Quando Shion Brahani decidiu juntar-se às pessoas sentadas no carpete no centro da sala em torno do pianista e do estudante de cinema, o abismo que havia entre ter consciência de que o irmão era gay e a realidade nua e crua diante de seus olhos ficou um pouco menos escuro e profundo. As paredes do preconceito eram íngremes e escorregadias, era uma escalada custosa, mas que ele empenhava-se mais e mais a cada nova manobra.

— E isso aqui... — disse o executivo, que usando ambas as mãos entortava alguns fios de arame entrelaçados para, por fim, enfiá-los em uma bolota de massa de modelar. — É um modelo atômico. Imagine que a massa no centro, que é o núcleo, fica em suspensão, solta no ar, e as bolotas menores são os nêutrons, prótons e elétrons. O arame é só uma representação para ilustrar como elas se mexem em torno do núcleo, circulando ele.

Terminado, e um pouco atrapalhado devido ao álcool e ao embaraço, pegou na mão de Shaka e lhe entregou a propensa escultura.

— O átomo é a unidade fundamental da matéria. Tudo nesse mundo é feito de átomos, e é assim que eles são. — continuava Shion enquanto tinha os olhos fitos nos dedos do pianista a tatearem a escultura.

— Imagina o quão chocados ficariam os filósofos atomistas da antiguidade ao saberem que, ao contrário do que pensavam, o átomo não é indivisível. — disse Shaka, fascinado com aquela escolha tão peculiar de Shion. O irmão de Mu deveria ser uma pessoa interessante. Ansiava por ter a chance de um dia conhece-lo melhor, quem sabe até cativar sua amizade.

A resposta do pianista também causou certa impressão ao executivo, que perdeu-se por um momento olhando para ele e para o modo como refletia enquanto tateava a escultura em suas mãos.

— É. Com toda a certeza eles ficariam bem chocados. — disse Shion admirado. Repreendia a si mesmo em pensamento por ter pensado que por ser cego Shaka era também um tipo de sujeito ignorante. Quão errado estava. Baixou a cabeça e riu, reconhecendo a si mesmo como o único ignorante ali.

Mu percebeu o embaraço do irmão e um sorriso discreto nasceu em seu rosto. Sem dizer nada, e enquanto a farra entre os amigos prosseguia, esticou o braço e segurou no ombro de Shion com um aperto moderado. Este levantou o olhar e lhe sorriu de volta.

Não era preciso dizer nada. Não entre eles.

Ainda em silêncio obstinado o executivo pousou a mão sobre a dele e deu dois tapinhas fracos, depois se levantou e caminhou lento até a cozinha, onde juntou-se a outras pessoas que também estavam ali, mas que não eram tão intimas de Mu, pois que faziam parte da turma de Artes Plásticas, colegas de classe de Camus. Entre eles estava uma garota já conhecida de Shion, aluna de teatro e que sempre frequentava aquelas reuniões na casa do francês. Certa ocasião chegaram a sair juntos, e ele até foi assistir à uma peça a convite dela. A reaproximação se deu naturalmente. Ela lhe ofereceu uma cerveja e o convidou à varanda para fumarem um baseado. Ele não tinha porque declinar do convite.

Na sala muitos haviam se transformado em exímios contadores de histórias.

Milo era de longe o mais empolgado. Por minutos a fio discorreu acerca da mitologia que envolvia a Terra Média, desde sua criação pelos Ainur através da música, até a famigerada Guerra do Anel, e a ideia da criação do mundo se dar pela música deixou embevecido o pianista, que apenas tinha lidos as obras principais do autor em Braile, que posteriormente viraram uma trilogia cinematográfica.

Camus usava e abusava de seus dons artísticos para modelar esculturas e contar ao pianista sua história, como a da Necrópole de Gizé, com suas três pirâmides, cuja maior, Quéops, é a única maravilha do mundo antigo que permanece de pé até hoje, a qual reproduziu em massinha com uma riqueza de detalhes impressionante.

Já June empregara seu conhecimento da fauna de animais exóticos para modelar um tamanduá bandeira. Terminado seu trabalho árduo ela o colocou na mão de Shaka, que riu após um minuto o tateando.

— Ele tem dois rabos! Um na frente e outro atrás. — exclamou fazendo graça.

— Não. O mais fino é o focinho. — June respondeu aos risos.

— Comprido desse jeito? — o pianista espantou-se.

— É! E a língua dele é ainda maior! — completou Marin.

— Que sorte tem a tamanduá fêmea, não? — pilheriou Aiolia dando um gole em sua cerveja; logo depois ganhou um cutucão da namorada e os amigos caíam na gargalhada.

Enquanto todos riam divertidos, outro dos convidados juntara-se a eles para gozar daquele momento tão fraternal pegando um tanto de massa de modelar de cima da mesinha de centro e já prontamente esboçando uma escultura. Ao mesmo tempo em que uns riam distraídos, incluso o próprio pianista, outros tinham seus olhos bem fixos a ele, especialmente Mu, cujo desconforto era visível, mas foi Afrodite quem se aproximou dele e o questionou sem rodeios.

— O que está fazendo, Kanon? — perguntou em tom de voz bem baixo.

Com os olhos focados nas próprias mãos, que obstinadas modelavam a massa, o advogado respondeu em alto e bom tom:

— Como assim, o que estou fazendo? Não está vendo? Também quero fazer algo para o nosso ilustre convidado sentir com as mãozinhas dele.

