Shion Bharani, inclinado na frente da geladeira aberta, apanhava a tábua de frios junto de uma compota grande de pepinos em conserva. Era um homem alto e robusto, tinha compleição de um nadador profissional mesmo sem nunca ter sido um. Intimidava pelo porte altivo e tamanho avantajado, embora quando se olhava para sua face gentil de bochechas rosadas e grandes olhos de um peculiar tom violeta toda essa intimidação caía por terra. O rosto comprido e amigável era emoldurado por uma cabeleira abundante e rebelde num loiro escuro cinzento, a qual mantinha na altura do pescoço sempre presa por um elástico.

— Você nunca se esquece do picles! — disse ele ao virar ligeiramente o rosto para trás e com um sorriso iluminado erguer no ar a compota que tinha em uma das mãos, enquanto fitava alegre os olhos do irmão mais novo que estava encostado na pia.

— Claro que não. E dessa vez também comprei uma de repolho com mirtilos que vêm fermentados direto no barril de carvalho. Acho que você vai gostar. Deu o maior trabalho achar isso aqui em Manhattan. — disse Mu igualmente alegre, embora sua fisionomia, junto das mãos que estalavam os dedos em movimentos repetitivos, deixassem escapar um visível tom de apreensão. — Pegue uma cerveja para mim.

Shion descarregou os itens sobre o balcão ao lado e surpreso olhou para Mu enquanto voltava à geladeira.

— O que? Vai beber cerveja? Não vai me acompanhar na Mamont?

— Ah, não. Sabe que não gosto de vodca. Comprei para você. Só compro essas coisas quando vem para cá. — disse cruzando os braços, logo em seguida os descruzou e guardou as mãos nos bolsos da calça de moletom.

— Não acredito que vai deixar de degustar uma bebida feita com o melhor trigo siberiano para beber esse lixo de cerveja americana. — Shion brincou atirando no ar a latinha, o que fez o estudante de cinema tirar as mãos dos bolos num reflexo rápido para apanha-la.

Mu riu do irmão.

Como era bom tê-lo ali, ainda que, excepcionalmente daquela vez, a presença dele estivesse lhe matando aos poucos de tensão e ansiedade.

— Essa até que não é tão ruim. As lagers produzidas aqui nos Estados Unidos estão melhorando bastante. — disse Mu, e em seguida foi até Shion ajuda-lo a levar tudo para a enorme varanda, onde iriam beber e degustar as entradas para mais tarde assistirem à um curta que dirigiu para um evento da universidade. Sempre gostava de ouvir as impressões do irmão acerca de suas produções, já que estas eram imparciais e honestas, ainda que o que mais desejasse de fato ouvir de Shion naquela noite estivesse aquém de meras opiniões quando a seu trabalho.

— Pedimos uma pizza mais tarde? — perguntou Shion.

— Claro. — Mu respondeu ajeitando os itens sobre uma mesa de carvalho que ficava ali.

O mais velho logo foi até esta e apanhou animado a garrafa de vodca, a qual estava atolada em um balde cheio de gelo moído. Serviu-se de uma dose em um copo igualmente resfriado.

— Um brinde. — propôs risonho levantando o copo no ar enquanto olhava para Mu. — A vocês dois.

O rosto do estudante de cinema ficou rígido e seus olhos atordoados fitaram assustados os do irmão.

— O que?... Que... dois? — perguntou como se estivesse mastigando pedras.

— Ao meu irmão cineasta e à pulga atrás da orelha dele. — Shion riu.

Mu não soube ao certo se foi a brisa fria que bateu de repente balançando seus cabelos ou as palavras jogadas do irmão, mas seu corpo todo tremia.

Sorriu disfarçadamente.

— Então... um brinde a nós três. E também às suas visitas, cada vez mais raras. — brincou erguendo no ar a latinha de cerveja, a chocando levemente contra o copo do outro.

— Saúde. — respondeu o mais velho antes de virar toda a dose de vodca goela baixo. — Hum... divina!... — sussurrou satisfeito. — Então existe mesmo uma pulga atrás da sua orelha... Imaginei.

