Capítulo 43 – Tujhe deka toh yeh salaam (Quando te vi, querida)
Quatro horas depois do encontro no Aeroporto de Mumbai, Tights Briefs tinha sido praticamente adotada pela família Sayajin por causa do entusiasmo de Gine e Bulma ao descobrir toda história que Bulma nunca soubera: seus pais tinham uma fortuna razoável graças a alguns inventos do pai quando as duas eram crianças, mas a então pequena indústria de inovações tecnológicas vivia sofrendo com espionagem industrial quando um novo investidor contactou o pai delas para investir num dos inventos que ele desenvolvia, com a condição de mudarem-se para a Ásia.
Como a filha mais velha havia acabado de ingressar numa prestigiosa escola britânica para super dotados, ela acabou sendo deixada aos cuidados de tutores, mas o desaparecimento dos pais, pouco mais de um ano depois da viagem, a levou a terminar de ser criada por tutores, o que acabou fazendo com que ela tivesse de assumir a empresa aos 18 anos, ainda cursando a faculdade. Poderia ter sido um desastre, mas ela tinha enveredado para o ramo da tecnologia de informação e se tornado uma gigante no setor. Mas jamais desistira de achar os pais e a irmã, e quando descobriu através de DNA que a irmã era uma atriz de Bollywood, foi até Mumbai com a detetive Bonyu querendo encontrar a irmã.
Infelizmente, ela chegara exatamente quando Bulma estava em Dubai, mas naquele dia tinha ido ao aeroporto decidida a encontrar a irmã, e, depois de um encontro emocionado, ela foi levada, junto com a detetive, para o apartamento da família, onde foi convidada a provar os doces da pequena fábrica de Gine, que Raditz tinha ido buscar contrariado junto com o almoço da família, já que haviam acabado de chegar a Mumbai. A única coisa que a mãe fez questão de fazer diante dos olhos maravilhados das convidadas foi um caprichado chapati para chegar à mesa quentinho.
Raditz sentiu-se estranhamente incomodado com a presença de Tights imediatamente. A mulher parecia mais jovem que seus 33 anos, e era falante e despachada exatamente como a sua irmã, e mostrava um vislumbre do que Bulma teria sido se houvesse sido criada à moda ocidental. Já a detetive Bonyu, embora tivesse toda a aparência de indiana, era completamente estrangeira, embora fosse familiarizada com a sua cultura, certamente nunca havia pisado na Índia e era, na visão dele, completamente colonizada.
Calado, ele se limitava a observar as conversas das mulheres, aliviado, no entanto, ao ver que Bulma, entretida pela presença da irmã, havia acabado por superar um pouco aquela tristeza que o havia incomodado tanto na viagem de volta. Talvez com a irmã ali ela acabasse esquecendo o maldito Vegeta e se comportasse de forma decente até o casamento. Quando Gine abriu a caixa dos doces que ele trouxera e, explicando um por um, quais eram e os serviu às duas mulheres, ele quase revirou os olhos diante da reação da irmã de Bulma:
- Sério, senhora Sayajin, isso tudo é tão delicioso e diferente para mim – ela disse, colocando um pequeno halva gelatinoso na boca... é difícil de explicar.
- Ah, eu imagino – disse Gine, orgulhosa – mas entenda, os doces que eu faço pessoalmente podem ser mais gostosos, por mais que a fábrica siga a minha receita, as proporções e tudo mais...
- Nada se compara às suas mãos de mãe indiana! – disse a moça, alegremente. – Mas não é disso que eu falo. Veja: na Inglaterra temos muitos doces, mas não temos essa diversidade de sabores... basicamente tudo é baunilha, ou chocolate, ou morango... esses doces não, são perfumados, cada um tem um aroma diferente, tão único!
- São as especiarias – disse Raditz de repente, aborrecido com a tagarelice da inglesa – usamos coisas que lá vocês não usam tanto. Canela, cravo, cardamomo, anis. Tudo que fez os homens da sua terra virem para cá 500 anos atrás feito doidos. As especiarias indianas.
Ela o encarou, sorridente. Os cabelos cacheados louros e curtos emoldurando o rosto que lembrava o de Bulma um pouco, mas era mais arredondado, dando a ela um ar de inocência. Então disse:
- Eu entendo essa parte, Sr. Sayajin... eu provei o chayy daqui nesses dias que estive esperando... mas não é só isso... Se pode tomar chayy na Inglaterra, há indianos e especiarias por lá... mas não foi tão bom quanto o daqui... o sabor parece mais vivo.
