Bem nessa hora Nilo adentrava o cômodo já alvejando Mu com os olhos azuis cansados.

Eles se entreolharam por um momento, calados. O estudante extremamente inseguro e assustado, o homem à sua frente curioso.

— Oh, então você é o rapaz do metrô! Você que tem ido tocar o piano junto com o meu menino? — a pergunta veio acompanhada de um sorriso caloroso e uma mão estendida que se oferecia em cumprimento — Seja muito bem vindo, meu filho.

Na breve fração de segundos que durou o tempo que o estudante de cinema levou para levantar a mão e responder ao cumprimento seus olhos não desgrudaram nem por um momento do rosto vincado de Nilo. A gentileza e docilidade da fisionomia dele eram como acordar em uma manhã ensolarada de primavera. E assim como a primavera, que com sua grandiosidade e força chega para renovar a vida, Nilo parecia chegar ali para renovar o ânimo de Mu, lhe encher de nova motivação e lhe trazer de volta a segurança que parecia o tempo todo querer lhe escapar pelos dedos.

— Obrigado. — disse o jovem cineasta com um sorriso tímido, ainda preso a cada traço daquele rosto envelhecido que parecia uma cópia futurista de Shaka. Seus olhos eram de um azul profundo e introspectivo. Se via uma certa melancolia neles, mas não podia ser diferente. Os cabelos totalmente brancos, a postura encurvada e os profundos vincos denunciavam o peso dos anos e da vida dura cheia de privações.

— Sente-se! — disse Nilo apressando-se em puxar uma cadeira para o visitante — Por que está de pé? Asmita, sirva um café ou um chá a ele. Você veio para o jantar? Se tivesse me avisado, Asmita, teria trazido algo do mercadinho.

— Não é preciso, pai. Ele não veio para o jantar. — disse Asmita entregando finalmente o copo com água à Mu, que trocou um breve olhar com ele ao pega-lo.

— Ah... não se preocupe senhor... — disse o estudante encabulado.

— Nilo.

— Senhor Nilo. Eu vim apenas para que me conhecessem pessoalmente e não ficassem preocupados em saber que Shaka tem... um novo amigo. — deu um gole generoso na água ainda bem nervoso — Ele me disse que estavam inseguros quanto à... à nossa amizade. Bem... espero que fiquem mais tranquilos sabendo quem eu sou.

— Ah, claro que ficamos! Não é Asmita? — disse o senhor sorridente erguendo o olhar para o filho mais velho.

— Hum... sem dúvida! — este respondeu irônico cruzando os braços.

Ironia que somente foi percebia por Mu, obviamente.

— Fico muito feliz, meu filho. Meus meninos são muito sozinhos, sabe? Em especial o Shaka. Sempre enfiado naquele quarto... Um amigo é sempre uma coisa boa. Um presente da vida. — sorriu, verdadeiramente animado — E qual o seu nome?

— É Mu.

— Mu! Nome diferente... Você não é americano, não?

— Não... Quer dizer, eu sim, nasci aqui nos Estados Unidos, mas meu pai é tibetano. Veio para Nova York com meu avô quando tinha três anos.

— Que interessante! Pois bem, Mu. Hoje é meu convidado para o jantar. Não há nada de especial. Aqui é tudo muito simples, mas Asmita cozinha muito bem.

— Ah, não! Por favor, não quero incomodar.

— Não é incômodo algum. Não é, Asmita? — disse buscando os olhos do filho mais velho, os quais lhe devolviam um olhar repreendedor — Por que está com essa cara feia? Ora, onde estão seus modos? E onde está o Shaka? Ele traz o amigo dele aqui e o deixa sozinho na cozinha?

— Shaka... foi vestir outra roupa. Está no quarto... Eu vou chama-lo. — disse Asmita um tanto indignado — Enquanto isso, por que não vão para a sala? Quero a cozinha livre para preparar o jantar.

— Perfeito! — disse Nilo levantando-se — Venha, Mu. Você gosta de futebol?

Asmita suspirou resignado e deixou a cozinha.

Nilo era um homem muito bom.

As vezes bom até demais.

