Desde que se separaram, Kanon Thálassa passara a ser bom para Mu em apenas uma matéria, a de enfurecer.
— Idiota. — o estudante de cinema usou um tom de voz tão baixo quanto um sussurro, mas o tapa que dera na mão que o advogado estendia em cumprimento ao pianista, este sim, subiu aos seus ouvidos atentos. — Nunca mais se refira ao Shaka dessa maneira, e nem a mim como seu ex-namorado.
O sorriso cínico continuava a decorar a face debochada de Kanon quando este recolheu a mão olhando expressivamente para o cineasta.
— Está vendo, né, garoto? Agora que você é o namoradinho da vez é bom ir se acostumando à forma como ele trata aqueles que passaram pela cama dele. — disse o advogado com os olhos fixos aos de Mu. — Ah!... Me esqueci. Você não está vendo nada!
Furioso o estudante de cinema deu um passo à frente, já de punhos fechados, mas eis que sentiu a mão do pianista agarrar-se à manga de seu suéter com uma pressa afã meio desajeitada.
— Não. — Shaka pediu sem elevar o tom de voz. Tinha os olhos abertos fixos ao chão, em um ponto mais à frente, e seu semblante sereno em nada condizia ao rebuliço que lhe agitava por dentro. — Não caia na dele, Mu.
— Eu não vou deixar esse cretino falar assim com você.
— Ele pode falar o que ele quiser. — disse o pianista ainda segurando firme a manga do suéter. — E eu posso considerar apenas o que eu quiser. Deixa isso para lá. — a música em volume alto lhe deixava desorientado, mesmo assim ele tentou guiar-se pela respiração ruidosa do advogado para voltar o rosto em sua direção. — Não posso dizer que é um prazer conhece-lo, Kanon, já que está mais que claro que para você também não é, mas espero sinceramente que com o tempo isso mude e possamos então ter uma convivência no mínimo civilizada.
O advogado tinha sua atenção agora voltada para o pianista. Sentia a raiva lhe consumir por dentro e fazia tanta questão em escondê-la quanto percebia que Shaka fazia em se mostrar superior.
Já Mu respirava fundo para conter a sua.
Era a primeira vez que trazia Shaka a uma festa para conhecer os amigos e não iria estragar tudo arrumando uma briga logo com Kanon.
— Você está certo, meu amor. — disse o cineasta pegando na mão do namorado com força, porém com extremo carinho. — Com tanta gente interessante para você conhecer aqui hoje não vale mesmo à pena perder tempo com esse fantasma.
Os olhos verdes de Kanon se contraíram, fixos no rosto lívido do pianista, mas no momento em que pensou rebater suas palavras com alguma outra ofensa ou provocação minuciosamente pensada eis que uma mão pousou forte em seu ombro o fazendo engoli-las, ainda que a contra gosto.
— Mas veja só! Estava descendo para a garagem e encontrei os dois no elevador. Vieram de taxi. — disse Camus, que já prevendo que aquele encontro entre o estudante de cinema, o advogado e o pianista pudesse esquentar os ânimos de ambos tratou logo de interferir. — E pelo tanto de fardos de cerveja que trouxeram, hoje a noite promete! — deu um apertão no ombro do advogado indicando com o dedo Aldebaran e Geisty que seguiam para a cozinha enquanto cumprimentavam os amigos pelo caminho.
Kanon era um amigo de longa data, patrocinador e incentivador do time de Rugby, por isso Camus sempre o convidava para suas reuniões, mas desde que se envolvera com Mu, e em especial após o término, a convivência entre os dois se tornou um suplício para todos, e ninguém sabia ao certo a razão de tanta hostilidade entre eles.
— É, me parece que a noite promete mesmo. — o advogado sorriu debochado. Não tirava os olhos do pianista, e este, mesmo sem poder ver, era capaz de senti-los sobre si com uma força esmagadora.
— Por que non vai à cozinha pegar uma cerveja e me deixa apresentar a casa ao meu convidado, hum? — disse Camus sem rodeios. Não era um homem de meias palavras.
O advogado empertigou-se, curvando os lábios para baixo e lançando um olhar feroz e desafiador ao estudante de cinema, só então mudou o passo e saiu dali sem nada dizer.
Aquela foi uma péssima primeira impressão, como Shaka imaginava que seria. Ainda pior era a humilhante e tão habitual sensação de impotência que nessas horas sempre o agarrava pelo pescoço e feito uma morsa fria e áspera o esganava impiedosamente. Então nessas horas tinha que lutar para continuar respirando, para não deixar que o medo e o desespero o sufocassem.
