Shijima Jamirez era um rapazote de vinte e dois anos cujo rosto lembrava o de um boneco de pano. A pele pálida, os olhos redondos de um azul cinzento tal qual céu amuado de chuva, e o cabelo vermelho e volumoso que lembrava um flamboyant em plena florada lhe conferiam esse aspecto. Era baixo e franzino, mas não demasiadamente magro, de aspecto alegre e feições sempre atentas. Usava geralmente roupas da última moda, as quais vangloriava-se de poder comprar com o dinheiro do próprio trabalho; era operador de máquina em uma gráfica que ficava ali mesmo, no Bronx. Tinha um estilo próprio e gostava de se vestir bem. A família toda era de imigrantes costa-riquenhos. Vivia com a mãe, o pai e mais dois irmãos a duas casas de onde ficava a casa de Shaka. Haviam frequentado a mesma escola, eram amigos desde a infância, e raras eram as vezes em que passavam um só dia sem se falarem, ou melhor, sem se comunicarem, já que Shijima era surdo-mudo desde o nascimento.
"Asmita está exagerando e me enlouquecendo. Totalmente sem necessidade ele pedir a você para ir comigo e o Mu ao cinema apenas porque depois da sessão vamos jantar fora. Ridículo."
Shijima lia a mensagem que acabava de chegar ao seu celular enquanto deitado na cama do pianista o aguardava se aprontar para o passeio.
Naquele dia estava de folga da gráfica, que não parava de operar nem aos finais de semana.
"Ah é? E por que você está tão bravo? Agora que tem um namorado não quer mais a minha companhia? Por acaso não gosta mais de mim?"
O sinal sonoro avisava Shaka da chegada da mensagem em resposta, e este prontamente apanhava o celular para ouvi-la convertida em áudio e então responde-la.
— É claro que não. Não faz o dramático. — riu descontraído. — É que ele insiste em me tratar feito criança. Isso me deixa louco.
Segundos depois, também aos risos Shijima lia a mensagem, sempre atento igualmente ao pianista, que sentado na poltrona próximo à porta de entrada calçava as meias. Já tinha vestido uma calça jeans, mas ainda estava sem camisa e com uma toalha enrolada na cabeça para enxugar os cabelos molhados do banho.
"Bem, estamos falando do Asmita, né? O que você esperava? Eu prometo que serei uma excelente vela. Até viro o rosto quando vocês ficarem de pegação. *risos* Você calçou meias diferentes. Vou procurar o par para você, espera ai."
Shaka parou o que fazia na mesma hora em que ouviu a mensagem, então respirou fundo soltando um suspiro.
Gravou um áudio em resposta a seguir enquanto aguardava.
— Obrigado. Mas, sabe, eu fico me perguntando, do que afinal meu irmão tem tanto receio? Já faz uma semana que Mu tem vindo aqui quase todos os dias. Tem obedecido à risca as regras idiotas impostas por ele, horário de chegar, horário de ir embora... O que falta para ele confiar no Mu?
Quando terminou de gravar a resposta Shaka sentiu um toque leve em seu ombro.
Shijima lhe trazia o par de meia correto enquanto já lia a mensagem do pianista em seu celular.
Imediatamente em seguida digitou a resposta.
"Talvez falte você conhecer a família do Mu. Saber de fato quem ele é, de onde ele veio... Vai ver é isso que o teu irmão precisa para te soltar de vez. Saber que o Mu te levou à casa dele para conhecer os pais é a segurança que teu irmão precisa para ter certeza de que a coisa é mesmo séria."
O pianista ouviu a mensagem depois de calçar os tênis e retirar a toalha da cabeça.
— É, pode ser, mas isso ainda vai levar um tempo. Eu não posso falar para Asmita que a família do Mu não sabe que ele é gay, e que inclusive ele tem medo da reação do pai quando lhe disser... Ele mesmo ainda não me contou nada com mais detalhes, apenas me pediu um tempo para pensar bem em como vai resolver... essa questão. E eu achei justo dar esse tempo a ele.
Súbito Shaka sentiu o amigo lhe tocar algumas mexas do cabelo molhado as colocando atrás da orelha.
Um gesto de carinho e alento que fora muito bem recebido.
Então o toque se fora e segundos depois chegou uma nova mensagem em seu celular.
"Essa situação do Mu é uma merda mesmo, e é justo você dar um tempo a ele, mas também precisa pensar em você. E se ele resolver nunca contar? E se o medo vencer e ele resolver nunca sair do armário para não criar conflito com os pais e a família? Você sabe que tem um monte de caras que vivem assim. Como você fica? Dê um tempo a ele sim, mas não seja ingênuo. Fica de olho bem aberto. Não vai se fazer de cego."
Ao ouvir a mensagem Shaka deu uma alta e sonora gargalhada, que fez com que o amigo risse junto de si, à seu modo.
— Você fala demais, Shijima. Como você é besta.
O pianista gravou a mensagem enquanto andava em direção ao armário para apanhar uma camisa para vestir.
"Seja como for, fica atento. Seguro morreu de velho. Ah, não! Essa camisa não! Está com uma mancha na gola."
Alertou o amigo tomando a camisa das mãos do pianista, que tinha acabado de ouvir a mensagem.
Prontamente ele a respondeu.
— Que merda, eu adoro essa camisa. Escolhe uma para mim, por favor?
Levou alguns minutos até que Shijima escolhesse outra camisa, entregasse a Shaka e digitasse uma nova mensagem.
