Capítulo 52 – Mother India (Mãe Índia)
O quarto na penumbra das cinco da manhã estava silencioso até que um chorinho manhoso e macio de bebê soou no berço que ficava logo ao lado da cama, costume comum na Índia para crianças de até um ano. Lunch despertou e fez menção de levantar-se, mas Tenshin a Impediu dizendo, suavemente:
– Deixa comigo...
O pai levantou-se, esfregando os olhos e sorriu para a pequena no berço. Chayla mirou seus grandes olhos verdes como o da mãe nele e deu um resmunguinho, como se esperasse algo diferente. Ele sorriu e a pegou no colo, dizendo:
– Bom dia, princesinha dos olhos de esmeralda! É fome que te aflige?
Lunch já havia sentado recostada na cabeceira da cama e passado uma gaze úmida para higienizar os mamilos para amamentar a neném e sorriu para a cena. Tenshin trouxe a pequena até ela e em questão de segundos, ela estava agarrada a um dos seios da mãe, mamando vorazmente.
– Nossa, que fome! – disse Lunch, rindo. Chayla nascera com a pele morena e rosada, e agora tinha uma penugem de cabelos escuros cobrindo a cabecinha que nascera tão careca. Os olhinhos, verdes como os da mãe, às vezes passeavam pelo quarto, enquanto ela apertava com a mão minúscula o outro seio da mãe, que logo a trocou, de posição. O pai preparou então o pequeno kit de troca de fralda sobre a cama e ficou olhando para as duas enternecido. E quando a pequena Chayla tinha os olhos quase fechados de sono e a barriga cheia, Lunch a passou para ele, que a fez arrotar e a deitou na cama sobre o trocador, conversando com ela em voz baixa, o que a fazia ficar quietinha:
– Onde está a coisinha miúda do papai? A princesa de olhos esmeralda, onde está?
Lunch terminou de se ajeitar e os dois terminaram a troca de fraldas juntos, com todo cuidado, para não agitar a bebezinha sonolenta. Um instante depois, ela estava totalmente vestida e Lunch a deitou no berço, onde ela adormeceu quase imediatamente. Lunch deu um suspiro e disse:
– Hum... nunca mais vamos acordar tarde, mesmo no primeiro dia do Diwali?
Tenshin riu e a puxou para a cama, dizendo suavemente:
– Durma mais um pouco. Hoje é Karva Chauth. Não quer acordar cedo num dia em que se compromete a jejuar até o anoitecer, quer?
Ela se aninhou a ele e disse:
– Mas você jejua comigo. Não é tão ruim assim...
– Porque eu te amo, não deixaria minha metade passar fome sozinha.
– Um dia iremos à America e eu vou te encher de junkie food para compensar isso. Mas sem carne de boi, é claro. Podemos procurar nos encher de asinhas de frango com molho picante, mas acho que você vai dizer que não arde nada, que é doce como a masala de Marahastra.
Ele riu. Era a oitava vez que eles jejuavam juntos no Karva Chauth, e o faziam sozinhos, porque aquele não era um hábito ali em Mumbai. De repente, ele perguntou:
– Você imaginava, naquele dia em que fomos juntos ao Ganesha Chartuti que ia acabar assim, casada comigo?
– Para ser sincera, não. – ela o olhou, com os grandes olhos verdes brilhando na penumbra do quase amanhecer e disse – achava que ia ser divertido te seduzir, estava subindo pelas paredes depois de dois anos sem sexo, imersa naquele mundo adolescente da Chichi, mas ainda descrente do amor, por causa das minhas decepções do passado... mas foi você quem me conquistou. E que bom que eu fui lá contigo, e me apaixonei... me converti. Virei indiana por sua causa, Tenshin. E não me arrependo nem um pouco. – ela se debruçou sobre ele e o beijou de leve. – será que a gente vai sentir muita fome se fizer amor agora?
Ele riu e disse baixinho:
– Com cuidado para não fazer barulho e nem acordar a Chayla... podemos pagar para ver – ele disse e beijou-a novamente com carinho.
Mais ou menos uma hora depois, em Chowpatti, uma professora encerrava a sua aula de yoga para gestantes e maridos com Chichi e Goku:
– Goku! – Chichi reclamou quando ele, aproveitando o comando da professora de yoga dela para saírem da postura de casal que estavam, apertou ligeiramente um de seus seios, de brincadeira.
– Desculpa, Chi... é que tá tão fofinho...
A professora ruborizou e disse:
– Bom, então é isso. Vejo vocês depois do feriado. Você está indo muto bem, Chichi! Vai chegar no parto com o assoalho pélvico bem reforçado! E espero que esteja gostando também, senhor Goku.
