Shion piscou os olhos como que parecendo sair de um transe. Ele não conseguia pensar em nada. Sua mente de repente emperrara, e era preciso desprender esforço para fazer as engrenagens ressequidas voltarem a funcionar.

Entre a conversa com Mu semanas atrás e este encontro havia um precipício.

O choque para Shion fora inevitável.

Mas, felizmente ele saltara para dentro do precipício de paraquedas.

— Ah, me desculpe! É um prazer conhecê-lo, Shaka. — disse um pouco mais recuperado do abalo, mas ainda lutando para trazer o ar para dentro dos pulmões. Saber que o irmão era gay e vê-lo de mãos dadas com outro homem eram coisas bem diferentes, além do agravante deste ser cego, embora o aspecto de Shaka em nada remetesse ao que sua mente fútil imaginara nessas últimas semanas, mesmo após tê-lo visto rapidamente por uma foto; olhos murchos e sem viço, ou mesmo a inexistência destes, deixando em seu lugar dois poços enegrecidos. — Mu estava ansioso para que nos conhecêssemos e eu confesso que eu também estava. — ensaiou um sorrio ao mesmo tempo em que avançou dois passos muito lentos e estendeu a mão para cumprimentar o pianista.

Imediatamente se deu conta da gafe.

— Ah... me desculpe. — fez uma pausa e recolheu a mão olhando diretamente nos olhos azuis do pianista, que tinham um sutil vagar. — Desculpe é que... você parece tão normal que eu nem percebi que...

— Shaka é normal, Shion. — ralhou Mu.

O executivo arregalou os olhos e encarou o irmão.

— Sim, eu... eu não quis dizer isso, que ele não é normal, eu só... — discorria completamente atrapalhado. — Eu não quis ofender.

— Não ofendeu. — disse finalmente o pianista com um meio sorriso no rosto de fisionomia acanhada, enquanto tentava controlar o próprio nervosismo. — Não se preocupe com isso, Shion. É normal reagirem assim. O prazer é meu em conhecê-lo, e também estava bastante ansioso. Não há um só dia que Mu não fale de você.

Ao lado dele o estudante de cinema enfim sorriu.

— É mesmo? Bom, se ele fala bem está sendo apenas justo. Agora, se fala mal eu o aconselho a ficar de olho nele, pois está se mostrando um belo de um mentiroso. — disse o executivo numa frustrada tentativa de ser simpático, mas novamente percebeu ter cometido uma nova gafe. — Puta merda! Me desculpe.

Shaka dessa vez sorriu mais descontraído.

Era nítida a tentativa do outro em lhe ser gentil e não iria desapontá-lo.

— Não tem problema. Não precisa se desculpar. Isso acontece muito, acredite. — disse usando um tom amigável.

— Já vi que além de ter de se acostumar com o fato de eu ser gay vai ter algum trabalho também para se acostumar com o fato de Shaka ser cego. — brincou Mu esticando um dos braços para passa-lo pelos ombros de Shion, lhe dando um meio abraço. — Mas tudo bem, irmão. Nós somos pacientes. Logo você se acostuma.

Shion suspirou esfregando o rosto.

— Sim, tenho certeza que sim. — a voz de Shion era moldada por um tom extremamente acanhado, embora agora que conhecera o pianista conseguisse sentir certo alívio. Felizmente Shaka era um garoto ainda muito jovem, e embora morasse na periferia tinha um porte elegante, uma aparência delicada e tocava piano. Se não julgasse demasiado estranho até diria que o achou bonito demais para um homem. Assim, na sua precária e medíocre percepção, lhe era bem mais tolerável aceitar o irmão ter se envolvido com um tipo como Shaka, erudito e delicado, e não com um brutamontes bem mais velho, peludo e bulhão. — É meio que tudo novo demais para mim. Há pouco tempo eu tinha certeza de que Mu iria se casar com uma cantora da Broadway ou uma atriz de cinema e de repente ele me diz que é gay e que está namorando um cara... Bem, eu só pode dizer que estou feliz por ele do mesmo jeito. E no que depender de mim você já é muito bem-vindo nessa família, Shaka.

