Mu já havia despertado há alguns bons minutos. Era sábado, e ele podia se dar ao luxo de ficar uns momentos a mais estirado na cama aninhado aos travesseiros, ainda que estes não eram os seus e nem a cama era a sua. Aliás, aquela nem cama era, se tratava de um sofá-cama velho e já bem surrado, mas que no estado de graça em que o estudante de cinema se encontrava pouco lhe importava conforto físico, já que tinha o espírito e o coração aconchegados pela doce lembrança do pianista.
Ainda deitado esticou o braço e apanhou o celular deixado no chão, e já ansioso àquela hora da manhã com a expectativa do reencontro com Shaka, animado lhe gravou uma mensagem de áudio.
— Bom dia, Shaka! Dormiu bem? Vou te enviar o endereço exato de onde será a festa. Vou digitar uma mensagem para que possa ouvir quando estiver vindo. Mas, volto a dizer, se quiser eu posso busca-lo na sua casa... ou posso encontra-lo no metrô se preferir, na 116th Street Columbia University, que fica na mesma avenida aqui do meu prédio, na Broadway... Camus marcou para as vinte horas, tudo bem?... Eu... espero que o dia passe bem rápido, porque... Eu não consigo parar de pensar em você.
Ainda olhando para a tela do celular um tanto envergonhado deixou escapar um riso sutil enquanto digitava o endereço e alguns pontos de referência. Era surpreendente como ficava tímido ao falar com o pianista, ainda que apenas por mensagem, e por isso ria de si mesmo.
Exatamente na hora em que enviava a mensagem Afrodite abriu a porta e com toda sua natural animação matinal o surpreendeu.
— Hum, me deixa adivinhar. Esse risinho bobo na sua cara não é de quem está falando com a mãe, ou o irmão, tampouco com o atendente do Call Center, ainda que este estivesse te oferecendo uma promoção daquelas, tipo, irrecusáveis! Acertei? — disse adentrando o ateliê trazendo consigo duas canecas com café.
— Estava mandando o endereço daqui para ele. — Mu respondeu rindo do amigo enquanto se sentava para apanhar a caneca que ele lhe oferecia — Obrigado.
— E ele vem sozinho? Digo... ele... ele anda sozinho na rua? — o sueco perguntou sentando-se ao lado do estudante de cinema.
— Sim, ele anda. Ele vai sozinho ao Terminal tocar o piano... E ele foi sozinho ao nosso encontro. — disse Mu bebericando o café — Dido, Shaka é cego, não inválido.
— Ora, sim, mas... Cara, isso é perigoso. Gosto nem de pensar! — Afrodite chacoalhou a cabeça negativamente e com veemência.
— Sim, perigoso certamente que é, mas ele deve estar acostumado... nós que não estamos. — disse Mu.
— Tem razão. — o sueco respondeu sorrindo — Bom, então capricha na produção hoje. Deixa esse cangote bem cheiroso para o seu pianista!
— Ah, eu vou deixar! — Mu sorriu de volta.
— Não dizem que o amor é cego? No seu caso, além de cego o amor é loiro, toca piano e adora chá gelado com chantilly. — disse Afrodite se levantando — Já o meu não é cego, mas insiste em não me enxergar... Só que de hoje ele não me escapa!... Fique à vontade. Tem mais café na cozinha, pão, frutas... Eu vou tomar um banho para terminar de tirar essa tinha azul impregnada até na minha alma.
— Ok. Obrigado, Dido. — Mu respondeu aos risos, e esses logo se transfiguraram em doce aspiração quando seu celular apitou notificando uma mensagem recém chegada.
Rapidamente ajeitou-se no sofá para ouvi-la, e logo que a voz suave e terna de Shaka preencheu-lhe os ouvidos sentiu no peito o coração palpitar.
"Bom dia, Mu... Dormi bem sim. Não podia ser diferente, já que adormeci ouvindo sua voz... Recebi o endereço e aceito sua gentileza, pois nunca fui para os lados de Columbia. Pode me encontrar na 116th Street Columbia University Station? Às 19:30 está bom para você?... Também estou ansioso para reencontrá-lo."
A resposta de Mu veio quase que imediata, e Shaka a ouviu com um sorriso no rosto, apesar de seu espírito naquela manhã não refletir tal alegria.