– Ah, é ótimo! – ele disse, abraçando Chichi – é bom fazer alguma coisa com ela.
A professora saiu da sala de dança que Chichi tinha no apartamento e ele disse:
– Tudo isso só por causa de um pafu pafu?
– O quê? – Disse Chichi, intrigada.
– Isso! – ele disse, pegando em cada um dos seios com uma mão e apertando um de cada vez, dizendo – pafu... pafu!
– Ah, Goku! – ela disse, o empurrando – Não sei de onde tirei que seria uma boa ideia fazer essa aula de yoga contigo para me ajudar! – ele a puxou de volta e disse – relaxa! – ele a beijou de leve – é que eu chego da minha corrida pela praia ligadão, cheio de adrenalina, endorfina... aí fico nessa de acalmar, alongar... te pegar – ele a abraçou e beijou de leve a sua orelha – ah, Chi... que vontade de te levar de novo pra cama!
– Não podemos! – ela riu – eu estou terminando o mestrado que eu larguei há dois anos, lembra? Já que eu não posso ter minhas aulas de dança e não vou mais filmar até o meio do próximo ano...
– Eu sei... se eu não tivesse que treinar igual um maluco eu ia ficar chateado... estamos com nosso quarto reformado há um mês e não atualizamos tanto assim nossa contagem do kamasutra... – ele disse, beijando atrás da orelha dela de forma insinuante e então, a largando de repente, coçando a cabeça – mas hoje é o primeiro dia do Diwali e eu preciso treinar assim mesmo, porque a luta é amanhã... e hoje temos a grande estreia!
Ele a abraçou novamente por trás e ficou olhando para ela. A barriguinha redonda começava a aparecer, discretamente. Os seios estavam maiores, mais roliços e ele disse:
– Como está linda e radiante minha querida princesa Shanti!
– É porque estou com a luz do nosso pequeno Krishna no meu ventre...
– Antes minha mãe chamava assim. E agora? Tem outro pequeno Krishna na sua barriga!
– Que tal Arjuna? Ele é o discípulo mais fiel de Krishna!
– Muito azarado. Podia ser Hannuman, se o intragável do Broly já não tivesse roubado esse Deus para si mesmo...
– Então, seja meu Lorde Rama! – ela riu, segurando as mãos que envolviam sua cintura. Me proteja do malvado Ravanna!
– Hum... eu gosto de Rama, mas preferia ser o seu Lorde Shiva e ter minha Parvati dançando para mim...
– Hum... não sei... isso significa que nosso filho vai ter a cabeça de um elefante e eu não sei se isso vai ser bom na hora do parto!
– Ei! Eu gosto de Lorde Ganesha! – ele riu – mas ele não nasceu assim... de qualquer forma, serei quem você quiser que eu seja, Rama, Shiva, Krishna... contanto que eu te leve sempre para a cama, minha flor de lótus... mas agora eu preciso ir mesmo, ou vou desistir de treinar e estragar seus estudos – ele a largou e deu dois passos na direção da saída.
– Você tem que estar aqui às duas! Nosso vôo para Déli é as três e meia. O Vegeta reclama horrores quando a gente se atrasa por sua causa.
– Ele que compre um avião se quiser reclamar, está indo de carona com a gente, o folgado! – disse Goku, mostrando a língua para ela – eu vou treinar na academia que é praticamente aqui do lado. Os mestres já estão me passando mensagem, dizendo que eu não me atrase. Volto para o almoço, não se preocupe. Vou assim mesmo – disse ele, ajeitando o moleton que usava para fazer yoga, meio surrado – levo a sunga na bolsa e jogo uma camisa por cima.
Chichi ficou olhando Goku deixando a sala de dança descalço, com seu andar despreocupado. Passou então a mão na barriguinha de quase três meses de gravidez e disse:
– Papai vai lutar amanhã... espero que não nos dê nenhum susto, viu?
Ela deu um suspiro. As lutas ainda a assustavam, mas sem elas, ele não seria o seu Goku.
Vegeta abriu a porta do banheiro da suíte e deu um sorriso torto. Ela gostava dessas provocações, ele sabia. Tinha acordado muito cedo e corrido toda a extensão da praia de Juhu, como fazia quase todos os dias. Às vezes ele a encontrava ainda adormecida. Mas hoje, sua Bulma estava dentro do chuveiro, lavando os cabelos azuis, de olhos fechados. A espuma descia pelas costas delgadas e ele sabia que aquilo era um convite. Não disse nada, apenas tirou a roupa e entrou no chuveiro, ficando atrás dela, que riu ao senti-lo ali.
