Mu estava radiante!

Já no bairro onde morava, em Manhattan, cantarolava animado uma música qualquer que tocava em seus fones de ouvido enquanto caminhava pelos poucos quarteirões que faltavam para chegar ao prédio onde ficava seu apartamento.

Subia distraído o primeiro lance de escadas até o primeiro andar, o seu, quando acessou o hall e nada surpreso avistou Afrodite sentado à porta de sua casa. Mu sorriu para ele assim que o viu ali.

— Até que enfim! — disse o sueco se levantando. Trazia nas mãos um fardo de cervejas belgas das que Mu gostava e logo foi oferecendo a ele uma latinha — Já ia ligar para você quando de repente recebi sua mensagem chinfrim de uma linhazinha apenas. Que isso? Quer me matar de curiosidade? Anda, me conta! Ai pelas passamanarias do manto da Virgem! Você chamou o pianista para sair?

Mu ria da ansiedade do amigo, enquanto abria a latinha de cerveja e dava um gole generoso.

— Chamei. — disse abrindo a porta para entrarem — Eu segui seu conselho, tomei coragem e o convidei. Ok, antes dei uma vacilada, fiquei inseguro nem sei por quê motivo... mas enfim eu o convidei para um café, amanhã.

Afrodite, que vinha logo atrás, sorria tão animado que parecia ele a ter um encontro marcado e não o estudante de cinema.

— E ele disse sim? — falou o sueco seguindo o outro até a sala.

— Não. Ele disse não. — Mu respondeu enquanto colocava a latinha de cerveja sobre a mesa de centro, depois voltou-se para Afrodite e num gesto eufórico tomou o amigo pela cintura, o levantou do chão e girou com ele na sala aos risos — Mas depois disse talvez! — colocou o sueco de volta no chão e ainda abraçado a ele o olhou nos olhos — Dite, eu acho que tenho um quase encontro amanhã.

Afrodite franziu a testa atarantado.

— Bom, um não quase sim, ou um sim quase não, é melhor que um não definitivo. — disse o estudante de moda que depois de um breve momento abriu um largo sorriso — Eu sabia! Sabia que ele não ia resistir a esse par de olhos verdes e a essa cara fofa! E um quase encontro é melhor que encontro nenhum. Não é mesmo?

— Ah, acho que o diferente faz parte... Sabe, ele é muito misterioso.

— Hum, misterioso como, heim? Me conta? — sentou-se na mesa dando um gole na cerveja e colocando o fardo de latinhas no chão — Ele te olhou com desejo?... Já sei! Ele é desses que deixa a gente nu só com o olhar! Aaaah, aposto que já pensou em fazer miséria com você em cima daquele piano!

— Deixa de bobagem, Dite. Não é nada disso, eu... não sei explicar. — disse dando de ombros — Ele é meio tímido, parece ter vergonha de olhar para mim, mas quando ele olha, seus olhos me encaram de um jeito estranho, sabe? Mas então logo ele desvia... Há alguma coisa diferente no olhar dele. — sentou-se no sofá pensativo — Ele disse que talvez não possa ir amanhã por ser Sexta-feira. Há alguma coisa relacionada ao dia, talvez um compromisso, não sei, ele não disse, mas falou que se for ele aceita tomar um café comigo... Eu estou até com uma coisa ruim na barriga. — riu de si mesmo — Prometi a ele que iria mais cedo amanhã, então acho que nem vou almoçar para ver se consigo sair da produtora antes das quatro.

— Coisa ruim na barriga? É lombriga! — disse Afrodite bem sério, então riu do amigo e sentou-se ao lado dele passando o braço por trás de seus ombros e descansando a cabeça na curva de seu pescoço — Minha mãe diz que quando queremos muito uma coisa essas bichas danadas aparecem na nossa barriga. E sabe a parte boa? A cura para elas é ter justamente essa coisa que a gente tanto quer! Então já sabe, né? A sua cura se chama... Ei... — ergueu a cabeça e virou o rosto para o amigo — Como é o nome do pianista misterioso?

