Capítulo 46 – Behka diya humein (Perder a razão)
Eles avançavam cegamente pelo quarto, boca com boca num beijo quente e sedento. As mãos pequenas dela já desabotoavam sua camisa, ele tentava, em vão, achar um meio de descer o vestido que ela usava, sem saber direito onde abrir, como tira-lo, concentrado que estava nela, no gosto de sua boca, no cheiro bom que vinha dela. De repente sentiu que ela espalmava as mãos no seu peito como que pedindo um tempo e a encarou, o cenho franzido, os olhos pretos anuviados de desejo.
– Raditz... o que é isso que estamos fazendo? – ela perguntou, as mãos ainda segurando a camisa dele, os olhos azuis o contemplando em dúvida.
Ele respirou fundo. Não sabia o que estavam fazendo ele mesmo. Então, perguntou:
– Quer parar, então? Quer que eu vá embora e esqueça? – a pergunta foi quase sussurrada, num tom doído porque ir embora era o que ele menos queria.
– Não... Não! – ela exclamou – e o encarou. – eu só estou com medo por que... ai, você sabe...
– Sim... eu sei – ele disse e tornou a beijá-la, agora com um pouco mais de suavidade, envolvendo-a nos seus braços. Ele a pegou no colo, ela se agarrou a ele. O desejo estava ali, mas agora, havia algo mais. Ele parou para tomar fôlego e os olhos dos dois se encontraram. Ela já havia desabotoado a camisa dele, que caiu ao chão e ele a carregou até a cama, onde ela o sentou. De frente para ele, ela tirou o vestido, que caiu ao chão apenas um instante antes do sutiã. As sandálias já haviam ficado pelo caminho e ele ficou encarando-a mesmerizado pela pele tão branca em contraste com a lingerie azul celeste.
Surpreendendo-o, ela tomou a iniciativa e avançou para ele, desabotoando suas calças, ajudando-o a despir-se rindo e mordendo os lábios quando o viu finalmente nu e surpreso, porque ele nunca tinha tido uma mulher que tivesse investido assim sobre ele como ela. Raditz era um homem experiente, era verdade. Na estrada, sua beleza e carisma o haviam feito sempre ter uma mulher por perto se oferecendo, a maioria querendo apenas ele, sem pedir dinheiro ou favores, e, depois que ele se tornara o agente do irmão, mulheres lindíssimas o assediavam, a maioria desejando uma carreira em Bollywood.
E ele sempre se orgulhara da forma racional com que encarava essas investidas, mas não estava acostumado a ser despido, era ele quem despia as mulheres, era ele quem sempre tomava todas as iniciativas, não o contrário. Mas ela, ao terminar de despi-lo, ajoelhou-se entre as pernas dele seminua, os cabelos reluzindo à meia luz como uma aura dourada, sorrindo confiante quando o tocou, fazendo com que ele perdesse o fôlego com o contato das mãos macias contra a pele sensível do seu membro. Ela se esticou com a elegância de uma gatinha se espreguiçando e o abocanhou seu aviso, fazendo Raditz ofegar ao contato com a boca quente e a língua travessa, que ela usava habilmente, rodeando a glande antes de suga-lo, fazendo Raditz murmurar:
– Assim você vai me enlouquecer...
Ela nada disse, apenas seguiu com as carícias e explorações, então, parou de repente, quando ele se sentia no ápice da excitação e engatinhou até ficar ao alcance dele, que a tomou nos braços e beijou, faminto. Quando deu por si, ela estava ajoelhada sobre seus ombros numa posição de dominação, as mãos apoiadas no dossel na cama e uma expressão de desafio no rosto bonito. Ele a encarou, com um sorriso malicioso no rosto enquanto ela descia os quadris para se colocar ao alcance dele.
Em um jogo de dominação, ele a encarava, enquanto sua língua e boca trabalhavam ferozmente na sua entrada, nos pequenos lábios e no clitóris, e ela tentava sustentar o olhar, ignorando as ondas de prazer que iam subindo enquanto ele brincava com ela. Quando as mãos fortes dele seguraram firmemente seus quadris, puxando-a para aumentar o contato, ela se entregou, fechando os olhos e gemendo, movendo os quadris lentamente enquanto ele, cada vez mais empenhado em dar a ela prazer, sugava seu clitóris, acariciando-a com a língua até que ela soltou um gemido alto e se derramou em gozo, mas ele a segurou pelos quadris e continuou trabalhando habilmente com a língua, enquanto ela, ofegante, chegava ao segundo e depois ao terceiro orgasmo, até se entregar completamente e dizer:
– Raditz... por favor...