- É exatamente isso – ele disse – combinações, canela e cardamomo, cravo e anis... pode parecer exótico para quem é de fora. E pode me chamar só de Raditz.
Gine olhou para ele, e, como mãe, compreendeu imediatamente do que se tratava. Raditz estava acostumado a dominar as conversas em família e o ambiente e, com a chegada da moça, tão falante e vivaz, sentia-se deixado de lado. Ela então interviu, dizendo:
- Não repare, querida, meu Raditz é um rapaz muito pragmático, para ele as coisas não tem sutileza. Foi moldado pelos anos em que tivemos a vida mais difícil, ele dirigiu um caminhão para me ajudar por quase dez anos antes de se tornar esse agente de sucesso. É um negociador nato, esse meu menino...
- Ah, puxa – disse Tights, olhando diretamente para Raditz – deve ter sido duro esse tempo. – Ela olhou para Bulma – queria ter te encontrado antes, sister...
- Isso tudo passou – disse Raditz, sem entender sua própria contrariedade – Bulma conseguiu se tornar atriz, Kakarotto conseguiu se tornar um lutador... e eu, bem, eu consegui sair da estrada. Ficamos todos bem.
Tights olhou para Raditz novamente, e ele percebeu que ela notava seu aborrecimento. Ele torceu para ela não dizer nada, mas ela perguntou:
- Eu o estou aborrecendo senhor... digo, Raditz? Não sei. Posso estar sendo rude sem perceber.
- Não, não está. Eu que voltei cheio de preocupações dessa viagem a Dubai. – Ele mentiu – três dias fora e o negócio pode desandar... com licença, vou ali no meu escritório ver se tenho alguma pendência – ele levantou-se e foi para o escritório ao lado do seu quarto e fechou a porta. Não havia muita coisa para ver, ele só queria um pouco de distância da jovem inglesa e seu jeito interessado e perturbador.
Enquanto isso, Goku e Chichi almoçavam na casa dos parentes de Tenshin em Mumbai. A mãe de Lunch também havia viajado dos EUA e todos haviam, antes do almoço, assistido à cerimônia em que, depois de preces e de louvar o Deus do fogo, Agni, Tenshin sussurrou por três vezes o nome escolhido para a filha deles no ouvido da criança antes de anunciar em voz alta:
- Nossa filha irá se chamar Chayla.
Logo estavam todos em festa. Goku e Chichi sentiram o primeiro impacto ao chegar na casa, porque todos os parentes de Tenshin queriam fotos, selfies, mas depois que a presença deles foi tida como natural, os dois ficaram à vontade e se divertiram bastante. Quando Lunch foi trocar a pequena Chayla, Chichi foi junto e ficou olhando enquanto a amiga fazia a higiene da bebezinha. De repente disse:
- Ela é tão carequinha!
Lunch riu e disse:
- Pois é, mas não como o Tenshin. Ele raspa a cabeça todos os dias. – As duas riram e Lunch completou – e, no fim, você e seu garoto da doceria finalmente estão juntos. Como Tenshin me disse, quase nove anos atrás, era o carma, afinal, dos dois – ela olhou para Chichi e disse – e vocês estão radiantes!
- Ah – Chichi ruborizou – Dubai foi um sonho, apesar de tudo – ela baixou a voz – nós já... você sabe.
- Uau! – Lunch arregalou os olhos – e foi bom?
- Foi ótimo – Chichi sorriu – Goku quer casar comigo e eu com ele, logo...
- Ah, isso eu aprendi sobre homens indianos: eles sempre querem casar.
As duas riram e voltaram para o almoço. Depois de algum tempo, Tenshin ofereceu-se para leva-los para casa. Goku acabou convencendo Chichi a ir para seu apartamento prometendo que a levaria depois para casa. Chegaram no meio da tarde e foram surpreendidos pela novidade da presença de Tights. Bonyu arregalou os olhos quando viu Chichi e mesmo Tights disse, de repente:
- Ei, eu vi um filme com você, um que o rapaz pintava seus retratos, mas você não podia ver porque era cega! – ela disse, empolgada – eu vi na Netflix!
- Saraswatee! – disseram Goku, Chichi e Bulma ao mesmo tempo, rindo logo depois.
