Já haviam passado algumas horas desde que chegaram ao Applebee´s, mas o pianista e o estudante de cinema estavam tão entrosados na conversa e nas descobertas que faziam a respeito um do outro que o tempo parecia ter parado ali, naqueles poucos metros quadrados iluminados por belas lamparinas.

Conversaram sobre muitas coisas e também descobriram muitas outras afinidades além da música e do cinema, como o gosto por andar na chuva e a aversão à tesoura do barbeiro, já que ambos sustentavam cabelos longos e nem pensavam em se desfazer das madeixas tão cedo. Shaka achou graça quando Mu lhe disse que algumas vezes pintava os cabelos de lilás, e esse detalhe só fez alimentar sua curiosidade a respeito dele. Não se lembrava com precisão de algumas cores, mas sabia que lilás era a cor dos campos de lavanda que via nas revistas que a mãe vez ou outra levava para casa. Aos poucos ia compondo em sua mente a imagem do jovem que cativara seu coração em tão pouco tempo e a ideia de ele ter cabelos cor de lavanda lhe soou adorável. Desejou com tanta força poder tocar seu rosto... Mas não teve coragem de pedir.

— Eu gosto do meus cabelos compridos também. — foi o que conseguiu dizer no lugar de perguntar se podia tocar em seu rosto — É cruel quando se perde a visão ainda criança... digo, a gente cresce e não sabe com que cara ficou. — riu de sei mesmo, descontraído — Eu confesso que isso as vezes é meio... desesperador. Quero dizer, eu me lembro vagamente de um rosto infantil porque eu perdi a visão quando tinha cinco anos. De lá para cá sei que mudei um bocado, mas se para bem ou para mal isso nunca vou saber, então o cabelo longo meio que me serve de cortina para esconder algo que possa ser... desagradável aos olhos dos outros. O que é extremamente contraditório, já que justo hoje prendi o cabelo desse jeito. — ergueu o braço e tocou no coque que fizera no alto da cabeça — Acho que tinha tanta certeza que você iria embora quando... quando soubesse que eu sou cego que nem me importei em parecer apresentável e... bem...

— E por que eu iria embora? — disse Mu de repente — Não vou mentir. Fiquei surpreso sim, mas com a minha tolice.

Em uma indagação muda Shaka levantou as sobrancelhas, deveras surpreso com o que Mu dissera, expondo ainda mais os olhos azuis estáticos.

— Você disse que nem se arrumou muito para vir, né? Mas eu sim. Ah, eu caprichei! — Mu riu passando uma das mãos no cabelo ajeitando uma mecha atrás da orelha — Pois bem, quer falar de gafes? Vamos então começar pelas minhas. Primeiro, não notei sua... — fez uma pausa. Não queria se referir à cegueira de Shaka como uma deficiência, portanto buscou uma palavra equivalente que julgou soar menos pejorativo — Condição. Por isso, acenava para você me despedindo depois de tocarmos, e ainda ficava aborrecido por não me responder. — riu desinibido acompanhado por Shaka, pois a essa altura já estavam bem mais à vontade um com o outro — Segundo... Eu me arrumei excepcionalmente bem para esse encontro, sabe, para causar uma boa impressão. Até a cor das minhas meias estão combinando. — mais risadas de ambos e então após um breve momento Mu assumiu um semblante sério e encarou o rosto de Shaka, que mesmo sem poder vê-lo podia senti-lo bem próximo. O hálito quente do estudante chegava doce à suas narinas, um misto de baunilha e maçã, e parecia sentir o magnetismo dos olhos dele deitados sobre si. Nessa hora o pianista também se pôs sério — Você disse que não sabe como é seu rosto exatamente... Eu vou lhe falar dele... Vou lhe dizer o que vejo.

O coração de Shaka nessa hora deixou a calmaria para voltar a bater frenético. Muitos já lhe haviam descrito sua aparência. O pai, o irmão, o amigo... Mas certamente a opinião deles não tinha o peso que teria a de Mu.