Mu deu de ombros. Dava generosos goles na cerveja já pensando em abrir outra. Quem sabe o álcool o ajudaria a criar coragem para entrar no assunto que queria tratar com o irmão.

— Olha, eu sei que ando ausente... — disse Shion metendo uma fatia de presunto parma na boca, degustando lentamente o sabor da iguaria agora destacado pela vodca. — É que dirigir uma empresa sozinho te afunda em trabalho, trabalho e mais trabalho... Bem fez você que pulou fora. Para eu conseguir tirar esses quatro dias de folga precisei fazer hora extra uma semana.

— Você sempre gostou disso. E sempre disse que era o que queria fazer. Não reclama. — Mu brincou.

— É, eu estou só fazendo charme! — Shion deu um soco leve no peito do irmão e depois serviu-se de uma nova dose de vodca. — E você? Por que não foi almoçar com a gente? O pai perguntou de você. Ele está bem chateado viu?

— E quando o pai não está zangado ou chateado comigo? — Mu deu um suspiro cansado seguido de outro gole na cerveja.

Shion riu divertido e roubou um picles da conserva.

— Tem razão, mas mesmo assim... Hmm... Isso está muito bom! — falou apanhando outro picles. — Mesmo assim, ele disse que você anda mais sumido que o normal. Que não dá as caras ou sequer liga para a mamãe. Ela me disse hoje que está com saudades do caçula dela... O que está acontecendo? Está com medo de que?

— Medo? — Mu engoliu em seco. — Não. Não estou com medo de nada. —seu coração naquele momento batia forte e aflito. — Apenas andei ocupado com o filme e outras atividades da faculdade... — tentou disfarçar apanhando um picles e o colocando na boca. Detestava picles.

Shion o observava atento.

— E é só isso? — perguntou encarando os olhos verdes a dois palmos apenas dos seus.

O estudante de cinema por um momento pensou que chegara a hora, mas ao abrir a boca a voz não lhe saíra. Esta tinha as unhas cravadas fortemente em sua garganta.

Fez apenas um gesto afirmativo com a cabeça.

— Hum... — Shion fez um muxoxo. — Eu te conheço... Andou arranjando briga de novo, não foi? Sempre que você some assim e não dá as caras por lá é porque está fazendo algo errado.

— O que? Não!

— Foi na faculdade?... Olha, Mu, você sabe que não adianta esconder essas coisas do pai. Uma hora ou outra ele descobre, e vai ser pior se acontecer como da última vez, com um advogado pilantra batendo na porta do escritório dele exigindo uma indenização.

— Não! Não é isso. — Mu estalava os dedos. O interrogatório o estava pondo mais nervoso do que desejava estar. — Eu não briguei com ninguém.

— Se você diz...

Os instantes seguintes foram marcados por um estranho e prolongado silêncio, interrompido apenas pelo estalejar constante das juntas dos dedos do jovem cineasta.

Shion bem que tentou ignorar os sinais que via em Mu, incluso aquele som aflitivo, mas era como se o irmão gritasse em silêncio para ser ouvido. Seu corpo todo clamava.

Já também aflito o mais velho se serviu de outra dose de vodca, e após derrama-la com certa pressa toda de uma vez na garganta abandonou o copo sobre a mesinha de carvalho, puxou uma cadeira para se sentar e encarou a face aturdida no irmão.

— Ok. Primeiro: Você quer, por favor, parar de estalar esses dedos, Mu? Está me deixando louco!

— Ah! — Mu afastou as mãos as colocando no bolso, nervoso. — Desculpa.

— Desculpa uma ova. Eu te conheço desde que estava na barriga da nossa mãe. Vai me falar o que está pegando ou não?

Mu piscou os olhos por um instante fitando o rosto do irmão, depois olhou para a cadeira a seu lado e também a puxou para se sentar.

— É... eu vou sim. — disse em tom mais baixo que o costumeiro.

— Ótimo! Não que eu queria te pressionar, seja lá com o que for que tenha para me dizer, mas é que se eu fosse você eu aproveitaria enquanto ainda estou sóbrio. — disse Shion enquanto virava-se para o lado e despejava outro tanto de vodca em seu copo, dando um sorriso divertido em seguida. — Daqui a uma meia hora não exija de mim nenhum discernimento.