Durante todo esse tempo o quarto ficou imerso em um silêncio profundo.
"Essa é boa. É azul escuro meio da cor do céu já quase de noite. Realça seus olhos e te deixa bonitão. Eu vou levar a sua camisa para casa. Minha mãe tira essa mancha para você... Mas, voltando ao assunto que interessa... Se vocês forem ao motel será que Mu paga um quarto para mim? Esperar no carro vai ser um tédio, e eu tenho claustrofobia, você sabe."
Enquanto tateava o armário em busca da escova de cabelos Shaka ouvia a mensagem.
Não conseguiu evitar o rosto corado.
Respondeu aos risos.
— Ir a um Motel até que não seria uma má ideia, mas nós só vamos ao cinema mesmo.
Shijima sentou-se na beirada da cama enquanto observava o amigo pentear os cabelos.
"E cadê toda aquela pressa do começo? Ah, para quem se conheceu há duas semanas e já está namorando em casa vocês estão me saindo bem lerdos em relação a sexo."
O pianista abandonou a escova sobre a prateleira do armário para ouvir a mensagem e depois responde-la gravando um áudio.
— Não estamos namorando em casa. O meu pai ainda pensa que Mu é apenas meu amigo.
Ao ler a mensagem Shijima deixou-se cair de costas sobre o colchão aos risos quase silenciosos.
"Santa inocência, Batman! *risos* Ah, não, se você fosse um super herói seria o Demolidor. *risos*. Acredita mesmo que o senhor Nilo não desconfiou ainda de nada? Você já foi bem mais esperto, heim."
Enquanto ouvia a mensagem o pianista ponderava, sempre se divertindo com as brincadeiras do amigo.
— Bem... se ele desconfia de algo, ou preferiu guardar para si mesmo, ou vai esperar eu me abrir com ele. E quanto a transar... é claro que estou ansioso para que aconteça, apenas ainda não rolou a oportunidade, só isso. E vamos mudar de assunto? Para um mudo você fala demais!"
Shijima continuou a rir enquanto lia a mensagem, embora o que se ouvia eram apenas um conglomerado de grunhidos e alguns sons chiados em volume bem baixo que faziam o pianista rir junto dele.
Bem nessa hora Shaka ouviu duas batidas curtas na porta que estava apenas encostada, e seu rosto todo iluminou-se.
Momentos antes, enquanto vestia a camisa azul escolhida pelo amigo, em seu pequeno universo de sons conhecidos o pianista havia ouvido o barulho distante do carro de Mu a estacionar em frente à casa. Depois veio o tilintar sutil do trinco do portão sendo aberto, um som que passaria despercebido por qualquer outro ouvinte ali, mas não para ele. Logo seu pequeno mundo particular de cheiros familiares também fora invadido pelo perfume amadeirado com toques de lavanda, fazendo seu coração encher-se de festa e as borboletas no estômago erguerem-se em revoada.
Mu havia chegado.
Ouvira ele e Asmita trocarem umas curtas palavras e então vieram os toques em sua porta.
— Entre Mu! — disse Shaka ao fechar a porta do armário.
Da cama Shijima atentou-se para a movimentação do pianista e levantou-se, vendo Mu adentrar o quarto com o costumeiro sorriso amável no rosto bonito.
Os dois já se conheciam. Haviam se encontrado em algumas das visitas que o estudante de cinema fizera ao pianista, mas dessa vez Mu o surpreendeu com um cumprimento diferente do costumeiro aceno seguido de um sorriso amistoso; o saudou com um "Boa tarde, amigo. Tudo bem?", na Língua de Sinais Americana.
O jovem cineasta havia passado a manhã inteira praticando os sinais aprendidos em um site na Internet que oferecia um curso.
Vibrante com a iniciativa do outro Shijima respondeu com um sorriso aberto, de genuína alegria, e empolgado desatinou a comunicar-se com ele na língua de sinais, até que percebendo que Mu não o estava entendendo parou meio atabalhoado.
O estudante então apontou para o celular em sua própria mão onde em seguida digitou uma breve mensagem.
"Vai com calma que ainda sou iniciante. Rs. Comprei um pacote de aulas que ensina a Língua de Sinais Americana, mas ainda estou no módulo básico. Por enquanto é melhor continuarmos usando o celular."
Mu sorriu dando dois tapinhas no ombro de Shijima, que abria a mensagem para ler, depois a passos lentos caminhou até Shaka, que o esperava ali com um sorriso animado no rosto e os olhos inertes abertos voltados para a direção em que imaginava estar o cineasta.
— Oi.
A voz de Mu o cumprimentou em tom carinhoso e ameno, e logo em seguida sentiu os lábios do estudante de cinema tocarem os seus com a sutileza dos artistas e o ardor dos apaixonados.
— Oi. — o pianista respondeu após o beijo.
— Você está lindo! — Mu sussurrou.
— Obrigado. Shijima me ajudou a escolher a camisa. — Shaka respondeu levantando ambas as mãos até o rosto de Mu, e após tocá-lo com a dedicação e perícia de um ourives sorriu aos suspiros — Você também está lindo.
— Obrigado! — disse o estudante, que depois de um breve momento olhando para o outro com devoção voltou-se para Shijima mais ao fundo e apontando para a camisa que Shaka usava fez um sinal de "ok" com os dedos da mão. — Ótima escolha. Ele ficou lindão! — disse pausadamente para que ele pudesse ler seus lábios.
Shaka riu, enquanto Shijima respondia ao sinal repetindo o gesto e dando a entender que tinha muito bom gosto.