Mu arregalou os olhos e deu um suspiro frustrado.

— Ah! Mas que merda! — baixou a cabeça desanimado encostando a testa no peito de Afrodite.

— Ah, não! Não me diga que você nem perguntou o nome dele.

— Eu sou muito trouxa. — resmungou o estudante de cinema — Fiquei tão nervoso que esqueci de perguntar.

— Mu, mas que amadorismo!

O outro então voltou a erguer o rosto e encarou os olhos aquamarines que o miravam inconformados.

— Eu sai praticamente correndo... Me mata por favor.

Afrodite caiu na risada.

— Essa paixonite é séria mesmo, para te deixar avoado assim. Mas olha... — segurou nos ombros do amigo e o fez encostar as costas nas almofadas atrás dele — Não se martirize assim. Amanhã você pergunta. Aproveita e convida ele para vir para cá no sábado, para a festa no apê do Camus.

— Será que ele aceitaria?

— Não tem como saber se não fizer o convite. Já pensou que perfeito! Nós quatro no final da festa, bêbados, rolando nus pelo carpete...

Mu arregalou os olhos e sorriu divertido.

— Nós quatro quem, doido?

— Ora, você e seu pianista, eu e o Camus, porque amanhã aquele francês gostoso não me escapa! — disse Afrodite fazendo um gesto efusivo com a mão, como se agarrasse algo no ar — Você vai ver!

— Hum, sei. Você disse isso da outra vez, e no mês passado de novo, e no semestre passado também. — Mu sorriu apanhando a lata de cerveja para dar um gole, depois assumiu um semblante preocupado — O único problema de convidá-lo para a festa amanhã você sabe bem qual é. Kanon... Da outra vez que eu trouxe um cara para nossas reuniões acabou naquela baixaria, lembra?

— Kanon não será problema, ele não vai estar lá.

— Como sabe?

— Ele vai passar o final de semana fora, Milo quem me disse. Mas Kanon ainda anda te perseguindo? — Afrodite perguntou preocupado.

— Humpf... aquele lá não sabe levar um fora. Ele não aceita que não quero mais nada com ele.

— Cretino. — o sueco meneou a cabeça negativamente, então para quebrar o clima pesado daquela conversa deu um beijo estalado no rosto de Mu e se levantou do sofá voltando a sorrir — Amanhã então vista sua melhor roupa, coloque uma cueca maneira bem perfumada e coragem, meu amigo! Vai dar tudo certo com seu pianista.

Mu sorriu e se levantou também, um pouco mais animado.

— Vai! E vai dar tudo certo com seu francês também. Uma hora tem que dar! Boa sorte, porque com aquele lá você vai precisar.

Riram de si mesmos e foram até a cozinha apanhar uns petiscos para acompanhar as cervejas, depois jogaram conversa fora o restante da tarde e boa parte da noite, cujos temas discutidos não variavam muito de pianistas misteriosos, franceses escorregadios e ex-namorados chatos. Quando perceberam já era quase madrugada.

Na manhã seguinte Mu acordou bem cedo depois de poucas e inquietas horas de sono devido à ansiedade do encontro de logo mais. Caprichou ainda mais no banho e no visual.

Tinha um plano em mente. Sairia da faculdade e seguiria direto para a produtora de TV sem fazer o horário de almoço, já que assim poderia adiantar em meia hora sua saída, um tempo a mais que teria para trocar a camisa, escovar os dentes, pentear os cabelos e dar uma aprimorada no visual, já que queria causar uma boa impressão.

Enquanto Mu era pura ansiedade e euforia, há quilômetros de Manhattan, no bairro do Bronx, Shaka estava à beira de um ataque de pânico.