— Eu vejo um rosto com contornos delicados, com certa simetria sim, fino, longo, mas com mandíbula bem marcada, o que lhe confere um aspecto bem másculo e combina perfeitamente com o queixo mais afilado e o nariz... adoravelmente arrebitado. — dizia de modo lento num tom que mais parecia um murmúrio — Sua pele é bem clara, mas longe de ter um aspecto pálido como o meu, ao contrário... ela tem um tom dourado incrível, e sobre as maçãs do seu rosto e a pontinha do nariz há pequenas sardas cor de cobre desbotado. — o narrador perdeu-se por um tempo olhando para elas em uma espécie de encantamento — Suas sobrancelhas são finas e assim como os cílios, estes longos e curvilíneos, são de um loiro tão ímpar que lembram fios de ouro... E seus olhos, Shaka... — fez nova pausa — Jamais imaginaria que não enxergassem, porque... são os olhos mais vivos, luminosos, e que tanto têm a dizer, que vi em toda minha vida... São azuis ciano, e se não conseguir ter uma lembrança desta cor, por talvez minha descrição lhe parecer específica demais, pense nos mares do Ártico, no casamento perfeito entre o céu azul do horizonte com as águas geladas em tons mais escuros de azul e verde claro... O resultado desse casamento magnífico de cores é o azul ciano, o tom dos seus olhos.

Shaka entreabriu os lábios reprimindo um suspiro.

Em sua mente montava a própria imagem redesenhando-se em uma tela que por anos exibia apenas borrões disformes, e o mais fascinante era que Mu o guiava para que pudesse fazer esse autorretrato em tons de metais preciosos como ouro e bronze e elementos da natureza. Logicamente tinha uma imagem de si mesmo em sua mente, já que tocava seu próprio rosto conforme seu corpo ia se transformando com o passar dos anos, mas enxergar-se através da perspectiva daquele por quem seu coração batia mais forte tinha todo um significado novo.

Com as mãos sobre a mesa Shaka apertava os dedos na madeira enquanto suspendia a respiração inconscientemente. A voz de Mu era algo que mexia muito consigo. As palavras que saiam de sua boca pareciam notas tiradas do piano.

— Seus lábios são moderadamente finos, e tal qual todo o resto perfeitamente desenhados... — Mu continuava, percebendo que o pianista, calado e introspectivo como estava, deveria estar finalmente se vendo em sua fértil imaginação, enquanto ele mesmo usava involuntariamente a sua e se imaginava, entre arquejos contidos, beijando aqueles lábios que descrevia com minúcia — Eles têm um tom mais coral que os mantêm destacados naturalmente... Seus cabelos são loiros, dourados como o ouro, e parecem emanar luz própria, e tão intenso é seu viço e brilho natural que me lembram os primeiros raios da aurora... Você, Shaka, é uma composição harmônica de tudo que já vi de mais bonito... Como o Apolo de Meynier e de Broc. Lindo!

Shaka esboçou um sorriso tímido.

— E quem são esses? — perguntou.

— São pintores que retrataram o deus Sol da mitologia grega com expendida beleza. — Mu respondeu antes de continuar — Todavia... o que mais impressiona em você, e de fato o que me deixa sem ar, são justamente seus olhos... Quando olho para eles é como se estivesse vendo além de mim, como se olhassem diretamente para a minha alma. E... para você, e nesse exato momento também para mim, pode parecer contraditório ou insólito o que vou dizer, mas... eu me apaixonei justamente pelo seu olhar, Shaka.

Mu então se calou, e ao final da descrição sentia o coração acelerado como nunca e as mãos levemente trêmulas e frias. À sua frente, olhando para si com os olhos arregalados como se pudesse enxerga-lo Shaka estava hirto, parecia em transe, e tinha os olhos marejados. Ouvir tudo aquilo, e dito de maneira tão intensa, fora como renascer para a vida, como ser puxado para a superfície de um lago escuro e solitário.

— Eu... nunca podia imaginar que me visse dessa maneira. — disse com a voz embargada, a garganta a lhe apertar e os músculos do corpo todo contraídos. Teve vontade de gritar, chorar, maldizer a Deus e até mesmo ao irmão, a quem nunca de fato jogara a culpa pela perda acidental da visão, por não poder ver o homem à sua frente que lhe dizia aquelas coisas tão belas, mas não fez nada disso. Estava tão emocionado que apertou forte os dedos contra as palmas das mãos para engolir o choro — Deus, eu daria tudo para poder vê-lo... Nem que fosse apenas por alguns poucos segundos. — disse por fim.

