######## NOTA ESPECIAL ########

Oie.

Esse capítulo é MUITO especial, por que? Porque a capa dele foi um presente *-*

A fanartista francesa EilemaEssuac (Amelie) leu/está lento essa fanfic aqui fanfiction . net e ela nos presenteou com uma ARTE MARAVILHOSA!

Eu e a Rosenrot quase tivemos um ataque do coração quando ela nos mandou e guardamos essa coisa linda para postarmos como capa desse capítulo.

Amelie, eu já te disse isso antes, MAS EU TE AMO SUA LINDA!

Como nesse site não é possível por imagens nos capítulos, ela está postada no Nyah e no Social spirit. Também colocamos a Fanart nos grupos do face e no meu tumblr. Além disso lá tem os links para que conheçam a arte da EilemaEssuac. Por favor, acessem a página dela no tumblr e no deviant, ela faz fanarts LINDAS e tem feito uma comic que é nosso xodó *-*

beijos a todos *-*

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Quando amanheceu, Mu cumpriu sua rotina matinal de modo um tanto diferenciado devido à partida de Rugby marcada para aquele dia, mas após esta o restante da manhã e início de tarde seguiram tranquilos. Próximo das três e meia da tarde, com o coração aos pulos ele entrou na Grand Central no centro de Manhattan já desligando os fones de ouvido assim que acessou a escada. Mais alguns passos e em meio à zoada do tropel que ia e vinha apressado preenchendo aquele espaço ele procurou um único som.

E lá estava ele, que com sua doçura extranatural e insólita força emudecia todos os outros sons.

Embalado pelas notas alegres e aceleradas do piano que pareciam abraçar o seu corpo e ter o poder de suspendê-lo no ar Mu cruzou os grandes arcos principais e caminhou em enlevo até chegar ao grande hall. Seus olhos então, como sempre faziam, se ergueram para o teto, para a abóboda e as constelações que estavam pintadas nela, enquanto na Terra seus pés seguiam o curso conduzidos pela melodia; e eis que chegou até ela... à estrela maior daquele firmamento.

Diferente de como fizera nas outras vezes em que se viu naquele mesmo cenário Mu desta vez não se aproximou do piano de imediato. Ficou parado por um momento apenas olhando para eles, músico e instrumento, sem ser capaz de decidir qual beleza lhe tocava mais o coração, se a do pianista ou da canção que ele executava.

Era engraçado como, embora já tendo estado ali algumas vezes na mesma situação, tudo agora lhe parecia novo. Uma emoção nova o preenchia.

Foi a primeira vez que estudou o pianista.

Foi a primeira vez que atentou-se aos detalhes.

Ele tocava de olhos fechados, cabeça ligeiramente abaixada, rosto firme, fisionomia serena, e embora houvesse ali pessoas no entorno que de quando em quando apoiavam-se no piano para sorridentes olhar para ele de perto, este nunca lhes dava atenção. Seguia tocando, sempre tocando.

Agora sabia porque nunca olhava para ninguém, e ainda que exultante por estar ali não pôde evitar que uma fagulha de melancolia acendesse dentro de si, o pegando deveras de surpresa. Suspirou profundamente na tentativa de ignora-la de imediato, então desenhou um sorriso no rosto e deu os primeiros passos até o piano. Seu peito ardia por dentro e lhe aquecia a alma.

Antes mesmo de tocar as teclas para acompanha-lo, quando colocou-se ao lado do imponente instrumento viu o rosto do pianista iluminar-se e teve certeza de que estava no lugar certo; no único lugar que queria estar.

Em meio a tantos cheiros que embriagavam seus sentidos logo Shaka reconheceu o de Mu, e seu coração encheu-se de festa. Por um instante tão breve quanto o bater das asas de um pássaro seus olhos azuis se abriram e diante deles piscou um mundaréu de matizes. Amarelos cintilantes, verdes aquosos, azuis translúcidos, um rosa aspergido e fraco que lembrava um céu de algodão doce. Juntas elas se fundiam no espaço plúmbeo e dançavam conforme as notas da canção envoltas pela massa cinzenta até se dissiparem por completo e o mundo mergulhar novamente na noite sem alvorada. Eram os tais delírios sensoriais que por vezes tinha ao tocar o piano, e que agora aconteciam também em certas vezes quando ouvia a voz do estudante de cinema.

— Sonata para piano n.º 11 em lá maior. — disse Mu enquanto dedilhava as teclas do canto acompanhando a canção — Andante grazioso... quarta variação.

Voltando a fechar os olhos Shaka sorriu e arrastou-se um pouco para o lado cedendo espaço na banqueta ao outro, que se sentou de imediato.

O ritual da semana anterior mais uma vez se repetiu e ambos tocaram o piano juntos, Shaka conduzindo, Mu o acompanhando, encantando a todos que por ali passavam e mesmo apressados paravam um momento para assisti-los.

Ao final da canção, aplausos, mas dessa vez o estudante de cinema não se levantou, tampouco se despediu do pianista e dos ouvintes acenando e saindo apressado como fizera das outras vezes, mas ficou ali, elevado e sorridente enquanto olhava para as mãos do outro que pousadas sobre as coxas tremiam ligeiramente.