— Não elogia muito não, ou ele vai ficar se achando. — o pianista brincou.
— Já está! — Mu ria descontraído.
Logo uma mensagem chegou ao celular de Shaka, que de pronto a ouviu.
"Com todo respeito, mas, nossa, seu namorado está um tesão! E que bom gosto para roupas ele tem. Está com uma calça de brim preta, uma camisa verde musgo e jaqueta de couro. E ele adora uma roupa apertada, heim! Também, com um corpão desse tem mais é que gostar mesmo. Que homem! Está vendo como sou um bom amigo? Te falo como seu namorado está vestido."
A medida em que ouvia o áudio o rosto do pianista corava mais e mais, até que ao final deste suas bochechas pareciam duas maçãs bem maduras.
À frente dele Mu o encarava curioso e confuso.
Embora tivesse escutado o áudio pelo viva voz do aparelho celular de Shaka, não foi capaz de entender nada do que fora dito, uma vez que o aplicativo que convertia em áudio os textos que chegavam para Shaka os reproduzia em velocidade muito superior à normal, além de serem narrados por uma voz robótica e entrecortada, de modo que as palavras se tornavam incompreensíveis para ouvidos não treinados.
— Ei! O que ele disse? — Mu perguntou cedendo à curiosidade.
Shaka levantou as sobrancelhas loiríssimas em surpresa.
— O que ele disse?... Ele disse... — o pianista repetiu fazendo uma pausa, um tanto atrapalhado, enquanto ali ao lado Shijima ria de seu embaraço. — Disse que você também está muito bonito e que... que suas roupas lhe caem muito bem.
Mu franziu a testa e correu os olhos rapidamente pela face rubra do namorado, notando sua visível timidez, depois olhou para Shijima que sorria brincalhão.
— Pela sua cara, e pela cara dele, eu tenho certeza absoluta de que foi exatamente isso que ele te disse. — Mu usou um tom divertido de ironia. — Bom, se ambos estiverem prontos é melhor nos apressarmos. A nossa sessão é daqui a uma hora e o cinema que vamos é um pouco longe.
— Sim, vamos! Estou louco de curiosidade para saber como é esse cinema. — disse o pianista aproveitando a deixa para mudar de assunto e roubar outro beijo ligeiro do jovem cineasta, já que estavam seguros ali em seu quarto.
Quando deixaram o cômodo encontraram Asmita na sala, que já os esperava de pé em frente à porta aberta.
— Não cheguem tarde. — advertiu o irmão mais velho do pianista. — E nem preciso dizer para não ficarem dando bobeira na rua... É perigoso.
— Asmita, você quer relaxar, por favor? — disse Shaka enquanto apanhava o casaco deixado no cabideiro ao lado da porta, junto da bengala retrátil que igualmente sempre pendurava ali. — A gente está dentro de casa ainda. — desdobrou a bengala lançando a ponta no chão.
— Ei, sem discussões vocês dois. — Mu interveio, depois passou um dos braços pelos ombros de Shaka enquanto olhava nos olhos do severo irmão: — Obrigado por nos deixar sair fora dos horários permitidos, Asmita. Eu te prometo que trarei seu irmão e Shijima para casa antes das oito, como me pediu. Além disso, seremos cuidadosos sim. Não se preocupe.
— Eu acho bom que traga mesmo.
Asmita o encarava de volta como um juiz que analisa o réu poucos minutos antes de proferir a sentença, então fez um gesto positivo com a cabeça e lhes cedeu a passagem, mas antes puxou Shaka pelo ombro do casaco.
— Vem cá. — disse em tom baixo abraçando forte o irmão mais novo. — Divirta-se. E tenha juízo. — beijou a testa do pianista antes de solta-lo. — Bom filme.
— Obrigado. — Shaka respondeu meio encabulado e então seguiu ao lado de Mu pelo pequeno corredor até o portão.
Depois que deixou o irmão e o estudante de cinema passarem Asmita segurou no braço de Shijima que vinha por último, lhe chamando a atenção, então falou com ele na língua de sinais, a qual já dominava há alguns anos.
"Você fica de olho nesses dois. Eu confio em você, cara. Qualquer coisa estranha que esse burguesinho do cabelo roxo fizer ou disser você vai me contar!".
A resposta de Shijima veio na forma de uma divertida continência militar, depois seguiram lado a lado até o portão. No curto trajeto entre este e o carro — um luxuoso Ford Mustang GT na cor preta — estacionado na rua Shaka caminhou sozinho com o auxílio da bengala, enquanto era guiado pela voz de Mu que vinha a seu lado e gentilmente lhe abriu a porta o ajudando a se acomodar no banco do passageiro, ao mesmo tempo em que Shijima já se instalava no banco de trás.
Já dentro do veículo, antes de dar partida e seguir viagem Mu acenou sorridente para Asmita, mas este respondeu apenas com um aceno ínfimo de cabeça.
Quando o carro arrancou Asmita levou ambas as mãos ao rosto e com as pontas dos dedos apertou os olhos soltando um longo suspiro. A cada demonstração do poderio e status de Mu, ainda que esta não fosse a intenção dele, mais o coração de Asmita se apertava, embora soubesse que toda aquela ostentação fosse irrelevante para Shaka. O problema é que sabia também que um dia esses dois mundos tão diferentes iriam se chocar, e se alguém sairia machucado com certeza não seria o jovem cineasta.
O automóvel havia rodado poucas quadras apenas quando Shaka sentiu Shijima lhe cutucar um dos ombros.