Em frente à porta do quarto de Shaka deu três toques na madeira com os nós dos dedos e entrou, encontrando o pianista sentando na beirada da cama a roer as unhas de ansiedade.

— O pai chegou e não para de falar. Eles estão na sala... Eu vou fazer o jantar porque o senhor Nilo me fez o favor de convidar o seu amigo para jantar conosco.

O pianista levantou-se de supetão e tateando a parede logo chegou próximo ao irmão. Parou quando imaginou estar bem à frente dele, já sentindo o peso do olhar severo que este deveria lhe estar direcionando. Causava-lhe estranheza tais sensações, já que não tinha como saber qual fisionomia tomava o semblante de Asmita, mas sentia.

— O que você disse a ele? — perguntou apreensivo.

— Disse que Mu é seu amigo. E acho melhor você confirmar isso por enquanto.

— Não perguntei o que disse ao pai, perguntei o que disse ao Mu. O que queria tanto falar a sós com ele?

— Ora se quisesse que você soubesse não teria pedido para nos deixar a sós, não acha?

— Aposto que foi um babaca. Deus, por que você é assim?

— Você que está sendo babaca. Eu apenas conversei com ele de homem para homem.

— Ah, e eu sou o quê que não podia ouvir essa conversa? Um orangotango? Você queria ficar a sós com ele para intimidá-lo. Como você é idiota.

— Queria o que? Que eu beijasse os pés dele e lhe servisse o jantar? Faça-me o favor, Shaka. Eu fui franco com ele, só isso.

O pianista sentiu um toque de desdém na voz dele.

— Como, franco? O que quer dizer com franco?

— Quero dizer que eu deixei muito claro a ele que você não é qualquer um não. Que tem um irmão que te defende, e que se ele estiver te enganando ou fizer algum mal à você eu mato o desgraçado e o enterro em uma cova rasa, que é para os urubus comerem aquele cabelo roxo esquisito dele.

— Asmita!... Eu... eu não estou acreditando! Meu Deus que vergonha! — levou uma das mãos ao rosto e de olhos fechados apertou os dedos contra a fronte.

— Eu não vou beijar os pés dele... mas vou servir a porra do jantar. — disse o mais velho — E você... pode continuar a se encontrar com o burguesinho. Vou dar a ele um voto de confiança, mas não seja idiota! Fique alerta. Pelo que eu percebi ele não te contou tudo acerca da vida dele. Ele ficou todo esquisito quando o pai chegou... Tem coisa aí que ele está escondendo de você.

— Eu o conheço a uma semana, Asmita, pelo amor de Deus.

— E nem preciso falar para não darem mole na rua. Essa merda de cidade não é segura para... para pessoas como vocês. — disse, e enquanto proferia as palavras escorregadias seus olhos caminhavam aflitos pela face pueril do irmão mais novo. Deus, como temia por ele! Como queria mantê-lo longe dos perigos que sabia rondá-lo feito uma ave de rapina famélica. Mas não podia impedi-lo de viver. Isso era fato. — Vem cá. — súbito foi tomado por uma forte emoção que o fez puxar o pianista para um abraço e lhe beijar a testa. — Vá. Vá se juntar a eles na sala. Eu vou preparar o jantar.

Separaram-se rapidamente. E quando Shaka se percebeu sozinho ali deixou o quarto e tateando as paredes chegou até a sala onde ouviu a televisão ligada e a voz do pai a tagarelar animada. Falava algo sobre o jogo que estava sendo transmitido e Mu provavelmente era seu interlocutor.

Já tendo memorizado minuciosamente cada detalhe daquele espaço o pianista caminhou até o sofá e tocou o ombro de Nilo. Ele se sentava sempre no canto direito do estofado.

— Ah, Shaka! — Nilo virou-se para ele já estendendo os braços para segurar em seu rosto. Aquele gesto era corriqueiro, e após ele o pianista então se curvava para frente e o pai lhe beijava ambas as bochechas. Depois dos beijos Nilo delicadamente segurou em um dos pulsos do filho e levantando-se o conduziu até a poltrona para que se sentasse — Venha, filho, sente-se aqui. Mu está no sofá. Estamos assistindo à partida do Seattle Sounders contra o Kansas City.