Com um movimento lento tocou uma delas com o dedo mindinho, anunciando-se, então entrelaçou seus dedos aos dele de forma suave e discreta.

— As minhas também estão tremendo... e geladas. — disse quase num sussurro vendo o pianista corar.

Shaka apertou seus dedos contra os dele deixando escapar um sorriso.

— Não tinha como ser diferente. Tinha? — disse.

— Não. — Mu respondeu aos risos — Quer dizer... Se tivesse entrado no terceiro movimento dessa Sonata certamente eu estaria tremendo bem mais. A Alla Turca está muito acima das minhas capacidades e da minha memória.

Shaka riu junto com ele.

— Aposto que está sendo modesto. É tudo uma questão de ritmo e prática.

— Posso afirmar com segurança que Mozart não é apenas uma questão de ritmo e prática, pois eu pratiquei muito, minha infância e adolescência inteira praticamente, e mesmo assim não sou capaz de atingir a velocidade e precisão que exigem suas Sonatas. Tampouco sou capaz de lembrar todas as notas de cabeça. Estas, somente pianistas com talento nato como você são capazes, e alguns ainda seguindo as partituras... E pensar que toca guiado apenas por sua memória auditiva o torna ainda mais incrível! — disse, encantando com os contornos perfeitos do rosto do outro, que agora estava levemente voltado para si — Nem preciso dizer que tocava divinamente.

Num movimento lento Shaka abriu os olhos, mas o foco de seu olhar transpassava o limite físico, o limite da matéria, e parecia ver algo muito além da face de Mu. Ele via a tela onde pintou a imagem do estudante de cinema, e esta havia ganhado novos tons. Estava envolta em uma aura púrpura, e seus cabelos tinham vida e bailavam livres num campo infinito em tons de lavanda.

— Eu senti sua falta. — disse baixinho apertando mais os dedos entrelaçados aos dele.

— Eu também senti sua falta. — Mu respondeu no mesmo tom, então baixou o olhar até os lábios rosados do pianista ansiando por toca-los com os seus, mas se conteve — Deus, eu beijaria sua boca por horas aqui mesmo, mas... o Terminal está lotado e não seria nada prudente. — riu — Porque não seria um beijo discreto... Vamos para outro lugar? Ainda é cedo e... — pensou um pouco — Podemos ir ao Central Park. Fica a poucas quadras daqui. Já foi até lá? Podemos pegar um taxi e...

— Podemos ir caminhando. — Shaka o interrompeu animado — Estive lá quando era criança, depois nunca mais. Se fica a poucas quadras podemos caminhar.

— Claro. Vamos caminhando. — Mu respondeu com certo embaraço, já que a sugestão do taxi surgiu exclusivamente da ideia absurda de que Shaka não conseguiria andar a distâncias mais longas. Sentiu-se um tolo completo.

Soltando a mão do pianista o estudante de cinema levantou-se primeiro e aguardou ao lado do piano. Como da última vez o viu apanhar a mochila nos pés do instrumento e de um bolso externo retirar a bengala.

— Ah! — disse Mu de repente metendo a mão no bolso da parte interna da jaqueta de couro com a qual estava vestido — Seus óculos! Eu trouxe seus óculos. — tirou de lá os óculos e ainda meio atrapalhado os ficou segurando em frente a Shaka — Quer coloca-los? Está bem claro lá... lá fora. — fechou os olhos e contraiu os lábios fazendo uma careta quando se dera conta do disparate que havia dito — Me desculpe, Shaka.

O pianista riu projetando a bengala para o chão.

— Não se preocupe. Demora um pouco até se acostumar, é normal. — disse gentil — E você não está de todo errado. A luz pode ser bem incômoda para algumas pessoas que perderam a visão. O que não é o meu caso, já que tenho ausência total da percepção luminosa. Os óculos são apenas para esconder algo que seja desagradável aos olhos de quem enxerga.

Mu olhou para ele, para seus olhos que de tão perfeitos era difícil conceber que nada viam, então respirou fundo e mandou aquela fagulha de melancolia que queimava insistente dentro de si embora.

Não teria pena de Shaka.

Não cairia nesse abismo.

— Eu lhe disse uma vez e volto a afirmar. Não há nada de desagradável em você, Shaka. Muito pelo contrário. — voltou a guardar os óculos no bolso interno da jaqueta — Eu poderia passar horas admirando cada traço perfeito do seu rosto. E se não fosse estarmos em um Terminal lotado eu os contornaria com a minha boca.

O pianista arfou discretamente puxando o ar pelo nariz e o soltando pela boca. Este saiu quente. O perfume masculino do outro parecia inebriar seus sentidos, e uma tensão enorme tomava-lhe todo o corpo.

— Se continuar falando essas coisas acho que em vez do Central Park vou precisar voltar para casa e tomar uma ducha fria. — disse um tanto tímido, mas bem mais à vontade, o que provocou risos imediatos no jovem cineasta.

