Capítulo 44 – Dear Zindagi (Querida vida)
Assim que a irmã foi embora, Bulma sentiu-se, de repente, muito triste. Tudo que a havia distraído na presença de Tights tinha ido embora com ela e isso trazia de volta toda tristeza que Bulma sentira desde que decidira abrir mão de Vegeta.
E havia as mensagens. Ela abriu o celular. Vegeta mandara mais de cem mensagens desde que haviam se separado em Dubai e ela não respondera nenhuma, porque sabia que se respondesse, poderia ceder. Mas elas estavam lá e ela as olhava toda hora. Havia silenciado o celular para que os toques não chamarem atenção, mas nos momentos em que tivera um tempinho, vira todas as declarações dele.
Todas as que ele não havia feito desde que eles tinham se conhecido. Vegeta finalmente abrira seu coração, mas agora era tarde demais para os dois. Ela não podia voltar atrás naquele momento. Ouvindo a mãe cantarolando na cozinha enquanto arrumava tudo depois de colocar a louça na máquina, ela leu a última delas:
"Bulma, diga que sim, diga que me ama e eu vou aí agora. Você não precisa passar por isso, não precisa casar com alguém a quem não ama..."
Os olhos dela encheram-se de lágrimas. De repente a mãe veio da cozinha e ela escondeu o celular.
– O que foi, filha? Por que está com os olhos cheios d'água?
– Eu...
Ela pensou em se abrir com a mãe. Sua mãe havia se casado por amor e acreditava que ela amava Yamcha, portanto, ela precisava esconder dela o que realmente acontecia e disse então:
– Não é nada não. O Yanni me mandou uma mensagem bem bonita dizendo que está voltando.
A mãe olhou bem nos olhos da filha. Havia alguma coisa, desde o começo daquela história toda, que fazia Gine sentir que algo estava profundamente errado, mas ela não conseguia saber o que era. Mas mais de uma vez ela estranhou aquela relação distante dos dois. Era só comparar com o que ela via de Kakarotto e sua Chichi, então ela disse:
– Filha... tem mesmo certeza de que está tudo bem?
Bulma ficou a um passo de confessar tudo, mas, exatamente nesse instante ouviu a chave na porta e Raditz entrou, parecendo um pouco mal humorado. A mãe olhou para ele que disse:
– Que mulher inconveniente...
Gine sorriu e disse:
– Ah, mas ela deu umas lições em você, filho. É bom, porque você estava ficando arrogante demais nas suas certezas. – Ela se virou para Bulma e disse, então:
– Como eu tinha perguntado, filha... está realmente tudo bem como você?
Bulma olhou de relance para Raditz, que olhava para ela sério, em expectativa. Ela não queria novamente o discurso sobre honra, vergonha e não queria, sobretudo, um confronto entre ele e sua mãe. Então, por isso, ela simplesmente disse:
– Tá tudo bem, mãe... eu só estou com um pouco de medo de ir morar lá naquela casa com aquela mulher – na verdade, isso não era mentira mesmo – a mãe do Yamcha é assustadora.
– Isso tenho de admitir que é verdade – disse Gine, abraçando a filha – mas, sempre que precisar, peça socorro. Mamãe nunca vai permitir que aquela mulher te perturbe.
Bulma fechou os olhos e deixou algumas lágrimas fluírem. Logo depois foi para o quarto, sob o olhar atento do irmão, que se sentiu satisfeito apenas quando a mãe disse:
– Minha Bulminha é uma ótima filha... vai chorar muito no casamento, tenho certeza...
Raditz ficou calado e foi ele mesmo para o quarto. Tinha sido um dia cheio e cansativo, e ele só estaria satisfeito quando finalmente tudo estivesse no devido lugar.