Ele a puxou para ele, deitando-a ao seu lado, ainda ofegante, e a encarou, perguntando:
– Você não era durona?
Mesmo ofegante, ela passou uma perna sobre a cintura dele e, ainda por cima, espalmou as mãos no peito dele, largo, musculoso. Ela respirou fundo, ainda sentindo os efeitos do gozo prolongado e disse, num sussurro:
– Eu me recupero muito rápido...
Ela estendeu a mão para a mesa da cabeceira, achando os preservativos que o hotel deixava de cortesia, e, depois de acaricia-lo um pouco, disse:
– E você, o quanto aguenta?
– Descubra por você mesma... – ele disse e ela mordeu os lábios antes de, lenta e deliberadamente, se encaixar nele, sentindo toda sua extensão a preenche-la.
Raditz ofegou, porque ela era quente, apertada e estava deliciosamente excitada, apesar de todo o prazer que já havia tido. Quando ela se apoiou no dossel da cama, seus seios ficaram ao alcance da sua boca e ele elevou o corpo e começou a brincar com os mamilos, enquanto as mãos enormes a seguravam pela cintura, ajudando-a a se mover.
Ela movia-se lentamente, querendo tortura-lo, e ele percebeu isso e a puxou para que o beijasse, um beijo quente, molhado e cheio de desejo e paixão que a envolveu tanto que ela mal percebeu quando ele apoiou-se e virou a posição dos dois na cama, rolando e ficando por sobre ela, apoiando o peso nos cotovelos para não pesar demais sobre o delicado corpo.
Quando ele abriu os olhos, ela sorriu para ele, maliciosa, e disse:
– Eu deixei você fazer isso...
Ele riu. Estava louco, doido para aumentar o ritmo, mas seguiu esfregando-se nela como ela fizera nele, lentamente, indo fundo e quase tirando tudo até que ela pediu:
– Mais forte, Raditz...
Ele aumentou o ritmo e, logo, os dois moviam-se na mesma sintonia, ela empurrando os quadris contra ele, que a estocava com força até sentir as paredes dela o contraindo, já à beira do gozo, que quando veio o fez urrar de prazer, sentindo o corpo tenso sobre o dela se relaxar subitamente, sentindo aquele prazer drenar todas as suas energias, deixando-o quase à beira de uma deliciosa exaustão.
Quando terminou, ele deitou-se ao lado dela e a abraçou, sentindo o seu perfume, aspirando seu cheiro e desejando ter mais daquela mulher que era completamente diferente de qualquer uma que ele já tivesse conhecido em qualquer sentido.
– Isso foi tão... – ele começou e ela perguntou:
– Incrível? Fora de série? Perfeito?
Ele olhou para ela com um sorriso de lado e disse:
– Sim. Perfeito define bem. Espero que também tenha sido para você – ele disse, roçando os lábios no lóbulo da orelha dela – você é perfeita.
Ela riu e disse:
– Estou longe disso... sou cheia de defeitos, Raditz... mas você foi perfeito também – ela o encarou, reparando na beleza do rosto dele – e diferente de alguma forma de tudo que eu conheci...
– É mesmo? – ele riu – mas sou um indiano ignorante e grosso, não sou?
– Pare com isso! – ela reclamou – você é muito mais gentil que...– ela parou, sentindo-se intimamente culpada com a comparação que fazia involuntariamente.
– Sou mais gentil que...?
– Que meu primeiro namorado, por exemplo, um americano chamado Jake... ele estava em intercâmbio no colégio onde eu estudava e se vangloriou de tirar a virgindade de uma tonta de 16 anos... ou que George, meu marido, ou melhor, ex-marido... aaah, é horrível. Não quero fazer isso – ela escondeu o rosto no peito dele – e muito menos falar que há anos eu tenho parceiros de sexo casual que são uma decepção em todos os sentidos. – ela o encarou – me desculpe!