— Não. Sem duchas frias. Prometo que vou me conter. — disse animado — Vamos ao nosso passeio? Posso pegar no seu braço?

— Claro! Mas é melhor que eu pegue no seu. — o pianista respondeu — Fica mais fácil me orientar se segurar em você e apenas seguir seus passos do que você segurar em mim.

— Certo! Então venha. — disse o estudando apanhando a mão do pianista e a pousando em seu antebraço dobrado. Os dedos mantiveram-se entrelaçados.

Deixaram o Terminal e lado a lado caminharam por algumas ruas da Times Square até seguirem em direção ao Central Park. Shaka movia-se com certo embaraço, embora Mu o deixasse totalmente confortável, mas era difícil vencer a insegurança, sempre ela. Por mais que tentasse se mostrar apto e independente eventualmente era desmentido por uma lixeira fora do lugar na qual tropeçava e somente não caía porque era segurado por Mu, uma pedra que a bengala não tocara, um objeto aéreo, galho de árvore ou extensão de alguma fachada de loja mais baixa e que avançava a calçada o fazendo bater a cabeça, ou mesmo um transeunte mais apressado que ao passar por si quase o derrubava por não ter desviado.

O mundo é dotado de severos limites para as pessoas que não enxergam, obstáculos banais que passam despercebidos para os homens de visão perfeita.

Nessas horas Mu estava sempre ali para acudir, embora ocasionalmente fosse igualmente pego de surpresa, afinal quantas foram as vezes em que fez aquele mesmo caminho e nunca se dera conta acerca dos galhos mais baixos das árvores, das extensões das lojas, das lixeiras fora do lugar...

Para Mu o que eram meras trivialidades era toda uma realidade inacessível e perigosa para Shaka.

Mais uma vez o jovem cineasta sentiu o coração apertado e taciturno, e novamente não se permitiu sentir pena do pianista. Digna de pena era uma sociedade que fechava seus olhos às minorias, e até mesmo ele, que nunca se dera conta de que haviam pessoas com deficiência até conhecer o pianista.

— Estamos passando em frente a um cinema. — disse mandando embora aquela tristeza vaga, decidido a transformá-la em aprendizado, além de uma experiência única para ambos — Está passando O Poderoso Chefão. Toda Segunda-Feira esse cinema exibe um clássico.

— Estou sentindo o cheiro de pipoca. — disse o pianista sorrindo e aspirando mais profundamente o aroma que para muitos passava despercebido.

— Podemos vir semana que vem. O que acha?

Shaka estancou os passos e sua fisionomia assumiu um ar de surpresa.

— É sério?

— Ora, claro! Há sessões às 16:00 horas e depois às 20:00 horas.

— Eu nunca fui ao cinema.

Agora foi a vez de Mu ficar surpreso, embora seu alarde não tenha perdurado por mais que dez segundos, já que era de se esperar que Shaka não frequentasse cinema sendo cego.

— Pois então está decidido. Segunda-Feira que vem viremos ao cinema. — disse voltando a caminhar — Está ouvindo um pouco distante uma barulheira que parece uma confusão?

— Sim, estou.

— Do outro lado da rua tem uma mulher que está desesperada porque seu cachorro escapou da coleira... e está correndo entre os carros... O dono da banca de jornais na esquina e alguns pedestres estão correndo atrás dele. Tem até alguns policiais a cavalo mobilizados na captura.

— Nossa! E é um cachorro grande? É perigoso?

— Pelo que vejo daqui é perigosíssimo! — riu apertando suavemente a mão do pianista — É um chihuahua.

Shaka deu uma risada sonora.

— Eu não sei como é um chihuahua.

— É um cachorrinho minúsculo, um pouco maior que uma ratazana bem gorda, mas que pode arrancar o seu dedão com uma só bocada.

Shaka imaginou toda a cena em sua mente e sua risada descontraída soou como música para os ouvidos do estudante de cinema.

Sorridentes seguiram caminhando e conversando enquanto Mu descrevia tudo o que via a seu redor, até enfim chegarem ao destino.

— Essa é a última rua. Depois de atravessar chegamos ao Central Park. Há algumas pessoas tirando fotos e as árvores estão em um tom alaranjado, quase sem folhas. — dizia enquanto atravessavam a rua e se dirigiam para a entrada do parque — A grama ainda está bem verde, mas salpicada em tons de amarelo forte, cobre, vermelho e laranja... Dizem que o outono é a estação do ano em que esse parque fica mais bonito, e eu concordo. Mas... estive aqui por muitos outonos e esse lugar nunca me pareceu tão bonito quanto agora. — falou olhando no rosto do pianista, e este, como se pudesse enxergar, tinha o olhar erguido focado no vazio.

Shaka não via, mas felizmente a beleza não é um fenômeno exclusivamente visual, ou seria impossível para um cego perceber a arte e a natureza. Felizmente a percepção do belo podia ser sentida pelos outros sentidos, e era através deles que o pianista dividia aquela emoção única com o estudante de cinema, ao ouvir os cantos dos pássaros, ao sentir o cheiro de mato e do ar puro vindo com a brisa fria em contado com a pele, ao perceber o som da água, dos risos das crianças e dos passos dos amantes que em sincronia perfeita caminhavam sobre as folhas secas no chão.