Bulma entrou em seu quarto e finalmente soltou todas as lágrimas reprimidas desde o dia anterior, quando tivera de sentar bem ao lado de Vegeta e fingir que tudo estava bem durante a entrevista. Então, chegou mais uma mensagem dele e ela finalmente respondeu:
"Vegeta... eu não posso mais falar com você. A escolha já foi feita. Eu vou me casar com um homem que realmente me ama, por mais que eu não o ame, e isso vai ter de bastar para mim. A honra de minha família está em jogo. Sinto muito por tudo, mas vou ter que te bloquear. Amanhã irei para a casa da minha sogra, para o Varsha, e não posso correr o risco que ela veja alguma de suas mensagens... minha honra e a de minha família são muito importantes"
Ela deletou todas as mensagens dele e então, o bloqueou. As lágrimas secariam, a dor passaria. Ela seguiria em frente.
Vegeta olhava a mensagem, desolado. Ela fechara a porta definitivamente, ele podia sentir. O amor que ele confessara e que ele sabia que ela correspondia não tinham sido suficientes. No fundo, ele a entendia. Bulma era fruto de uma família indiana bem estruturada, e ela tinha um profundo respeito pelo irmão.
A culpa era toda dele, e ele sabia. Sem saber o que mais poderia fazer, e, sabendo que agora talvez fosse muito tarde, ele decidiu colocar uma pedra no assunto. No dia seguinte, ele tinha um encontro com Suno Arora, um almoço profissional. Em outro tempo, seria uma oportunidade de jogar um charme e talvez conseguir uma relação efêmera como tantas que tivera, mas, naquele momento, Vegeta tinha sua mente totalmente perturbada porque sabia que havia perdido a mulher da sua vida.
E ele deveria seguir em frente.
Collaba tem o polo gastronômico mais conhecido e badalado de Mumbai, por isso mesmo, uma reserva feita por um casal elegante e conhecido de Bollywood envolvia uma autêntica operação de guerra contra bisbilhoteiros indesejáveis, mesmo que o ambiente fosse um restaurante vegetariano pequeno e charmoso como o Retro, no segundo andar do Taj Mahal, hotel mais famoso de Mumbai que havia se recuperado bem do atentado terrorista que havia sofrido em 2008 .
Vegeta chegou num carro da produtora com dois seguranças e foi levado direto para o salão onde foi recebido por um chef que ofereceu todas as opções de buffet completo para duas pessoas e a carta de vinhos da casa. Ele encaminhou Vegeta para a mesa que era "a favorita de Suno", num canto onde um biombo podia ser colocado escondendo a mesa dos demais clientes. Pedindo apenas um aperitivo e reservando um vinho francês para quando a sua companhia chegasse, Vegeta observou entediado o salão, onde muitos endinheirados fingiam não o ver porque para a classe rica de Mumbai soava grotesco e caipira abordar um ator de Bollywood, mesmo que ele estivesse em primeiro lugar nas bilheterias do país inteiro.
Logo, Suno Arora apareceu na porta do restaurante. Ela era uma mulher estonteantemente bonita, frequentemente comparada à beldade da geração anterior, Ayshraya Ray: o rosto perfeito, delicado como o de uma boneca, era emoldurado pelos cabelos lisos e cheios de um vermelho bem escuro e uns olhos doces cor de mel que faziam dela uma estrela cuja presença era garantia de boa bilheteria. Vegeta sabia que a imprensa saberia daquele encontro e que surgiriam rumores, mas não estava muito preocupado com aquilo porque sabia que dificilmente ela estaria interessada em conversar mais do que sobre o filme que fariam em breve.
Ela sorriu, simpática, para cada garçom e para o mesmo maitre que havia recebido Vegeta e disse:
– Namastê, Vegeta! – Vegeta levantou-se, retribuiu o cumprimento e puxou a cadeira para ela, que perguntou – escolheu algum menu para nós?
– Apenas um vinho neutro – ele disse – preferi deixá-la livre para escolher entre os menus de degustação porque como de tudo, posso acompanha-la qualquer que seja sua preferência.