Segundos depois um aviso sonoro em seu celular lhe notificou a chegada de uma nova mensagem.
"Cara, você tinha que ver esse carrão! É sensacional. Mu tem mesmo bala na agulha. Seu cara de sorte."
A risada do pianista chamou a atenção de Mu, que desviou os olhos rapidamente da rua para olhar para ele. O viu aproximar o celular da boca para responder ao amigo.
— Tem alguém aqui impressionado com o seu carro, Mu. — disse o pianista, e sua voz era alegre e simples. — A única coisa que posso dizer a respeito é que é confortável e tem um cheiro de... baunilha? — franziu as sobrancelhas finas, concentrado.
— Na verdade é cedro marroquino com um toque de baunilha. — o estudante de cinema respondeu elevando o tom de voz para que o microfone do celular de Shaka a captasse e Shijima pudesse ler o que dizia também. — É a fragrância preferida do meu irmão. Todos os carros dele têm esse mesmo perfume, e eu mantenho no meu porque me dá a sensação de estar perto dele.
O sorriso do pianista de repente se apagou.
Ele enviou a mensagem para Shijima e depois voltou o rosto para a direção do banco do motorista.
— Você sente falta dele, né? — perguntou o pianista.
— Sim. — Mu respondeu mantendo o olhar vago nas ruas. — Shion e eu sempre nos demos muito bem. Sempre fomos o melhor amigo um do outro... Tem sido difícil ficar longe dele.
— Você disse que ele vem para Nova York semana que vem. Poderá matar as saudades. — Shaka o lembrou sorrindo tímido.
— É...
A resposta do namorado não lhe pareceu muito animada para um irmão saudoso.
A verdade era que o coração de Mu estava dividido entre saudade e nervosismo.
Seria ótimo rever o irmão como sempre fora.
Desde que Shion se mudara para outro Estado aguardava ansioso por suas visitas. Isso quando não era ele quem ia visita-lo, mas dessa vez junto da visita do irmão se aproximava também o momento em que o chamaria para conversar.
Mu havia decidido dizer a Shion que era gay, e temia a reação que ele teria, já que nunca haviam conversado sobre isso. Temia ser rejeitado e com isso perder o única pessoa que seria seu porto seguro, seu apoio, visto que não esperava reações positivas do pai. Isso já tinha como certo.
Contudo, se Shion ficasse a seu lado talvez conseguisse ao menos se fazer ouvir, já que o pai sempre pareceu respeitar ao mais velho por serem mais parecidos em seus ideais. Certamente, se Shion ficasse a seu lado poderia ao menos nutrir uma rusga de esperança.
O clima repentinamente pesado foi logo sentido pelo pianista, que escolheu não dizer nada, instaurando um silêncio esquisito dentro do carro. Shaka sabia que Mu tinha conflitos dos quais ainda não se sentia à vontade para dividir consigo, e respeitaria seu tempo.
Súbito o silêncio foi enxotado dali pelo sinal sonoro do celular do pianista.
"O mudo aqui sou eu, gente. O que foi? Ah, não, não me contem, é coisa de casalzinho, já sei. Mas, e ai? Que filme vamos ver?"
Dizia o áudio robótico e acelerado.
O pianista sorriu e o estudante de cinema olhou para ele curioso.
— Ele quer saber que filme vamos ver. — disse Shaka.
Mu sorriu de volta, trancando à chaves aquele dilema para deixá-lo livre do cativeiro apenas quando fosse a hora.
— Ah! Diga a ele vamos ver O Mágico de Oz. Segunda-Feira é dia de clássicos. — deu um sorriso animado. Era um amante dos clássicos aclamados da sétima arte, e poder assisti-los na companhia de quem gostava era sempre um deleite. — Eu consegui para nós uma sessão inclusiva, com audiodescrição para você e legendas para o Shijima. Por isso não vamos àquele cinema da Times Square, embora esse também fique em Manhattan.
O rosto de Shaka se abriu como manhã ensolarada.
— É sério? — ele disse um tanto eufórico.
— Sim, é sério. — Mu repetiu ao olhar para ele. Sentiu um calorzinho bom no peito ao vê-lo tão animado. — Você conhece esse filme?
— Sim, claro! — fez uma pausa — Quer dizer... Eu conheço um pouco a história e muito mais a música tema. Já a toquei no teclado várias vezes, na igreja lá do bairro, quando era criança.
Logo os risos espontâneos do jovem cineasta e do pianista chamaram a atenção de Shijima, que curioso do banco de trás se inclinou para frente e cutucou o ombro de Shaka. Este imediatamente acionou o aplicativo do celular para gravar um novo áudio.
— Shijima, nós vamos assistir O Mágico de Oz. Mu conseguiu um cinema com uma sessão inclusiva, com legendas para surdos e audiodescrição. Cara, isso é muito legal!
Quando leu a mensagem Shijima tinha no rosto o mesmo sorriso largo e iluminado de Shaka, e demonstrou sua alegria dando dois leves toques no braço de Mu e lhe fazendo um sinal de "positivo" com o dedão ao esticar o braço por entre o vão que ficava entre os bancos do passageiro e motorista.
Mu olhou rapidamente para ele através do retrovisor e sorriu.
— É, eu acho que ele gostou! — disse para o pianista.
O restante do trajeto até o cinema foi feito ao som de risos alegres, conversas descontraídas e muitos avisos sonoros emitidos pelo celular de Shaka, que trocava mil e uma mensagens com Shijima, enquanto ia repassando a Mu o que tanto conversavam. Era uma comunicação para lá de peculiar a deles, porém extremamente eficiente e natural.
