Pouco mais de dois meses havia passado desde a última visita de Shion Bharani à Nova York. Agora ele regressara à cidade para uma reunião na sede das empreiteiras do pai e também para uma festa, na verdade para a reunião mensal que Camus Chermont promovia em seu apartamento, onde finalmente conheceria Shaka, o namorado de seu irmão.

O relacionamento entre o estudante de cinema e o pianista ficava mais sólido a cada dia. Eles mantiveram o hábito de se encontrar no Terminal onde se conheceram, nas três vezes por semana em que Shaka ia até lá para tocar o piano enquanto era observado com atenção e carinho pelo cineasta. Nas outras faziam passeios ao Central Parque, aproveitavam o fim da tarde em algum café confortável, iam ao cinema nas sessões inclusivas, ou simplesmente ficavam na casa do pianista onde passavam o tempo ouvindo música, jogando conversa fora e namorando discretamente, sempre à portas abertas e sob exigência de Asmita. No começo da noite, quando senhor Nilo chegava em casa, jantavam juntos e depois assistiam a uma partida de basquete ou futebol na televisão, e nessas horas o clima familiar aquecia o coração de Mu e ao mesmo tempo lhe fazia regozijar de esperança e padecer de angustia.

Como queria poder fazer com que Shaka se sentisse tão amado, aceito e acolhido em sua família, por seus pais, como era ali.

No entanto, nem tudo eram flores.

Ainda tinha Asmita e sua irrevogável proteção exagerada ao irmão mais novo.

Justamente cuidando para não bater de frente com Asmita era que Mu fazia de tudo para andar na linha. Respeitava os horários impostos por ele, sempre chegando no máximo às oito da noite quando saíam para algum passeio à tarde, ou despedindo-se no mesmo horário quando ficavam em casa.

E sua disciplina parecia enfim estar surtindo algum efeito.

Após quase três meses de namoro, Asmita já não encarava mais o estudante de cinema com olhares reprovadores e cheios de desconfiança ou em tom de ameaça. Aos poucos ele via que Mu estava mesmo sendo verdadeiro com eles e com Shaka, e que sua entrada na vida do irmão lhe estava fazendo realmente muito bem.

A mudança do pianista era visível.

Pela primeira vez desde o ocorrido na infância Shaka lhe parecia ter colocado a falta que a visão lhe fazia em segundo plano, pois que Mu, sua presença leve e constante, os planos que fazia com ele, os sonhos que almejava alcançar ao lado dele, o sentimento que crescia dentro de si e que a cada dia ficava maior, agora preenchia todo o resto.

Somado a isso, Shaka estava também bem menos arredio e introspectivo. Toda aquela revolta e luta por independência no fim se resumiram a um pedido ao irmão mais velho e ao pai para que lhe permitissem procurar um novo emprego, dessa vez longe de casa, em Manhattan, já que no Bronx eram pouquíssimos os estabelecimentos ou escolas de arte com público para música clássica. Certamente em Manhattan seria mais fácil encontrar alguma alma bondosa que lhe desse uma chance ou que reconhecesse seu talento, mesmo sendo ainda só um garoto, e cego.

Asmita prometeu pensar com carinho. Para Nilo não haveria problema desde que o trajeto entre a casa e o futuro emprego fosse seguro e com acessibilidade o suficiente para que não corresse risco de acidentar-se, e Shaka passou a alimentar a esperança de voltar a trabalhar.

Com todo esse progresso, e também já com a confiança de Asmita mais fortificada, Mu julgou ser a hora de arriscar avançar mais um passo, tanto na relação dele com a família de Shaka, quanto na sua íntima com o pianista.

Camus faria uma reunião em seu apartamento com todos os amigos do time e da faculdade, e Mu ansiava por lhes apresentar o namorado, mas para isso era preciso que Asmita permitisse que Shaka dormisse em sua casa, já que as festas do francês só terminavam com o raiar da aurora.

Em seu círculo de amigos não era novidade para ninguém que Mu tinha um namorado, afinal eram raras agora as vezes em que o estudante de cinema os acompanhava em festas, noitadas, bares e tantos outros programas dos quais sempre estava presente e era, sem surpresa alguma, o mais empolgado. Ou como diria Afrodite: fervido. Agora Mu se limitava a acompanha-los em algumas cervejas quando iam a um bar, ou em alguma festinha eventual nas repúblicas dos colegas do time de Rugby, e mesmo assim era o primeiro, e único, a despedir-se ainda sóbrio e voltar para casa sem uma companhia para lhe esquentar os pés durante a madrugada.