– Olha, que gentil! – ela sorriu – normalmente os machões de Bollywood me tratam como se soubessem o que eu devo comer e mais de uma vez tentaram me fazer comer carne, mesmo dizendo que sou vegetariana. Imagina se fosse uma vegana! – ela riu, enquanto sentava e abria o cardápio – Parece que você é mesmo feito de outra substância...
Ele riu e disse:
– Apesar da má fama, sou até bem educado.
Suno chamou o garçom e pediu que fosse servido um dos menus de degustação vegetarianos completos, que começava com samosas sortidas de vegetais, depois tinha uma porção de palak paneer e então um mix de vegetais, leguminosas e sementes que ela adorava. A sobremesa era matka kulfi (uma espécie de sorvete) de amêndoas. Logo em seguida, disse:
– Arjuna, por favor, essa conversa é particular.
O Maitre então fechou o biombo do reservado e assim que se viu a sós com Vegeta, Suno deu uma risadinha divertida:
– Pronto. Agora vão especular que fomos vistos numa conversa reservada no Retro... eu sempre me divirto com esses rumores, e você?
Vegeta deu um sorriso sem graça e disse:
– Na verdade... eu não gosto muito das fofocas.
– Ah – a expressão da atriz mudou para um ar consternado – eu imagino que seja por causa da tal história do seu pai e...
– Não é só isso. – Ele deu um suspiro – todos aqueles anos em que eu praticamente só trabalhava com a Chichi...
– Ah – ela riu – o casal perfeitinho. Eu conheci o Shallot Khan, produziu um filme meu, mas não a Chichi, apenas em eventos. Ele era intragável, ela fez bem em trocá-lo pelo moço lá, o que luta. Bonitão, aliás. E o Shallot agora está encrencadíssimo com a polícia financeira. Chichi é uma garota de sorte.
O garçom veio com as pequenas samosas de entrada e serviu o vinho que ele pedira.
– Vinho maravilhoso – disse Suno – francês, né? O nosso não é dos melhores mesmo. Gosto dos vinhos do sul da Califórnia, e você?
– Não conheço bem... na verdade, nunca estive nos Estados Unidos, acredita?
– Nunca? Uau. Que diferente. Eu já estive lá algumas vezes, uma delas com o Yamcha.
– Ah, sim... sei. – Ele fechou a cara e ela disse, maliciosamente:
– Estivemos em São Francisco. Ele ama aquela cidade.
– Você parece ter superado bem o fim do romance... – disse Vegeta, pegando uma das pequenas samosas e mastigando. Suno riu como se tivesse ouvido uma piada engraçadíssima.
– Você jura que não sabe nada sobre mim e ele? – ela coçou a cabeça, sem jeito – espero que você não tenha, sabe, aspirações românticas com esse encontro...
Vegeta a encarou, sério, quase a achando maluca, e disse:
– Por que teria? É um almoço de trabalho, meu pai fez questão que eu te conhecesse, você sabe, temos que desenvolver uma dinâmica e blablabá... nada de romance.
– Ufa, que bom – ela sorriu – veja bem, Vegeta... nada contra você. Só não é minha praia, como seu pai deve ter dito a você...
Ele a encarou, tentando entender o que ela queria dizer e ela então perguntou, de forma incisiva:
– Olha, eu queria satisfazer uma curiosidade, sabe?
– Que curiosidade? – perguntou Vegeta, limpando as mãos na lavanda ao lado do prato para tomar um gole de vinho.
– Aquela menina que fez o filme contigo, a Bulma... ela por acaso, assim, também é lésbica?
Vegeta cuspiu o vinho quase engasgando com a pergunta e olhou para Suno, um tanto chocado antes de dizer:
– Você tirou isso de onde? Ela vai se casar com o seu ex-namorado... e ela...
Suno deu uma risada alta e continuou rindo diante do espanto dele, que a encarava, perplexo.
