A viagem de volta para casa nunca pareceu tão curta e agradável para o pianista.
Quase sempre fazia aquele mesmo percurso sentado, já que muitos lhe ofereciam seus acentos e ele aceitava apenas para não parecer indelicado, ainda que a compaixão alheia fosse um sentimento que por várias vezes lhe causava desconforto, porém, parecer grosseiro e ingrato lhe era definitivamente mais incômodo.
Mas dessa vez não.
Não sabia quantas pessoas haviam no vagão. Dado o adiantar das horas não deveriam ser muitas, e as que porventura ali estivessem certamente não estavam incomodadas consigo ou compadecidas de sua condição. O que para ele era um alívio. Somado a isso, por ser aquele o último trem a partir para o Bronx deveriam haver muitos acentos vagos, então felizmente lhe deixariam escolher em paz se queria fazer a viagem sentado ou de pé, embora dessa vez Shaka nem sequer tinha lembrado de se sentar, essa era a verdade.
Segurando firme na haste de alumínio o pianista sorria.
Seus olhos estavam fechados, mas viam incessantemente o rosto de Mu, que reinava majestoso e absoluto em seus pensamentos. Em suas mãos o perfume delicado do estudante de cinema o conduzia para os encantadores campos de lavanda. Ele não estava ali naquele vagão, escorregando por um túnel debaixo da terra ao som cadenciado e constante do estalo causado pela eletricidade ao percorrer os trilhos de metal. Ele estava flutuando num oceano lilás de ondas calmas. As ondas dos cabelos de Mu. E ele ouvia o piano.
Baixou a cabeça e tocou os lábios risonhos com as pontas dos dedos recordando-se do beijo.
Ah, o beijo!
Nenhum outro fora como aquele.
O primeiro havia sido ganho. Fora meio que pego de surpresa. Uma garota da escola por quem logo depois sentiu uma paixão tão comichosa quanto breve, pois esta esvaiu-se como fumaça ao vento quando ela partiu com os pais para a Califórnia. Nem chegou a sofrer, visto que estava mais curioso do que apaixonado de fato. O segundo foi roubado. Aceitou dar algumas aulas de piano para um rapaz bem mais velho, e a proximidade, o odor forte e característico da pele dele, o tom grave e imponente da voz de repente lhe fez desejar beijá-lo, tocá-lo; e ele o fez no término de uma aula em que estavam sozinhos, na escola da senhora Johnson. O beijo foi de pronto correspondido e ele descobriu então que era bissexual, pois tanto a doçura da garota quanto a virilidade do rapaz lhe encantaram deveras. O pianista amava pessoas, não lhe importava seus gêneros. Aquele foi o único beijo que trocara com o rapaz, que não querendo se envolver com um garoto cego, tampouco trazer problemas para si, já que era bem mais velho e na época Shaka tinha dezessete anos, deixou as aulas de piano e nunca mais apareceu.
Já o terceiro beijo... Esforçava-se para não lembrar. Asmita o tinha levado a um festival de música na Grand Concourse, e quando se afastou apenas para pegar-lhe uma água um homem desconhecido o puxou pelo braço e o arrastando para detrás de um dos trailers que serviam comida forçou um beijo. Tentou se livrar dele o empurrando, mas foi Asmita quem resolveu o problema chegando ali a tempo de evitar o pior.
Porém com Mu havia sido totalmente diferente.
Não foi um beijo ganho, tampouco roubado ou forçado. Foi um beijo desejado, sonhado, não apenas por ele, mas por ambos, e diferente dos outros, com os quais sentira apenas uma passageira euforia, ainda agora seu corpo todo parecia uma orquestra. Uma filarmônica composta por centenas de instrumentos que vibravam em uníssono, e seu coração era o núcleo dessa sinfônica. Batia ainda em ritmo acelerado, e o pianista desejava que essa composição que nascera da união de suas bocas perdurasse para a eternidade.
E foi nesse estado de graça que Shaka deixou a Estação de Melrose, no sudoeste do bairro do Bronx.