A discussão com o irmão mais velho na noite anterior ainda pairava sobre si feito uma nuvem escura, pesada, a qual lhe lembrava a todo momento que o tempo ali não estava muito a seu favor. Mesmo assim o pianista não queria se deixar abater. Depois de uma noite de sono nada confortável e reparadora, já que dormira no chão aninhado ao travesseiro, Shaka enfim conseguiu ouvir a voz da razão. Já não sentia raiva ou rancor de Asmita. Tinha consciência de que havia errado, especialmente por ter se deixado levar pela raiva e descontrole e partido para as vias de fato, mas sabia que se quisesse conquistar o direito de ir e vir, se quisesse garantir a liberdade e privacidade necessárias para viver sua história com Mu, apenas pedindo permissão à família é que não conseguiria nada.
Por isso, mesmo quebrado por dentro, ávido para ir até o irmão, abraça-lo com força e pedir perdão pelo soco Shaka manteve-se firme. Sabia que se cedesse voltaria à linha de partida daquele caminho longo que precisaria galgar até alcançar sua independência e não mais ser visto como um incapaz.
Quando sentiu o aroma agradável do café exalando pela casa, armou-se de um novo ânimo, retirou a camisa com a qual havia dormido, a mesma que usava desde a noite anterior, já que adormeceu sem trocar de roupa, e vestiu uma camiseta limpa que apanhou da gaveta onde guardava as roupas mais velhas, de ficar em casa. Permaneceu com a calça jeans e calçou chinelos. Já havia memorizado o trajeto que ia de seu quarto até a sala e depois à cozinha, o qual era o mesmo há quatorze anos, visto que nenhum móvel ou ínfimo objeto podia ser mudado de lugar para não lhe causar acidentes, mesmo assim andava lento e com cautela, tateando a bruma densa e impenetrável com os dedos que iam esticados à sua frente.
Vagarosamente tateou com o pé o pequeno degrau que separava os dois cômodos, e ao adentrar a cozinha ouviu o sutil farfalhar das roupas de Asmita.
— Bom dia, irmão. — disse em tom cordial, porém isento do carisma que costumava imprimir ao se dirigir ao outro.
Não havendo resposta Shaka seguiu calado até a mesa e se sentou no lugar de costume, então ao correr as mãos por ela percebeu que não estava posta. Não havia toalha nem nada do que habitualmente estaria ali, como sua caneca com café quentinho, prato com talheres, o cesto de pães, manteiga, as frutas já partidas e descascadas... nem mesmo o pote com amendoins estava lá, somente a madeira rústica e nua.
Incrível como só agora percebera, petrificado por aquela verdade assustadora, o quão acomodado e mal acostumado estava.
Porém o pianista não se deixou abater, afinal não era tarde para reaprender a ter o mínimo de autonomia. Resoluto se levantou da mesa e tateando vagarosamente a geladeira ao lado calculou o espaço até a pia, daí em diante ficou fácil achar tudo o que precisava, os talheres na gaveta, os pratos no armário suspenso preso à parede logo acima de sua cabeça e a caneca, que ficava junto das xícaras e outras louças de porcelana contando três prateleiras à frente. A sua tinha uma pequena lasca na alça.
Conforme apanhava os itens os colocava sobre a pia com cuidado, então depois só precisou botar a caneca sobre o prato junto dos talheres e voltar à mesa, agora mais lento e com muito mais atenção para não esbarrar em nada e deixar cair tudo aquilo, já que daquele gesto simples dependia toda sua auto afirmação. Concluída a tarefa com esmero respirou aliviado, mas estava longe de poder colher os louros ainda. Estranhamente seu coração batia forte, palpitava apreensivo dentro do peito, pois mais difícil que realizar aquelas tarefas tão simples era saber que o irmão o observava. Com os olhos abertos congelados voltados ligeiramente para o chão alcançou novamente a geladeira, a abriu e iniciou a busca solitária pelos itens que desejava com o cuidado e lentidão de um cirurgião. Tal qual o beijo de um beija-flor à margarida seus dedos tocavam, contornavam, experimentavam permitindo a seu cérebro formar a imagem do que viam, então quando esta ganhava forma sua mão adquiria força e confiança imediatas. Assim ele apanhou a margarina, o pote com geleia de morango e a caixa de leite. Encontrar as frutas foi um tanto mais fácil, já que o olfato apurado facilitava o trabalho das mãos.
Posto tudo sobre a mesa voltou a se sentar, e devagar para não esbarrar a mão em nada quando fosse procurar pelo pote de manteiga ou vidro de geleia apanhou a faca para partir uma maçã ao meio. Embora tenha pego manteiga e geleia não foi atrás do cesto com pães, já que não tinha a menor ideia de onde este estava e também não queria pedir ajuda a Asmita.
O mais velho por sua vez observava o pianista atentamente e em completo silêncio. As palavras ditas por Shaka na noite passada ainda reverberavam em sua mente e deixavam seu coração pesado. Estava magoado, e ao se olhar no espelho de manhã e ver um hematoma bem acima do nariz, entre os olhos, sentiu vontade de chorar, gritar, de raiva, mágoa, inconformismo, tristeza.