A questão era que pelo fato do tal namorado de Mu nunca estar nas reuniões com ele, ou mesmo frequentando sua casa, muitos ainda duvidavam da existência dele, e sem sombra de dúvida quem mais duvidava era mesmo Kanon Thálassa.

O influente advogado tinha como meta de vida reatar seu relacionamento com Mu a qualquer custo, visto que não havia apenas perdido uma excelente química na cama como também a chance de chegar onde queria, colocar seu escritório de advocacia como representante majoritário do poderoso grupo de empreiteiras Bharani, e sem a indicação direta de Mu chegar até lá ficaria bem mais custoso. Somado a isso, ser descartado pelo cineasta mexeu diretamente com os brios do ex-atleta, que até então nunca soube o que era rejeição, visto que conseguia tudo e todos que queria.

Antes de ascensão profissional o orgulho pessoal de Kanon queria provar a Mu que ele não era melhor que si para lhe descartar daquela forma sem sofrer as consequências.

Por esse motivo Kanon passara a ser uma figura cada dia mais presente no círculo social do estudante de cinema. Mesmo já formado, veterano e fora do time de Rugby ele frequentava os mesmos bares, festas e repúblicas, também tinham amigos em comum e uma dezenas de aduladores que caíam como presas fáceis na armadilha do seu carisma. Mu sabia, portanto, que não seria nada fácil manter-se afastado de Kanon ou mesmo evitar um eventual encontro dele com Shaka, e por isso mesmo decidiu por fim que não tentaria evitar. Esconder-se da família, viver com medo do pai, andar apreensivo e sempre alerta nas ruas já lhe eram sacrifícios o suficiente. Pelo menos em sua casa em Manhattan e entre os amigos não iria se esconder ou temer o que quer que fosse, especialmente Kanon.

Sendo assim, na véspera da festa, e já ciente de que o advogado estaria nela, o estudante de cinema conversou a sério com o pianista o colocando a par de tudo.

Shaka não se importava em absoluto com o passado de Mu ou com quem quer que fosse que ele houvesse se relacionado. O que o pianista temia mesmo era perde-lo pelas dificuldades que Mu enfrentava no presente para ficar a seu lado. A começar pela superproteção do irmão mais velho.

Assim, no dia que antecedia a festa juntos eles foram executar a árdua tarefa de convencer Asmita a permitir que Shaka não apenas fosse ao evento, como também dormisse no apartamento de Mu.

Asmita obviamente se opôs, alegando dezenas de motivos que iam desde a ausência de sinalizadores nas paredes e no chão do apartamento de Mu, iguais aos que tinham em casa para facilitar a locomoção de Shaka, até o fato do irmão nunca ter dormido fora.

Já senhor Nilo pensava um pouco diferente.

— Filho, não pode segurar o seu irmão dentro da gaiola a vida toda. Precisa deixar ele voar. — disse o senhor de cabelos brancos e face amabilíssima. Estavam todos sentados na sala com a televisão desligada. — Eu também não gosto da ideia do meu menino passar a noite fora, mas ele vai estar com o Mu, que já se mostrou muito responsável.

— Do modo como o senhor fala parece que todo o problema sou exclusivamente eu. — rebateu Asmita.

— E não é? — disse Shaka, que estava sentado na poltrona ao lado do sofá. — Pelo menos agora está sendo.

O mais velho olhou para o irmão, para seu rosto arredio de pálpebras fortemente cerradas, e respirou fundo.

— Uma festa entre universitários na casa de um artista plástico... e eu que crio problema? — reclamou. — Pai, o senhor está cansado de saber como são essas festas, regadas a álcool, todo tipo de droga e...

— Ei! Calma lá! — Mu interrompeu levantando a mão espalmada até a altura do ombro. — Asmita, eu não vou desmentir você porque não sou hipócrita. Entre os meus amigos tem sim alguns que bebem e usam drogas, mas poxa vida, eu não estou levando o seu irmão para uma reunião de viciados em heroína ou para um rodízio de metanfetaminas.

Nilo riu com certo nervosismo descansando as mãos nos joelhos.

— Nem que fosse, meu filho. — disse fitando Mu nos olhos. — Eu conheço os meus dois meninos. Shaka é um garoto ajuizado. Meio cabeça quente as vezes, sim, mas não é de baderna e nem de drogas. Não é, filho?