— Pai, o senhor nem sabe se ele gosta de futebol. — disse o pianista meio embaraçado. Tinha receio de que Mu estivesse se chateando com tudo aquilo. Primeiro Asmita e sua rudez, agora o pai e seu excesso de cordialidade.

— Eu gosto muito de futebol! — a voz de Mu era sorridente, e trouxe algum alívio para o músico — Na verdade, eu adoro esportes. Jogo pelo time de Rugby de Columbia.

— Rugby? — Nilo ergueu as volumosas sobrancelhas loiríssimas e olhou para ele enquanto voltava a se sentar a seu lado. Agora o observava um tanto mais analítico. — Mas Rugby é um esporte tão violento. Tão bruto! Não tem medo de se machucar, não?

— Ah... não. Usamos equipamentos de segurança, protetores...

— Mesmo assim, são tudo de espuma, e é um esporte de intenso contato físico. — disse dinâmico e animado. Senhor Nilo era um apaixonado por esportes e competições. — Shaka, filho, o Rugby é parecido com o futebol americano, lembra?

— Eu... eu acho que sim, pai.

— Eu o levava para assistir quando ele ainda enxergava. — disse Nilo naturalmente ao mesmo tempo em que ajeitava uma almofada em suas costas. — Na verdade, o futebol americano é uma adaptação do Rugby. A bola é oval também, e tem quinze jogadores em cada time, enquanto no futebol americano só tem onze. Não é, Mu?

— É. — o jovem cineasta concordou, já um pouco mais descontraído.

— Só que é bem mais violento... Você é corajoso, rapaz. — disse Nilo dando dois tapinha nas costas de Mu. — Espero que guarde a violência só para o campo.

Mu riu junto dele, enquanto na poltrona Shaka apertava os dedos das mãos uns contra os outros os sentindo gelados. Estava nervoso.

— Não se preocupe, senhor Nilo. Eu sou um cara bem calmo. É difícil algo ou alguém me tirar do sério, e também o esporte me ajuda extravasar as emoções.

— Ah, isso é verdade! — Nilo concordou.

— Na verdade, meu ingresso no Rugby foi mais uma exigência do meu pai. — disse Mu, já se arrependendo em ter deixado escapar-lhe as palavras da boca — Ele é quem... é quem gosta bastante desse esporte.

— Mas eu não tiro a razão dele. É um bom esporte. — pontuou o senhor na mesma hora em que suas feições ganharam um ar pesado. Por um momento pensou que, como pai, também gostaria de ver Shaka praticando algum esporte, defendendo o brasão de uma renomada universidade, mas isso nunca aconteceria. — Bom... Shaka, por que não me disse que ia trazer seu amigo aqui hoje? Teria trazido alguma coisa boa para o jantar.

O pianista ponderou por um momento pensando no que iria responder.

— Porque eu o encontrei por acaso, pai, na Grand Central onde toco o piano.

— Shaka me disse que Asmita e o senhor estavam preocupados e inseguros com... com a nossa aproximação, e que chegaram a se desentender na sexta-feira. Eu compreendo plenamente a preocupação de vocês, por isso achei bom vir até aqui para que me conhecessem e de alguma forma poder tranquiliza-los. — disse Mu de modo firme, olhando Nilo nos olhos.

— Mu também toca piano, pai. — disse Shaka mal conseguindo conter o nervosismo.

— Ora, é mesmo! — o senhor levantou as sobrancelhas admirado — Veja só que interessante! Um atleta de um esporte tão truculento que toca um instrumento que exige profunda delicadeza. Isso não se vê todo dia. — sorriu gentil, depois inclinou-se um pouco em direção ao estudante e pousou a mão em seu joelho encarando profundamente seus olhos, os quais o miravam atenciosos. — Eu te sou grato por ter vindo, filho. Faço muito gosto na amizade de vocês. Fico feliz que Shaka tenha encontrado mais um amigo com quem ele possa partilhar das coisas que ele gosta, que o fazem feliz... Você é muito bem-vindo nesta casa e nesta família. Venha sempre que quiser.

