Na manhã de domingo Asmita acordou cedo. Na realidade nem havia dormido. Presos ao forro de madeira do quarto seus olhos viram os primeiros raios da manhã entrarem pela fresta da janela e seus ouvidos testemunharam os primeiros cantos dos pássaros a saudarem a aurora. Foram horas e horas de torturante agonia.
Pouco antes de decidir desligar a televisão e abandonar a partida de basquete ainda pela metade — está nunca lhe pareceu tão desinteressante — Asmita caminhou silencioso pelo corredor e parou em frente à porta do quarto de Shaka. Por um momento ficou ali, embatucado e pensativo, depois, ainda incomodado deveras com as palavras do rapaz da estação de metrô que mexeram com algo dentro de si, encostou a orelha na madeira e não ouvindo mais som algum vindo de dentro do quarto apanhou a chave no bolso da calça e destrancou a porta. Não a abriu. Sabia que Shaka tinha uma audição aguçada e se estivesse acordado saberia que a porta tinha sido aberta, assim como sabia também que se entrasse e tentasse conversar com o irmão acabariam discutindo novamente. Por isso, com passos arrastados devido ao cansaço, abatimento e meia garrafa de vinho barato seguiu para o quarto.
Às duas horas da madrugada daquele domingo Nilo chegou em casa após a confraternização com os colegas do trabalho. Um deles iria se aposentar e a comemoração ganhou um ar de despedida estendendo-se noite adentro.
Automaticamente entrou na casa, deixou o casaco pesado e o chapéu de camurça no cabideiro ao lado da porta, retirou as botas e seguiu meio cambaleante para o pequeno corredor que levava aos quartos. Ao passar pelo de Shaka abriu lentamente a porta como sempre fazia e espiou o interior. Mesmo com a vista nublada certificou-se de que o filho dormia encolhido sobre a cama e só então fechou a porta e seguiu para seu quarto. O sono pesado veio logo que deixou-se cair no leito.
Asmita tinha ouvido a chegada do pai, sua passagem pelo quarto do irmão mais novo e o silêncio que se seguiu depois dela. Shaka deveria ter pego no sono. Fechou os olhos e respirou profundamente, o mais que foi capaz. Como se o ar que entrava em seus pulmões pudesse de alguma forma aliviar o peso atroz que comprimia seu peito, mas este parecia tão pesado quanto sua consciência.
Por isso que ao amanhecer, e sabendo que nada mais aliviaria seu fardo a não ser encarar o problema de frente, e este tinha a face doce e gentil do irmão mais novo, Asmita julgou imperioso tentar acertar-se com ele. O que estavam fazendo um ao outro era o pior caminho, o caminho errado, e se nem mesmo ele, mais velho e experiente, foi capaz de enxergar isso então também não podia cobrar tal discernimento de Shaka. Precisavam conversar.
Julgou pertinentes as palavras do garoto do metrô, ainda que detestasse esse fato e até inconscientemente tentasse nega-lo, mas não era ora para orgulho vão.
Silencioso deixou o quarto e foi até a cozinha preparar o café. Em uma bandeja colocou maçã cortada em fatias, duas torradas com pasta de amendoim e os ovos mexidos com bacon que prepara com esmero. Encheu a caneca quase até à boca com café e resignado foi até o quarto do irmão mais novo levando consigo a bandeja e nova esperança.
Ao entrar no quarto de Shaka vagarosamente Asmita acendeu a luz e seu primeiro gesto foi olhar para a cama, para o irmão. O peso torturante em seu peito ganhou mais carga ao vê-lo encolhido, visivelmente abatido sobre o leito que nem havia sido desfeito, vestido com as roupas que colocara para sair na noite passada, ainda calçado com os sapatos e o celular seguro em uma das mãos. Suspirou fundo, e desviando da bagunça espalhada pelo chão caminhou até a escrivaninha onde deixou a bandeja. Recolheu algumas peças de roupa e livros em braile enquanto seguia até a janela para abri-la. Apesar da manhã ligeiramente fria sabia que Shaka repetia esse gesto diariamente, já que detestava sentir-se enclausurado e dizia que o calor do Sol e a brisa do vento em seu rosto amenizavam o claustro da cegueira.
Ainda em silêncio Asmita foi até a cama e sentou-se na beirada ao lado do irmão, então com a delicadeza de uma bailarina acariciou-lhe os cabelos afastando de seu rosto as longas mechas loiras embaraçadas. Sentiu um aperto na garganta ao ver os olhos dele inchados. Provavelmente chorou a noite toda até render-se à exaustão e ao sono.
— Shaka. — chamou com voz baixa e mansa — Sou eu... Acorde.
A voz dócil entrou pelos ouvidos do pianista acompanhada do toque suave em sua face. Ele contraiu as pálpebras fazendo tremelicar as longas pestanas loiras, remexeu-se lentamente e logo o canto dos pássaros do lado de fora lhe trouxeram à consciência, então desperto soube que já deveria ter amanhecido.
— Eu trouxe um café da manhã reforçado com tudo que você gosta. — disse Asmita sem mudar o tom brando na voz — Você está sem comer desde ontem à tarde... Precisa se alimentar.