Chegar até sua casa ainda levava alguns bons minutos de caminhada, percurso que ele fez com o mesmo sorriso no rosto. Gostava de andar por ali. Sempre haviam pessoas nas ruas, vozes exaltadas, risos eloquentes, alguma ou outra voz em tom de ameaça que lhe obrigava a apertar o passo o quanto pudesse, mas que nunca de fato lhe infringira medo. Asmita lhe dizia o quanto aquele bairro era perigoso para pessoas como ele, jovem, cego, bonito... Mas Shaka não via o mundo, nem o Bronx, com os olhos de Asmita. Ah, quem dera aquelas vozes quisessem falar consigo... Quem dera seus donos o enxergassem!
Shaka era incapaz de enxergar, mas a sensação que tinha era que o resto do mundo é que era cego, porque poucos o viam de fato.
Sempre que caminhava por aquele mesmo trecho da estação até sua casa o som hipnótico e deliciosamente embalante do hip hop e do rap, ritmos que nasceram no Bronx e eram a trilha sonora daquele lugar, lhe faziam companhia, e enquanto se aprazia deles imaginava quem eram as pessoas que estavam ali o ouvindo, que rostos teriam aqueles risos vivazes. Como as queria conhecer...
Ao cruzar a última quadra de pequenas residências anexadas de tijolos cor de terracota, antes de cruzar a esquina que dava à sua casa, quase foi mordido por um cão e por pouco não caiu por cima de um amontoado de sacos pretos de lixo. Ouviu ao longe quando algumas vozes caçoaram de si e gargalhadas se ergueram em uníssono e notou que algumas pessoas cochichavam enquanto lhe atiravam pequenos objetos. Felizmente eram bons de vista, mas ruins de mira e nenhum o acertou. Porém, não se importou com nada daquilo.
Em sua mente só pensava no beijo.
O beijo...
Quando chegou à esquina aliviado sentiu seu celular emitir um aviso sonoro de mensagem recebida, então antes de começar a contar os quarenta e dois passos que teria que dar até estar de frente para o portão branco pegou o aparelho do bolso e o encostou na orelha.
A voz robótica do aplicativo lhe ditando a mensagem o fez abrir um largo sorriso.
Respondeu ali mesmo.
— E como eu me esqueceria de você? — disse baixinho com o aparelho quase colado nos lábios sorridentes ao mesmo tempo em que caminhava e sua cabeça, já condicionada, contava os passos até chegar ao portão de sua casa — Eu só recebi sua mensagem agora. Está tudo bem, não se preocupe. Estou já na rua de casa... E Mu... Eu também faria tudo exatamente igual.
De repente, no quadragésimo segundo passo que dera, com a mesma mão que segurava a bengala ergueu o braço para tocar no trinco de ferro, mas eis que seus dedos no lugar do metal frio tocaram o tecido grosso de lã do casaco do irmão mais velho.
O sorriso no rosto do pianista se desfez de imediato. No lugar dele a boca congelara-se entreaberta e os olhos azuis se abriram em reflexo. O pomo de adão desceu e subiu ligeiro quando engoliu em seco.
— Asmita! — disse alarmado depois de desligar às pressas o celular. Estava tão distraído que não percebera o irmão ali, e não queria que ele soubesse de Mu, não ainda.
— Eu devia te dar uma surra aqui mesmo! — disse o mais velho rangendo os dentes, depois pegou no braço do pianista com força o puxando para dentro — É isso que você está merecendo, seu moleque irresponsável! — fechou o trinco e arrastou Shaka consigo para dentro aos tropeços que em choque não reagiu.
Asmita havia voltado para casa perto das seis da tarde.
Como fazia quase todos os dias quando ia despachar as mercadorias no correio trouxe consigo um grande pote de sorvete de pistache, o preferido de Shaka, para a sobremesa após o jantar, então quando entrou na cozinha veio o susto. Ao descartar a sacola de plástico no recipiente para reciclados encontrou os cacos do prato quebrado sujos de sangue. Seu peito gelou, e correndo os olhos rapidamente pela cozinha encontrou mais manchas de sague no chão.
Em sobressalto saiu pela casa à procura do irmão, e se dando conta de que ele não estava em nenhum dos cômodos passou a mão no celular às pressas e ligou para Shaka, não apenas uma, mas duas, três, dezenas de vezes. Nenhuma chamada fora atendida.