No momento em que ouviu a voz de Kanon o rosto de Shaka endureceu, e aos poucos os risos, que eram constantes, iam cessando. Depois de alguns suspiros e cochichos um silêncio de morte se instalou sobre eles, e tudo que se ouvia era a música que tocava em volume mediano.

— Você é tão idiota. — disse Geisty de modo ríspido ao se levantar do chão e passar por ele para seguir até a cozinha. Não ficaria ali para prestigiar o show de zombaria do advogado.

Kanon nada disse em resposta a ela, apenas riu debochado e ocupou seu lugar sentando-se no chão à frente do pianista.

— Bichinhos são interessantes sim, pirâmides também, mas... — sem nenhum decoro esticou o braço e tomou a mão de Shaka de modo nada gentil. — Quero ver como você pega nisso. Vamos ver se adivinha o que é.

Porém, no momento em que Kanon ia depositar sua famigerada escultura nas mãos do pianista Camus o impediu o tomando pelo pulso.

Shaka sentiu a tensão entre eles atingir-lhe em cheio, como uma pancada certeira na face. O advogado ainda segurava sua mão. Sentia a dele fria como mármore. Seus olhos abertos de pupilas inertes expressavam a mais genuína apreensão.

— Qual é, Camus? — disse o advogado rindo irônico.

— Você non precisa fazer isso. — Camus falou em baixo tom.

— Deixa de ser infantil, Kanon. — disse Marin.

— É, está sendo ridículo! — completou June.

— Cara, qual é a sua? — perguntou um indignado Milo.

— Qual é a dele? É falta disso ai que ele modelou e vergonha na cara. — sentenciou Afrodite, que num rompante de raiva debruçou-se sobre a mesa para retirar à força a escultura da mão do advogado, mas eis que foi impedido justamente por Mu, que até o momento observava a tudo parado, respirando fundo e controlando a vontade de quebrar o nariz de Kanon.

— Deixa, Afrodite. Deixe-o entrega-la ao Shaka. — pediu o estudante de cinema com voz grave e baixa. Seus olhos vivazes encaravam sem a menor temeridade os de Kanon. — É apenas uma escultura como qualquer outra, Camus. Solte o braço dele.

O rosto do advogado se contorceu em uma careta. Havia um brilho diferente em seu olhar, era raiva, e a expressão de zombaria de antes se fez tensa.

— Shaka, Kanon modelou algo para você também, meu amor. É uma auto representação. — disse Mu em um tom mais brando ao se dirigir ao namorado, porém sem desviar os olhos do advogado. Sua fisionomia era séria como a de um juiz que condena o réu. — Você quer ver?

— Claro que sim! — respondeu o pianista sem titubear.

O estudante de cinema levantou o queixo e então sorriu para Kanon, orgulhoso do namorado. Ele sabia que Shaka também não se deixaria abater por mais aquela provocação.

Ao redor todos acompanhavam a cena tensos e indignados. Era evidente a postura agressiva e debochada do advogado, que havia moldado um falo em proporções bizarras e com detalhes caprichados, o qual agora entregava nas mãos do pianista.

Era da opinião de todos ali que aquela era uma brincadeira de muito mau gosto, e mesmo bem resolvidos que eram com seus pudores, a maioria, desconfortável, desviou o olhar quando Shaka passou a apalpar a escultura, desde a base onde duas bolotas imensas representavam os escrotos, passando pelo corpo, desproporcionalmente pequeno, até a ponta com uma glande exagerada.

A mudes das vozes ao seu redor e a vergonha puseram o pianista tenso. Sentia suas mãos tremerem levemente e o rosto queimar, mas dessa vez não se deixou levar pela emoção, nem quando ouviu a risada de Kanon.

Essa apenas fomentou sua ânsia por enfrenta-lo.

Surpreendendo o advogado, Shaka inclinou-se para o lado em que estava Mu e disse sem baixar o tom de voz:

— Acho que entendi porque disse ser uma auto representação. — riu junto do cineasta, depois voltou à postura anterior e alinhou-se ao ângulo em que imaginava estar Kanon, logo à sua frente. — Não sei porque disse que eu teria que adivinhar o que era, já que eu tenho um pênis e pego nele todo dia, logo, reconheceria no ato... O meu só não é pequeno e deformado como o seu.

Alguns bem que tentaram, mas em poucos segundos já era praticamente impossível segurar o riso diante da resposta surpreendente e corajosa do pianista.

Uma resposta à altura daquela zombaria.

Mu era de longe o que tinha o riso mais genuíno e satisfeito. Estava feliz com a postura altiva do namorado, enquanto Kanon fuzilava a ambos com o olhar.

Percebendo que aquela troca de farpas entre o pianista e o advogado podia acabar mal, Camus tratou logo de agir para não dar a Kanon a chance de revidar, já que sabia que a astuta serpente, cujos olhos verdes jade emanavam um brilho furioso, estava prestes a dar o bote, e deu por encerrada a atividade recolhendo os materiais da mesa e os devolvendo à caixa.

Parfait! Acho que está na hora de outra rodada de tequila. Eu vou buscar a garrafa e os copos. — levantou-se já afastando a mesinha de centro enquanto os demais convidados se ajeitavam nos outros acentos espalhados pela sala. — Papai Smurf, você me ajuda?

Surpreso com o inesperado pedido Afrodite ficou sem reação por um momento, apenas olhando para o francês, até que um cutucão de Mu em sua canela o despertou e ele prontamente seguiu o dono da casa até a cozinha sem pestanejar.