No entanto, ouvir a voz do irmão não apenas despertou Shaka do sono como trouxe à tona tudo que se dera na noite anterior. O pianista enfureceu-se.
Devagar sentou-se no colchão e no instante seguinte, com a cabeça abaixada e os olhos ainda fechados, estendeu as mãos espalmadas no escuro até estas encontrarem os braços de Asmita. Quando os tocou rapidamente as correu aflitas até os ombros largos e orientando-se pelos seus cálculos imaginários passou a esbofetear com ambas o rosto do irmão, que alarmado, porém não surpreso, tentou proteger-se como pôde dos golpes que lhe atingiam em cheio face, cabeça e ombros.
— Desgraçado! Seu... miserável! — gritava a plenos pulmões o pianista em meio aos sopapos, sem cessa-los — Como você pôde fazer isso comigo? Como pôde?
— Shaka... escute... Ei... pare... — pediu Asmita que se defendia das agressões cobrindo a cabeça com as mãos.
— Primeiro você me segue na rua e me faz de idiota, depois me tranca em casa... Eu vou te matar, Asmita! Seu desgraçado!
Shaka vociferava enlouquecido, e não vendo alternativa Asmita inclinou-se sobre ele lhe tomando os pulsos, os quais segurou firme e com demasiada força, porém, ainda mais enfurecido o pianista agora pelejava para acerta-lo com as pernas, o que exigiu mais firmeza do mais velho que com um puxão num movimento preciso e ligeiro o fez girar o corpo e o abraçou por trás lançando a ambos sobre o colchão.
— ME SOLTA ASMITA! — gritou o pianista debatendo-se para se desvencilhar do abraço.
— Pare de gritar e de tentar me bater que eu te solto.
— TE BATER? EU QUERO TE MATAR!
— Shiiiii. — pediu silêncio ao usar uma das mãos para tapar a boca de Shaka — Vai acordar o pai e eu não quero que ele apareça aqui antes de termos uma conversa só você e eu. — o pedido irritou ainda mais o pianista que se debatia e gemia lutando para se soltar — Shaka, por favor... Eu só... só quero conversar. Eu exagerei sim, eu errei. O que fiz a você ontem foi... hediondo, e eu nem sei se um dia conseguirei me perdoar, mas eu estava desesperado! Eu estava aterrorizado! — dizia com os lábios trêmulos quase a tocarem os ouvidos do irmão enquanto pelejava para segurá-lo em seus braços — Em nenhum momento você pensou em mim? Por Deus, você simplesmente me disse que ia sair, não disse com quem, nem aonde iria, e isso depois de ter quase matado a mim e ao pai de preocupação no dia anterior... O que você está fazendo conosco é cruel! Nós não sabemos o que está acontecendo... Você nunca agiu assim! — sua voz estava embargada.
Súbito os grunhidos foram diminuindo, e diferente da respiração, que era agitada e ruidosa, Asmita sentiu aos poucos o corpo do irmão perder a rigidez e a vontade de lutar. Tomando conhecimento disso escorregou a mão com a qual tapava a boca dele até o peito e o abraçou com força.
— Por favor, irmão... converse comigo. Eu sei que o que fiz foi covarde, foi... — pediu em tom de súplica.
— Me solta, Asmita. — o pedido interrompeu a fala do outro e tinha um tom ríspido e autoritário. A atitude do irmão em imobiliza-lo daquele jeito e com tamanha facilidade servia apenas para provar o quanto era impotente, e mesmo sabendo que o outro agia apenas em defesa das agressão que lhe infringia não podia evitar sentir-se envergonhado por ser tão frágil.
Assim que se viu livre dos braços do irmão, com uma pressa desastrada Shaka levantou-se da cama esticando as mãos e com os olhos abertos piscando seguidas vezes tateou o vazio plúmbeo até seus dedos tocarem a cadeira que ficava em frente à escrivaninha. Agora sabia para qual direção seguir até a porta. Não ficaria ali para ouvir nada.
— Aonde você vai? — inquiriu o mais velho também se levantando — Você não ouviu o que eu disse, Shaka?
— Ouvi! — retrucou colérico o pianista — Você não foi apenas covarde, Asmita. Você também foi cruel. Você me tratou feito um animal que você prende na coleira. — cuspiu as palavras e tencionou caminhar até a porta para deixar o quarto, mas eis que sentiu o irmão lhe segurar o braço — Não toque em mim! — desvencilhou-se com safanão.
— Você não vai sair desse quarto sem conversar comigo, Shaka! — zangado elevou a voz o mais velho.
— O que quer conversar? — disse desnorteado com os olhos a vagar atentos pelo que não podia ver. A boca seca e o coração aos pulos lhe dificultava até articular as palavras — De que adianta eu te dizer alguma coisa se não acredita em mim e pouco se importa com o que eu sinto?
— Isso... não é verdade. — Asmita respondeu com a garganta apertada ao fitar os olhos inanimados do irmão. Quão penoso era para si olhar nos olhos de Shaka e vê-los sem vida para sempre.