– Resolveu lavar os cabelos cedo – ele disse, já encostando seu corpo no dela.
– Ah... você sabe... vamos para Déli hoje, tenho que estar com eles lavados e secos porque assim que chegarmos lá, começamos a produção e tudo... é tão bom ter meu próprio maquiador...
– Agradeça ao Tarble – ele disse, sentindo o alívio da água morna sobre si – o sujeito é amigo dele... mas chega de falar disso e me passa aí o sabonete...
– Eu achei – disse ela pegando a barra de sabonete natural com perfume de sândalo e citrus, o favorito dele, e molhando no chuveiro – que você preferisse que eu ensaboasse você...
– Foi o que eu quis dizer – ele murmurou de forma insinuante e ela se virou para ele, dizendo:
– Eu acho melhor começar pelas costas...
Ele se virou com um sorriso torto. Depois da timidez inicial, Bulma e ele haviam descoberto que eram natural e igualmente provocadores, e isso havia se tornado a tônica do relacionamento sexual deles. Bulma começou a ensaboá-lo lentamente, as mãos espalhando a espuma pelas costas dele dos ombros até o meio das costas, passando suavemente pela sua coluna, fazendo ele fechar os olhos enquanto o arrepio de tesão que as mãos macias provocavam nele. Ela então de abaixou um pouco e começou a ensaboar as pernas dele, pulando de propósito a bunda, que apertou com vontade depois que suas mãos já tinham subido pelas coxas musculosas dele, o enlouquecendo:
– Ei! – Ele disse – é para ensaboar. Não é pra ficar apertando, sua mulher vulgar e abusada.
– Ah... sua bunda fica tão redondinha e gostosa quando você chega dessas corridas na areia fofa... dá vontade de morder...
– Não se atreva! – resmungou ele, rindo, no entanto.
– Já que eu estou aqui, Vegeta, vira logo de frente para eu te ensaboar a frente...
Ele se virou e ela fingiu não perceber a ereção, Ajoelhada, ela começou a ensaboar as pernas dele, subindo pela coxa. Ele de repente não resistiu, quando as mãos dela começaram a ensaboar seus testículos de forma provocante, e, segurando os cabelos dela, a fez olhar para cima, dizendo:
– Para com isso e me chupa antes que eu fique louco.
Ela deu um sorriso malicioso para ele e o abocanhou, provocando nele um rugido gutural e profundo. Como ela aprendera rápido aquilo. Com a boca, Bulma o provocava, a língua passando pela glande exposta antes de abocanhar toda a extensão dele, indo e voltando enquanto as mãos não abandonavam a massagem anterior. O sabonete tinha sido largado de lado e agora jazia solitário num canto do box. De repente, Vegeta a fez parar e a puxou para cima, colocando-a de frente para a parede e de costas para ele, debaixo do chuveiro.
As mãos dele envolveram seus seios enquanto ela gemia de prazer sentindo a encoxada dele, a dureza contra as suas nádegas, quente, viva, fazendo com que ela percebesse a umidade quente no nicho entre as pernas que pedia por ele. Vegeta se esfregava nela e beijava seu pescoço, a água quente escorrendo por eles e deixando tudo mais sensual, dano a ele mais vontade dela. As mãos dele desceram pela sua cintura até o meio das pernas dela, e ele a tocou ali, provocando, fazendo com que ela pedisse:
– Para com isso e me fode logo, Vegeta...
– Você é uma mulher vulgar e fala palavras chulas, sabia? – ele riu, junto ao ouvido dela – e sabe o que é pior?
– O quê?
– Eu adoro isso... – ele levantou um pouco a coxa dela e, por trás, a fez empinar a bunda, encaixando-se na entrada dela, sem abandonar a massagem que fazia em seu clitóris com a mão direita. Ele então meteu nela sem piedade, com força, e ela gemeu de prazer ao senti-lo inteiro dentro dela. Bulma empinou-se mais, segurando-se nas torneiras do chuveiro para ter equilíbrio enquanto ele continuava a estoca-la, grunhindo de prazer, a mão ajudando a manter o ritmo e fazendo Bulma sentir aquela onda quente que subia por ela, totalmente possuída pelo seu homem, seu Shiva, seu Krishna, seu amante de todas as vidas. Ela gemeu quando o orgasmo dela começou, e ele acelerou seu ritmo nas duas frentes, fazendo o prazer se intensificar para ela, que gemeu ainda mais alto, levando-o também a um orgasmo forte, de tirar o fôlego que ele celebrou com um abraço nela e um grito de prazer.