O pianista considerava seriamente não ir ao encontro. Não que tivesse perdido o interesse ou mudado de ideia, uma vez que tudo o que mais desejava era poder passar um tempo, além daqueles parcos minutos dividindo o piano da estação, junto do dono da voz que lhe encantara, mas porque sua deficiência o anulava. No fim, Asmita sempre estivera certo. Não havia motivo real para uma pessoa normal, em seu julgamento, se interessar por um cego. Prova maior dessa realidade era que seu único amigo era também deficiente, surdo-mudo, e não tinha porque duvidar ou julgar Asmita, já que sabia que o irmão sempre quisera seu bem.

Mesmo que não pudessem enxergar, o medo estava instalado nos belos olhos azuis de Shaka, que cravados no teto do quarto escuro, hirtos, pareciam vislumbrar um mundo de possibilidades inalcançáveis, e tal constatação mergulhava sua alma jovem e ansiosa num mar de melancolia.

Fechado no quarto desde a noite passada, não havia saído nem para o jantar. Salvo quando o pai, após fazer a refeição, foi assistir ao futebol na televisão como fazia todas as quintas-feiras, então deixou o quarto enrolado no edredom e sentou-se no sofá ao lado do pai pousando a cabeça em seu colo tal qual fazia quando era criança e sentia medo ou necessidade de carinho e proteção. Nilo estranhou, mas não negou-lhe o afeto, e enquanto lhe narrava a partida de modo divertido e eloquente afagava os cabelos dourados com todo amor do mundo. Ao final da partida deu uma desculpa qualquer para Asmita que veio lhe trazer um lanche, disse que estava com dor de estômago, e voltou para o quarto. Ficou na cama enrolado no edredom até ouvir os primeiros cantos dos pássaros saudando a aurora.

Naquela noite, se tinha dormido uma ou duas horas fora muito. A todo momento o perfume do rapaz da estação lhe vinha forte à lembrança, então a voz doce e melodiosa regressava à sua mente fazendo o famigerado convite para um café. Nessas horas Shaka suspirava, mas ao mesmo tempo seu peito gelava de medo.

Mesmo sem saber como era o rosto daquele que tocava o piano consigo o imagina belíssimo.

De forma irônica e um tanto eufêmica essa era uma das vantagens de não se enxergar o mundo com os olhos, se pudesse chamar de vantagem ser cego. Ele podia dar formas, cores e as feições que quisesse às coisas e pessoas, e claro, sempre lhes conferia características que lhe eram aprazíveis. Sendo assim, desde o dia anterior quando deixara o terminal, já idealizava como seria o encontro com o pianista itinerante. Sairiam da Grand Central Station, iriam a um café bem agradável onde conversariam por horas, sobre música, artes e outros assuntos de seu interesse, então conheceria enfim o gosto pessoal dele e descobriria que tinham muitas outras afinidades além do piano. Lá pelas tantas tocaria seu rosto, beijaria sua boca, sentiria a textura dos cabelos sempre tão perfumados e finalmente descobriria que ele é tão belo quando em sua imaginação. No entanto, tudo se desmanchava em segundos, as imagens viravam névoa e se dissipavam quando abria os olhos, e tudo continuava escuro, e como se tivesse tentáculos essa escuridão o agarrava e o lançava de volta à realidade. A sua realidade. A mesma que lhe dizia que não podia levar uma vida normal, uma vez que sempre seria um peso morto, um estorvo a quem fosse condenado ao fardo de tê-lo por perto. Asmita lhe dizia, e o pai também: você é deficiente e não pode querer levar uma vida normal. Precisa de nós, precisa ter cuidado. Precisa de alguém que cuide de você.

Coberto até a cabeça pelo cobertor e até a alma pelo manto de trevas que sua deficiência lhe impunha, súbito sentiu o cheiro do café vindo da cozinha. O pai já tinha se levantado e passava o café para depois seguir ao trabalho. Saia sempre muito cedo, já que pegava diversas conduções para chegar à fábrica de artigos esportivos. Então Shaka se levantou com muito custo e ainda enrolado no cobertor foi até a cozinha atrás do café e de algum alento vindo do pai.