— Como não é verdade? Há dias eu me sentei à mesa com você e te disse que estava feliz porque uma pessoa estava vindo tocar o piano comigo na estação de metrô, e qual foi sua reação? A mesma de sempre... Deve ser alguém que se aproximou de mim porque viu que sou cego e está traçando um plano mirabolante para me ridicularizar, ou me assaltar, ou me violentar, me matar, me fazer de idiota... — fez uma pausa apenas para recuperar o fôlego — Não satisfeito com isso você mesmo me seguiu, VOCÊ ME SEGUIU, ASMITA, e você sim me fez de idiota.
— E você nunca parou para pensar ou sequer se perguntar por que eu fiz isso? Por que o segui? Ou por que eu me preocupo com essas coisas? — disse se colocando à frente do pianista a fim de impedir sua passagem.
— POR QUE ALÉM DE IDIOTA VOCÊ NÃO CONFIA EM MIM!
— NÃO! — retrucou exaltado o mais velho com o rosto a centímetros do outro — Eu me preocupo com essas coisas porque todas elas existem, Shaka. Eu só não as permiti que chegassem de fato até você, mas acredite, elas estão muito mais próximas de gente como você e eu, que vivemos num lugar ferrado, no meio de gente ferrada, sem segurança, sem atenção nenhuma! — engoliu em seco contendo um soluço de lamento — E sempre foi assim... Nossa mãe morreu e nosso pai teve que trabalhar dobrado e eu... eu precisei deixar de ser criança para cuidar de você.
— Vai me cobrar isso agora? Me jogar na minha cara que...
— NÃO! Mas que inferno! — Asmita o interrompeu o fazendo se assustar com seu grito — Não estou te cobrando nada, apenas pedindo que não seja egoísta e ao menos me escute... Ponha-se no meu lugar pelo menos por um momento... Ninguém me ensinou como lidar com a morte da nossa mãe e nem com o fato do meu irmão mais novo, um garotinho alegre e completamente saudável, ficar cego de repente. — já não segurava mais a angustia que massacrava seu peito e permitiu-se chorar em meio às palavras distas com amargo pesar — Eu só sabia que precisava te proteger e te fazer sentir-se seguro mesmo sem poder enxergar. E você sabe o quão difícil foi até você se adaptar... Até eu me adaptar. Eu cresci dando o melhor de mim para que nada de ruim te acontecesse, mas mesmo assim perdi a conta das vezes que se colocou em risco por causa de algum descuido meu.
— Asmita... agora é diferente, eu não sou mais criança. — disse com voz mais branda ao perceber o choro do irmão.
— Você não é, Shaka, mas está agindo como uma. Não admitir que está escondendo de mim e do pai uma possível... amizade, ou seja lá mais o que for, com aquele burguesinho esquisito do metrô não é uma atitude nada adulta. Então, se quer que te trate como adulto, haja como um, começando por não me esconder as coisas.
O pianista baixou a cabeça e seu olhos de pupilas inexpressivas congelaram-se no carpete.
— Eu falei, mas você não estava disposto a me ouvir... — disse em voz baixa, depois ergueu a cabeça e seu cálculo inconsciente o fez direcionar a mirada para onde imaginava estar o rosto do irmão — Você é incapaz de admitir que alguém possa me enxergar como uma pessoa normal... Não aceita que alguém conseguiu ver a mim primeiro, eu, Shaka, e que minha deficiência ficou em segundo plano e se tornou apenas um mero detalhe... porque é justamente assim que você me vê, como um deficiente antes de qualquer outra coisa.
Asmita encarou o rosto do irmão por um momento com o coração pesado, então não suportando encarar seus olhos de frente desviou desconfortável o olhar até baixar a cabeça e levar ambas as mãos ao rosto o esfregando nervosamente. As palavras de Shaka lhe eram de uma pertinência devastadora.
— Como eu te disse... ninguém me ensinou a lidar com isso... Um dia eu era uma criança feliz, mesmo em meio à vida difícil que sempre levamos, e no outro... — suspirou agastado e engoliu as palavras que ensaiava dizer junto com a parca saliva em sua boca — Eu... posso estar fazendo muita coisa errada sim, mas... eu não estou fechado a te ouvir como está dizendo. — ergueu novamente o olhar para encarar o rosto do irmão — Eu não criei esse mundo ruim e nocivo, Shaka. Você e eu fomos atirados nele.
— Esse mundo... esse SEU mundo onde todas as pessoas são horríveis, más e eu sou uma aberração, ele é só seu, Asmita, e eu não quero, e não vou, viver nele.
— Você não é uma aberração, eu nunca disse isso, mas quanto a viver nesse mundo ruim você não tem escolha, meu irmão. — disse o mais velho com lágrimas nos olhos enquanto fitava com o coração dolorido os lábios trêmulos do pianista — O meu erro talvez tenha sido tê-lo poupado tanto dele, então você acha que esse mundo ruim só existe na minha cabeça, porque eu nunca permiti que você tomasse conhecimento dele de fato, já que vivi te cercando, te protegendo e te mantendo o máximo possível seguro dentro de casa onde eu sempre estaria por perto para te ajudar. Se eu pudesse te daria esse mundo que você tanto sonha viver, Shaka, esse lugar utópico povoado por pessoas sem nenhuma malícia e onde a música é alimento da vida, mas como isso é impossível, por favor... não me culpe por tentar proteger aquilo que eu mais amo... o que tenho de mais precioso na minha vida... Eu... não sou seu inimigo, Shaka. Você é tudo que eu tenho.