Eles então ficaram ali, em silêncio, abraçados até que ele saiu de dentro dela respirando forte e a virou para um beijo molhado. Estavam ofegantes e satisfeitos quando terminaram o banho e voltaram para a cama por um tempo. A princípio, ficaram apenas ali, nus e abraçados, até que ela disse:
– Não passei condicionador! Meu cabelo vai ficar um lixo... – ela fez menção de se levantar e ele disse, quando a agarrou:
– Fique mais um pouco... depois você toma outro banho...
Ele a beijou e logo ela estava por cima, cavalgando-o como uma deusa, as mãos dele apertando seus seios, enquanto ela rebolava para aumentar o contato entre as zonas de prazer. Por todos os deuses, eles pensavam, como eram perfeitos juntos, como haviam se descoberto em tão pouco tempo, logo, Bulma gemia conforme gozava, e ele se juntava a ela, feliz por ter ali a mulher da sua vida, sua shakti, sua força, como era a esposa de Shiva em todas as suas encarnações.
Ela desabou sobre ele de repente, quando o aperto dele nos quadris dela indicou que ele terminara de gozar também. Ficaram ali, suados e ofegantes mas sentindo aquela felicidade inexplicável e tão plena. De repente, ele disse:
– Estou morto de fome...
– Eu não vou tomar café enquanto não terminar meu banho... – ela disse, manhosa, esfregando o rosto no dele como uma gatinha.
– Eu estou suado também. Vamos terminar logo isso porque eu preciso comer uma refeição decente... – ele a tirou de cima de si, a arrastando para o banheiro. Ela dava risadinhas e ele disse – e dessa vez eu me ensaboo ou a gente não vai terminar isso nunca.
O telefone tocou na cabeceira de Gine e ela abriu os olhos, sonolenta. Tinha adiantado todos os compromissos da doceria para não precisar por os pés nem na fábrica nem em nenhuma das lojas – Raditz negociara e agora eram uma próspera franquia, faturando muito bem – porque tudo que ela queria era ter paz naquele Diwali. Um feriado como ela nunca tivera, para descansar de verdade. Para torcer pela vitória do filho e pelo sucesso da sua família. Pegou o celular e sorriu. Ligação de vídeo de Raaja. Ela adorava esses mimos dele pela manhã.
– Bom dia, minha Pakeezah.
– Bom dia, mere Rajah... – ela sorriu para ele e disse – como você gosta de me ver amarrotada e sem maquiagem...
– Prefiro te ver assim ao vivo... mas só depois do último dia do Diwali.
– Você acha que os meninos vão levar um susto? Quer dizer... casar assim, em Déli, sem avisar a eles...
– Você contou para seu filho mais velho.
– Eu devo isso a Raditz... tadinho, vou deixa-lo aqui, sozinho nesse apartamento enorme...
– Vai ser bom para ele. Se ele quisesse, poderia morar conosco, aqui temos 3 quartos vazios, inclusive o que foi do Vegeta. E ontem eu acabei tendo que contar ao Tarble, porque nossas roupas chegaram quando ele estava em casa e ele não parava de perguntar...
Ela riu gostosamente e disse:
– Eles vão se acostumar... já aceitam a ideia de que nós dois estamos juntos...
– Não fizemos um Chunni...
– Você sabe por quê... já é uma sorte que eu possa ter achado um celebrante que tenha aceitado que eu participasse dos ritos de casamento do meu próprio filho... mesmo que a princípio o casamento fosse da minha filha – ela riu – e a gente tenha achado um sacerdote para nos casar em Déli...
– Sim, ainda que ele pareça ligeiramente maluco... foi uma indicação de um amigo de lá. Vai dar tudo certo, e no próximo Diwali faremos uma festa muito, muito emocionante!
– Om shanti – ela disse.
– Preciso desligar. – ele disse – preparar as coisas da viagem.
– Tudo meu está pronto – ela disse, se espreguiçando – vou ficar na cama mais um tempo.
– Isso é terrível para a minha imaginação – ele disse e ela riu.
– Não posso fazer nada.
Eles desligaram e Gine suspirou. Por um instante, pensou em toda sua vida. Tinha sido difícil perder Bardock... e ela, no fundo do seu coração, ainda o amava, e aquilo era um baque em todas as suas crenças: achava que seria impossível amar dois homens ao mesmo tempo, mas, pelos Deuses, ela amava Bardock e Raaja. E sabia que Raaja amava a ela e Kyra. Queria, sim, ter passado a vida toda ao lado do seu Bardock, mas ele fora tirado dela muito cedo e ela não queria passar a velhice sozinha, embora sentisse falta do seu primeiro amor por todos os dias de sua existência. Mas seria um amor, talvez, para outra encarnação, quando ela voltasse junto dele e Raaja voltasse para sua Kyra ou ainda, ela poderia encontrar Raaja primeiro, e o destino levar Bardock até Kyra... quem sabia quais seriam os desígnios dos Deuses?
