Capítulo 39 – Saawariya (Enamorados)
Dentro do salão nobre convertido em cinema, 250 seletos convidados viram quando a tela se iluminou e o logotipo da Sadala Filmes anunciou a nova produção, logo seguido pelo logo da SFL. Bulma sentiu imediatamente um frio na barriga. Era a sua estreia como protagonista em Bollywood, não um papel de 15 minutos como os 2 anteriores com Yamcha.
Na tela, a primeira cena do filme mostrava Vegeta numa olaria, fazendo pequenos ramaikins, potes de barro usados pela culinária indiana para servir lassi ou caldos. De repente Chichi entrava e gritava:
– Bhaee!
Os dois começavam uma discussão animada sobre tarefas e ele acabava enrolando a irmã e saía para uma luta de rua, num cenário que lembrou a Goku o círculo de luta de rua de Vadala.
– Mas mais arrumado – ele sussurrou para Chichi, que riu do comentário. – você está linda. – ele completou, procurando tocar a mão dela no escuro.
– Goku – ela sussurrou – vão perceber e...
– Eu não ligo. Quero que saibam que eu te amo – ele sussurrou para ela, que disse:
– Não aqui, não agora... – ela podia sentir os olhos dos seus possíveis detratores em cima dela – mas logo... eu prometo.
– Está bem – ele sorriu e virou-se para a tela. – você me deve uma dança na festa.
– Duas – ela sussurrou – promessa é dívida.
Bulma apareceu na tela, radiante e deslumbrante, e ela mesma sorriu ao se ver, e, como toda mocinha de filme, sua entrada era uma dança em que ela exibia seu talento e desinibição. Ao contrário de Chichi, que era toda técnica ao dançar, Bulma era intuitiva e espontânea, e era difícil não se apaixonar pela forma como ela valorizava suas qualidades.
No escuro do cinema, Vegeta engoliu em seco e disse, perto do ouvido dela:
– Eu me lembro desse dia. Você chegou para gravar reclamando do trânsito na Mumbai Six – ele murmurou – e distribuiu besan ladoos para todos. Tinha sido seu aniversário uns dias antes – ele sorriu e ela perguntou:
– Como se lembra disso?
– Eu prestava atenção em você... quer a prova?
Bulma suspendeu a respiração no escuro. Aquele era um jogo perigoso. Ela percebeu Raditz olhando para ela, mas o irmão estava distante, sentado na fila de trás, ao lado de Goku, mais próximo da mãe, que sentara ao lado de Raaja Vegeta (que trocara de lugar por algum motivo com Oolong, que sentaria ao lado da sua mãe a princípio). Com o coração batendo mais forte, ela disse:
– Quero.
Vegeta sorriu e se calou no primeiro instante, mas, ao longo de cada cena ele relembrou, numa voz baixa e sussurrada, tudo que haviam conversado e feito ao longo das gravações, sempre comentando como ela estava, a roupa que havia usado naquele dia, conversas que haviam tido. Bulma sorria, encantada com cada comentário e com o retrato que ia se formando dela segundo o olhar de Vegeta, as emoções se sobrepondo ao que via na tela, a trajetória emocionante do jovem pobre que vencia e realizava coisas para ele e para os que amava através da luta, algo tão parecido e próximo da trajetória do seu irmão.
E, à medida que a história se desenrolava, ela sentia cada vez mais que seu coração batia por ele, que ela amava Vegeta e, sim, era correspondida, podia sentir isso sem ele nem mesmo precisar confessar. Quando a sessão foi interrompida para o intervalo de dez minutos, logo após a cena impactante de Shakti indo ao chão na sua primeira luta como profissional, ela levantou-se da cadeira num estado estranho de euforia e ansiedade. Era como se algo na sua vida estivesse próximo de acontecer, uma mudança imprevisível e irreversível. Ela era a borboleta prestes a sair da crisálida, e a declaração velada de Vegeta vinha no último instante antes dessa importante mudança.