Mu fechou os olhos e respirou fundo.

Era hora.

Mas... como e por onde começar?

A verdade é que sabia que não havia uma formula ou jeito correto de fazer aquilo.

— Eu... Eu estou namorando. E dessa vez é sério.

Shion ergueu as sobrancelhas ralas e claríssimas encarando os olhos de Mu.

— E das outras vezes não era? Sempre achei que fosse. — ao dizê-lo riu descontraído. — A primeira coisa que fazia quando começava a namorar uma garota era leva-la em casa. — bebeu a vodca sem tirar os olhos do irmão.

— É exatamente esse o problema.

— O que? Leva-la em casa? — Shion perguntou jogando um picles para dentro da boca, descontraído. — Por que? É uma feminista metida com política daquelas que o pai odeia? — ria alto. — Fala aí. Quem é a garota.

Mu cruzou os dedos descansando os cotovelos nos joelhos.

— Não é uma garota. — disse sem olhar para Shion.

No mesmo instante em que proferiu as fatídicas palavras seu corpo todo tremeu. Dentro do peito o coração disparou, e sua boca ficara tão seca que em um reflexo apanhou a latinha de cerveja e deu uma golada.

Estava feito.

O irmão mais velho o fitou por um momento, em silêncio e estático. Parecia pensar profundamente, quando de repente sua fisionomia introspectiva e séria transfigurou-se numa careta alegre acompanhada de uma sonora gargalhada que viera a seguir.

Desconcertado Mu abandou a latinha sobre a mesa e olhou para ele.

— Você... — Shion fez uma pausa para recuperar o fôlego entre as risadas. — Meu Deus! Você quase conseguiu me pegar dessa vez. — apontava o dedo indicador para Mu.

O estudante de cinema devolvia a ele um olhar aflito, porém não surpreso.

— Shion... não é piada. Estou falando sério. — confirmou, agora usando um tom mais firme.

Ainda aos risos o mais velho correu os olhos pela face do outro o estudando. Percebeu que ele estava angustiado, então de repente sentiu como se um dardo feito de gelo lhe atravessasse o peito congelando tudo que tocava.

Deveria ser efeito a vodca gelada. Pensou, e na mesma hora o riso cessou por completo.

— Não é uma garota? — umedeceu os lábios com a saliva que parecia ter fugido de sua boca. — Não é uma garota?

O tom do irmão fez o peito de Mu congelar.

— Não. — disse após um momento, resignado.

Shion tinha o semblante perplexo.

— É isso mesmo que está pensando. — continuou o estudante de cinema com aparente, porém falsa, calma. — Você queria saber o que estava me deixando nervoso? Por que eu tenho evitado visitas à casa do nosso pai? Pois bem, é por isso. Porque estou com essa merda de sensação de estar fazendo algo muito errado quando eu sei que não estou... — piscou as pálpebras repetidas vezes, nervoso, até que respirou fundo e encarou os olhos do irmão. — Shion, eu estou namorando um rapaz... eu sou gay.

O outro cobriu a boca com uma das mãos num gesto praticamente involuntário. Tinha os olhos esgazeados fixos à face aturdida de Mu, que lhe devolvia um olhar angustiado de clemência.

— Nossa. — fez uma pausa considerável enquanto levava ambas as mãos à cabeça puxando os grossas madeixas de seus cabelos para trás. — Eu... eu acho que preciso de mais uma dose.

Ante à notável aflição do irmão mais novo Shion levantou-se da cadeira e lhe deu as costas. Serviu-se de outra dose de vodca bebendo tudo em um só gole. A bebida desceu queimando por sua garganta.

— Gay? — disse, ainda de costas. Tinha as duas mãos apoiadas na mesa.

O silêncio de Mu foi a confirmação.

— Você... você tem certeza? — Shion perguntou agora virando-se de frente para ele. — Isso que disse... você não está inventando, né? Digo...

Agitado o estudante de cinema também se levantou e colocou-se de frente para ele, apenas dois palmos os separavam.