Se não fosse um completo incapaz teria se colocado à frente daquele sujeitinho insolente e defendido Mu, imposto respeito.
Era o que teria que fazer.
Era o que gostaria de poder fazer. Mas, já sabia bem qual seria o resultado caso comprasse uma briga com Kanon.
Sairia dela com a cara estourada e beijando o chão, morto de vergonha.
Naquele curto instante em que todo esse conflito se dava dentro do pianista, ouvir a voz de Camus foi como encontrar um toco de árvore boiando na superfície de um lago de águas revoltas depois de muito lutar para não se afogar.
— Juro que por pouco não quebrei todos os dentes da boca desse infeliz. — murmurou o cineasta.
— Kanon non está precisando de um tratamento dentário. — brincou o francês. — Ele precisa apenas de um tempo para aceitar que o lance de vocês acabou mesmo e que non tem volta.
— Mais tempo? Eu tenho sido até que paciente demais com ele. Depois, a gente nem teve nada sério. Não entendo porque essa insistência, esse... rancor todo. Ele é um cara bonito, bem sucedido, pode ter quem ele quiser, eu não entendo...
O estudante de cinema se interrompeu quando deu-se conta de que havia falado demais. Suspirou trocando um olhar aborrecido com Camus que ligeiro como era tratou logo de botar panos quentes.
— Talvez seja justamente isso. Por ele poder ter quem quiser imaginou que ninguém nesse mundo o rejeitaria. E você, além de rejeita-lo, logo depois aparece aqui acompanhado desse rapaz incrível. Ele agora se deu conta de que existem outros partidões por aí. — Camus tocou gentilmente o ombro de Shaka para lhe transmitir confiança, depois sorriu para Mu. — Ninguém está imune à dor de cotovelo, mes amis. Logo ele se conforma.
O pianista ponderava sobre as palavras do artista plástico quando uma nova voz surgiu ali. Essa, diferente das outras, era feminina e carregava consigo uma alegria jovial e sincera.
— Acho difícil se conformar quando o que incomoda é justamente um dos mais primitivos sentimentos humanos, inveja!
Com um dos braços jogados sobre os ombros largos do anfitrião, Geisty tinha no olhar um misto de curiosidade e enlevo. Há tempos ansiava por conhecer o namorado do amigo cineasta, e agora, de frente para ele, finalmente conseguia entender todo o entusiasmo de Mu. Shaka era diferente de tudo e de todos que estavam ali, naquele pequeno nicho. Não apenas por ser cego e fazer parte de uma realidade muito aquém da que pertenciam as pessoas presentes naquele apartamento, mas porque havia em sua fisionomia uma atitude imperativa, daqueles que não estavam na vida apenas para ser mais um, mas para deixar sua marca, para promover mudanças, abrir caminhos e trazer luz onde tudo era escuridão. Bem irônico, por sinal. Imaginava que ao olhar para ele fosse sentir a tão incômoda, porém natural, comiseração que se sente por pessoas como ele, mas tudo que conseguia sentir era uma certa inquietude curiosa.
— E ainda há quem non acredite que o mais sábio dos seres é a mulher! — disse Camus.
Mu sorriu para a amiga jornalista.
— Shaka, essa é Geisty. Estudamos juntos desde o colégio. Hoje ela estuda jornalismo e, como você pode perceber, ela não tem papas na língua.
— O meu compromisso é sempre com a verdade! — a garota brincou dando um sorriso. — E a verdade está estampada na cara daquele estupor. Kanon está morrendo de inveja.
— Não sei como alguém poderia ter inveja de um cara como eu. — disse Shaka dando de ombros enquanto apertava a bengala com os dedos.
Os três amigos se entreolharam hesitando por um instante, até que, de modo natural, Geisty aproximou-se do pianista e imprimiu mais seriedade na voz.
— E por que não? Pelo que Mu nos conta, e agora podendo verificar por mim mesma, você é um cara incrível! Além disso, quando se trata do Kanon é totalmente compreensível que sinta inveja. Kanon é uma pessoa com um ego gigantesco, e você abriu uma ferida no ego dele. Tem também o fato de Mu ter assumido você como namorado, e todo mundo sabe que, no fundo, era isso que ele queria, mas não conseguiu. Ele não está sabendo lidar com a ideia de ter sido rejeitado, nem de que outro tenha o que ele acha que é dele.
— Só que é exatamente aí que mora a questão. Eu nunca fui dele porcaria nenhuma. Nunca permiti que ele me tratasse feito um objeto, logo, ele não tem que ficar dando chilique. — resmungou o estudante de cinema já aborrecido com aquela conversa. — E vamos parar de falar do Kanon, por favor?