– Por quê? – ele riu, ajeitando-se na cama e a aninhando ao lado dele enquanto olhava para o teto – não é vergonhoso fazer sexo casual para mim, embora para a maioria dos indianos seja. Mas foi o que eu tive nos últimos... sei lá, dez anos?
– Nunca teve uma namorada? – ela perguntou, o encarando com curiosidade.
– Ah, sim, tive. Uma, com 17 anos. O nome dela era Aisha e ela tinha 16 anos. Quando a minha mãe soube já queria correr para ajeitar meu casamento com ela... e eu impedi maan dizendo que só ia me casar com 30 anos e que nem eu nem Aisha tínhamos essa expectativa, mas quando a garota soube, ficou furiosa e me deu o fora, então, percebi que namoros não eram para mim. Ah, sim, eu nunca fiz sexo com ela… era outra época. Eu achava que conseguiria fazer uma faculdade... mas quando fui aceito, vi que o sacrifício seria grande demais para minha família. Kakarotto tinha 13 anos e falava em largar os estudos para assumir meu lugar entregando os doces, porque a faculdade de engenharia era em período integral e quem entregava doces para minha mãe era eu... eu pensava que se ele sequer completasse os estudos, sei lá, não teria futuro nenhum. – ele deu um suspiro – assim eu desisti, continuei com minha vida e tive a ideia do caminhão. A essa altura Kakarotto já tinha idade para fazer as entregas e eu o obriguei a fazer como eu fazia: só à tarde, depois da escola. – ele a encarou – então, me esforcei para ter a permissão para dirigir e assim que foi legalmente possível, caí na estrada e me tornei... mais duro, mais prático. Menos romântico... e isso não é fácil de mudar, mesmo quando a gente passa a ter uma vida boa.
– Verdade – ela disse, o encarando – depois do George...
– Ele partiu seu coração? – ele perguntou, acariciando o rosto dela.
– Sim e não... – ela disse, pensativa – porque depois da separação eu percebi que eu não o amava tanto assim... na verdade, o George foi uma relação que me pareceu confortável até perceber que para ele uma garrafa de uísque oferecia mais conforto que a nossa cama... – ela deu um suspiro – mas mesmo que eu não o amasse tanto... ficou um vazio no peito. Uma sensação de erro. Meu casamento foi um erro, um erro precipitado de uma mulher que ansiava tanto por não estar sozinha aos 22 anos que casou com literalmente o primeiro que apareceu... – ela o encarou – e você, pensa em se casar?
A pergunta, feita de maneira tão direta, deixou Raditz desconfortável. Mas ele respondeu:
– Todo indiano pensa em se casar. Alguns são mais obsessivos, afinal, estamos num dos países do mundo que tem mais homens que mulheres, e elas podem se dar ao luxo de serem bem exigentes... Mas eu penso, sim, em me casar – por algum motivo, todo discurso que ele sempre repetia de "uma boa esposa indiana escolhida por sua mãe" não conseguiu sair de sua boca e ele se calou ao que ela replicou:
– Sua mãe está vendo noivas para você?
– Ela deveria – ele disse – mas acho que não está se esforçando porque não quer escolher por mim, quer que eu escolha alguém que ela possa aprovar, sei disso, claro que desde que eu era bem jovem ela me apresentava moças "como quem não queria nada" para ver se eu gostava, mas sem falar com os pais – ele riu – creio que ela tinha esperança que eu me apaixonasse... talvez seja porque ela não se casou com aquele que foi escolhido para ela – ele riu e se sentiu mal, porque pensou em Bulma – conheceu meu pai, os dois se apaixonaram e enfrentaram meus avós... meu pai era um cara incrível. – ele a encarou – você teria gostado dele.
– Então – ela riu para ele – quando você tiver essa sua linda esposa indiana e eu estiver, sei lá, em Londres, provavelmente sozinha, espero que às vezes você se lembre de mim.