— O que você acha? Que eu estaria aqui me abrindo com você apenas porque sou curioso? — disse nervoso. — É claro que eu tenho certeza, Shion! Você não ouviu o que eu disse? Eu estou namorando um cara, e dessa vez é super sério. Temos um relacionamento firme, eu já até conheci a família dele, irmão, pai, estamos apaixonados e...

— PARA!

O grito de Shion interrompeu Mu, que olhou para ele alarmado prendendo até a respiração.

— Não repita isso! — disse o mais velho com o dedo indicador apontado para o rosto do estudante, e de forma extraordinária sua fisionomia transfigurou-se. As bochechas rosadas ficaram pálidas, e o olhar gentil ganhou um ar de alarme que o jovem cineasta poucas vezes presenciara. — Você não sabe o que está dizendo.

— Eu sei sim! — Mu o enfrentou.

— Não sabe!

— Shion, era justamente isso que eu queria te dizer quando falei ao telefone que precisava conversar com você. — o cineasta falou entre engasgos, tentando lidar com a secura que se apossara de sua boca.

— Não! Você não sabe de nada! — deu um passo à frente encostando o dedo no peito do irmão. — Você não tem noção alguma do que está dizendo.

— Shion... não faz isso, por favor. — Mu implorou.

O mais velho espalmou a mão sobre o peito do outro e depois a correu até seu ombro, onde apertou com força considerável.

— Não! Me escute. Você... você ainda é jovem demais para saber como lidar com essas coisas. — fez uma pausa, depois prosseguiu da maneira mais branda que conseguiu, em tom mais ponderado: — Você pode ser independente, morar sozinho, fazer sua faculdade, trabalhar, mas ainda é só um garoto e... Eu sei que você deve ter suas individualidades, suas vontades... você... você é um artista, Mu! Sempre foi mais sensível que eu, mais erudito, mas isso não te faz ser gay, porra!

Ao ouvir aquilo o jovem cineasta baixou a cabeça, levou a mão aos olhos e os apertando com os dedos respirou fundo.

— Deus, é claro que nada disso me faz ser gay, Shion. — murmurou agastado.

— Exato! Até porque você já teve muitas namoradas. Até já morou com uma... a do gato! — rememorou querendo se agarrar ao que podia.

— Shion...

— Pode ser que você esteja apenas curioso, mas é só uma fase, isso também não te faz ser gay. — o soltou afastando-se alguns passos. — Olha, por exemplo... o Sorento! Sim, o Sorento! Lembra dele? Lá da filial de Massachusetts?

— O que tem o Sorento, Shion? — Mu suspirou cansado.

— O Sorento, ele... — apertou os lábios e estreitou os olhos, ponderando. — Bem, todo mundo na empresa sabe que ele sai com uns caras de vez em quando... Não só com garotos de programa, mas...

— Todo mundo menos a esposa dele, não é? — Mu o interrompeu.

— Exato! — Shion estalou os dedos no ar com o entusiasmo de um cientista que vence uma equação complexa, depois apontou novamente para o estudante. — Porque ela não precisa que saber, oras. Ninguém precisa.

— É, mas todo mundo sabe.

— Não importa, Mu. O que quero que entenda é que isso não muda em nada o relacionamento deles.

— O que? — Mu inquiriu incrédulo, porém não surpreso novamente.

— Ele ama a esposa. Sorento faz tudo por aquela mulher, ou seja, ele não é gay. O fato de ele sair com homens de vez em quando é só... curiosidade.

— Shion. Não. — Mu estendeu os braços impaciente. — Não. Pelo amor de Deus me poupe e se poupe.

— Mu, me escuta...

— Não! Me escuta você! — o tom do cineasta chegou aos ouvidos do irmão firme e decidido. Os olhos verdes faiscantes agora encaravam os do outro com segurança e valentia. — Eu só não vou te dizer que essa foi coisa mais imbecil que você poderia ter me falado porque era justamente isso que eu ia fazer, era justamente esse tipo de vida que eu tinha decidido que iria levar quando assumi para mim mesmo que era gay, até eu conhecer o Shaka.

— Shaka? — Shion o encarou colérico. — Ah, pelo amor de Deus, eu não estou ouvindo isso. Você só pode estar de brincadeira com a minha cara.