— Oui! Eu concordo. Vamos beber e falar sobre política, sexo, filosofia e arte, não necessariamente nessa ordem, que é para isso que estamos aqui. — Camus erguia os braços fazendo um gesto como se espantasse aquele assunto para longe, enquanto já tomava o rumo da roda de pessoas que se amontoavam no sofá ou espalhadas pelo carpete no centro da sala. — Venham se sentar. Venha Shaka, o pessoal quer te conhecer.
— Camus tem toda razão. — disse Geisty acercando-se de Mu. — E então? Não disse ao Shaka que sou sua amiga mais gata?
— Hum... o Shaka é bi, portanto eu não sei se quero abrir uma concorrência aqui. — o cineasta brincou enquanto guiava o namorado para onde deveria seguir.
O pianista riu baixinho ouvindo os dois.
— Vamos lá! Você não confia no seu taco, Mu? — a garota riu.
— É claro que confio no meu taco. — o estudante de cinema disse enquanto aos risos afastava para o lado um pufe para deixar o caminho livre. — Bem, vamos lá. Amor, Geisty está no penúltimo ano de jornalismo, mas já é estagiaria no The New York Times. Como já percebeu ela não é nada modesta, e não tem que ser mesmo, porque é uma das mulheres mais lindas e talentosas que já conheci. É morena e dona de raros olhos violetas, como os da Elizabeth Taylor.
Shaka ergueu as sobrancelhas e sua fisionomia ganhou um tom de curiosidade. Este não passou despercebido por Mu.
— Eu tenho que ser justo. Todas as minhas amigas são lindas. Você vai conhecer a Marin, ela está logo ali à frente. Marin faz odontologia, e é namorada do Aiolia. Marin é japonesa, e tinge o cabelo de um ruivo bem alaranjado. Acho que fica incrível nela. Ao lado da Marin está June, e assim como a Geisty eu a conheço desde o colégio. June é negra, e é dona do sorriso mais perfeito que já vi na vida, isso claro, antes de ver o seu. — disse em tom mais baixo virando o rosto para o pianista, que deixou escapar um sorriso. — June estuda jornalismo também e está escrevendo um livro... E aqui estamos nós.
Súbito Shaka sentiu Mu parar e segurar em seu braço. Estavam de frente para o sofá, e bem ali todos os amigos do estudante de cinema aguardavam em polvorosa para conhece-lo.
Ao longo de todo aquele curto percurso a atenção do pianista se focara nas palavras do namorado, que junto da música alta, a qual lhe deixava um tanto desnorteado, o fizeram esquecer por um momento da tensão de estar ali, em meio a tantas pessoas que certamente tinham os olhos cravados em si, mas agora tudo voltara à tona.
Shaka engoliu em seco à espera do que viria a seguir.
E o que se sucedeu nem em seus devaneios utópicos ele fora capaz de sonhar.
Primeiro ele ouviu um som abafado de farfalhar de roupas, em seguida a sensação habitual de proximidade.
Logo vieram as vozes.
A primeira grave como a de um locutor invocado de rádio.
— E aí, cara! Seja bem-vindo! — a voz era de Aldebaran, que assim como fez Milo e Shion estendeu a mão em cumprimento e logo em seguida se deu conta da gafe.
Esperando por uma orientação Aldebaran olhou alarmado para Mu.
O cineasta na mesma hora tomou a mão do pianista e a conduziu até a do amigo.
— Shaka, esse é Aldebaran. E eu sei que vai se surpreender ao apertar essa mão! Vá em frente! — riu trocando um olhar amistoso com o outro, que aguardava atento e ansioso.
O cumprimento aconteceu meio atrapalhado, mas no exato momento em que tocou a mão de Aldebaran, Shaka entreabriu a boca e suas sobrancelhas finas ergueram-se em sinal de espanto.
Aquela era uma mão imensa! Talvez a maior que já tocara na vida!
Deveria dar umas três da sua.
— Nossa! Você deve ser enorme! — exclamou tendo a surpresa vencido sua timidez.
Um silvo risos se ergueu ali, mas a alta e espalhafatosa risada de Aldebaran se sobressaia a todos eles.
— E ele é! Por isso é nosso Pilar 1. Prazer em conhece-lo, Shaka. Bem-vindo ao time.
A voz agora era menos grave, porém tinha uma presença altiva e cheia de atitude.