Ele a encarou e debruçou-se sobre ela, dizendo:
– Não tenho nenhuma esposa indiana, Tights. E talvez nunca tenha. – ele a beijou e ela se entregou ao beijo, e dessa vez, o beijo era suave e terno, a língua dele passeando pela dela com gosto, saboreando-a lentamente. Logo ele estava duro e excitado e tateou a mesa de cabeceira às cegas para pegar um outro preservativo antes de penetrá-la de lado, segurando uma das pernas dela mais no alto enquanto manipulava o clitóris com os dedos, estocando lentamente, enlouquecendo com os gemidos suaves dela, percebendo que eles soavam como música para ele. E quando ele aumentou o ritmo das estocadas ainda era de forma terna, querendo vê-la gozar e gemer mais, antes dele mesmo sucumbir ao prazer de um orgasmo intenso, mais intenso que qualquer um que ele já experimentara.
E então, de novo, estavam abraçados, e para Tights aquilo era quase doloroso. Sempre tão cautelosa, ela estava sentindo o coração se perder por ele: tão bonito, tão intimamente parecido com ela... Mas por um instante, sua mente divagou e ela pensou como teria sido se ela o encontrasse na situação anterior: teria ela se entregado aos braços do caminhoneiro como estava agora nos braços do agente, do negociador de contratos, que ela conhecera bonito e bem vestido? Ela não conseguia saber, mas ficou pensando nos próprios preconceitos e paradigmas que ela sentia despedaçarem-se ali, naquela cama.
Eram de mundos muito diferentes, mesmo com todas as semelhanças. E não era humanamente possível que ele fosse assim, tão perfeito. Era preciso manter a razão, entender os limites. Ela disse então:
– Raditz... acho que está ficando tarde.
Ele olhou para ela com uma expressão de estranhamento, sentindo o coração afundando um pouco no peito:
– Quer... que eu vá embora?
– Não... não me leve a mal – ela disse e deu um beijo de leve no canto de sua boca – é que você mesmo disse que Bulma tem que estar às oito na casa de casamentos e você que vai leva-la. Tenho medo que se atrase e...
– É esse mesmo o seu medo, Tights? – ele perguntou, olhando-a nos olhos.
– Não, eu...
– Ou o seu medo é eu ficar, e querer continuar ficando na sua vida tão perfeita... será que seu medo é entrar naquele avião na terça-feira tão confusa quanto eu acho que estou agora?
– Raditz... não é isso... é que... não sei se devemos contar para... para a família.
Ele pendulou a cabeça com uma expressão indecifrável para ela e disse:
– Espero que eu não tenha sido uma decepção como parceiro de sexo casual. – ele sentou-se na cama, passando a mão pelos cabelos longos – mas em parte você está certa. Não devemos perder a hora ou a razão – ele riu – não agora, na véspera do casamento da sua "sister" e da minha "bahaan". Vamos deixar assim, para reduzir culpas... – ele levantou-se subitamente e foi ao banheiro. Ela ouviu o chuveiro sendo aberto e, por um instante desejou ir até ele, entrar debaixo do chuveiro e dizer que ficasse, que dormisse ao lado dela, que ficasse ao lado dela... mas não conseguia. Não conseguia se entregar plenamente a ele, não, tinha sido muito machucada para se apaixonar agora justamente por um homem que declarava solenemente que nunca havia se apaixonado. Ela sentou-se na cama e esperou.
Ele saiu do banho enxugando os cabelos e a encarou. Ele sentiu o coração acelerar e quis ir até a ela, beijá-la, amá-la de novo para a convencer a ficar ali, passar a noite com ela... mas franziu a testa numa expressão de dúvida. Era aquilo então? Aquilo que fizera Kakarotto quase sacrificar sua carreira pela honra de sua princesa Chichi? Aquilo que fizera Bulma chorar copiosamente por Vegeta, querendo desistir do melhor casamento que poderia fazer na vida?
Ele levantou os olhos para ela e disse:
– Você tem razão. É melhor eu ir embora.
Ele recolheu suas roupas e vestiu-se, subitamente consciente que o perfume dela ficara em sua camisa e o acompanharia até em casa. Verificou sua chave do carro, seus pertences e ia saindo quando ela o chamou:
– Raditz...
Ele se virou, sério, mas nada disse, esperando em suspense que ela dissesse qualquer coisa.
– Não foi sexo casual. – ela falou.
– Sim... – ele disse, ainda sério – para mim não foi. Te pego aqui às sete, pode ir vestida como quier. Minha mãe te ajuda a vestir o sári, ela é boa nisso.