— Obrigado. — Mu sorriu de volta. Havia entendido que, diferente de Asmita, Nilo parecia não desconfiar de nada. Julgava que ele e Shaka fossem apenas amigos mesmo, e achou melhor assim. Embora já sentisse que o dia em que revelassem a verdade talvez não sofreriam nenhuma represália. Senhor Nilo era de fato uma pessoa extraordinária. Um homem como poucos. Uma joia rara lapidada em amor e compreensão.

Da poltrona o pianista enfim pôde aquietar seu coração. Sabia que o pai não seria problema, mesmo assim foram minutos tensos. Mu por sua vez, o observava discretamente enquanto ouvia Nilo lhe narrar algumas jogadas da partida de futebol que passava na televisão.

Aquele gesto encheu o coração de Mu de amor.

Quão especial era a aquela família.

Tinham tão pouco e ao mesmo tempo tanto.

Não pôde evitar sentir uma ponta de inveja. A despeito de Shion, seu irmão mais velho, seus pais não chegavam a ser do tipo carinhosos. Mu sabia que era amado, já que nunca lhe faltara nada, sempre tivera tudo do bom e do melhor, mas os abraços não eram tão calorosos, os beijos eram extremamente raros, e qualquer contato físico ou palavra de apoio vinha cercada de polidez. Tudo era bem impessoal.

Porém, tão logo se deu conta de que em um futuro não tão distante poderia estar ali, como parte integrante da família de Shaka, sentiu um calorzinho gostoso lhe abraçar o peito.

No intervalo da partida o jantar ficou pronto e Asmita os veio chamar para sentarem-se à mesa. Nilo foi o primeiro a se levantar e ir até o filho mais velho, então lhe abraçou carinhosamente e o agradeceu por ter feito o jantar.

Sentados à mesa eles passaram longos minutos desfrutando de uma conversa agradável enquanto saboreavam a comida, que era extremamente simples, porém muito saborosa. O tempo todo Mu observava Shaka, ainda que muito discretamente, e sua desenvoltura em lidar com tudo ali lhe deixava admirado e lhe acalentava o coração. Parecia até que não era privado da visão, porém tinha consciência de que ele só conseguia tal façanha porque o irmão e o pai lhe serviam os alimentos e o orientavam incansavelmente.

Ao final Mu se ofereceu para ajudar com a louça. Atividade que ele não fazia nem em sua própria casa, porém Asmita negou a ajuda.

De volta à sala senhor Nilo foi assistir aos minutos finais da partida de futebol, e Shaka, tomando coragem, propôs a Mu que fossem conversar em seu quarto para ficarem mais à vontade.

Nilo não estranhou o convite do filho, pois que Shijima quando ia ali passava horas com Shaka no quarto entre conversas mudas, onde tudo o que se podia ouvir vez ou outra eram as risadas do pianista, e Asmita felizmente estava na cozinha bem ocupado com a louça.

Seguiram então juntos até o pequeno corredor. Mu, que vinha logo atrás do pianista, inconscientemente tentava amenizar o atrito de seus pés contra o chão de tacos, o qual produzia um leve ruído ao mudar os passos. Não queria chamar a atenção de Asmita porque sabia que o severo irmão de Shaka não aprovaria os dois ali sozinhos, e ansiava por um momento a sós com o pianista.

Quando chegaram ao quarto Shaka avançou na penumbra do cômodo e tateando a porta estancou os passos ali, dando passagem a Mu.

— Entre. — disse baixinho.

Mu mal conseguia discernir o espaço naquele escuro todo, até que já nos primeiros passos deu um esbarrão com o joelho no que parecia ser uma poltrona.

— Aow! — grunhiu curvando-se ligeiramente para frente e quebrando o silêncio opaco do lugar.

— Mu, o que foi? — o pianista exasperou-se.

— Nada... só bati o joelho... Está... escuro.

— Meu Deus, a luz! Eu esqueci completamente de acender a luz. — aflito Shaka tateava a parede rente ao batente à procura do interruptor — Me desculpe. Há tantos anos já que não necessito executar esse gesto que não me atentei... onde está?

Procurava quase em desespero, até que sentiu a mão do estudante pousar gentilmente sobre a sua e conduzi-la até o interruptor.