Ouvir o pianista fazer aquela suplica inflamada fez o coração de Mu pesar.

Não queria se apiedar dele. Não. Shaka não era digno de pena, porém não conseguiu evitar sentir-se triste por ele e lamentou intimamente não poder conceder-lhe aquele desejo. No entanto, não podia fazê-lo enxergar do modo convencional, mas podia permitir que o visse a seu modo. Sendo assim soltou os próprios cabelos deixando as longas madeixas lhe caírem sobre os ombros largos e procurou as mãos do pianista sobre a mesa.

— Vou tocar suas mãos. — avisou previamente antes de segura-las com as suas e notar que estavam trêmulas — Eu vou coloca-las em meu rosto... Você pode me ver Shaka... A seu modo. Eu quero muito que me veja.

Então Mu ergueu as mãos do pianista, as aproximou de seus lábios e delicadamente beijou as pontas de seus dedos.

Shaka mais uma vez reprimiu um suspiro e prendeu o ar dentro dos pulmões ao sentir o toque suave, quente e úmido, mas quando o estudante guiou suas mãos as pousando em seu rosto e ele pode enfim sentir a textura macia e o calor da pele então sentiu-se relaxar, ainda que arrebatado por uma expectativa ímpar.

— Veja-me. — Mu sussurrou num fio de voz, dada a emoção que o tomava.

E Shaka o viu.

E nem que seus olhos fossem saudáveis e vivos não teria enxergado Mu com tamanho fascínio.

A tensão quase o sufocava era bem verdade, não que temesse ver algo que lhe desagradasse ou que não fizesse jus ao ideal que sua imaginação traçara dias antes e até o presente momento, mas pelo toque em si, pela proximidade, pelo desejo de ir além, muito além.

Pouco a pouco, com atenção devota e ânsia alucinada, Shaka passeava as pontas dos dedos, seus olhos desde os cinco anos de idade, pelo rosto de Mu, devagar e constante, atento a cada detalhe daquela escultura viva. Escorregou os polegares até a mandíbula traçando uma linha imaginária desde o lóbulo da orelha até a ponta do queixo fino e sorriu ao constatar que ele tinha um rosto oval e delicado, bem diferente dos rostos masculinos que conhecia, como do amigo Shijima, do irmão e do pai. Em seguida subiu para os seios da face, contornou com todos os dedos as maçãs do rosto, têmporas e por último os olhos, os quais Mu fechou apenas para que ele pudesse toca-los, e com suaves toques repetitivos Shaka ia desenhando em sua mente os olhos do estudante. Eram grandes, de cílios longos e volumosos, e acima deles as sobrancelhas em contraste eram bem finas e quase sem volume algum. Eram um pouco mais espessas na base e bem ralas nas extremidades, diferente de tudo que sua mente imaginou. Subiu o passeio para a fronte e logo encontrou a raiz dos cabelos, então nessa hora não se conteve e meteu os dedos entre as madeixas perfumadas, encantado com a macies dos fios, e sem que pudesse controlar o furor que queimava dentro de si inspirou o ar profundamente fechando os olhos.

Mu, que desde o primeiro toque em seu rosto tinha os olhos abertos tão fixos em Shaka que já podia senti-los ardidos, já que nem ao menos piscava, fez o mesmo fechando também os seus para quase em êxtase desfrutar daquele toque sublime. Já tinha experimentado tantos toques que tencionavam lhe seduzir, excitar ou apenas desfrutar de seu corpo, tantas carícias e afagos diversos, mas nada era como ser tocado daquela forma, com tamanha devoção e pureza. Logo sentiu o pianista descer ambas as mãos por sua nuca e tocar-lhe o pescoço. Ofegou sentindo um leve tremor e a pele arrepiar-se na região. Estava totalmente entregue aquela experiência tão peculiar e rogava aos céus para que ela se estendesse por muitos minutos mais.