No sofá Mu deixou escapar um sorriso, embora ainda estivesse bem desconfortável com toda aquela situação. Sua vontade era de pegar na mão de Shaka e sair dali imediatamente, mas não faria isso. Não depois da recepção tão carinhosa e atenciosa que os amigos deram ao pianista.

Aiolia e Milo felizmente haviam agido rápido também e juntos convenceram Kanon a sair dali. Ele provocou e Shaka reagiu, apenas isso. Tudo tinha partido dele mesmo. Agora fumavam um baseado todos juntos enquanto Mu os observava dali calado, com rosto grave e semblante atento, até que lentamente, e mais uma vez após o novo turbilhão, permitiu-se relaxar.

A seu lado Shaka estava tenso. Suas mãos frias e trêmulas buscavam conforto uma na outra.

Como era cruel não poder enxergar em situações de tensão, já que os olhos é que são os responsáveis diretos por quase 100% das impressões recebidas por meio da sensibilidade. Como os seus estavam mortos, era como se absorvesse na pele, poro a poro, e na alma, todo aquele estresse.

Mu olhou para ele e procurando confortá-lo o abraçou.

— Me perdoe pelo que aconteceu. Se quiser ir embora vamos agora mesmo. — disse baixinho próximo a seu ouvido.

— Não. Está tudo bem. Ele não me assusta nem um pouco. Só... — fez uma pausa enquanto tateava as roupas do cineasta pousando a mão sobre sua coxa. — Só é desagradável para Camus e os outros, digo... esse clima tenso.

— Concordo, mas todos estão vendo que é ele quem está causando isso. — Mu suspirou.

Shaka concordou com a cabeça.

— Por isso, se alguém tem que ir embora que seja ele. Nós vamos ficar. — disse finalmente dando um sorriso. — Pega outra cerveja para mim?

Mu sorriu de volta e lhe apertou a mão sobre sua coxa.

— Pego, mas não cerveja. Vou te preparar um drinque adocicado de morango, que tal?

— Perfeito!

Antes de se levantar o estudante de cinema beijou sutilmente os lábios do pianista. Ele tinha razão. Shaka já havia fugido de incontáveis desafios por conta de sua deficiência, e pensando em protege-lo, sugerindo irem embora, estava repetindo os erros de Asmita. Não faria isso.

Foram àquela festa para se divertirem juntos e era isso que fariam.

As horas foram passando, e felizmente Kanon se mantivera afastado o tempo todo do casal, porém, como uma ideia fixa indigesta a lhe martelar o pensamento, não sairia daquele apartamento antes de dizer algumas coisas aquele garotinho ridículo sobre Mu e a ilusão a qual ele certamente estava lhe vendendo.

Sobre os poucos móveis que Camus tinha em sua casa acumulavam-se garrafas e mais garrafas de cerveja, algumas pela metade ainda, mas a maioria mais seca que as areias do Atacama. Os cinzeiros abarrotados de bitucas de cigarro, e o que sobrava das pontas dos baseados, exalavam um cheio desagradável no ar, mas ninguém ali se importava com ele. Salvo o pianista, que vez ou outra precisava ir ao banheiro acalmar uma crise de espirros.

O mundo das pessoas "normais" tinha cheiros, sons e sensações fortes.

A música era exorbitantemente, e desnecessariamente, alta. A bebida amarga em demasia. Os cheiros se misturavam todos, e alguns deles ele sequer conhecia. Não era o caso da erva. Fumava-se muita maconha nas ruas do Bronx próximo de onde morava, mas era a primeira vez que o cheiro forte da droga era constante e incessante. Jurava que sentia lhe deixar com o coração mais acelerado que o normal. Ou talvez fosse apenas a adrenalina de estar, pela primeira vez, vivendo como uma pessoa normal. Ele pensou.

A cerveja e os drinques, estes sim ele tinha certeza serem os responsáveis por um leve amortecimento nas mãos e ponta do nariz. Achava graça e ria daquela sensação.

Na quinta vez que precisou ir ao banheiro pediu ajuda a Mu para lhe guiar. Só a bengala já não lhe trazia a mesma confiança de quando chegou ali naquela noite. O álcool o tinha ajudado a se soltar, a vencer um pouco a timidez algoz, a conversar descontraído com os novos amigos que fizera, mas ele cobrava seu preço. Muitas idas ao banheiro.

Da varanda, enquanto fumava um cigarro sozinho e afastado dos outros, Kanon observava a cena. Aquela maldita festa só tinha lhe causado aborrecimento, e a cada novo minuto mais sentia a raiva corroer seu espírito.

O banheiro ficava logo depois de um curto corredor. Ele viu quando o pianista e o cineasta entraram neste e pouco depois Mu voltara ali sozinho para espera-lo sair.

— O cretino virou um cão guia. — resmungou para si mesmo. — Ridículo imbecil.

Nesse momento, viu quando Pandora, a garota que o acompanhava na festa, chegou perto de Mu e visivelmente bêbada escorou-se em seus ombros. Trocaram algumas poucas palavras e logo em seguida o estudante de cinema a tomou pela cintura e a ajudou a caminhar até o corredor do lado oposto. Deduziu que a garota estivesse passando mal devido à bebedeira e Mu a conduziu para um dos quartos, ou mesmo para o banheiro que ficava na suíte de Camus, já que o pianista usava o banheiro social.