— Está aqui. — disse ele com a voz sorridente — Não precisa se desculpar. Não foi nada.

— Certo. — Shaka suspirou aliviado — Entre, fique à vontade.

Mu fez uma rápida carícia no rosto do pianista e finalmente adentrou o cômodo, que tinha um formato de retângulo, agora sabendo bem onde pisava. Logo de cara o que lhe chamou mais a atenção foi a organização e simplicidade do lugar. Como todo o resto da casa também ali cada móvel estava estrategicamente posicionado de modo a facilitar a locomoção de Shaka. A poltrona na qual esbarrara ficava próximo à porta e rente à parede. Estas eram totalmente nuas e de um tom quase coral. Junto desta mesma parede, mais à frente, ficava um armário grande de madeira. Havia pequenas chapas de metal com inscrições em Braile pregadas às suas gavetas e portas. Dispunha de uma cama de solteiro bem estreita e muito bem arrumada, a qual ficava encostada na parede do fundo juntamente de uma escrivaninha posicionada ironicamente em frente à uma janela grande de vidro com grades. Uma cadeira pequena servia à escrivaninha. Ao lado da cama havia um criado mudo, e sobre este dois livros com capas escritas em Braile e um pequeno aparelho de som. Tinha outros tantos livros sobre a escrivaninha junto de algumas pastas com o que julgou ser partituras e uma caixinha de música dourada. A tampa estava aberta e dava para ver o desenho de uma flor de lótus entalhado no metal. Mu ficou imaginando que canção era tocaria, e enquanto divagava olhou através do vidro e viu um pequeno pátio, o qual fazia uma curva que dava para os fundos de outra casa. Havia muito lixo ali, também entulho, e encostados no muro desse pátio três homens conversavam formando um pequeno círculo restrito. Fumavam e gesticulavam parecendo exaltados. Pensou que tantos segredos existiam ali, naquele pequeno espaço, sem que os olhos de Shaka pudessem testemunhar. Talvez fosse melhor assim...

Contudo, Mu não teve tempo de dedicar mais de sua atenção aqueles homens, pois logo ouviu a porta sendo fechada e trancada em seguida, então curioso virou-se em direção a ela vendo Shaka parado ali, de costas para a porta e de frente para si.

No silêncio absoluto do quarto o pianista julgava ser capaz de ouvir as batidas frenéticas do próprio coração, enquanto caminhava lento e preciso até ficar a uma distância curta de onde sabia estar a cama. Parou ali e retirou o casaco, o jogando em seguida sobre o leito.

Com os olhos abertos e imóveis feito duas piscinas naturais de um azul iridescente, vagarosamente o pianista levou ambas as mãos aos botões da camisa que vestia e um a um os desabotoou com perícia invejável, sem jamais desviar a atenção do ponto vago para o qual seu olhar infrutífero mirava.

Assim, com a camisa aberta e o rosto em chamas, como se fosse guiado por um sonar o pianista caminhou certeiro até o estudante de cinema, que parecia mergulhado em uma espécie de transe, já que não fazia ideia do que ele pretendia, porém, exultante e curioso, jamais ousaria em interrompe-lo.

Agora estavam de frente um para o outro. Mu mal piscava.

É dito que os olhos são as janelas da alma.

Justamente por não poder decifrar através dos olhos de Mu o que este sentia naquele instante, se desejo ou alguma outra paixão mais adversa, como curiosidade ou receio, tampouco podiam trocar olhares apaixonados que lhes servissem de guia, foi que Shaka apostou em seus outros sentidos para perceber as emoções de Mu e também lhe demonstrar as suas.

Muito próximo do jovem cineasta o pianista inspirou fundo, capturando o perfume amadeirado que exalava dele, e que agora preenchia seu olfato misturado ao calor do hálito que saía de sua boca em curtas lufadas de ar. Estas lhe tocavam o rosto febril e aos poucos faziam emergir na escuridão de sua mente formas familiares.

Logo a tela onde pintara o rosto de Mu estava lá novamente, visível em sua mente, e em todo seu esplendor.

