Pouco antes de Shaka chegar em casa, Mu saltava do elevador do prédio onde morava com o coração mergulhado em aflição, e esta só foi embora quando recebeu a mensagem do pianista lhe dizendo que já estava bem, que já estava na rua de casa. Estranhou a forma súbita e seca como ele havia encerrado a mensagem, mas depois de ter conhecido Shaka julgou que ainda estranharia muitas outras coisas e não se prendeu à lógicas triviais, até lhe enviou uma mensagem gravada em áudio lhe desejando boa noite.
Agora sim mais calmo, subiu pelas escadas mesmo até o andar de cima e exultante tocou a campainha do apartamento de Afrodite repetidas vezes.
Não sabia se a demora do sueco em atender a porta era fruto de sua euforia ou se algo se passava com ele, mas quando enfim a abriu concluiu que eram ambas.
— Mas... que diabo você está aprontando, Afrodite? — perguntou com os olhos arregalados e o semblante espantado ao ver à sua frente o amigo sueco com os cabelos, que antes eram loiros muito claros, tingidos de um tom azul piscina gritante, o mesmo que também estava impresso em seu nariz, orelhas, testa, praticamente todo o contorno de sua face e nas pontas dos dedos das mãos — Vai fazer figuração na sequência e Avatar? — não foi capaz de conter o riso e desandou a gargalhar.
— Há, há, há... Nunca reparei o quanto você era engraçado. — Afrodite respondeu com uma expressão de desdém que durou tanto quanto tempestade de verão. Logo ria junto do amigo o puxando para dentro pela gola da camisa — Eu fui pintar o cabelo e me atrapalhei um pouco com a tinta. Só manchou um pouco. Nada que água quente não resolva. — fechou a porta seguindo Mu que caminhava até a sala, e quando voltaram a ficar um de frente para o outro sorriu levando as mãos até as madeixas azuis onde meteu os dedos dando uma leve batidinha — O que achou? Gostou?
— Sim. Quem sou eu para falar que não? — o estudante de cinema respondeu apontando o dedo para os próprios cabelos tintos de lilás desbotado — Mas... por que azul piscina? Algum motivo específico? Algum trabalho?
— Que nada. Senta ai. — disse o sueco apontando o sofá enquanto se sentava em uma cadeira amarela em formato de concha que ficava um pouco mais ao lado — Eu fiquei sabendo que Camus não gosta de homens loiros
— Ah! — Mu fez uma pausa olhando para ele enquanto balançava os ombros em sinal de dúvida — Então por isso você pintou o cabelo de... azul. Ótima solução! — concluiu com uma risada sonora — E como ficou sabendo que o Camus não gosta de loiros?
— Milo. — Afrodite respondeu estreitando os belos e enormes olhos aquamarines.
— O Milo? O que tem o Milo?
— Milo está tentando dar ideia nele há um tempo já, e agora tomou um toco definitivo. — riu satisfeito — Hoje de manhã tomamos café juntos no intervalo e ele me disse que mandou a real para o Camus. Falou que tinha interesse nele e de quebra o convidou para sair, e sabe o qual foi a resposta?
— Qual?
Afrodite respirou bem fundo, estufou o peito, ergueu a cabeça de modo a seu queixo fino e o nariz empinado lhe conferirem um ar tão esnobe que faria inveja aos membros da monarquia inglesa e fazendo um biquinho fechou os olhos e respondeu imitando o sotaque francês carregado do colega em questão:
— Sinto muito, mas o interesse non é reciproco, você non faz meu tipo. Seria melhor sermos apenas amigos mesmo, ça vá? Bon jour! — depois desfez aquela postura caricata dando uma risada.
Mu franziu a testa quase juntando as sobrancelhas ralas e comprimiu os lábios numa expressão que era um misto de espanto e divertimento.