O coração do pianista se aqueceu ao ouvir aquelas palavras. Elas foram como o sopro de vida que devolve a esperança.

— Obrigado, Shion. — ele sorriu entusiasmado enquanto apertava com ambas as mãos a bengala.

Mu deu dois tapinhas nas costas do irmão e trocou com ele um olhar cúmplice. Estava grato.

— Deixa ele tocar seu rosto. — disse o estudante pegando o executivo de surpresa. — É assim que ele enxerga as pessoas. — com um movimento sutil tocou o braço do pianista lhe chamando a atenção para a direção em que estavam. — Toque o rosto dele, Shaka. Vai ver que a beleza dessa família veio toda para mim. — brincou.

— Eu posso? — Shaka sussurrou tímido a pergunta. Não sabia bem como se comportar em uma situação como aquela e jamais pediria tal coisa. Embora sua curiosidade fosse colossal, sua timidez era ainda bem maior que esta.

— Pode. — Shion respondeu de pronto, e igualmente curioso avançou dois passos e se curvou ligeiramente para ficar à altura do pianista. — Estou bem à sua frente. Só erguer os braços.

Shaka a princípio ficou acanhado, mas aos poucos levantou os braços e com as pontas dos dedos tocou a face do executivo impondo leve pressão. Delineou delicadamente o queixo até as mandíbulas, depois subiu para as têmporas e seguiu tateando o nariz reto e fino até alcançar as sobrancelhas. Sorriu ao constatar que essas eram ralas e exatamente iguais às do estudante de cinema; cheias no centro junto à fronte e quase inexistentes nas extremidades. Deveria ser a genética.

Por fim, o retrato que pintara do irmão de Mu em sua mente era bem semelhante ao do cineasta. A pele era um pouco mais seca e áspera, os ossos da mandíbula mais largos e a testa bem ampla, o que lhe conferia uma compleição mais rude. Os cabelos também não eram tão macios quanto os de Mu, e os fios bem mais grossos. Constatou que Shion também tinha um cheiro esquisito que categorizou como sendo uma mistura excêntrica de picles com eucalipto.

Na verdade era cedro marroquino.

— Nossa! Você e Mu são muito parecidos! — disse por fim recolhendo as mãos. — As sobrancelhas de bolinhas transparentes são iguaizinhas!

— Puxa! Não é que você acertou! Incrível! — respondeu Shion com um sorriso enquanto passava o dedo sobre uma das sobrancelhas. — Mesmo vendo tudo preto você acertou até a cor delas. Quase não aparecem mesmo.

— Eu não vejo tudo preto. — Shaka riu.

— Ah, não? Mu disse que você não enxerga nada, nem a luz, então eu achei que... bem... achei que você visse tudo preto.

— Eu não vejo sequer o que vocês chamam de preto. — o pianista deu de ombros. — O preto, para vocês que enxergam, para mim é o nada. É escuro, mas não preto, porém não há como eu explicar o nada.

Mu adiantou-se pegando na mão do pianista para lhe entregar a bengala.

— Shaka enxerga o mundo com os olhos da alma. — disse olhando para ele. — Nem preto, nem branco. Apenas uma forma diferente de ver as coisas que não é como a nossa. — voltou-se então para Shion. — Mas não foi para falarmos das tantas formas de enxergar o mundo que estamos aqui hoje, suponho.

Shion suspirou deixando enfim aflorar um sorriso largo em seu rosto.

— Exato. Estamos aqui para encher a cara na baderna mensal do Camus. — disse o executivo animado. — Já vou avisando vocês. Não é sempre que eu consigo vir para Nova York na época dessas festinhas dos amigos do Mu, então já que dessa vez deu certo só volto para casa quando tiver acabado a vodca e a cerveja.