— Shaka, este que está falando agora é Aiolia. Ele está ao lado do Aldebaran e se refere à posição que ele ocupa no time. — Mu explicou enquanto tomava novamente a mão do pianista para que ele agora cumprimentasse Aiolia. — Aiolia, Camus, Afrodite, Milo, Aldebaran... todos fazem parte do time.
— Mesmo Afrodite, que disse ser modelo e por isso bem magro? — Shaka perguntou curioso.
— Sim, mesmo ele. — quem respondeu foi Aldebaran. — Afrodite é nosso Ponta mais rápido. Ninguém ganha dele na corrida, com aquelas pernas de garça que ele tem.
Todos riram descontraídos enquanto Aiolia recolhia a mão e Shaka voltava a segurar na bengala, mas quando achou que as apresentações tinham acabado eis que sentiu um perfume doce e suave acariciar seu olfato e um toque sutil em seu braço.
— Estávamos todos ansiosos para conhece-lo. Mu fala tanto de você que já me sinto até íntima. Eu sou June, e olhando para você agora eu vejo que Mu não exagerou em momento nenhum.
Tímido o pianista não soube o que responder, e enquanto ainda pensava em algo, outra voz feminina soergueu-se em meio à música e às outras tantas que ouvia ali.
Esta era suave como uma pétala de flor.
— E eu sou Marin. É bom tê-lo na turma. Mu disse que é pianista!
— O melhor deles! — disse o estudante de cinema orgulhoso.
Ainda atrapalhado com tantas pessoas, vozes, cheiros e sons ao seu redor, além de um pouco nervoso, porém muito mais eufórico, Shaka sorriu mantendo o rosto em linha reta e os olhos fechados.
— Marin, a dos cabelos cor de laranja. E June, do sorriso bonito.
Ambas as garotas sorriram entusiasmadas, e cedendo lugar ao convidado ilustre no centro do sofá os rapazes se espalharam pelo carpete acomodando-se em pufes ou almofadas.
Mais ao fundo da sala, da grande porta de vidro que levava à varanda, encostado no batente Shion observava calado a movimentação em torno do irmão e do namorado. Não havia presenciado o desentendimento de momentos antes entre eles e o advogado, e apenas notava, com um comprazimento quase conformado, o quão feliz Mu parecia ao lado de Shaka. Todos pareciam agir com tanta naturalidade, fosse felicitando o casal ou apenas interagindo, que Shion constatou que o único que os via com surpresa e ainda algum julgamento era mesmo ele próprio. Longe de casa Mu era feliz e tinha a segurança que tanto queria para ser quem era.
O executivo respirou fundo pensando naquilo, e seu coração experimentou um novo pesar.
Como seria quando o pai soubesse?
Ao lado dele Kanon, com Pandora a tiracolo que tudo fazia era tentar ganhar uma migalha de sua atenção, fosse lhe fazendo carinhos, insinuando-se, ou puxando uma conversa que nunca se desenvolvia, bebericou a cerveja que trazia na mão enquanto mantinha os olhos fitos no centro da sala.
— É, parece que o seu irmão enfim saiu do armário. — disse num tom arrogante, quase debochado.
Por um momento Shion ainda manteve o olhar preso ao irmão e ao pianista; depois voltou ligeiramente o rosto para o advogado a seu lado.
— Você já sabia? — perguntou um pouco surpreso.
Os lábios finos de Kanon curvaram-se num sorriso discreto, enquanto ele mantinha seus olhos de predador preciso cravados do estudante de cinema.
— Eu acho que está mais do que claro que todos aqui já sabiam. — respondeu imperativo, depois olhou para Shion e seus olhos faiscaram. — E o papai? Já sabe? — sondou curioso e astuto.
Shion estranhou o teor e o tom daquela pergunta, até porque desconhecia por completo o envolvimento do irmão com o advogado, e a julgar que não pertencia àquele grupo, cujos membros lhe pareciam sempre tão íntimos, imaginou que pudesse estar sendo paranoico.
— Não. — respondeu simplesmente. — Ele contou apenas para mim. Aliás... ainda estou me acostumando com a ideia. — deu um sorriso sem graça. — Por falar nisso... Sei que você pegou uma causa da filial de Seattle das nossas empreiteiras e ganhou. Mu chegou a me dizer que iria indicar o seu escritório de advocacia ao nosso pai... Bom, caso ele o faça, se puder não comentar com ele sobre... — não soube como concluir a frase, embaraçado.
— Sobre seu irmão ser gay. — concluiu Kanon com um risinho malicioso. — Não esquenta a cabeça. Não costumo levar assuntos pessoais ao meu escritório.