Mas Raditz, que havia acompanhado à distância a conversa entre os dois, mesmo sem conseguir escutar uma única palavra, desconfiou daquela proximidade e se aproximou do par imediatamente assim que a luz se acendeu, dizendo:
– O filme está maravilhoso, hein? Quero ver como o Shakti vai sair dessa! – ele comentou e, a partir dali, grudou nos dois. Goku observou aquilo um pouco desconfiado, mas quando viu o irmão seguindo Bulma e Vegeta sentiu-se até livre e feliz, porque aquilo significava que ele tinha parado de pegar no seu pé e ele podia acompanhar Chichi até o saguão onde era servido um pequeno coquetel com petiscos.
– Vou te contar um segredo – ele disse para um garçom, pegando uma samosa vegetariana em miniatura – sou um lutador faminto e posso dar uma boa gorjeta se arrumar uma bandeja dessas para mim.
– Senhor, não podemos privilegiar ninguém no buffet.
Ele fez uma cara triste e Chichi deu uma gargalhada. Aquilo atraiu o olhar de Shallot, que se aproximou, ladeado por Maron, que o seguia com um ar deslocado. Goku brincava com Chichi, falando que se fosse num cinema em Mumbai ele poderia comprar um combo gigante de pipoca ou mesmo samosas de um tamanho decente, porque só fizera uma boquinha na van a caminho do hotel e estava, como sempre, faminto, mas ali, num hotel refinado e chique precisava se contentar com comida em miniatura. Foi exatamente quando Shallot veio por trás e disse:
– Os príncipes investidores estão preocupados com você, Chichi... ninguém entende como você caiu a ponto de estar se sujando com esse slumdog de Mumbai...
Goku virou-se para encarar o sujeito que mais de uma vez o tentava humilhar e disse:
– Você deve se achar muito corajoso para se aproximar de nós sem ser chamado e falar esse tipo de coisa, não?
– Eu só acho que gente da sua laia suja o ambiente com sua presença. Aqui não deveria ser seu lugar, você é um rato das sarjetas de Mumbai.
– Um rato carrega Ganesha nas costas. – disse Goku, sorridente. – mas um sujeito como você só carrega a própria frustração por aí – ele olhou para Maron e tornou a olhar para ele – achando que tudo se resolve com ouro, com diamantes... talvez você tivesse de passar uma temporada sendo um slumdog em Mumbai para aprender a valorizar o que tem. Não troco todo seu dinheiro herdado pelo meu conquistado, mesmo que seja muito menos.
– Você roubou algo meu – disse Shallot, bem próximo a Goku. Chichi ficou subitamente tensa. Raditz, que estava perto de Bulma e Vegeta, de repente ficou alerta, como que pronto para agir caso Goku perdesse a cabeça. Isso não escapou ao rapaz, que tinha ciência da importância daquilo para a reputação de Chichi.
– O que você acha que eu roubei jamais te pertenceu – ele sorriu para Chichi e disse, ignorando o outro – vamos voltar para a sala? Quero ver como Shakti vence a luta.
Eles saíram de perto de Shallot, que bufou irritado. Tudo que ele queria era provocar uma briga para terminar aquele evento em escândalo. Maron tentou dizer qualquer coisa e ele destratou a moça, que baixou os olhos entristecida, humilhada como nunca se sentira. Mas, de repente, o telefone de Shallot tocou e ele foi para um canto, irritado e disse:
– O que você quer dessa vez? – ele esperou enquanto a pessoa que estava do outro lado falava e disse então, no fim – sim, eu confirmo. Não, não vou gravar nenhum depoimento sobre isso. Mas se quer me fazer um favor, destrua os dois. – ele desligou o celular e guardou, sem perceber que bem próximo do lugar onde estava, Raaja Vegeta, mesmo conversando com Gine, ouvira atentamente cada palavra do que ele dissera.
Raditz observou desconfiado a interação de Vegeta e Bulma durante o intervalo, ao ficar muito próximo aos dois. Havia algo ali que ele não estava gostando nem um pouco, principalmente porque era uma novidade para ele aquele clima entre os dois. De repente, juntando os fatos, ele começou a desconfiar de coisas que ele preferia que fossem apenas impressão, mas seu instinto de irmão mais velho pronto a defender a honra da sua pequena bahaan (irmã). Se Vegeta acreditava que brincaria com ela, estava bastante enganado.