Kanon imediatamente apagou o cigarro no cinzeiro e caminhou apressado até lá.

Fora uma excelente ideia ter trazido Pandora à festa consigo. Ela havia lhe entregado de bandeja a oportunidade que tanto esperava de estar a sós com o pianista.

Enquanto cruzava a sala esgueirando-se pelos cantos feito um camundongo para não despertar a atenção, certificou-se de que todos estavam demasiadamente distraídos com algo para nota-lo ali. A maioria estava na varanda fumando erva. Aiolia trocava carícias com Marin na cozinha, enquanto sentados no chão Geisty, Afrodite e Camus pareciam debater algum assunto demasiadamente sério, pois que este gesticulava frenético para a jornalista que rebatia com semelhante ênfase no gestual.

Assim, foi fácil e rápido chegar ao pequeno corredor, e tão logo virou a direita e se aprumou em frente à porta do banheiro esta se abriu.

Shaka escorregou a bengala no chão, pronto para dar o primeiro passo, mas eis que ela chocou-se com os pés de Kanon e ele nem chegou a sair do lugar.

— Mu? — o pianista perguntou abrindo um sorriso, que imediatamente se desfez quando não teve uma resposta imediata. Foi então que percebeu o perfume diferente, e também o odor de nicotina. — Quem é?

De pé, há dois palmos apenas, o advogado tinha o rosto lívido de raiva.

Seus olhos brilhantes percorriam cada traço da face do outro enquanto o desprezo que sentia lhe subia pela garganta e feito fel amargo tomava a boca.

Inclinou-se ligeiramente para a frente apoiando ambas as mãos no batente da porta de modo a seu rosto quase tocar o do pianista.

— É a primeira vez que vem aqui, não é? — disse em tom baixo e ríspido. A proximidade fez Shaka se assustar e recuar um passo, porém o advogado agarrou-lhe o braço. — Imagino que Mu tenha lhe mostrado a casa dele... o quarto dele.

— O que você quer? Solta meu braço. — o pianista perguntou apreensivo, porém sem se deixar intimidar, embora estivesse tão nervoso que a boca lhe secara de tal maneira que sentia como se tivesse engolido um punhado de terra.

— Há muitas câmeras lá. Ele te falou? — continuo Kanon. — Sabe o que ele faz com elas? Sabe por que elas estão ali, no quarto dele? Imagino que isso ele não tenha te falado.

Shaka engoliu em seco franzindo a testa.

— Me solta, idiota. — chacoalhou o braço irritado. — E pode parar com o joguinho. Poupe seu tempo e o meu também.

— Ah, é claro que ele não te falou. Assim como não deve ter te falado uma porção de coisa, e você então acredita nesse conto de fadas moderno do cara rico e bonito que se apaixona por um suburbano... e ainda por cima deficiente. — sua voz ganhava um tom mais gutural à medida em que prosseguia. — Você é uma experiência do Mu.

— Me solta. — o pianista continuava pelejando para se soltar.

— Um ratinho de laboratório, um objeto de pesquisa para algum grande projeto futuro dele, e o novo brinquedo interessante... Pode achar o que quiser de mim, afinal você não me conhece e tudo que sabe sobre mim é apenas o que o Mu te falou, mas eu não sou quem está pensando. Eu sou o único aqui que tem coragem e honestidade para te mandar a real... Esse pessoal todo é um bando de hipócritas. Todos filhos de famílias ricas, cheios de privilégios, gente de posse. E gente assim adora demagogia. Eles só te tratam bem para sentirem-se bem, mas a verdade é que ninguém quer alguém como você por perto.

— Chega! Me solta agora ou eu vou...

— Vai o que? — deu uma risada baixa. — Vai acertar a minha cara? Não é capaz nem de vir a um banheiro sozinho, moleque. Ponha-se no seu lugar... Se for esperto mesmo, como quis mostrar aqui que é, você vai me dar ouvidos. O seu lugar não é aqui, e o Mu não é quem ele diz ser... Ele já te fez a proposta?

— Que proposta? — Shaka perguntou já arrependendo-se em seguida.

Kanon sorriu.

O peixe enfim tinha mordido a isca.

— Eu sabia! Aquele safado é mesmo um canalha! — fez uma pausa analisando a fisionomia do pianista, que era um misto de surpresa e demasiada aflição. — Mu tem câmeras no quarto porque ele gosta de fazer, hum, digamos, vídeos caseiros.

— O... que? E daí? Ele é cineasta. — Shaka perguntou confuso.

— Oh! Como ele é ingênuo! Chega a ser fofo. — ironizou o advogado com um riso debochado. — Mu gosta de filmar os parceiros fazendo sexo com ele. Eu mesmo. Fizemos vários vídeos enquanto estivemos juntos, ele adora filmar cenas de ação. — riu ainda mais. — Ele tem muitos desses vídeos no acervo particular dele, e não apenas comigo. Se Mu não te contou, é bem provável que vai filmar vocês trepando sem você saber, já que é cego.

Ouvir aquilo fez o coração de Shaka disparar e o ar congelar dentro dos pulmões.

Súbito sentiu um medo desleal e aterrorizante, mas ainda maior era a raiva que sentiu do advogado. Essa então atingiu um patamar incontrolável e transfigurou-se em uma força sobrenatural que de repente tomou seus músculos de assalto e lhe possibilitou que com um só tranco conseguisse fazê-lo soltar-lhe o braço e o empurrar para longe.