Imerso em tudo aquilo, e muito mais na emoção que a companhia de Mu lhe proporcionava, Shaka apertou mais firme a mão e o braço do estudante contra o seu.

— Podemos sentar em algum lugar? Eu preciso muito falar com você. — pediu assumindo um semblante mais sério.

— Claro. — Mu respondeu e vagarosamente o conduziu até um dos tantos bancos que haviam por ali, mas antes de chegarem a um deles desviou o curso e guiou o pianista até um conglomerado de árvores — Cuidado onde pisa. Há raízes expostas... Vem.

Shaka achou estranho o caminho até o banco, mas seguiu as instruções tateando o solo com os pés e a bengala até que percebeu Mu parar por ali, então de repente sentiu as mãos do estudante de cinema lhe segurarem delicadamente os ombros e com um movimento lento o empurrarem para trás até que suas costas tocassem uma superfície sólida.

Embora tudo fosse extremamente delicado ainda assim lhe soava insólito, e quando pensou em perguntar a Mu o que estava acontecendo sentiu o hálito doce cheirando à hortelã invadir suas narinas, denunciando a proximidade. Nesse momento seu coração disparou.

— Sei que quer muito conversar, mas antes eu preciso fazer isso ou vou morrer. — disse o cineasta em voz baixa e controlada.

Estavam bem no centro de um pequeno espaço entre quatro grandes árvores, a uma distância considerável das largas calçadas por onde as pessoas caminhavam, então em um ímpeto incontrolável Mu colou seu corpo ao de Shaka exercendo certa pressão, subiu ambas as mãos até seu rosto afogueado e tomou-lhe os lábios num beijo profundo e apaixonado, o qual fora correspondido de imediato e com igual intensidade dada a urgência do pianista.

Um tremor involuntário tomou todo o corpo do músico, que agradeceu aos céus e a Mu por aquela iniciativa, já que para si era uma tarefa difícil, uma vez que não tinha como saber onde estavam, nem se haviam pessoas olhando. Infelizmente demonstrações de afeto em público ainda não era direito de todos, e para pessoas como eles o preço a se pagar por vezes era alto, mas ele acreditava que um dia todos iriam ser livres para amar quem quisesse sem julgamentos e preconceitos tolos.

Afoito Shaka deixou a bengala cair e então deslizou as mãos para as costas do estudante de cinema correndo os dedos longos pelo tecido frio de couro até espalma-las no centro e com força trazê-lo para mais junto de si. Queria senti-lo, provar o calor de seu corpo com a mesma ânsia e necessidade que lhe provava os lábios.

Na posição em que estavam quase ninguém os podia ver. Exatamente por isso Mu abusava da sorte, e enroscando os dedos nas madeixas loiras dos cabelos do pianista remexia-se todo roçando seu corpo ao dele em busca de mais contato, deixando escapar sutis gemidos de satisfação, pois seu coração batia tão forte e acelerado que era difícil até controlar o fôlego. Igualmente árdua era a tarefa de controlar os instintos do corpo. Não queria passar uma impressão errada de si ou deixar Shaka desconfortável ou encabulado, mas com aquele contato todo, e com o beijo voraz que trocavam, sabia que logo seria impossível evitar ficar excitado, por isso que, já sem fôlego e com os lábios inchados e vermelhos, Mu interrompeu o beijo e ofegante abraçou com força o pianista.

— Me desculpa. — sussurrou enfiando o nariz entre os cabelos loiros, e de olhos fechados aspirou o perfume suave que exalava deles. Um misto de flores do campo com um toque de brisa do entardecer.

— Não se desculpe. — Shaka respondeu roçando os lábios no pescoço quente do estudante de cinema — Não sabe o quanto esperei por isso. — confessou entre arquejos, e sem conseguir conter o furor e o desejo pelos lábios do estudante de cinema tornou a procurá-los, e assim as bocas ávidas uniram-se novamente.

— Eu... eu não conseguiria ouvir uma palavra do que tem a me dizer se não fizesse isso antes. — Mu confessou entre risos singelos quando conseguiu separar sua boca da dele — Passei o fim de semana todo pensando em você, Shaka... imaginando como seria beija-lo de novo. A realidade foi bem melhor... É bem melhor. — fez um carinho no rosto afogueado do pianista e afoito tornou a beija-lo, agora de modo mais sutil, e depois de um momento separaram-se quando ouviram algumas vozes de pessoas que passavam ali por perto.

— O que foi? O que está havendo? — Shaka perguntou preocupado.

— Nada. Só algumas pessoas que passaram por aqui. — Mu respondeu em tom brincalhão, depois abaixou-se, apanhou a bengala no chão e a entregou ao músico — Vamos nos sentar. Há um banco aqui perto. Me dê apenas um segundo, eu preciso... me recompor. — riu afastando-se ligeiramente. Estava com um volume extra na calça e os cabelos bagunçados. O pianista não estava em melhor estado, por isso mesmo também lhe ajeitou as madeixas carinhosamente, lhe fez uma carícia no rosto sorridente e pegando em sua mão o conduziu até o banco onde se sentaram lado a lado.