Na rígida cabeça hinduísta de Raditz, a chance de Vegeta cortejar sua irmã havia acabado no instante em que ela respondera com "kubule" o pedido de Yamcha. Desmanchar o noivado depois de uma cerimônia de Chunni, mesmo que o casamento tivesse sido uma consequência do namoro espontâneo da irmã com o rapaz, não fruto de um arranjo entre famílias, era simplesmente inaceitável e desonroso para ele, e ele temia que os anos que Bulma passara como expectadora de filmes com mocinhas apaixonadas tentando viver o amor verdadeiro estivesse confundindo a cabeça da irmã.
Ele segurou o instinto de mudar de lugar, sabendo que aquilo pegaria mal. Ele percebia o público presente: havia não apenas convidados selecionados, atores de cinema e ricaços, mas imprensa, e não a imprensa de fofocas como Ribriane e outras, mas a imprensa que realmente contava e formava opiniões sobre filmes. Se Bulma fizesse sucesso naquela première, sairia dali consagrada, mas se houvesse um escândalo, poderia abalar seriamente a sua carreira. Por isso, ele voltou à sua preocupação anterior e sentou-se ao lado do irmão mais novo, que o olhou com simpatia. O filme ainda não recomeçara e Raditz disse:
– Estou orgulhoso de você, bhaee. Não caiu na armadilha daquele almofadinha cretino.
– Era o que ele queria. Se eu não caí nas provocações do Broly, não ia ser esse cara que ia me tirar do sério – sorriu Goku – pena que a gente não pode trazer comida aqui para dentro, hein? Nem deu para eu comer direito, só uma samosinha muito pequena e magrinha.
O irmão riu e disse:
– Depois tem um jantar.
Goku sorriu.
Enquanto isso, Bulma e Vegeta conversavam baixo, esperando a sessão começar:
– Seu irmão – perguntou Vegeta, olhando de soslaio para Raditz – é impressão minha ou ele estava... nos vigiando?
– Eu acho que sim – Bulma riu, mas um tanto preocupada – ele é meio protetor e... mas nós não estamos fazendo nada demais, não é? Digo, nada que estrague minha reputação, né?
– Em hipótese nenhuma eu faria algo para estragar sua reputação, Bulma – ele disse, sério. Ela sorriu para ele e então disse:
– Eu sei que não, Vegeta.
Logo o filme começou, com a virada espetacular de Shakti, que vencia sua primeira luta num caso inusitado da arte imitando a vida. No escuro, foi Bulma então quem disse:
– Eu me lembro desse dia. Eu fiquei nervosa vendo a sua gravação. Quase tanto quanto fico quando o bhaee luta...
– Você não me disse isso – ele sussurrou.
– Tem muitas coisas que eu não te disse – ela murmurou, sentindo-se corar no escuro.
– Sim... e eu digo o mesmo em relação a você. Tem muitas coisas que eu deveria ter dito e nunca disse.
À medida que o filme ia passando, os dois trocavam suas pequenas confissões, em curtas e sussurradas frases, na cumplicidade da sala escura, tentando não serem muito notados pelos outros espectadores. A história tinha reviravoltas e um antagonista invejoso, que era notadamente inspirado em Broly e o romance tinha momentos complicados em que Shakti e Anjali se afastavam, para logo depois se unirem. Em um momento, uma cena de luta com Goku foi inserida e ele gritou, alegremente:
– Olha, olha! Sou eu! – na história, as cenas de luta mostravam, já como um teaser do filme Anarkali, a primeira luta de Tyger, como se fosse a preliminar da luta decisiva que tornaria Shakti um campeão. O cinema veio abaixo em gargalhadas por causa da ingenuidade de Goku, que parecera tão inocente ao se reconhecer na tela. Mas logo o clima sério do clímax do filme fez todos ficarem ligados na eletrizante luta decisiva de Shakti, com Anjali, interpretada por Bulma e Anarkali, a irmã de Shakti, interpretada por Chichi, gritando na plateia a cada lance decisivo. A luta, extremamente bem filmada, era o auge necessário para aquela história.