Aquela era a paga que recebia pelos anos de cuidado e zelo.
Terminou de coar o café, serviu-se e deixou a garrafa ali mesmo, sobre a pia.
Se Shaka era adulto para andar por ai sozinho e sem dar satisfação nenhuma à família, então também podia se virar na cozinha sem ele, mesmo tendo consciência do quão poderia estar sendo injusto e até um tanto cruel, uma vez que sabia que Shaka possuía limitações, já que além de cego não sabia cozinhar.
Em silêncio encostou no batente da porta e ficou a observar o irmão que comia a maçã. Depois o viu levantar-se novamente e fazer o mesmo trajeto de antes até a pia para apanhar a garrafa com café. Regressou à mesa e se serviu usando o dedo indicador como marcador para não derramar a bebida.
Mesmo sabendo que era observado Shaka tomou seu café da manhã do modo mais natural que conseguiu. Sabia que Asmita o estava punindo, que ainda estava magoado, e com toda a razão. Portanto não iria criar caso. Se o irmão queria puni-lo que então o fizesse, e ainda torcia para que ele encontrasse algum conforto no ato.
Para Shaka, aliás, aquela lhe pareceu uma excelente oportunidade para mostrar a Asmita que podia se virar sozinho, que não era um total inválido. Sendo assim, quando acabou o café recolheu a caneca, o prato e os talheres e os colocou dentro da pia. Devolveu os itens que apanhara à geladeira e se direcionou à saída, mas antes mesmo que chegasse à porta enfim ouviu a voz áspera do irmão.
— Não vai lavar a louça?... Se pode se virar sozinho, então pode limpar o que você suja. — disse enquanto caminhava para a sala, mas antes de sair ainda se virou para Shaka e completou: — O chão e a mesa estão sujos. Vai juntar formiga. A vassoura está atrás da porta dos fundos onde sempre esteve.
Surpreso, talvez nem tanto pela pergunta, visto que ela não lhe soou afrontosa, mas extremamente obvia, uma vez que era de se supor que deveria limpar a própria sujeira, apenas nunca havia se dado conta já que o irmão e o pai faziam por si, o pianista piscou os olhos hirtos e ponderou por breves segundos. Não disse nada. Não havia o que ser dito. Não à Asmita, mas talvez a si próprio. Se queria ser independente fora de casa teria que o ser também dentro.
Com a mesma postura firme de antes Shaka tateou a massa plúmbea que o envolvia, sua cela de trevas constante, até seus dedos tocarem o vidro frio da tampa do fogão. Aproximou-se desse sabendo que a porta dos fundos ficava por ali, então deslizando os pés no assoalho atentou para as oscilações mínimas de temperatura que pudesse sentir, e logo o ar mais frio que vinha de fora da casa e entrava pelo vão inferior da porta tocou seus dedos. Dali em diante foi fácil encontrar a vassoura e pá, visto que sabia para qual direção deveria caminhar.
O pianista cumpriu as tarefas da melhor forma que conseguiu. Lavou a louça com cuidado, enxugou e também guardou. O mais difícil foi mesmo varrer o chão e recolher os detritos. Para tentar não deixar nada para trás precisou agachar-se várias vezes e verificar com as mãos se os havia apanhado todos com a pá.
Demorou-se bem mais que meia hora naquela tarefa, mas ao final orgulhara-se dela.
Quando finalmente deixou a cozinha, ao passar pela sala do sofá onde mexia no notebook fechando algumas encomendas Asmita chamou sua atenção o fazendo estancar os passos para ouvi-lo.
— Não vou fazer o jantar hoje. Se quiser peça uma pizza. — disse o mais velho em tom ríspido — Quando saiu hoje de manhã o pai avisou que vai ficar na fábrica após o expediente. Terá uma confraternização entre os funcionários e depois vão sair para jogar bilhar.
— Hum, que bom! — Shaka respondeu apenas virando a cabeça para o sentido em que vinha a voz de Asmita, mas mantendo o corpo voltado para o corredor que levava a seu quarto — O pai precisa mesmo sair mais para se distrair, se divertir... — fez uma pausa voltando o rosto para frente e caminhando mais alguns passos lentos, até novamente parar quando chegou ao corredor — Eu também vou sair. Vou a uma festa. Talvez coma alguma coisa na rua, não se preocupe. — disse engolindo em seco e já pronto para ouvir um sermão. Havia ensaiado por horas a melhor maneira de dizer ao irmão que iria a uma festa sozinho, e no fim a urgência o fez cuspir a informação da única maneira que cabia, já que não havia melhor forma.