Shion fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Obrigado. — disse, e nessa hora, pela visão periférica viu alguém lhe acenar da cozinha. Era Afrodite, que levantava duas taças, uma em cada mão, de margueritas e o chamava para beberem. — Com licença. Bom revê-lo, Kanon.
O advogado respondeu com um aceno de cabeça, depois voltou a bebericar a cerveja. Tinha sido uma surpresa, deveras, ver Shion ali naquela noite, mas, como imaginou, o estudante de cinema ainda mantinha a sexualidade em segredo para o pai, além de ter omitido para o irmão mais velho que envolvera-se consigo pouco tempo atrás. Isso lhe estava bem claro. Embora irritado, pensou que talvez pudesse tirar proveito dessa omissão. Sabia que o dono das empreiteiras Bharani era um homofóbico canalha; tudo o que ele precisava para armar sua jogada. Só teria que agir com parcimônia e ser paciente.
A noite seguia animada.
Quando um ou outro dos rapazes e garotas que rodeavam o cineasta e o pianista se levantava para ir pegar uma bebida ou fumar um cigarro na varanda, e a conversa mudava um pouco o foco, Mu aproveitava para inteirar mais o namorado sobre as pessoas que ele conhecera naquela noite.
E fazia isso com dedicação e extrema descontração.
— Aiolia faz o tipo popular, porte atlético, forte, cabelos cacheados... Todas as líderes de torcida do nosso time são loucas por ele, mas ele só tem olhos para a Marin. — dizia o estudante de cinema enquanto jogava umas azeitonas verdes para dentro da boca e observava o casal de amigos aos beijos na varanda. — Eu acho até que dali sai casamento!
— Marin é uma santa! — disse Milo. — Só ela para aguentar tanto grude!
— Hum, não acho não. Garotas gostam de grude. — disse June dando um gole na cerveja.
— Ai, só se for você, né June. Eu detesto homem na minha aba. — protestou Geisty.
— Ei, não quer grudar em mim não, June? — quem fez a proposta foi um sorridente e ousado Aldebaran, e esta arrancou um riso espontâneo de Shaka.
— Aldebaran não desiste! — Mu comentou em tom jocoso. — Ele é doido pela June, mas ela não quer nada com ele. Eu acho que Deba e Afrodite podiam juntar suas coleções de tocos e construir um ninho de amor. Que tal? — riu da ideia esdrúxula.
— Você acha que nenhum dos dois tem chance? — Shaka perguntou em tom baixo.
— Eu acho que os dois estão precisando de um belo choque de realidade, além de uma boa injeção de auto estima e amor próprio. Aldebaran é um cara legal, alto astral, justo, bonitão... Tenho certeza que muitas garotas iriam querer uma chance com ele. E Afrodite... bem... eu sou suspeito para falar dele. Dido é meu melhor amigo, e a pessoa mais incrível que já conheci, além de ser lindo. Está perdendo tempo com o Camus.
— Mas e o Camus? — Shaka perguntou curioso.
— O que tem o Camus?
— Ele vale a pena esse esforço todo do Afrodite?
Mu pensou por um momento antes de responder.
— Bom... Eu não diria que o Camus é um cara bonito, mas... extremamente interessante. É difícil explicar. — riu olhando para o francês que gesticulava como se encenasse uma tragédia shakespeariana enquanto explicava um de seus quadros para Shion. — Camus tem uma beleza incomum. Ele tem um rosto duro, sisudo, desses tipos mau encarados e que estão sempre desconfiados de algo... Um ar um tanto esnobe e postura de pinguim. Talvez seja o nariz pontudo e fino... Os cabelos dele são vermelhos como tomate maduro. Lembra da cor do tomate?
— Lembro. — Shaka ria do desenho lúdico que fazia de Camus em sua mente. Até então um pinguim coberto por massa de tomate.
— E tem um corte sofrível à lá Ziggy Stardust. Acho que não vai se lembrar dele...
— David Bowie. — disse Shaka ainda rindo. — Mas, realmente, não me lembro como era Ziggy Stardust.
— Uma vassoura vermelha de ponta cabeça. É tudo que precisa saber. — Mu riu de volta. — Ele tem a pele bem branca e toda pintadinha de sardas. E como se tudo isso ainda não fosse o suficiente, ele se veste de maneira excêntrica. Quase sempre mostrando alguma parte do corpo. Hoje ele está exibindo os mamilinhos. — riu ainda mais ao terminar a frase. — Tudo isso que estou te falando seria considerado feio em outra pessoa, mas não quando se trata do Camus. Essas características se encaixam de um jeito bizarramente harmonioso nele. Então, eu diria que Camus é a pessoa feia mais bonita que eu já conheci.