— Pronto. Prometo me comportar até que diga tudo que precisa me dizer, depois... depois nem tanto. — disse sorrindo sem soltar da mão dele.

Shaka riu de volta, mas embora tentasse passar segurança e calma sua mão fria e os lábios ligeiramente trêmulos denunciavam-lhe o nervosismo.

— Sabe, Mu, depois de tudo que falamos um para o outro nesse final de semana, ainda que por mensagens de celular...

— O que não deixa de ser legítimo. — acrescentou o estudante o interrompendo.

— Sim. Não deixa de ser. E eu repetiria aqui para você tudo que disse caso fosse preciso.

— E eu também.

— Pois é, e é justamente por isso que acho que precisa saber de algumas coisas antes de nós... digo... de nós continuarmos nos encontrando e... para podermos continuar nos encontrando.

Um pouco apreensivo Mu suspirou ajeitando-se no banco enquanto analisava o rosto perfeito do pianista.

— Diga tudo que precisa me dizer, Shaka, não tenha receio.

— Quando eu te disse que não sou tão independente quanto pensa eu não fui verdadeiro com você. — disse o músico que mantinha a cabeça ligeiramente abaixada e os olhos fechados — A verdade é que eu não sou nada independente... Demorei anos para aceitar que havia perdido definitivamente a visão, e mais outros tantos para me adaptar à falta dela. Essa... negação, inicialmente me fez demorar muito a aprender a usar a bengala, me adaptar à linguagem do braile e enfim deixar que todos esses elementos pertencentes à minha nova realidade entrassem de fato na minha vida... mas, junto deles também veio o piano. — fez uma pausa recordando-se da primeira vez que ouviu o piano, e tal recordação lhe era tão vívida na memória que era como se o ouvisse agora — Meu irmão, Asmita, não tinha mais que quinze anos, e ele era meus olhos e minhas pernas. Na verdade ele era mais que isso... Foi ele quem me levou até a escola fundamental onde segui os estudos em braile, e foi lá que ouvi o piano... O piano resgatou minha vontade de viver como se iça um tesouro esquecido no fundo do mar... A realidade passou então a ser menos ruim, ainda que eu preferisse viver fora dela dentro de um mundo que criei e sei que não existe, mas... nada existe de fato quando não se pode ver... Não sei se está entendendo.

— Eu... acho que estou. — Mu respondeu concentrado enquanto olhava para os dedos das mãos de Shaka e os delineava com as pontas dos seus. Tantas coisas passavam por sua cabeça, mas o que mais lhe tomava os pensamentos era no quanto deveria ter sido aflitivo para ele perder a visão, e ainda tão jovem. Isso fazia seu coração pesar dentro do peito.

— Sabe, quando se perde a visão o que mais tememos é esquecer das coisas do mundo, em especial do rosto das pessoas... Há muitas coisas das quais já me esqueci, como a forma de alguns objetos... borboletas... vulcões, as ondas do mar, o arco-íris... já não me lembro com exatidão como são algumas cores. Na minha imaginação o mundo é diferente, e por isso eu muitas vezes aceitei viver a fantasia, já que a realidade aos poucos ia se apagando. E então você chegou. — apertou a mão de Mu na sua e ergueu ligeiramente o rosto o voltando para o lado onde sentia a respiração do cineasta próxima a si, então abriu os olhos e como se toda sua história passasse nítida diante deles continuou: — E só o que quero agora é viver o que é real, mas... precisa saber que por mais que eu tente levar uma vida normal, isso nunca vai acontecer de fato, Mu. Não somente por ser privado do sentido que por excelência é o mais crucial ao homem, mas... porque há muito mais coisas envolvidas em minha cegueira.

O pianista respirou fundo. Para ele não era fácil lidar com assunto, sentia-se mal, uma vez que era como reviver tudo mais uma vez, mas percebendo sua agonia velada o estudante de cinema lentamente tocou seu ombro e correndo a mão até seus cabelos lhe fez um afago.

— Prossiga. Sem medo. — disse com a voz calma e confiante.

Shaka sorriu tímido.

— Eu perdi a visão e junto com meus olhos também se apagou a vida da minha mãe. Ela morreu pouco tempo depois que fiquei cego.

A fisionomia de Mu tornou-se taciturna.

— Shaka, eu sinto muito. — disse com pesar.

— Está tudo bem. — disse levantando a mão até seus dedos tocaram o queixo do estudante de cinema e ali roçou levemente as unhas nos parcos pelos da barba por fazer — Eu apenas disse isso porque sofri bastante com a morte dela, mas Asmita, o meu irmão, foi quem mais sentiu sua ausência... Minha família sempre foi muito humilde, e meu pai precisou trabalhar dobrado para criar sozinho meu irmão e eu, e nas várias horas que ele ficava fora trabalhando era Asmita quem cuidava de mim. Vez ou outra um tio ou tia distantes vinham nos dar alguma assistência, mas logo retomavam suas vidas, retornavam a seus problemas e então voltávamos a ficar sozinhos. Nenhum deles tinha tempo, energia e principalmente dinheiro para cuidar de duas crianças, uma delas cega total. — suspirou recolhendo a mão e baixando ligeiramente o rosto.