No seu escritório, Raditz lia seus e-mails, porque acordara cedo demais e não se acostumava muito a não fazer nada nos feriados. Ele tinha se acostumado a ser assim: absorvido pelo trabalho, pelas finanças da família, por tudo que movimentava sua cabeça. Abriu o site de investimentos: tudo ia bem. A fortuna da família crescia. Ele remunerava Kakarotto e Bulma com a parte deles nos lucros, mas aplicava a maior parte do que a família ganhava para que eles tivessem um futuro cada vez mais confortável, administrava tudo para todos, no seu papel de filho mais velho e pilar da família. Mas ele tinha um grande porão onde ele ia guardando os próprios sentimentos dentro de sua alma. Podia esconder aquilo de todos, mas não de si mesmo.
Abril pela enésima vez um e-mail que recebera de Bulma. Era uma mensagem encaminhada com pedido de reunião feito por Tights, para meados de dezembro, para falar com a irmã sobre a fábrica das cápsulas hoi-poi, feitas a partir dos projetos do pai biológico das duas, cujos protótipos funcionais tinham sido um sucesso. O plano era começar a produzir no ano seguinte, mas elas precisavam de investimentos que seriam captadoz por Tights e ela queria a irmã por lá para participar do trato sobre a repartição dos lucros, dizendo que aquilo poderia tornar as duas riquíssimas.
Mas Bulma, que estaria gravando por todo mês de dezembro, pediu ao irmão que a representasse na reunião, porque seria um mês decisivo de gravações para ela, que já estava contratada para um filme novo com Vegeta, algo bem diferente do filme anterior: "Gangsta", a história de um gangster que se apaixonava pela policial que o perseguia e acabava correspondido. Como Tights queria começar a construção da fábrica em janeiro, Bulma pedia que o irmão comparecesse à reunião por ela, através de procuração, porque ele era a única pessoa em que ela confiava para isso.
Raditz continuou olhando para o e-mail mandado por Tights que Bulma encaminhara. Nele ela avisava que não poderia comparecer ao lançamento do filme estrelado por Chichi em Nova Déli por conta de muitos compromissos naqueles dias, e pedia confirmação da reunião em dezembro. Ele fechou o e-mail como fizera todas as vezes que o abrira, desde a véspera, indeciso demais para dar uma resposta. Por um lado, se ele não fosse, complicava a vida de Bulma. Mas se fosse, ele seria obrigado a lidar com sentimentos que ele tentava, sem sucesso, reprimir desde o dia que a conhecera.
Ele fechou o programa de e-mail e abriu o Facebook. Ele era um usuário tardio da rede social, ao contrário dos irmãos. Quando rodava pelas estradas, ele costumava dizer que caminhoneiros não tinham tempo para o Facebook, mas quando começara a saga do irmão no reality show da SFL ele tinha se obrigado a aderir. Por um bom tempo, tivera apenas a família, mas quando se tornara empresário dos irmãos, seu círculo foi gradativamente aumentando, e agora tinha empresários, lutadores e até atores relativamente famosos, a maioria seus clientes.
Então, um dia, chegara o convite de amizade de Tights. Ele levou um susto, mas aceitou. E, desde então, pelo celular ou pelo computador, ele eventualmente via as publicações dela. Às vezes, por curiosidade, ele entrava no perfil dela. Continuava assinalada como solteira. Havia muitas publicações dela falando sobre aquecimento global, necessidade de se mudar políticas públicas para os pobres – o que o fazia rir, afinal, ela era muito rica – e outras coisas que ele até achava interessante. A última publicação era ela com duas garotas brindando com canecas enormes de cerveja dizendo: "Noite no pub. Estava cheio de gatinhos!"
Ele fechou o Facebook e o computador, irritado. Não conseguia lidar com aquele ciúme.
A viagem para Déli foi alegre e tranquila. No avião como convidados, e não como profissionais, Tenshin e Lunch cuidavam da pequena Chayla. Na mesma fileira, lendo um livro muito quieto, ia Raditz. Sentados todos próximos, Goku, Chichi, Bulma e Vegeta conversavam. No banco de trás, Tarble tagarelava ao lado do amigo que indicara para maquiar Bulma e que estava cobrindo a licença de Lunch, que terminaria em cerca de um mês, mas que seria prolongada porque Chichi só voltaria a atuar no ano seguinte, dois meses após o nascimento do bebê. O amigo, Monaka, era um sujeito tímido e calado. Se Tarble não dissesse, ninguém saberia que ele era gay, tão discreto que era.