– Vegeta, deixa eu esclarecer as coisas de uma vez, porque acho que o velho Raaja fez alguma pegadinha contigo... olha. Meu namoro com o Yamcha, tipo, aquilo... como eu te explico? A gente realmente planejava se casar, há três anos, mas... era uma combinação. Quando a mãe dele descobriu, sabe, sobre a gente, sobre como a gente era... ela proibiu tudo e tivemos que "descombinar". Eu achei que a Bulma tinha com ele um trato igual ao meu.
– Trato? Que trato?
Suno deu um suspiro profundo, impaciente e disse:
– Vegeta... eu sou lésbica. Esconder isso em Bollywood é quase uma questão de sobrevivência, a não ser, claro, que você seja o Karan Johar, que faz o gay espalhafatoso simpático ou a Rekha, que há anos vive com sua "amiga" Farzana e todo mundo sabe que... bem, todo mundo sabe e finge que não sabe.
– E o Yamcha fazia parte do acordo? – perguntou Vegeta, não querendo crer de forma nenhuma na conclusão óbvia que chegara.
– Claro, era benéfico para ele também, aquela mãe homofóbica e louca dele condicionou a parte dele na herança a um casamento e a um filho, achando que assim ele mudaria de time. A gente planejava casar e fazer uma inseminação numa barriga de aluguel para acalmar a coisa ruim. Posso ser lésbica, mas um dia quero ser mãe e isso viria a calhar.
– Então ele é...?
– Gay? Lógico que é. Teu pai realmente jamais te contou? O Yamcha disse que ele praticamente salvou a carreira dele quando teve aquele episódio... você sabe, quando cortaram o rosto dele. Ele estava beijando um namorado numa rua perto de uma festa gay exclusiva quando os dois foram atacados por um fanático, mas Yamcha foi mais ferido... sorte dele que foi uma faca, e não ácido, brrrr! Mas ele tinha um contrato com seu pai para fazer o filme da princesa Shanti e havia uma cláusula que dizia que as partes não podiam decidir pelo fim do contrato unilateralmente, qualquer que fosse o motivo da desistência... e o seu pai garantiu sigilo na investigação e outras coisas. E ele ainda conseguiu recolocar o Yamcha em outros filmes, você sabe, repaginando a carreira dele. Acordo bom para as duas partes, porque seu pai ainda pôde arrumar um ótimo primeiro papel para você.
– Meu pai sabia o tempo todo sobre isso?
– Claro que sabia... logo depois disso o Yamcha conheceu o Piccolo, começou a namorar e sossegou, mas a mãe dele pressionava por casamento. Você sabe, dois irmãos casados, família tradicional. Quando ele me conheceu, nós fizemos o Badaboom 2, bem... olha, os gays de Bollywood quando se descobrem, se ajudam. Nós dois tentamos ajudar um ao outro, mas uma foto pôs tudo a perder.
– Que foto?
Suno suspirou e pegou seu celular. Depois de procurar na galeria, encontrou uma fotografia que exibiu para Vegeta:
– Essa foto – ela disse – de 2012. Eu, Piccolo e Yamcha. Nossa viagem a São Francisco para a parada gay. Essa foto quase saiu em todos os sites de fofoca porque alguém hackeou meu celular, mas foi interceptada pelo Karan Johar. Ele pode ter seus defeitos, mas não ia permitir que o Yamcha e eu fôssemos expostos. Ele sabia sobre nós e, como eu te disse... nós, os gays de Bollywood, nos protegemos.
Vegeta arregalou os olhos, surpreso, porque na foto Yamcha e Piccolo estavam se beijando, os dois muito à vontade, sem camisa e com quepes de marinheiro. De repente, tudo fez sentido para ele. A onipresença do dublê onde quer que Yamcha fosse, o fato dele ter mais cuidado com o amigo do que com Bulma… e aquilo o enfureceu.
– O que você diria se eu te dissesse que Bulma é uma garota tão boba e inocente que realmente acredita que Yamcha a ama? Que ela aceitou o noivado de fachada sem saber que era isso? Que ela tem 24 anos e ainda é virgem?