— Serio? Nossa... Mas o Camus pegou o toco e cravou com gosto no peito do coitado. — disse o estudante de cinema finalmente soltando o riso preso enquanto balançava a cabeça em descrença — E olha que o Milo não é um cara a ser facilmente rejeitado... Ele é um gostoso. Conheço um monte de gente que anda de quatro por ele.
— Concordo. Milo é um tesão, mas eu sou mais! — disse Afrodite provocando mais risos em Mu.
— Eu que o diga, né! Mas, deixando os homens tesudos de lado e voltando ao foco da questão, então por causa do toco que o Milo levou, e sendo ele loiro, você deduziu que o enjoado do Camus...
— Não gosta de loiros. — o sueco o interrompeu estalando os dedos — Ora, senão por que mais seria? Como ambos acabamos de concordar Milo não é um homem a se jogar fora assim. Então, se Camus não gosta de loiros de azuis ele vai gostar! — balançava as madeixas no ar enquanto falava, até que parou e voltou sua atenção para Mu agora assumindo uma fisionomia mais atenta e firme — Mas, esqueça Camus e Milo. Não veio aqui para falarmos deles, não é?
— Não. — Mu sorriu, agora de forma mais tímida.
— E se você me apareceu aqui só agora, quase uma da madrugada, significa que... — fez uma pausa encarando a face corada do outro — O tal pianista foi ao encontro, e pelo jeito não te decepcionou.
Mu deu uma risadinha mordendo o lábio inferior e com um movimento inesperado e ligeiro levantou-se do sofá já atirando-se para frente para pegar na mão do amigo sueco. O puxou para que também se levantasse.
— Vem, vamos à cozinha abrir uma cerveja que eu tenho muita coisa para te contar. — disse enquanto o puxava pelo caminho.
— Meu deus! Pelo visto o encontro rendeu! Vocês transaram? — disse empolgado o sueco.
— Não, tonto! Claro que não! — Mu balançou a cabeça rindo — O que rolou foi muito mais intenso que qualquer transa. Eu vou te contar tudo.
Levou pouco mais de meia hora para que Mu relatasse, com as devidas minúcias, a experiência arrebatadora que vivera naquela noite ao lado do pianista, enquanto completamente em silêncio Afrodite o media com o olhar estupefato, atento a cada detalhe, ainda que um em especial valesse por todos, e era justamente esse o que mais lhe intrigara.
— Cego? — repetiu com os olhos arregalados cravados no rosto de feições serenas de Mu. Segurava uma latinha de cerveja que já tinha até esquentado em sua mão tamanho seu alarde — Meu Deus, o pianista... é cego!
— Sim. — disse o estudante de cinema dando um gole na bebida, também já quente. Estavam encostados na pia e sobre essa havia um pote cheio com sementes de pistache. Vez ou outra Mu descascava uma e a atirava na boca.
— E eu achando que ele tinha se apaixonado pela sua cara bonita e esse corpão atlético. — disse ainda totalmente surpreso; mal piscava encarando o rosto de Mu — Como a gente não sabe nada da vida!
— Exato. Nem todos enxergam as pessoas e o mundo com os olhos... Shaka o deve enxergar com a alma. — disse o estudante de cinema que tinha o olhar perdido em algum ponto qualquer da cristaleira do sueco, onde este guardava uma coleção modesta de canecas com temáticas diversas, desde elementos da cultura pop norte americana, à times de Rugby de várias partes do mundo. Não tinha nenhuma pretensão em ser atleta profissional, até porque lhe faltava porte físico e interesse, mas era um apaixonado pelo esporte, em especial pelos jogadores.
— Pelo amor de Deus, Mu, como você não percebeu isso logo no primeiro dia, seu tonto? — o sueco perguntou colocando a latinha de cerveja sobre a pia, e a pergunta atraiu a atenção de Mu para si, o resgatando daquela divagação momentânea.