— Como aconteceu? — a pergunta do estudante pegou o pianista de surpresa.

— Como? — ele questionou com a voz trêmula.

— Sim. Como você... ou por que você perdeu a visão?

Visivelmente alarmado Shaka contraiu os lábios e Mu o sentiu apertar com força sua mão. Ele se manteve calado por um breve momento. Parecia pensar em algo, e quando a brisa fria tocou sua face e fez tremelicar alguns fios de seu cabelo cor de Sol ele fechou os olhos, resignado.

— Foi um... acidente. — disse erguendo o rosto agora voltado para frente, e era nítida a tensão em sua voz — Eu bati a cabeça e... a pancada foi tão forte, ou como estávamos conversando ontem através das mensagens, apenas quis o destino que ela me causasse uma lesão justamente na área do quiasma óptico... Por isso eu não sei se gosto de atribuir ao destino você ter surgido na minha vida e em tão pouco tempo ter causado em mim toda essa explosão de sentimentos.

Mu olhou primeiro para o rosto sereno de Shaka, depois piscou os olhos angustiados e prendendo a respiração fitou diretamente o céu. Este estava encoberto pelas copas das árvores que teciam um manto de floras em tons de laranja, vermelho e amarelo sobre eles.

Shaka também tinha os olhos azuis abertos voltados para o mesmo ponto, mas para ele não haviam formas, nem cores. Não havia nada.

— Existem diversos tipos de cegueira. — continuou o pianista, com as palavras lhe saindo da boca agora com maior firmeza, e ao ouvi-las o estudante de cinema voltou a olhar para ele — Pessoas que enxergam pouco, e aquelas cuja percepção das formas ou noção de distância não são exatas também podem ser consideradas cegas. É praticamente impossível explicar o conceito da cegueira a uma pessoa de visão perfeita... Alguns veem apenas luzes em constante mudança, outros relatam ser semelhante a estar em uma câmara branca isenta de qualquer coisa e onde há apenas vultos. Há aqueles que não enxergam nada, mas ainda conseguem ter a percepção da luz, sabem quando é dia e quando é noite... Nenhum desses é o meu caso.

— E qual é o seu caso? — Mu perguntou apreensivo, sem nem saber ao certo o motivo de sua tensão.

— Eu faço parte de um grupo bem pequeno de pessoas que não têm visão alguma. Sou o que chamam de cego total. É o que alguns chamam também de amaurose. — disse o pianista — Um nome invocado para designar a perda total da visão. Nem luzes, nem formas, nem vultos em câmaras brancas ou percepção de luz... nada. E diferente do que pensam as pessoas que enxergam, também não é a ausência total de cor, ou seja, eu não vejo tudo preto.

— Não? — indagou surpreso o estudante de cinema — Sempre pensei que fosse tudo escuro.

— Escuro sim, mas não preto. Na verdade, eu nem sei dizer se me lembro exatamente da cor preta, mas eu a conheço, e com toda certeza não é ela que vejo. Bem, na verdade eu não vejo nada. Com meus olhos abertos ou fechados tudo é sempre igual, apenas nada. É como estar trancado dentro de uma enorme caixa de chumbo, ou como estar dentro de uma caverna sem luz. Às vezes quando toco o piano enxergo um ou outro espectro de luz, feixes coloridos, espirais translucidas, mas não passam de delírio, ilusão, não são reais, mas apenas sensações vindas dos meus outros sentidos. E também são muito breves. — fez uma pausa pensando que o fenômeno também acontecia algumas vezes em que ouvia a voz de Mu, mas sem saber por que sua insegurança o impediu de dizer — Então, justamente por ser um cego total é que não sou, e talvez jamais serei, totalmente independente. Ainda que consiga cumprir sozinho a maioria das minhas tarefas diárias sempre precisarei de alguém para me dizer se é dia ou noite, ou me ajudar a escolher as cores, me orientar caso esteja em algum lugar que desconheça...

— Mas... Como isso é possível? — Mu questionou com voz quase sussurrada, enquanto encarava fixo os olhos do pianista que congelados fitavam o nada.

— Sobre o que se refere?

— Os seus olhos... Eles... são tão perfeitos e... tão bonitos, límpidos, expressivos.

Shaka voltou o rosto para ele e suas palavras saíram cheias de suavidade e retidão.

— É porque meus olhos são totalmente saudáveis, Mu. Não há absolutamente nada de errado com eles, mas na comunicação entre eles e o meu cérebro. A lesão no quiasma óptico atingiu os nervos óticos dos meus dois olhos e interrompeu essa comunicação de modo irreversível. Os meus olhos veem, veem tudo, mas a informação não chega ao meu cérebro, ela não é processada.

O estudante de cinema soltou o ar dos pulmões e não se mexeu. A realidade da cegueira de Shaka era tão absurda para si que tinha dificuldade em acreditar.