As últimas palavras do irmão, ditas em voz trêmula e chorosa, foram recebidas pelo pianista com surpresa. Não que ele desdenhasse da importância que tinha para o outro, afinal eram irmãos, sabia que Asmita o amava, mas porque lhe fora surpreendente constatar que ele sofria, e não era pouco. Era certo que o excesso de zelo do irmão o estava prejudicando, mas também era graças a ele que ainda estava vivo. Sentiu seu coração apertado e o espírito pequeno, então uma culpa que tinha enclausurado no fundo da alma veio à tona. Acidentalmente Asmita tinha lhe tirado a visão, em contrapartida Shaka tinha arrancado a infância e os sonhos de Asmita.
Como um filme a lhe ser projetado na mente vivenciou todo o sofrimento terrível pelo qual passara até enfim resignar-se à sua nova realidade, a de que ficara cego, a de que teria que viver num mundo onde as noites não mais teriam aurora, onde as lembranças aos poucos iriam se escurecer em sua memória e os rostos e paisagens tornar-se-iam borrões disformes, onde tinha por vezes a sensação de estar encerrado um enorme mausoléu escuro, mas mesmo diante de tão triste e conformada verdade sempre conseguiu enxergar o sofrimento de Asmita, até de repente passar a ignora-lo.
Súbito sentiu o corpo todo gelar quando um terror excruciante lhe tomou de assalto. E se estivesse passando o fardo de Asmita para Mu ao envolver-se com ele?
O silêncio profuso então deixou de ser a comunicação entre eles.
— Me... desculpe. — disse aflito o pianista na mesma hora em que seu rosto contorceu-se numa careta de dor e esta lhe escorreu pelos olhos mortos na forma de vultosas lágrimas — Eu só queria... só queria poder enxergar... eu não quero ser um fardo para você nem para ninguém.
As palavras do pianista atravessaram o coração de Asmita feito flecha traiçoeira, que com um soluço de agonia estendeu os braço e o abraçou com toda a força e o desespero que lhe consumiam.
— Não, Shaka! Você não é! Está entendendo? Você não é. — disse exasperado, e com igual aflição afastou-se minimamente apenas para poder segurar no rosto fremente do irmão com ambas as mãos e encostar sua testa na dele — Deus, eu o amo tanto! E não haveria de querer outro irmão que não você, está me ouvindo? Tudo que eu disse foi para tentar te trazer de volta à realidade, para te fazer ter consciência de que não sou teu inimigo, Shaka... Eu sou seu irmão, seu amigo, eu mais que ninguém nesse mundo, quero te ver feliz... Por favor, me perdoe por ontem. Eu estava apavorado... e estou tão arrependido.
Lento e ainda um tanto vacilante, o pianista ergueu os braços e correu as mãos espalmadas pelas costas do irmão mais velho até seus dedos se fecharem firmes no tecido grosso do moletom. Dalí em diante não foi mais possível para ambos conter a emoção que os tomava.
— Eu não te odeio. — disse Shaka num murmúrio.
— Eu sei. — Asmita respondeu esboçando um sorriso enquanto voltava a abraça-lo, agora com ternura e zelo.
— Mas ainda te acho um idiota.
— Isso a gente pode tentar resolver. — disse o mais velho se afastando, e segurando na mão do pianista puxou a cadeira que estava ao lado e a colocou sobre o encosto — Senta aí. — pediu indo se sentar na beirada da cama enquanto enxugava as lágrimas com as palmas das mãos.
— Olha, Asmita, antes de mais nada, se vai me proibir de sair, de ir ao Terminal tocar o piano é melhor a gente nem começar essa conversa.
— Shaka baixa a guarda, pode ser? Senta aí. — insistiu — Você não é adulto? Não quer resolver as coisas como adulto? Pois bem, adultos tentam resolver as coisas conversando. Eu não vou proibi-lo de ir ao Terminal tocar o piano, mas quero saber quem é o rapaz com quem está se encontrando.
Uma inquietação repentina se apoderou do pianista. Ele engoliu em seco e piscou as longas pestanas loiras repetidas vezes.
— Eu... não estou me encontrando com ninguém... eu só... fui tomar um chá com ele na sexta-feira... é só um amigo.
— E esse amigo não tem nome?
Shaka baixou a cabeça, curvou-se ligeiramente e depois de tocar o assento da cadeira com os dedos sentou-se.
— Mu. — disse mantendo a cabeça baixa e os olhos presos no chão — O nome dele é Mu.
Asmita respirou fundo apertando os lábios, depois descansou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou os dedos das mãos, sempre analisando o rosto do irmão que estava sentado à sua frente. Agora fazia um exercício íntimo para fazê-lo falar e ouvi-lo sem pré julgamentos. Também tinha coisas a corrigir em si mesmo e esse trabalho não lhe era nem um pouco fácil.
— E esse... Mu... quem é ele? Onde ele mora? O que ele faz da vida?
— Asmita! — repreendeu levantando a cabeça e direcionando o olhar vago ao ponto que imaginava estar o irmão.
— Shaka eu apenas quero saber quem é esse cara... Qual o problema? Há por acaso algo que eu não possa saber? Algum segredo por trás desse Mu?