— Ah, meu contato com ele no Terminal, no piano, era muito rápido. Eu simplesmente parava ali do lado dele, tocava algumas teclas, depois sentava na banqueta e continuava tocando... E durante o tempo todo ele mantinha os olhos fechados e a cabeça abaixada com os cabelos cobrindo grande parte do seu rosto... Parecia que ele estava concentrado. — fez uma pausa vivenciando a cena em sua mente — Ele disse que mantém o cabelo comprido para esconder alguma coisa que pudesse ser desagradável em sua aparência já que não tem muita ideia de como ela seja. — deu um breve sorriso acompanhado de um menear sutil de cabeça — Olha que absurdo... Se ele soubesse o quão bonito ele é, o quão... incrível ele é... Enfim, eu estava nervoso também, e achei que era apenas timidez esse comportamento atípico dele.
Ainda aturdido por aquela revelação Afrodite virou-se de frente para Mu ficando bem próximo.
— Mas, você disse que o olhar dele era algo incrível, algo que... mexeu profundamente com você. Como pode isso se ele é cego?
— Eu... não faço a menor ideia. — o estudante de cinema respondeu olhando para o sueco — Agora eu sei que ele não olhou para mim naquelas duas vezes no Terminal, mas ele me viu, Dido. A seu modo, e de algum jeito incompreensível para pessoas como você e eu, mas ele me viu!... Depois, os olhos dele são absolutamente normais, são luminosos, brilhantes, são... lindos! Eu pude admira-los a centímetros de distância, bem de perto mesmo. Olhei dentro deles e são as íris azuis ciano mais maravilhosas que eu já vi.
Afrodite respirou fundo soltando o ar pela boca e erguendo as sobrancelhas sem conseguir esconder a tensão.
— Puxa, eu nem sei bem o que dizer, Mu. — levou a mão à cabeça e coçou levemente o couro cabeludo — Digo, num dia você me aparece aqui todo apaixonado por um pianista gato que você viu no metrô, e no outro me diz que ele é cego!
— Ora, mas ele ser cego não muda o fato de eu estar apaixonado por ele.
— Ah, não? — o estudante de moda arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— Mas é claro que não, Afrodite! Você não continua apaixonado pelo Camus mesmo depois de saber que ele é um fresco? Um chato da porra, enjoado do caralho? Ai, não gosto de loiros, não gosto de morenos, não gosto de orientais, não gosto de magros de mais, nem de fortes demais, nem de negros, de latinos, de albinos, de sardentos...
— Vai gostar de azuis! — o sueco riu já mais descontraído — Ok, foi uma constatação estúpida da minha parte, mas... Camus só é chato e seletivo, não é deficiente, né Mu.
— Mas Shaka também não é "deficiente", eu não gosto da forma como essa palavra limita a percepção de quem ele é. Ele é só... diferente de nós. — disse Mu — Ele é independente, e ele é... tão sensível. Ele disse que as pessoas costumam rejeitá-lo por ser cego, e eu percebi que durante vários momentos quando já estávamos no café ele estava inseguro... mas, sabe o que isso significa, meu caro Afrodite, novo habitante de Pandora? — esticou o braço e colocou uma mecha de seus cabelos azuis atrás de sua orelha.
— Hum, o que significa? — o estudante de moda riu.
— Significa que ele também pensou em mim nesses dias todos, que fez planos, e que se ele estava inseguro é porque o interesse é recíproco. — Mu deu uma piscadinha marota para o outro.
— É... faz sentido! — ainda rindo Afrodite cruzou os braços.
— E você pode me chamar de biruta, ou achar que estou sendo precipitado me deixando levar por uma paixão tão súbita quanto maluca, mas quando nos beijamos lá no Terminal eu juro que senti algo diferente.
— Diferente como?