— E não... — sua voz vacilou por um instante — Não há nada que se possa ser feito? Se seus olhos são bons! Não há uma cirurgia ou... alguma terapia que reative a comunicação entre eles e o cérebro? Eu não sei, algo que... digo, a medicina está avançada, eu... o meu pai conhece muitos médicos que...

— Não, Mu. — o pianista o interrompeu quando percebeu um tom de aflição em sua voz, então usando as duas mãos para segurar as deles sorriu — Não há nada que se possa ser feito, mas por favor, não deve se preocupar com isso. — as mãos dele estavam frias e ligeiramente trêmulas, e ansiando quebrar aquele clima de tensão confessou: — Sabia que as luzes e espirais de cores que disse que enxergo algumas vezes quando toco o piano, e que são um espetáculo, ainda que bem breve, eu também as vejo quando ouço sua voz?... Não são todas as vezes, mas... eu vi a sua voz, e ela é uma luz bailarina em tom de púrpura ou violeta, não sei ao certo.

Mu arregalou os olhos surpreendido, então em silêncio delineou a face doce do pianista o afagando com o olhar. Dada aquela confissão por um instante qualquer palavra ficou presa em sua garganta, até que finalmente conseguiu se mexer e soltando as mãos dele abriu os braços e o puxou para um abraço forte. Estava deveras emocionado.

— Como me diz uma coisa dessas e não quer que eu me apaixone ainda mais por você? — disse com o nariz enfiado entre as longas madeixas loiras do pianista — Essa foi a coisa mais bonita e romântica que alguém já me disse, sabia?

Shaka sorriu o apertando ainda mais contra si mesmo, e já sem nenhum receito de que Mu pudesse rir ou negar-lhe o pedido encostou a lateral de seu rosto ao dele e disse enfim:

— Faltou eu lhe dizer por que te contei tudo isso... Para mim, é impossível, pelo menos por enquanto, sair sozinho ou me guiar apenas com a bengala. Eu só serei capaz de ir a locais que nunca estive antes com ajuda de alguém. Até para atravessar as ruas preciso de ajuda. — nessa hora afastou-se e segurou nos braços de Mu — E é meu pai, mas principalmente meu irmão, Asmita, quem faz isso por mim. Como te falei, eu relutei a aceitar minha nova realidade, e com isso Asmita criou uma redoma em torno de mim. Meu irmão dedicou a vida dele até agora a cuidar de mim, a praticamente vigiar meus passos. Ele faz absolutamente tudo por mim, mas não consegue ver que fazendo isso está jogando a vida dele fora e me impedindo de viver a minha... Asmita não namora, não sai de casa, não concluiu a faculdade... ele queria ser médico... Tudo porque ele acha que tem que ser meus olhos. Ele não me deixa procurar outro emprego, ou sair, conhecer pessoas novas, nada, por medo de que algo ruim me aconteça... Atualmente eu posso sair apenas para tocar na estação de metrô, mas preciso estar em casa antes do pôr do Sol. E todo o problema, Mu, é que ele também vai me impedir de encontrar você caso não... caso não o conheça pessoalmente. — engoliu em seco, nervoso e um pouco envergonhado — Asmita não é uma pessoa ruim. Pode parecer, da maneira que estou falando, mas ele não é.

— No sábado. — disse o estudante de modo bem sério — Ele fez algo a você, não foi? Ele não te deixou ir à festa?

Shaka fechou os olhos e ligeiramente desconfortável baixou a cabeça.

Não queria contar a Mu o que Asmita havia feito. Não queria que o cineasta sentisse raiva do irmão, mas devido ao fato de ter tentado passar uma imagem errada de si mesmo e de sua vida ao estudante, e agora estar deixando tudo às claras, sentiu-se incapaz de mentir. Confiava demais em Mu, seu coração parecia de fato enxergar-lhe a alma, e mesmo ansiando por omitir o episódio lamentável sabia que ele entenderia o lado do irmão.

— Asmita me trancou no quarto. — disse em voz baixa.

— O que? — os olhos de Mu quase saltaram das órbitas tamanha sua indignação — Ele te trancou?

— Sim, mas é que aconteceram muitas coisas. — Shaka disse um tanto nervoso — Na sexta-feira eu saí sem avisar e cheguei muito mais tarde que o combinado, coisa que nunca havia feito antes, e ele e meu pai quase enlouqueceram de preocupação. Chamaram até a polícia... Eu errei, entende? Devia ter avisado, mas se avisasse não me deixariam sair... Bem, quando cheguei em casa acabamos tendo uma discussão feia... Enfim, é por isso que eu te peço perdão, pois não quero que sinta-se pressionado ou que faça mau juízo do meu irmão, mas depois que fizemos as pazes nós conversamos e... eu até posso continuar tocando na estação, mas ele não vai me deixar sair com você a menos que aceite conhece-lo.

Mu respirou muito fundo, um tanto preocupado com tudo o que havia acabado de ouvir. Ajeitou os longos cabelos com uma das mãos e enfim verbalizou um de seus maiores temores.

