Sem conseguir conter a alegria o pianista abraçou o estudante de cinema com a euforia de uma criança que acaba de ganhar um presente há muito esperado.

Mu era seu presente, e ele estaria disposto a tudo para merece-lo e retribui-lo com o mesmo afeto, a mesma compreensão.

— Tem certeza? Não acha cedo demais? — questionou afastando-se minimamente, mas ainda segurando firme nos braços do outro.

— Estou achando é tarde! — respondeu Mu deslizando os dedos pela face banhada de sol do pianista. — Foi horrível ir à festa sem você.

— Foi horrível não poder ir à festa com você! — Shaka murmurou suspirando mediante aquele toque.

Ambos riram de si mesmos e de mãos dadas caminharam de volta à Times Square, ao Terminal. Mu havia pensado em pedir um taxi, mas algo dentro de si lhe sussurrou para que fizessem o caminho que Shaka sempre fazia quando ia à Grand Central. Ansiava por entrar no mundo dele, e quem sabe poder torná-lo um pouco melhor.

Assim, pegaram o metrô e minutos depois desciam na Estação Melrose.

Para o pianista aquela viagem pareceu ser a mais rápida dentre todas que já fizera, curta demais para tantos risos animados e conversas descontraídas. Para o jovem cineasta ela tinha sabor de uma grande aventura, e talvez a mais emocionante que fizera até agora, pois nunca sentira seu coração bater tão acelerado.

Mu jamais imaginou que um dia iria pegar um trem para ir conhecer a família de um homem por quem estava apaixonado, e que isso seria tratado com a naturalidade de qualquer outro compromisso heterossexual que tivera. Shaka certamente estava lhe proporcionando uma experiência singular, de alegria e autoconhecimento, pois se antes julgava que seria capaz de levar uma vida escondendo sua sexualidade, agora tinha certeza que não era.

Ser aceito era, sem dúvida alguma, o primeiro passo para a felicidade plena.

Quando deixaram a estação o pianista pediu ao estudante de cinema que apenas caminhasse a seu lado, sem lhe pegar na mão. Por mais que o tempo, somado aos tantos trabalhos ostensivos de segurança pública e urbanização, tivessem feito do Bronx um distrito pacífico para se viver, ainda assim ali era a parte mais pobre de Nova York, portanto algumas mazelas sociais mantinham suas chamas acesas, como o preconceito étnico, o racismo a, intolerância religiosa e justamente a homofobia.

Mu sabia de tudo isso, embora aquela fosse uma realidade da qual ele nunca vivenciara de fato, e que também nunca lhe interessara, até agora.

Enquanto andava ao lado de Shaka seus olhos verdes curiosos passeavam pelas ruas e vielas estreitas como se estivessem vendo tudo ali pela primeira vez. Já estivera naquele lugar antes, várias vezes, mas nunca havia enxergado tudo como agora. Sentia a vibração do Bronx a cada novo passo que dava, fosse nas vozes das pessoas que passavam por eles e que falavam entre si em diferentes dialetos dos idiomas latinos e africanos, dominantes ali, fosse pelo som do hip hop que vez ou outra chegava a seus ouvidos quando um garoto ou garota de bicicleta passava por eles com o celular preso à roupa. Também tinha o cheiro forte do lixo acumulado na rua, e do aroma de alguma iguaria latina que se erguia das tantas barraquinhas de comida salpicadas pela rua.

Com 90% da população daquele distrito composta por imigrantes latinos e africanos, o trabalho informal muitas vezes era a saída encontrada por estes para sobreviver.

Mu não ignorava essa realidade.

Ele apenas nunca a enxergou.

Já havia feito dois trabalhos para a faculdade naquele distrito. Um documentário sobre o Jardim Botânico do Bronx, marco Histórico Nacional, com seus mais de um milhão de espécies de plantas e os maiores programas de pesquisa e conservação de plantas no mundo, e outro sobre o magnífico estádio do New York Yankees, o maior dos Estados Unidos.

Agora ele estava de volta ao Bronx, e pela primeira vez este se despia diante de seus olhos.

— Estamos quase chegando. — de repente a voz de Shaka resgatara Mu de suas reflexões. — Você está tão quieto... Está nervoso? — perguntou enquanto dobravam a última esquina.

— Sim... Quer dizer. Espero que seu irmão vá com a minha cara. — riu para descontrair. — Mas você também está calado. Está nervoso?

— Muito! — Shaka riu.

