Capítulo 38 – Fanaa (Quebrado)
– Gokuuuuuuu! – a voz de Chichi, num grito de desespero que ele ouviu claramente no meio da platéia, o atingiu de repente, mais forte que qualquer golpe.
Por um momento, ele sentiu que estava quebrado e que tudo estava perdido. Era assim, afinal, que terminava tudo? O sonho do menino pobre de Andheri East, que brigara como um tigre no circuito de rua e a duras penas cavara um pequeno espaço no Wrestling e dali para o MMA da SFL. Era assim que acabava, quebrado, derrotado?
Os socos implacáveis de Jiren, por sorte, não se encaixavam totalmente e ele mantinha a sua defesa, mas o outro, ao perceber que não atingiria a cabeça de Goku, começou a tentar atingi-lo nas costelas. Tudo estava contra ele, resistindo como podia e evitando o golpe de misericórdia quase por milagre. Ele fechou os olhos, mordeu o protetor bucal com força e pensou: tinha que haver uma brecha, ele precisava reagir. E tinha menos de dez segundos para isso.
Foi quando Goku sentiu que havia um caminho: as suas pernas estavam dobradas e juntas também no centro do corpo, evitando o avanço final do adversário, que sempre tentava furar aquela distância para finalizar a luta, e isso fazia com que seu equilíbrio fosse quase precário: ao sentir que Jiren tentava erguer-se um pouco para tornar os golpes mais eficientes tirando do chão um dos pés de apoio, Goku agiu.
Girando seu corpo, ele atingiu a perna suspensa de Jiren com o joelho esquerdo e o lutador perdeu o equilíbrio e, na tentativa de se aprumar, deu trégua a Goku, que se aproveitou disso para segurá-lo num movimento de Wrestling e conseguir uma miraculosa reversão. Goku abriu os olhos para encarar Jiren quando o agarrou e imobilizou, então, percebeu uma coisa:
Os olhos cinzentos do rapaz se arregalaram com uma nota de desespero, e Goku pôde sentir os músculos dele ficando tensos, tentando escapar da prisão que era a montada de Wrestling que Goku aplicara no seu corpo. Goku queria finalizar a luta, mas não conseguia efetivamente imobilizar Jiren da forma correta e sufocante que era necessária para o juiz terminar a luta e não era louco de tentar um golpe mais forte do que os pequenos socos que desferia nas costelas dele, porque qualquer soltura podia ajudar o outro a conseguir segunda reversão.
O round acabou e os dois se ergueram. Goku respirou fundo, aliviado, porque sobrevivera ao primeiro assalto, mas embora ele tivesse orado por sorte, ele não podia contar com ela. Precisava tentar nocautear Jiren, porque ele tinha uma técnica nitidamente boa e ele não venceria jamais por pontos, e, se adversário conseguisse encaixar de novo um "grounding" levando-o ao chão, ou acertasse um golpe na sua cabeça, Goku não tinha certeza se ia conseguir se livrar da finalização.
Aquela era, certamente a luta mais desafiadora de sua carreira, mas, a partir do momento em que ele percebeu que Jiren tinha pontos fracos, ele, em vez de assustado sentiu-se empolgado. Seus treinadores e o médico do octógono verificaram suas condições: havia um pequeno corte na sua boca, que podia se aprofundar se ele levasse um novo golpe, mas o sangramento era leve. Apenas um golpe o atingira na cabeça, mas ele não sentia nenhuma dor. O golpe no plexo solar, no entanto e outros, nos ombros e braços, ardiam como fogo vivo e certamente iriam gerar hematomas.
Goku levantou-se, determinado a finalizar a luta no segundo assalto. Os dois tornaram a medir-se por um instante antes do assalto começar e Goku tomou novamente a iniciativa quando o sino tocou, mas, desta vez percebeu Jiren ainda mais cauteloso e pressentiu que ele pretendia tentar finalizá-lo com um golpe certeiro, um soco devastador, porque sentia medo do contato físico de alguma maneira. De repente, Jiren avançou e o golpeou no rosto, "furando" sua guarda.
Goku sentiu uma dor profunda no centro da face, bem no nariz, mas, mesmo pego de surpresa, conseguiu resistir e lançou seu corpo para frente, surpreendendo também Jiren com uma joelhada na lateral do corpo. O choque dos dois machucou ambos, mas Goku não se deixou abater e, no estirão do golpe aplicado, agarrou-se a Jiren e desta vez foi ele quem o levou para o chão, imobilizando-o pelo pescoço num potente mata-leão.