— Não sei explicar ao certo, mas... não era apenas atração ou tesão que me levaram a desejar beija-lo, toca-lo... Digo, não foi como das outras vezes, sabe? Com os outros caras, que você beija porque está com tesão e quer dar uns pegas e tal. Eu estava atraído sim, mas era mais que isso. Eu queria estar com ele, sentir o toque dele, fazer parte do mundo dele, e fazê-lo parte do meu. Queria carrega-lo comigo através daquele beijo muito além do físico... Eu... eu não sei como por em palavras o arrebatamento que eu senti ao beija-lo. — o estudante de cinema agora tinha o olhar vago, como se estivesse tentando buscar em seu acervo mental e emocional alguma explicação que traduzisse o que seu coração sentia — Eu senti que é ele, Dite. — baixou o olhar e encarou os olhos do amigo sueco para concluir — Tenho certeza que é ele.
Afrodite apertou os lábios enchendo as bochechas de ar antes de solta-lo lentamente fazendo um bico.
— Mu, você não acha que ainda é cedo para...
— Eu senti! — o estudante de cinema o interrompeu — Essa história de alma gêmea, da tênue linha que existe entre as pessoas e que chamam de destino... Me interne em um hospital psiquiátrico, mas eu acho que encontrei a pessoa destinada a mim nessa vida, e essa pessoa é o Shaka.
Afrodite levou uma das mãos à própria fronte onde esfregou ligeiramente os dedos, enquanto seu semblante assumia um aspecto sério, concentrado. Pensava em tudo que o amigo lhe dizia e não conseguia esconder uma fração de preocupação que lhe martelava o juízo.
— Mu, eu estou verdadeiramente feliz por você, meu querido. — disse por fim esticando o braço e tocando no ombro do outro dando um leve apertão — Mas... não é querendo te desanimar não, mas sabe que isso pode, e vai, se tornar um problema para você, não sabe?... Você nem saiu do armário da casa dos seus pais ainda, porque você sabe que quando sair vai ser um deus nos acuda! Imagina agora, se realmente você e esse garoto ficarem juntos, se resolverem assumir um relacionamento sério mesmo... tudo muda. Não é como pegar um cara ou outro por aí... Se quiser ter esse tipo de relacionamento lindo que está me descrevendo, se ele for o homem da sua vida como está dizendo e querendo que seja, o cara com quem vai dividir todo o seu futuro, não vai mais ter como se esconder, Mu... Você vai ter que contar ao estrupício do teu pai que além de viado você arrumou um namorado cego.
Mu ficou sério de repente.
Ouvir aquilo fez seu corpo todo estremecer e seu coração acelerar, ainda que de forma sutil. Sim, estava fugindo de uma realidade que não queria aceitar, mas o fato de não aceitá-la não a excluía de sua vida. Andara tão empolgado e exultante nesses últimos dias vivendo intensamente aquela paixão avassaladora que sua alegria tinha engolido sua realidade. Uma pena que não a tivesse também digerido. Agora ela estava lá novamente, indigesta e ocre.
Mu não havia revelado à família que era gay. E para não tê-lo feito ainda é porque sabia que não enfrentaria moinhos de vento, mas monstros bem reais. Monstros esses que já vinham assombrando sua vida desde criança na forma das tantas cobranças que os pais lhe faziam e das quais ele tinha convicção, mesmo antes de ter qualquer lucides acerca de si mesmo e de sua orientação sexual, que jamais as conseguiria cumprir.
Quando o pai tinha sua idade já era dono de um império erguido com igual determinação pelo avô. Uma rede de empreiteiras com filiais nas capitais de países em acentuada ascensão econômica ou polos industriais emergentes. O pai, que se tornou filho único após a morte do irmão gêmeo ainda na infância, mostrara-se um exímio executivo, e em poucos anos à frente das empresas duplicara o patrimônio da família. Apesar de pequena, esta era extremamente conservadora, presava pelos valores tradicionais, e isso incluía delegar a todos seus papéis específicos: o pai o provedor, a mãe a exímia dona de casa e aos filhos era exigido o dever de tomarem a frente dos negócios, assim como aumentar o número de descendentes ao se casarem e terem muitos filhos de preferência, assegurando o legado da família.