Tentou se acalmar e tranquilizar seu coração repetindo para si mesmo que haveria de estar tudo bem, que talvez aquele fosse apenas mais um acidente corriqueiro dos tantos que Shaka sofria dentro da própria casa, e que talvez por causa deste o irmão tivesse ido à farmácia da esquina fazer um curativo.
Porém as horas foram passando, as ligações continuavam sem ser atendidas, o irmão não aparecia e o coração de Asmita a cada minuto se tornava mais angustiado.
Em verdadeiro desespero tentou entrar em contato com Shijima, que estava fora da cidade para fazer uma prova para tentar uma bolsa de estudos, depois ligou para a escola onde Shaka estudara, para alguns dos pouquíssimos antigos alunos que o irmão guardara o número para contato depois da escola de piano ser fechada.
Nada.
Ninguém tinha notícia.
Sua tensão e nervosismo aumentaram quando o pai chegou do trabalho já de noite e teve que lhe colocar a par do sumiço do mais novo.
A notícia infausta foi como um soco no estômago de Nilo, que caiu sentado no sofá levando ambas as mãos ao rosto, esfregando nervosamente os dedos grossos enrugados no couro cabeludo.
Em pânico ambos passaram horas tentando fazer contato com Shaka. Andaram pela vizinhança verificando becos e vielas, e sem obter sucesso por volta das dez da noite Asmita decidiu acionar a polícia. Ficou ainda mais nervoso quando na delegacia lhe disseram que para abrir uma ocorrência notificando um desaparecimento era preciso que Shaka estivesse sumido a mais de vinte e quatro horas, só então poderiam acionar as buscas. Sendo assim não lhes restavam alternativas a não ser esperar.
De volta à casa, Asmita e Nilo sentaram no pequeno sofá marrom de tecido puído que ficava no meio da sala de frente para a televisão, que estava desligada, e tentaram agarrar-se a pensamentos bons na esperança de que ele logo apareceria são e salvo. Conversavam na tentativa de acalmar o coração um do outro, debatendo que talvez Shaka tivesse apenas se perdido, já que sendo cego era muito comum tomar alguma condução errada ou virar uma esquina por engano, mas logo aquela doce fantasia fugia de suas mentes e o terror novamente lhes castigada. Shaka nunca saía de casa sem avisar, tampouco ficava fora até tão tarde, e para ter sumido sem nem ao menos atender suas ligações, fora o sangue dele na cozinha, alguma coisa muito ruim deveria ter acontecido. Nessas horas de maior aflição Asmita se levantava do sofá e tentando não se entregar de vez à desesperança ia para a frente da casa, até o portão. Lá corria os olhos aflitos e marejados pela rua escura enquanto rogava a deus e todos os santos que lhe dessem alguma notícia de seu irmão, ou que o trouxessem de volta, até que em uma dessas vezes, como se os anjos tivessem ouvido seu clamor e lhe concedido a graça pedida, eis que viu Shaka dobrando a esquina.
E nessa hora foi como sentir a terra firme sob seus pés novamente, o ar entrar em seus pulmões sem causar dor ou desconforto, e o coração voltar a bater sem lamentar.
Aliviado baixou a cabeça, fechou os olhos e deixou escapar um suspiro longo. Era como se todo o peso do mundo que lhe oprimia de repente tivesse sido tirado como num passe de mágica. Agradeceu ao deus que acreditava num sussurro baixo e privado, depois voltou a olhar para o irmão que se aproximava distraído enquanto falava ao celular como se nada tivesse acontecido.
Então todo o nervosismo, aflição e terror de antes transfiguraram-se em raiva. Pura e incontrolável.
— Ai, está machucando meu braço, Asmita! — Shaka reclamou enquanto era puxado para a sala. Ouviu o irmão bater a porta com força atrás de si e com o susto deixou cair a bengala.
— Tem a sorte de ser apenas o braço! — rosnou o mais velho.
Ao vê-los ali Nilo, que fazia mais uma ligação, arregalou os olhos.