E Shaka de fato não tinha nenhuma pressa. O coração acelerado e os lábios entreabertos a deixar escapar o hálito quente entregavam a emoção com que executava cada movimento. A pele de Mu era quente, o pescoço largo e forte, o que o levou a julgar que o estudante deveria ser um homem de porte forte e físico avantajado. Gostou da ideia. Abriu os olhos novamente e então voltou as mãos para o rosto, contornou o nariz fino com as pontas dos dedos indicador e polegar e finalmente desceu para os lábios. Inconscientemente nivelou o olhar com esses fixando os olhos na mesma direção, e como se pudesse vê-los os tocava com lentidão devota. Sentia o calor da respiração de Mu, perturbadoramente acelerada e quente, tocar-lhe os dedos e desejou poder sorve-la tal qual uma poção mágica, um elixir bebido direto da fonte que lhe devolveria a vontade de sonhar alto na vida.

Nunca desejou algo com tanto ardor como desejou beijar aqueles lábios que tocava com os dedos, mas novamente sua insegurança falou mais alto e ele reprimiu o desejo.

De um de seus olhos uma lágrima saltou e percorreu a face alva até pender do queixo e cair sobre o cachecol laranja. Envergonhado ele respirou fundo baixando o olhar até imaginar que estivesse com os olhos na direção do chão. Então, quando em sua mente a tela com a imagem de Mu já estava completa e ele sabia que a guardaria em seu acervo mental até o fim de seus dias, recolheu as mãos as pousando unidas sobre o colo e sorriu.

Mu era realmente uma criatura fantástica saída de seus sonhos.

— É bem diferente do que imaginei. — disse o pianista, para surpresa do estudante que ainda mantinha os olhos fechados, pois estava tão entregue ao momento que parecia ainda sentir os toques suaves do outro em si. E foi providencial quando ele se afastou, visto que estava a ponto de se esquecer que estavam em um espaço público e tomando o pianista em seus braços para lhe beijar com toda a paixão que lhe cabia.

Agora de olhos abertos Mu voltava a encarar fixo e curioso o rosto de Shaka.

— Diferente? Tipo, diferente para pior? — perguntou, de fato um tanto preocupado.

— Não! — Shaka ergueu o rosto bruscamente, até um tanto sobressaltado — Diferente para melhor! — sorriu da insegurança do outro — Para muito melhor. Na verdade, nem sei porque me surpreendi, ou o que me surpreendeu, porque da mesma forma que o perfume forte e marcante dos campos de lavanda, e a voz magnífica das criaturas encantadas que só existem nos nossos sonhos, você, Mu, é a pessoa mais linda que já conheci em toda minha vida... "E eu estou apaixonado por você. Por favor me beije ou vou morrer!" — isso ele apenas pensou, corando levemente, e de repente um medo irracional de que Mu pudesse ter ouvido seus pensamentos o fez pigarrear e fechar os olhos novamente — Bem... Eu receio que já esteja bem tarde. Eu moro no Bronx. É um bairro nada amistoso às altas horas da noite e até lá ainda tenho quase uma hora de viagem de trem.

Mu piscou os olhos algumas vezes e inspirou o ar procurando voltar à realidade. Enquanto prendia o cabelo novamente olhou em volta e notou que algumas pessoas olhavam curiosas para mesa onde estavam. Algumas delas tinham um semblante nada cortês, outras cochichavam e os apontavam, e isso não era bom sinal. Aquele não era um endereço comumente frequentado por gays e lésbicas e Mu não queria que Shaka fosse vítima de mais um preconceito tolo.

Ainda um pouco desnorteado devido à emoção forte que vivera até aquele momento Mu também limpou a garganta e já em seguida acenou para o garçom pedindo a conta.

— Sim, acho que nos empolgamos. Está bem tarde de fato, mas sua companhia é tão prazerosa que eu confesso que perdi completamente a noção do tempo. — disse o estudante.

Logo o garçom chegou e como haviam combinado cada um pagou o que consumiu. Do lado de fora do bar, já na calçada em meio ao agito, enquanto aguardavam o sinal fechar para poderem atravessar a avenida Mu ofereceu-se para pagar um taxi a Shaka até o bairro do Bronx, mas este recusou de pronto. Porém, Mu fez questão de acompanha-lo de volta ao Terminal e lá até a plataforma de embarque.