Shaka levantou as sobrancelhas surpreso.
— Bom, acho que está explicado porque Afrodite é louco por ele. — disse o pianista.
— Ah é? E por que?
— Pelo mesmo motivo que você se apaixonou por mim. Camus é uma obra de arte moderna e caótica, eu sou uma composição musical que apenas ouvidos apurados são capazes de ouvir. Por isso você me ouviu, Mu. — disse segurando na mão do cineasta. — Somos extensões daquilo que mais amamos, e por isso atraímos aqueles que, como nós, também são movidos à paixão. Como você com o cinema.
Mu ficou em silêncio por um momento apenas olhando para o rosto de Shaka.
— Você tem toda razão. — sorriu trazendo a mão dele até os lábios e a beijou.
O pianista sorriu e ainda um pouco atrapalhado deu um gole na latinha de cerveja que segurava na outra mão; fez uma careta. Não estava nada habituado com bebidas alcoólicas, e tinha achado o gosto horrível. Pensou até em pedir a Mu que lhe arrumasse algo sem álcool para beber, mas súbito ouviu a voz de Camus se aproximar.
— Excusez moi, mes amis. Excusez moi! — disse o francês, que já bem alegre pelo entusiasmo e pelo álcool arrastava até próximo ao sofá uma mesinha de centro. Sobre ela havia uma caixa tampada. — Shaka, agora que já está mais bem familiarizado com o pessoal, mais descontraído, vamos ao que interessa.
O pianista de repente ficou apreensivo.
— Sim! Vamos ao seu rito de iniciação no Círculo da Mandragora Dourada! — disse Milo juntando-se a eles, procurando um lugar para se sentar em torno da mesa.
— Já falei para parar com essa merde de Mandragora Dourada, Milo. Dieu! Que coisa mais idiota. — Camus protestou, depois foi até o sofá e se sentou ao lado do pianista. — Shaka, quando Mu me disse que era cego eu passei horas, na verdade dias, pensando sobre isso. Ele falou também que você perdeu a visão quando ainda era criança, e que por isso existem coisas das quais non consegue mais se lembrar, como as ondas do mar e as borboletas, por exemplo.
— Sim. — Shaka respondeu tímido.
— Alors... Então uma ideia me ocorreu. Sou artista plástico, e trabalho com uma diversidade enorme de materiais, por isso pensei: a arte existe para reproduzirmos tudo aquilo queima dentro de nós, então, por que non reproduzir memórias perdidas? No caso, as suas memorias.
O rosto do pianista iluminou-se, e sua fisionomia repentinamente ganhou um ar de curiosidade e surpresa. Jamais, em toda sua vida, imaginou ter uma recepção tão positiva e carinhosa como aquela. O mundo, pela primeira vez, se desenhava totalmente oposto ao que Asmita tantas vezes lhe descrevera... e como gostaria que Asmita estivesse ali e ele também fosse apresentado a esse mundo.
— É sério?
— Oui bien sur! Claro que é!
— Eu... Nem sei o que dizer.
— Non diga nada. Apenas sinta-se à vontade para experimentar. — disse Camus abrindo a caixa. — Fiz a proposta ao pessoal e todos quiseram trazer algo para você com o qual pudesse ligar às suas respectivas personalidades, e também para que possa resgatar as memorias perdidas.
Ao lado de Shaka, Mu sorria satisfeito.
Seus amigos realmente eram seu maior tesouro.
— Eu espero que goste da surpresa. — disse o cineasta dando um beijo no rosto do pianista para em seguida soltar sua mão e deixa-lo livre. — Aqui estão as ondas do mar. Fiz para você.
Inclinando-se para frente Mu apanhou de dentro da caixa um pequeno quadro impresso em 3D com a imagem de uma praia e ondas a quebrar na orla.
Shaka pegou o quadro nas mãos com os olhos azuis abertos a vaguearem voltados para um ponto qualquer à sua frente, e conforme seus dedos deslizavam pela gravura em alto relevo, o véu escuro que há tantos anos encobria aquela memória se erguia, mais e mais, então o sorriso luminoso em seu rosto em festa dizia a todos que ele havia conseguido.
Elas estavam lá novamente.
As ondas do mar; em toda sua força e majestade.
— É... lindo! — disse ainda tímido, mas nem tinha tempo para embaraços, pois que, entusiasmados e maravilhados com a experiência, todos ali queriam sua vez.