Shakti era mostrado como um lutador brilhante, carismático, e muito técnico, e, apesar de terem tanto para dizer um ao outro, Vegeta e Bulma assistiram à luta em silêncio, vendo a brilhante atuação dele, que certamente renderia pelo menos uma indicação para o prêmio Filmfare daquele ano. No último lance, em que o lutador dava um chute aéreo no antagonista, derrubando-o, Goku disse para Vegeta, de onde estava:
– Olha! Igual a mim com o Jiren!
Bulma e Vegeta riram novamente, mas, a vitória não era o final do filme. Havia ainda o final de Shakti e Anjali, e quando ele, depois da luta, aproximou-se dela na tela, Vegeta, na plateia, disse num sussurro:
– Eu sempre fui orgulhoso demais, fechado demais... por isso eu não disse o que eu devia ter dito... Bulma... naquele dia no Holi, quando você me pediu um beijo, eu fui tão estúpido. Quando eu fui atrás de você naquele dia quando você foi sequestrada, quando eu achei que íamos morrer... todas as vezes, todas essas vezes eu deveria ter dito o que eu não disse...
– Vegeta... eu...
– Bulma, foi real para você tanto quanto foi para mim?
Na tela, Shakti e Anjali se beijaram e Bulma então disse, num sussurro:
– Sim, foi.
Ele não podia beijá-la, então, discretamente, segurou os dedos dela de forma quase imperceptível e disse, praticamente ao mesmo tempo que na tela:
– Eu te amo!
Com a audiência toda prestando atenção no filme, aquele movimento passou quase despercebido, afinal, num lugar onde um homem tocar as mãos de uma mulher solteira podia ser considerado um crime, aquele era o máximo de transgressão que os dois poderiam se permitir, mas esse toque, esse sutil e pequeno toque havia mudado tudo entre eles. No escuro, os dois se entreolharam e sorriram um para o outro.
Mas, por mais discretos que tivessem sido, Raditz, a uma certa distância, percebeu tudo e se preocupou.
O filme terminava com uma nova edição da música "Shakti", a mesma do promo, com cenas aproveitadas do dia da gravação, mostrando Goku, Vegeta, Chichi e Bulma dançando. A audiência aplaudiu vigorosamente no fim da projeção e era óbvio que aquele filme seria um sucesso.
Mas ainda havia uma última cena, surpreendente, logo depois dos créditos: na tela, arrumando a sala de treinos de Shakti, aparecia o personagem de Chichi, a temperamental Anarkali. Depois de, ao longo do filme, aparecer sempre nas cenas de treino do irmão o ajudando, ela largava o material de limpeza num canto, tirava os sapatos e aparecia socando e chutando um saco de areia vigorosamente, quando era surpreendida pelo irmão, que entrava na sala de surpresa.
Goku sorriu para Chichi quando a viu no filme, parecendo assustada, virando as costas para o saco de areia e encarando Vegeta, que se aproximava rindo e dizia:
– Você precisa de luvas, bahaan! – ele entregava as luvas a ela e dava as costas, saindo de cena e deixando o recado na tela: Anarkali – no próximo Diwali.
A euforia tomou conta da plateia na saída da sessão, e os repórteres presentes cercaram rapidamente Bulma, flashes cintilando por todos os lados e perguntas sucedendo-se, enquanto ela arregalava os olhos, surpresa pelo súbito assédio. Mas, naquele momento, ela finalmente tomou o controle da situação e começou a responder às perguntas com desembaraço, simpatia e segurança. Depois de tantos anos sonhando com as estrelas de Bollywood ela finalmente se tornara uma delas.
Ela respondeu perguntas sobre o filme, sobre sua rotina de beleza e, então, veio a pergunta inesperada:
– Por que seu noivo não a acompanhou a Dubai? O noivado está de pé? – um malicioso repórter do Bollywood On Line a encarava, e ela, por um instante, perdeu a presença de espírito e não soube o que dizer.
Raditz, no entanto, veio em seu socorro e a puxou do meio dos repórteres, dizendo:
– Senhores, guardem suas perguntas para a entrevista coletiva com o elenco amanhã, ao meio dia no salão nobre o hotel. Mas, respondendo à sua pergunta, o noivo da minha irmã se encontra nos Estados Unidos da América finalizando um filme e o casamento está, sim, marcado para daqui a cinco dias.