— É, pai. — o pianista respondeu também com um aceno afirmativo de cabeça. — Depois, Asmita, não é justo que Mu venha aqui e eu não possa ir à casa dele. Isso já está ficando ridículo. Em vez de ficar me tratando feito um bebê imbecil, coisa que nem o pai faz, você deveria arranjar uma festa para ir também.

— Ei, Shaka! Não fale assim com seu irmão. Abaixe esse tom. — Nilo repreendeu o filho mais novo, que já estava visivelmente exaltado.

Com os nervos já por demais abalados Mu arregalou os olhos verdes e fitou o rosto de Asmita. Este encarava firme o irmão mais novo, e sua fisionomia era para o cineasta uma enigma.

— Está certo. — disse Asmita levantando-se de supetão do sofá, pegando a todos de surpresa. — O senhor é o pai dele, não eu.

— Asmita, senta ai. — pediu Nilo.

— Como o senhor já decidiu eu não tenho mais nada a fazer aqui. — falou enquanto andava até o cabideiro ao lado da porta, onde apanhou o casaco e deixou a sala logo em seguida.

Ao ouvir a pancada dada na porta Shaka encolheu os ombros em sobressalto.

— Mas que merda. — murmurou o pianista. — Ele sempre tem que fazer uma cena dramática.

— Me desculpe, senhor Nilo. Eu não queria causar um conflito, eu só... — Mu tentava se explicar quando o gentil senhor de cabelos brancos estendeu o braço e segurou em sua mão. Estavam sentados lado a lado.

— Não se preocupe, filho. — Nilo sorriu terno para ele. — Asmita sempre foi assim em tudo que diz respeito ao Shaka. Um dia ele se emenda. — deu dois tapinhas nas costas do estudante e se levantou para caminhar lento até a poltrona onde estava o filho mais novo.

O pianista, já ouvindo seus passos e atento ao som de seu movimento, ergueu o queixo e abrindo os olhos varreu com o olhar lento e vago o vazio cinzento, então sentiu a mão calejada e áspera do pai tocar a sua sobre o braço da poltrona.

— Vem cá, Shaka. Levanta. — disse Nilo o puxando pela mão, e quando ele se colocou de pé o abraçou com tamanha ternura que o pianista sentiu seu coração se aquecer. — Você pode ir à festa e à casa de Mu. Mas quero seu celular ligado o tempo todo e também o endereço. Certo?

Shaka abraçou o pai com a mesma ternura e um tanto mais de gratidão.

— Obrigado, pai.

— Vem aqui você também. — disse Nilo estendendo o braço para o estudante de cinema, que de pronto se levantou do sofá e foi até eles. — Juízo os dois. E me traga meu menino de volta são e salvo. — brincou passando o braço pelos ombros do cineasta que lhe sorria exultante. — Divirtam-se.

— Não se preocupe, eu trarei. — Mu agradeceu.

Já passava das onze da noite quando Asmita enfim retornou à casa. Nilo já dormia e Shaka estava em seu quarto estudando algumas partituras de piano enquanto falava com Shijima pelo celular. Contava empolgado ao amigo que iria dormir na casa de Mu na noite seguinte e de tão ansioso e nervoso que estava tinha certeza de que nem conseguiria dormir até lá, quando de repente ouviu o click do interruptor da luz que foi acesa.

Rapidamente Shaka girou a cadeira dando as costas à escrivaninha, ficando de frente para a porta. Sabia que Asmita estava ali. Sentia o cheiro suave de sua loção de barba misturado a um leve odor de nicotina.

— Você voltou a fumar? — o pianista perguntou preocupado em voz bem baixa.

Asmita não respondeu.

Calado andou até ele e em um movimento ligeiro lhe tomou a mão depositando algo nela. Logo em seguida recuou dois passos metendo as mãos no bolso do casaco.

Surpreendido e curioso o pianista imediatamente tateou o objeto usando ambas as mãos, e quando se deu conta do que era as maçãs de seu rosto se tingiram de vermelho e ele ficou ligeiramente constrangido.

— Isso é uma camisinha? — a pergunta foi sussurrada. — Não acredito que está me dando uma camisinha. — franzia as sobrancelhas loiras enquanto com os dedos nervosos bolinava o pacotinho que produzia um barulho sutil.

— É, uma é muito pouco. — disse Asmita tirando do bolso uma caixa com preservativos, a qual colocou sobre a escrivaninha. — Aqui tem mais.

