NOTAS ESPECIAIS DAS AUTORAS:
Desculpe o atraso pessoal.
Primeiro de tudo quero dizer que a intensão era postar um cap maior, mas simplesmente não deu. Tivemos que dividir.
Além disso, tanto eu (Hamal) quanto a Rosenrot estamos com muuuuuuuuuuuitos contratempos pessoais. esse cap por exemplo esta saindo nos 45 do 2° tempo.
Vamos tentar ao MÁXIMO não nos atrasarmos e manter periodicidade.. mas também peço a compreensão de vcs caso ocorra atrasos. (principalmente meus leitores de " Silente devoção"... gente realmente não to tendo tempo ou cabeça para conseguir escrever, todo meu esforço está em manter o Templo e O pianista em dia.)
Dito isso, vamos ao cap XD.
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No corredor, do lado de fora, Mu levou a mão ao rosto e raspou as unhas no queixo num gesto nervoso.
— O que houve? — sem entender Shaka perguntou curioso. — Era a voz do seu irmão!
— É... pois é... Encontramos ele. — Mu deu um riso cheio de embaraço. — Está do outro lado desta porta, no meu sofá... e pelado junto com a Tétis.
O pianista quedou-se imóvel. Os olhos azuis, abertos, piscaram algumas vezes no rosto pasmado.
— Eles estavam...
— Não... graças a Deus parece que já tinham terminado o serviço.
Houve um instante de silêncio, e então Shaka deixou escapar um riso desenvolto.
Mu olhou para ele e riu junto, até que escutaram a voz de Shion gritada do outro lado da porta lhes avisando que já estavam saindo. Logo esta foi aberta e a figura do irmão saltou aos olhos do cineasta. Estava ainda bem descomposto e visivelmente bêbado. Os cabelos volumosos bagunçados, a roupa amassada, o rosto afogueado... A moça do teatro não estava em melhor estado. Mas nenhum dos dois se importava. Os sorrisos em seus rostos, e a maneira como tinham os braços entrelaçados, deixava claro que para eles a noite estava só começando.
Quiçá fosse assim também consigo e o pianista. Pensou o cineasta, mas algo lhe dizia que aquela tão esperada noite não sairia como havia planejado.
— Mu... foi mal, cara. Achei que ainda iam ficar um tempo na festa e... — Shion deu de ombros sem conseguir conter o riso.
— E vocês então acharam uma boa ideia dar uma rapidinha no meu sofá. — Mu reclamou revirando os olhos.
— Hum, não foi tão rapidinha assim, né Shi? — disse Tétis, e segurando no queixo do executivo lhe roubou um beijo.
Shaka, que ouvia a tudo, mordeu os lábios para conter o riso.
— Vocês ao menos forraram o sofá? Aposto que não. — Mu resmungou enquanto tomava o pianista pela mão e o conduzia para dentro do apartamento.
— O seu sofá é de couro. Lavou tá novo. — Shion respondeu com um sorriso largo e franco. Mu olhava incrédulo para aquelas bochechas, as quais já eram naturalmente avermelhadas, mas que agora estavam bem mais coradas que o normal.
— Vamos voltar para a festa? Acho que eles querem ficar sozinhos. — disse Tétis dando um risinho cheio de malícia.
Shion nunca pensou que aquela frase um dia lhe soaria tão estranha, mas trocando um rápido olhar com Mu apenas conseguiu sentir-se feliz por ele. Que toda a estranheza ficasse lá no fundo do abismo.
Ainda com certo embaraço, sorriu para o irmão e pousou a mão sobre seu ombro um pouco antes de lhe dar as costas e deixar o apartamento acompanhado da garota do teatro.
Shaka ouviu quando a porta foi fechada com cuidado; logo depois Mu ausentou-se de si para trancá-la. Escutou o som da chave acionando a fechadura enquanto aguardava de pé e imóvel. Tinha a estranha sensação de estar sendo puxado para o lado, como se seu corpo fosse feito de ferro e um imã potente o quisesse colado a ele. Deveria estar ridículo tentando manter-se no lugar, esticado feito uma corda de violão, ele pensava. Não estava mesmo acostumado com o álcool, e bastaram duas cervejas e um drink fraquíssimo de morango para lhe prejudicar todo o equilíbrio.
O tempo que Mu havia levado para trancar a porta do apartamento e voltar a lhe tomar a mão devolvendo-lhe o precioso equilíbrio tinha se prolongado por uma eternidade.
Arrastado também era o silêncio incômodo do cineasta.
— Mu? — disse Shaka buscando alcançar uma trégua. Nervoso, entrelaçou os dedos nos dele imprimindo suave força. — Está tão calado.
O estudante de cinema tinha os olhos fixos no rosto do pianista.
Na verdade, desde que fechara a porta seu olhar não buscou outro interesse.
— Estava só analisando a bagunça que meu irmão e aquela garota fizeram aqui. — mentiu. Não havia bagunça alguma, apenas uma almofada ou outra espalhada pelo tapete, e caso houvesse ele não teria notado, posto que a face alva e atribulada de Shaka era seu único foco. — Além de estar tudo meio fora do lugar ainda deixaram minha sala impregnada com cheiro de cigarro e maconha... — nisso não mentiu. O ar estava deveras carregado. — Se importa de irmos para o meu quarto?
Shaka estranhou a pergunta, pois que desde que saíra de casa, no Bronx, naquele dia, levou consigo na mochila muitas dúvidas e apenas uma certeza, a de que queria estar no quarto do estudante de cinema.
Agora não tinha mais certeza de nada.
— Não. Claro que não. —- respondeu.