Mu desviou os olhos da calçada estreita e comprida onde caminhavam e olhou para Shaka, então esticou discretamente o braço e tocou em sua mão.

— Vai dar tudo certo. — disse para tranquiliza-lo.

O sol se punha no horizonte tingindo de um coral forte os telhados das casas. Alguns bares já abriam suas portas para receber aqueles que por ali só perambulavam quando a luz do dia se apagava, e ao fim daquele estirado caminho, quando dobraram uma esquina mal cheirosa, Shaka começou a contar os passos. Ao final de quarenta e sete pararam de frente ao portão de ferro pintado de branco.

— Chegamos. — disse abrindo o trinco — Estou feliz que esteja aqui. — sorriu nervoso, depois empurrou o portão resignado. — Anda. Vamos acabar logo com isso.

Calado e apreensivo Mu o seguia observando com atenção tudo à sua volta. O caminho todo até ali, a pobreza do lugar, os tipos estranhos nas ruas que por vezes lançavam olhares curiosos a eles, fizeram o estudante de cinema entender o motivo do zelo exagerado do irmão mais velho do pianista. O universo que cercava suas vidas estava a milhões de anos luz de distância do seu.

No pequeno trajeto entra o portão de tinta carcomida e a porta de entrada da casa os olhos do estudante de cinema percorreram atentos cada detalhe da humilde construção que mais tinha jeito de caixa que moradia. A fachada constituía em apenas uma parede plana de tijolos avermelhados com uma porta e uma janela de vidros embaçados ao lado. Não por estarem sujos, mas porque deveriam contar com muitas primaveras. O telhado era alto e aplainado. Deveria haver um sótão ali, mas bem pequeno, e quando baixava os olhos, que acompanhavam uma das calhas enferrujadas, a qual descia desde o telhado até o chão, eis que esses de repente pousaram em um rosto de fisionomia severa e aturdida.

O sangue de Mu petrificou dentro das veias.

Parado ali, diante da porta agora aberta, Mu encarava a face de Asmita, e involuntariamente prendeu o ar dentro do peito. Não que essa súbita reação fosse causada por temor ou qualquer outro sentimento do tipo, mas porque ele tinha a sensação de estar olhando para um clone de Shaka, uma réplica perfeita, porém mais velha, bem mais avultada, e completamente isenta da doçura e suavidade do pianista. Os cabelos eram mais curtos e uns dois tons mais escuros, e a barba, ainda que rala, ajudava para tornar sua expressão ainda mais grave. A semelhança entre os irmãos era impactante.

— Por Deus que está no céu! O que ele faz aqui? — disse Asmita sem tirar os olhos estatelados de Mu, que congelado mantinha-se ali em silêncio.

— Ele quis vir, então eu o trouxe. — respondeu o mais novo com a simplicidade de um desejo de criança — Não disse que queria conhecê-lo?

A surpresa e visível incômodo inflamou Asmita fazendo seu rosto se contorcer.

— Mas deveria ter me avisado quando fosse trazê-lo, e não aparecido aqui assim, de surpresa. — as palavras saíram duras como o olhar que mantinha fixo na face do visitante — A casa está uma bagunça... — nem sabia ao certo por que havia dito aquilo, já que bagunça definitivamente não combinava com o lar de uma pessoa cega, uma vez que tudo necessitava ser mantido no lugar para evitar acidentes e facilitar a vida do pianista. Talvez tivesse dito pelo desejo íntimo que nutria de que aquela história fosse apenas fogo de palha, e que assim que irmão propusesse o encontro formal o tal rapaz declinaria e enfim tudo estaria acabado.

Mas ele estava ali.

Muito antes do que havia previsto.

— Ele não veio pela casa, Asmita. Mu está aqui por mim, por você... e também por ele. Você não disse que só me deixaria sair se o conhecesse? Pois bem. Ele está aqui para que se conheçam.

Um silêncio embaraçoso abraçou os três, ali mesmo, naquela porta, até que Asmita, resignado, porém notadamente aborrecido, segurou no braço de Shaka e dando um passo para o lado fez sinal a Mu para que entrasse.

— Eu não sei mais o que faço com você. Achei que isso levaria no mínimo alguns meses... Vocês só podem estar de brincadeira. — murmurou para o irmão mais novo, depois olhou novamente para o estudante de cinema — Vamos entrem.

Atrapalhado, e totalmente inseguro acerca de como deveria proceder, já que jamais se imaginou em uma situação como aquela, a de conhecer a família de outro garoto, Mu adentrou a casa sem ainda conseguir dizer nenhuma palavra. Essas pareciam empedradas em sua boca. A face, que parecia decorada por uma zanga permanente, de Asmita fazia sua mente trabalhar depressa e constante em busca das palavras certa a dizer, mas nada lhe ocorria.