— Pode largar essa merda de telefone, pai. Olha quem lembrou que tem casa e família. — disse Asmita que com um empurrão jogou Shaka sobre o sofá do lado do pai. Este tinha os olhos estupefatos cravados nele.
Embora já esperasse por uma recepção nem um pouco amistosa, o pianista surpreendeu-se com a violência do irmão e assustado tateou o sofá, com os olhos esgazeados hirtos voltados para o chão, colocando-se sentado entre duas almofadas grandes.
— Deus do céu, Shaka! Mas o que deu em você? Onde estava? Já é mais de meia-noite! — disse Nilo atirando-se para a frente para segurar o rosto do filho com ambas as mãos e analisa-lo em sobressalto à procura de algum ferimento — Você está bem? Está machucado? Tinha sangue na cozinha!
— Eu estou bem, pai. — o pianista respondeu levemente irritado franzindo as sobrancelhas — Só cortei o dedo... Me desculpe por não ter atendido às ligações e deixa-lo preocupado.
— Preocupado não. Você me deixou em pânico! Eu achei que algo ruim tinha te acontecido! Você sumiu Shaka! — respondeu o homem de rosto gentil, embora agora tinha impresso na fisionomia um ar severo.
— Desculpa pai, foi sem querer. — tentava mais uma vez se desculpar.
— Sem querer, Shaka? Como um garoto cego de dezenove anos some sem querer por horas? E por que não atendeu às ligações? Você perdeu o celular? Foi assaltado?
— Não. — quem respondeu foi Asmita em tom ainda mais alto e ríspido, e andando de um lado para o outro tentava controlar a vontade de voar no pescoço do irmão e esgana-lo por conta da preocupação que lhe causara e da irresponsabilidade cometida — Ele não perdeu nada, pai! Esse idiota não atendeu porque não quis! O celular está no bolso dele.
— Isso é verdade, Shaka? — Nilo perguntou não acreditando que seu menino mais novo pudesse ter lhe ignorado propositalmente.
O pianista comprimiu os lábios e apertou as mãos contra o estofado sem coragem para responder ao pai.
— Eu já pedi desculpas. — Shaka disse após um breve silêncio, e achando que apenas desculpar-se não bastava acrescentou: — Eu me distrai. Eu... não ouvi tocar. — mentiu, pois havia colocado o aparelho no mudo justamente para não atendê-los. Não queria tê-los preocupado, mas se atendesse às ligações seu encontro teria sido um fiasco.
— SE DISTRAIU? — o berro indignado de Asmita faz o mais novo se assustar e o pai lhe lançar um olhar firme — A quem você acha que engana, Shaka? Acha que está lidando com dois estúpidos?
— Asmita! — Nilo chamou a atenção do filho mais velho, em seguida baixou o tom e voltou-se para Shaka pousando uma das mãos em seu joelho — Filho, para uma pessoa como você um segundo de distração pode ser fatal. Nós estávamos preocupados, desesperados para falar a verdade. A gente chega em casa e tem sangue na cozinha, Shaka, então você não dá notícia, não atende as ligações... e só aparece depois da meia-noite.
— Apenas deixei um prato cair, pai, só isso. — disse o pianista voltando seu rosto para a direção que vinha a voz do pai, então suas feições embruteceram repentinamente — E o que quer dizer com uma pessoa como eu?
— Um cego! — novamente a voz de Asmita rugiu a plenos pulmões tomando toda a sala — Um deficiente. Não pode sair assim sem nos avisar, principalmente sozinho e à noite, e ficar perambulando até de madrugada por uma cidade desse tamanho.
— Por que eu não posso? — Shaka enfureceu-se — Ser cego não me impede de ter uma vida normal!
— Impede sim! Não seja ridículo, você é deficiente, Shaka! É dependente. Sua segurança é minha responsabilidade e do pai. — Asmita bradava apontando o dedo para o irmão — Eu cheguei a pensar que você tivesse sido sequestrado ou que tivesse morrido!
— Asmita! — Nilo arregalou os olhos e tampou a boca com os dedos, horrorizado só de pensar naquela possibilidade.