Mas o sermão não veio.
No lugar dele um silêncio pesado se prolongou por um momento até que a voz grave de Asmita irrompeu em seus ouvidos.
— Faça como quiser.
Surpreso Shaka voltou-se para a direção da voz do irmão. A expressão de seu rosto bonito era um misto de choque e aflição. Os olhos arregalados firmes e a boca aberta denunciavam seu espanto.
— Está... falando sério? — perguntou ainda incrédulo. Imaginou que Asmita fosse proibi-lo de sair ou que no mínimo faria um discurso o lembrando de sua deficiência e incapacidade, mas passado o choque bebeu daquela alegria abrindo um largo sorriso — Serio mesmo?
— Sim. Faça o que você quiser, Shaka. — a voz de Asmita soou dura.
— Obrigado, irmão... Eu... eu prometo que ligo para você quando chegar na festa, e ligo também quando estiver vindo embora. — disse exultante o pianista. Talvez o irmão estivesse finalmente o enxergando como uma pessoa normal e se dando conta de que precisava deixa-lo viver. Quem sabe agora Asmita também iria viver sua vida, livre como merecia, e tal constatação o deixou ainda mais feliz.
Mesmo estranhando o mutismo do outro o pianista seguiu até seu quarto e encostou a porta.
Na sala Asmita estava estático.
Aquela notícia caiu como um raio direto em sua cabeça terminando por trucidar a fagulha restante de paz que ainda sentia. O dilema da noite passada não só ainda estava vivo como voltava a roer suas entranhas. Mas estava deveras chocado para responder. Irremediavelmente nervoso para discutir.
Com um gesto brusco e irritadiço fechou o notebook e o pousou sobre a mesinha de centro, então apoiou os cotovelos nos joelhos e levou as mãos ao rosto esfregando a fronte.
Em um acesso de raiva levantou-se de supetão e chutou o pé da mesa.
— Merda! Mais essa agora. — murmurou andando inquieto pela sala.
Sua alma gritava por ir até o quarto de Shaka e lhe dizer outro tanto de verdades na cara, das quais ele já deixara bem claro que não tinha interesse em ouvir, como ter consciência de que não podia sair assim, a hora que bem entendesse e sem dizer com quem, e especialmente a noite.
Mas não faria isso.
De nada adiantaria fazer isso.
Se o fizesse apenas daria início a mais uma discussão inflamada, e para piorar o pai não estava em casa. Ainda que a contragosto Shaka sempre ouvia mais ao pai; não sabia se movido por respeito ou de fato obediência poucas vezes o afrontava como agora vinha fazendo consigo.
Tinha um grande problema nas mãos e não sabia como resolvê-lo.
O dia passou depressa demais para Asmita e lento demais para Shaka, que praticamente não deixou o quarto. Passou um bom tanto das horas estudando algumas partituras em braile, ouvindo música e falando ao celular com Shijima, que ainda estava fora da cidade e regressaria só no domingo.
Perto das seis da tarde o pianista começou a preparar-se para a festa. Tomou um banho demorado e apreensivo pelejou para escolher uma boa roupa para vestir. Com muito custo devido à insegurança, a carrasca que sempre teimava em aparecer nas horas mais cruciais de sua vida, como naquela, em que precisava escolher uma roupa sozinho. Um terror repentino se apossou de seu espírito quando pensou que poderia escolher alguma peça errada, suja, ou mesmo vesti-la do avesso. Acidentes banais, mas que tinham o poder de fazê-lo virar motivo de chacota por ser cego. Por isso, suando e com palpitações optou novamente por vestir peças de extrema simplicidade. Abriu a gaveta das camisetas, procurou pela etiqueta em braile que listava as brancas e antes de vesti-la ficou pelo menos cinco minutos conferindo o lado das costuras para não vestir do avesso. Em seguida vestiu uma calça jeans limpa, meias e tênis. Esses também conferiu incessantemente cada detalhe. Ao fim sentou-se na beirada da cama e suspirou aborrecido com os olhos voltados para o chão. Queria impressionar Mu, queria estar bem vestido, com roupas elegantes, bem penteado, mas a verdade é que jamais conseguiria sem ajuda de alguém para lhe orientar. Sem ajuda de Asmita.
Ah, se pudesse dividir aquele momento com o irmão...
Estava apaixonado pela primeira vez, estava eufórico, queria gritar ao mundo, mas Asmita não queria ouvi-lo.