— Shaka, o seu irmão sabe da gente? Você contou a ele o tipo de relacionamento que temos? Digo... o seu irmão sabe que você é gay? — perguntou num misto de curiosidade e apreensão.

— Nunca conversei abertamente sobre isso com Asmita, mas eu também nunca escondi nada dele ou do meu pai... Já disse a meu pai que sentia atração por garotas e também por garotos, e ele nunca me reprimiu ou repreendeu. Já Asmita... ainda que eu não tenha dito ele sabe que você não é apenas um amigo. — suspirou erguendo as mãos até o rosto de Mu e ao tocá-lo seu coração bateu forte — Me desculpe... Não quero que se sinta pressionado a nada. Deus! Você deve estar me achando um palerma. — riu nervoso — Se achar que ainda não é a hora de...

— Shiii. — Mu calou a voz de Shaka ao colocar suavemente o dedo indicador sobre seus lábios — Não precisa se explicar mais. Eu entendi.

O silêncio ladeou a ambos por um momento.

Durante o tempo em que o pianista aguardou ansioso pela resposta do estudante de cinema enquanto apertava sua mão, mil e uma informações passavam pela mente de Mu conforme olhava estático para os olhos azuis imóveis à sua frente. Só agora havia se dado conta do quão frágil era Shaka e o quão justificável era sua insegurança.

Racionalizando tudo agora com maior clareza era capaz de entender que o hábito de Shaka de tocar o piano na estação de metrô era um comportamento condicionado, e que chegar até ali sozinho também estava dentro de sua margem de segurança. Apenas, ele, Mu, era o único elemento que estava fora.

Mas agora ele sabia o que era preciso para entrar de vez no mundo do pianista.

Embora julgasse absurdo o comportamento de Asmita em trancar o irmão em casa, Mu sabia que não podia condena-lo. No lugar dele, e dadas as circunstâncias e baseado nos relatos do pianista, talvez tivesse tomado uma atitude igualmente passional, pois a que tudo indicava Asmita era um irmão superprotetor.

A verdade era que a realidade de Shaka era tão astronomicamente diferente da sua que Mu sentia a cabeça ferver, perdido em meio a tantas constatações. Shaka tinha dezenove anos e precisava voltar para casa antes do Sol se pôr, enquanto ele já morava sozinho desde os dezessete, ia e vinha para onde quisesse, fazia o que lhe dava na telha, e não lhe eram cobradas satisfações desde que cumprisse suas obrigações com a família, costumes e estudos.

No entanto, naquele breve momento enquanto olhava para as íris translucidas dos olhos imperturbáveis do pianista sentiu-se tão preso às agruras da vida quanto ele, já que, por mais livre que fosse, diferente de Shaka ele não podia sequer cogitar em levar até sua casa um rapaz e apresenta-lo a seus pais como namorado sem que com isso tivesse que arcar com graves consequências.

Sua sexualidade era um completo tabu, e também uma forma de prisão e limitação.

O destino era realmente irônico. Problemas diferentes para realidades diferentes. Shaka precisava levar uma vida regrada e controlada, em contrapartida sua família lhe era receptiva e cuidadora, ao passo que Mu vivia uma vida completamente descomedida, cumprindo seus deveres com maestria sim, mas regada a festas, baladas, parceiros diversos e várias aventuras românticas, estas sempre ocultadas dos pais intolerantes. A família do estudante de cinema jamais o aceitaria como gay, ele sabia disso, e essa era sua maior mágoa.

Mu sabia que assumir um relacionamento com o pianista seria um grande desafio, muito maior, aliás, do que já esperava, e intimamente perguntava-se se estava preparado para isso quando viu Shaka baixar a cabeça visivelmente angustiado.

— Como eu te disse, não precisa responder nada agora, Mu. — a voz do pianista escapou dos lábios pequenos que forçavam um sorriso encabulado — Mas, por favor pense a respeito.

E quando Shaka já estava a ponto de enlouquecer de ansiedade eis que sentiu Mu se levantar do banco e puxa-lo para que também se colocasse de pé.

— Você precisa chegar em casa antes do anoitecer, certo? — Mu perguntou gentilmente, mas em tom bem sério.

— Sim. — Shaka respondeu em tom vacilante.

— Então eu acho bom irmos embora, pois o Sol já está bem baixo e até chegarmos ao Terminal, e depois até o Bronx, vai levar um pouco mais de uma hora.

Eis que o pianista sentiu os dedos gentis do estudante de cinema tocarem seu queixo e na mesma hora ergueu a cabeça sentindo o coração palpitar em êxtase dentro do peito.

— O... que? Você... você tem certeza? — perguntou exultante e surpreso.

Um vento desavisado chacoalhou os cabelos de ambos, então as mãos de Mu correram pelas laterais do rosto de Shaka até fecharem-se na nuca.

— Claro que tenho. Não quero me atrasar e logo de cara causar uma primeira impressão ruim ao meu futuro cunhado. — disse a voz sorridente.

O pianista abdicou de todo e qualquer decoro, insegurança ou medo que trouxera consigo até ali e tomou a boca do jovem cineasta com um beijo pleno de paixão e alívio.