- É um ótimo filme! – elogiou Tights – bem, eu não vi muitos filmes indianos, embora alguns cheguem a passar na Inglaterra a maioria atrai mais... – ela fez uma expressão tensa, como que achando que dizia algo inapropriado e então Bonyu completou:
- A maioria das pessoas que assiste os filmes indianos na Inglaterra é como eu, filhos de imigrantes – ela sorriu – senhorita Briefs, eu vejo que já está integrada e minha escolta não é mais necessária, então eu irei me despedir e ir embora, afinal eu prometi à minha mãe que visitaria meus parentes aqui de Mumbai e estou há dois dias com a senhorita.
- Mas... como voltarei para o hotel? – perguntou Tights – temos andado no carro do CBI...
- Ah – disse Bonyu, sem saber bem o que fazer e Gine veio em socorro, dizendo:
- Não se preocupe! Eu peço a um dos meus filhos para leva-la ao seu hotel, está hospedada aonde, querida?
- Ah, no Taj Wellington – ela disse, sem jeito – eu acho que é até perto daqui, posso, sei lá, pegar um Uber... ou posso ir agora, com a Bonyu, ela me deixa lá e...
- Não não – disse Gine – você vai ficar aqui até a hora do jantar. A senhorita Bonyu também estaria convidada se não estivesse com um compromisso. É minha convidada.
Tights sorriu, sentindo-se acolhida. Logo Bonyu se despediu e, de repente, Goku disse, sentindo falta do irmão:
- Onde está o bhaee?
- Ah, - disse Gine – ele está no escritório. Disse que tinha de ver coisas de trabalho.
Goku não disse nada, mas achou estranho porque dias antes Raditz disse que tinha programado toda sua agenda para só voltar a trabalhar depois do casamento de Bulma, marcado para o domingo, portanto, dali a dois dias. Não parecia também a Goku que houvesse grande coisa para ele fazer numa sexta-feira logo após o feriado do Eid, mas, em todo caso, ele deixou para lá. Não estava ainda a fim de conversar muito com o irmão.
Raditz, no entanto, não estava trabalhando. Assim que se isolou no escritório ele ligou o computador e revisou a sua agenda vazia daquele dia. Tinha avisado a Raaja Vegeta que não cuidaria mais da carreira de Vegeta Jr. na véspera, sem contestação alguma da parte do produtor. Era um cliente a menos, mas um cliente que ele certamente não queria mais. Fez uma minuta de acordo de cessação de prestação de serviços e mandou para Vegeta por e-mail. Então, ficou olhando para a tela em branco do computador, sem saber de onde vinha sua irritação.
Sem pensar muito, digitou "Tights Briefs" no Google. Rapidamente, descobriu tudo sobre a irmã de Bulma: uma jovem herdeira e CEO da Capsule Corp, uma empresa que desenvolvia hardware e software e que destacava-se por seus investimentos em sustentabilidade e inovações tecnológicas. Mais um pouco de pesquisa, e ele descobriu reportagens sobre ela, sempre elogiosas, destacando-a como uma das mulheres mais influentes do primeiro quarto de século do novo milênio na Inglaterra.
Leu falas dela sobre feminismo, sobre como gerir uma empresa tão grande num mundo corporativo essencialmente machista e se sentiu ainda mais incomodado quando descobriu que ela era divorciada. Havia muito pouca informação quanto a isso, mas ele concluiu que ela devia ser uma mulher insuportável para não segurar um casamento. Pensou na influência que isso poderia ter em Bulma e não gostou nem um pouco da ideia das duas ficando próximas. Bem, ele esperava que logo ela fosse para a Inglaterra e tudo isso acabasse.
Então leu uma entrevista em que ela falava da vontade de encontrar os projetos que o pai teria desenvolvido quando desapareceu, e uma luz se acendeu na sua cabeça. E se Tights não tivesse ido até a Índia por Bulma, mas simplesmente quisesse o projeto tão supostamente revolucionário que a irmã e Vegeta tinham decodificado? A natureza desconfiada de Raditz o levava sempre a pensar o pior sobre as pessoas, e aquele caso não era diferente.
Ele já tinha uma opinião formada sobre Tights quando a sua mãe o chamou para o jantar, algumas horas depois. Ele cumprimentou Chichi e o irmão, que o encarou ainda com o mesmo olhar hostil que ostentava desde a véspera, e sentou-se em silêncio esperando pela refeição. A mãe fez a oração da comida e ele finalmente se dignou a olhar para Tights, surpreso ao ver que ela tinha uma tikka vermelha na testa. Coisa da sua mãe, com certeza.