Shaka abafou um riso espontâneo.

— Já vi que vou ter que pedir para Aldebaran e Aiolia te trazerem carregado para casa hoje. — disse Mu. — Bom, se quiser subir o pessoal já está lá. Eu vou mostrar a casa ao Shaka, colocar as coisas dele no meu quarto e logo subimos também.

— Certo. — Shion respondeu meio encabulado. Obviamente que o namorado do irmão iria dormir no quarto junto com ele, igual era quando Mu namorava garotas. — Nos vemos lá então. — se despediu indo até a cozinha em seguida para pegar uma garrafa de vodca e subir para o apartamento de Camus.

Assim que ficaram sozinhos ali o cineasta e o pianista não perderam tempo. Foi só a porta de entrada bater para as bocas se unirem num beijo ávido e caloroso, cheio de paixão e verdade, mas que não se estendeu por muito tempo, visto que também estavam ansiosos para subir para a festa.

Embora Shaka agora usasse a bengala para se locomover ali com mais confiança, Mu também o conduzia pela mão e com todo cuidado lhe apresentava sua casa. Dedicado descrevia para ele cada mínimo detalhe, desde os tapetes felpudos que recobriam o assoalho de madeira nobre da sala, até as luminárias em forma de bulbo e os tantos quadros e pôsteres de obras renomadas do cinema mundial presos à parede. Devagar o conduzia para que tocasse em cada objeto e visse a seu modo aquela pequena extensão de seu universo particular.

Assim, Shaka tomou conhecimento de que o apartamento de Mu era imenso. Na sala havia uma televisão suspensa e presa à parede que mais parecia uma tela de cinema. A cozinha tinha um aroma agradável de ervas como manjericão e hortelã, e também um doce odor de maçã. Tinha algumas ali dividindo espaço com três ou quatro bananas dentro de uma fruteira de cristal posta sobre a bancada central. No banheiro social o aroma predominante era de lavanda com um toque suave do que depois ele se recordou ser maresia. Ao questionar o cineasta soube que este vinha de uma coleção de conchinhas que ele mantinha ali distribuídas em alguns arranjos de vidro temperado sobre a pia e também na borda da banheira de hidromassagem.

Ao chegarem à suíte de Mu um cheiro novo também se apresentou ao pianista. Esse lhe deu certa dificuldade em relatar ao estudante, pois que não lhe fazia reviver lembrança alguma. Nada em seu acervo de memória olfativa nem ao menos chegava perto, até que seus dedos tocaram um objeto grande e ele encontrou sua fonte. Era uma caixa que continha vários rolos de fita magnética. Como esta haviam dezenas mais, e todas estavam dispostas em uma estante de metal que ficava encostada à parede ao lado da porta.

— Ah, então vem disto o cheiro estranho que estava sentindo. — constatou Mu finalmente matando a charada. — Aqui tem uma estante onde eu guardo alguns rolos de projeção. Nossa, mas nunca pensei que fitas magnéticas tivessem um cheiro tão forte. Você é incrível! — sorriu tocando os lábios do namorado com um beijo estalado, depois curioso se afastou e inclinou-se para a estante respirando fundo. Continuava a não ter cheiro de nada ali.

— É, elas tem sim... Aqui também tem cheiro de... metal e plástico? — disse Shaka franzindo a sobrancelha e se concentrando.

— É mesmo? — Mu perguntou surpreso. — Deve ser porque tem muitas câmeras aqui.

— Câmeras? — o pianista perguntou curioso, mas logo em seguida sorriu dando um tapinha na própria testa. — Claro. Se você estuda cinema é obvio que tem muitas câmeras.