Ele a arrastou para longe dos repórteres e de Vegeta, pensando em, como sempre, proteger a reputação da irmã.
O jantar no Terrace, logo depois do filme, foi espetacularmente chique, afinal, os endinheirados indianos que haviam pago pelo evento nunca esperavam menos do que o melhor, e mesmo estando em Dubai, e não na Índia, acreditavam na máxima indiana de que "um hóspede deve ser tratado como um Deus". Raditz levou Goku para trocar seu terno esportivo por uma kurta de luxo e aproveitou para recomendar muitas vezes que ele não "desse muita bandeira" com Chichi. Goku sorriu e disse:
– Bhae... no momento eu estou pensando apenas em encher a barriga porque estou faminto e todo dolorido.
Havia quatro opções de cardápio, e era servido exatamente aquele que o convidado pedia. A exceção foi Goku, que comeu os 4 cardápios e todas as opções de sobremesa. Ele podia, afinal, era um dos astros da noite.
Depois de um rearranjo nos bastidores, Raaja conseguiu sentar na mesma mesa onde Gine estava com os filhos, Bulma, Vegeta e Tarble. Oolong, que sentaria com eles, foi deslocado para uma mesa dos investidores de Dubai, estranhando que o chefe abrisse mão daquela companhia tão importante para quem estava sempre financiando novos filmes. Enquanto isso, na mesa dos astros, a conversa na mesa seguia animada, sempre girando em torno do filme. Gine disse, de repente:
– Não acredito que meus dois mais novos estavam tão lindos nesse filme. Não quero desmerecer vocês, Vegeta e Chichi, mas vocês são veteranos!
– Com a ajuda certa – disse Raaja – os dois ainda vão brilhar muito em Bollywood.
– A hora que quiser desistir das lutas – disse Tarble, alegremente – eu tenho um papel perfeito para você, Son Goku, vou guardar esse roteiro. Pode juntar vocês todos, já falei com o Vegeta!
– Lá vem você – riu Vegeta – agora, depois dessa atuação, nenhum produtor vai hesitar em chamar a Bulma para um filme. – ele olhou para ela e sorriu – você foi brilhante!
Raditz cortou o papo, dizendo:
– Assim que ela voltar da sua lua-de-mel na América, vamos começar a trabalhar a carreira dela. Pena que ela vai precisar se ausentar no momento da promoção do filme. – ele olhou desafiador para Vegeta, que respondeu:
– Eu estou certo de que ela vai poder arrumar um tempo para a publicidade. Tudo se ajeita.
Tarble, que percebeu o clima quase hostil entre os dois, disse, alegremente, olhando para Gine:
– É a senhora que manda aqueles ladoos maravilhosos para a gente? Melhor doce que eu comi na vida, sabia?
– Ah, esses agora são apenas executados com a minha receita, os que eu fazia antes, pessoalmente, antes de ter de passar ao esquema semi-artesanal eram bem melhores! Mas posso mandar alguns feitos por mim pessoalmente assim que chegar a Mumbai.
– Numa caixinha com dedicatória? – disse Tarble, com a mão no centro do peito de forma afetada, mas antes dela responder, Raaja o interrompeu:
– Dava para você parar de fazer essas coisas afeminadas? Todo mundo já sabe o que você é.
Gine estreitou os olhos na direção dele e disse, contundente:
– Você tem noção de que esse filho que você chama de afeminado escreveu o roteiro do ótimo filme que você assistiu e vai te dar muito dinheiro? Deveria se orgulhar dele, senhor Raaja.
Vegeta, Tarble e Chichi se entreolharam esperando a resposta do pai, porque nunca haviam visto ninguém o repreender daquela forma. Ele disse, então, sem jeito:
– Senhora Sayajin, com todo respeito... eu me orgulho dele, mas tenho dificuldade de aceitar que...