A comida estava maravilhosa, como era comum nas refeições preparadas por Gine. Como tinham estado fora por dias, ela preparara alguns petiscos como panner pakora, bolinhos de queijo fritos e um enorme thali, a refeição vegetariana muito popular em Mumbai, ótima para um dia como aquele. Tinha chovido no fim da tarde e um agradável vento fresco entrava pela janela, animando os presentes que conversavam sem parar. Goku e Chichi tinham se dado automaticamente bem com Tights, e ele ficou observando a família conversando animadamente em inglês sem entender de onde vinha a própria irritação com a situação. De repente ele disse para a mãe, em hindi:
- Deve ter dado trabalho fazer isso tudo, maan. Podia ter me pedido para ir à rua comprar alguma coisa.
Gine olhou para o filho, surpresa e replicou, em inglês:
- Raditz, fazendo esse tipo de coisa a nossa convidada vai achar que estamos sendo mal educados. Fale em inglês, para que ela entenda.
Ele olhou para Tights, que olhava para mãe e filho espantada e disse, em inglês:
- Desculpe minha má educação. Só disse à minha mãe que eu poderia ter ido à rua pegar algo pronto para que ela não cozinhasse.
- Ah, que gentil – disse Tights, com um sorriso – você é mesmo o filho preocupado que sua mãe disse que era!
- Meu inglês pode não ser dos melhores, mas eu penso bastante nessa família e nas minhas obrigações – ele disse, com um olhar severo na direção da moça, que não pareceu entender nada e disse:
- Não, seu inglês é ótimo! Eu aliás fiquei surpresa, todos vocês se expressam muito bem em inglês!
- Ah, disse Gine, aqui as escolas boas tem aulas de inglês, e eu e Bardock fizemos questão de colocar os meninos em boas escolas, mesmo que isso tenha sido um sacrifício pagá-las depois que ele morreu.
- Aqui na Índia aprendemos desde cedo o idioma do colonizador – disse Raditz, acidamente – deve ser um choque para você esse "banho de terceiro mundo" que é Mumbai.
- Raditz! – disse Goku, irritado – porque está sendo tão grosso?
- Não estou sendo grosso. É apenas a verdade. Tights pode nos dizer como ficou chocada vendo a pobreza das ruas. Imagino que ela tenha pensando que ia chegar aqui e nos achar num barraquinho, como naquele filme inglês "Quem quer ser um milionário". Mas nós escapamos disso, e o que nos trouxe aqui foi a união dessa família.
- Eu imagino, Raditz – disse Tights, sem perder a calma – mas não tenho preconceitos e tenho consciência de que meu país tem grande responsabilidade pela pobreza das suas colônias. Todas as vezes que a Inglaterra vier a pedir desculpas para os indianos não vão ser suficientes. Eu li a biografia de Gandhi, um dos homens mais admiráveis que já existiu. E vocês sempre ganham da gente no críquete, e eu acho bem feito mesmo – ela sorriu – mas você pode me dizer por que eu te incomodo tanto? Percebi desde que cheguei.
Raditz não esperava por aquilo, por um confronto tão direto, então disse:
- Quero saber o que você veio fazer aqui. Se veio mesmo atrás da sua irmã perdida ou das invenções do seu pai. Bulma é muito amada por nós, sempre foi.
- Raditz! – foi a vez de Bulma intervir – eu não vou abandonar nossa família por causa da Tights. Ela foi uma boa notícia para mim! Não estou entendendo isso de você.
- Ela tem de responder, bahaan, não você.
Sem tirar o sorriso do rosto, Tights encarou Raditz de forma altiva e disse:
- Eu, como ela, também fiquei sozinha no mundo, Raditz. E eu tinha dez anos e não tive uma família boa como a sua para me acolher, mas uma série de tutores frios e calculistas que me viam apenas como parte dos negócios. Eu entendo você, porque sou parecida contigo, pelo visto. Também cresci desconfiada e cheia de receios, afinal, todos se aproximavam de mim porque eu era uma criança rica e solitária. Mas não, não vim atrás de Bulma por causa da invenção, embora ela tenha me dito que conseguiu decodificar as anotações de nosso pai. E o que eu realmente quero é passar logo metade da nossa herança para ela, porque é o direito dela. Deve ser bom, embora se eu tivesse a vida dela, como atriz de Bollywood, nunca ia querer saber dessa porcaria de mundo corporativo. Mas, se quiser, se ela permitir, posso te colocar como administrador da parte dela na herança. Eu iria adorar fazer negócios com alguém tão feroz e cioso da família como você.