— Gosto delas perto de mim. Guardo minhas Arri Alexa aqui, e também as filmadoras. Tem dois tripés perto da porta que dá para a varanda... — falou enquanto corria os olhos pelo ambiente. A suíte era bem grande, e em uma das paredes laterais havia uma prateleira de madeira embutida na parede que ia do piso ao teto de gesso, e todos os espaços dessa estavam completamente tomados por câmeras, amadoras e profissionais, de leve e pesado manuseio, também câmeras fotográficas, aparelhos de reprodução e edição de vídeo, alguns livros de arte e história do cinema, consoles de vídeo game e um sampler. — É... acho que tem mesmo muito metal aqui. Eu devo ser o pesadelo do Feng Shui!

O pianista riu do namorado.

— Se te deixa mais tranquilo, o seu cheiro se sobressai a todos os outros. — disse Shaka. — Ele está por toda a parte, é o único que importa.

Todo refestelado Mu acercou-se dele e o abraçou beijando seu pescoço. O pianista sentiu a pele arrepiar.

— Estou tão feliz que esteja aqui. — sussurrou o estudante de cinema roçando o nariz na lateral do rosto do pianista.

— Eu também... até dispensaria a festa para ficar aqui com você. — disse Shaka roçando os lábios febris nos do cineasta sem efetivamente beija-lo, pois que experimentava em êxtase seu cheiro enquanto sentia e ouvia o som instigante da respiração ofegante e quente. — Eu não aguento mais esperar, Mu.

— Eu muito menos. — de olhos fechados o estudante de cinema corria as mãos afoitas pelo corpo do pianista por debaixo das pesadas roupas. Ele era esguio, aprazivelmente quente, tentadoramente instigante. — Eu quero você, Shaka.

Beijaram-se afoitos devorando os lábios um do outro. Poucas eram as vezes em que podiam fazê-lo com a intensidade que desejavam, visto que sempre estavam em lugares públicos ou no quarto de Shaka com a porta aberta. Mas agora que finalmente tinham ali a tão almejada privacidade que sonhavam permitiam-se entregar a seus instintos com paixão e furor.

Porém, precisavam se manter racionais. Ainda que esta, naquele momento, fosse a mais árdua das tarefas.

— Hum... Não! — Mu sussurrou entre gemidos. — Não podemos... Temos que ir à festa, todos estão nos esperando. E eu já demorei demais em apresenta-lo ao pessoal.

— Humm... — Shaka murmurou fazendo um muxoxo, depois sorriu entre os beijos e mordidas que dava nos lábios e queixo de Mu. Como gostava de beija-lo... Como achava deliciosa sua língua quente e macia tal qual uma pluma. Sentia que podia beijar Mu até findar os seus dias na Terra.

— Eu quero muito que o pessoal o conheça. Em especial Afrodite. Ele está que não se aguenta de ansiedade. — Mu sussurrou roçando a ponta do nariz nos cabelos loiros que desciam retos contornando o rosto perfeito do pianista. Olhou para ele com os olhos brilhantes. — E eu ansioso para exibir o meu namorado bonitão, o que acha?

— Eu acho que se já esperamos até agora dá para esperar mais um pouquinho. — Shaka respondeu sorridente e com um beijo barulhento na bochecha do outro recuou dois passos. — Deixei cair a bengala de novo, pode pega-la para mim? Toda vez que te beijo isso acontece. Por que será, heim? — brincou.

Mu riu a apanhando do chão para entregar a ele.

— Porque você tem coisa muito melhor para segurar enquanto me beija! — brincou o cineasta buscando a mão do outro. — Aqui.

— Tem toda razão! Obrigado. — o pianista riu alto e sentiu o rosto queimar. Estava tão vermelho que quem o visse naquele instante podia jurar que passou o dia sob sol escaldante.

Olhando para ele Mu suspirou enquanto ajeitava os próprios cabelos. Depois cuidadoso também ajeitou os de Shaka.

— Me dá sua mochila. Vou deixa-la aqui sobre o divã ao lado da cama.