E lá atrás, observando tudo, de mãos dadas, iam o patriarca e a matriarca daquela enorme família formada por um intrincado arranjo familiar de dois casamentos, uma adoção e uma filha que não poderia jamais ser oficialmente reconhecida, mas era muito amada. Aproveitando a distração de todos, Gine apoiou a cabeça no ombro de Raaja e suspirou. Tudo caminhava para ficar bem. Então olhou para Raditz, tão quieto no seu canto e se sentiu um tantinho triste. Mas ela achava que o filho ficaria bem. Estava atuando para isso, pensou, sorrindo enigmaticamente.
A noite chegou logo, tão ocupados que estavam todos se preparando para o evento. "Anarkali" teve sua pré-estreia de luxo num dos principais cinemas de Nova Deli, o Narayana Ner Fir, assim como sessões de gala em Mumbai, Calcutá, Agra, Jaipur e outras cidades da Índia. Goku e Chichi tiveram toda atenção da mídia presente, assim como Vegeta e Bulma haviam tido na estreia de "Shakti" em Dubai.
O filme começava exatamente onde terminava Shakti, e depois mostrava Anarkali treinando sozinha, correndo na chuva, numa das primeiras cenas gravadas, ainda durante o período da monção. Depois, ela aparecia treinando com o professor de Shakti, que durante todo o filme tinha uma atitude machista com ela. Anarkali ainda sofria na mão do namorado, que o tempo todo a tentava fazer desistir das lutas. Só seu irmão e a cunhada, vividos por Vegeta e Bulma, eram uma presença constante apoiando-a na tela o tempo todo.
Mas nenhuma cena era mais dolorosa do que a dela tendo a bolsa de estudos negada pelo reitor da Universidade, dizendo que não queriam mulheres envolvidas com lutas ali. A cena seguinte mostrava Anarkali lutando numa arena de luta de rua, e Goku disse que era muito mais arrumadinha que as do circuito de Vadala. Na falta de uma adversária, ela começava lutando com um sujeito gordo e dava uma surra nele. Depois, havia uma sequência de lutas dela, sempre com homens, sempre os mais fracos, porque os demais pareciam achar desprezível lutar com uma mulher.
O ponto de virada do filme vinha quando Sanjay Dutt em pessoa fazia a participação especial como ele mesmo, a convidando para a SFL no final de uma luta. Goku comentou com ela que tinha sido mais ou menos daquele jeito que ele chegara à SFL. Logo depois, Anarkali era abandonada pelo namorado e aparecia chorando no furgão que a levava até um centro de treinamento bem maior do que o oficial da SFL, como Goku comentou com ela aos sussurros. Seguia-se a luta interna entre a insegurança de Anarkali e sua vontade de lutar. E aí, entrava o personagem de Goku, Tyger.
Goku não percebera, quando haviam filmado, como ele era importante para a trama. Tyger era o único homem, além de Shakti, que a incentivava, mesmo em curtas participações. A cena dos dois treinando juntos, ele então percebeu e sorriu para ela, era de uma extrema química e sensualidade. Então, aparecia a cena dos dois dançando, que acontecia na imaginação de Anarkali. A parte final do filme mostrava a luta decisiva e a vitória dela contra uma lutadora chinesa, antecipando o plano da SFL de ter lutadores de fora da Índia. Uma coisa que nunca acontecia nas lutas reais ocorria no filme: o hino indiano era tocado no fim, e a plateia, quando Anarkali pôs a mão sobre o peito na tela e começou a cantar, levantou-se a cantou junto:
Tu és o governante das mentes de todas as pessoas,
Distribuidor do destino da Índia.
O nome desperta os corações de Punjab, Sind, Gujarat e Maratha,
Dos Dravid e Orissa e Bengala;
Ele ecoa nas colinas dos Vindhyas e Himalaia,
Mistura-se na música dos Yamuna e Ganga
E é cantado pelas ondas do mar da Índia.
Eles oram por tuas bênçãos e cantam teus louvores.
A salvação de todas as pessoas está na tua mão,
Tu dispensador do destino da Índia.
Vitória, vitória, vitória para ti!
Era a mãe Índia, evocada para tornar aquele filme, de mensagem tão feminista, atraente para a plateia masculina, que se encantou e, todos podiam perceber, se apaixonou e torceu pela felicidade de Anarkali e Tyger na tela, e aplaudiu o casal andando de mãos dadas na última cena antes dos créditos, que subiam enquanto a música "Pyaar kee jeet" (Vitória do amor), era dançada por Goku, Chichi, Bulma e Vegeta, num final parecido com o de Shakti.