Sem deixar-se abater, pois julgava que na vida cada coisa tinha seu tempo e assim também seria com o irmão, o pianista levantou-se, armou-se de novo ânimo e foi até o armário onde apanhou uma escova e penteou minuciosamente os cabelos. Suas mãos tremiam, frias, ansiosas. Guardou a escova e fechou a porta do armário que ironicamente continha um espelho pregado a ela, visto que antes fora de Asmita, então ergueu a mão e deslizou as pontas dos dedos em sua superfície.
Quem dera pudesse ver seu reflexo...
Embora exercitasse constantemente seus outros sentidos, o tato, olfato, audição, e em especial a memória, nenhum deles, nem nada no mundo, era capaz de substituir a visão e a falta que esta lhe fazia.
Recolheu a mão deixando escapar um longo e conformado suspiro, então virou-se com precisão e caminhou em direção à escrivaninha, apanhou o celular e o colocou no bolso. Manteve o aparelho ligado. Não iria cometer o mesmo erro do dia anterior. Caso o pai ou o irmão ligassem os atenderia de pronto para assegura-los de que estava bem, quando de repente ouviu a porta bater.
Caminhou até ela enquanto já planejava ligar para Mu assim que chegasse na Melrose Station, mas ao girar a maçaneta a porta não abriu.
Girou novamente, imprimindo mais força tanto à maçaneta quando à porta, que nunca ficava trancada por regras da casa, então esta só podia ter batido com um golpe de ar e ter emperrado.
— Asmita? — chamou o irmão em voz alta ao mesmo tempo em que dava alguns toques na madeira com a mão espalmada. Estava calmo, apenas não queria se atrasar — Asmita, está ai?... A porta emperrou... Asmita?
Do lado de fora, de frente para a porta do quarto de Shaka, silencioso como um camundongo Asmita segurava a chave em uma das mãos, e esta estava tão trêmula como se recordava ter sentido apenas uma vez em sua vida. No dia do acidente envolvendo ele e o irmão mais novo, há quatorze anos.
— Asmita? — o pianista voltou a chamar, agora levemente apreensivo elevando o tom de voz.
Trêmulos também estavam todos os músculos do rosto austero de Asmita. Suas feições contorciam-se em um misto de desespero e tristeza, e a cada segundo que se passava sua respiração tornava-se mais forte e ofegante. Seus olhos injetados cravados à madeira aos poucos ficavam úmidos.
— Asmita! — a voz de Shaka do outro lado da porta agora tinha tons de desespero, era trêmula e vacilante — ASMITA!... Eu... eu estou ouvindo você... Sei que está ai... Me ajude a...
— Me perdoe, Shaka.
As palavras do irmão mais velho interromperam o pianista e fizeram seu coração gelar dentro do peito.
— O... que? — disse Shaka, que imediatamente girou a maçaneta freneticamente e repetidas vezes também forçando a fechadura — Asmita? — um nó em sua garganta interrompeu-lhe a respiração ao constatar que a porta não estava emperrada, mas trancada — Não, não, não, não... NÃO! Asmita!
— Você não me ouve mais, Shaka... eu não tive escolha! — disse o mais velho com a voz embargada — Eu não queria ter de fazer isso, mas sem o pai aqui para me ajudar essa foi a única solução.
— Não! NÃO! ASMITA ABRA ESSA PORTA AGORA! — o pianista gritou usando o corpo para dar trancos na madeira firme e grossa — Você ficou louco?
— Não! Você ficou! — disse Asmita que tinha lágrimas nos olhos. Trêmulo e hiperventilando ainda não podia acreditar no que estava fazendo, mas não tinha outra alternativa. Era movido por desespero — Não tem noção dos riscos que está correndo saindo por ai sozinho à noite para ir... a uma festa sabe-se lá onde e com quem! — dizia mais para convencer a si mesmo de que estava fazendo a coisa certa, pois seu coração doía — Se você sair e alguma coisa te acontecer o que eu vou falar para o nosso pai?... Eu prometi para a mãe que eu cuidaria de você, Shaka. Eu prometi!
Dentro do quarto Shaka era a pura imagem do desespero, mas diante daquele gesto extremo do irmão e de suas palavras sabia que afronta-lo seria pior, por isso tentou recobrar a fala ponderada e manter a calma.
— Asmita... Não faz isso comigo... Por favor.
— Você que não sabe o que está fazendo consigo, Shaka!
O pianista respirou fundo fechando os olhos.
— Eu sei que fez uma promessa à nossa mãe, mas... tem que acreditar em mim, tem que confiar em mim... Asmita, não estou me pondo em perigo, nem você está. Não vai acontecer nada, eu vou ficar bem! — dizia agora com a testa encostada na madeira enquanto tentava controlar a respiração ofegante e acelerada — Me... me perdoe por ontem, tudo bem? Eu, eu sei que errei e você tem toda razão de estar chateado, mas não pode fazer isso comigo. Não pode me trancar em casa!