Na mesma hora Shaka saiu dali desconcertado, tateando o chão com a bengala e a parede lateral com a palma da mão trêmula, mas quando chegou ao final do corredor que dava para sala, num gesto covarde Kanon esticou o pé no momento em que ele mudava o passo, lhe dando uma rasteira.

O pior pesadelo do pianista enfim o tinha encontrado. E ele imaginou, depois de tudo, da recepção gentil e acolhedora, do carinho dos amigos de Mu, que pudesse mesmo esconder-se dele dessa vez.

Na queda Shaka bateu com a testa na beirada da mesinha de centro que Camus havia arrastado para o lado, e o barulho, somado à movimentação brusca, imediatamente chamou a atenção de todos.

No chão, sentindo-se zonzo e desorientado, o pianista ouviu um grito agudo de mulher. Reconheceu ser a voz de June. Uma dor localizada na fronte ganhava proporções maiores a cada instante. Logo vieram todas as outras vozes, mas uma se destacou em meio as demais. E essa lhe fez ver, por brevíssimos segundos, uma dança em espiral de luzes douradas a lhe passarem diante dos olhos abertos voltados para o chão.

— Seu filho da puta! Eu vou te matar, desgraçado!

Mu retornava do quarto de Camus onde havia deixado Pandora e tinha visto o exato momento em que Kanon colocou o pé na frente de Shaka para que ele tropeçasse.

A reação do estudante de cinema fora imediata.

Feito um bólido ele avançou, saltando por cima de alguns pufes, até Kanon e o acertou um soco em cheio na boca.

O advogado até tentou revidar, mas a raiva do cineasta, somada a seu histórico conhecido de agressividade exacerbada e explosões de violência, de certa forma o intimidaram, e ele priorizou defender-se, por isso quando Mu, em uma nova investida, lhe agarrou pela gola da camisa já lhe desferindo outro forte soco Kanon apenas tentou cobrir o rosto com ambas as mãos.

Igual ao advogado, todos ali tinham conhecimento dos rompantes de descontrole do estudante de cinema, por isso mesmo agiram rápido na tentativa de contê-lo, caso contrário, era certo que o advogado sairia daquele apartamento de ambulância naquela noite.

— Mu, por Deus, se controla! — pedia Afrodite, que pelejava para dar um mata leão no amigo, tencionando fazê-lo soltar Kanon. — Aldebaran, ajuda aqui!

— Me solta Afrodite! Eu vou matar esse cretino! — vociferava o cineasta se debatendo nos braços do sueco, enquanto o advogado pelejava para livrar a gola da camisa de suas mãos.

— Não vai matar ninguém! Ficou louco?

— Louco eu estava quando deixei esse desgraçado entrar na minha vida! Eu vou quebrar você inteiro, Kanon! Seu maldito covarde! Vai ter que engessar até a bunda quando eu te soltar!

Quando Afrodite quase o deixava escapar, Aldebaran felizmente chegou ali com Milo, e ambos, bem maiores que Mu, conseguiram enfim fazer com que ele soltasse Kanon. Imediatamente o arrastaram para longe.

Com o tranco o advogado foi ao chão, mas logo recebeu auxílio de Camus e Aiolia para se levantar.

— Você fez mesmo isso, cara? Non posso acreditar que tenha sido tão canalha. — disse Camus enquanto entregava um lenço a Kanon para que estancasse o sangue que lhe escorria por um dos cantos da boca.

— Claro que não! Está maluco? — Kanon rebateu fingindo surpresa e indignação. — Ele está completamente descompensado, não está vendo? O cara é cego, porra! Ele cai e a culpa é minha? Eu só estava ali.

— MENTIRA! — Mu gritou debatendo-se e chutando o ar. Sobravam muitos chutes e cotoveladas para Milo e Aldebaran, que tinham trabalho para contê-lo. — Eu vi quando ele chutou os pés do Shaka. Cretino mentiroso! Eu vou quebrar você inteiro, Kanon!

— Mu! Que isso cara, se controla. — pediu Aldebaran o arrastando para mais longe com dificuldade, até empurra-lo contra uma das paredes e contê-lo ali. — Eu não vou deixar você quebrar ninguém, e eu dou dois de você, então baixa a bola ai.

— Cala a boca e me solta agora, Aldebaran, ou vai sobrar para você também! — berrou.

Trêmulo e abalado, Camus fez um sinal para que Aldebaran e Milo arrastassem Mu até seu quarto e ficassem à portas trancadas lá junto dele.

Os dois grandalhões assim o fizeram, sob gritos de protesto do cineasta, chutes e safanões, enquanto na sala o anfitrião foi duro também com o advogado.

— Você já fez o que queria, e também estragou a noite e minha recepção. Vai embora da minha casa, Kanon. — disse firme o francês.

Kanon lançou para ele um olhar indignado.

— Como é? O ceguinho leva um tombo, o Mu surta, me agride, e sou eu quem você escorraça da sua casa, Camus? É isso mesmo?

— Me poupe, Kanon. Como se eu non o conhecesse suficiente.

— Idiota! Eu não fiz nada! — vociferou o advogado, propositalmente para que o pianista o ouvisse. — O moleque é um cego inútil. Mu saiu do lado dele um segundo e ele...

— CHEGA KANON! — Aiolia o interrompeu com um grito, pois que percebeu que o advogado fazia questão de usar um tom mais alto que o necessário. — Pelo amor de Deus, vai embora, ou eu mesmo quebro sua cara.