Balançando a cabeça impacientemente, e visivelmente nervoso, num gesto brusco e intempestivo Shion apanhou a garrafa de vodca de dentro do balde com gelo e sem dizer mais nada deixou a varanda apressado.

— Ei! — Mu vinha às pressas atrás dele. — Shion! Onde você vai? Espera! Não faz isso, por favor! SHION!

A resposta que tivera do irmão foi a pancada seca e alta da porta de entrada que foi batida com extrema força.

Em choque Mu ficou ali por um momento. Seus olhos hirtos e aterrados cravados na porta, até que começou a emergir do abalo quando sentiu a garganta apertar e um gosto amargo lhe subir para a boca. Deu um passo à frente, virou de costas para a madeira e escorado a esta escorregou até o chão, sentando ali mesmo com a cabeça apoiada entre os joelhos.

O seu maior medo havia se concretizado.

Shion era sua única esperança. Ele era a pessoa mais, talvez a única, mente aberta da família, livre de conservadorismos tolos e convenções antiquadas; pelo menos era o que pensava.

Pelo jeito estava enganado.

O fato era que se Shion não ficasse a seu lado, então ninguém mais ficaria. Toda a família lhe viraria as costas.

Com o coração partido Mu sentiu seus olhos umedecerem e pouco a pouco a visão ficar desfocada. Não conseguiu evitar o choro.

A rejeição do irmão era amarga e carrasca, condenava seus planos de um futuro ao lado do pianista, já que sabia que sozinho tudo iria ficar ainda mais difícil, porém ainda mais doloroso era saber que Shion não o aceitava como era, que todo o amor e amizade que compartilharam por anos não tinham maior peso que o preconceito.

Abafando alguns soluços o estudante de cinema tentava entender o que tinha feito de errado e o que deveria fazer agora para consertar o erro. Talvez devesse ir atrás de Shion e implorar a ele para que esquecesse tudo o que lhe dissera, depois rogar para que guardasse seu segredo até que estivesse pronto para conta-lo ao pai, sozinho.

O pai...

Sentia que jamais seria capaz de enfrentar o pai sem o apoio do irmão. E muito pior que contar ao pai que era gay seria dizer a Shaka que teriam que viver uma mentira.

Nessa hora Mu levou ambas as mãos à cabeça e chorou copiosamente. Não podia fazer isso com Shaka... E não podia fazê-lo também a si mesmo.

Perdido em sua dor e desespero não soube dizer ao certo quanto tempo ficou ali, na mesma posição, mas depois do que lhe pareceu uma eternidade ouviu o trinco da porta e logo alguém a forçou para abrir. Rapidamente, porém sem nenhum ânimo, arrastou-se para o lado e então viu, surpreso, Shion passar por ela. Ele tinha o semblante sério, e uma rigidez incomum lhe cobria o rosto. Em uma das mãos trazia a garrafa de vodca, que estava exatamente no mesmo nível de quando ele saíra desembestado do apartamento. Não havia bebido um só gole. Também não havia ido a lugar algum.

Mudo, Shion parou no centro da sala, ainda de costas para Mu, e após um breve momento assim abandonou a garrafa sobre uma peça que ficava ao lado do sofá branco de couro e finalmente virou-se para o irmão. Este o olhava fixo, nem ao menos piscava.

Mu notou que a despeito da fisionomia dura Shion não trazia mais nos olhos a faísca de momentos antes, e suas bochechas brancas tinham recobrado o tom avermelhado acolhedor.

— Levanta daí. — disse, e sua voz tinha calor.

— Onde você foi? — Mu perguntou mais preocupado que temeroso.

— Não fui a lugar nenhum. Estava ali na escada entre este e o andar debaixo. — ele respondeu. — Anda, levanta daí e venha até aqui.

O estudante de cinema se levantou e caminhou receoso até ele, então quando parou a poucos centímetros de distância foi surpreendido por um forte e inesperado abraço.

Passada a surpresa do gesto Mu fechou os olhos e encostou a testa no ombro do irmão, molhando ligeiramente sua camisa de linho com as lágrimas que tímidas brotaram mais uma vez de seus olhos.