Logo que cruzou a porta se viu dentro de uma apertada sala de estar onde havia um sofá grande de tecido de veludo canelado, num tom de caramelo escuro, que ficava de frente para uma estante e uma pequena mesa de centro. Na estante tinha uma televisão de tubo de vinte e nove polegadas, alguns livros, uma coleção de discos antigos e um aparelho de som. Os LPs eram de senhor Nilo, fã apaixonado de B.B. King, Billie Holiday e Frank Sinatra, que mesmo tendo suas canções do coração gravadas em CD ainda os mantinha conservados e muito bem guardados. Ao lado da estante estava a janela de vidro que por dentro era oculta por uma cortina de tecido branco. Da sala mesmo já se podia ver a cozinha mais ao fundo pelo batente da porta. Do outro lado ficava a passagem para o corredor que levava aos três quartos e ao banheiro da casa. Não havia objetos de decoração ou vasos com plantas, e também não existia tapetes. Todo o caminho, apesar de pequeno, era bem livre para que Shaka pudesse circular sem correr riscos. Isso Mu constatou rapidamente ao correr os olhos pelo ambiente. Era tudo tão diferente de sua casa, de seu mundo... Só as duas salas de seu apartamento, a de estar e a de jantar, eram maiores que aquela casa toda. Por um breve instante imaginou Shaka em sua casa. Provavelmente ele não iria conseguir dar mais que três passos sem esbarrar em alguma coisa dentre as tantas quinquilharias que tinha. Vasos enormes com plantas que nem era ele quem cuidava, mas a diarista paga pela mãe, objetos de arte, tripés de câmeras, estantes com caixas e mais caixas com filmes, aparelhos caseiros de ginástica... Teria que repensar sua decoração quando o pianista começasse a frequentar seu apartamento.

— Sente-se. — disse Asmita para o estudante o trazendo de volta de sua divagação.

— Ah! Sim... obrigado. — finalmente as palavras liquefizeram-se e escorreram de sua boca, e enquanto ocupava um dos cantos do sofá observava Shaka dirigir-se ao outro sem nenhuma dificuldade.

Sentaram-se lado a lado, com algumas almofadas no meio os separando.

Asmita acomodou-se na poltrona que ficava ao lado, de atravessado na sala, e quando ouviu o leve ranger dessa e deduziu que todos já estavam acomodados Shaka tomou a dianteira.

— Asmita, esse é o Mu. — disse com voz firme e franca. Os olhos abertos inexpressivos mantinham-se voltados para o espaço que um dia lhe foi tão familiar: a poltrona onde sua mãe costumava sentar consigo no colo para ler histórias.

— Eu... sinto muito ter vindo sem avisar. — desculpou-se Mu imediatamente em seguida encarando os olhos severos de Asmita que não desviavam dos seus nem por um decreto. — Shaka me disse que estava inseguro quanto à nossa... aproximação, e eu compreendo em absoluto sua cautela, por isso achei... achei que era bom... vir até aqui logo para... tranquiliza-lo.

Asmita ergueu uma das sobrancelhas tombando ligeiramente a cabeça para um dos lados.

— Me tranquilizar. — disse em tom áspero, com a boca formando um arco para baixo. — Você por acaso tem noção do que está dizendo?

Mu ensaiou uma resposta já abrindo a boca para dizer qualquer coisa, mas Shaka foi mais rápido.

— Asmita! — o pianista chamou a atenção do irmão elevando o tom de voz.

— O que foi, Shaka? Eu quero saber se ele tem mesmo noção do que está dizendo, porque me parece que não. — disse, e ofereceu à Mu um olhar frívolo e analítico.

Agora, o vendo de perto Asmita podia constatar o que já estava mais do que certo em sua cabeça desde que o vira no Terminal. Mu era um burguês esquisitão, gay, que vestia roupas grã-fino e usava um relógio e um par de tênis que provavelmente custavam mais do que a casa onde morava, além de que tinha um cabelo desleixado pintado de roxo desbotado. Somado a tudo isso ainda tinha o fato de estudar cinema em uma das mais conceituadas, e caras, universidades dos Estados Unidos da América. O que então por todos os céus alguém como ele tinha visto em Shaka? Um garoto pobre e cego.