— Mas eu não fui! E eu estou vivo! — Shaka respondeu aflito tentando se defender — Eu sai de casa, só isso! Apenas saí.
— Apenas saiu? — o mais velho revirou os olhos ainda mais indignado com o pensamento simplista do irmão — Vai continuar negando sua deficiência e querendo fazer coisas que gente normal faz até quando, Shaka? Até sofrer um acidente grave ou coisa pior?
— Mas eu sou normal! — agora era a voz do pianista que se erguia, e tal como ela ele também se levantou do sofá num gesto brusco e cheio de coragem. Mantinha os braços em paralelo ao corpo rijo e os olhos levemente abaixados, embora soubesse que o irmão estava ali, logo à sua frente — Não há nada de anormal em mim, Asmita! Nada! — berrou, para espanto do irmão e do pai que nunca o viram revidar quando tomava uma bronca.
— Ah, não há? Parece que é cego dos olhos e da cabeça também. — rebateu o mais velho — Faz ideia do tanto de coisas ruins que podem acontecer a uma pessoa cega nessa cidade imensa?
Shaka geralmente ficava magoado quando Asmita falava consigo daquele jeito, mas agora era diferente.
Naquela noite tinha conhecido Mu, e este havia lhe mostrado que podia sim ter uma vida normal. Podia amar e ser amado. Podia sonhar, desejar... Mu havia lhe provado sua utopia. A possibilidade de haver um mundo onde era aceito como era e onde não o tratassem como um inválido.
Agora ele trocara a mágoa pela raiva. Raiva por Asmita e o pai o prenderem nesse mundo repleto de rejeição, preconceito, monstros e perigos iminentes e impedi-lo de conhecer o outro lado.
— Será possível que você só pensa no que pode me acontecer de ruim? Nunca parou para pensar que podem acontecer coisas boas para mim também, Asmita? — disse Shaka, que tinha os músculos do rosto trêmulos e as mãos fechadas com tanta força que já sentia as unhas castigarem as palmas.
— Você é idiota ou o que, Shaka?
— Eu não sou idiota, eu só quero que entendam que me privar de tudo por medo de que algo ruim me aconteça só faz com que vocês me impeçam de também viver as coisas boas.
— Oh, sim, você é um idiota. — retrucou o mais velho nervoso — Acabo de ter a prova disso. Se esqueceu de quantas vezes eu fui te recolher apagado na rua depois de levar uma surra, seu idiota? Não foi uma vez, nem duas, foram várias! Perdi a conta do número de vezes que ouvi seus gritos e quando corri até você te encontrei todo estropiado, sangrando porque alguns babacas acharam divertido bater no moleque cego. E quantas vezes foi assaltado?... Fora os acidentes, quedas... Até atropelado você já foi! Ora, não seja imbecil, seu irresponsável! Nós aqui loucos de preocupação com você, o pai tendo que levantar cedo amanhã para trabalhar e acordado até essa hora, e você andando de sorrisinhos por ai? Onde você estava, porra? — gritou.
— Asmita! — Nilo repreendeu mais uma vez o mais velho levantando-se também do sofá e se pondo ao lado de Shaka — Meninos, por favor...
— Não é da sua conta. — o pianista respondeu erguendo a cabeça e fixando o olhar na direção do som da respiração do irmão.
— Como é que é? — Asmita deu um passo à frente encarando os olhos de mirada congelada do pianista.
Shaka também deu um passo à frente até a ponta de seu pé encostar na mesinha de centro, então calculou a direção na qual deveria virar-se para seguir para seu quarto. Não estava gostando nada do rumo que aquela discussão estava tomando.
— Eu já pedi desculpas e prometo que não deixarei de atender ao celular nas próximas vezes que sair. Eu errei, admito, e lamento muito ter preocupado vocês, mas eu sou maior de idade, posso sair a hora que eu quiser e tenho direito a ter privacidade. — disse virando-se para a esquerda para caminhar até o quarto.
Se quisesse voltar a encontrar Mu muita coisa teria que ser mudada na maneira como era tratado em casa pelo pai e pelo irmão, ou o perderia, e só a ínfima possibilidade de isso acontecer causava no pianista um terror imenso.