Nada no mundo poderia se igualar à sensação de amparo que experimentava naquele abraço, seu único e verdadeiro porto seguro. E como ansiara por ele.

— Você me pegou desprevenido, moleque! — a voz abafada de Shion saiu carregada de emoção.

— Eu sei... Desculpa. — disse com voz embargada.

— Eu é quem te peço desculpas, Mu. — Shion disse se afastando para olhar no rosto do irmão.

— Não havia um jeito certo para contar isso a você. — Mu tentou se explicar.

— Eu sei que não... Vem, enxuga essa cara e vamos conversar direito. — disse tomando o rumo da varanda.

Mu passou o dorso das mãos sobre os olhos enquanto o seguia e lá sentaram-se novamente nas cadeiras, um de frente para o outro.

O mais velho soltou um longo e cismático suspiro, fitando atencioso os olhos do jovem cineasta. Esperou cerca de cinco ou seis segundos sem saber ao certo o que dizer, até que finalmente conseguiu fazer com que as palavras saltassem de sua boca.

— Você sabe que isso vai ser um problema, não sabe? — disse baixinho, como se temesse ser ouvido por alguém. — Digo... você tem mesmo certeza de que...

— De que eu sou gay? — Mu completou a frase. Sabia que o irmão ainda tentava se familiarizar com aquela realidade.

Shion fez um sinal afirmativo com a cabeça.

— Tenho. — Mu respondeu sério e convicto. — Eu já me relaciono com homens a tempo mais do que suficiente para ter certeza.

O executivo se calou novamente, assustado e pensativo. Tentava encontrar justificativas para aquela situação.

— Você virou gay depois que veio morar sozinho?

— Ninguém vira gay, Shion. — disse Mu com um suspiro curto.

— Sei lá, é... Tem aquele seu amigo sueco que está sempre aqui com você.

— O Afrodite? — o cineasta arregalou os olhos.

— Sim. Ele é gay, não é?

— É, mas eu não virei gay por osmose, Shion. Que ideia absurda! — disse Mu. — Eu sempre fui. Desde menino era para os garotos que eu olhava com interesse. Eu não virei gay, eu sou gay.

— Mas você já namorou tantas meninas...

— Sem nunca realmente ter me atraído por nenhuma delas. — o estudante o interrompeu. — Era algo que eu me forçava a fazer, sabe, para negar para mim mesmo o que eu realmente sentia, ou na vã esperança de exorcizar isso de mim, mas... da mesma forma que eu sabia que não gostava de mulheres eu também sempre soube o problema de ser... assim. — apontou para si mesmo.

Shion coçou nervosamente o queixo.

— Certo. — disse, esforçando-se para se manter calmo e racional, já que ouvir do próprio irmão aquela confissão não lhe era tarefa fácil, embora sentisse que seu estranhamento se dava mais por receio do que julgamento. O tempo todo pensava no pai. — Olha... o seu irmão aqui não é nenhum bicho ignorante, embora esteja parecendo, mas tem que considerar que preciso de um tempo para... para assimilar isso.

— Eu sei. Eu não o julgo. Acredite, para mim também foi difícil aceitar... Você sabe, eu não queria dar esse... desgosto... ao nosso pai. — deu de ombros, depois deixou escapar um riso aflito devido à ironia que ele mesmo reconhecia em suas palavras. — Eu só te peço que seja breve em assimilar isso, porque eu não tenho muito tempo. — olhava diretamente nos olhos do irmão. — Shion, eu preciso de você. Eu só posso contar com você.

— O que quer dizer com isso?

— Quero dizer que eu poderia ter escondido isso a minha vida toda sim. Poderia fazer como o Sorento, casar, ter uma esposa de fachada e viver o resto da minha vida no armário, mas tudo mudou desde o dia em que eu conheci o Shaka.

De novo aquele nome.

Shion apoiou os cotovelos nos joelhos mantendo os dedos das mãos cruzados.

— Esse... Shaka. Por que você diz que tudo mudou por causa dele? Esse cara está te chantageando, é isso?

— O que? Não! — Mu respondeu eloquente.