Ele virou as costas e saiu. Tights afundou na cama, sentindo uma angústia grande por não confiar no próprio coração, mas era uma garota durona e pensou: "pode ser que seja melhor assim"... mas então sentiu o cheiro dele que ficara nos lençóis e se lembrou não apenas do sexo, mas dos momentos daquela tarde, do riso às vezes cínico dele, da voz forte e rouca sussurrando falas do filme da irmã no seu ouvido... especialmente a desnecessária "I love you"... porque na tela tinha sido dito a mesma coisa, "aae laav yoo" soava absolutamente igual. E pensou que há muito tempo um homem não compartilhava histórias com ela e nem se interessava por suas histórias.
Definitivamente, não tinha sido sexo casual.
Raditz deu uma gorjeta no estacionamento e pegou seu carro. Passava um bocado da meia-noite, era quase uma da manhã, na verdade, e ele sentiu-se irritado com o trânsito de Collaba, que àquela hora estava agitada porque era o bairro que tinha a melhor vida noturna de Mumbai. Pessoas rindo nos cafés e turistas procurando coisas para fazer deixavam a rua movimentada, e ele sentia-se irritado porque a única coisa que queria era chegar em casa. Ligou o rádio e logo a música "Zooby Dooby", do filme "3 idiots" de 2009, tocava no rádio:
Zoobi doobi zoobi doobi pum para
Zoobi doobi pa rum pa
Zoobi doobi zoobi doobi
Por que meu coração louco e estúpido está dançando?
As folhas nos galhos estão cantando
As abelhas nas flores estão zumbindo
Os raios de sol, loucos, estão brilhando
Esses pássaros estão cantando
Duas flores no jardim
Estão conversando
Assim como acontece nos filmes
Está acontecendo exatamente da mesma maneira ... oh
Ele fechou a cara e mudou de estação dizendo para si mesmo "música estúpida" para a canção que falava sobre como o amor pode ser "exatamente como nos filmes". Ele sempre zombara daquela ideia e, por algum motivo, parecia que havia agora uma conspiração tola para mostrar a ele que não era bem assim porque todas as músicas em todas as rádios falavam de amor... desligou o rádio, irritado, mas lembrou-se de uma música do mesmo filme que ele sempre gostara, porque achava que não era uma música de amor. Muitas vezes ele se vira cantando na estrada, sozinho, quando o rádio ou um mp3 player eram a sua única companhia. Involuntariamente, buscou a música no seu multimídia e começou a cantar os versos de "Give me some Sunshine" que tinha apenas o refrão em inglês:
Continuamos vivendo
Uma vida incompleta até agora
Por um momento agora vamos
Viva plenamente, viva plenamente
Na ... na na
Na na ... na na
Na ... na na
Na na ... na na
Me dê um pouco de sol
Me dê um pouco de chuva
Me dê outra chance
Eu quero crescer mais uma vez...
A música, na verdade, era sobre crescer, estudar e vencer, mas ele sempre se vira naqueles versos, em segredo. Aquele filme, que falava sobre 3 amigos sempre o tocara, porque ele não tivera muitos amigos na vida... de repente, pensou em Tights. Nunca se abrira com ninguém como se abrira com ela. E agora ele parecia ter sido mandado embora e, quem sabe, dispensado, e aquilo doía no fundo dele... e quando os versos mais tocantes soaram, ele não pôde deixar de se sentir vazio:
Viva plenamente, viva plenamente
Agora a infância se foi
Até meus jovens dias se foram
Por um momento agora, vamos:
Viva plenamente, viva plenamente
Ele desligou o multimídia do carro e seguiu até a sua casa em silêncio, amuado. De vez em quando dava um grunhido mau humorado e pensava que devia estar perdendo a razão por, em menos de 48 horas, estar totalmente mobilizado por aquela mulher. Pôs seu carro na garagem do prédio e subiu, balançando o molho de chaves e dando graças aos Deuses que a sua mãe já estaria dormindo.
Mas quando abriu a porta de casa teve a surpresa de ver o irmão sentado à mesa da cozinha com uma enorme tigela de Gulab Jamun, pegando as bolinhas direto da calda com uma colher e enfiando-as na boca sem cerimônia. Kakarotto olhou para ele com o mesmo olhar que vinha sustentando na sua direção desde a briga dos dois, mas, então, o olhar foi substituído por um sorriso malicioso e uma olhada no celular, que estava do lado dele.