O pianista então ergueu as mãos até seus dedos tocarem o tecido frio da jaqueta que Mu vestia, depois, sem nenhuma pressa as deslizou até segurar nas dele e lentamente conduzi-las até o próprio peito nu, num convite mudo para que o estudante o tocasse ali. Queria senti-lo, e também queria que ele o sentisse do mesmo modo, através do tato.

Aquela ousadia foi recebida com total surpresa pelo estudante de cinema, que acostumado a ver Shaka sempre tão retraído demorou alguns segundos para assimilar aquela faceta que lhe era tão nova quanto tentadora, porém, tão logo suas mãos tocaram o peito agitado e experimentaram o calor da pele arrepiada e o pulsar do coração frenético do pianista todo seu corpo pareceu vibrar.

Logo Shaka recolheu os braços e deixou que Mu o tocasse sozinho.

Os olhos atentos do jovem cineasta, em conjunto com as mãos passeavam arrebatados pelo peito lânguido e o tórax esguio do pianista, que em êxtase ergueu ambas as mãos, agora até o rosto de Mu, e ao tocá-lo com um gesto lento e suave inclinou-se tomando-lhe os lábios num beijo esfomeado.

O jovem cineasta fechou os olhos entregando-se aquele momento. Suas mãos passeavam febris por todo o torso do pianista até seguirem para as costas, atrevendo-se a arranhar levemente a pele quente, então súbito sentiu sua camisa ser erguida até à altura do peito.

Sem demora os corpos se uniram repetindo o que as bocas já faziam com excelência; experimentavam-se, desbravavam-se.

Por um extenso momento ficaram assim, unidos. Vivenciando juntos aquela união plena e arrebatadora com todos os sentidos além da visão. O sabor do beijo, o som dos gemidos e da respiração ofegante, o cheiro do perfume e do leve suor de cada um, o calor dos corpos trêmulos. Pele com pele, coração com coração, os quais batiam frenéticos dentro dos peitos que subiam e desciam agitados, em pura adrenalina.

Entregues as bocas não se separavam nem para recuperar o fôlego.

As mãos, agora bem mais ousadas, percorriam com mais certeza os corpos que ardiam em desejo; se engalfinhavam nos cabelos, apertavam a carne trêmula...

— Você está me tentando demais, senhor pianista. — Mu sussurrou enquanto dava uma leve mordida nos lábios de Shaka — Era eu quem deveria me aproveitar de você e não o contrário.

— Hum... Acha que estou aproveitando de você? — Shaka sussurrou de volta rente ao ouvido do estudante, que sentiu um arrepio correr por toda a coluna. — Pois eu digo que não... Estou só aproveitando todo tempo que tenho com você.

O pianista então voltou a beijar o cineasta com ainda mais urgência e desejo.

Só pensava em senti-lo em toda sua plenitude, em especial o corpo... E que corpo! Mu era másculo e viril como imaginava de fato o corpo de um atleta, mesmo nunca tendo tocado em um.

Afoito e curioso desceu uma das mãos para a cintura de Mu. E já ousava descer mais, quando de repente ouviu dois toques fortes na porta.

O susto fez atravessar uma estaca no coração de ambos.

O pianista parou no ato o que fazia, recuando alguns poucos passos para trás e afastando-se imediatamente do outro.

— Shaka abra essa porta agora!

A voz que vinha do outro lado da madeira era de Asmita. E não era nada amistosa.

— Já vou abrir. — Shaka respondeu elevando o tom de voz, e assim que o susto passou baixou a cabeça e rapidamente começou a abotoar a camisa — Mas que... merda.

— Você está cansado de saber que não pode ficar no quarto de porta trancada. — a voz se repetiu, ainda mais ranzinza.

— Já estou indo, Asmita. — repetiu, depois baixou o tom de voz — Só ele pode trancar a minha porta, eu não posso. — deu uma risadinha encabulada.

Mu também apressava-se em se recompor. Ajeitou as roupas, o cabelo, e tentando ser o mais natural que conseguia encostou na escrivaninha mantendo as mãos juntas na frente do quadril. Posição tão estratégica quanto necessária na situação em que se encontrava.

Alguns segundos depois, que mais pareceram horas para o irmão ciumento, a porta se abriu e Shaka aparecia ali com um semblante visivelmente agitado.