Minutos mais tarde os três já estavam dentro do cinema. Era uma construção até que simples se comparada aos outros tantos cinemas suntuosos que existiam na cidade de Nova York. A instalação ficava em um prédio antigo erguido em meados do século dezenove e considerado um marco histórico designado pela administração da cidade, por isso mesmo ali se davam sessões de clássicos que fizeram a história do cinema estadunidense. Seu interior, no entanto, não fugia muito aos padrões. Era amplo e aconchegante, com suas paredes forradas em papel vermelho aveludado, iluminação confortável e painéis salpicados por todos os cantos que exibiam as maiores bilheterias e produções famosas hollywoodianas.
Um pouco antes da entrada para as salas havia uma grande bomboniere, e ali eles pararam antes de seguir para a sessão.
Mu comprava um combo de pipocas com refrigerante para os três, enquanto Shaka o aguardava um pouco mais atrás ao lado de Shijima. Já haviam debatido no caminho sobre cada um arcar com suas despesas, mas o estudante de cinema fez questão de pagar por tudo, já que eram seus convidados.
Enquanto aguardava os pedidos, Mu aproximou-se deles e tocou no braço de Shaka sutilmente. Antes de falar qualquer coisa olhou para Shijima e apontou o dedo indicador para a própria boca lhe sugerindo que lesse seus lábios, mas ainda assim aproximou o celular do rosto para gravar em áudio o que diria.
— Esse cinema é do pai de um colega da faculdade. — falou pausadamente, de modo a facilitar a leitura labial e também para dar o tempo exigido pelo aplicativo para transformar sua fala em texto. — Eles têm aqui duas salas diferenciadas, uma com acesso e acomodações especiais para cadeirantes, e outra com sessões exclusivas para pessoas com deficiência visual e seus acompanhantes. As poltronas são adaptadas, todas vêm com fones de ouvido para audiodescrição. Nessa mesma sala eles também passam cópias com legenda para os deficientes auditivos, mas eu pedi para o meu colega quebrar um galho para mim e inserir as legendas na cópia que vem com a audiodescrição, assim vocês dois podem assistir ao filme juntos. — sorriu enviando a mensagem para Shijima, que havia entendido quase tudo e por isso tinha a fisionomia em festa.
— Uau! E eu achando que o cheiro da pipoca e do café com chantilly era a segunda melhor coisa do dia. — Shaka brincou apertando o cabo da bengala com ambas as mãos, a qual mantinha reta rente ao corpo.
Mu olhou para ele e seus olhos o abraçaram com ternura.
— Eu espero que a primeira tenha sido o meu beijo. — brincou.
— Você tem alguma dúvida? — Shaka respondeu sorridente.
Logo uma mensagem chegou ao celular dos dois.
"Ai, gente apaixonada é tão brega..."
Ambos riram, incluso Shijima, que tinha lido os lábios dos namorados apaixonados.
O atendente da bomboniere então chamou a atenção de Mu para que fosse pegar os pedidos, e já com tudo em mãos os três seguiram para a sala animadíssimos.
Acomodaram-se em três grandes poltronas que mais pareciam um móvel desses que se tem em casa. A aparelhagem de áudio ficava conectada aos braços desta, e em frente havia uma pequena mesa para se colocar os copos e outros objetos.
Shaka dobrou a bengala e a deixou sobre a poltrona ao lado de seu corpo, e enquanto Mu se ajeitava o pianista lhe falava um pouco mais de sua vida.
— Eu sabia que existiam salas de cinema adaptadas para cegos. Faz um tempo já que pedi a Asmita para me acompanhar até uma, mas meu irmão trabalha muito... E como você mesmo viu, me deixar vir sozinho nunca foi uma opção. — riu.
— Eu também sabia que existia, mas nunca tinha visto uma. — confessou Mu — Só soube dessa porque fui pesquisar para poder trazer vocês. É novidade para mim também. — discretamente, e como ali a luz era ainda mais fraca, o estudante pegou na mão do pianista inclinando-se para lhe falar em tom sussurrado. — E a cada dia que passa eu estou gostando mais e mais de tudo isso.
Shaka cruzou seus dedos aos dele os apertando com ligeira força.
— Você é real mesmo? — sussurrou de volta em tom de brincadeira, mas súbito sua voz se fechou num tom mais austero. — E pensar que eu tive tanto medo de que você desistisse de tudo quando descobrisse que eu não enxergava, depois que tinha um irmão idiota que jurou quebrar a sua cara... Bom, na verdade motivos para você correr é o que não faltava.
— Ah, então seu irmão te falou sobre as ameaças que ele me fez? — Mu riu alto.
— Falou. Deus, que vergonha!
De repente uma mensagem chegou ao celular de ambos, que já rindo antecipadamente pegaram os aparelhos quase que ao mesmo tempo; Shaka para ouvi-la, Mu para lê-la.
"Shhhhhh! Quietos! A conversa de vocês está me atrapalhando. Mal posso ouvir meus pensamentos!"
Assim que acabou de ler a mensagem Mu ouviu uma gargalhada de Shaka e encarou Shijima também aos risos.
— Mas olha a audácia! — disse pausadamente.
Segundos depois outra mensagem pipocava no celular do casal de namorados.
"Qual é? Eu não posso reclamar da converseira no cinema? Olha lá, heim! Isso é bullying com o surdo."