– O que foi? – perguntou Raditz, incomodado.
– Uma e meia da manhã. Eu estava fora quando saiu, mas acho que ficou bastante tempo fora...
– O tempo voa, às vezes. Não dormiu na casa da Chichi?
– Cheguei ainda há pouco. Ela me expulsou porque tinha de acordar cedo para se arrumar e não queria que eu visse o sári que vai usar antes. Coisa de mulher – ele riu, igual um bobo. Mas eu fui buscar todas elas na casa daquela mulher horrível, graças aos Deuses ela recusou o convite para jantar e tivemos a companhia apenas do Yamcha.
– Bem, que bom que ela não foi...
– Bulma queria ligar para Tights quando estávamos saindo de Navi Mumbai mas o celular de vocês dois deu fora de cobertura e maan disse que vocês deviam estar no cinema.
– Ah, sim, estávamos mesmo. – ele disse, friamente – fomos ver o filme da Bulma, mas eu tive que traduzir tudo para ela. Um saco, isso. – mentiu. Goku sacudiu a cabeça, e ele pôde ver um resquício de sarcasmo na expressão do irmão, que disse:
– Sabe onde jantamos? Maan está se saindo uma graça... ela reservou uma mesa no Koyla de Collaba...
Ele olhou para o irmão e sentiu uma certa malícia na voz dele. O Koyla era relativamente próximo ao restaurante onde ele jantara com Tights mas ficava no terraço de um hotel. Não era possível que eles tivessem sido vistos...
– O Koyla é meio caro, né?
– Eu e Yamcha dividimos a conta. Chegamos meio tarde no restaurante e quase perdemos a reserva, aquela sogra da Bulma prolongou a nossa saída, ficou tentando forçar uma amizade com a Chichi... ugh! – ele disse, catando um dos últimos gulabs da tigela. Raditz riu.
– Foi boa, a janta?
– Demais... ainda bem que não é um desses restaurantes chiques que tem pratinhos minúsculos... mas a sobremesa deixou meio a desejar... prefiro os doces da maan...
– Quem não prefere...?
O irmão o encarou. Parecia querer contar algo e Raditz perguntou, diretamente:
– O que você quer me dizer?
Ele deu um suspiro. Fechou a cara e então disse:
– Dizer que você conseguiu, sabe? Convenceu a Bulma que o Vegeta não presta. Depois do jantar, esperávamos a conta e maan resolveu ficar olhando o celular, ela tem andado vidrada no Facebook, essas coisas secretamente acho que ela queria ver uma atualização de um dos pretendentes, do senhor Raaja, provavelmente... aí tinha uma notícia compartilhada pelo Bollywood Hungama dizendo que Suno Arora e Vegeta foram vistos almoçando no Retro, o restaurante do Taj, uma matéria cheia de insinuações... engraçado que Yamcha ficou tão desconfortável, talvez porque a garota foi namorada dele, que nem percebeu a cara de decepção da noiva. Chichi se apressou a dizer que aquilo era uma fofoca ridícula, porque eu e ela vimos quando o senhor Raaja marcou esse almoço para ele, é por causa do filme que vão fazer juntos, Vegeta nem queria ir...
– Mas foi... e provavelmente já deve estar pensando em como seduzi-la como fez com nossa irmã – disse Raditz, virando as costas – ou Bulma não ficaria tão magoada...
– Não – disse o irmão, com firmeza – Vegeta não é assim, eu o conheço. Ele está apaixonado por ela e ela por ele. E a mágoa dela é graças ao seu apego idiota por regras que vão fazê-la infeliz... ela e Yamcha claramente não se amam... Não sei porque ele a pediu em casamento, mas, provavelmente, porque chegou a uma certa idade e decidiu que deveria casar com uma atriz bonita...
– Você faz especulações estúpidas e...