Na saída do cinema, os repórteres surpreenderam Goku perguntando se ele não achava que tinha chance de ser indicado ao Filmfare como ator revelação. Ele estranhou a pergunta, mas Chichi disse que ele, mesmo não se dando conta, tinha sido espetacular na tela. Ele riu.
Os dois não ficaram muito tempo na festa da SFL, afinal, o dia seguinte, o segundo do Diwali, seria decisivo para Goku, que lutaria com um desafiante: o vencedor da terceira temporada do SFL Fight Show, que acabara de passar um mês e meio antes, um sujeito chamado Lavender, que Goku achou meio magro para um peso pesado, mas ele tinha porte e era alto.
A surpresa da noite, no entanto, era a luta dos pesos leves. O antigo companheiro de quarto de Goku, Kuririn, teve uma reentrada triunfal na liga. Depois de não se qualificar na primeira temporada, ele tivera muitas lutas nos eventos menores da SFL, vencendo sempre, e se qualificara para vencer o invicto Frost, que o humilhara quando eles eram todos iniciantes. Ele venceu sua luta e conquistou o cinturão deixando Goku muito feliz.
Mas era o seu momento de lutar e defender o cinturão, porém, a luta foi um anticlímax. Lavender não era páreo para ele, não foi uma luta emocionante como quando desafiara Hitto, Broly ou Jiren. Em três movimentos, Goku acabou com a luta e venceu, mantendo o cinturão. E quando terminou, a única coisa que o fez sentir-se bem foi ver Chichi e Gine na plateia, ambas aliviadas. Ele estava 10 crore mais rico, e isso o fez apontar para o irmão e piscar um olho, fazendo Raditz rir.
A festa, no hotel onde estavam hospedados, foi melhor que a da véspera, e ele e Chichi dançaram dentro do possível, com ela se cuidando para não fazer movimentos que prejudicassem o bebê. Ele viu que Kuririn estava conversando com a ex-lutadora Lazuli, que agora comentava lutas femininas da SFL no pay per view.
Lunch e Tenshin, que haviam deixado Chayla com a babá que Goku e Chichi haviam pago para que os amigos curtissem a festa, estavam dançando quando Lunch precisou sair para atender uma ligação da babá, dizendo que a bebê precisava mamar. Ela subiu rapidamente e deixou Tenshin, meio deslocado, na festa. A garota que fazia a lutadora chinesa que perdia para Anarkali se aproximou dele, tentando entabular um assunto e ele ficou olhando para ela com estranhamento. O nome da garota era Yurin Ching, e ela tinha 22 anos e, mesmo chinesa, falava Hindi muito bem.
De repente, Lunch voltou e encarou a garota, que se sentiu intimidada e sem graça e saiu de fininho. Tenshin riu e voltou a dançar com ela, que disse:
– Agora só me falta uma abusada que nem essa dar em cima de você...
– Ela estava fazendo isso? Nem percebi, só queria que você voltasse.
– Hahahah. Engraçadinho.
Todos estavam alegres quando Raaja pediu a palavra, conforme combinara com Sanjay Dutt e disse:
– Hoje é o dia mais importante do Diwali, quando acendemos as luzes em honra de lorde Rama, que expulsou o mal do demônio Ravanna, e é isso que faremos agora... Todos vocês receberam lanternas e eu gostaria de pedir que iluminassem nosso salão com as luzes de Rama, avatar do poderoso Vishnu, que em nome de sua amada Sita, fez o impossível.
Por todo salão, agora escurecido, acenderam-se pequenas lanternas de barro cheias de óleo de sândalo com pequenos pavios, que todos levaram a um grande tanque artificial no centro do salão, onde todas ficaram boiando e tremulando em um belo espetáculo de luzes. Casais casados fizeram o ritual do espelho, com molduras vazias e se olhando nos olhos, perguntando:
– Sou o seu Rama, minha Sita? Sou o espelho onde você se reflete?
– És meu Rama e eu sou sua Sita, meu amado e meu espelho.
Para Chichi e Goku e Vegeta e Bulma, aquele ritual tinha um significado especial. Era seu primeiro Diwali, e eles sonhavam que fosse o primeiro de muitos. Foi quando a voz de Raaja soou novamente e ele disse:
– Daqui a um ano, eu estarei perguntando, como todos vocês, se sou o espelho onde se reflete a minha amada... porque anuncio e convido a todos para minha festa de casamento no dia de amanhã, no templo de Shiva e Parvati, aqui mesmo em Déli, onde eu vou me casar com minha amada, a mulher que deu novo sentido à minha vida... Gine Sayajin.