Tateou o contorno da mesa de madeira até encontrar a cadeira, que sempre estava lá, no mesmo lugar, e sentou-se mantendo a cabeça baixa. Logo Nilo veio lhe trazer uma caneca com o café fumegante.

— Já de pé, filho? — disse o pai, que com todo carinho aproximou-se e beijou a fronte do filho mais novo — O que foi? Caiu da cama? — brincou.

— Bom dia, pai. — Shaka esboçou um sorriso enquanto levava a mão até a testa para coçar levemente o local em que Nilo o havia beijado, já que o pai tinha um bigode vultoso que sempre lhe causava cócegas. Ambos achavam graça — Eu... não tive uma noite muito boa. Só isso. — disse dando uma bebericada no café.

— Cuidado, está quente. — alertou Nilo ao ver o filho fazer uma careta — E por que não teve uma noite muito boa? Algum problema?

Shaka pensou em dizer que sim, aliás, que não havia apenas algum problema, mas vários problemas, e o maior deles era sua deficiência que não tinha solução e nem o pai nem ninguém poderia ajuda-lo quanto a isso, portanto não valeria a pena discuti-lo, assim como não valeria a pena discutir o fato de que estava tendo uma crise de nervos porque tinha um encontro com um rapaz naquela tarde, afinal ele estava mais que convencido a não ir.

— Não há problema nenhum, pai. Não se preocupe. — disse após uma breve pausa — Apenas... insônia.

Nilo analisou o rosto do filho por um momento, e sempre que o fazia, por mais que já estivesse habituado aos tantos anos imerso naquela realidade triste do filho, seu coração pesara deveras. Shaka tinha os olhos abertos fixos no nada. E seus olhos pareciam tão saudáveis que era revoltante ter que aceitar que não enxergavam, que estavam mortos por dentro. As íris apresentavam-se translucidas, de um azul único, extraordinário, nítidas e luminosas como também eram as pupilas negras, hirtas e firmes como duas torres de bases extremamente sólidas. Sentia-se impotente e terrivelmente pequeno quando olhava para aqueles olhos.

— A insônia nunca vem sozinha... Ela tem vários amigos que estão sempre junto dela. — disse por fim desviando os olhos para a xícara de café que tinha sobre a mesa. Era difícil sustentar a mirada nos olhos de Shaka — Qual dos amigos dela não te deixaram dormir? Medo? Insegurança? Falta de dinheiro? Preocupação?... É por causa do fim das aulas de piano?

Shaka tateou a mesa em busca do pote de amendoins que sempre ficava ali, mas Nilo nem esperou que ele o encontra-se e já o empurrou até os dedos do filho.

— Obrigado. — disse o pianista sem nenhum entusiasmo — Mas, dessa vez ela veio sozinha mesmo. Talvez a minha insônia seja diferente... Vai ver ela é como eu. Não tem muitos amigos. — sorriu sem graça, deixando Nilo também com certo desconforto. Não lhe agradava saber que o filho sentia-se sozinho, mas para si era absolutamente compreensível que o sentisse.

— Bom. Se ela voltar essa noite, e nas outras, quero que me fale que darei um jeito de espantar essa danada! — o pai brincou, mas com o peito apertado, depois levantou-se da cadeira a recolocando no lugar e afagou os cabelos bagunçados do pianista — Eu preciso ir ou perderei o horário do ônibus, mas quando voltar conversaremos mais sobre sua insônia. Tenho certeza que um amigo ou outro ela tem sim.

Shaka sorriu.

— Está certo. Tenha um bom dia, pai. — disse levando alguns amendoins a boca.

— Você também, filho. E se for tocar o piano na estação tenha cuidado... aliás, sabe a minha opinião sobre isso, né? Não gosto nada de você andando por ai sozinho. Ainda vai acabar se machucando feio ou até acontecendo coisa pior... Enfim... Até mais tarde.