Mu crescera sabendo exatamente quais seus deveres como um dos dois herdeiros daquele império. Fora doutrinado, criado e educado para se tornar um grande empresário, como o pai e o avô, ou quem sabe engenheiro; valia até um bom advogado. Tudo para que pudesse auxiliar nos negócios da família. No entanto, sua alma sensível e dons artísticos nunca combinaram com as exigência fervorosas que o pai lhe fazia, e só na figura da mãe, a quem era extremamente ligado, foi que tivera algum apoio. Esta, muito atenciosa e perceptiva, notara que já desde muito jovem Mu era diferente de Shion, o filho mais velho.
Seu caçula tinha uma sensibilidade artística diferenciada, a qual ela lhe permitiu aflorar, ainda que sobre forte oposição do marido. Foi no colo da mãe que Mu descobrira o fantástico mundo da música, e esse lhe foi apresentado através de notas tiradas de um piano. Na juventude, como a maioria das moças nascidas em lares conservadores, ela aprendera a tocar o instrumento, e sonhara em se tornar uma famosa pianista. Também na juventude ela aprendera que os sonhos das mulheres acabam quando elas sobem ao altar e uma aliança de ouro é colocada em seus dedos. O piano em casa passou então a lhe servir apenas como distração, e foi através dele que deu as primeiras aulas ao filho caçula.
O piano abriu a porta para Mu de outro extraordinário mundo, o das artes. E uma vez que se cruza essa porta não há mais volta.
Por isso, quando Mu comunicou à família que queria estudar cinema a mãe intercedeu por ele junto ao pai, e somente a pedido dela foi que tivera permissão para tal.
Contudo, antes de começar a cursar o que realmente gostava Mu integrara à Faculdade de Administração e Negócios na Universidade de Harvard à mando do pai. O irmão mais velho havia se formado na mesma instituição anos antes, porém por livre e espontânea vontade. Mu fizera apenas o primeiro semestre, a contragosto, e após muitas discussões acaloradas, mais um tanto de protestos em casa, e por causa da insistência da mãe, acabou conseguindo o consentimento do pai para trancar a matrícula do curso, deixar Massachusetts e voltar para Nova York para cursar cinema na Universidade de Columbia.
Ainda que a contragosto os olhos de empreendedor nato do pai de Mu viram no sonho do filho em se tornar cineasta uma ótima possibilidade de lucro, já que é sabido que a propaganda é a alma do negócio. Ele podia não ter talento empresarial, mas o tino para a arte poderia lhe render bons frutos também, o que não era de todo ruim, apenas tornava Mu diferente do filho mais velho cujos olhos exibiam o mesmo fulgor da ambição e excelência daqueles que nasceram para se tornarem grandes líderes que tinham os seus.
Sendo assim fizeram um acordo. Mu podia cursar cinema em Columbia, mas em troca precisaria trabalhar em alguma produtora de TV para ir ganhando espaço e fazendo acordos comerciais que pudessem favorecer as empresas da família, sem contar que detendo conhecimento específico Mu poderia expandir os negócios através de campanhas publicitárias dirigidas por ele mesmo.
Tudo acordado Mu passou também a morar sozinho para aprender "a se virar", e como acreditava o pai tornar-se um homem responsável, ainda que sua única responsabilidade de fato fosse dedicar-se aos estudos, uma vez que todas suas despesas eram pagas pelo provedor da família, desde o aluguel do apartamento onde morava ao lado do campus até gastos pessoais.
Quando se viu longe da família Mu enfim teve a chance de conhecer mais a si mesmo e essa catarse o possibilitou libertar-se também das tantas convenções que lhe eram impostas e que causavam profundo sofrimento. A mais enraizada delas sem dúvida alguma era sua sexualidade.