– Estúpido é você! – disse Kakarotto, transbordando de raiva – com essa arrogância, jogando na nossa cara seu sacrifício, seus anos na estrada como se isso te fizesse superior a nós dois... – os dois se encararam e ele continuou – adivinhe: não foi difícil apenas para você quando o pitah morreu! E, ao contrário de você, nós não ficamos amargos e insensíveis por isso, continuamos sonhando... e foram nossos sonhos que nos salvaram, quer você queira ou não!
Raditz sentiu no peito o baque de ter jogado na sua cara tudo que ele sempre pensava, mas nunca conseguia externar. O irmão prosseguiu:
– Lógico que sem você negociando para nós dois, não estaríamos ricos...
– Ainda não somos ricos – disse Raditz – você pensar que estamos só mostra o quanto é irresponsável.
– Perto do que éramos? Perto de quem comia arroz puro para poder se manter numa boa escola? Que precisava escrever em papel de embrulho quando os cadernos acabavam? Somos ricos, perto da vida de merda que tínhamos! Mas você ainda não superou seus sacrifícios! Ainda vive zangado como se dirigisse um caminhão pelas Cristas dos Himalaias!
Raditz baixou a cabeça. Queria achar o irmão ingrato, mas não conseguia porque via a verdade em cada palavra que ele dizia. Então o encarou e disse:
– Sinto muito se desapontei, mas acho que é tarde para voltar atrás... vou dormir, boa noite.
Ele virou as costas e Kakarotto disse:
– Eu não acabei.
Raditz virou-se, alertado pelo tom de voz áspero do irmão, que disse, num tom de voz calmo:
– Depois do jantar, nos separamos, Yamcha, em seu carro, trouxe maan e Bulma. Eles vieram direto, pela Singh Road, mas eu e Chichi fizemos o desvio para Chowpatti... sabe onde passamos? Na porta do Taj Wellington, bhaee... e vimos você e Tights entrando às nove e meia no hotel – ele deu um sorriso irônico – eu sei porque tomou banho... pensou que mamãe poderia estar insone, não? É melhor chegar em casa com cabelo molhado do que cheirando a sexo, não é mesmo?
Ele colocou o pote vazio na lava louça então, virando as costas ao irmão, que murmurou:
– Bhaee... não foi assim...
– Imagino que seja segredo – disse o irmão, ao passar por ele – mas não se preocupe. Eu e Chichi sabemos o estrago que um segredo revelado pode trazer, e você não precisa se preocupar conosco – ele riu – irônico... eu tomei um banho na casa de Chichi pelo mesmo motivo que você, mas parece que maan, mesmo nervosa, acabou indo deitar cedo. Eu entendo... um dia tendo que aturar aquela mulher nojenta deve ser muito cansativo... imagine agora, a pobre da Bulma, que a aturará todos os dias. Parece que temos sorte. Homens não precisam aturar certas coisas, não é mesmo? Principalmente aqueles para quem as regras não se aplicam.
Ele saiu para sua suíte e Raditz ficou para trás, olhando para o chão e pensando em tudo que acontecera naquele dia. Então, dando um suspiro, foi para seu próprio quarto, pensando apenas em esquecer aquele dia.
Notas:
1. Fogo no parquinho! Depois de uma noite quente, um balde de água fria? Pois é, senhor Raditz, foi brincar com fogo e saiu queimado. Tights é mais cautelosa que ele e pensa demais nas consequências. Será que essa história tem futuro ou teremos um certo grandalhão de coração partido?
2. Sabe aquela história da pessoa que acha que tá fazendo alguma coisa fora do script e NINGUÉM tá vendo, mas a pessoa certa tá lá no lugar certo e na hora certa pra ver tudo? Pois é, esse cara foi o Goku, e acho que ele disse pro Raditz tudo que todo mundo gostaria que ele soubesse, né?
3. Resta saber se isso vai salvar ou não a Bulma de casar com o Yamcha...
4. "Zoobi Doobi" e "Give me some sunshine" são músicas do filme "3 idiots" do qual eu já falei anteriormente. A trilha sonora desse filme fez um tremendo sucesso na Índia e esse foi um dos poucos de Bollywood que chegou a ter um lançamento no Brasil, em parte por causa da popularidade do filma anterior de Khan, "Como estrelas na Terra" (Taare zameen par), ainda que num pequeno e restrito circuito.
5. Faltam 9 capítulos para o fim de "Era uma vez em Bollywood".