Mu até começou a digitar algo para ele quando viu Shaka esticar o braço para o lado até seus dedos tocarem o ombro Shijima, então o pianista lhe deu um fraco empurrão jogando em seguida algumas pipocas em sua direção.
— Cala a boca, Shijima! Você fala demais. — Shaka lhe gravou um áudio.
"Abre o olho, Shaka! O filme vai começar." Dizia a mensagem digitada logo de pronto em resposta.
Ao lado do pianista o estudante de cinema observava descontraído e feliz aquela dinâmica ao mesmo tempo tão insólita e natural do namorado com o amigo.
Para Mu era visível que Shijima lidava com a deficiência com muito mais leveza e aceitação que Shaka, que sempre falava da sua com extremo pesar. Chegou a pensar que talvez essa resignação ocorresse por ele ser surdo-mudo de nascimento, ao contrário de Shaka, que ficou cego aos cinco anos, e sob circunstâncias ainda não totalmente claras para si.
Quando as luzes de sinalização da sala se apagaram indicando o começo do filme Mu deixou as divagações para uma outra ocasião e ajeitou-se na poltrona avisando Shaka para que colocasse os fones de ouvido. Curiosamente o estudante de cinema os colocou também, embora não precisasse deles, já que a audiodescrição era transmitida apenas pelos fones e não no áudio central da sala de cinema, uma vez que muitos deficientes visuais vinham à sessão com acompanhantes. Mas Mu ansiava por entender melhor o universo do namorado, e por isso escolheu assistir ao filme ouvindo a audiodescrição.
Quando a enorme tela se acendeu poucos eram os pares de olhos que olhavam para ela.
A plateia, em sua grande maioria, era composta por pessoas de baixa visão ou cegas, que ou mantinham o olhar voltado para um ângulo bem mais baixo que o da altura da tela, ou simplesmente mantinham os olhos fechados, concentradas na história que lhes era narrada nos fones de ouvido.
No entanto, um par de olhos de visão perfeita ignorava por completo, e de forma voluntária, a gigantesca tela iluminada, muito mais encantados por outra magia que aquela oferecida pela sétima arte.
Ligeiramente inclinado na poltrona Mu olhava para Shaka.
Para seu rosto iluminado pela tela.
Para seus olhos azuis incríveis que abertos cintilavam vibrantes como o véu estrelado do firmamento. Mas, tal qual as estrelas no céu eram duros, distantes, imutáveis.
Os olhos de Shaka nada podiam ver, mas quanta emoção eles exalavam.
E a emoção do jovem músico chegava até o coração de Mu e o fazia sentir-se vivo como nunca.
Vez ou outra os lábios do pianista esticavam-se num sorriso ou entreabriam-se espantados. De quanto em quanto sua fisionomia ficava séria, depois alarmada, surpreendida, concentrada, contemplativa...
Aquela estava sendo uma experiência única para Shaka, e Mu acompanhava cada gesto dele de perto.
Depois dos primeiros minutos do filme, quando a adrenalina desperta pela experiência inovadora se amenizou, Shaka pôde concentrar-se mais na história que era narrada com todas as minucias em seus ouvidos, e como o piano, que era a única linguagem capaz de fazê-lo olhar para dentro de si mesmo, o cinema então alcançou o mesmo status.
O cinema, e em particular aquele filme.
"E você, meu amigo galvanizado, você quer um coração. Você não sabe o quão sortudo és por não ter um. Corações nunca serão práticos enquanto não forem feitos para não se partirem."
Quando os ouvidos de Shaka se atentaram para essa passagem da história ele mesmo se perguntou, intimamente, se seria igual ao Homem de Lata; sortudo por não poder enxergar, pois da mesma forma que um coração inexistente não pode ser ferido, também olhos que não enxergam não seriam tingidos pelo medo, e não veriam as mazelas do mundo.
Que grande bobagem. Pensou. Daria tudo para ter olhos perfeitos e poder voltar a enxergar, mas...
Se tivesse olhos de visão perfeita será que ainda seria um sonhador?
Será que estaria naquela estação de metrô tocando o piano e conheceria Mu?
Ou seria apenas como Asmita, cujos olhos se abrem apenas para o que de pior existe no mundo e para tudo aquilo que lhe falta.
E será que Mu, e tudo que ele lhe oferecia, incluso as adversidades que viriam no futuro, era a sua estrada de tijolos amarelos? O caminho que teria que trilhar com inteligência, coração e coragem, para no fim, ao termino da tempestade, encontrar o arco-íris e o sol a lhe dar boas-vindas para uma nova vida?
Uma vida onde ele descobriria que tudo o que buscava estava ali, dentro de si mesmo.
Bastava aceitar-se como era. Deixar a culpa para trás. Ou aprender a conviver com ela.
Shaka suspirou pensativo, e nessa hora Mu lhe tomou a mão e encostou seu rosto ao dele.
Ficaram assim até o final da sessão.
Quando as luzes se acenderam Mu percebeu que tinha os olhos marejados.
Mesmo que tivesse assistido àquele filme dezenas de vezes nenhuma jamais seria como aquela.
— E então, o que achou? — perguntou o estudante de cinema, também fazendo um sinal para Shijima.
— Foi... incrível! — Shaka respondeu também gravando em áudio para o amigo. — Eu... não tenho nem palavras.
"Shaka tirou as palavras da minha boca. Foi muito legal." Dizia a mensagem que Shijima enviara aos dois em resposta.