Instintivamente Shaka virou a cabeça na direção de onde vinha o som do objeto deixado ali, mas logo voltou-se para onde imaginava estar o irmão, bem à sua frente.

— Espero que também não queira me ensinar como devo usar isso, ou além de cego vou desejar ficar surdo. — reclamou. Sentia as mãos suarem de nervoso.

Asmita suspirou deixando escapar um sorriso melancólico.

— Não, eu não vou ensiná-lo. O seu namorado certamente é quem fará isso. E se tiver juízo mesmo exigirá isso dele. — disse ele, depois fez uma pausa. — E não precisa desejar ficar surdo... Eu já tirei a luz dos seus olhos, sua visão, não quero tirar mais nada de você. Aproveite a festa.

— Não fale assim, Asmita. Sabe que não gosto quando se culpa. — pediu Shaka.

— Não estou falando nada que não seja a mais pura verdade. — suspirou pousando a mão no ombro do irmão mais novo. — Enfim... divirta-se amanhã. E quando for... é... com o Mu... bem, não esqueça de usar essa merda aí, tudo bem?

Shaka baixou a cabeça envergonhado.

— Certo. Vou lembrar. Valeu. — a voz quase nem saía.

— Ótimo! Boa noite.

Asmita olhou para ele também embaraçado, lhe bagunçou os cabelos e deixou o quarto.

Quando se percebeu sozinho ali o pianista girou a cadeira voltando a ficar de frente para a escrivaninha e tateando sua superfície encontrou o pacote com os preservativos.

Respirou fundo e riu balançando a cabeça em negativa.

Asmita era mesmo um homem imprevisível.

Eis que chegado o dia da festa o estudante de cinema era pura ansiedade. Não apenas porque finalmente iria apresentar o pianista aos amigos, mas principalmente porque iria apresenta-lo ao irmão. Além de ter a tão esperada oportunidade de passar a noite com ele.

Já para Shaka a mesma ansiedade vinha temperada com leves toques de insegurança e temor.

O pianista temia não ser bem aceito pelos amigos de Mu, em especial por seu irmão mais velho. Tinha plena consciência de que um abismo separava sua realidade, a de um garoto pobre que vivia na periferia, e deficiente, da realidade deles; todos universitários cercados de privilégios. Se fosse mesmo como Asmita tanto lhe dizia, o tratariam com desdém ou falsa piedade.

Shaka tentou o tempo todo não pensar nisso, não se deixar levar pelo julgamento do irmão para ter a chance de criar o próprio julgamento a partir das novas experiências que viveria ao lado de Mu, mas não era fácil administrar o medo e a insegurança com os quais convivia dia a dia desde que perdera a visão.

Enquanto arrumava sua mochila com a ajuda de Asmita, que lhe orientava quanto às cores das roupas que escolhia na gaveta, pares corretos de meias e outros detalhes, sentia suas mãos frias e ligeiramente trêmulas. O coração batia num compasso bem mais acelerado que o normal, e parecia ter uma barra de gelo colada à barriga. As borboletas no seu estômago certamente estariam enfrentando a pior nevasca desde aquela do dia em que deu seu primeiro beijo no estudante de cinema.

Quando acabou de amarrar os tênis conferiu o celular. Tinha recebido um aviso sonoro de mensagem.

— Mu disse que mandou o endereço dele para o seu celular. — disse Shaka levantando-se da cadeira. — E eu espero encarecidamente que você não me apareça por lá, Asmita.

O mais velho olhou para ele enquanto fechava o zíper da mochila.

— Se você desligar esse celular, ou se não me atender caso eu te ligue, pode ter certeza que vou aparecer. Aqui está. — disse pegando no pulso dele e lhe entregando a bolsa.

O pianista riu a colocando nas costas. Sabia que a cara de Asmita não deveria ser das melhores naquela hora, mas esses eram um dos raros momentos da vida em que ele agradecia por não poder enxergar.

— Obrigado. — disse Shaka. — Até amanhã então. — abriu os braços e dando um passo à frente tocou no mais velho e o abraçou.

Despediram-se ali mesmo.

Ao passar pela sala Shaka também se despediu do pai e logo ouviu Mu estacionar o carro na frente da casa. Apoiado no ombro de Nilo, que o acompanhou até o automóvel, ele seguiu tateando o chão com a bengala até guardá-la na mochila para seguirem para Manhattan.