– Senhor Vegeta, filhos são o que são e não nos cabe escolher demais o que serão. Seu filho é adorável, tem qualidades maravilhosas. Eu só o conheci hoje e já o adoro. Você é um amor, meu jovem! – ela disse, sorrindo para Tarble que disse:
– Ah, não fale tanto assim que eu te chamo de maan. Pai, por favor, corteje a senhora Gine! Ela pode dar um jeito em você!
Gine e Raaja enrubesceram e Goku disse, meio zangado:
– Ah, pronto, mais um pretendente. Já basta o chacha (tio) Toma!
– A senhora tem um pretendente? – perguntou Raaja e Gine sorriu:
– Tenho, sim. Apesar do ciúme de Goku, eu sou uma mulher livre para fazer minhas escolhas.
Raditz massageou as têmporas irritado, mas nada disse. Era só o que faltava, a mãe dele com mais um pretendente...
Ao fim do animado jantar, começou a festa com música e dança. Goku, Bulma e Raditz mal podiam acreditar que estavam próximos a lendas do cinema Indiano como Sharukh Khan, Saif Ali Khan, o único ator de Bollywood que pertencia a uma família real indiana, sua esposa Kareena Kapoor e até mesmo Amithab e Jaya Bachchan com toda sua família de duas gerações (quase três, com a neta que já estava cogitada para modelo e atriz) na mesma pista de dança. Também estavam lá atrizes consagradas como Kajol, Rani Mujereek e Deepika Padukorne, acompanhada do noivo, Ranveer Singh e muitos atores de várias gerações. De repente, Sharukh Khan o mestre de cerimônias disse, alegremente:
– Quem gostaria de ver uma dança dos nossos protagonistas? Estamos aguardando para ver todos eles juntos na nossa pista de dança.
Vegeta não era muito de dançar em eventos e ainda estava sentado, ao lado de Raaja, Raditz e Gine, quando ouviu a provocação. Ele também evitara a pista de dança por conta da reputação de Bulma e porque, desde que Raditz mencionara o casamento dela, muito próximo, ele estava imaginando o que poderia fazer para a ajudar a escapar daquele casamento: cogitara até mesmo indenizar Yamcha pelo prejuízo do eventual cancelamento da união, mas achou que aquilo soaria como uma compra e Bulma não podia ser tratada como mercadoria.
Restava a ideia de convencer a família Sayajin de suas boas intenções e contar que eles apoiariam Bulma em um eventual rompimento do compromisso, mas ele percebia que, naquele momento, Raditz era um tremendo empecilho com seus olhares abertamente hostis.
Depois de alguns minutos de silêncio, no entanto, Chichi se aproximou do palco e sussurrou alguma coisa para o ator que sorriu, assentiu e disse:
– Parece que teremos uma homenagem a um dos meus filmes! Vamos ver!
Chichi chegou ao centro da pista, agora vazia, e começou a coreografia de "Bole Chudyan", uma música do filme "Khabi Kuch Kabhie Ghan" de 2003 que tinha todos os atores presentes, e eles ficaram surpresos quando, ao som da música, Chichi começou a se movimentar em torno de Goku:
Minhas pulseiras estão dizendo
Minhas pulseiras estão dizendo
Que eu me tornei sua, meu amado
Minhas pulseiras estão dizendo
Minhas pulseiras estão dizendo
Que eu me tornei sua, meu amado
Eu não posso viver sem você
E eu morreria
Leve-me embora ... meu amado leve-me embora
Leve meu coração embora ... ho ho o
Todos os olhos se voltaram para Goku, que sorriu e se juntou a ela, e, logo, Bulma se juntou animadamente aos dois fazendo Raditz respirar um pouco aliviado, porque a reputação de Chichi não seria abalada por aquela dança se Bulma ficasse o tempo todo com eles. Mas ela, num trecho seguinte, acabou convocando Vegeta, que depois de uma hesitação inicial se juntou aos três. Mas nada podia ser para ele mais surpreendente do que, de repente, o próprio Raaja Vegeta erguer-se, fazendo uma reverência à sua mãe antes de dizer:
– Gostaria de dedicar essa dança à senhora.
E ele se juntou ao filho, que o olhou surpreso. Tarble, na mesa, disse para Gine:
– Em todos esses anos nunca vi meu pai dançar para impressionar mulher nenhuma. Obrigada pela sua existência, maan.