Aquelas palavras fizeram aumentar a ansiedade e apreensão no coração do pianista. Sabia que o pai e o irmão não aprovavam suas saídas, mas estava cansado de discutir, e seu dilema atual era outro. Ele queria ir sim, não apenas tocar o piano, mas queria ir ao encontro.

Quando ouviu a porta da sala se fechar e o pai deixar a casa, Shaka se levantou, foi até a pia e lavou a caneca de café. Depois disso voltou para o quarto e enfiou-se novamente na cama.

A medida em que as horas se passavam mais sua apreensão aumentava.

Na metade da manhã Asmita veio lhe perguntar também se tinha algo errado consigo, ou se estava doente, então Shaka usou da mesma desculpa. Insônia. Apenas queria ficar sozinho para tentar dormir. O mais velho não insistiu em questioná-lo, até porque para Asmita era melhor mesmo que Shaka ficasse em casa do que perambulando por uma cidade tão perigosa quanto Nova York. Sendo assim, deixou o pianista no quarto e foi tratar de seus afazeres. Naquele dia tinha muitas mercadorias para despachar nos correios. Trabalhava com vendas online e duas vezes por semana precisava despachar as encomendas, por isso aprontou o almoço, deixou tudo organizado em cima do fogão para o mais novo comer quando tivesse fome e foi para os correios.

Quando o aviso sonoro do relógio na cabeceira da cama de Shaka marcou três e meia da tarde ele se levantou da cama e ainda e cueca e sem banho caminhou vacilante até a cozinha. Conforme as horas se passavam mais sua angustia aumentava, a ponto de lhe causar desconforto e dor de estômago. Pensou que se tentasse comer um pouco se sentira melhor, então foi até o fogão e fez um prato com um pouco de ervilhas, arroz integral e batatas ao molho, mas quando se dirigia à mesa esbarrou na lixeira no canto da pia e deixou o prato cair.

Tal acidente jamais teria acontecido se não estivesse tão nervoso e distraído.

Na cabeça do pianista àquela hora o rapaz da estação já deveria estar se preparando para encontra-lo e ele nem ao menos havia conseguido tomar banho. Estava em completo terror. Paralisado.

Ficou alguns minutos ali, parado no centro da cozinha. Os olhos esgazeados como se em transe estivessem vendo uma sucessão de acontecimentos fantásticos se darem diante de si, as mãos trêmulas e frias, a respiração acelerada. Tinha ouvido o som da louça se espatifar no chão e teria que ter cuidado para se mover ou pisaria nos cacos. Usou a memória para encontrar a vassoura e a pá, recolheu os cacos e a comida espalhada, mas no processo cortou o dedo indicador. Deixou o corte debaixo d´água da torneira da pia ali mesmo por um tempo até não sentir mais gosto de sangue quando o levava à boca, então enrolou o dedo com um guardanapo e voltou para o quarto.

Sua incursão na cozinha fora um completo desastre.

Deitado novamente na cama sentia seu coração bater tão frenético a pondo de lhe causar falta de ar. Seus pensamentos lhe castigavam sem piedade e o medo só aumentava. Amaldiçoou a si mesmo por ter se apaixonado tão facilmente, por ter alimentado uma possibilidade que certamente jamais aconteceria, e principalmente por ser tão carente.

Não suportaria ser rejeitado, por isso o mais sensato talvez fosse mesmo ficar em casa e se contentar apenas em sonhar com ele, com o dono da voz doce que mais parecia o canto de uma criatura mágica.

Exatamente às quatro horas da tarde Mu chegava ao Grand Central Terminal.

Antes de passar pela entrada que dava acesso à estação parou, respirou fundo e checou se estava tudo certo consigo, já que queria causar uma boa primeira impressão, embora julgasse que já havia sido bem sucedido nessa questão, ou o pianista não teria aceitado seu convite. Com o auxílio da câmera frontal do celular ajeitou a gola da camisa, arrumou alguns fios de cabelos mais revoltos que teimavam em escapar do rabo de cavalo, conferiu se os dentes estavam limpos, e o mais importante, colocou uma bala de menta na boca para lhe conferir um hálito agradável.