Mu sorriu, feliz pela experiência.
Havia escolhido aquele filme porque sabia que sua mensagem tocaria o namorado de alguma forma, e também porque era especial para si.
"Não há lugar como o nosso lar".
Aquela frase sempre pusera o estudante de cinema reflexivo, sempre o fizera pensar sobre o que o lar representava nas escolhas que fizera para a própria vida.
Seu conceito de lar de fato mudara bastante ao longo dos anos, e em todo caso, desde que assistiu ao filme pela primeira vez ainda na infância, um pensamento imutável lhe dominava a mente: se fosse a Dorothy e pudesse escolher jamais deixaria o mundo colorido de Oz para voltar para o cinzento do Kansas.
Foda-se o Kansas.
— Que bom que acertei então. O Mágico de Oz é um clássico atemporal. Eu mesmo já assisti muitas vezes e sempre descubro algo novo a cada vez que revejo. E dessa vez não foi diferente. — Mu disse animado ao retirar os fones de ouvido enquanto os créditos finais subiam na tela.
— E o que você descobriu de novo dessa vez? — Shaka perguntou.
Mu respirou fundo.
— Bem... eu descobri que... — fez uma pausa enquanto buscava a mão de Shaka, entrelaçando seus dedos aos dele, e inclinando-se ligeiramente falou mais rente a seu ouvido: — O meu lar é onde eu possa estar com você, Shaka.
O pianista sentiu seu coração bater forte e acelerado, então sorriu apertando seus dedos contra os dele. Certamente o beijaria ali com toda paixão que lhe cabia, essa seria sua resposta... isso se não estivessem em um local público. Por isso apenas levantou a outra mão e após tocar o queixo de Mu lhe beijou rápido e sutil os lábios.
O jovem cineasta suspirou.
— Bom. Vamos? — disse Mu recompondo-se ao se levantar da poltrona. Apanhou o celular no bolso e digitou uma mensagem à Shijima, que já os aguardava no corredor. — Podemos falar mais sobre o filme enquanto jantamos. Fiz uma reserva para nós três em um dos meus restaurantes favoritos. Vocês vão adorar.
Animados os três deixaram o cinema e seguiram para o restaurante que ficava na cobertura de um célebre edifício na área mais nobre de Manhattan.
Maravilhado com o luxo e ostentação do local, Shijima não deixava de descrever um só detalhe a Shaka, prendendo-se à todas as minúcias, desde o carpete vermelho da entrada até os suntuosos lustres de cristais no centro do salão e o piso de mármore, que de tão polido reluzia imponente refletindo até o brilho dos talheres de prata. O salão era todo revestido em vidro e decorado com orquídeas brancas e amarelas.
Shaka mal podia acreditar em tudo aquilo. Certamente Shijima estava exagerando um pouco.
Antes de fazerem os pedidos Mu fizera questão de leva-los até um dos espaços abertos do local para que o pianista pudesse sentir onde estavam através do vento nos cabelos e da voz da cidade lá em baixo.
Porém, Mu não escolhera aquele local com a intenção de ostentar seu poderio ou impressionar o pianista. Não. Ele tinha um motivo muito maior. E esse se revelou quando foram acomodados à mesa reservada, a qual ficava próximo a um pequeno espaço onde havia um majestoso piano de cauda da marca alemã Bösendorfer.
Poucos minutos após fazerem os pedidos uma mulher em um elegante vestido longo de seda vermelha sentou-se ao piano e começou a tocar.
A reação do jovem pianista foi imediata.
— Tem um piano aqui! — ele disse, e por algum tempo seus olhos abertos vagaram à deriva pelo salão. Milhares de luzes coloridas dançavam em espirais encantadas suspensas no vácuo plúmbeo de seu universo particular.
Mu o fitou diretamente nos olhos.
— Sim. Tem um piano aqui. — suas palavraram eram mansas e bordadas em ternura. — E ele é incrível. É um...
— Bösendorfer! — o pianista falou junto do estudante de cinema, que ergueu as sobrancelhas surpreso e admirado.
— Sim. Isso mesmo! — Mu exclamou. — Puxa! Você conhece?
— Sim. A minha professora de piano, a senhora Johnson, era austríaca. Ela me contou que quando criança, quando ainda morava em Viena, ela tinha um Bösendorfer em casa. Foi nele que ela aprendeu a tocar, e ela dizia que seu som era único e magnífico, que nenhum outro piano no mundo se assemelhava a ele... Eu pude comprovar por mim mesmo quando ela me levou a um concerto de piano no Carnegie Hall. — fez uma pausa fechando os olhos. — E também agora... Realmente a voz de um Bösendorfer é única e inconfundível.
— Você quer tocar ele? — Mu perguntou, o surpreendendo.
— O que?
— Você quer tocar o piano, Shaka?
Ao lado deles Shijima ergueu os olhos da tela do celular, no qual digitava uma mensagem, e encarou o rosto do amigo.
O tempo todo se punha a par da conversa fazendo leitura labial de ambos, e achou que era hora de participar.
Enviou a mensagem.
"Esse é o piano mais maneiro que eu já vi na vida. É gigantesco! Parece até um barco desses chiques. Se você não for lá tocá-lo eu vou. Mas corro o risco de provocar uma indigestão em todo mundo aqui... Vai lá, cara. Mostra para esses bacanas o que é tocar esse bichão de verdade."
Quando ouviram as notificações em seus celulares imediatamente o pianista e o estudante de cinema foram verifica-las, então Shaka engoliu em seco sentindo as mãos geladas, e Mu olhou para Shijima lhe dando uma piscadela com um dos olhos.