— E se eu dissesse que não pode sair? Você me obedeceria por acaso?... Já deixou claro o que pensa sobre mim... — a voz falhou — Eu jamais queria precisar chegar a esse ponto... mas não me deixou escolha.
O pianista voltou a exasperar-se.
— Asmita eu estou levando o celular e vou ficar com ele nas mãos, eu... eu ligo para você quando chegar lá, eu ligo para você enquanto estiver lá e ligo quando estiver voltando para casa... por favor... abra a porta.
— Quando chegar aonde? Nem sequer disse onde pretendia ir, Shaka. — o mais velho se zangou — Não disse onde e nem com quem, não me disse nada! — elevou a voz num quase grito de desespero — Será possível que não percebe o quanto está sendo egoísta e imaturo?... Como eu vou dizer ao pai que eu deixei você ir a uma festa com estranhos?... Infelizmente foi você quem criou essa situação, Shaka. Você não me escuta e me obrigou a agir assim!
— Asmita...
— Você tem um coração bom, puro, e uma alma ingênua... Não tem noção dos perigos da vida... E essa sua ingenuidade ainda vai ser sua ruina, a nossa ruina! — aproximou-se da porta quase a tocando com o dedo indicador erguido em riste — Esse rapaz... Esse burguesinho do metrô. Você nem o conhece direito. Pode ser um bandido, um usuário de drogas ou até um estuprador psicopata. Você é um garoto bonito, ingênuo e cego. Um alvo fácil e não percebe isso!
— ASMITA! — o grito do pianista veio acompanhado de uma pancada forte na porta — Ele não é nada disso, ele é apenas um amigo! Pelo amor de Deus, você está sendo ridículo!
— Isso é o que você me diz... É o que você acha. Sinto muito, mas não posso te deixar sair.
A ira do mais novo se elevou às alturas.
Apesar de saber que os argumentos do irmão tinham fundamento sua mente jovem e rebelde fazia questão de ignora-los solenemente, até porque conhecia sim Mu, e estava certo de que ele não era nada daquilo que Asmita temia, mas como convencê-lo de sua convicção?
— Asmita se você não abrir essa merda de porta eu vou ligar para o pai, eu vou ligar para polícia! Abra essa porra agora! — bufava de raiva, o peito a subir e descer em ritmo descompassado.
— O pai deixou o celular em casa... Então ligue para a polícia, Shaka. — o mais velho agora também elevava a voz e enxugava as lágrimas nervoso — Me acuse de cárcere privado e me faça ser preso porque proibi meu irmão adolescente imbecil de ir a uma festa com pessoas que eu não conheço. Vão rir de você... Você pode ser maior de idade agora, mas ainda é dependente, é deficiente visual, e está sob minha tutela. Sua segurança é MINHA responsabilidade. Vamos, ligue. Só não se esqueça de avisa-los que você é o garoto cego cuja família estava desesperada procurando no dia anterior porque sumiu sem dar notícias.
— Asmitaaa! Seu desgraçado! Abra essa merda! Abra! — o pianista gritava enquanto chutava e dava socos na madeira num frenesi tresloucado provocado pela mais pura raiva.
Do lado de fora Asmita deixou escapar um soluço, e a cada pancada na porta sentia uma dor profunda no coração, como este é que estava sendo esmurrado. Odiava profundamente o que estava fazendo, mas pela segurança do irmão seria capaz de tudo.
— Eu te amo, meu irmão. Você diz que me odeia, mas eu te amo. — disse o mais velho encostando o rosto na madeira, então cabisbaixo afastou-se tomando o corredor para regressar à sala — E é por te amar que eu faço isso, então espero ao menos que quando sua fúria passar você possa me perdoar.
— ASMITA VOLTA AQUI! ABRA A PORTA! — Shaka gritou ainda mais alto quando percebeu a voz do irmão já distante. Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo — ASMITA! ASMITAAAA!
Da sala o mais velho ouvia os gritos do pianista, e a cada nova suplica acompanhada de pancadas na porta sua garganta lhe apertava mais a ponto de sentir-se sufocar.
Trancar o irmão no quarto fora um ato extremo, tinha consciência disso, e até chegava a ponderar se de fato não tinha perdido o juízo, mas o medo de que algo ruim lhe acontecesse era muito mais urgente.
Ligou a televisão para tentar não escutar os gritos do irmão e catatônico olhava para tela que passava uma partida de basquete entre o Chicaco Bulls e o Los Angeles Lakers sem nem ao menos piscar; só conseguia respirar acelerado enquanto apertava a chave entre seus dedos.