No caminho seguiram calados a maior parte do tempo. Os momentos na cafeteria ainda vivos nas mentes de ambos, e logo estavam parados lado a lado atrás da linha amarela esperando pelo trem com destino ao famigerado bairro do Bronx. A plataforma com o trem que Mu deveria pegar ficava no sentido oposto, e a hora da despedida havia chegado.

O tempo todo, desde a saída da cafeteria, durante o percurso e até ali Mu havia pensado incessantemente no que diria, como diria, porque diria... Queria ver o pianista novamente, o mais rápido possível, mas a realidade de Shaka lhe exigia parcimônia.

— Shaka. — Mu pediu sua atenção pegando em sua mão e a levando até a altura do peito — Eu adorei conhecer você, adorei passar essas horas com você... É uma pessoa incrível!... Eu sei que pode parecer precipitado, mas... Gostaria muito de vê-lo de novo.

O rosto de Shaka iluminou-se, e ele teve um breve sobressalto. Era tudo que mais queria ouvir. Eufórico apertou a mão de Mu e abriu um largo sorriso.

— Eu também quero muito vê-lo... digo... de novo... estar com você de novo. — riu de si mesmo, de seu modo atrapalhado, arrancando de Mu também um riso descontraído.

— Amanhã à noite vai ter uma festinha na casa de um amigo meu, coisa pequena, só uma reunião que costumamos fazer uma vez por mês para botar a conversa em dia, falar besteira, ficar bêbados juntos... nada daquelas bagunças enormes de fraternidades, não. Você gostaria de ir comigo? Eu posso vir te buscar aqui no Terminal, ou na sua casa se preferir.

A luz que vigorava no rosto exultante do pianista apagou-se repentinamente, tal qual chama de vela que se esvai após o sopro. No lugar da euforia de antes agora uma nota de pesar se desenhava nos traços delicados da face jovial. Tudo que mais queria era estar com Mu novamente. Estava vivendo aquele momento no qual a ansiedade fala muito mais alto que a paciência e não queria esperar até o próximo encontro, já queria estar com ele o quanto antes, mas não podia.

Com muito custo, depois de inúmeras discussões inflamadas, choro e greves de fome havia conquistado o direito de sair sozinho de dia para tocar o piano no Terminal. Era bem verdade que ao ter ido aquele encontro estava colocando esse mesmo direito em risco, já que extrapolara o horário combinado de voltar para casa, o toque de recolher como costumava dizer, e certamente ouviria um sermão horroroso de Asmita e também do pai, sendo assim era praticamente impossível que eles lhe deixassem sair novamente na noite seguinte, e com um completo estranho para eles... Talvez nem o deixassem sair mais a partir daquele dia.

— Eu agradeço o convite, Mu, mas terei que recusar... Quem sabe uma próxima vez. — disse com pesar — Estarei aqui na segunda-feira, no piano, no mesmo horário. Podemos tomar outro café se quiser. — sorriu para disfarçar o medo terrível de ser impedido de voltar ali devido sua desobediência. No entanto, tinha certo em seu coração que mesmo que o trancassem em casa daria um jeito de fugir.

— Para mim parece perfeito! — Mu respondeu radiante. Já imaginava, ainda mais depois de conhecer Shaka, que ele declinaria do convite, e não estava de fato frustrado.

De repente, enquanto as pessoas já se amontoavam em torno deles à espera do trem, um silêncio ansioso os envolveu.

Nenhum dos dois sabia bem o que fazer ou falar para se despedirem, já que não tinham coragem de admitir que a única despedida que faria jus ao prazer daquele encontro era um beijo apaixonado, então Mu se lembrou de um detalhe importante. Enfiou a mão no bolso da calça e apressado retirou o celular.

— Vou te passar o meu número de telefone, Shaka. Assim não perdemos contato e podemos nos falar no final de semana... como eu faço para... — disse atrapalhado.

— Ah! Um instante. — Shaka respondeu agitado enquanto tateava a jaqueta com a mão que tinha livre para encontrar seu celular. Com o aparelho nas mãos dedilhou o pequeno painel, apertou o botão que correspondia ao comando do aplicativo que usava para poder manejar o aparelho e após um aviso sonoro o ofereceu a Mu — Fale primeiro o seu número, espere cinco segundos e depois fale seu nome. Vai ficar gravado como mensagem e também como contato.