— Asmita, sua condição para me deixar sair e continuar a ir ao Terminal tocar o piano era conhecê-lo e ele está aqui, mas eu não vou permitir que seja um babaca sem educação com ele, ou...

— Deixa, Shaka. Está tudo bem. — súbito Mu o interrompeu tocando em seu ombro com gentileza, e quando o pianista respirou fundo voltando o rosto para seu lado o estudante de cinema recolheu a mão e esboçou um sorriso, depois voltou a encarar os olhos severos de Asmita. — Eu sei o que deve estar pensando. O que um cara como eu faz aqui? Será que vim por um impulso? Ou sou um completo alienado que não tem nenhuma noção do que está fazendo.

— Ambos não têm noção alguma do que estão fazendo. São dois inconsequentes! — retrucou Asmita inclinando-se para frente.

Nessa hora Shaka bateu ambas as mãos no assento do estofado e levantou-se de supetão.

Seu rosto vestiu-se com uma máscara de raiva.

— Você está sendo ridículo! — as palavras pularam de sua boca crispada e voaram em direção ao irmão mais velho — Disse que queria conhecer o amigo que fiz no Terminal, que tem tocado o piano comigo, e quando o trago em casa para satisfazer a porra da sua vontade se comporta feito um idiota truculento. Qual é a sua, Asmita?

O mais velho agora encarava firme o pianista, enquanto no sofá Mu tinha o rosto lívido, os olhos arregalados, surpresos, que alternavam-se entre os dois irmãos lhes divisando as faces aturdidas, e a boca entreaberta.

Quando aceitou ir até a casa de Shaka não imaginou que causaria uma nova briga entre os irmãos, e muito menos que ela se desenrolaria bem na sua frente. Estava um pouco constrangido e nervoso, sem saber o que fazer para acalmar os ânimos. Foi quando a voz grave e imperiosa de Asmitao fez estancar o olhar somente no irmão mais velho.

— Quero falar com você a sós. — disse ele encarando Mu.

— O que? — o pianista exasperou-se.

— Como você está vendo, o meu irmão é meio esquentadinho, e não vejo como termos uma conversa franca com ele nos interrompendo a todo momento. — disse o mais velho recostando as costas no encosto da poltrona e cruzando as pernas.

— Eu não estou acreditando nisso, Asmita. Eu não vou sair daqui. Você quer deixar de ser idiota?

— Só quero falar com ele a sós, ora. Qual o problema? Algum problema para você, Mu?

O estudante de cinema, meio atrapalhado, engoliu em seco enquanto trocava um rápido olhar inquietante com o mais velho. Respondeu pouco depois:

— Não. Nenhum problema. — se levantou e devagar tocou no braço do pianista, que tinha a respiração ruidosa e o rosto levemente corado. — Shaka, eu falo com ele. Não se preocupe. Eu vim aqui para isso mesmo, não é? Está tudo bem.

Trêmulo e abalado o músico ponderou por um momento e no fim suspirou baixando a cabeça e fechando os olhos. Deu um passo considerável à frente e depois esticou um dos pés até este tocar a pequena mesa que ficava ali, no centro da sala, e virando-se para a esquerda disse em tom moderado:

— Está certo. Vou esperar no meu quarto... Só não me mate de vergonha, Asmita, por favor.

O pianista então seguiu até o corredor sem esbarrar em nada, capturando a atenção total de Mu que o acompanhava com o olhar atento de uma água, até que as voz de Asmita novamente o trouxe de volta ao dilema que deveria enfrentar.

— Pode me acompanhar até a cozinha? — disse ele se levantando da poltrona. —Meu irmão é cego, mas ouve muito bem e quero ter uma conversa privada com você. Além disso, é visita... devo lhe servir algo. — caminhava para o cômodo ao lado esperando que Mu o acompanhasse.

— Não precisa se incomodar. — respondeu o estudando o seguindo.

— Eu faço questão.

— Tudo bem... então... aceito um copo de água. Minha boca está seca. — disse levemente embaraçado.

— Está nervoso? — provocou olhando para trás.

— Nervoso?... Não. Por que estaria? — a resposta foi dada mais a si mesmo que ao outro.

Mu estava uma pilha.

Mais nervoso ainda ficou o estudante quando de repente Asmita abandonou o percurso até a pia onde deveria apanhar o copo d´água para virar-se de frente para si e avançar em sua direção feito um búfalo desgarrado, parando somente quando se viram cara a cara. Seus narizes quase se tocando.