— Como estou? — perguntou ansioso jogando os cabelos longos para trás dos ombros. Tinha os olhos abertos, e era para esses que Mu direcionava um olhar de arrebatamento. Era um eufemismo irônico, mas como amava os olhos de Shaka.

— Está perfeito. — o estudante de cinema respondeu com voz calorosa, depois pegou na mão dele cruzando seus dedos. — Vamos?

— Vamos.

Logo que desceram do elevador, já no hall de entrada do apartamento de Camus, o pianista sentiu a vibração que vinha de dentro. Com ela vinha junto uma barulheira de risos, vozes animadas e música alta que chegava a seus ouvidos como se tivesse abafada por uma redoma de vidro. Essa era a sensação. Então de repente ouviu um som de campainha misturar-se àquela algazarra.

Foi como ser atingido por um choque elétrico que fez seu coração disparar e sua boca secar.

Inconscientemente Shaka apertou os dedos no braço de Mu e engoliu em seco.

Nunca tinha estado com muitas pessoas. Nunca tinha nem ido a uma festa sem que estivesse acompanhado do pai ou de Asmita, tampouco uma de jovens universitários. Definitivamente não costumava estar sozinho no meio de pessoas normais... Era o que pensava.

O pavor de não saber agir e se comportar como elas de repente causou pânico no pianista. Junto deste, como fiel companheira vinha sua velha amiga, a insegurança. E se rissem? E se o achassem ridículo?

— Ei. Shaka?

O pianista, que nem respirava, enfim soltou o ar dos pulmões virando a cabeça para o lado em que estava Mu.

— Sim?

— Está tudo bem?

— Sim, está sim. — respondeu com um sorriso aflito.

— Relaxa. — Mu disse apertando forte a mão dele, então ouviu o som da chave destrancando a porta. — Eles vão adorar você.

Tão logo a porta se abriu por completa a exuberante e ímpar figura de Afrodite Wernbloom surgiu ali com um lépido sorriso no rosto, uma lata de cerveja na mão e em indizível euforia.

Fizera questão de ser ele a recebe-los.

— Até que enfim vocês chegaram! — disse antes de sem cerimônia alguma lançar-se sobre Mu e lhe dar um abraço forte. Com a movimentação e o sacolejo Shaka soltou o braço do estudante de cinema e deu um passo para o lado sem saber ao certo o que acontecia, e quando menos esperava sentiu uma mão tocar seu ombro com extrema gentileza. — Minha nossa senhora do close perfeito!

Aos ouvidos do pianista a voz de Afrodite soava como uma orquestra angelical a soprar as trombetas da anunciação. Era alta, forte, e calava todo o resto ao redor.

— Então você é o Shaka! — o sueco, embasbacado, olhava para ele de cima abaixo. A bengala, o semblante inseguro e o olhar perdido e vago preso ao nada de fato lhe causaram estranheza e até um incômodo que não sabia distinguir porque surgira, mas nada era maior que o impacto causado pela beleza delicada e peculiar do pianista. — Minha nossa, agora consigo entender porque o Mu se apaixonou por você assim que o viu. Você é lindo demais! É um espetáculo da natureza! — disse inclinando-se para ele e com o tom de sua voz um pouco alto demais.

— Não precisar gritar perto dele, seu tonto. Ele não enxerga, mas ouve muito bem. — Mu disse rindo ao voltar a segurar na mão de Shaka, que com o rosto corado sorriu tímido ainda sem saber o que dizer. — Shaka, à sua frente está Afrodite. Meu melhor amigo. Ele é um pouco mais alto que eu, tem cabelos até os ombros pintados de azul cor de água de piscina. — nessa hora não segurou o riso.

— Qual é a graça? Você já disse ao seu namorado que o seu cabelo é roxo? — disse o sueco fazendo graça.

— Claro que disse. E não é roxo, é lavanda. — o cineasta rebateu, depois continuou as apresentações. — Afrodite é magrelo, tem uma pintinha charmosa no canto do olho direito e uma cara de palerma quando olha para o Camus.