Mu pegou o aparelho e fez conforme lhe foi instruído. Shaka também lhe passou seu número.

Outra vez o silêncio constrangedor e inoportuno se adensou sobre eles, então resignado Mu achou por bem não prolongar mais aquele momento.

— Bem, então é isso. Eu... eu já vou... Meu trem fica na plataforma do outro lado... Segunda-feira nos vemos... tomamos mais um café... Vai com cuidado. — disse entre pausas e malabarismos com as mãos, já que não sabia o que fazer com elas. Acabou acenando novamente, por força do hábito, e na mesma hora apertou os lábios e fez uma careta sacolejando a cabeça negativamente e maldizendo sua tolice.

Sem saber da confusão pela qual o outro passava, Shaka, também totalmente sem jeito, porém impelido por uma vontade que subitamente se tornou mais forte que sua timidez ou insegurança, tateou o chão com a bengala até ela tocar os pés de Mu, então pode calcular a distância que estavam e sem pensar mais para não perder a coragem avançou dois passos pequenos e abrindo os braços tocou ambos os ombros do estudante. Em seguida inclinou-se para frente e ainda que de forma bem desajeitada abraçou calorosamente o estudante.

— Obrigado, Mu. Foi uma noite ótima... Até segunda. Tenha cuidado você também. — sorriu enquanto se afastava, deixando o outro meio sem jeito, pois sem esperar por aquilo Mu havia ficado sem reação, e quando pensou em envolver o pianista em seus braços este já recuava.

— Eu terei... Então... Tchau, Shaka. — disse o estudante que lentamente se afastou logo dando as costas ao outro para seguir para a saída daquela plataforma.

Vez ou outra olhava para trás e vislumbrava a figura do pianista parado no mesmo lugar à espera do trem, e vê-lo ali sozinho, de cabeça baixa enquanto colocava os óculos escuros e desmanchava o coque soltando os longos cabelos de repente lhe causou uma angustia ímpar.

Aquilo não estava certo.

Queria estar com ele. Queria tocá-lo, abraça-lo, senti-lo... Não fez nada disso horas atrás porque fora pego de surpresa por sua condição e ficou sem saber como deveria agir, e até agora ainda sentia-se inseguro de certo modo.

Contudo, quando já estava bem distante quase acessando a escada que levava a outra plataforma o estudante parou. Sentia o peito apertado, as mãos trêmulas. Recordando tudo que vivera horas antes com o pianista estava claro para si que havia algo entre eles. Não podia simplesmente abandoná-lo na plataforma e ir embora, ainda que sobre a promessa de um novo encontro. Precisava provar a ele o quanto já era especial para si, que já entrara em sua vida e fizera um rebuliço. Por isso, inspirou profundamente, deu meia volta, e com a agilidade esperada dos apaixonados que nada esperam correu de volta para a plataforma do trem com destino ao Bronx, onde havia deixado Shaka, torcendo no caminho para que não fosse tarde demais. E para sua sorte não era.

Ao avista-lo ao longe parado no mesmo lugar o coração do estudante de cinema saltou dentro do peito batendo tresloucado. Diminuía o ritmo dos passos a medida em que se aproximava dele para tentar acalmar seu coração e também a respiração acelerada. Não queria assustá-lo com sua exasperação, mas também não podia perder mais tempo. Avançou até estar poucos passos atrás dele e então tocou gentilmente seu ombro, e para sua surpresa o pianista girou ligeiramente a cabeça para o lado que sentira o toque e sorriu.

— Mu? — disse Shaka, que havia reconhecido o perfume do estudante, o qual já estava gravado eternamente em sua memória.

— Sim, sou eu, Shaka. — disse Mu se colocando à frente dele, e tão próximos ficaram que permitia ao pianista sentir o calor de sua respiração acelerada — Eu não sou capaz de esperar até segunda-feira... Na verdade, eu não sou capaz de esperar nem mais um segundo.