Gine sorriu e revirou os olhos, mas, logo, o grupo dançante se inflou com boa parte do resto da audiência, incluindo os atores da produção original, dançando no espaço livre, lembrando uma grande cena de filme. Logo depois, começou outra música, e foi quando Raditz percebeu que Bulma, Vegeta, Chichi e Goku haviam sumido e se levantou, subitamente. O que poderia ter acontecido?
No meio da dança, Chichi disse, num momento que se aproximou de Goku para um passo juntos:
– Eu tenho algo para você. Deixei na mesa, debaixo do arranjo de flores.
– O que é?
Ela olhou para ele, maliciosa e disse:
– A chave do quarto contíguo ao meu. Eu sempre o alugo para ficar livre de qualquer engraçadinho que queira usar "a chave do homem"... – ela sorriu – vou sair logo depois do fim da música. Finja que vai pegar uma bebida, volte à mesa, depois saia também, mas troque de roupa no seu quarto... tente ser discreto.
Goku sorriu e assentiu. Aquela seria a noite deles.
Vegeta, no entanto, disse a Bulma, no meio da dança:
– Me encontre na sala de cinema depois dessa música. Seja discreta. Saia pelo lado oeste do Terrace, eu sairei pelo leste.
Bulma fez o que ele havia solicitado, com o coração aos saltos, olhando para a mesa, pensando em despistar o irmão mais velho, que certamente não aprovaria aquilo.
Raditz, no entanto, estava junto à mesa, olhando para os lados, quando Goku chegou com uma bebida colorida dizendo:
– Nossa, olha que legal, tem coquetel de sorvete sem álcool.
– Cadê todo mundo? – Disse Raditz, de forma quase hostil.
– E eu que sei? – A Chichi disse que estava cansada e ia dormir porque precisa estar bem para a entrevista...
– No meio da festa?
– Foi uma noite exaustiva, bhaee – deu de ombros Goku, bebericando seu coquetel de sorvete. Raditz virou-se, de repente, e saiu. Julgou ter visto o reflexo azulado do cabelo de Bulma em algum lugar adiante. Quando Goku viu aquilo se remexeu à mesa nada discretamente e fingindo brincar com as flores do centro, pegou o cartão sob o arranjo tentando (sem sucesso) disfarçar o gesto e disse, fingindo cansaço extremo:
– Eu estou literalmente quebrado, maan. Luta, festa, dança... é muito pra mim. Vou dormir também. – ele largou seu coquetel de sorvete pela metade e beijou o topo da cabeça da mãe, que ficou olhando o rapaz se afastar antes de dizer:
– Quem ele pensa que está enganando?
Raaja Vegeta riu e disse:
– Bom, me sinto menos vigiado sem seus dois rapazes aqui...
– Ah, bauji (outra forma, mais carinhosa, de dizer "papai"), só para constar, quem está de olho no senhor agora sou eu aqui – acenou Tarble alegremente – mas só que eu prefiro ir dançar. – ele disse isso e foi para a pista de dança, deixando Raaja e Gine sozinhos, ao que ele disse:
– Então... terei permissão de cortejá-la ou você está tão assim encantada pelo meu rival?
Gine enrubesceu, pensando que era incrível ser cortejada por um dos ícones de sua geração, disse:
– Talvez, mas você precisa se esforçar e entender que será sempre o segundo mais importante, se conseguir me conquistar. Ninguém tira o lugar do meu Bardock em meu coração...
– Acredito, senhora... eu também tenho uma primeira absoluta em meu coração. Mas acho que depois de tantos anos, pode ser que seja hora de seguir em frente. A senhora concorda?
– A senhora pode ser chamada simplesmente de Gine – ela sorriu e ele sorriu de volta.
O cinema estava apagado, e estaria fechado, se não fosse pela intervenção de Vegeta, que deu uma boa gorjeta na saída para um funcionário mantê-lo aberto. Ali, livre de qualquer suspeita, ele poderia conversar com Bulma. Ele foi até perto da tela, olhando o grande retângulo branco, pensando em tudo que acontecera naquele dia. E, pela primeira vez desde que se tornara um ator de Bollywood, ele realmente entendeu que amava os filmes.