— Nossa você hoje está comediante! Adam Sandler que se cuide! — disse o sueco. — Ah! E me desculpe, Shaka. Nem percebi que estava gritando.

— Não tem problema. — o pianista conseguiu falar finalmente. — É um prazer conhecê-lo, Afrodite. Mu disse que é modelo, então você sim deve ser bonito.

— Ah, querido, pois é. Mas, qual a vantagem do mundo te achar bonito e o cara que você é afim não dar a mínima para isso? — suspirou dando de ombros.

— Xi... Já vi tudo! Nada até agora, né? — Mu perguntou olhando para o amigo.

— Nada. Zero absoluto! Nem um muito obrigado com um drink especial ou um amasso no atelier. E olha que eu ajudei o estrupício essa manhã toda a limpar aquele muquifo.

Mu riu com um aceno negativo com a cabeça, depois apertou a mão de Shaka e inclinou-se para o lado dele baixando o tom de voz.

— Afrodite está tentando pegar o Camus, mas o cara é mais liso que sabão molhado.

— Ei! Pegar não. Conquistar. — o sueco corrigiu em tom jocoso. — Eu gosto do cretino. A gente tem tudo para dar certo, mas ele faz questão de fazer tudo dar errado. — suspirou. — Ah, deixa isso para lá... Eu quero dar os meus parabéns a você, pianista. Você conquistou o coração do garoto mais incrível desse mundo! Seja bom para ele.

— Eu vou ser sim. — Shaka sorriu inibido.

— Ele já é bom para mim. — Mu disse lhe acarinhando a mão. — Bom, vamos lá? Tem ainda muita gente para você conhecer.

— O pessoal está na sala. Já conhece o caminho. — disse Afrodite dando passagem a eles, mas antes que Mu mudasse o passo inclinou-se e cochichou em seu ouvido. — O babaca do Kanon já chegou. Está na varanda puxando o saco do teu irmão e fazendo tipo para as meninas. Se precisar de algo conta comigo.

Mu revirou os olhos e fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Seguiram os três para sala. Shaka usava a bengala e também deixava-se guiar por Mu mantendo a mão em seu braço. Embora seus olhos não pudessem enxergar eles tinham a beleza, o brilho e o viço dos que não foram condenados à noite eterna e obedeciam a seus comandos de outras formas. Quando cruzaram o corredor e enfim a barulheira que ouviu abafada soergueu-se rompendo o domo de vidro imaginário ele os ergueu à altura de seu nariz e piscou duas vezes. Agora ele sabia que cada par de olhos vivos naquele lugar olhava para os seus, mortos e inexpressivos, manifestando todo tipo de sentimento.

Sua garganta apertou e novamente a boca secou.

O pianista nessa hora só conseguia pensar que tinha, não, que precisava, tentar parecer uma pessoa normal.

De repente uma voz jovial e extremamente animada chegou a seus ouvidos.

— Mu! Tá louco, cara, achei até que não viria mais!

A voz pertencia a Milo Velónes Campbell, que foi o primeiro recebê-los.

De frente para os dois o estudante de engenharia civil estancou de pé. Os olhos azuis escuros curiosíssimos cravados no pianista

— Oi, Milo. — disse Mu lhe dando um tapinha no ombro para fazê-lo acordar.

— Ah! Oi! — fez Milo.

— Shaka, esse que está aqui é o Milo. Ele estuda engenharia civil e é meio metido, mas é boa pessoa. — brincou olhando para o outro. — Ele tem mais ou menos a minha altura, é loiro e nunca penteia os cabelos. Está sempre com esse aspecto de roqueiro dos anos oitenta. Ah! E ele tem uma pele bronzeada à la salva-vidas de Baywatch! Falando nisso, Milo, onde você pega todo esse bronze? Em Nova York que não é. É bronzeamento artificial, certeza.