Com uma gentileza e lentidão ímpares Mu retirou os óculos escuros de Shaka os prendendo na gola da própria camisa, e com ambas as mãos e semelhante delicadeza segurou em seu rosto fazendo uma carícia em suas bochechas com os polegares enquanto vislumbrava quase em transe os olhos azuis que se erguiam de encontro aos seus.

A respiração de Shaka ficou acelerada instantaneamente, e em seu peito o coração bateu tão rápido que tinha certeza estar à beira de um colapso. Largou a bengala que foi ao chão e elevou as mãos tocando nos punhos de Mu para depois escorrega-las até seus ombros largos na mesma hora em que sentia seu nariz ser tocado pelo do estudante. Logo o hálito dele tocou o seu ao escapar da boca arquejante.

A boca...

Desejava a boca de Mu com latente fervor!

Ofegante Shaka entreabriu os lábios num convite mudo e ansioso ao beijo, e este aconteceu quando Mu fechou os olhos para mergulhar não somente na boca do pianista, mas também em seu mundo, a terra extraordinária dos outros sentidos além da visão.

Apesar do nervosismo de ambos, das mãos frias, das pernas trêmulas, o beijo iniciou lento e delicado, mas conforme se provavam as línguas ficavam mais ousadas, os lábios mais sedentos e pouco tempo depois já tinham os corpos colados um no outro e abraçavam-se em anelo.

A despeito de já ter beijado um número considerável de bocas e experimentado um tanto de emoções igualmente intensas, para Mu nada se assemelhava àquela experiência, nada era como aquele beijo, e nenhuma outra emoção poderia ser comparada. O estudante não apenas beijava o pianista, mas o sentia, com todos os seus outros sentidos, detalhes que das outras vezes deixara passar sem de fato ter consciência de que eles existiam.

Já para Shaka aquela era uma experiência nova tão intensa quanto estava sendo para Mu, porém completamente inexplorada. Já havia sido beijado uma ou outra vez. Na verdade contava três vezes. Três beijos, que não foram de todo ruim, mas que também não foram dignos de deixar alguma lembrança especial. Diferente do beijo de Mu, que já tinha certeza que ficaria para sempre gravado em sua memória, em sua carne, em sua alma. Sentia o estudante acariciar seus cabelos e arranhar suavemente sua nuca lhe causando um arrepio tão intenso que podia jurar que todos os músculos de seu corpo fremiam em frisson, e tomado por um furor febril desceu as mãos pelas costas dele imprimindo certa força na pegada. Queria sentir o corpo colado ao seu, dimensionar o que já idealizara em sua mente, e só ficou mais eufórico ao constatar que novamente fora modesto em sua concepção. Mu parecia perfeito.

Sem separar os lábios sedentos dos dele prendeu-o em seu abraço num gesto quase possessivo, e foi então que se deu conta que estava ficando excitado além do que deveria. Sentiu o rosto queimar, ainda mais porque sentia que o estudante de cinema não estava em melhor estado, e temendo estarem já chamando a atenção em demasia, ofegante afastou a boca do outro interrompendo o beijo.

— Mu... — sussurrou com os lábios inchados e úmidos ainda próximos aos dele.

— Eu sei... — o estudante murmurou de volta esboçando um sorriso enquanto ainda mantinha os olhos fechados, em êxtase — Eu sei... Eu... só não consigo parar. — tomou novamente a boca de Shaka, agora voltando a segurar em seu rosto e o beijando de modo mais calmo, sem o ímpeto de momentos antes.

Naquele instante, no meio da estação quase vazia, Mu sentia que havia encontrado no pianista um amor digno de história de cinema.

Pouco a pouco foram se afastando, primeiro os corpos, por último os lábios. Mu abriu os olhos, divisou o rosto corado de Shaka e o viu sorrindo, então viu os faróis do trem apontarem no túnel e abaixou-se para pegar a bengala do chão e entregar a ele. Estava em uma espécie de transe ainda, arrebatado por aquela experiência única, apaixonado e elevado como jamais esperara estar.

Shaka segurou firme a bengala com ambas as mãos, e ouvindo o som do trem aproximando-se ligeiro manteve os olhos voltados para a direção em que sentia a respiração de Mu ainda próximo a si.