Mesmo com o sangue brotando do nariz e da boca, ele não desistiu. Prendeu Jiren fortemente ao chão enquanto via o lutador tentar, desesperado, se desvencilhar do seu garrote implacável, herdado dos tempos de lutador de Wrestling, seu primeiro e mais forte fundamento nas artes marciais. Cada tentativa de Jiren de se soltar o fazia apertar mais firmemente. Mas, de repente, Jiren começou a virar o corpo numa desesperada tentativa de reversão, tentando desequilibrar Goku, que então jogou o corpo forçando o peso sobre Jiren, que, de repente, se moveu com fúria.
Pressentindo que Jiren iria conseguir reverter seu jogo de chão, Goku o largou e ergueu-se num salto, se afastando o suficiente para evitar o bote contrário. Jiren tinha os olhos em fúria agora, não gostava de ser levado ao chão e queria realmente encaixar um soco ou ou chute para derrubar Goku, que sentiu, subitamente que, com aquele recuo, chegara ao limite da grade do octógono. Jiren vinha como um touro furioso para tentar acuá-lo na tentativa, agora quase desesperada, de encaixar um golpe ou encurralá-lo nas grades com socos fortes e certeiros.
Tudo, de repente, pareceu mais lento. Aquele segundo durou uma eternidade: ele viu a posição de Jiren, a distância, sentiu o deslocamento de ar do outro vindo em sua direção. Era o momento do tudo ou nada, e, nesse instante, os deuses da sorte iluminaram Goku. Ele praticamente viu o golpe antes de acontecer e então, saltou e, quando estava mais de 1 metro acima do chão, seu corpo girou e ele desferiu um chute lateral que atingiu Jiren com toda força na lateral da cabeça, derrubando-o de lado no chão, onde ele permaneceu com os braços abertos, estático.
Goku prendeu a respiração quando o juiz se aproximou de Jiren, abaixando-se para avaliar seu estado. Foi quando o homem se ergueu, abriu e fechou os braços no gesto típico de fim de luta. Quebrado e sem ação, era o fim para a temida Naja de Telangana.
Os braços de Goku caíram ao longo do corpo e ele mal sentiu suas pernas cederem quando caiu de joelhos no chão. Lágrimas vieram aos seus olhos, misturando-se ao sangue de suas recém-abertas feridas. Mas depois ele se preocuparia em sentir dor: ele conseguira. Vencera.
Era o campeão dos pesos pesados da SFL.
Como estava sangrando, Goku foi levado ao vestiário para ser examinado, logo depois da curta cerimônia de premiação, sendo seguido por seus dois treinadores.
– Ai, ai, aaaaaaai! – Goku gritou quando o Dr. Champa, um dos dois médicos da SFL que acompanhara a comitiva deles, apertou a gaze que continha seu sangramento nasal.
– Calma aí que a gente tem que conter essa porcaria. Conheci um sujeito que o nariz dele sangrava quando ele via uma mulher bonita, mas você é um cara de sorte e isso aí nem é uma fratura, foi só um corte interno mesmo.
– Parece que ele tá falando de você com esse negócio de sangrar o nariz, Kame – disse o mestre Karin, que observava com atenção o procedimento.
Goku também segurava um pedaço de gelo com uma toalha junto ao lábio inferior, para estancar o sangramento do corte provocado pelo primeiro golpe de Jiren.
– Tira o gelo para eu olhar, garoto! – disse o médico, querendo ver se o lábio parara de sangrar. Goku baixou o gelo e ele disse – Beleza. É superficial, o do nariz também. Sente alguma tontura, enjôo ou dor de cabeça?
Goku sacudiu a cabeça em negativa e então ele, juntando as duas mãos de Goku no emaranhado de gaze que continha o sangue que saía do nariz e da boca disse:
– Segure por mais cinco minutos. Eu te examinei e não tem nenhuma lesão profunda ou preocupante. Mas essa coisa aí no meio do seu peito vai ficar roxa. – ele apontou o hematoma no meio do plexo solar de Goku – agora deixa eu ir porque vou na ambulância com o Jiren... qualquer coisa, procure o Dr. Vermond. O Bills já foi com a Caulifla antes e o Quitella também, com o outro rapaz. Hoje foi sério o negócio.