— Porque agora que está aqui e viu com seus próprios olhos a fria em que está se metendo o juízo talvez tenha voltado à sua cabeça. — disse ríspido num sussurro — Metendo a si mesmo e ao meu irmão, que é quem mais vai sair machucado nessa história.

Mu piscou os olhos densos que observavam atentos e em desassossego os de Asmita. Esses eram inflamados por uma fúria da qual ele não conseguia conceber a razão.

— Me desculpe, Asmita. Com todo respeito, mas... eu acho que quem não tem nenhuma noção do que está dizendo é você. — censurou o estudante de cinema com a firmeza de um juiz. Estava nervoso, não com medo.

— Como é que é? — o outro chocou-se.

— Eu não preciso recuperar juízo nenhum porque nunca o perdi. — respondeu sem sombra de hesitação — Eu sei exatamente o que vim fazer aqui. Vim para que me conhecesse. Para que soubesse com quem o seu irmão anda... se encontrando no metrô, já que ele disse que você estava inseguro quanto à nossa... amizade. — engoliu em seco.

Asmita contraiu os lábios enquanto seus olhos dardejavam o rosto lívido do outro.

— Amizade... Acha que eu sou algum tipo de imbecil?

— Não... Eu...

— Chega dessa palhaçada! — postulou — Eu sei muito bem que tipo de amizade é a que vocês dois andam tendo. Eu não sou estúpido!

Mu perdeu a voz.

Talvez o tal Asmita não fosse tão aberto assim quanto à sexualidade de Shaka como o próprio lhe dissera no Central Park. Ou talvez o pianista tenha sido ingênuo e não percebera.

— Vamos falar às claras aqui, ok? Sem meias palavras. O que você quer com meu irmão, cara? Quer levá-lo para a cama? Quer transar com ele? É isso? Tudo bem, vocês são jovens, Shaka tem todo direito de fazer sexo com quem ele quiser, afinal ele já é maior de idade e está na hora mesmo, mas para isso você não precisa enfiar na cabeça dele esse monte de merda que anda enfiando. Nem fazê-lo acreditar que pode ter algo sério com alguém como você, um burguês que estuda em Columbia, trabalha em um canal de televisão na Times Square, e que provavelmente tem tudo na vida que ele jamais terá um dia nem que morra de trabalhar. A vida não é um conto de fadas gay, você está me entendendo? Mas é isso que está colocando na cabeça dele. Então, se você quer trepar com o meu irmão, tudo bem, mas seja honesto com ele. Diga a ele que é só isso que você quer, e então se ele aceitar vá em frente, transe com ele, mas não vou permitir que o iluda, que o faça sofrer. Você me entendeu?

Mu não soube o que responder de pronto.

Estava completamente desnorteado.

Nunca havia vivido uma situação como aquela, sequer imaginado que um dia ela fosse acontecer.

Então todo o problema com Asmita não consistia apenas em terem um relacionamento gay, o que de início para Mu lhe causou certo alívio, já que não se tratava de mais um caso de homofobia. O problema residia no forte instinto de proteção e dever impressos no homem à sua frente.

Mu respirou fundo e engoliu em seco mais uma vez sentindo a saliva parca descer por sua garganta feito um comprimido de cobre amargo, então sabendo que não poderia se dar ao luxo de vacilar manteve a mesma determinação com a qual se cobrira dos pés á cabeça no Central Park e encarando Asmita nos olhos respondeu no mesmo tom ríspido:

— Entendi. Mas é você quem precisa entender algo aqui, não eu. — enfrentou o irmão do seu pianista com bravura — Que tipo de pessoa você julga que sou? Então porque tenho dinheiro, não apenas isso automaticamente me classifica como um canalha como também reduz Shaka à uma condição tão miserável que não merece estar comigo? — mal respirava entre as palavras. — E mais respeito com o seu irmão. Não está tudo bem em um cara se aproximar dele interessado apenas em sexo. Me ofende se acha que preciso impressionar alguém com meu dinheiro e meu status para conseguir sexo, e ofende ao seu próprio irmão também. Shaka é um garoto incrível e merece o melhor do mundo e das pessoas.

— Petulante. A única ofensa aqui é você pensar que eu já não conheço o suficiente tipinhos como o seu. — Asmita rangia os dentes — Pensa que nunca vi um burguesinho antes? Fala bonito, tem lábia... Vocês acham que podem tudo porque têm grana e influência... Acham inclusive que podem mudar o mundo, ou que podem burlar certas convenções sociais apenas para satisfazer seus caprichos. Mas não podem!

