...
Ele se virou, espantado, para ver Chichi, linda num sári azul cobalto e rosa com detalhes prateados, sorrindo para ele, as mãos juntas no meio do peito.
– Chichi – ele disse, não contendo a alegria – não achei que fosse te ver antes do fim da luta!
– E não ia – ela disse, sorrindo para ele. – O Vegeta conseguiu uma credencial e me trouxe aqui escondida. Você sabe, não permitem mulheres aqui! – ela deu um passo até ele e disse – mas eu precisava te desejar boa sorte!
Ele pôs os braços em volta dela e a puxou, olhando-a nos olhos antes de dizer:
– Beijos em público aqui são ilegais...
– Ainda bem que estamos escondidos – disse ela, antes dos dois se beijarem com a força da saudade dos dias e dias separados. O beijo foi intenso, e Chichi o sentiu endurecendo antes dos dois se separarem, ofegantes. Ele tinha os olhos apertados, e mordeu os lábios quando disse:
– Que bom que eu estou de roupão... esse calção é apertado e...
– Eu entendi – ela riu, também. – Você estava orando, quando eu cheguei?
– Sim – ele riu – para os Deuses da boa sorte. Para que me iluminem.
Ela sorriu para ele e então ele viu que ela tirava algo da pequena bolsa que segurava: um pequeno pote de kunkun de sândalo. Goku sorriu quando ela ficou nas pontas dos pés e depois de tingir a ponta do dedo médio e a do indicador na pasta vermelha, fez o tradicional ponto na testa dele e disse:
– Om shanti, mere sonye. (seja abençoado, meu amado)
Ele sorriu e respondeu:
– Om shanti, mere sonye (seja abençoada, minha amada!)
Dizendo isso, ele sujou os dedos no kunkun e tocou a testa dela logo abaixo da mangatikka que ela usava, que sorriu. Trocaram mais um beijo quando ouviram a batida na porta do vestiário e Vegeta dizendo:
– Vamos, Chichi, antes que apareça alguém!
Ela jogou a ele mais um beijo e saiu pela porta, deixando seu coração muito aquecido.
Quando se escrevesse a crônica da noite da SFL em Dubai, muito depois do evento, as pessoas falariam do tanto de surpresas e lances chocantes que aconteceram em todas as lutas daquela memorável noite. Goku, obviamente, não presenciou as lutas anteriores, porque pediu que as TVs do seu vestiário fossem desligadas para que ele se concentrasse melhor, então, só saberia dos resultados das preliminares depois do resultado da sua luta.
Por isso ele não viu a derrota por nocaute de Caulifla, que foi derrubada logo no primeiro assalto por Heles. A arrogância da jovem campeã custou a ela muito caro. Ela entrou no octógono cheia de atitude, com o cinturão que já defendera três vezes no ombro e uma cara de quem tinha certeza de que venceria facilmente. A outra moça, que tinha a pele mais escura em contraste com os seus olhos verdes, parecia séria e concentrada, e, no lugar de esperar a típica trocação de golpes do primeiro assalto, demonstrou conhecer bem os pontos vulneráveis da sua adversária. Caulifla tentou um direto de direita e desguarneceu o lado esquerdo, e foi quando Heles, numa agilidade impressionante, acertou-a com um rápido chute lateral que a atingiu bem na orelha.
Caulifla cambaleou e levou um golpe, dessa vez à direita, e não esperava o movimento de Heles, que, abraçando a sua cintura, à levou ao chão e desceu com uma chuva de socos certeiros que a tiraram do ar. Quando Heles ergueu-se, não era o seu nome que a multidão gritava, mas o da deusa Kali. Algumas pessoas que testemunharam a luta podiam jurar que ela havia se transfigurado e parecia exatamente com a terceira esposa de Shiva e assassina de demônios, a deusa mais temida do panteão indiano.
Mais duas lutas de pesos leve e médio, e Goku e Jiren entraram na arena, um para cada lado. Pelo Oeste veio Deewaar, o muro. O jovem desafiante vindo de Mumbai, Son Goku, que não havia recuperado prestígio e saía em segundo lugar nas apostas de todos os bookmakers. Pelo Leste, calado e soturno, a temida Fera de Telangana, Jiren, também chamado de Naga (Naja). Os dois se encararam no centro do octógono. Nenhum dos dois sorriu. Goku reviu toda sua trajetória até ali, certo de que seus movimentos e derrota ou vitória o marcariam e mudariam toda história da sua vida.