Tudo certo guardou o celular no bolso da calça e com o coração aos pulos de ansiedade como poucas vezes havia sentido caminhou apressado até o grande pátio central onde ficava o piano.

No caminho deu por falta da música, e esse simples detalhe lhe fez experimentar uma sensação nova e estranha de apreensão. De uma maneira um tanto insólita, a contar pelos poucos dias em que passara a frequentar o terminal, já tinha se acostumado a percorrer aquele caminho ouvindo o som do piano, e de repente a mudez do instrumento lhe causou extremo desconforto.

Apressou os passos ouvindo apenas a balburdia de vozes e sinais sonoros habituais, a voz da metrópole em sua pura essência, então quando finalmente chegou ao espaço eis que o piano estava lá, sozinho.

Rapidamente correu os olhos ao redor à procura do pianista, mas ele não estava lá. Algumas crianças corriam serelepes em torno do piano e vez ou outra apertavam algumas teclas. Os transeuntes iam e vinham apressados, e mais ao centro o grande relógio da estação lhe dizia para ter calma. Haviam se passado apenas cinco minutos do horário combinado.

Ainda que ansioso e surpreendentemente mais nervoso do que imaginava, Mu respirou fundo novamente e soltou um suspiro longo. Não iria tomar conclusões precipitadas, afinal o pianista lhe avisara que talvez não pudesse vir. Sendo assim, muniu-se de coragem, caminhou até o piano lentamente e puxou a banqueta para se sentar. Ficaria ali, à espera, tentando não ter uma crise de ansiedade, mas passados vinte minutos, além de entediado começara a ficar demasiadamente nervoso.

Enquanto tamborilava os dedos levemente sobre as teclas do piano, porém sem toca-las, corria os olhos pelos tantos rostos que passavam por ali e por tudo o mais que sua visão alcançasse. As pernas agitadas chacoalhavam frenéticas e as palmas das mãos suavam ligeiramente.

Quando faltava pouco mais de dez minutos para as cinco da tarde, aflito, e deixando-se vencer pelo desânimo, Mu pegou o celular no bolso da calça e enviou uma mensagem a Afrodite. Talvez falar com o amigo lhe ajudasse a aliviar a tensão.

"Acho que ele não vem... Já são quase cinco."

A resposta de Afrodite não levou mais que dois minutos para aparecer na tela de seu celular.

"Mu, por favor. Estamos em Manhattan! Aqui todo mundo se atrasa, querido."

"Eu não me atrasei." O estudante de cinema respondeu de pronto e logo veio a mensagem do amigo sueco em resposta.

"Já viu como está o transito hoje? Vai ver ele resolveu ir de carro e está parado em alguma dessas malditas vias congestionadas. E você disse que sempre se encontram às quatro e meia, logo ele só está atrasado meia hora. Sossega."

"Ok.", foi a resposta de Mu.

Afrodite sempre conseguia deixar situações difíceis mais leves, e falar com ele lhe deu novo ânimo. O amigo sueco estava certo. Geralmente ele sempre estava, mesmo que sua lógica algumas vezes fosse deveras confusa e um tanto excêntrica.

Mu decidiu acatar o conselho do sueco e devolveu o celular ao bolso. Tentaria manter a calma e esperaria mais um pouco.

Vez ou outra iniciava uma canção no piano, porém tocava apenas pequenos trechos de composições que aprendeu nas aulas que tivera quando criança, mas de repente tocar sozinho ali, na estação, lhe pareceu absolutamente enfadonho. Não era um músico talentoso, não como o pianista, na realidade nem músico era, apenas sabia como tocar piano, e sentado ali, só ele e o instrumento, era como se este tivesse perdido o encanto... Era o pianista que lhe dava vida!

Quando o grande relógio do terminal marcou cinco e meia Mu havia perdido as esperanças.

Antes de se levantar para ir embora, chateado pegou o celular e mandou outra mensagem a Afrodite.