Ele saiu e os dois treinadores o cercaram, falando sem parar da luta. Os fiscais de doping chegaram logo depois, pedindo que Goku concedesse a amostra de urina, o que era constrangedor porque o obrigava a fazer xixi praticamente em público. Ele então tirou a gaze e a toalha e viu que, tirando um pequeno e dolorido inchaço nos lábios e nariz, não havia grandes sequelas.
Raditz chegou quando ele estava no chuveiro, mas o resto de sua família e amigos seguiram direto para o hotel. Ele sentia o coração batendo forte no peito, ansioso para estar com todos que amava. Quando saiu do banho, ainda de toalha sobre a roupa íntima, e viu o irmão, a emoção foi mais forte e os dois se abraçaram, chorando.
– Consegui, bhaee... consegui! – ele disse, sentindo o abraço apertado do outro, que o ergueu ligeiramente no ar dizendo:
– Quem diria que o menor e mais fraco dos dois iria ser um campeão de luta?
– Eu não seria campeão de nada sem o apoio de vocês e a sua proteção, bhaee – ele disse, quando os dois se separaram. – E maan e a Bulma?
– Não podem entrar, você sabe. Elas foram já para a festa no hotel... e é bom você vestir um terno e ir também. O apresentador da festa falou comigo agora e está louco para te conhecer. Aliás, ele tá lá fora te esperando...
– Me esperando? – disse Goku enquanto se vestia, com um terno esportivo sem gravata.
– Sim. Disse ser seu fã. – Raditz tinha um ar divertido e, de repente, Goku desconfiou e passou a se vestir de qualquer forma, atabalhoadamente. Logo estava pronto, ainda que desalinhado e disse:
– Tô pronto! – Raditz riu e abriu a porta do vestiário para que ele saísse.
O choque dele foi inevitável. Diante dele estava Sharukh Khan, o astro número um de Bollywood, o quinto ator mais rico de todo mundo, a quem ele imitara desde criança nos números que ele e Bulma criavam para os festivais religiosos, sonhando com Bollywood.
– Namastê, senhor Khan – disse Goku, atrapalhado, fazendo uma saudação que o ator respondeu, dizendo logo depois:
– Rapaz, você me assustou. Apostei mil rúpias com o Ranveer Singh que você venceria a luta e ele insistia que você cairia no primeiro assalto!
– Mil... rupias?
– É, o Ranveer é um sujeito muito pão duro. Eu sou seu fã, assistia o show da SFL e sabia que um dia você seria o maior.
De repente, Goku desandou a falar:
– Senhor Sharuk Khan, é uma honra que o senhor diga isso, mas EU sou seu fã, desde os cinco anos de idade. Eu e minha irmã imitávamos suas coreografias nos festivais... digo, eu dançava fazendo a sua parte, ela a da senhorita Kajol, ou de qualquer atriz que... não importa, conhece-lo é um sonho! Mas... eu achava que o senhor era mais alto!
O ator riu e, à moda indiana, deu um tapinha na orelha que foi estendido à bochecha de Goku, forma de uma pessoa mais velha demonstrar apreço por um jovem, antes de dizer:
– Eu fui um jovem pobre de Nova Déli que sonhei minha infância inteira com Bollywood, e um belo dia, estava lá, como você está aqui agora. Soube que vai estrear em Anarkali. Estarei lá para assistir. E certamente vou querer você em algum promo meu, sua presença garante muita popularidade, eu já passei o contato do meu agente para seu irmão.
O ator se despediu e saiu, com sua comitiva, deixando Goku abobalhado. Ele sacudiu a cabeça. Aquilo só podia ser um sonho.
– Agora, termine de se arrumar e vamos, superstar – brincou o irmão, trazendo-o de volta à realidade. Hora de ver nossa pequena Bulma brilhar tanto quanto você!
Enquanto Goku se preparava para deixar o centro de esportes, Bulma e Gine já chegavam ao hotel no carro da SFL, quando foram interceptadas por Raaja, que ficara no hotel esperando as duas, a pedido de Vegeta. Ele as abordou assim que chegaram dizendo:
– Ei, você é a Bulma, certo? Lembra de mim?
– O senhor é o pai... do Vegeta?
– Isso, isso mesmo. Vamos ao camarim que montamos aqui no hotel porque você precisa se arrumar para a pré-estreia. Não vai com essa roupa aí, não é mesmo?