— Veja isso que legal, Shaka! — disse Milo pegando na mão do pianista para depositar nela duas miniaturas do filme O Senhor dos Anéis, do qual era fã.
— Ei, Milo! — Camus chamou a atenção do amigo lhe dando um cutucão nas costelas.
— O que foi? Não posso pedir para ele ver? — respondeu o loiro encarando o francês. — Ele vê do jeito dele, oras, mas vê.
— Esse grandão é um orc? — disse Shaka apalpando a miniatura e fazendo o sorriso de Milo abrir-se.
— Um Uruk hai! Um soldado de elite da temida Mão Branca!
— Ah, sei quem são! Meu irmão gosta bastante desse filme. — Shaka comentou alegre. — O pequenininho imagino então que seja um Hobbit.
— Um Hobbit não, meu caro. Esse é o Hobbit! Samwise Gamgee! O verdadeiro herói desse épico. Não fosse por ele a demanda do anel teria fracassado já na primeira jornada.
De repente Shaka sentiu uma mão lhe pousar no ombro, então Mu o orientou para que segurasse o objeto que outro dos amigos lhe oferecia.
— Esse é o animal mais perigoso da Terra. — disse Aldebaran, que havia trazido o chaveiro de seu carro; uma réplica bem realista de uma cabeça de tubarão com a bocarra aberta. — Tubarão branco! Sete metros de comprimento distribuídos em até duas toneladas e meia. Tem uma fileira principal de dentes, enormes, cerrados, e mais duas ou três atrás dessa em contínuo crescimento. Meu amigo, é muita raça de dente!
Shaka passava as pontas dos dedos pelos dentes do bicho e seu rosto de repente assumiu um semblante de espanto.
— Ei, vamos para um bicho bem menos perigoso e assustador? Que tal?
O pianista reconheceu a voz de Afrodite no ato. Na mesma hora levantou a cabeça e sentiu Mu lhe tirar o chaveiro de tubarão das mãos enquanto dava uma divertida risada.
O sueco deu a volta na mesinha, equilibrando-se entre as pernas dos amigos e almofadas, até parar de frente para Shaka no sofá, então lhe tomou ambas as mãos com delicadeza.
— Venha, pianista, levante-se. — disse Afrodite.
Shaka ouvia risos singelos em meio a música, que agora tocava em volume bem mais moderado.
— Mu me falou que quando estavam no Central Park você lhe disse que não se lembrava com exatidão das formas de uma borboleta, nem de como é a erupção de um vulcão. — continuou o sueco, ainda segurando nas mãos de Shaka. — Bem, eu sou quente como um vulcão. — um silvo de risos e assovios se ergueu na sala, e o pianista sentiu seu rosto corar. — Mas, por motivos óbvios, isso eu não posso te mostrar. Você tem o Mu para fazer o serviço. Porém... a borboleta eu posso!... Estou usando asas de borboletas nas minhas costas. Pesquisei um tecido com o qual eu pudesse reproduzir a textura exata de uma asa de borboleta, e acho que consegui chegar a um resultado bem satisfatório. Bem, meu amigo, você está diante da maior monarca azul que já encontrou na sua vida! — dito isso virou-se de costas permitindo ao pianista tocar a estrutura presa a seus ombros. — Vamos, toque!... Vai sentir umas escamas dispostas como favos de mel e uma superfície meio ondulada. Assim são as asas das borboletas. Os contornos, mais grossos, são de viés de veludo preto, e nas pontas há pedrarias brancas. Você vai sentir ao toca-las. As rusgas finas no tecido em toda sua extensão são os traços impressos nas asas delas, desenhos que Natureza bordou nas borboletas. Elas são coloridas e de diversos tamanhos.
Quando o pianista tocou nas asas fora imediatamente transportado para um mundo mágico, pois que o trabalho do promissor estilista era tão perfeito que bastou-lhe poucos segundos deslizando os dedos pelos pontos dos tecidos para conseguir resgatar a imagem borrada em sua mente. O formato das asas confeccionadas por Afrodite também lhe ajudou a trazer de volta a memória perdida. Maiores na parte de cima, menores embaixo. Sentiu os pontinhos que o sueco mencionara, e os viu exatamente da cor que ele havia dito. Branco no preto contornando um mar de azul cintilante.
Depois de um momento Shaka segurou nos ombros de Afrodite e o virou de frente para si.
— Obrigado. — disse emocionado. Uma lágrima saltou de um de seus olhos e deslizou pela bochecha ruborizada. Sabia que o sueco olhava para si, e a presença dele era tão genuinamente alegre que tinha a sensação de estar diante de uma imagem sacra, tamanha a leveza de seu espírito. A borboleta monarca agora em sua mente tinha cheiro de rosas e a alma mais doce daquele mundo novo que ansiava cada vez mais por desbravar. — A monarca azul agora nunca mais vai se apagar da minha lembrança!