No quarto Shaka ainda esmurrava a porta na vã tentativa de coloca-la abaixo enquanto seguia gritando pelo irmão, até que rendido pela exaustão caiu de joelhos em frente a ela se entregando a um choro convulso e alucinado, de desespero e inconformismo.
Não cogitou sair pela janela porque esta continha grades contra invasões, o que ironicamente agora lhe impedia de sair e lhe aprisionava ali.
Talvez não adiantasse também insistir naquele embate insano com o irmão. Talvez jamais conseguiria ter uma vida normal de fato e ele estava certo, apenas não queria aceitar.
— Não... — choramingou raspando os dedos na madeira já os sentindo bem doloridos, especialmente o da mão direita que tinha ferido no dia anterior — Asmita... por favor... por favor... — murmurou baixinho e entre soluços unindo as mãos sobre seu colo. Não podia danifica-las, já que além de serem seu olhos elas também eram seu tesouro. Precisava delas integras para poder tocar o piano.
Assim, com a testa encostada na madeira e as longas madeixas loiras a grudarem em seu rosto molhado pelas lágrimas que escorriam até pender do queixo fino, o pianista enfim aceitou sua sentença.
Não ligaria para a polícia.
Não queria o irmão preso por cárcere privado, tampouco queria causar problemas para o pai, mas a raiva o consumiu até o último suspiro de lucidez.
— Eu odeio você, maldito! — rosnou rangendo os dentes, então com um novo murro fortíssimo na porta gritou a plenos pulmões: — OUVIU? EU ODEIO VOCÊ!... EU NÃO VOU TE PERDOAR NUNCA! MALDITO!
Trêmulo tal qual presa ferida que impotente vislumbra a aproximação do predador sem nada poder fazer Shaka pegou o celular do bolso da calça e conferiu as horas através do aviso sonoro.
18:45h.
Mu deveria estar a caminho da 116th Street Columbia University Station.
Fechou os olhos buscando dentro de si um eco de razão para tentar se acalmar.
Não havia nada que pudesse fazer. O pai não estava em casa e Shijima estava fora da cidade. Não havia outro jeito. Precisava dizer a Mu que não iria mais à festa, e tinha que fazer isso de uma maneira a não deixar o estudante de cinema perceber o quão alterado estava. Obviamente que dizer a verdade estava fora de cogitação, ou toda a imagem que esforçou-se para construir no primeiro encontro, de que era independente e dono de si mesmo sendo cego, cairia por terra e Mu saberia que na verdade estaria comprando um grande problema ao envolver-se consigo.
Respirou fundo tentando controlar ao menos a tremedeira e os soluços involuntários para gravar uma mensagem de áudio. Ainda não sabia bem o que dizer. Só conseguia sentir uma profunda dor na alma em ser privado daquela forma vil de estar com aquele que era dono absoluto de seus pensamentos, que fazia seu coração bater mais forte.
Ainda sentado no chão virou-se de costas para a porta e encostou na madeira.
Esperou mais alguns minutos e sentindo-se já mais seguro gravou a mensagem.
— Mu... eu... estou te mandando essa mensagem porque tive um imprevisto e não... não vou poder ir à festa do seu amigo... Me perdoe por avisá-lo assim, em cima da hora. Tomara que ainda não tenha saído de casa para me encontrar na Estação. Não queria te causar nenhum transtorno... Mu, tudo que mais queria era poder estar com você agora... repetir o beijo de ontem... não me esqueço dele... Nos encontramos Segunda-feira?
Ouviu a mensagem pelo menos duas vezes e decidiu usar o aplicativo em seu celular para convertê-la em texto antes de enviar, pois por mais firmeza que tentasse imprimir em sua voz não conseguiu disfarçar o tom embargado.
Em Manhattan Mu havia acabado de chegar à 116th Street Columbia University. Ansioso como estava tinha se adiantado e partido ao encontro do pianista na estação bem antes do previsto, mas assim que leu a mensagem toda a expectativa e anseio que nutrira aquele dia inteiro para rever Shaka escorreram como água para dentro do ralo quando leu sua mensagem.
Frustrado ficou um momento ali, sentado em uma das cadeiras enfileiradas da área de espera daquela Estação relendo as palavras na tela do aparelho. Estava já todo arrumado e perfumado... Em vão.
Chegou a cogitar que Shaka pudesse estar lhe dando um bolo, mas não. Por mais estranho que parecesse até para si mesmo sentia algum pesar nas poucas palavras que compunham a mensagem enviada por ele. Por isso, colocando o raciocínio no lugar respondeu gravando uma mensagem de áudio mesmo.