— É claro que não. — disse exasperado o pianista, então fez uma pausa e suspirou.
— Então qual o problema em me falar dele?
— Nenhum... — disse ainda meio inseguro — Ele... ele mora em Manhattan, e ele... trabalha em uma produtora de TV na Times Square... Ele também tem um irmão mais velho e... ele estuda cinema em Columbia.
Os atentos olhos azuis profundos do mais velho fixaram-se sobre o pianista por um momento. Em seguida sua fisionomia assumiu um ar severo e aborrecido.
— Hum... então eu não estava errado. É mesmo um burguesinho esse tal Mu. Trabalha na Times Square, estuda em Columbia... Cinema? Só gente de muita grana estuda cinema hoje em dia. — riu com certo ar de deboche, que não passou despercebido pelo outro.
— Se com essa conversa você pretendia me convencer de que não é um completo idiota, Asmita, eu tenho que te dizer que não está funcionando. — disse grosseiramente o pianista endireitando-se na cadeira.
O mais velho olhou para ele espantado, depois de um breve momento levou as mãos ao rosto e apertou os olhos ardidos pelo choro e a falta de sono.
— Olha, é que... eu conheço bem esse tipo. Isso se o que ele te disse for verdade.
— Você pode achar que sou ingênuo e limitado, mas saiba que há muito mais pessoas de visão perfeita que não enxergam o que está a um palmo dos narizes delas. — disse Shaka friamente — O que os seus olhos perfeitos te mostraram a respeito do Mu, Asmita? Já que me seguiu eu sei que o viu, então me diz. O que você viu?
— Vi alguém que está aquém de nossa realidade. Um cara que com certeza tem uma vida muito diferente da nossa. — respondeu com a voz adquirindo uma gravidade austera.
— Exato, e que portanto você não entende o que ele possa ter visto em alguém como eu.
— Não, Shaka...
— Sim, admita! Você viu o que seus olhos te mostraram, e apenas isso. Mas eu vi além! — apertou as mãos nos joelhos, pois os sentia tremer levemente — Eu vi alguém que se aproximou de mim atraído pela música, porque esta parece ser tão essencial para ele quanto é para mim... Ao contrário do que pensa, não foi minha deficiência ou vulnerabilidade que o atraiu... foi minha música. Minha música, Asmita! Aquilo que para o meu coração é tão vital quanto a luz é para os seus olhos perfeitos. — percebendo que o outro ficara mudo o pianista continuou: — Não adianta querer me fazer enxergar o mundo e as pessoas a seu modo, porque o mundo que eu vejo não é o mesmo que você vê. E assim é com o Mu. Nunca o verá como eu o vejo.
Asmita respirou fundo mantendo os olhos cravados no rosto do irmão. A maneira como ele se referia ao tal Mu o incomodava, uma vez que estava mais do que desconfiado que havia mais que amizade entre eles e isso o preocupava.
— Isso nós só vamos saber com o tempo. — disse resignado, então inclinou-se e pousou a mão sobre a dele — Mesmo assim, ainda que eu confie em você e nesse seu... instinto apurado, para mim esse Mu ainda é um completo estranho. Eu sei que agi mal com você. E jamais quero ter de fazer algo parecido novamente, mas não estou à vontade com esse cara te convidando para festas e... chás, sem eu ao menos falar com ele. Ainda sou responsável por você. Eu quero conhece-lo.
— Eu entendo... — suspirou baixando ligeiramente a cabeça — Apenas me dê um tempo para falar com ele. — disse sabendo que para conseguir o apoio do irmão teria que apresentar Mu a ele, mas não queria forçar uma situação. Precisava deixar o cineasta livre para fazer as escolhas que quisesse, e também tinha medo de parecer um bobo, afinal saíra com ele apenas uma vez, ainda estavam se conhecendo. Tinha medo de que Mu se sentisse obrigado... Tinha muito medo de tudo na verdade.
— Tempo? E para que precisa de tempo?
— Como para quê? — ergueu o rosto franzindo as sobrancelhas — Asmita, ele precisa querer te conhecer também, não acha?
— E por que seu novo amigo não iria querer conhecer o seu irmão? Ou... ele é algo mais que apenas amigo? — perguntou, embora já imaginasse a resposta. Sabia ler como ninguém o irmão, e mesmo nunca tendo conversado abertamente com ele sobre sua sexualidade sabia que Shaka havia se identificado com a bissexualidade. No começo foi difícil assimilar tal realidade que para si era um tanto adversa, pois assim como pensava o pai ele também temia que o irmão vivesse um relacionamento gay e sofresse preconceito em dobro, perigo em dobro, mas o amor que sentia por ele sobrepunha qualquer julgamento ou preconceito que pudesse vir a ter, mesmo ele, que julgara Mu desde que o vira na Grand Central.
O rosto do pianista súbito ficou lívido. O pomo de adão subiu e desceu quando engoliu em seco.
— Ok. Não precisa me responder. — disse Asmita enfiando os dedos entre os cabelos os puxando para trás enquanto se levantava da cama — Não vou incomoda-lo. Você pode ir ao Terminal tocar o piano e... pode encontrar-se com esse rapaz, desde que me avise onde está e jamais desligue o seu celular. Também quero que volte para a casa no horário proposto, antes do anoitecer. Sabe que a vizinhança aqui não é das mais amistosas... E... se esse Mu é mesmo a pessoa que você diz ser, então ele não vai fazer nenhuma objeção em me conhecer. Diga a ele para vir aqui qualquer dia. Assim você deixará o nosso pai mais tranquilo também.