A fala dela desarmou Raditz. Ele percebeu, de repente, como o estresse dos últimos dias o tornara irritado e desconfiado. Então ele baixou os olhos e disse:
- Desculpe-me se fui rude. Eu tive muitos aborrecimentos por esses dias. Foi uma sorte você vir bem a tempo para o casamento da Bulma.
- Ah, sim! E da estreia do filme incrível que eu ainda não vi e quero muito assistir! Está em cartaz aqui em Mumbai?
- Ah, sim, está – disse Bulma, entusiasmada – e parece que estamos batendo recordes! Somos a maior bilheteria do ano para uma estreia, isso é demais. Meu primeiro filme como protagonista.
- Ah, sim, eu vi um filme seu quando descobri que éramos irmãs, mas fiquei meio desapontada porque você apareceu muito pouco. Tinha um nome engraçado, um ator bonito com o rosto marcado...
- Ah, Badaboom 3, riu Bulma, meu primeiro filme, com o Yamcha, meu noivo.
- Ah, o rapaz da cicatriz é seu noivo? Por que ele não foi te buscar no aeroporto? O casamento não é depois de amanhã?
- Ah, sim – disse Bulma, e seu sorriso ficou menos radiante – o Yanni só volta amanhã de Los Angeles, foi finalizar o seu novo filme, ele é um ator mais de filmes de ação. Esse meu novo filme é com o Vegeta – Bulma hesitou, mas prosseguiu – um grande ator, ele fez par com Chichi no filme que você viu.
- Ah, sim, nossa, realmente, eu o achei lindo. Muito sexy também. – Ela olhou para Goku e Chichi e disse – mas todos vocês são lindos demais. Eu estou tão acostumada com aqueles rostos azedos das pessoas tão brancas e inglesas que me cercam... ah, desculpe, isso pode ter soado tão horrível...
- Sim, soou – riu Chichi – mas nós te perdoamos.
- Vocês dois são um casal muito bonito. Como se conheceram?
- Ah, é uma longa história – disse Goku, e ele e Chichi começaram a contar como se conheceram, os altos e baixos e idas e vindas e Tights acompanhou tudo com interjeições de surpresa e espanto, até que disse:
- Mas céus, isso daria um lindo filme de Bollywood! Que história linda e incrível! Ah, como queria ter vivido uma história assim... infelizmente meu casamento foi mais para um drama de humor negro...
- Você foi casada? – perguntou Bulma, espantada.
- Ah, sim, fui. George, o nome dele, nome de príncipe, família aristocrática. Parecia que tínhamos tudo para dar certo: eu o conheci na faculdade, ele foi meu amigo, era de ótima família, namoramos por dois anos... quando casamos ele se revelou um desastre como marido. E eu descobri que eu era a esperança de recuperação financeira da sua família falida. Nobres de 5 gerações e absolutamente quebrados – ela riu tristemente e completou – sorte que tive bons advogados.
- Se tivesse um irmão como eu você não casaria com esse sujeito – disse Raditz, pensando em Bulma e Vegeta – eu sinto cheiro de um canalha de longe. Por isso os casamentos arranjados são confiáveis, sua família sempre sabe o que é bom para você.
Gine revirou os olhos. Ela disse então:
- Meu filho confia nas instituições, tanto que finalmente me pediu que eu comece a sondar possíveis noivas para ele. – Ela sorriu para Tights – mas eu mesma fugi de um casamento arranjado e me casei por amor, mas, quando Raditz tinha 17 anos disse a mim que aceitaria qualquer noiva que eu escolhesse para ele, contanto que fosse depois dos 30. Só que agora, mesmo ele tendo apenas 28, as noivas disponíveis o acham velho demais para elas.
Tights e o resto da família riram, e Raditz disse, pouco à vontade:
- Eu não queria me casar mais novo por causa das minhas responsabilidades. Pela senhora, teria me casado com 20.
- Eu tinha esperança que você se apaixonasse. Mas ao contrário dos seus irmãos, você tem um coração de pedra!
- Não é um coração de pedra. Não acredito em bobagens.