Suno pareceu chocada com a veemência com que Vegeta defendia Bulma e então disse, simplesmente:
– Olha... eu conheço bem o Yanni. Ele é uma ótima pessoa e talvez esteja tentando realmente, sei lá... não acredito que ele queira mudar, mas talvez ele tenha decidido fazer as coisas de outro modo. A mãe dele é uma naja velha, provavelmente exigiu isso e ele quando conheceu a moça...
– Isso não importa – Vegeta agora tinha um milhão de coisas passando em sua mente. Bulma passaria o dia e ele nem sabia se ela não iria até mesmo dormir na casa da sogra, então, não tinha jeito dele conversar com ela, ou mesmo mandar mensagem, já que ela o havia bloqueado. – O que interessa é que ele está enganando uma garota que... uma garota que...
– Uma garota que pelo visto você está apaixonado, né? – disse Suno, se preparando para comer o segundo prato do menu – como isso aconteceu?
Vegeta a encarou. Não era de fazer confissões a estranhos. Mas era o que tinha no momento:
– Eu a conheci antes, na época da faculdade, nos tornamos amigos consegui o teste para ela. A achava atraente, mas nunca tentei nada com ela porque ela era... focada nos estudos. E ela nunca pareceu interessada em min, pelo contrário. Quando eu realmente me interessei ela conheceu o Yamcha e eu achei que ela era apaixonada por ele...
– Ah, deuses... e você não a salvou naquele sequestro?
– Não sei exatamente se salvei..., mas passamos por aquilo juntos, e depois... ah, droga. Sou um imbecil mesmo.
– Ei! – Suno pegou a mão de Vegeta, de forma simpática e disse:– você pode crer que esse casamento não vai durar, Vegeta. Que tal esperar e depois se aproximar dela?
– Esperar? Suno, eu estou assim justamente porque esperei demais. E eu não acho certo que seu amiguinho use a minha Bulma dessa forma. Você não tem noção da garota especial, genial e incrível que ela é.
Suno o encarou. Ela já tinha visto pessoas apaixonadas, tinha estado apaixonada. Mas nunca tinha visto nenhum colega de atuação ser tão franco e sincero sobre estar apaixonado. Então ela disse:
– Se é assim, Vegeta, não deixe esse casamento acontecer. Vá atrás de Bulma e a impeça de se casar com ele. E eu vou rir um bocado por causa daquela naja da mãe dele, que vai dar um ataque. Honra,
Ele a encarou. Era aquilo que ele queria, mas como? Ele havia sido convidado. Sabia que seria no dia seguinte, sabia a hora e sabia o local. De repente, ele sorriu e disse a Suno:
– Você tem razão. Eu não vou deixar esse casamento acontecer. Mas antes, tenho contas a acertar com o velho Raaja Vegeta.
Ele se acalmou e terminou sua refeição com Suno, com uma conversa agradável e divertida. E, na sua cabeça, começou a se formar um plano.
– Baaaahu! (nora) – a voz estridente de Hime Kapoor fazia Tights revirar os olhos cada vez que ela solicitava a presença de Bulma. Tinham ido para a casa da mulher logo pela manhã junto com Chichi, Gine e algumas amigas de Bulma da época da faculdade, que ficaram surpresas com o fato dela ter descoberto a irmã inglesa.
A sogra de Bulma parecia determinada em fazer amizade com ela e puxar seu saco, mas tudo nela, do perfume a atitude, repugnavam Tights, que via nela a repetição de muitos ricos esnobes e interesseiros que achavam que havia uma espécie de "clube dos bem nascidos" elitista, racista e preconceituoso. O que a surpreendia era ter viajado meio mundo para encontrar ali um exemplar do gênero.