— Olha, Mu... eu entendo que você queria assumir sua própria identidade, e eu... eu juro que não acho que você esteja errado, mesmo ainda apostando que tudo isso seja só reflexo da sua imaturidade, mas você sabe no que isso vai dar, não sabe?

— Eu sei, mas...

— Então não seja ingênuo, meu irmão. Olhe para você! Você é boa pinta, qualquer um vê que tem grana, e depois que te conhece sabe que é de família influente.

— Shion...

— E se esse tal de Shaka está te fazendo alguma exigência, ou te chantageando, coisa boa ele não é. Pode ser um aproveitador! Um caça níquel que só tá de olho no que você tem.

Quando Shion se calou Mu fitou seus olhos por alguns segundos, e para a total surpresa do executivo este soltou uma longa e sonora gargalhada.

— Que foi? — Shion perguntou sem entender.

No entanto, Mu não lhe deu uma resposta imediata. Ao invés disso levou a mão ao bolso da calça, apanhou o celular e se inclinou para frente lhe mostrando a tela acesa.

— Meu amado e preocupado irmão, esse é o Shaka.

O rosto de Shion foi tomado por uma palidez de morte.

No display ele via a foto de um garoto sorridente, muito bonito, que tocava um piano no que parecia ser o pátio da Grand Central Terminal. Reconheceu pelo relógio de quatro faces.

— Ele tem dezenove anos, mora em uma casa humilde no Bronx junto do pai e do irmão, mais velho também, toca piano todos os dias na estação de metrô e... ele é cego. Esse é o aproveitador que roubou o meu coração.

Shion ergueu os olhos da tela do celular e agora os tinha fixos e injetados na face de Mu.

— Foi aí que eu o conheci. No Terminal, tocando o piano, e desde então decidi que quero fazer parte da vida dele e quero que ele faça da minha também.

— Eu... acho que preciso de mais uma dose de vodca. — disse Shion se levantando da cadeira e já indo para sala onde estava a garrafa.

O estudante de cinema respirou fundo e por hora deixou que o irmão pensasse e esfriasse a cabeça. Sozinho foi até a cozinha, e ainda com o coração pesado e uma angustia crescente a lhe apertar o peito, apanhou outra cerveja e a tomava ali mesmo quando Shion veio juntar-se a ele adentrando o recinto sem alardes.

Mu só percebeu a presença dele ali quando ouviu sua voz mansa.

— Sabe. Quando você chegou em casa um dia e disse ao nosso pai que tinha trancado a matrícula do curso de administração em Massachusetts, e que também nunca iria dirigir uma empresa dele porque queria ser diretor de cinema, eu te achei ousado e corajoso. E eu também achei que o velho ia te matar. — sorriu irônico. — Diferente de você eu não sei se cheguei a ter um sonho na vida que não fosse seguir os passos do nosso pai... ser um grande homem de negócios! — baixou os olhos olhando para o copo de vodca que tinha nas mãos. — Se tive um sonho um dia, esse certamente morreu quando eu tomei consciência de que nunca teria coragem suficiente para bater de frente com o senhor Hakurei. — voltou a olhar firme para os olhos de Mu. — Eu tenho orgulho de você, irmão.

Mu respirou fundo.

— Entenda, ter orgulho não significa apoiar tudo que você faça, mas definitivamente não o considero leviano e ingênuo a ponto de se deixar enganar por um garoto cego. — balançou a cabeça nervosamente. — Meu Deus! Só você mesmo para me aprontar uma dessa! O velho nunca vai aceitar isso.

Mu deixou escapar um riso nervoso, em seguida descansou a latinha vazia em cima da pia onde encostou-se e apertou o mármore frio com as mãos.

— O pai eu sei que não vai aceitar, mas... e você? — olhou um tanto aflito para o irmão. — Foi para você que eu contei, não para ele. É só você que importa agora.

Shion encostou-se a seu lado e por um momento pareceu paralisado. Então pousou a mão sobre a de Mu e olhou para ele.

— Lembra aquele verão quando fomos à Califórnia com a mamãe passar uns dias na casa de praia do tio Tokusa?