Quando a porta se abriu e Bulma entrou, correndo pelo corredor central, ele não resistiu a ir até ela, abraçando-a e então, dando nela o beijo, represado por tanto tempo, que demonstrava o quanto ele havia se apaixonado por ela, o quanto aquela paixão havia se tornado amor durante todos aqueles meses, o quanto ele estava disposto a desafiar para tê-la, para ter a sua Bulma.
Ele a olhou nos olhos e disse:
– Você não vai se casar com ele. Não vou permitir isso. Não importa honra, reputação, filmes. Largo tudo para ter você, Bulma!
– Vegeta, eu...
Ele a beijou novamente, e Bulma se entregou totalmente ao beijo, pronta para dizer que seria dele naquela mesma noite, se ele a quisesse. Yamcha não existia mais em seu coração há muito tempo, talvez nunca tivesse existido, se ela pensasse bem, fora das ilusões de uma adolescente. Ela amava Vegeta e era correspondida e aquilo era a melhor coisa na sua nova vida como estrela de Bollywood.
Então, subitamente, as duas portas do cinema abriram-se com um estrondo e Raditz apareceu, vendo tudo que ele jamais quereria ver. Diante dos seus olhos, via apenas a desonra de sua irmã e de sua família. Bulma e Vegeta olharam na direção dele que disse:
– Largue minha irmã agora ou eu mato você. Não é porque é um atorzinho famoso que vai brincar com os sentimentos dela!
Notas:
1. A coisa mais difícil nesse capítulo foi resumir um típico filme indiano em alguns parágrafos e, ainda assim, a história fazer algum sentido. Espero que eu tenha conseguido. Filmes indianos costumam ter de duas horas e meia até 4 horas, com direito a um intervalo de 15 minutos no meio da projeção. Os cinemas da Índia variam desde luxuosos multiplexes até pequenas salas com cadeiras de madeira sem nenhum conforto que exibem filmes mais antigos.
2. Dubai é o destino favorito dos endinheirados de Bollywood, quase todos tem apartamentos por lá. Alguns, como Sharukh Khan, tem até mesmo uma ilha inteirinha só para si. É para quem pode, meu povo.
3. Os atores citados podem ser vistos em algumas produções disponíveis nos serviços de streaming no Brasil: Saif Ali Khan em "O segredo de Aman"(Kal ho naa ho) e em "Jogos sagrados", uma série na Netflix; Kareena Kapoor, Rani Mukerji, Kajol, Sharukh Khan, Jaya e Amithab Bacchan podem ser vistos em "O amor dos pais" (Khabie Kuch Kabhi Ghan), disponível na Netflix; Ranveer Singh e Deepika Padukorne em Bajirao Mastani e Paadmavati, disponíveis no Amazon Prime. Aliás, os dois serviços são ótimos para conferir filmes novos e antigos da Índia, que não passam muito no Brasil.
4. VEGETA SE DECLAROU. Tem coisa mais importante que isso, meu povo? Mas logo agora o Raditz vai atrapalhar? Entendam: ele está no papel do bade (pronúncia-se baudê), o mais velho, o chefe do clã e é um sujeito apegado à tradição e à velha moral, que se sente responsável e, principalmente, não conhece Vegeta tão bem. Agora fica a torcida para que ele entenda, né?
5. Saawariya é uma adaptação de "Noites Brancas" de Fiodor Dostoyéviski para p cinema indiano. O diretor foi Sanjay Leela-Banshali e os atores principais Ranbir Kapoor, Sonan Kapoor, Rani Mukerji e Salman Khan. Conta a história de Raj (Ranbir) que se apaixona por Sakina (Sonan) que é apaixonada por Iman (Salman Khan). O filme teve lançamento pela Disney nos Estados Unidos, mas paradoxalmente fracassou na Índia, embora depois tenha sido considerado um filme cult.
6. Bole Chudyan é uma das minhas músicas e números musicais favoritos na vida. É do filme que citei acima, Khabie Kuch Khabie Ghan.