Os olhos azuis selvagens de Asmita quase saltaram das órbitas ao ouvir aquelas palavras.
Num ímpeto de raiva esticou o braço e agarrou o ombro da jaqueta de Shaka o puxando de volta.
Não ia engolir mais aquele desaforo.
— Onde pensa que vai? É da minha conta sim senhor! — disse rangendo os dentes e se colocando na frente do pianista a pouquíssimos centímetros de distância — Agora além de irresponsável virou um ingrato? Lógico que é da minha conta, Shaka!
— Não, não é! — com o olhar baixo o músico reagiu espalmando meio atrapalhado ambas as mãos no peito do mais velho e o empurrando para que se afastasse — Eu sou muito grato por tudo que faz por mim, Asmita, mas não vou mais permitir que me impeça de viver a minha vida! Pelo amor de Deus, olhe para você, irmão. Você também está deixando de viver a sua vida para vigiar os meus passos!... Até quando vai ser assim? Você não sai para se divertir ou se distrair, não tem amigos, não tem ninguém a seu lado, uma namorada, um namorado... E por que? Porque você acha que tem que me vigiar. Que o propósito da sua via é cuidar de mim, quando não tem mais que ser assim! Isso não é justo com você e também não é comigo. Eu... eu não quero isso! Eu quero que viva sua vida e me deixe viver a minha! Quero poder sair quando quiser e voltar a hora que quiser.
Asmita reagiu com ardor, bufando, o encarando, depois levantou a mão e encostou a ponta do dedo indicador no peito do pianista imprimindo força.
— Como tem coragem de dizer isso, seu moleque? Eu dediquei a minha vida a você, eu fiz uma promessa à nossa mãe! — seu rosto transfigurado era pura revolta e rancor. As palavras revoltosas do irmão lhe soavam como a mais pura ingratidão — Eu abri mão de muita coisa por você. Eu trabalho em casa só para poder cuidar de você, cozinho para você, limpo sua sujeira e é assim que me retribui?
— Asmita! Chega! — disse Nilo nervoso pegando no ombro do filho mais velho. Não gostava de ouvi-lo falar daquele modo com Shaka — Os dois estão errados.
— Ah, eu estou errado, pai? Errado em quê? — respondeu o mais velho — Em querer manter esse mal-agradecido vivo e seguro? Não é hora do senhor passar a mão na cabeça dele não! Ele é quem está errado. — voltou-se para o pianista novamente se aproximando até seus rostos ficarem bem próximos. Seus olhos exibiam um brilho fugaz e rancoroso — Você não pode sair quando quiser, não senhor. Você é deficiente. Vai ter que aceitar isso!
— Eu já aceitei, Asmita. Ainda que não tenha me conformado já aceitei, mas... — Shaka respondia quando foi interrompido.
— Pois me parece que não, que não aceitou porra nenhuma, porque além de aceitar que é cego precisa cair na real e aceitar que precisa de ajuda... Olha aqui! — esbravejou Asmita entre perdigotos pegando na mão de Shaka que tinha o dedo com o curativo — Pode ter cinquenta anos que não vai poder sair de casa sem dizer onde vai, já que não é capaz nem de colocar a comida no prato e comer sem se machucar. — esbravejou Asmita entre perdigotos.
— CHEGA! — súbito o pianista gritou, novamente os surpreendendo, e com um gesto brusco recolheu a mão que o irmão segurava — Eu não aguento mais ouvir você dizer essas coisas! Nem todo mundo me enxerga como você, Asmita. Você está errado!
— Ah, eu estou errado? — o mais velho rebateu em tom irônico.
— Sim, está! Há quem me veja como uma pessoa normal, que pode ter uma vida normal. Estudar, trabalhar, namorar... Não preciso e não vou mais me esconder em casa!
— Ah, é? Quem?
De repente ambos ficaram em silêncio, e esse mutismo incômodo só terminou quando Asmita, irado, enfim botou para fora o que o vinha incomodando há dias.
— Por acaso é o cara esquisito do metrô? É dele que está falando? Daquele merdinha esquisito burguês que tem ido tocar aquela bosta de piano com você?
O rosto de Shaka ficou lívido.