— Por que você não vai te catar, Mu? — disse Milo encarando o cineasta, depois deu uma risada descontraída. Achou interessante o modo como Mu o havia descrito ao namorado. Interessante e extremamente carinhoso. Milo tinha um coração molenga e logo todo aquele afeto e cuidado já o haviam deixado tocado. — Muito prazer, Shaka. Seja bem-vindo ao Círculo da Mandrágora Dourada, nossa pequena irmandade.

Confuso e surpreso o pianista ensaiava uma resposta quando de repente mais uma voz surgiu ali e ele se manteve calado.

— De novo com essa besteira de irmandade de Mandrágora Dourada, Milo? Pour Dieu! Agora cismou com isso.

A voz que se assomara ali tinha um carregado sotaque francês e era de Camus Chermont, que vestido apenas com uma calça branca de lycra por debaixo de uma bata de seda longa até seus calcanhares descalços, e que aberta na frente fazia os movimentos de uma capa de super herói quando andava, trazia na mão duas garrafas longneck de cerveja.

— É um prazer finalmente conhecê-lo, Shaka. O meu nome é Camus e vou tocar em sua mão, com licença s'il vous plait. — disse o francês inclinando-se e executando a ação. Na mão do pianista entregou uma das garrafas. A outra deu para Mu. — Seja bem-vindo à minha casa. Quero que se sinta à vontade, porque já é um de nós.

Mu sorriu grato para Camus, depois encostou sua garrafa à de Shaka produzindo um tilintar sutil, mas o suficiente para desperta-lo do acanhamento.

— Ah... obrigado, Camus. — disse o pianista com a voz levemente trêmula. Controlava-se para não gaguejar e constranger Mu na frente dos amigos, e também para não parecer um completo idiota. Ficou sem saber o que fazer com a bebida. Era certo que deveria toma-la, era o que pessoas normais faziam, mas não sabia sequer onde deveria colocar a boca, pois que para isso precisava tatear a garrafa em sua mão, cheirar o que havia dentro, enxerga-la em sua mente, medir suas dimensões, e simplesmente não conseguia ao menos mexer os dedos das mãos. Estava petrificado. — A sua casa... ela tem um cheiro de tinta. — arrependeu-se amargamente de ter tentado dizer alguma coisa.

Oui! É porque aqui tem muita tinta! Você acertou em cheio! — disse Camus verdadeiramente entusiasmado e admirado.

Percebendo o nervosismo do namorado Mu interveio.

— Camus estuda Artes Plásticas, e o ateliê dele fica aqui, logo depois de um pequeno corredor à nossa direita. Mas, do lado esquerdo da sala, que é onde estamos agora, tem alguns cavaletes com pinturas nas quais ele está trabalhando atualmente, daí o cheiro de tinta. — disse paciente.

— Entendi. Você é pintor! Como Van Gogh e Picasso! — Shaka exclamou deveras impressionado. Além de Mu e Afrodite, que sabia cursar Moda, pois que o cineasta já havia lhe dito, Camus era ali mais uma pessoa ligada às belas artes, e isso impressionantemente pareceu deixa-lo mais calmo.

Era como se tivesse finalmente encontrado um terreno em comum com eles.

— Eu diria mais que como Andy Warhol e Basquiat. — o francês sorriu, enternecido com ele.

— Desculpa, eu não conheço esses. — disse Shaka.

Non tem problema, pianista. — Camus sorriu. — Terei o maior prazer em lhe falar deles quando estiver disposto a ouvir.

— Obrigado... Sua casa também tem um cheiro bom de rosas.

— O cheiro bom de rosas sou eu, querido. — disse Afrodite, que até então estava calado ao lado deles, absorto e hipnotizado pelos mamilos à mostra do dono da casa que envoltos por graciosos ninhos de pelos em tom de cobre pareciam lhe encarar de volta. — É o meu shampoo. Mas bem que podia ser a casa toda mesmo. Eu venho aqui perfumar o seu cafofo se quiser, Camus. Está vendo? As visitas gostam. — encarava o francês com um olhar sensual e tão firme que o outro não teve escolha senão desviar.