- Eu também não – disse Tights, incisiva – para mim, pelo menos.
Raditz a encarou. Ela sustentava um sorriso firme e completou:
- Até pode haver pessoas que se apaixonam à primeira vista. Mas esse não é o meu caso.
- Nem o meu. – Ele disse, encarando-a, sério – enfim concordamos em algo, não?
- Tudo que precisávamos, Bulma... um Raditz de saias – brincou Goku e Bulma riu.
- São parecidos, pelo jeito – completou a irmã. – Vamos ver daqui a pouco quando começarem a ver quem manda mais...
- Bem, enquanto eu for viva, sou quem manda nessa casa – disse Gine, levantando-se – eu vou pegar a sobremesa agora que os dois se entenderam.
Depois, comendo doces, Tights puxou o assunto que a intrigava:
- Então, será que amanhã poderíamos assistir seu filme, Bulma?
O rosto de Bulma anuviou-se quando ela disse:
- Ah... eu amanhã tenho a varsha do casamento agendada para a casa da minha sogra... – Tights estranhou seu rosto tristonho, e perguntou:
- Varsha? Algum tipo de despedida de solteira, sabe, como fazemos na Inglaterra com as amigas e tal?
- Não, não – disse Chichi – aqui não se faz esse tipo de festinha, é mais um dia de preparação mesmo... a tradição diz que a sogra deve receber sua nora na véspera, para os banhos, preparação estética. Bulma pode levar algumas amigas, eu vou, acho que não tem problema que você vá. Não é Bulma?
- Ah, sim, quero muito que você vá, sister – ela sorriu. – Você não precisa ficar lá o dia inteiro, assistir as preces e tudo mais.
- Eu preciso comprar um vestido... ou um sári... uma roupa para o seu casamento. Como faço?
- Eu tenho uma solução – disse Gine, sorridente – Chichi e eu estaremos no varsha, você vai conosco pela manhã, assiste a pintura do mehndi de hennah nas mãos da Bulma, essa parte é bem bonita, vai te interessar. Depois, à tarde, você pode ir comprar um belo sári no shopping Palladium Mall.
- Maan – disse Raditz – a casa da sogra de Bulma é em Navi Mumbai e o Palladium do outro lado da cidade! É muito longe.
- Por isso você vai pegá-la de carro lá na casa da Hime e vai leva-la ao shopping. Lá tem um cinema e vocês podem ver o filme juntos
- Mas... por que eu tenho que ficar de babá para ela? – protestou Raditz e Tights riu.
- Se houver algum problema, posso ir sozinha. É só o tempo de alugar um carro pela manhã e...
- Não – disse Raditz – você certamente iria se perder. Não é fácil andar por Mumbai sozinha, ainda mais uma mulher...
- Ei, o que você está querendo dizer com isso? – Tights sentiu-se subitamente irritada, seu rosto ficou vermelho – eu posso andar sozinha e...
- Não é você, irmã – contemporizou Bulma – é Mumbai mesmo. É uma cidade lotada e confusa para quem não conhece bem. E é bom que vocês dois se conhecem melhor e param com essas bobagens. O Kakarotto pode ir junto, já que ele não vai fazer nada amanhã mesmo...
- Quem disse que eu não vou fazer nada? Eu vou visitar o templo junto com o mestre Kame e o mestre Karim, eles querem agradecer minha vitória. E depois vão me pagar um almoço e eu vou ter um encontro com os garotos da academia de luta. Sou um lutador premiado, tenho compromissos.
- É, Raditz, parece que vou ter que te aturar amanhã – disse Tights e Raditz riu, sarcástico:
- Eu te garanto que comprar sáris está bem longe de ser meu programa favorito.
- Vocês dois – disse Gine, começando a recolher a louça para pôr na máquina de lavar – parem de bobagens. Para se entenderem, você vai levar a moça ao hotel agora, Raditz. E sem reclamar.
Goku, Chichi e Bulma entreolharam-se e riram. Tights olhou para Raditz, que ficou vermelho, mas assentiu:
- Está bem, maan.
- E você, Kakarotto: trate de levar Chichi em casa. Está ficando tarde.
Chichi levantou-se e deu um abraço na sogra, dizendo:
- Ele vai me levar sim. Obrigada por tudo, sassur (sogra).
- Você sabe que eu a amo, não? Muito feliz por vocês, quero logo ver seu casamento. – Ela olhou para o filho – se for passar a noite lá, avise.