E aquilo a fez temer por sua irmã. Yamcha apareceu logo que chegou de viagem e foi despachado pela mãe para "um spa de descanso" e ela mal pôde ver a interação entre a irmã e seu noivo, mas achou algo falso e mal encaixado entre eles. Ficou se perguntando se era alguma coisa cultural ou se realmente a relação dos noivos não era quase tão superficial como a de um casamento arranjado.
A sogra de Bulma reservara a manhã para uma espécie de jogo entre Bulma e as amigas, uma coisa de perguntas e respostas que deixara Tights boiando nas conversas, por mais que Gine se esforçasse em traduzir o palavrório das garotas enquanto Bulma, um pouco alheia, escolhia os motivos dos desenhos em mehndi que iriam enfeitar suas mãos com a artista que começaria o trabalho de pintura logo depois do almoço. De repente, ela se viu ansiando pela chegada de Raditz. A conversa com ele, desde o jantar até o trajeto no carro acendera nela um quê de disputa com o rapaz e estimulara o seu lado mais competitivo e irônico, e, ela devia admitir, isso era estranhamente excitante.
Claro que ela logo em seguida se autocensurava: assim que conhecera o irmão adotivo de Bulma, o achara absurdamente atraente com aqueles cabelos longos presos num rabo de cavalo e seu ar sério, mas imediatamente procurara pensar em outras coisas porque devia de alguma forma ser inapropriado flertar com alguém que era... o que ele era dela? Um meio-irmão, talvez? Não, eles não tinham nenhum parentesco, mas, ainda assim, ela se sentira culpada pela atração que sentira por ele, por isso, a princípio, ela evitara cruzar o olhar com o dele e tinha sido de certa forma, um alívio quando ele se retirara.
Mas então, ele se tornou um desafio quando começou a hostiliza-la. Ela não sabia o porquê do comportamento dele ser tão abertamente confrontador, mas aquilo a fizera gostar do desafio e das provocações. E quando Tights Briefs entrava num jogo, certamente não era para perder.
Durante o almoço, em que ela percebeu a vocação para ostentação da futura sogra de Bulma, por causa do banquete absurdamente exagerado que, no entanto, ela achou muito menos saboroso e interessante do que a comida que comera na casa de Gine, que às vezes parecia perceber seus pensamentos, comentando com frases precisas que pareciam extremamente conectadas ao que ela estava pensando. De repente, quando todas as mulheres se dirigiram para um dos imensos quartos da casa onde Bulma teria suas mãos finalmente pintadas, Gine disse a ela:
– Uma pena termos perdido a manhã inteira com aqueles joguinhos inúteis da Hime... você teria achado bem mais interessante ver a pintura do mehndi.
– Sou obrigada a concordar, me pareceu algo bobo e chato...
– Ela queria apenas sondar os vícios e defeitos de Bulma, por isso pôs as meninas para tagarelarem – sussurrou Gine – espero que minha filha more o mínimo tempo possível com essa naja. Não vejo futuro nenhum num casamento debaixo desse teto... se o Yamcha for o bom rapaz que eu imagino que seja vai se mudar daqui logo...
Tights não disse nada porque não tinha opinião formada sobre o rapaz, que mal vira naquela manhã. Ela preferiu prestar atenção nos desenhos que a artista de mehndi traçava com um lápis dermatográfico nas mãos de Bulma antes de começar a pintura com as pequenas bisnagas de henna que iam da cor de avelã ao preto intenso, caprichosamente alinhadas num estojo ao lado da poltrona onde a irmã aguardava.
De repente, a campainha da mansão tocou e ela sentiu seu coração disparar. Se autocensurou pela pontinha de ansiedade que a assaltou, mas sorriu, aliviada, quando um empregado disse que Raditz a viera buscar. Despediu-se rapidamente, com um sorriso radiante, da irmã e de Gine, que ficou observando com um sorriso entendido nos lábios a moça saindo numa pressa alegre.