De onde estavam, Chichi, Goku, Vegeta e Bulma ficaram todos boquiabertos, em espanto. Tarble riu gostosamente e Raditz deu um sorriso torto, como era de seu feitio desde criança quando sabia de algo que seus dois irmãos não sabiam. No palco, Raaja estendeu a mão para que Gine subisse e disse:
– E essa, senhores, é a grande surpresa que eu pude fazer para nossas famílias, que a partir de amanhã, tornam-se uma única grande família. Unida e indivisível como nossa grande Mãe Índia!
Notas:
1. Nesse capítulo eu quis mostrar todos os casais que já estavam felizes, destacando Vegeta e Bulma, que mereciam mais um hentai para agradar seus fãs indóceis. Mas quis começar com meu casal xodó, Tenhsin e Lunch, porque eles são sempre meu casal favorito. One true pair, como se diz em inglês.
2. Raditz e Tights estão separados por meio mundo. Mas será que o destino ainda os pode juntar? Quais são as suas apostas?
3. Casamento surpresa! Raaja quer oficializar sua relação com a nossa linda mãe Índia. Muitas emoções no próximo capítulo! Prometo!
4. Sobre o Diwali, ou DeepVali ou ainda Divali: eu tentei mostrar muitas festas indianas, mas muitas ficaram de fora, porém, essa, a celebração da luz, um feriado de 4 dias onde se celebra a derrota do demônio da escuridão, Ravanna, pelo guerreiro da luz, Lorde Rama, não podia jamais faltar. Uma festa enormemente celebrada por toda Índia, Sri Lanka e Bangladesh, países da maioria hindu, que tem ritos que variam de lugar para lugar, como o Karva Chault, já mencionado e o ritual de deitar na água as lanternas como, segundo o descrito no Marabahata, Sita fez para iluminar o caminho para Rama derrotar Ravanna. Ao contrário do Holi, que tem ritos mais diurnos, o Diwali é mais noturno, e em Nova Déli e Mumbai, especificamente, esses ritos são celebrados com queimas de fogos também.
5. Mother India, na opinião desta que vos escreve, é o maior clássico da história do cinema de Bollywood, uma história dramática e intensa magistralmente filmada por Meheboob Khan (1907-1964), em reação ao polêmico (e reacionário) livro de mesmo nome, um ensaio teórico onde uma jornalista estadunidense, Katherine Mayo, defende a continuidade da colonização inglesa tratando toda cultura indiana como inferior, o que influenciou a percepção negativa da Índia pré-independência ao redor do mundo. O cineasta Mehboob Khan então teve a ideia de uma história crua e realista onde uma mãe indiana passa por toda sorte de privações e desgraças, mas segue de pé, exaltando a força da mulher indiana. O filme começa com um casamento, o dos personagens Radha (Nargis Dutt) e Shamu (Raaj Kumar), dois jovens esperançosos que têm seus sonhos dilapidados justamente por conta do empréstimo contraído pela família dele para custear a festa do casamento. Ao longo dos anos, por serem iletrados e não entenderem o valor da moeda corrente, os dois seguem pagando juros ao agiota Sukhilala os engana, escraviza e obriga a honrar juros cada vez maiores, o que resulta numa tragédia que deixa Radha sozinha com 4 filhos. A cena de Radha sozinha arando a terra com um arado pesado enquanto os filhos a aguardam na sombra de uma árvore está listada entre as 100 cenas dramáticas mais emblemáticas do século XX elaborada pela revista Cahiers du Cinèma no ano de 2001 e resultou num dos cartazes mais bonitos da história do cinema. Em 1957 foi exibido e ovacionado no festival de Cannes, onde passou fora de competição oficial, e perdeu por um único voto o Oscar de melhor filme estrangeiro para "Noites de Cabíria", de Frederico Felinni.
6. Mother Índia tem ainda uma curiosa história de bastidores que ajudou a inspirar a fanfic que vocês estão lendo. Nargis e Sunill Dutt tinham ambos 23 anos e se conheceram durante as filmagens onde interpretavam mãe e filho (o filme atravessa 60 anos de história). Durante uma cena de incêndio, Nargis acabou encurralada pelo fogo e, segundo relatos, Sunil a salvou das chamas, a custa de algumas queimaduras de primeiro e segundo graus nos braços. A gratidão dela os aproximou e fez com que eles se casassem durante as filmagens, o que teve de ser escondido durante seis anos, até o nascimento do primeiro filho dos dois, Sanjay Dutt, que é o mesmo ator citado aqui na história como fundador da SFL.