Desde muito pequeno já sentia-se pensar e ser diferente de tudo aquilo que os pais lhe apresentavam, e essa doutrinação sempre o fez viver em constante conflito consigo mesmo. Quando entrou na adolescência os pais já lhe diziam incessantemente o que esperavam de si, que se casasse com uma boa mulher, preferencialmente do mesmo nível intelectual e social, e que lhes dessem netos, pelo menos dois ou três, já que o pai sempre quis ter uma família grande e promissora. Então, certamente que aparecer em casa lhes revelando que era gay geraria um conflito hediondo do qual ele sempre tentou fugir, sendo ao esconder o que sentia ou até mesmo namorando algumas garotas apenas para matar as desconfianças que seu comportamento diferenciado pudessem despertar.
Mas, agora era diferente.
Agora não tinha mais para onde fugir.
Se quisesse tentar ficar com Shaka não conseguiria escondê-lo dos pais por muito tempo, até porque queria gritar ao mundo que havia encontrado alguém que fizera seu coração bater mais forte.
— Eu... preciso falar primeiro com meu irmão. — disse Mu depois de longa pausa, então voltou a encarar sério os olhos de Afrodite — Tenho certeza de que Shion pode me ajudar a preparar o terreno.
— Então já contou para ele que você é gay? — disse o sueco roendo o cantinho da unha do dedo indicador. Estava tão nervoso quanto demonstrava estar o estudante de cinema.
— Não... ainda não contei. Mas... eu tenho para mim que ele sempre desconfiou.
— Hum... Não acho não. Você nem dá pinta. Para eu desconfiar foi preciso te dar uma encoxada na cozinha do teu apê. — o sueco riu ainda que de forma contida — E olha que meu radar é eficiente!
Mu riu junto dele lembrando-se do ocorrido.
— Lembra que quando vim morar nesse prédio eu tinha uma namorada?
— Tá brincando? Como iria me esquecer? Ela jogou um gato na minha cara! Quase perdi um olho. — Afrodite falou irritado.
— Eu não tiro a razão dela. — Mu riu, agora mais descontraído — Ela te pegou me beijando na cozinha da minha casa.
— Epa! Não! Você me beijou na cozinha da sua casa. — Afrodite apontou o dedo indicador para o amigo — Por causa da encoxada que eu te dei para tirar a prova real do que eu já andava desconfiando há dias você me agarrou e enfiou essa tua língua habilidosa ai na minha boca.
— Bendita encoxada! — Mu riu mais alto junto do sueco que gargalhava — Mas, enfim... perdi a namorada e o gato. Fiquei feliz em poder me assumir, mas triste porque perdi o gato... Depois dela não namorei mais garota nenhuma e Shion andou me sondando um tempo atrás. Não como se tivesse me cobrando, sabe, mas... algo que diz que ele desconfia, principalmente depois que pintei os cabelos. Meu irmão me conhece melhor que ninguém.
— E acha que ele vai te aceitar?
— Eu espero que sim. Shion, apesar de ser muito parecido com nosso pai, é mente aberta, é um cara legal, e sempre nos demos muito bem. — fez uma pausa respirando profundamente, visivelmente apreensivo — Porque, Dite... se nem ele me apoiar ai sim, eu não sei como vai ser, ou melhor, eu sei... Vai ser uma catástrofe, e vou estar completamente sozinho. Meus pais sempre deixaram bem claro o que eles pensam sobre homossexuais e qual o lugar deles.
Afrodite o olhou com pesar, então esticou o braço e novamente tocou seu ombro.
— Eu queria muito poder dizer que vai dar tudo certo, mas eu sei bem que não é assim. E sei também que dizer que nunca estará sozinho porque tem a mim não é tão confortante quanto soa, porque eu sei que o apoio da família é tudo que queremos nessa hora, e mesmo que os amigos façam o papel dos pais o peso nunca será o mesmo. Mas, a gente não pode ter tudo, né Mu.