- Então aviso logo – disse Goku, rindo – vou passar a noite lá, maan.
Depois de todas as despedidas, Goku e Chichi foram no carro dele para Chowpatti, que era bem perto, e Raditz levou Tights para o hotel, em Collaba, não tão longe de onde eles moravam, mas com um trânsito um pouco ruim àquela hora. Raditz olhava para frente, irritado e às vezes buzinando, resmungando xingamentos em hindi quando Tights disse:
- Era com essa paciência que você dirigia um caminhão?
Ele riu e a olhou de lado.
- Eu devo parecer um grosseiro para você, não?
- Bem... deve ser porque desde que botou os olhos em mim você faz questão de externar sua desaprovação. Toda ação tem uma reação, meu caro.
Raditz deu um suspiro. De repente disse, num desabafo:
- Escute... eu cuido da Bulma desde que ela tinha seis anos. Ela é a nossa pequena joia, nossa preciosa neelam (safira). E eu acho que você percebeu que eu tenho um jeito meio rígido de fazer as coisas. Sou ruim para aceitar novas situações...
- Mas sua mãe disse que você se adaptou muito rapidamente quando saiu de um caminhão para a negociação da carreira dos seus irmãos. Achei isso bem admirável.
- Porque não é tão difícil se acostumar com o que é bom, se acostumar em ter uma vida melhor e mais fácil. – Ele deu mais uma olhada para ela – o contrário, nem tanto. Sei porque tive de me acostumar com o pior quando meu pai morreu, e poupei meus irmãos muito. Por isso me sinto tão responsável por eles. Me desculpa se a minha casca é tão grossa.
- Entendo, Raditz – ela olhou o celular – a essa hora, se eu estivesse em Londres, estaria largando do trabalho e indo para um apartamento maravilhoso completamente sozinha. Me desculpe se me espalhei tão rápido com a sua família, mas é que eu tinha simplesmente me esquecido como é ter uma.
Raditz subitamente se sentiu mal pela forma que a havia tratado e disse:
- Não se preocupe. Você já foi adotada por minha mãe. Ela vai adorar fazer ligações de vídeo para você quando voltar a Londres. Quando descobriu que isso era possível não me deu mais sossego quando eu estava na estrada. E eu gostava.
- Imagino... então, sob a casca grossa tem um bom coração?
- Não sei. Mas minha casca engrossou para que eu fosse um bom protetor da família. Chegamos. Taj Wellington. Hotelzinho caro...
- Não faço economia com meu bem estar – ela sorriu e ia dizer algo quando ele saiu rapidamente do carro e abriu a porta para ela.
- Casca grossa – ele disse – mas educado.
- Verdade. – Ela sorriu e disse, antes de se virar – Sabe, na natureza há muitos frutos, sementes e árvores com cascas grossas e duras. Sabe por quê?
- Porque a natureza é dura e cruel? – ele perguntou, olhando diretamente para ela, que deu um sorriso e disse:
- Não. Porque o que há no interior é frágil. Até amanhã.
Sem dizer mais nada, ela virou-se e subiu apressada as escadas do hotel, sem dar a Raditz uma chance de replicar.
Notas:
1. Como vocês poderiam imaginar, a Tights não é fácil de se domar e não está nem um pouco interessada em simplesmente pegar as anotações do pai (embora as pessoas de sua empresa possam ter esse interesse). Tudo que ela queria, depois de tantos anos era encontrar a sua irmãzinha.
2. Mas vai explicar isso pro teimoso do Raditz...
3. Thali é um prato vegetariano que se come com chapati/naan (pão indiano. Chapati sem sementes, naan, com sementes) composto por vários legumes e sementes em ensopados de chutney. Dizem que é muito gostoso e deve ser comido com a mão direita, usar a esquerda para comer é falta de educação.
4. Vocês já notaram que mesmo querendo o filho casado a Gine, nossa mãe super moderna, não está nem um pouco a fim de escolher nora. A esperança dela é que o filho se apaixone.
5. E o Raditz é um tremendo cabeça dura. Tights fez bem em dar-lhe um fora, vocês concordam?
6. Tujhe deka toh é a música principal do filme "Dilwale Dulhania Le Jayenge" do qual falaremos mais adiante. É também o toque do meu celular, o que faz um monte de gente virar a cabeça quando estou num lugar público e o peculiar dedilhado começa a tocar.