Bulma usava um sári estampado em tons de verde que a mãe escolhera a dedo numa loja caríssima imaginando que seria muito sofisticado, e nenhuma das duas pensava em trocar de roupa para o evento seguinte. Gine então fechou a cara e disse:
– Quem é você para dizer como a minha filha vai se vestir? – Ela encarrou Raaja furiosa e ele tomou um susto. Estava acostumado a ser bajulado e não confrontado por pessoas comuns.
– Namastê, senhora...?
– Gine, Gine Sayajin. Sou a mãe da Bulma. Eu te conheci na delegacia, lembra?
– Me perdoe. – ele disse, sem jeito – Como a senhora sabe, a Bulma aqui é a nossa estrela. Mas o pateta do meu filho, que fez o filme com ela, esqueceu de avisá-la que, como ela é a estrela da noite, merecia um tratamento especial, com direito a maquiagem e figuino.
– Eu mesma dei a ela um tratamento especial. Esse sári foi bem caro. E não está mesmo insinuando que eu não maquiei minha filha direito, né?
– Eu imagino que a senhora tenha feito o seu melhor – ele sorriu, tentando ser charmoso – mas são dois eventos diferentes, a luta e a sessão de cinema festiva... e temos um sári de um estilista famoso para ela, uma maquiadora profissional, algumas joias emprestadas, para que ela use...
– Maan! – Bulma disse, de repente – é a minha estreia de verdade como protagonista!
Gine olhou para a filha. Ela parecia ansiosa para usar um sári de estilista famoso...
– O evento vai ser transmitido – disse Raaja, ao que Gine virou-se e disse, encarando-o, ainda irritada:
– Está certo. Mas ela ia comigo para o quatro para que nós retocássemos...
– Não seja por isso – ele disse, sorrindo – vamos que eu as levo até o camarim que montamos aqui. Chichi está lá e a senhora vai ficar radiante com a maquiagem da nossa profissional. Vamos estender à senhora o tratamento VIP, sem cobrança nenhuma. E vamos providenciar um lindo sári para a mãe da nossa estrela!
Hesitante, Gine aceitou a companhia de Raaja, que as foi escoltando até o camarim, enquanto ele tentava parecer novamente o charmoso ator que havia sido vinte anos antes.
Vegeta tinha planejado aquilo como um presente para Bulma. Um dos muitos que ele havia pensado para aquela viagem. Enquanto voltava ao hotel, num carro de luxo com seu irmão, perguntou:
– Acha que ela vai gostar, Tarble... digo, será que ela vai sentir-se bem, não vai tomar como crítica ou algo assim?
– Receber tratamento vip? Ser maquiada, mimada, preparada, tratada como uma estrela de primeira grandeza? Se ela rejeitar isso tudo só pode ser maluca, bhaee... não precisa me agradecer, sabe? Eu tenho dado minhas ideias de graça a você...
– É uma pena que aqui não podemos andar de braço dado ou algo assim. Você foi ótimo descobrindo que o verme inútil não viria, ótimo mesmo...
– Pois é, achei isso tão estranho, bhaee... como ele deixa a noiva aqui e vai para... Los Angeles finalizar um filme?
– Os filmes do idiota têm muitos efeitos especiais. Só o que eles usam para fazer aquela cicatriz ridícula dele não parecer tão ruim...
– Não é isso. Justamente nessa semana? Parece que, sei lá, ele foge dos compromissos com ela.
Vegeta pensou um pouco e percebeu que aquilo não deixava de ser verdade. Se fosse coincidência, era uma coincidência bizarra. Se não fosse, era algo a considerar.
A TV de Mumbai estava por lá para transmitir o tapete vermelho da pré-estreia, mesmo que este fosse dentro do hotel, diante do luxuoso salão no segundo andar do prédio principal. O evento também era transmitido para um canal de TV de Dubai, dedicado aos eventos luxuosos da cidade.
Vegeta esperava por Bulma diante do "camarim" que ele conseguira no primeiro andar, na verdade, um salão de beleza do hotel que ele havia fechado para aquela noite, a peso de ouro. Ele parecia um verdadeiro príncipe, usando um smoking cujo paletó de veludo era de um profundo azul, com um colete preto e gravata de cetim da mesma cor e olhava o relógio toda hora, nervoso. Chichi saiu primeiro e sorriu ao vê-lo, dizendo baixinho:
– Ela está simplesmente deslumbrante.