— Sim, eu sei... Na verdade adiei tanto esse momento porque tinha como certo que jamais iria revelar isso a eles. Jamais iria dar a meu pai mais esse... desgosto. — a voz de Mu embargou, sendo necessário que ele respirasse fundo para prosseguir. Tocar naquele assunto era sempre extremamente doloroso — No fundo nunca vi mesmo a necessidade de contar a ele que sou homossexual. Na minha cabeça iria viver a minha vida, desfrutar desse tempo da faculdade, pegar um cara aqui, outro ali, aproveitar, então iria chegar a hora de cumprir o meu dever e me casaria com uma mulher, teria os netos que eles tanto querem, e então supriria minha necessidade de sexo com homens pagando por isso simplesmente. É o que a maioria faz, por que então não daria certo comigo também? Ninguém da família precisaria saber de nada.
— Hum, e o que mais, iludido? — Afrodite sorriu, mas sem deixar de sentir pena dele.
— Mais... nada. Shaka acabou com todas essas possibilidades. Ele simplesmente colocou abaixo todos esses meus planos furados, porque... eu quero que ele faça parte da minha vida, Afrodite. Eu não quero que ele seja apenas mais um homem com quem eu transo... Eu quero andar com ele de mãos dadas na rua, quero sair para escolhermos juntos os móveis da nossa casa, quero passar a véspera de Natal enfeitando um pinheiro que ele comprou... Entende?
— Senhor amado! — exclamou Afrodite de boca aberta.
— Eu não quero só fazer sexo com ele, isso não é suficiente para suprir a necessidade que eu sinto da presença dele. Eu... eu quero e preciso de todos esses mínimos detalhes do cotidiano que um casal tem. Pela primeira vez eu percebi que eu não quero me casar de fachada com mulher nenhuma e ter que procurar garotos de programa por aí, ou ter um amante escondido... Por Deus, se eu for me casar um dia eu quero que seja com ele. — apesar do teor apaixonado da confissão a voz de Mu era carregada de profunda angústia, pois sabia exatamente as consequências que viriam ao desejar tudo aquilo ao lado de Shaka. Era quase como se desejar ser feliz fosse errado. Não à toa vivera em negação durante tantos anos, e mesmo agora ainda não havia se assumido completamente para a sociedade — Mas para eu viver esse desejo, para Shaka fazer parte disso tudo, eu não tenho outra alternativa senão abrir o jogo com meus pais. — o estudante de cinema deu um sorriso nervoso e melancólico, num misto de aflição e alegria.
— Tá maluco? Vai com calma, você só deu um beijo nesse pianista e já está falando de casamento!... Mas, pelo menos agora então você se deu conta de que ser gay não te torna uma pessoa diferente das outras? Não tem que agir diferente, Mu. Não tem que esconder quem você é e nem se obrigar a fazer coisas que não deseja, como um casamento forçado com uma coitada a quem você só faria sofrer também. — Afrodite apertou mais uma fez o ombro do amigo em um gesto de conforto — Por mais difícil que seja, antes você se tornar um desgosto, como você mesmo diz, para seus pais do que se tornar um desgosto para si mesmo. É a sua vida, meu querido. Depois, você pode bem deixar a missão dos netos para o teu irmão, não pode não?
— Não é tão simples assim. — Mu lamentou — Meus pais sempre me cobraram muito... — suspirou enfastiado — Bem, vou pensar com calma. Talvez apresente o Shaka a eles primeiro como amigo. Tenho certeza que vão adorá-lo, porque ele é culto e toca piano com um talento que vi poucas vezes na minha vida. Minha mãe ama piano e sonhava que eu me tornasse um pianista.
— Ainda acho que você está se precipitando. — disse Afrodite — Deixa passar mais um tempo. Você acabou de conhecer esse garoto, nem foram para cama ainda. Nem parece o Mu que conheci, amante das farras, desapegado... Do jeito que fala parece até que já está em um relacionamento sério. Nem mudou o status no Facebook. — sorriu tentando descontrair o outro que tinha o semblante deveras sério — Eu sei que está apaixonado, por isso é normal achar que ele é o cara da sua vida, mas vai com calma. Não esquenta sua cabeça ainda.
— Pode até ser que esteja mesmo sendo precipitado, mas confesso que o que mais queria agora era pegar o carro e ir até o Bronx pedir para ele ser meu namorado. — riu de si mesmo enquanto meneava a cabeça injuriado.