— Asmita. — disse Shaka levantando-se da cadeira quando ouviu os passos do irmão que tencionava deixar o quarto — Obrigado.
Ao virar-se e olhar para ele sentiu aquele calor no peito que só quem ama incondicionalmente já experimentou, e este irradiava lhe abraçando as entranhas e aquecendo a alma. Voltou-se e esticando o braço o puxou para um abraço, só então se permitiu sorrir um pouco mais aliviado.
— Vá comer. Coloquei chantilly na outra caneca para você botar no seu café, que já deve estar frio. — falou acariciando os cabelos do pianista.
— Eu vou, mas antes de sair, será que podia encontrar o carregador do meu celular, por favor? — pediu em voz baixa.
— Está plugado na tomada do lado do criado mudo. — disse correndo os olhos rapidamente pelo cômodo quando o avistou naquele ponto, então apanhou o aparelho sobre a cama e o conectou ao fio — Feito. Precisa de mais alguma coisa?
— Não... Obrigado. — Shaka respondeu em completo desalento. Quase tinha enlouquecido procurando aquela porcaria na noite anterior e ela estava bem debaixo de seu nariz, engolida pela penumbra muda.
As vezes sentia como se vivesse em uma dimensão à parte, em uma realidade alternativa. As coisas e pessoas, o mundo todo, estavam bem ali, tudo estava ali em torno de si, mas não podia vê-las, e se não as via elas não eram reais até que as tocasse, porém nem tudo conseguia tocar, e o que não tocava não existia.
Ser cego para ele era como viver em sua própria dimensão particular.
— Se precisar de algo estarei na cozinha. Vou fazer um bolo e para o almoço vou preparar espaguete com queijo, o seu preferido. — disse Asmita com voz mais branda, e não esperou que irmão lhe respondesse algo, pois sabia que não o faria. Deixou o quarto em completo silêncio.
Ainda com um resquício de magoa estampada no rosto abatido o pianista estendeu o braço para o lado e curvou-se ligeiramente sem mover os pés do lugar, só depois que seus dedos tocaram a superfície da escrivaninha foi que moveu-se até ela trazendo consigo a cadeira. Sentou-se alinhando as costas no encosto de madeira e ali, imerso dentro daquela dimensão plúmbea onde só ele existia pensou em tudo que acontecera na noite passada e também naquelas primeiras horas da manhã. Sentia em seu rosto o calor agradável do Sol que transpassava o vidro da janela à frente da escrivaninha. Deveria fazer uma manhã bonita naquele domingo. Seus olhos abertos de pupilas paralisadas recebiam a luz sem imolarem-se com ela.
A conversa com Asmita lhe trouxe certo alívio, porém com ele veio o medo de ter de dizer a Mu que para continuarem se encontrando o irmão teria que conhecê-lo.
— Urgh... ele vai me achar um babaca. — bufou balançando a cabeça com um sinal negativo, então vencido pela fome e instigado pelo aroma doce e convidativo do chantilly deixou para pensar em como faria o convite a Mu para vir até sua casa depois que terminasse o café.
Quando acabou de comer levantou-se apressado e caminhou até a cama já procurando pelo celular a carregar sobre o criado-mudo. Sem desplugá-lo do carregador preso à parede o ligou na ansiedade torturante em verificar se Mu o havia respondido. Seu coração disparou ao ouvir a notificação de mensagem.
Rapidamente colou o aparelho ao rosto para ouvi-la.
"Shaka, antes de dar qualquer resposta eu ponderei bastante. Tudo que eu disser pode, e creio que vai, soar meio que como loucura, visto que mal nos conhecemos, mas eu prefiro ouvir meu coração à minha razão, e este me diz o que eu já suspeitava: sim, eu estou com você. Eu quero lutar ao seu lado, quero ser sua força quando se sentir frágil, quero te trazer alegria quando estiver triste... E por que precisamos estipular tempo às coisas para torna-las legítimas? Eu sei que o que sinto por você é legitimo. Não preciso esperar. E se a vida é breve como sabemos que é, talvez uma só vida não tenha sido o bastante para vivermos tudo que desejávamos e talvez... aí sim você vai me achar doido, mas talvez tenhamos voltado nessa para nos reencontrarmos e seguir em frente... juntos."
Shaka chorou ao fim da mensagem. De emoção, alegria, medo... eram tantos os sentimentos que o preenchiam.