Chichi passou para o hall, onde esperaria com os demais convidados até sua hora de subir para o salão. Seu lugar estava marcado, dentro do cinema montado no salão de convenções do segundo andar, ao lado de Bulma e Vegeta. Tinham posto Goku ao seu lado, mas eles tinham combinado de não chegarem juntos para manter a discrição necessária. Chichi foi até uma varanda lateral e ficou observando o magnífico canal que circundava o hotel e o lindo conjunto de piscinas circulares iluminado àquela hora. Mais tarde, quando acabasse a sessão, os convidados exclusivos seriam levados em balsas pelo canal até o Terrace, o espaço de festas quase à beira da praia. Suspirou e deu um sorriso para si, interrompido por um desagradável som atrás dela.
– Finalmente encontro a mulher mais linda deste evento perfeitamente sozinha.
Ela virou-se para ver o Príncipe Janemba, percebendo tarde demais que estavam sozinhos naquela varanda.
– Eu não pretendo ficar sozinha com você – ela disse, tentando passar por ele, que disse:
– Não é prudente falar assim com um possível investidor... seus filmes podem receber maior atenção dos meus amigos e minha se você der a mim a atenção que dava ao meu amigo Shallot, já que é uma mulher que não parece querer um marido...
Ela o encarou, mas em vez de ficar irritada, disse simplesmente:
– Se a condição para receber seus preciosos dólares for encostar em um ser humano podre como você, prefiro ir à falência. Com licença.
Ela ia passando por ele quando ele segurou seu braço, dizendo em seu ouvido:
– Como pode ter tanta certeza de que não vai gostar se ainda não provou, princesa?
– Não é preciso chegar muito perto de algo podre para sentir seu cheiro – ela disse e desvencilhou-se dele, fugindo para o salão.
Ela chegou bem a tempo de ver Bulma chegando ao hall, agora arrumada e maquiada profissionalmente, e pôde ver a reação de Vegeta, que arregalou os olhos diante da beleza da moça. Os cabelos presos num penteado elegante, a cascata de cachos azulados caindo desde o alto da cabeça até as costas, ladeado por um arranjo de dálias brancas. Ela usava um sári de seda de grife, elegantemente amarrado no estilo Bollywood, com o pallu jogado sobre o ombro, o tecido translucido permitindo que se visse seus movimentos, os bordados dourados ao longo drapeado cintilando conforme ela andava. As jóias riquíssimas emolduravam seu rosto, fazendo-a parecer uma linda princesa. Chichi sorriu satisfeita ao ver que a jornada da garota estava completa: ela surgia radiante como uma estrela e andou até ela, para fazer seu papel de madrinha naquele ambiente criticamente hostil com os novatos.
As duas se abraçaram, sob o olhar atento de Vegeta e Chichi disse:
– Acho que está na hora de subirmos para o cinema. Vocês dois devem ir na frente.
De acordo com a tradição muçulmana de Dubai, Vegeta deveria ir à frente, sendo homem, mas ele chamou Bulma e os dois subiram as escadas lado a lado, com Chichi logo atrás, filmados pelos canais de TV de celebridades de Dubai, Mumbai e até mesmo da Coreia do Sul e da China. Logo, assumiram seu papel de anfitriões numa fila de cumprimentos, recebendo todos os convidados como donos da festa, os protagonistas do filme que seria exibido logo. Quando o príncipe Janemba apontou no final da escada, Chichi desculpou-se por um instante e saiu por uma porta lateral, de onde observou o movimento de pessoas, evitando voltar até depois que Shallot passasse com Maron logo atrás. A garota parecia perdida e Chichi sentiu pena dela. Se chegasse a fazer carreira, seria uma marionete dele, se fosse eleita como esposa, seria um como um troféu, condenada a existir sem vontade, submissa ao marido.
Quando a fila terminava, Goku apareceu com Raditz e Chichi não abriu um sorriso radiante. Ele era o último a chegar, mas os dois não conseguiam evitar a óbvia química de enamorados que os unia. Quando abordado pela repórter do Bollywood Hungama, ele disse simplesmente:
– Oi, eu sou o Goku e vou ver o filme do meu amigo Vegeta com a minha irmã Bulma!
Chichi olhou para Bulma e as duas deram uma risada do jeito espontâneo dele, que logo se aproximou e disse:
– Tô atrasado? Muito?