— Você está gelado. Está tudo bem? — perguntou Mu, que com uma mão segurava o volante do carro e com a outra a mão do pianista. Olhou para ele percebendo sua fisionomia um tanto tensa.

— Sim... Só um pouco nervoso. — Shaka respondeu com o olhar vago e preso em um ponto que ele desconhecia.

— Normal estar nervoso. Eu também estou. — a voz de Mu lhe sorria gentil. — Quer dizer, nervoso não, ansioso. Estou ansioso para que conheça meu irmão e o pessoal da faculdade. Eles vão adorar você, Shaka.

O pianista respirou fundo.

— E seu irmão? Será que ele vai gostar de mim? — perguntou sem disfarçar a agitação que lhe afligia. — Você disse que ele ainda está meio que se acostumando com o fato de você ser gay, e de repente ele pode ficar meio desconfortável comigo lá na sua casa.

— Ei! A casa é minha. Você é meu namorado. Se alguém tem que ficar desconfortável com algo somos você e eu, caso Shion faça ou diga alguma merda. — disse Mu apertando levemente a mão do pianista. — Não estamos fazendo nada de errado, Shaka. Nós não somos errados. E não se preocupe. No começo ele pode, e vai, achar estranho sim, já que nunca me viu com um homem, nunca me viu abraçar ou beijar outro cara, mas eu conheço meu irmão. Shion é um cara muito legal... Claro que ele está condicionado por uma herança cultural que cobra certas posições dele, e nem posso culpa-lo por isso, mas sei que ele vai quebrar os próprios preconceitos. Nós sempre tivemos uma relação boa, ele sempre me respeitou e me apoiou em tudo que decidi fazer que ia contra as regras impostas pelo nosso pai. Não vai ser diferente agora... Eu confio nele, e você também pode confiar.

Shaka sorriu, um pouco mais calmo e animado.

— Bom, ao menos estou certo de que ele não vai me ameaçar de morte como Asmita fez com você. — brincou.

— Com toda certeza não. — Mu respondeu com uma sonora risada. — Bem, chegamos. — disse soltando a mão do pianista para acionar o dispositivo da garagem. — Shion está nos esperando em casa para subirmos juntos ao apartamento de Camus. Assim pode deixar suas coisas lá.

Shaka concordou com um aceno de cabeça apenas. Estava nervoso demais até para dizer qualquer coisa.

No caminho que ia da garagem até o apartamento do estudante de cinema este narrava minuciosamente todo o cenário ao pianista, que abriu mão da bengala para se deixar guiar por ele como se fosse seu passageiro. Assim, com a mão apoiada em seu braço eles chegaram ao elevador e subiram até o 11° andar.

Antes de abrir a porta Mu inclinou-se para o outro e perguntou baixinho em seu ouvido:

— Pronto?

— Pronto. — respondeu convicto.

— Então vamos lá. — disse o estudando o tomando pela mão e abrindo a porta. — Shion, chegamos. — chamou em voz alta enquanto adentrava a grande sala.

Assim que a voz do irmão chegou aos ouvidos do executivo este chegou à sala a passos muito lentos, como os de quem é conduzido pelas mãos da incerteza. Um certo temor também estampava seu rosto alvo e corado, e este Mu reconheceu assim que deitou os olhos em sua figura.

Paciente e acautelado, já que dependia dele exclusivamente o manejo daquele encontro, o cineasta fitou os olhos vidrados do irmão enquanto passava uma das mãos no ombro do pianista.

— Shaka, a dois passos à sua frente está o folgado do meu irmão, Shion. — disse em tom de brincadeira procurando amenizar o clima tenso. — Ele é um pouco mais alto que eu e tem cabelos mais escuros, mas usa um corte terrível. Parece até que foi feito com um cortador de grama.

O pianista sorriu de leve, ainda sem saber o que dizer, já que aparentemente o outro também não sabia, dado seu mutismo angustiante.

Mu raspou a garganta nervoso.

— Shion, esse cara deslumbrante aqui é o Shaka, que além de ser um talentosíssimo pianista, excelente consultor e o melhor crítico dos meus projetos acadêmicos, é meu namorado. — sorriu ansioso esperando uma reação de ambos, que não veio, o pondo ainda mais aflito. — Ei! Vocês não vão dizer nada mesmo? Vão me deixar aqui à espera de um ataque cardíaco?

Imediatamente Shion piscou os olhos como que parecendo sair de um transe.

Entre a conversa com Mu semanas atrás e a concretização de fato de que o irmão era gay havia um precipício.