— Me espera aqui um minuto, eu já volto. — disse o estudante de cinema se levantando da cadeira.
Não foi difícil a gerência do restaurante ceder ao pedido de Mu para que fizessem a gentileza de deixar Shaka tocar uma canção ao piano. O jovem cineasta era conhecido dos donos do estabelecimento, pois que a família de Mu o frequentava há anos e ele já estivera lá tanto com os pais quanto sozinho ou acompanhado de alguma bela jovem, sendo assim concederam-lhe a cortesia. Somado a isso, um garoto cego sempre despertava a piedade até dos corações mais ambiciosos.
Assim, sob dezenas de curiosos olhares cheios de piedade e altruísmo egoísta, o pianista subiu ao pequeno palanque munido de sua inseparável bengala, enquanto era guiado por Mu até à banqueta, então quando seus dedos deslizaram pelas teclas e sua alma fundiu-se à do piano toda a plástica compaixão ali transfigurou-se em encantamento, e os olhares dirigidos a ele agora não eram capazes de exprimir nada além de fascínio e arrebatamento.
Shaka tocava a Rapsódia Húngara No. 2, de Franz Liszt, e o esplendor de seu talento nato tocava cada coração presente naquele salão.
A apresentação do pianista durou menos que dez minutos, e naquela noite muitos clientes saborearam frios seus pratos caríssimos que mais pareciam obras de arte orgânicas.
Mas absolutamente ninguém reclamou.
Estavam todos anestesiados pela música e o talento do jovem pianista desconhecido.
Precisamente à 20:00 horas o Mustang preto de Mu encostava em frente à casa de Shaka no Bronx.
Despediram-se com um rápido beijo ainda no interior do veículo e só depois o cineasta desceu para acompanhar o namorado até o portão. Shijima despediu-se deles ali mesmo e seguiu para sua casa feliz pelo amigo.
Mu ainda ficaria um pouco mais, como vinha fazendo das outras vezes, mas naquela noite tinha prometido a Afrodite ajuda-lo com um trabalho da faculdade, portanto voltou ao carro assim que Shaka entrou em casa e seguiu de volta para Manhattan.
Quando adentrou a sala o pianista parecia caminhar sobre as nuvens.
Em sua mente ainda estavam vivas como nunca as imagens criadas naquela tarde. Elas pulsavam dentro de si feito um núcleo flamejante. O cinema, a estrada de tijolos amarelos, o furacão, o peito oco do Homem de Lata, o cheiro delicioso da lagosta ao alho, a textura inacreditavelmente macia do sorvete de baunilha com hibiscos, o som do piano... o beijo de Mu.
Sorrindo Shaka retirou o casado o pendurando no cabideiro. Fez o mesmo com a bengala já dobrada, quando de repente foi surpreendido pela voz grave e mansa do pai.
— Oi, filho. Já chegaram? — disse senhor Nilo, que estava encostado de braços cruzados junto ao batente da porta da cozinha. — Vieram cedo.
Shaka embutiu o sorriso em uma vã tentativa de discrição.
— Ah... oi, pai. — respondeu dando um meio giro sem sair do lugar. — Não ouvi o senhor ai.
— Eu estava aqui quietinho esperando você entrar. — disse o pai, e descruzando os braços caminhou com seu andar cansado até ele, parando em sua frente.
— Estava me esperando? Aconteceu alguma coisa? Onde está o Asmita? — Shaka perguntou apreensivo, sentindo o pai bem próximo. Ouvia sua respiração e sentia o cheiro de sua loção de barba.
— Asmita está no banho. Não aconteceu nada. Só estava esperando você entrar. — fez uma pausa enquanto analisava o rosto doce do filho e sua fisionomia que era pura alegria. Sorriu em paz, embora também um tanto assustado. — Já jantou?
— Já sim. Jantei com o Mu e o Shijima em um lugar incrível, pai. Tinha um piano, um Bösendorfer! Lembra que te falei dele? Tinha um lá, e eles me deixaram tocar. — disse exultante.
— Puxa, isso é muito legal! — disse Nilo sorridente, depois respirou fundo e pousou uma das mãos no ombro de Shaka apertando levemente. — Esse rapaz está fazendo muito bem a você, não?
Shaka não podia ver, mas sentia o olhar do pai sobre si com uma nitidez física.
— Sim ele... — fechou os olhos percebendo a voz vacilar. — Ele é um bom amigo, pai.
De repente o pianista sentiu a mão do pai se ausentar de seu ombro, e então segundos depois os dedos grossos e calejados dele seguraram ternamente seu queixo o fazendo abrir os olhos instintivamente.
— Eu sei que ele é mais que isso, filho. O seu pai não é bobo. — a voz de Nilo era de veludo.
Shaka piscou repetidas vezes, apoquentado.
— Não vou dizer que não fico preocupado com isso. — continuou Nilo, agora correndo os dedos até os fios loiros que caiam por sobre a testa do pianista fazendo ali uma carícia. — O mundo ainda é um lugar tão perigoso para meninos e meninas como você e o Mu... — fez uma pausa soltando um longo suspiro. — Mas aqui na minha casa vocês não precisam se esconder.
Ao ouvir aquilo o coração de Shaka aqueceu-se.
Na mesma hora ele abriu os braços e atirou-se no abraço do pai, que o recebeu também lhe beijando a fronte.
— Obrigado, pai. — disse num sussurro embargado.