– Não, não está – cortou Raditz, tentando evitar que a proximidade entre ele e Chichi os denunciasse – vamos entrar para ver o filme.
A última imagem que a TV mostrou, já que o filme mesmo era protegido por leis de direito autoral, foi o grupo entrando na sala de cinema e o repórter se despedindo e anunciando a estreia do filme em toda Índia no dia seguinte, o segundo do Eid Mubarak.
Enquanto isso, num leito de hospital de Dubai, Caulifla olhava irritada para a TV e pegava seu celular. Ela estava lá sozinha, chateada porque tomara pontos num corte na cabeça, tivera dois dentes quebrados e estava em observação por causa da suspeita de uma concussão semelhante a que tivera Goku dois meses antes. Ela esperou por um instante e quando atenderam do outro lado da linha, disse, firme, porém com a voz engrolada pela ausência dos dentes quebrados:
– Alô, lembra que você queria uma história? Tenho uma para você.
Enquanto isso, dentro do cinema, Sharukh Khan, o ator número um de Bollywood, elogiava Vegeta, Raaja Vegeta e os produtores de Shakti e dizia que veriam o primeiro filme da parceria dos estúdios Sadala com a SFL, então, ele fez uma piada com a aposta dele com o ator Ranveer Singh, que também estava presente, sobre a luta de Goku e disse, para terminar:
– Vamos assistir agora "SFL Shakti: a história de um lutador". Enjoy the show!
Notas:
1. Eu fiquei realmente surpresa com gente achando que o Goku ia perder. Gente, depois desse caminho todo ele fez por merecer a vitória – embora a gente saiba que se ele não é tão forte quanto o Jiren no anime e aqui também não, a ideia era que ele vencesse a luta por resistência e estratégia.
2. Assisti mais de 30 lutas de MMA (nem foi tão difícil porque a maioria é muito rápida) para conseguir entender a dinâmica e escrever uma luta realmente crível. A ideia era que uma luta quase perdida fosse vencida, mais ou menos como algumas lutas memoráveis de Muhhamed Ali no boxe. O fator complicador é que o MMA não tem contagem, e na maioria das vezes que o lutador cai ele perde a luta porque não levanta. Mas como esse tipo de luta também permite ataques a lutador caído, a situação ideal de luta quase perdida era o chão com possibilidade de reversão.
3. Ainda falando da luta, como o MMA tem muitos golpes possíveis, imaginei Jiren como um lutador de repertório vasto, contrastando com o adversário anterior, o Broly, que era limitado pela força e sem muita técnica. O Goku estaria entre os dois, como um lutador de repertório médio mas muito instintivo e estratégico, como ele se mostra na metade final da luta. Finalmente, a finalização bombástica foi inspirada por uma luta do Connor McGreggor, lutador de MMA irlandês do UFC, num vídeo de luta dele que eu vi de uma luta que parecia muito morna até ele se afastar e dar um chute como o descrito, apagando o adversário e finalizando a luta.
4. Agora o Goku é um vitorioso astro do MMA indiano. Chichi e ele estão livres. Esperem grandes emoções para os dois nos próximos capítulos. Mas nem tudo serão flores: Caulifla, Shallot... tem muita gente de olho no casal Goku e Chichi e com disposição para atrapalhar os dois.
5. Mas antes, teremos uma declaração de amor no escuro da sala de projeção. No próximo capítulo vamos ver o filme dentro da história, com Vegeta e Bulma sentados lado a lado. Claro que a grande consagração de Bulma como uma estrela de Bollywood também acontece agora, graças à intervenção do Raaja Vegeta, que continua melhorando como pessoa e ficou bem impressionado com uma certa senhora que ele acaba de conhecer.
6. Sharukh Khan, mencionado aqui muitas vezes, precisava mesmo aparecer em pessoa e conhecendo o Goku, claro. Ele é realmente tudo que é dito na história e um pouco mais: meu ator favorito de Bollywood, certamente. Ranveer Singh, também citado aqui, é um ator de 36 anos famoso por filmes como Ram Leela e Bajirao Mastani.
7. Fanaa é um termo árabe, não hindi, mas popular na língua urdu: quer dizer quebrado, destruído. Foi usado aqui no sentido de que se pode, sim, levantar depois que se caiu, mesmo sentindo-se destruído. O filme Fanaa, estrelado por Kajol e Aamir Khan, chegou a ser exibido em circuito comercial no Brasil e está disponível para ser assistido no Amazon Prime.