— Eu acho que prefiro o cheiro de tinta. — Camus respondeu enfadonho. — Bem, fiquem à vontade. Mu, as bebidas estão no freezer e a comida sobre o balcão. Sirva Shaka à vontade. E Shaka, quero que sinta-se em casa. Eu preciso descer para liberar a garagem para Geisty e o Aldebaran, mas já volto. Com licença.

Milo e Mu até tentaram, mas não conseguiram segurar o riso quando Camus saiu os deixando ali sozinhos.

— Nossa! Ao vivoooo! — Milo gargalhava.

— Nossa que engraçado, né? — Afrodite bufou. — O cara que tomou dois tocos seguidos dele rindo na minha cara. Se enxerga, Milo.

— Ora, eu me enxergo. Tanto que desisti desse enjoado. — disse Milo dando um gole na cerveja que tinha nas mãos. — E você deveria fazer o mesmo. Está mais cego que o Shaka. Não quer ver que ele não quer nada contigo.

Um silêncio súbito se fez entre eles.

Afrodite fez uma careta para o estudante de engenharia o repreendendo e Mu levou a mão ao rosto apertando os dedos na testa.

— Porra, me desculpe, Shaka. Eu não quis ofender, cara. — desculpou-se Milo envergonhado.

— Não ofendeu. Não se preocupe. — disse o pianista levemente acanhado.

— Puta que me pariu, heim Milo! — o sueco bronqueou.

Mu por sua vez, foi mais efetivo. Com o semblante sério lançou um olhar fulminante para o colega inconveniente e lhe deu um sonoro peteleco na nuca, articulando um "idiota" com os lábios mudos.

— Ignora esse bocudo, amor. Ele é famoso por sempre falar demais! — disse o cineasta afagando o ombro de Shaka. — Vem, vamos pegar outra cerveja para você que esta já deve estar quente. E se não quiser beber também tem suco e refrigerante. — pegou na mão dele para seguirem para a cozinha. — Tem ainda que conhecer Aiolia e Aldebaran. Eles também são do time de Rugby. E tem as meninas! Nossa você vai adora-las. Geisty é uma das minhas melhores amigas, e ela toca teclado em uma banda de garagem. Vocês vão se dar bem, tenho certeza.

Enquanto falava Mu conduzia Shaka para a sala onde todos já lhe acenavam, não apenas sorridentes e receptivos, mas também extremamente curiosos.

O pianista andava lento e com cautela, com a bengala a deslizar à sua frente e os olhos azuis a vaguearem pelo chão que não podia ver, e embora houvesse ali um obstáculo a cada novo centímetro sentia-se bem mais confiante que no começo. Camus havia mesmo conseguido lhe passar o otimismo que havia perdido quando cruzou a porta de entrada, mas eis que quando achou que à partir daquele ponto em diante lhe seria mais fácil encarar as apresentações e o restante da noite uma nova voz chamou sua atenção, e apesar de sussurrada sua presença forte e tom irônico chegou a seus ouvidos lhe causando imediato desconforto.

— Ora, ora, mas veja só quem chegou e nem veio me dar um beijo! Eu entendo que precise me ignorar por causa do seu irmão, Mu, mas ao menos um oi pode me dar... Ah! Quando soube que Shion viria eu trouxe um álibi, como costumávamos fazer. Pandora estava mesmo doida para dar pra mim. — riu debochado. — Mas... Estou vendo que posso dispensá-la, já que pelo jeito você saiu do armário. Não para o seu pai, imagino... Então esse é o seu namoradinho, o ceguinho? — fingiu surpresa, depois estendeu a mão a oferecendo a Shaka em cumprimento. — Prazer, eu sou Kanon. Ex-namorado do Mu.