— Meu Deus, ele mora no Bronx? — Afrodite perguntou arregalando os olhos com uma expressão de espanto.
— Mora. — Mu apertou os lábios.
— Tanto homem nessa cidade e você se apaixona por um viado cego e suburbano... Você tá muito fodido.
— É eu sei. — o estudante de cinema soltou um suspiro ruidoso — Mas... eu quero tentar. Eu não vou desistir dele só porque tudo parece difícil. E se porventura tudo se tornar uma grande catástrofe e Shaka não quiser ficar comigo eu venho aqui e choro no seu ombro durante um mês inteiro e toco a vida... Eu só não posso e não vou escondê-lo de ninguém... ele não merece isso, principalmente da minha família. A vida do Shaka já não deve ser fácil e eu não quero entrar nela para ser mais um problema para ele.
Os olhos de Afrodite brilhavam enquanto divisavam Mu encantados.
— Por que mesmo você não se apaixonou por mim e eu por você? — perguntou sério, com o olhar parado, fixo no amigo.
— Por que nós somos amigos, seu trouxa. — Mu respondeu quase às gargalhadas — E porque é do enjoado do Camus que você gosta.
— Hum, que pena... porque outro de você nunca que eu vou achar. Você é o boy perfeito! — suspirou profundamente — A vida é assim, a pessoa tem o cara dos sonhos bem na frente dela, mas é o traste ruivo que ela quer. — Afrodite sorriu divertido com a constatação da própria realidade trágica — Que sorte tem esse pianista. Por falar nele, ele vem amanhã para a festa?
— Ele disse que sim. — Mu respondeu espreguiçando-se — Amanhã mando uma mensagem para ele confirmando... Posso dormir aqui? Estou com preguiça de ir para casa.
— Só dormir mesmo?
A pergunta do sueco pegou o estudante de cinema de surpresa, que de olhos arregalados o encarou. Não que já não tivesse ouvido aquela mesma proposta da boca do amigo inúmeras vezes antes, e não apenas ouvido como aceitado, mas dessa vez a ideia simplesmente o perturbou, pois agora soava como se fosse uma violação a tudo o que sentia por Shaka, que já reinava absoluto em seu coração.
Desconcertado não soube como reagir, mas logo percebeu o tom de brincadeira que o outro usara quando esse começou a rir já se desencostando da pia.
— Bom... Agora eu acredito que é amor de verdade! — disse o sueco — Devia ver sua cara!
— Deixa de ser besta, Afrodite.
— Relaxa, eu só queria ver a sua reação. — continuava rindo — Claro que pode dormir aqui. Mas o seu quarto, o de hospedes, virou meu ateliê.
— Não tem problema. Eu vou dormir, não ficar reparando na sua bagunça.
— Então vamos para cama que amanhã eu tenho um coração de gelo para derreter com o meu charme e sedução e você tem um pianista gato para me apresentar. O seu boy é cego, mas o meu futuro boy enxerga muito bem, e não quero que ele repare nas minha olheiras!
Aos risos ambos seguiram aos respectivos quartos, mas aquela noite de longe fora reconfortante para o estudante de cinema, e a culpa não estava na bagunça do ateliê de Afrodite, tampouco do sofá-cama no qual Mu se revirava repetidas vezes à procura do sono almejado. Seus pensamentos estavam voltados para os conflitos que levantara na conversa com o amigo sueco, em como lidaria com o pai daquele dia em diante, já que Shaka agora fazia parte de seu mundo e este ainda não era, de fato, completamente seu; teria que conquistar seu espaço para que pudesse acolher o pianista nele e viver aquele amor tão urgente.
Seu futuro era incerto, e por mais complicado que lhe parecesse delinear os tortuosos caminhos pelos quais sabia que iria ter que passar para vive-lo, de uma coisa ele tinha certeza: Shaka estaria nele.