A raiva que Kanon experimentou naquele momento era tão grande, ou maior, que aquela que fez todos os poros do seu couro cabeludo arrepiarem-se quando Shaka o provocou no episódio da estátua em forma de falo. O amargor em sua boca agora ganhava sutis toques ferrosos, a dor das pancadas que levara de Mu latejava e como um mantra que ganha força ao se repetir incansavelmente lhe lembrava de que aquilo teria volta. Ah, se teria!

Sem dizer nada, apenas lançando um olhar medonho e de pura indignação, ao anfitrião e à Aiolia, Kanon deixou o apartamento pisando duro.

Deu uma batida forte na porta quando passou por ela.

No quarto de Camus, Aldebaran e Milo ainda tentavam conter Mu enquanto Pandora dormia o sono dos justos, alheia a tudo que acontecia ali.

— Ele não pode fazer isso! Eu aguentei provocação a noite toda daquele imbecil, Shaka também teve que... — ao dizer o nome do pianista o estudante de cinema fez uma pausa e respirou fundo. A raiva que sentia quando perdia o controle o cegava, o despia de todo e qualquer raciocínio, e nessas horas só o medo o fazia voltar à razão. — Me soltem, eu tenho que ajudar o Shaka. Ele deve ter se machucado. — disse irritado e preocupado com o namorado.

Aldebaran e Milo se entreolharam.

— É sério, cara. Se quer ajudar o seu namorado primeiro tem que se controlar. — disse Aldebaran.

— O Shaka precisa mais de você do que você precisa quebrar a cara do Kanon. Usa essa cabeça. Pare de perder ela por ai desse jeito. — disse Milo dando três toques na testa do cineasta com a ponta do dedo indicador.

Mu respondeu apenas com um aceno afirmativo.

Ainda que receosos os dois o soltaram. Na mesma hora Mu destrancou a porta e correu de volta para a sala. A preocupação com o pianista tinha de fato tomado o lugar da raiva, e mesmo que Kanon ainda estivesse ali era para Shaka que correria.

E assim ele o fez quando correu os olhos pelo local e encontrou o namorado sentado no sofá, com a cabeça pensa para trás e Afrodite a lhe segurar uma trouxinha de pano sobre a lateral da fronte, próximo ao supercílio.

Quando Shaka empurrou Kanon na saída do banheiro ele sabia que tinha assinado um tratado de guerra, mas o que se seguiu desde que o chão desaparecera debaixo de seus pés foi um verdadeiro pesadelo.

Ser cego implicava em muitas coisas, porém ser diferente da maioria quando tudo que se deseja é igualdade, e tido como inferior, deficiente, ou inválido, sem dúvida era a mais cruel delas. Ainda mais cruel que não poder enxergar, pois que, por sorte, o ser humano é uma espécie incrivelmente adaptável. Sua capacidade de se moldar a diversas circunstancias eleva-se à de qualquer outra espécie. Porém, essa benevolente dádiva tem nenhum valor frente à necessidade de aceitação e vida em grupo, outra característica intrínseca à espécie humana.

Um leopardo vive sozinho, também os ursos, algumas espécies de lobos... não o homem.

Quando caiu e bateu com a cabeça no móvel o pianista desejou que o chão o engolisse e ele desaparecesse para sempre dali.

Seu maior medo era justamente provar a todos que era diferente, que não se encaixava entre os iguais... que era incapaz e que necessitava de ajuda constante.

Estava no chão ainda, tateando desgovernado a área em volta de si enquanto ouvia os gritos de Mu. A voz do cineasta tinha um eco dissonante. Distorcidos também estavam seus pensamentos. As palavras que Kanon lhe dissera momentos antes eram como pedras a se chocarem constante e incessante contra si. Feriam. Colocavam em dúvida os olhos de seu coração, que jamais se enganavam.

Logo, mãos apressadas, porém cuidadosas, o levantaram do chão. Ele não procurou ao menos tentar reconhecer de quem eram, e como um legítimo autômato obedeceu em silêncio aos comandos que lhe eram dados.

Estava habituado a ser obediente e dócil. Como estava habituado a não discordar jamais das ordens que as pessoas de visão perfeita lhe impunham.

Ele apenas tinha que ser grato. Pela ajuda. Pela benevolência.

Não demorou muito sentiu quando uma das garotas lhe afastou os cabelos do rosto e perguntou se estava bem. Ela parecia aflita. Ele respondeu com um aceno afirmativo somente.

Ouviu quando Kanon, aos gritos, referiu-se a si como "cego inútil". Engoliu em seco.

Não tinha raiva.

Estava em pânico!

Mas o medo do pianista não se dava à presença do advogado ali. Tampouco uma possível ameaça mais direta. Seu terror era a humilhação. A terrível, e para ele, vergonhosa comprovação de que era diferente.

Subitamente a voz de Mu se distanciou e seus gritos ficaram abafados. O tinham levado para algum lugar, e na mesma hora sentiu alguém lhe colocar algo gelado sobre a testa.

A seu próprio modo sentia olhares atentos sobre si. Esses eram como se o desnudassem. Encolheu os ombros e afundou o corpo no sofá. As pessoas em torno de si tinham os hálitos azedos pelo álcool, nicotina e erva. Nem conseguia mais ouvir a música.

Tudo que ouvia era a voz de Kanon. Essa se repetia em sua mente feito um louvor agourento.

De repente ouviu uma porta bater forte e com o susto teve um sobressalto. Imediatamente mãos delicadas seguram seus ombros e vozes mansas o acalmaram.