Raditz esperava do lado de fora e ela sorriu para ele, que estava com os cabelos soltos e uma roupa bem menos formal do que a que ela o vira usando no dia anterior. Ele sorriu aliviado em resposta, porque quem estava ao lado dele, tagarelando com sua voz insuportável era a sogra de Bulma, que estivera atenta para a chegada dele desde que Gine dissera, mais cedo, que ele deveria levar Tights para comprar uma roupa para o casamento.
Os esforços de Hime para chamar a atenção dele foram embotados porque ele olhava ansiosamente para dentro da casa esperando pela garota. Quando Tights apareceu, radiante no seu vestido de verão muito ocidental ele sorriu para ela, tentando convencer-se de que o ligeiro acelerar do seu coração quando a garota sorriu para ele era porque ele estava aliviado pelo aborrecimento que era aturar Hime. A desagradável e esnobe sogra de Bulma ainda tentou puxar assunto e ficar entre ambos, mas os dois a despacharam dizendo que tinham pressa, que conseguir um sári para Tights era urgente e outras desculpas.
Quando deu partida no seu SUV, Raditz disse:
– Arre, que mulher chata essa sogra da Bulma...
Tights deu uma gargalhada espontânea e Raditz sorriu, descobrindo que gostava muito do som daquela risada. Ele ficou sério, de repente:
– Espero que não se aborreça com o caminho, o Shopping fica a 40 minutos daqui. Claro, essa vaca esnobe tinha que morar em Navi Mumbai...
– Nossa – ela riu – decididamente você não faz parte do fã clube dela!
– Essa maluca me alugou o tempo todo no noivado da minha irmã... espero que amanhã ela não faça o mesmo!
– Eu posso te ajudar a fugir dela, vi que agora mesmo fizemos isso de forma bem eficiente...
Raditz riu e disse, vendo as nuvens de chuva ao longe, na direção oeste:
– Falando em fugir, vem chuva por aí, vou dar uma acelerada... não quero ser pego no pior trânsito de Mumbai pela chuva da monção...
Ele acelerou e entrou na Mumbai Highway, que levava direto ao centro. De repente, ela disse:
– Gostei do seu cabelo solto... é bem bonito e cheio.
– Se meu pai fosse vivo provavelmente ele teria me feito cortar o cabelo..., mas eu sempre tive cabelos longos. Uma espécie de marca registrada. – Ele olhou para ela, de lado, e completou – engraçado uma mulher de cabelos curtos elogiar um cara de cabelos longos...
– Ah, um hábito do colégio interno... cabelos longos precisam de cuidados para os quais eu não tinha tempo naquela época, estudando tanto quanto estudava... depois me acostumei. Teve um tempo em que eles ficaram bem mais longos, mas acabei adotando essa imagem. Impõe respeito no meio corporativo, dá uma ideia de mulher durona, sabe? Como você disse, uma marca registrada.
– Você realmente parece uma mulher durona. – Ele provocou.
– Claro que sou durona. Você logo vai perceber o quanto...
– Ah, percebi, ontem – ele riu – mas será que aquele papo de casca grossa e interior frágil não vale para você também?
– Eu acho que não. Sou bem durona, por dentro e por fora, tenho certeza.
– Talvez – ele provocou novamente – apenas talvez... sua dureza não tenha sido apropriadamente testada.
Ela olhou para ele, que prestava atenção na estrada, mas tinha um sorriso malicioso nos lábios e disse:
– E você está se propondo a testar essa tese?
– Por que não? Se é tão segura de si, não tem porque ter medo.
Tights riu, ciente de que talvez estivesse prestes e jogar um jogo arriscado e disse:
– Então tá, senhor Sayajin... que comecem os jogos.
Ele sorriu e disse:
– Isso vai ser divertido.
Notas:
Então, essa é a grande revelação, que eu tenho certeza que muitos de vocês podem ter desconfiado: Yamcha é homossexual e foi por causa disso que ele foi atacado anos antes, quando estava prestes a estrear o filme com Chichi. Claro que várias pistas do fato foram jogadas ao longo da história, mas adiante verão que ele, apesar de esconder esse fato de Bulma, realmente não pretendia "enganá-la" ou algo do gênero. Apenas achou que seria mais fácil casar-se com alguém que ele acreditava amá-lo.