— Que bom que voltou. Agora sim posso dizer que esperava por esse beijo há dias e que... ele foi muito melhor do que imaginei. — disse sem desmanchar do rosto o sorriso, e logo o trem estacionou na plataforma — Quero muito ir à festa do seu amigo com você. Me ligue e me mande o endereço, por favor. Esperar até segunda-feira está fora de cogitação! — tateou o chão com a bengala e ao encontrar os relevos do piso tátil que indicavam a direção da entrada do vagão seguiu andando seguro — Até amanhã, Mu.

Ficou parado em frente à porta até esta se fechar, e quando o trem deu partida para seguir seu destino Shaka levantou a mão e acenou para o estudante, pois sabia que ele o via.

Na plataforma Mu mal conseguia se mexer.

Em elevo vislumbrava o trem seguindo viagem até desaparecer no túnel, então soltou um suspiro longo e sozinho ali sorriu.

— Até amanhã, Shaka. — respondeu para si mesmo.

Ainda sentia o doce sabor dos lábios quentes do pianista em sua boca e a força de sua presença ainda a abraçar seu coração, e se acreditasse de fato em destino aquele encontro certamente era uma prova.

Ajeitou a roupa no corpo para seguir de volta até sua plataforma de embarque quando notou que os óculos escuros de Shaka haviam ficado presos na gola de sua camisa. Felizmente aquele não era um utensílio tão imprescindível ao outro e certamente o devolveria amanhã quando o encontrasse para irem à festa de Camus.

No entanto, outro fato chamou a atenção de Mu enquanto guardava os óculos no bolso interno da camisa para mantê-los mais seguros.

Pouco mais à frente de onde estava um grupo de homens, de idades variadas, mas na grande maioria jovens que não contavam com mais de vinte e pouco e trinta anos, olhavam excessivamente para si, e de forma nada amistosa.

Nessa hora o estudante se deu conta de que a vida real nem sempre é uma história de cinema. Havia se deixado levar pela emoção, pela paixão tão nova e arrebatadora, pela adrenalina, e beijara Shaka em um local público, ainda que a estação estivesse quase vazia àquela hora da noite, próximo à meia-noite.

A realidade então viera à tona como um forte soco em seu estômago.

Mesmo Nova York sendo uma cidade que abraça as diversidades, os Estados Unidos ainda eram um país extremamente conservador, e as liberdades individuais não eram de fato direito de todos. Por isso, dois homens se beijando de forma tão intensa em uma estação de metrô causava sim repulsa e revolta em muitos, e ele sabia disso como ninguém. Já fora alvo de preconceito nas ruas e até entre alguns amigos diversas vezes desde que assumira-se gay, e sabia bem o quão nocivo e fatal podia ser o ódio de algumas pessoas. Já havia se metido em brigas diversas, batido e apanhado, e foi justamente isso que de repente fez seu coração pesar dentro do peito, aflito e em agonia.

Ele podia e sabia se defender, era jovem, forte, praticara artes marciais durante boa parte da infância e adolescência, mas Shaka não.

Apreensivo deixou a plataforma a passos ligeiros, ignorando os olhares vis cheios de ojeriza que aqueles homens lhe direcionavam, e enquanto caminhava apanhou o telefone e digitou uma mensagem para o pianista.

Se pudesse pegaria o próximo trem para o Bronx e iria atrás dele. O acompanharia até em casa, mas dado o horário avançado aquele era o último trem, não haveria outro e se pegasse um taxi também não chegaria antes dele.

"Oi, lembra de mim? Seus óculos ficaram comigo. Amanhã te devolvo... Shaka, me avise quando chegar na estação do Bronx, e por favor, me avise quando chegar em casa. Foi uma loucura beijar você daquele jeito na estação, porém eu faria tudo de novo, exatamente igual, mas... Essa cidade não é segura para gays... Se é que existe algum lugar nesse mundo que seja... Bem, por favor me avise, sim?"

Quando terminou de digitar a mensagem o último trem que partia para sua casa já encostava na plataforma. Mu saltou para dentro do vagão com o coração, apertado segurando firme na mão o celular. Esperava apreensivo e ansioso pela resposta de Shaka. Sabia que ele escutaria a mensagem apenas quando saísse dos túneis e até lá orava para que chegasse em casa em segurança.