Asmita correu rapidamente os olhos pelo rosto corado do irmão reparando os lábios inchados, depois fitou Mu diretamente nos olhos, no fundo do cômodo.

Como gostaria de poder partir a cara daquele burguês abusado em dois...

— Está tarde. — disse com rispidez, sem amenizar o olhar assassino que direcionava ao estudante de cinema. — É melhor o seu "amigo" ir embora. — não disfarçou o tom irônico — Sabe que este bairro é perigoso à noite.

— Asmita, que falta de educação. — Shaka reclamou.

— Não, Shaka. Seu irmão está certo. — disse Mu desencostando da escrivaninha para caminhar até eles na porta, sempre mantendo o olhar fixo ao do irmão do pianista — Mas não se preocupe comigo, Asmita, eu vou chamar um taxi.

— Ah, sim! Claro que vai. Você é boa vida. Mas aqui ninguém tem vida mansa não. Meu pai e eu acordamos bem cedo.

— Asmita, por Deus, quer deixar de marra? Está me fazendo passar vergonha. — pediu o pianista em tom baixo para o pai não ouvi-los discutindo.

— Deixa, Shaka. Não me importo. — Mu sorriu — Está mesmo tarde. Mas, antes de ir embora ainda tenho um assunto importante a tratar com você. Se não se importa, Asmita, trata-se de um assunto particular.

— Já disse que nada de porta fechada. — pontuou firme.

— Não é preciso fechar a porta. Só nos deixe a sós, por favor. — pediu Mu encarando o mais velho.

Asmita respirou fundo o fuzilando com o olhar, enquanto Shaka ignorava completamente aquele embate mudo que se dava bem debaixo do seu nariz.

— Você tem dez minutos. — resmungou o loiro ranzinza antes de dar as costas a eles e sair.

Assim que Asmita deixou o corredor, Mu pegou na mão de Shaka e o conduziu até a cama.

— Senta aqui. — disse sentando-se junto dele e esperando que se acomodasse. — Já que seu irmão marrento me deu só dez minutos vou direto ao ponto. — riu da situação, enquanto olhava para o rosto do pianista admirando devoto cada traço perfeito que o compunha.

— Está me deixando ansioso. Que assunto importante? — sorriu inquieto.

— Bem, Shaka... Já que vim até aqui, em sua casa, e conheci seu irmão ciumento e seu pai, que por sinal é uma pessoa encantadora, eu acho que agora já posso te propor algo sem que pareça um completo maluco desesperado e precipitado, afinal não somos mais dois estranhos. — fez uma pausa apenas para se arrastar até bem perto do pianista e quase colar seu rosto ao dele, pois o que diria sairia sussurrado de sua boca. — Shaka, eu quero ser o seu namorado, posso? Você quer namorar comigo?

Pego de surpresa o músico engoliu um soluço.

Era certo que esperava ouvir aquilo um dia, e caso Mu não dissesse ele mesmo diria, mas não esperava ouvir tão cedo. Tinha levado Mu até sua casa apenas para que o irmão não o impedisse de sair, nunca para forçar uma situação.

— Só se eu fosse louco para te dizer que não! — sussurrou, e seu rosto todo sorria — Mas...

— Meu Deus do céu, mas o que? — o cineasta perguntou aflito.

— Não está dizendo isso agora, digo... já, porque Asmita te forçou a algo, não? Ou porque teve de vir até aqui e conheceu meu pai e...

— Está doido? É claro que não! — num impulso Mu segurou o rosto de Shaka e lhe roubou um beijo rápido — Eu estou dizendo isso agora porque é isso que eu queria dizer o tempo todo, desde que eu o beijei pela primeira vez. Eu estou dizendo isso porque eu não consigo mais imaginar a minha vida sem você.

— Nem eu a minha sem você. — disse o pianista pegando o beijo roubado de volta — Hum... Mu... Sim, eu quero ser seu namorado. Lógico que quero. — Shaka disse sorridente e com a mesma euforia de uma criança numa manhã de Natal.

Beijavam-se novamente quase em desespero. Mu com os olhos bem abertos pregados à porta, atento às sombras projetadas pela luz que vinha de fora do corredor. Shaka com os ouvidos em alerta ao menor sinal de passos que porventura pudessem se aproximar do quarto.