Raaja Vegeta sabia disso e jamais contou ao filho, e os motivos vocês saberão no próximo capítulo "Bajla" (acerto de contas). Também descobriremos como Vegeta pretende impedir o casamento de Bulma.
O Retro é o restaurante retratado no filme "Atentado ao Hotel Taj Mahal", de 2018, que conta a história do maior ataque terrorista da história de Mumbai. Arjuna é o nome do personagem de Dev Patel no filme.
O Varsha, também chamado de "Dia da Hennah" é uma etapa do casamento indiano em que a sogra "exibe" sua casa para a noiva, ela é pintada com a henna (na maior parte das vezes nas mãos, mas às vezes nos pés e braços também.
Embora a religião hindu não seja tão conservadora quanto seus gurus e representantes, é praticamente impossível ver gays assumidos na Índia, por conta de um grande preconceito social, por isso os indianos homossexuais raramente atendem ao estereótipo ocidental do gay alegre e afetado, por isso ninguém perceberia a homossexualidade de Yamcha, uma vez que os gays indianos se esforçam para não parecerem gays . Até 2018 a homossexualidade era uma contravenção penal na índia, sendo que flagrantes de homoafetividade em público poderiam ser punidos como crimes ou resultar em surras de varetas dadas por policiais, que têm permissão para usar "força moderada" com contraventores (daí a profusão de vídeos de policiais dando varetadas nas pessoas que descumpriam a quarentena durante a pandemia).
Karan Johar, já mencionado aqui, e Rekha, uma atriz que na juventude teve um sucesso estrondoso e uma beleza estonteante, não são exatamente "gays assumidos". Karan é o mais próximo de um gay assumido e declarou em 2014: "Não preciso gritar por aí minha orientação sexual, todos sabem o que sou, mas falar sobre isso pode me levar à cadeia." Rekha, por outro lado, teve uma vida amorosa extremamente infeliz: no cinema desde os 14 anos de idade, ela foi uma atriz de opiniões fortes desde cedo, dizendo que virgindade não era algo importante. As suas declarações e imagem "não convencional" e também o fato dela não ser filha de pais formalmente casados a fizeram ser rejeitada pela família do ator Vinod Mehra aos 22 anos, quando ele pretendia casar-se com ela. Depois, Reka teve romances com atores como Jetheendra e Kiran Kumar, mas o grande escândalo de sua juventude foi o caso com o ator Amithab Bacchan, casado com a atriz Jaya Bacchan, que resultou no infame filme "Silsila" onde os três, obrigados por contrato, viveram papéis que reproduziam suas situações na vida real, com uma fala de Jaya que se tornou célebre: "Você pode deseja-lo o quanto quiser, mas ele jamais será livre para se casar com você." Com dois filhos com Jaya, Amithab abandonou Rekha e ela se casou intempestivamente com o produtor Mukesh Agraval, que alguns anos depois suicidou-se usando uma echarpe da própria esposa. Em meio a tudo isso, Rekha tinha uma amiga, chamada Farzana, que jamais a abandonou. Durante o luto pela morte do marido, Farzana tornou-se agente e depois passou a morar com Rekha, passando a adotar um figurino e atitudes masculinas que contrastavam com a feminilidade e beleza da atriz. Elas jamais posam juntas como "casal", quando Rekha vai ser fotografada, Farzana dá um passo atrás e nunca fica em evidência. Mas toda Bollywood sabe que ali está um dos casamentos mais sólidos de toda indústria que dura exatamente 30 anos.
Dear Zindagi é um filme de 2016 que fala sobre uma garota que não pretende se casar. Um dos filmes mais interessantes da carreira de Alia Bhatt, disponível na Netflix, não tem nenhum número musica do tipo que estamos acostumados em Bollywood.