Tocaram as luvas e Goku partiu. Cinco assaltos de cinco minutos. Vinte e cinco minutos no máximo o separavam da glória ou do esquecimento. Como o esperado, Jiren não o atacou com força máxima, o manteve distante, tentando irritá-lo. Goku tentava encaixar seus socos e os novos chutes do jiu-jitsu que ele tão custosamente aprendera.
Jiren não parecia estar disposto a morder a isca de partir para um combate mais franco e aberto com Goku, mantendo a distância segura e a guarda fechada, chamando o desafiante para o combate com pequenos saltos. Foi quando Goku se adiantou e trocou a base de apoio que Jiren justificou seu apelido, agindo como uma Naja. Ele foi rápido e não mirou no rosto: seu soco atingiu Goku em pleno plexo solar, o fazendo abrir um pouco a guarda, por um pequeno instante. Um segundo soco no queixo o derrubou, e o temido lutador veio por cima, não parando por nem um instante de socar seus braços, uma vez que Goku, assim que caiu, fechou a guarda e fez tudo para evitar os golpes, mesmo no chão.
Caído ainda no meio do primeiro assalto, Goku tentava, a todo custo não ser mais atingido. Uma regra do MMA é que chão não é necessariamente fim de luta, o juiz determina se há ou não condições de seguir o combate. Mas, era duro admitir: até então, o chão tinha sido o fim para todos que haviam lutado contra Jiren. A mente de Goku trabalhava rápido enquanto ele procurava uma solução, mas o tempo se esvaía, os socos não diminuíam, e ele não achava uma saída.
Seria aquele o fim do seu sonho?
Notas:
1. Goku está no chão. Vocês acham que ele levanta ou perde essa luta? Jiren é implacável, não se esqueçam.
2. Chichi deu uma lição em Shallot mas vou dar um spoiler para vocês: ele não aprendeu foi nada.
3. Sobre Caulifla: a situação dela não é nada boa, né? Além da revelação do fim do "namoro" um nocaute com muitas consequências. Como isso vai afetar a história vocês saberão no próximo capítulo, que se chama "Faana" (Quebrado).
4. O complexo de hotéis Jumeirah é o mais procurado de Dubai, que quase não tem hotéis abaixo de 5 estrelas. O Jumeira Al Qasr fica numa das quinas do complexo, que tem canais de água salgada com balsas para levar a todos os pontos do resort e um conjunto de piscinas comum a todos os hotéis que é um dos mais elogiados do mundo.
5. Mas o Jumeirah não é o hotel mais luxuoso e caro de Mumbai, embora tenha até mesmo uma praia particular. Esse título fica com o Burj Al Arab, que lembra uma gigantesca nave futurista. O hotel, que fica numa ilhota artificial é um dos poucos do mundo a ser qualificado como "sete estrelas" por fornecer luxos além do normal para um hotel de cinco estrelas. Já o Atlantis The Palm fica no centro de uma das famosas ilhas artificiais de Dubai e dificilmente ele e o Burj Al Arab seriam visíveis da mesma suíte do Jumeirah, mas eu quis falar de ambos e então me perdoem.
6. Aliás, em qualquer desses hotéis as torneiras são banhadas a ouro e todas as camas são king size. Os preços são proporcionais a esses luxos: acima de 500 dólares a diária do Atlantis e do Jumeirah e 1500 dólares a diária do Burj Al Arab. Em todos os hotéis, no entanto, convém observar o protocolo islâmico para visitantes. Determinados comportamentos são tolerados, mas não apreciados: mulheres e homens não devem demonstrar afeto em público e o consumo de bebidas é limitado. A não ser que você esteja numa festa particular paga por algum príncipe muito importante. Aí, dizem, vale tudo.
7. Sobre Dubai: se você for muito rico, pode solicitar e o governo te permite construir uma ilha particular no litoral, mas a manutenção fica a seu cargo e você tem que tomar cuidado para fazer uma construção sustentável. O centro esportivo descrito na história existe e dizem que Dubai, a despeito de nunca ter se candidatado, é um dos poucos lugares do mundo em que não haveria necessidade de construção de instalações adicionais para uma Olimpíada.
8. "Jai ho!" É uma canção do filme de 2008 "Quem quer ser um milionário". É uma expressão parecida com "Chak-de!" e nenhuma das duas tem uma tradução exata, mas são usadas como expressões de apoio nos esportes.