Envergonhado por ter se deixado levar pela emoção Shaka rapidamente baixou a cabeça e enxugou a lágrima com os dedos.
— Nem esse momento da minha, querido. Fico feliz em ter ajudado! — disse o sueco, que também estava visivelmente emocionado, e para disfarçar começou a jogar algumas almofadas no chão convidando os outros a se sentarem. — Vamos sentar ao redor da mesinha? Você trouxe a massa de modelar, Camus?
Falava de modo calmo, tentando não permitir que o nó em sua garganta lhe embargasse a voz, mas mesmo estando bem ali a seu lado, e com os olhos fitos em seu rosto, Camus não respondeu.
— Ei! Francês enjoado. Estou falando com você. — Afrodite repetiu. — Trouxe a massa de modelar?
— Oui. — Camus respondeu com o olhar vago e perdido. — Está na caixa.
— Ótimo. Que tal a gente fazer um vulcão? Podemos usar água quente e café. — disse o sueco puxando a caixa até si.
Mas, nem todos os convidados estavam gostando daquela brincadeira, tampouco das boas-vindas tão acalorada ao pianista.
Da cozinha Kanon observava a tudo com uma carranca de intimidar o próprio diabo no inferno estampada no rosto. Sorvia compulsivamente um gole atrás do outro da cerveja em sua mão, esperando que esta talvez pudesse lhe amenizar o amargor da boca, que era agora um arco invertido. Mas a bebida parecia só contribuir com a azia e toda a sorte de problemas gástricos que faziam arder seu estômago.
Ridículos. Ele pensava. Consumido pela raiva.
Tinha ganas em pegar aquela borboleta afrescalhada do Afrodite e atirá-lo pela sacada para ver se podia voar. Pensou em enterrar a cara de pau do Camus na massa de modelagem e passar todos aqueles Actions Figures de Milo pelo triturador da pia da cozinha.
Ridículos.
Até Pandora estava lá, fazendo parte daquele circo risível de falsa caridade e inclusão.
Como gostaria de socar a cara da vadia e depois quebrar todos os dedos das mãos daquele maldito pianista cego.
Praguejou qualquer coisa quando sorveu o último gole da latinha e a atirou na lixeira ao lado da porta, sem nunca tirar os olhos daquele cenário, que para ele era deprimente e dissimulado, pois que os mesmos que bajulavam aquele deficiente imbecil mal o conheciam.
Era óbvio que faziam aquilo por si mesmos, para alimentar seus egos, e não por consciência social.
Todos lambendo a bunda daquele pianista como se fossem pessoas conscientes e de bom coração. Que graça!
Hipócritas. Pensava.
E no centro daquele picadeiro estava Mu; o maior dos palhaços.
Até quando o filhinho de papai continuaria com aquela brincadeira estúpida de bancar o namoradinho de um deficiente?
Aquele moleque cego não era, e jamais seria, homem para ele. Não tinha cacife para tal, tampouco postura. Era apenas um suburbano inválido que sempre precisaria se escorar em alguém para sobreviver. Um coitado que todos ali abraçaram de imediato para satisfazer a própria vaidade.
Idiotas.
Abriu outra lata de cerveja sorvendo um gole generoso.
Fuzilava o pianista com o olhar.
A quem todos queriam enganar? Se perguntava.
Nenhum deles, incluso Mu, sequer teve contato com gente deficiente em suas vidas, mas agora eram o próprio exército da salvação.
Patético.
Nada lhe tirava da cabeça que tudo aquilo não passava de mera demagogia.
Logo aquela ânsia por engrandecer a si próprios seria saciada, Mu enjoaria daquele garoto que nada tinha a lhe oferecer senão problemas, então as luzes do picadeiro se apagariam após o espetáculo.
Seria sofrido para o moleque; enganado e iludido por aquelas pessoas. Mas assim é o mundo. Ele que ficasse em seu lugar.
Ou... talvez até pudesse fazer um bem, de fato, para ele.
Se aquele namoro perdurasse por mais um mês, o que achava improvável, pois que conhecia bem Mu e sabia o quanto aquele garoto ridículo em nada tinha a ver com ele, teria que agir.
Então seria a hora de fazer uma visita à sede das empreiteiras Bharani. A Hakurei.
Mas, por enquanto iria apenas tornar mais realista aquela fantasia idiota.