"É, ele não veio. Bom, sabíamos que havia essa possibilidade... Mas, eu não estou bravo ou decepcionado, sabe? Apenas... eu não sei dizer."

A resposta novamente veio em segundos, uma vez que Afrodite, que estava no meio de uma sessão de fotos para um trabalho da faculdade, não abria mão de ter o celular sempre por perto, preocupado com o amigo.

"Mu, imprevistos acontecem a toda hora. Vai ver ele passou em uma floricultura para comprar um buque de rosas vermelhas da cor da paixão e o cartão de crédito dele não passou. Aí foi em outra... E outra... Então foi procurar um caixa eletrônico para pagar com dinheiro. Espera mais um pouco."

"Ele não vem, Dite. E eu estou começando a me sentir um idiota aqui parado à horas sentado nesse piano... Já estão olhando estranho para minha cara porque é lógico que nela está escrito que eu tomei um toco."

"Deixa de ser besta. Estão olhando para sua cara porque você é um tesão. Aliás, aposto que nesse período que ficou uns vinte já te pediram seu Whattzap, confessa."

"Vinte não, mas três pediram sim. rs"

"Eu sabia! rs... Faz o seguinte, estou terminando uma sessão de fotos e já volto para casa. Espera mais um pouco e se realmente ele não aparecer vá para minha casa, nós enchemos a cara e assistimos a um filme trash bem ruim, o que acha? E você marca outro dia com ele."

"Ok, Dite. Valeu. Te vejo daqui a pouco então."

Findada a conversa Mu desligou o aparelho e ficou um tempo olhando para a tela escura de cabeça baixa. As pessoas que por ele passavam notavam que havia algo errado, mas a pressa as fazia seguir andando e junto levavam apenas a curiosidade.

Mesmo o pianista lhe tendo avisado que talvez não pudesse vir Mu não conseguia deixar de sentir-se frustrado e rejeitado, afinal seu coração apaixonado doía dentro do peito como nunca sentira doer antes, pelo menos não pela razão banal de um encontro fracassado.

Suspirou e guardou o celular lamentando por nem ao menos saber o nome do pianista, então lhe perturbou o juízo imaginar que talvez tivesse se apaixonado por uma ilusão, já que ele era um completo estranho e toda a comunicação que tiveram até ali se dera por intermédio daquele piano.

O piano...

O único elo em comum que partilhavam.

Mu olhou para as teclas, desolado.

Em seu íntimo perguntava-se o quão ingênuo ainda era frente às surpresas da vida, já que talvez tivesse se apaixonado por uma ideia tão somente, mas a verdade que o tocava era que, sendo o pianista uma ilusão ou apenas fruto de uma idealização, é que nunca antes torcera tanto para algo dar certo.

Deixando dissipar em sua mente cada plano que havia feito para aquela tarde com o pianista, Mu fechou os olhos se pegando no que tinha de real, e recordando os momentos breves que vivera ali com o rapaz dono dos olhos mais lindos que já havia visto, pousou os dedos sobre as teclas do piano e deixou que o instrumento falasse por si. Quando se deu conta estava tocando uma canção tão bela quanto melancólica, Somewhere In Time, uma composição de John Barry para o filme homônimo, um de seus favoritos, e que parecia lhe soar como a trilha sonora perfeita para aquele fim de tarde frustrado.

Embora tivesse total consciência de que levar um toco não era o fim do mundo, Mu tinha desprendido tanta energia e criado tantas expectativas naquele encontro que sentia seu corpo pesado, esgotado. Suas mãos dedilhavam as teclas com pesar e faziam a canção tomar um tom cada vez mais lento, e mais lento... como se as forças do músico se esvaíssem à medida que tocava.

Quando tocou a última nota, ainda de olhos fechados Mu escorregou as mãos para baixo como se seus braços de repente tivessem ganhado toneladas de peso extra, então eis que ouvira novas notas reproduzirem a mesma canção.

Alguém de pé a seu lado tocava o piano.