— Eu ainda não estou acreditando! Hoje é o dia mais feliz da minha vida! — sussurrou o pianista entre arquejos.

— O meu também... Sabia que é meu primeiro namorado? — o cineasta confessou enquanto mordiscava o queixo do outro.

— É mesmo? Podia jurar que já teve vários. É difícil acreditar vindo de alguém como você.

— Alguém como eu?

— Sim. Pela maneira como me toca... como me beija... e por ser inteligente... bonito... cheiroso... hum... gostoso...

A cada palavra dita Shaka depositava um beijo no rosto de Mu o fazendo rir baixinho e sentir arrepios.

— Ok. Eu já namorei antes sim, mas namorei garotas... Teve um cara também, mas nem chegou a ser um namorado de fato. — revirou os olhos ao lembrar-se de Kanon.

— Então você também é Bi.

— Não. — Mu ficou um tanto sério e sem graça — Eu apenas ainda não tinha aceitado... digo, assumido para mim mesmo que era gay. Namorava mulheres para não ter ninguém no meu pé.

— Ninguém quem? Sua família?... Sua família não sabe que você é gay?

Mu não gostava de falar sobre família, e percebendo que entrara em um assunto do qual precisaria preparar o terreno para discutir com Shaka lhe fez uma carícia no rosto de fisionomia atenta.

— Sim, minha família. Mas, não precisamos falar disso agora, nem hoje. Hoje é um dia especial, um dia feliz. O nosso dia!... Você, Shaka, é a primeira pessoa que eu realmente quis para mim. Desde a primeira vez que te vi, lá no Terminal, eu já sabia que o queria para mim, e agora que eu consegui não te largo mais.

O pianista sorriu emocionado.

— Eu nunca tive um namorado, nem namorada. Já deve imaginar o motivo. — disse se afastando um pouco e jogando os cabelos longos para trás das costas — Já beijei algumas pessoas e isso me ajudou a definir minha orientação.

— É? E a que conclusão você chegou? — a voz de Mu era amistosa.

— Conclui que o corpo é apenas matéria. As vezes muito bem feita, como no seu caso. — riu novamente — E não importa se é masculino ou feminino, porque o que conta é o que a pessoa é por dentro. Sua alma... O que de verdade eu procurava era uma alma que completasse a minha, e um coração que fizesse o meu bater mais forte, já que não posso enxergar as formas com meus olhos. E isso, Mu, eu só encontrei em você.

Ambos sorriram um para o outro.

Mu fez questão de pegar na mão de Shaka e lhe mostrar o quanto estava feliz a colocando sobre seus lábios risonhos e depois sobre seu peito, sobre o coração que batia forte e apaixonado.

Mas mesmo querendo aproveitar mais daquele momento, não podiam se demorar, então após alguns minutos ali o estudante chamou um taxi pelo celular e juntos deixaram o quarto.

Mu gentilmente se despediu de senhor Nilo, que o convidou para mais jantares em sua modesta casa, depois agradeceu à recepção de Asmita lhe apertando a mão com força e encarando os olhos azuis que o fuzilavam.

Em momento nenhum nutriu qualquer animosidade ou rancor para com ele. Sabia muito bem que Asmita estava cumprindo seu papel de irmão zeloso e atento, mas tinha algo nele que ainda lhe intrigava. Uma zanga desmedida, uma magoa perene.

Quando o taxi chegou Mu seguiu até o portão acompanhado por Shaka e o irmão mais velho. Pelo olhar severo que Asmita lhe direcionava o estudante de cinema entendeu que não deveria se despedir do pianista com demonstrações exageradas de afeto, afinal por ali perambulavam algumas pessoas, gente da vizinhança, por isso apenas lhe apertou a mão e entrou no carro.

Antes de sair acenou para eles, mas obviamente não obteve resposta. Shaka porque não enxergava, Asmita por pura marra.

Quando o automóvel arrancou Mu soltou um suspiro e riu de si mesmo.

Teria um longo caminho pela frente, e muito ainda a se adaptar à escolha que fizera.