— Como vou esquecer? Você quase morreu afogado no mar porque teve câimbra. — Mu riu, mas na época se lembrava de ter passado pela pior experiência de sua vida.

— Sim, mas não morri, porque você me salvou. Me tirou da água mesmo sendo um pirralho que mal podia com o peso das calças. — Shion apertou os lábios. — E você se lembra o que disse para mim naquele dia?

Mu sinalizou com um gesto negativo. De fato não se lembrava de nada daquele dia a não ser do desespero que o tomou por completo quando viu o irmão se afogando.

— Você disse: nunca vou soltar a sua mão. Nem depois de grande.

O estudante de cinema deixou extravasar a emoção que enchia seu peito.

— Eu não vou soltar a sua mão. — disse Shion. — Eu confesso que sim, ainda estou meio... confuso, ainda tenho que me acostumar com a ideia de ter um irmão gay, já que nunca sequer me passou pela cabeça essa possibilidade. Eu tinha certeza que você se casaria antes de mim. — riu agora mais descontraído. — Mas, se é assim que você acha que vai ser feliz, quem sou eu para dizer que está errado. Só... só que quero conhecer esse Shaka antes de você falar dele para o pai e a mamãe.

Sem se conter Mu puxou o irmão pela mão e o abraçou forte.

— Você não tem ideia do peso que tirou do meu coração. Obrigado. — disse verdadeiramente emocionado.

"Você que não tem ideia do peso que colocou no meu. Nem imagina o quão difícil realmente vai ser." Shion apenas pensou enquanto abraçava o irmão de volta. Não tinha coragem para verbalizar tal realidade.

— Eu te amo, e nada vai mudar isso. — disse Shion enquanto bagunçava os cabelos do estudante de cinema. — Mas, se queria dificuldade você caprichou, heim. Um deficiente?

— Não fale assim.

— Ora, estou errado? Você disse que ele é cego.

— Sim, mas apesar disso ele é uma pessoa completamente normal. Ele não enxergar é só um detalhe. Você vai conhece-lo e ver por si próprio, mas não tão logo.

— Por que não? — Shion arqueou as sobrancelhas curioso.

— É que, como eu falei antes, Shaka também tem um irmão mais velho e... bem, se você já estava ai achando que ele poderia estar me chantageando ou me dando um golpe, imagina o que o irmão dele não pensou de mim? — deu um risinho sem graça. — Agora que estou começando a conquistar a confiança dele.

— Sei... E como é a família dele?

— O pai dele é um homem incrível! — baixou os olhos com certa melancolia. — Mas o irmão... Ele só falta rosnar e me morder, então ainda vai demorar um pouquinho para poder trazer Shaka até aqui e apresenta-lo devidamente a você. Claro, poderia fazer isso na rua, mas acho que devo mais respeito a ele. O pai dele, senhor Nilo, me acolheu desde o primeiro dia em que fui em sua casa, sem questionar absolutamente nada, e Shaka me contou que ele já sabe do nosso relacionamento e ainda assim continua a me receber com sorrisos e abraços calorosos... A família dele me mostrou que eu ia fazer a maior besteira da minha vida escondendo quem eu sou por achar que estava cometendo algum tipo de pecado. Com amor e respeito eles me provaram que não há nada de errado comigo, irmão. Por isso, seja por bem ou por mal, o pai e a mamãe vão ter que me aceitar como sou.

— Ok, eu já disse que não acho que esteja errado, apenas não faça nada sem antes preparar o terreno, certo? Se simplesmente chegar neles e disser: oi, eu sou gay e estou namorando um deficiente, você já sabe qual vai ser a reação.

— Por isso eu preciso de você. Tem que me ajudar a preparar esse terreno. Eu não sei como fazer isso. — confessou angustiado.

— E eu vou te ajudar, só que fugir do pai só vai piorar as coisas... Mas calma, nós vamos pensar em algo, porém eu não consigo pensar de barriga vazia. — desencostou da pia voltando para a sala. — Vou pedir uma pizza, enquanto isso, me conte mais a respeito desse pianista cego que conseguiu o que até hoje nenhuma modelo ou blogueira famosa conseguiu: esse brilho nos seus olhos toda vez que repete o nome dele.