Deus, que humilhação! Ele pensava.

Mais alguns minutos de angustia e confusão e então eis que sentiu o familiar e tão reconfortante perfume de lavanda do estudante de cinema chegar ali e com seus ternos braços envolver-lhe os sentidos.

— Shaka! — disse Mu com voz mansa e angustiada. Tinha se ajoelhado na frente do pianista e lhe tomado as mãos na suas com delicadeza, enquanto analisava seu rosto de fisionomia alarmada.

— Mu! — foi a primeira palavra que conseguiu dizer depois de todo o ocorrido. Suas mãos, frias e trêmulas, agarraram-se forte às do cineasta como as do alpinista à corda, e no mesmo instante desencostou as costas do sofá e se inclinou para frente, emergindo do poço fundo no qual se afogava. Seus olhos arregalados e assustados vagueavam parecendo buscar pela imagem do estudante à sua frente, mas foram as mãos que o encontraram quando tocaram seu rosto. — Você está bem? Você brigou com ele? Ouvi um barulho e... Por Deus, você está todo suado e gelado.

— Calma, eu estou bem. — disse Mu pousando a própria mão sobre a dele em seu rosto e lhe beijando a palma com carinho. — É você que importa, meu amor.

— Ele está bem, né Shaka? Fez só um galinho, olha! — disse Afrodite, que era quem segurava a trouxinha com gelo sobre a testa do pianista.

Mu verificou atento o ferimento. Havia um hematoma relativamente grande, porém por sorte a pele não se abriu, embora fosse o suficiente para fazer seu coração pesar.

— Em dois ou três dias isso vai desaparecer completamente. — falou Geisty, que estava sentada no sofá ao lado de Shaka.

— E eu espero que desapareça também a má impressão que Kanon lhe causou essa noite, Shaka. — o pianista reconheceu a voz de Camus de imediato. — Eu sinto muito por isso. Essa é minha casa, e quero que volte aqui sempre que tiver vontade. Eu o receberei com todo o prazer.

O pianista recolheu as mãos e se ajeitou novamente no sofá.

— Obrigado, Camus. E não se preocupe. Como é dito, merda acontece. — sorriu tentando amenizar o clima tenso. — Eu vou voltar sim.

Ainda nervoso e preocupado, Mu olhou rapidamente para os amigos que os cercavam.

— Gente, será que podiam nos deixar um momento a sós, por favor? — pediu gentilmente, e quase que de imediato todos afastaram seus olhares solidários dos dois para seguirem, como podiam, com a festa.

Contudo, quando Afrodite entregou a trouxinha de pano com gelo para o estudante de cinema, este aproximou-se dele até quase ficar com a boca encostada em seu ouvido.

— Onde diabos está o meu irmão? Não o vi aqui durante o barraco. — perguntou.

— A última vez que o vi estava na varanda atracado com a língua da Tétis. — respondeu em baixo tom, depois correu os olhos rapidamente pelo local. — E pelo visto foi se atracar com o resto Deus sabe onde! O teu irmão, olha vou te contar, heim. Todas as vezes que vem aqui ele se dá bem. Será que ele me passa a receita milagrosa? — brincou.

— Menos mal. — Mu suspirou. — Melhor que ele não saiba o que aconteceu aqui. E melhor ainda que não sabia do meu rolo com o filho da puta do Kanon. Pede para a galera passar um pano nisso para mim, por favor?

— Por que eu pedir? Você vai embora?

Mu trocou um olhar cumplice com o amigo, o qual depois desviou para o namorado.

— Eu não devia nem ter vindo, Afrodite. Sabendo que o Kanon iria estar aqui... Faz isso para mim?

— Está certo. — disse o sueco, depois segurou no braço do amigo e sorriu gentil. — Mu... o seu pianista é um garoto incrível! Tenho certeza de que todos aqui também pensam como eu. Não deixe o Kanon fazer com que Shaka pense nada diferente disso, certo?

— Eu não vou deixar. — Mu lhe sorriu de volta, grato pelas palavras. — Obrigado.

Afrodite enfim se afastou e foi se juntar aos amigos, que vez ou outra olhavam para o casal com olhares desolados.

Mu então ergueu-se do chão e sentou-se no sofá voltando a colocar a trouxinha com gelo sobre o hematoma na testa de Shaka.

— Está doendo, amor? Seria bom a gente ir ao hospital para você tirar um raio x e depois...

Shaka o interrompeu levantando a mão até esta encontrar seu braço. Segurou em seu pulso com a sutileza de uma criatura etérea.

— Mu... eu estou bem. Essa não foi a minha primeira, nem será a última, queda. Pode achar estranho, mas eu estou acostumado com elas. — disse com voz mansa enquanto lhe puxava o braço para baixo.

Mu suspirou pesaroso. Seu coração se partiu com aquelas palavras, com o conformismo impresso nelas. Sentiu-se terrivelmente culpado por tudo.

— Me desculpe. Eu não deveria ter saído de perto de você. A Pandora... a garota que veio com o Kanon, assim que entrou no banheiro ela apareceu aqui muito mal, completamente bêbada. A levei até o banheiro da suíte do Camus, ela vomitou e eu a coloquei na cama...

— Não precisa se explicar, Mu. Você não fez nada de errado.

— Eu não, mas o desgraçado do Kanon sim. — a voz do cineasta novamente se alterava. — Eu vi quando aquele mau caráter colocou o pé na sua frente. Eu devia ter quebrado todos os dentes da boca dele.