— Oi Shaka. Está tudo bem, não se preocupe. Não me causou transtorno algum. Apenas... estou triste... Quer dizer, não triste, acho que frustrado, porque agora a festa perdeu o sentido sem você comigo. Também estou doido para repetir o beijo de ontem... Mas entendo que deva ter acontecido algo aí. Imprevistos acontecem mesmo... Mas, está tudo bem? Me dê notícias, fiquei preocupado... E com certeza nos vemos Segunda-feira."
Assim que a mensagem chegou para Shaka ele a ouviu aos prantos.
Não esperava que Mu o respondesse, tampouco com tamanha prontidão, visto que sempre ouvira que era um estorvo para os outros; pensava ser um também para o estudante de cinema.
Percebeu o tom pesaroso na voz de Mu, mas também um toque de alegria quando este confirmou que se encontrariam na Segunda-feira. Seu coração aflito finalmente pôde dar um suspiro de alívio.
Ainda encostado à porta vez ou outra dava algumas batidinhas e suplicava ao irmão para que a abrisse, e nessas suplicas já conformado lhe prometia que não sairia de casa, não iria a lugar nenhum, apenas não queria ficar ali trancado, enclausurado. Já lhe bastava a prisão sem muros de viver sufocado pela escuridão indelével da cegueira.
Vendo que não tinha mesmo jeito, que o silêncio do outro lado da porta era a resposta definitiva do irmão, Shaka deitou-se no chão ali mesmo e dessa vez gravou uma mensagem de áudio para Mu, em tom bem baixo para Asmita não ouvi-lo.
— Está... tudo bem. Não se preocupe, Mu, apenas tive um problema em casa e não poderei sair hoje, mas não é nada... comigo. Eu... estou bem. — fez uma longa pausa, então continuou — Não sabe o quanto significa para mim poder falar com você ainda que seja... por aqui. Deve imaginar que não sou uma pessoa muito... experiente e segura. Suas palavras, sua voz... me trazem conforto.
Bem longe dali, ao ouvir a mensagem Mu percebeu o tom melancólico na voz do pianista. O estudante de cinema não era ingênuo, tampouco inexperiente. Sabia que algo errado havia acontecido e que o motivo por Shaka ter cancelado sua ida à festa certamente se dava a conflitos com a família, afinal motivos não deveriam faltar para tal, ele imaginava, e desse dilema infelizmente ele entendia muito bem.
Lamentou intimamente enquanto fazia o caminho de volta para casa, e por mais que sua mente ousasse insistir que deveria fazer algo para trazer o pianista para seus braços, sua razão lhe obrigava a manter os pés no chão. Teria que ser paciente. Por ele e por Shaka.
— Suas palavras me proporcionam o mesmo, Shaka, e mais! Além de conforto, ouvir sua voz me dá alegria, me acalenta o coração, e mata um pouquinho a saudades que já estou sentindo de você. Mas... me parece triste. Está tudo bem mesmo? — gravou no novo áudio que enviou ao pianista enquanto fazia sinal para um táxi.
No Bronx Shaka sorriu ao ouvir a mensagem e prontamente gravou uma resposta.
— Sim, está tudo bem, não se preocupe... Eu também já estou com saudades de você... Ainda sinto seu cheiro em minha roupa e isso só aumenta o meu desejo de tocá-lo... de beijar sua boca... Não me esqueço do seu beijo, Mu... Sei que deve estar me achando um idiota, e vou te confessar uma coisa: eu estou bem assustado comigo mesmo e devo estar assustando você também, mas por favor não se assuste... Pode até achar que é exagero, mas... nunca me senti tão feliz!... Curta a festa do seu amigo, divirta-se, e me conte as melhores partes. Estarei por aqui.
Shaka ainda pensou por um tempo antes de enviar o áudio.
Em sua cabeça, mesmo não sentido nenhum tipo de vacilo nas palavras de Mu que o pudessem classifica-lo como um golpista, psicopata ou algo do gênero como havia dito Asmita, as palavras do irmão ainda reverberavam em seus pensamentos.
Não conhecia motivo algum para que Mu o quisesse enganar, e se este por acaso tinha alguma intenção ruim já o teria executado na noite anterior. No mais, nem era preciso tal avaliação racional, pois que enxergara Mu com o coração e reconhecera nele a mesma bondade e paixão que transbordavam do seu. Ou estaria tão apaixonado que além de cego dos olhos estaria cego do coração e não era capaz de ver maldade nas palavras do estudante?
Não.
Mu tinha uma energia diferente de todas as que conhecera na vida. Quando ele estava por perto era como se a Natureza o abraçasse e o acalentasse.
Não podia estar tão enganado, e sabia que não estava.
Apertou o botão e enviou a mensagem.