Desejou poder jogar o celular ali, cruzar a porta e correr até Mu para lhe dizer pessoalmente que pensava o mesmo. Todavia, além de não poder fazer isso também tinha medo de que Mu não suportasse o peso que era tê-lo a seu lado, já que temia não ter nada a oferecer a ele além de problemas. Ponderou muito, e quando finalmente a coragem e a paixão venceram sua insegurança gravou uma resposta:
— Não sei se acredito em vidas passadas, reencarnação, e coisas do tipo, mas acredito no que me diz meu coração, e ele me diz que não devo ter medo. Minha vida sempre foi bem diferente de tudo o que rege a vida das pessoas tidas como normais, de suas normas, suas convenções... Sempre enxerguei as pessoas com meu coração, e mesmo que esteja precipitado no que julga a minha razão, meu coração me diz que eu... encontrei o amor de minha vida... Eu estou apaixonado por você, Mu. Acho que desde a primeira vez que sentou do meu lado e tocou o piano comigo. Me perguntei durante todos esses dias se a minha paixão pela música, pelo piano, não poderia ter me deixado confuso quanto à você, afinal foi ele, o piano, que te trouxe até mim, e é ele... é ele que me dá vida enquanto tudo em volta de mim deixa de existir. Mas, não, Mu. Não é o piano, não é a música... é você. Muitos já sentaram a meu lado e tocaram comigo, mas ninguém tocou também a minha alma. Essa, só você foi capaz... Amanhã estarei na estação sentado ao piano e esperarei por você. Vou te contar tudo sobre mim e tudo sobre minha vida, então você estará livre para escolher caminhar comigo ou seguir seu caminho. E se escolher seguir sozinho, nada vai mudar. Continuarei amando o que você representa para mim por onde eu for. Tenha um lindo dia.
Em Manhattan Mu remexeu-se preguiçosamente entre os lençóis brancos desperto pelo aviso sonoro do celular. Tateou o espaço vazio na enorme cama até localizar o aparelho e ao apanha-lo entreabriu os olhos fitando o visor. A luz do écran o fez piscar repetidas vezes até sentir-se confortável para ler a notificação que esperava ansiosamente receber desde a noite anterior. Assim que leu o nome de Shaka acessou o aplicativo e ouviu a mensagem ainda sonolento, porém com o coração a dar saltos dentro do peito.
Ao final da mensagem o estudante de cinema já se sentia completamente desperto. Sentou-se sobre o colchão cruzando as pernas e ouviu mais uma vez cada palavra dita pelo pianista, e estas o tocavam de uma forma nunca antes experimentada. No entanto, junto da extrema sinceridade e emoção com que eram ditas, percebeu também nas palavras de Shaka um tom melancólico. A considerar as dificuldades pelas quais deveria passar não haveria de ser diferente.
Voltou a deitar-se ajeitando-se entre os muitos travesseiros que deixava em sua cama e gravou uma resposta:
— Bom dia, Shaka. Amanhã às três e meia estarei na estação. Podemos tocar o piano juntos e depois dar um passeio por ali mesmo, na Times Square, então escutarei tudo o que tem para me dizer sobre você, mas... eu acho que já fiz a minha escolha. Creio que nada que possa me dizer irá me fazer mudar de ideia, mesmo assim serei um ouvinte devoto e apaixonado. Ah! Eu já disse hoje que eu também estou apaixonado por você? — sorriu animado — Tenha um lindo dia você também. Estarei por aqui, ansioso e sonhando com a segunda-feira, quando poderei finalmente te beijar de novo.
O estudante de cinema enviou a mensagem e ainda ficou por um momento ali, com o aparelho na mão olhando fixo para a tela. O que será que Shaka tinha para contar que o estava deixando tão angustiado?
O domingo transcorreu tranquilo, tanto no Bronx quanto em Manhattan.
Quando senhor Nilo levantou e foi tomar o café encontrou Asmita preparando um bolo e logo Shaka juntou-se a eles na cozinha. Enquanto relatava aos seus meninos como tinha sido a noite de confraternização com os colegas de trabalho não deixou de notar os olhos inchados do filho mais novo, tampouco a expressão de pesar em sua fisionomia. Sabia que Shaka haveria de estar aborrecido ainda pela briga ocorrida na sexta-feira, e talvez tivesse chorado, mas ao questioná-lo o pianista alegou ser apenas uma reação alérgica. O episódio da noite anterior ficaria em segredo entre os irmãos.
Após o almoço Shaka recebeu a visita do amigo Shijima, que havia acabo de chegar de viagem com uma ótima notícia; tinha ganhado uma bolsa de estudos para cursar Matemática na Universidade da Cidade de Nova York. Por conta do ano letivo já ter se iniciado entraria no segundo semestre em um curso preparatório ministrado em Língua de Sinais Americana, depois iniciaria a graduação junto com a nova turma no ano seguinte. Festejaram a seus modos, aos pulos e abraços exultantes, depois foram dar um passeio pelas imediações do bairro do Bronx, e para Shijima Shaka contou todo o ocorrido na noite passada, sem poupar nenhuma minúcia. Muitos que passavam por eles caçoavam do modo como se comunicavam, celulares nas mãos, silêncio de um, muitas palavras do outro, braços dados, toques trocados.
O diferente provocava riso, buchicho, curiosidade, e a inevitável exclusão do conjunto dos iguais que por fim terminava em solidão completa. E para cada um ali essa exclusão era sentida de um jeito, mas era Shijima quem tinha que lidar com a dor e falsa piedade estampada nos olhos das pessoas que olhavam para Shaka, e este, completamente alheio a elas. Por isso, saber que existia alguém naquele mundo que fora capaz de enxergar o amigo pianista aquém de sua deficiência era algo que lhe enchia de alegria e esperança. Mal podia esperar para conhecer esse ser tão especial que atendia pelo nome de Mu.