— Que isso! Não fale uma coisa dessa. Nem parece o mesmo Mu que conheci, que eu conheço. — disse o pianista consternado, porém não soltava da mão do cineasta, a qual acariciava com sutis toques.

— Poucas pessoas me tiram do sério tanto quanto Kanon. — respirou fundo e ruidosamente, e se dando conta de que maldizer o advogado e insistir naquela raiva não ajudaria em nada, esfregou os olhos com a mão que tinha livre e depois acariciou o rosto de Shaka. — Não vamos deixar que o desgraçado arruíne nossa noite, está bem?

O pianista esticou os lábios num sorriso claudicante e fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Podemos ir embora? — pediu ao fim.

Mu correu os olhos pelo rosto dele. Sua fisionomia parecia desconfiada, arredia, bem diferente de quando chegaram ali, mas o grande hematoma em sua testa era motivo suficiente para justifica-la.

— Sim. Vamos embora. Vamos para casa. — respondeu o estudante de cinema.

Trocaram um breve beijo, levantaram-se do sofá e seguiram até os amigos que se reuniam agora na cozinha beliscando os petiscos espalhados sobre a mesa. Mu guiava cuidadosamente Shaka, que trazia a bengala dobrada na mão.

As despedidas tiveram o mesmo calor e verdade que os cumprimentos, porém o que no começo era regado a ansiedade e alegria, agora ganhara um tom melancólico.

— Me desculpe pela confusão, Camus. — disse Mu sem jeito enquanto apertava amigavelmente o ombro do francês. — Eu chutei a porta do seu quarto e... bem... ela acabou rachando ao meio. Mas eu faço questão de pagar pela troca. Pode me mandar a conta.

Non esquenta com isso. Mas principalmente... non esquente essa cabeça, mon cher. Ninguém aqui quer ver você na cadeia. Já se livrou uma vez de ser preso, mas com Kanon as coisas são diferentes. Se ele invocar, non aceitará acordos externos. Nunca é inteligente agredir um advogado.

— Menos inteligente ainda é agredir um cego! É facinho ferrar ele por isso, já que Shaka não pode se defender. — disse Milo, que na mesma hora percebeu ter falado demais, já que todos os olhares ali se voltaram para ele, enquanto o pianista, visivelmente incomodado, baixou a cabeça embaraçado. — Me desculpe, Shaka, eu não quis dizer que você...

— Está tudo bem, Milo. Não falou nada de errado. Não precisa se desculpar. — disse o pianista com um sorriso tímido. — Foi um prazer conhecer vocês. Todos vocês. Obrigado pela noite agradável e... pelas memórias resgatadas.

— Ah, meu querido. O prazer foi muito mais meu, e de todo mundo aqui, pode ter certeza. — disse Afrodite, que sem nenhuma cerimônia foi até ele e o abraçou forte. — Você e Mu são o casal mais lindo que já vi.

— São mesmo! — disse Geisty sorrindo para o cineasta.

— Já está convidado para a próxima reunião! — disse Camus festivo e animado. — Non aceito declinações, heim!

— Sim! A partir de hoje você já é um membro honorário do Círculo da Mandrágora Dourada. Sua presença nas nossa reuniões é imprescindível! — disse Milo.

— Oh, Dieu! Desse jeito é que ele não vai querer vir mesmo, Milo. Se tiver que aguenta-lo ouvir falar dessa merde de Irmandade a cada reunião. Que saco! — fez um gesto negativo e enfático. — Eu non ia querer.

Finalmente um riso de genuína descontração e alegria saltou dos lábios do pianista. Aquelas pessoas em pouquíssimo tempo cativaram seu coração. Fora uma experiência inesquecível, e da qual estava ansioso para dividir com o irmão... isso depois de lhe explicar o galo na cabeça.

Isso sim era um problema. Asmita ficaria uma fera. Mas não pensaria nele agora. Tinha coisas mais urgentes a pensar. Como o pós festa e a noite que passaria com Mu, que agora estava tão próximo de acontecer que sentia seu coração bater forte e o estômago gelar.

Pensava incessantemente nesse momento desde que saíram do Bronx, e agora que ele estava em suas mãos sentia-se impelido a deixar que lhe escorresse pelos dedos.

A história das câmeras e dos filmes caseiros que o advogado mencionou não lhe saía da cabeça.

Após despedirem-se de todos seguiram para o apartamento de Mu, calados na maioria do percurso.

Mu desconhecia o dilema que crescia e se entranhava feito erva daninha no espírito do pianista, mas sentia que havia algo de errado. Estava ficando deveras preocupado. Não sabia ao certo como agir ou como iniciar um diálogo com ele, mas quando estivessem a sós em casa certamente encontraria um meio.

No entanto, quando abriu a porta e acendeu a luz todo o planejamento que fazia lhe fugiu da mente em um segundo, esvaindo-se feito fumaça que se desmancha no ar.

— Puta que pariu! — exclamou em tom surpreso.

No sofá de couro branco, deitados preguiçosamente, Shion e a garota do teatro estavam nus e abraçados. Tinham acabado de fazer sexo, e desfrutavam da deleitosa letargia enquanto dividiam um baseado.

— Porra, Mu! — Shion deu um grito, assustado com o flagrante.

Do mesmo jeito que abriu a porta, lento e cuidadosamente, Mu recuou dois passos trazendo Shaka junto consigo a fechou de volta.