— E o que isso tem a ver com Shaka? O que eu sinto pelo seu irmão não é capricho.

— É sim! — as palavras de Asmita soaram como um soco forte na boca do estômago — Você está aqui. Viu esse lugar? O que meu irmão tem a oferecer a alguém como você? Nada!

— Tudo! — Mu rebateu exaltado. — Por Deus, Asmita, será possível que você nunca enxergou de fato o seu próprio irmão? Nunca viu além do seu julgamento? Shaka não é inferior a ninguém, nem por sua deficiência e muito menos por ser pobre. Seu irmão é um cara incrível! Dono de uma alma sensível e iluminada. Um pianista de talento extraordinário que só precisa de alguém que lhe estenda o primeiro degrau para o sucesso, porque os outros ele é totalmente capaz de galgar sozinho. A... a deficiência do seu irmão tornou você mais cego do que ele.

Ao ser atingido em cheio por aquelas palavras Asmita recuou dois passos mantendo os olhos cravados no rosto perturbado de Mu, o qual percebia ter os músculos trêmulos. Era a segunda vez que era levado a questionar o julgamento errado que fazia do irmão mais novo o reduzindo meramente à sua deficiência. Shaka era cego, então sua exclusiva maneira de enxergar as pessoas era através de seus outros sentidos, entre eles seus instintos ocultos. Seu coração era puro e jamais se enganava, pois tendo os olhos apagados, e sem a visão para se guiar, nenhum rosto bonito era capaz de seduzi-lo, nenhum bem de valor tampouco podia envaidece-lo.

Tudo o que ele tinha era a intuição.

A verdade das palavras.

A sinceridade dos toques.

E Asmita sabia que Shaka nunca errava.

Após ponderar por um breve momento Asmita suspirou resignado.

— Eu espero mesmo, para o seu próprio bem, que esteja falando a verdade. — disse ele, com o rosto ainda contorcido em zanga. — Que Shaka esteja certo e eu errado. Que você seja uma exceção. Um em um milhão. Mas... se por ventura eu é quem estiver certo, saiba que vou quebrar você ao meio. Se eu perceber que de alguma forma está iludindo meu irmão ou o fazendo sofrer eu acabo com você, eu juro que... — fechou a mão e quase a encostou no queixo de Mu, que também já se preparava para revidar, mas eis que bem nessa hora a porta da sala se abriu e a voz áspera de senhor Nilo ecoou pela casa o obrigando a se conter.

— Asmita, cheguei filho!

Enquanto o pai descansava o casaco pesado no cabideiro e se desfazia dos sapatos para calçar os chinelos, Asmita afastou-se de Mu alguns passos ainda o encarando firme.

— Shaka já está em casa? — repetiu a voz de Nilo.

Mu, que também mantinha os olhos pregados aos de Asmita, respirou fundo procurando conter a adrenalina. Sentia a face e o peito quente. O sangue lhe corria em ebulição dentro do corpo fremente. Teria sido uma visita desastrosa caso chegasse às vias de fato com Asmita, e agradeceu aos céus pela interferência do pai...

O pai!

Assim que se deu conta de que quem acabara de chegar ali poderia ser o pai do pianista todo o nervosismo se canalizara novamente em Mu.

Em nenhum momento havia pensado que poderia se encontrar com o pai de Shaka, e agora percebia que definitivamente não estava preparado para isso.

Sentiu suas mãos geladas, o corpo trêmulo e sua face ficou pálida.

Inevitável era para Mu deixar de pensar no próprio pai e em como uma situação semelhante àquela, caso se desse em sua casa, resultaria em uma catástrofe.

Temeu pelo que viria.

E seu pavor foi logo percebido por Asmita, que não tirava os olhos de si.

— Quantos anos você tem? — Asmita perguntou em voz baixa.

— Vinte. — Mu respondeu visivelmente aflito.

— Você mora com seus pais?

O estudante de cinema dessa vez apenas meneou a cabeça com uma negativa. — Moro sozinho. — disse por fim.

— Asmita?

A voz de Nilo se aproximava.

— Estou na cozinha, pai. Nós temos visita. — disse caminhando de costas até próximo à pia, sem tirar os olhos do rosto de Mu, o qual analisava minuciosamente. — É um amigo do Shaka. Aquele do metrô. — enfim se virou para pegar um copo no armário.

No meio do cômodo Mu agora tinha os olhos vidrados no batente da porta de entrada.

Era impossível não transferir para Nilo o medo que tinha do próprio pai e do que aconteceria quando este cruzasse aquele pórtico.