Em Manhattan outros dois amigos também trocavam experiências e se consolavam como podiam.
— E então ele disse que eu tinha um belo pé, depois virou a cara para o outro lado e dormiu. Quer dizer, dormiu não, né, desmaiou de bêbado no sofá. — falou Afrodite que tinha descido até o apartamento de Mu para relatar suas tentativas frustradas com Camus na noite passada. Bebiam uma limonada sentados na varanda enquanto apreciavam o Sol se pôr entre os arranha-céus de Manhattan.
— Um belo pé? — disse Mu curvando-se ligeiramente para frente e curioso buscou sobre o piso de madeira nobre os pés do amigo sueco — Mas que merda de elogio foi esse? Isso se pode ser considerado um elogio... Sabe que nunca reparei nos seus pés? Até que são bonitinhos. — riu sem conseguir se conter.
— Tem muita coisa em mim melhor para reparar, né meu bem? — o sueco suspirou esticando-se todo na espreguiçadeira — As vezes acho que ele faz de propósito, só para me irritar... Não é possível que ele não tenha percebido o meu interesse nele, então por que ele simplesmente não me despacha para o raio que o parta como ele fez com o Milo?... Sabe que ele me mandou uma mensagem hoje?
— Hum... e o que o enjoado disse?
— Disse que manchei de azul as almofadas marfins do sofá dele.
Fez-se silêncio entre eles por um momento, e então ambos irromperam em gargalhadas.
— Que filho da puta. Você está muito ferrado, meu amigo. — disse Mu recuperando o fôlego — Tanto homem interessante e disponível nessa cidade e você foi se interessar pelo Camus. Isso que é gostar de desafio.
— Olha só quem fala! — Afrodite respondeu sorrindo — O cara que poderia ter o homem que quisesse e se apaixonou por um garoto da periferia, e cego ainda por cima.
— É, eu não tenho nenhuma moral para te julgar. — respondeu aos risos — Mas, o que sinto pelo Shaka pelo menos é recíproco. Ele também está apaixonado por mim.
— Eu heim! Se ele não estivesse, além de cego eu diria que ele é burro e louco. — deu um gole na limonada e suspirou — Mas, eu não te contei tudo. Quando estava indo embora, aquele calouro que veio da Itália, o que entrou para o time mês passado, sabe?
— O esquisitão de cabelo espichado?
— Ele mesmo... Ele me acompanhou até o meu apartamento e eu acho que rolou um clima. — deu um risinho malicioso.
— Ah, agora eu vi vantagem! Quem sabe será esse bravo guerreiro que vai te resgatar da cilada chamada Camus. Como é o nome dele?
— Ninguém sabe, mas o apelidaram de Máscara da Morte porque ele se negou a participar do trote no começo do ano e disse que se insistissem ou fizessem bullying com ele arrancaria as cabeças dos envolvidos, faria máscaras com seus rostos e ofereceria ao curso de teatro.
Mu olhava para o amigo com os olhos arregalados.
— Meu Deus, é praticamente um discípulo do Leatherface! Mas que dedo podre você tem para homem, Afrodite.
— Ah, e o Kanon é um partidão que você só abriu mão por não se achar merecedor, não é? Me poupe.
— Ah, pelo amor de Deus, quer estragar meu dia me lembrando daquele babaca?
— Não. Só quero mesmo te lembrar que em matéria de dedo pobre a coisa aqui entre você e eu é bem nivelada.
— É, mas agora eu tenho certeza de que acertei. Shaka é um cara incrível! E eu sei que vamos nos dar muito bem. Estou louco para vocês se conhecerem. — disse entusiasmado.
— E eu mal posso esperar para conhecer esse pianista tão fabuloso. Vamos ver se ele é tudo isso que você diz mesmo. — brincou levantando-se, já era noite e estava faminto — Vamos pedir uma pizza? Amanhã de manhã temos um jogo difícil contra o time de Cornell, eu não comi nada até agora e ainda estou de ressaca.
— Vamos sim. Eu vou pegar o telefone. — respondeu Mu seguindo para dentro da sala.
Enquanto fazia o pedido não conseguia deixar de pensar nas mensagens trocadas com Shaka, no que ele tanto queria lhe dizer. Estava ansioso e um pouco apreensivo era bem verdade. Sabia tão pouco do pianista, mas ao mesmo tempo sentia como se o conhecesse desde sempre, mas só agora haviam se reencontrado.
O que afinal preocupava tanto Shaka a ponto de querer chama-lo para uma conversa séria já no segundo encontro? Pensava Mu. Bem, para descobrir teria que esperar até o dia seguinte, o que não seria tarefa muito fácil para alguém impulsivo e ansioso como ele. Sem remédio, o melhor que poderia fazer no momento era tentar distrair a mente; iria foca-la no jogo que teria pela manhã e então a tarde estaria livre para encontrar seu adorado pianista e desvendar seus mistérios.
Afrodite estava certo. Poderia ter muitos outros caras em sua vida, os que quisesse, mas queria apenas Shaka, e no fundo as dificuldades e desafios que viriam com ele o instigavam e o deixavam ainda mais convicto de que tinha feito a escolha certa.