Sem dizer nada Mu seguiu para o quarto conduzindo o pianista por uma das mãos enquanto lhe permitia tatear as paredes com a outra para que já fosse se familiarizando com os espaços, e assim que entraram o levou até a cama.
— Aqui está a cama. — conduziu a mão de Shaka até o edredom perfumado e macio e então finalmente separou-se dele recuando um passo. — Sente-se um instante, por favor. Eu quero conversar com você.
As mãos de dedos magros e delicados do pianista mediram o espaço onde podia se sentar, e depois que ele se colocou na posição solicitada seguraram firme a borda da cama. Não fosse a macies e conforto do colchão podia jurar que estava sentado à beira de um precipício, pois a angústia que lhe apertava o peito naquele momento era tão intensa quanto a força que insistia em puxá-lo para o chão.
Súbito, sentiu quando Mu sentou-se a seu lado, então virou ligeiramente o rosto para aquela direção.
— Sobre o que quer conversar? — perguntou, estranhamente temendo a resposta. Os olhos abertos piscavam meio desgovernados. Estava apreensivo.
— Sobre tudo que eu tinha planejado para esta noite. — a voz do estudante de cinema tinha um tom baixo e desolado. Aborrecido correu os olhos pelo cômodo vendo ali as dúzias de velas aromáticas com essência de lavanda que havia espalhado sobre os moveis e que nem tinham sido acesas. — Mas eu sinto que estraguei tudo com a briga.
Shaka podia sentir sobre ele o olhar de Mu, como se fossem cipós o golpeando, leve, sem magoar a pele, mas extremamente incômodo.
— Você não estragou... Kanon estragou. — disse baixo. — Mas, não tudo. Embora no seu lugar eu provavelmente tivesse feito o mesmo, essa... essa agressividade, essa... violência, é uma parte sua que eu ainda não conhecia.
Mu olhou para ele, preocupado.
— Isso te assusta?
Shaka ponderou por um instante.
— Não. Apenas... não esperava. Não combina com você. — respondeu sincero, depois levou as mãos ao rosto para afastar os cabelos caídos sobre o galo na testa que latejava sem parar.
Mu abaixou a cabeça acanhado. Percebeu claramente que Shaka estava sendo bondoso, pois que seu descontrole na festa tinha assustado até a si mesmo. Embora não sentisse nenhum remorso por ter acertado a cara de Kanon. Por isso não.
— Eu sinto muito.
— Não precisa se desculpar, Mu, apenas... não me esconda nada. — falou voltando a segurar firme na borda da cama.
— Mas não é como se eu estivesse escondendo algo de você. — o estudante de cinema aproximou-se mais dele e fez uma carícia com o polegar em sua mão. — É só que... Shaka, eu não sou uma pessoa agressiva... quero dizer... eu detesto violência, mas simplesmente tem horas que não consigo me controlar. Falando assim, desse jeito, até parece que estive fingindo ser alguém que não era, mas não é verdade. É que venho tentando trabalhar isso desde criança, com aulas de judô, karatê, agora também com o Rugby, incluindo meditação, o piano... — inspirou fundo soltando o ar vagarosamente. — Eu só achei que não precisasse falar sobre algo que já tinha superado, porque hoje é difícil eu perder a cabeça por bobagem, só que o Kanon, ele... ele me tirou do sério!
De repente Mu soltou a mão de Shaka num gesto brusco para leva-la ao rosto e apertar os olhos fazendo uma careta.
— Eu estava na minha, estava deixando passar todas aquelas provocações. — continuou o cineasta. — Me controlei até diante daquele desaforo com a massa de modelar, mas na hora em que vi aquele merda colocando o pé na sua frente para você tropeçar foi como se tudo ao meu redor ficasse vermelho, e só o que eu conseguia pensar era no quanto eu queria socar a cara do desgraçado por ele ter te machucado e...
— Ei! — o pianista o interrompeu imediatamente buscando a mão do cineasta com a sua estendida ao ar. Não foi preciso encontra-la, em razão de esta ter vindo a seu encontro por própria vontade. — Já passou. Esqueça isso.
Mu sorriu sem graça, em seguida deu um longo suspiro e um beijo estalado na mão do pianista.
— Você está certo. Me desculpe de novo. — disse Mu, e então aproximou-se do namorado e lhe beijou ternamente o rosto enquanto acariciava os cabelos loiros que lhe caiam sobre os ombros. — O que importa agora é que estamos aqui. Só você e eu.
Shaka concordou com um aceno afirmativo de cabeça e um sorriso tímido, porém engoliu em seco. Não queria admitir, mas as palavras de Kanon ditas na festa ainda o incomodavam deveras. Simplesmente não conseguia esquece-las.
O silêncio que crescia entre ambos também deixava em desassossego o cineasta, que beijando ternamente a face do namorado procurava em si mesmo coragem para perguntar a ele o real motivo de sua apreensão. Apreensão essa que também era a sua.
Finalmente o pianista quebrou o silêncio.
— Tem mais alguma coisa que não tenha me dito sobre você... e que acha importante eu saber agora? — perguntou finalmente, sentindo um calafrio repentino lhe correr pela coluna.
Surpreso Mu interrompeu os beijos, e seus olhos então fitaram sérios a face do pianista. Aquela pergunta soara extremamente inusitada, embora, e de uma forma bizarra, ao mesmo tempo tenha acionado um alerta dentro de si.
— Como assim? — questionou confuso, no entanto uma suspeita preocupante começou a crescer dentro de si.
Shaka sentiu tensão na voz dele.
Ele não ia falar. Não hoje, talvez nunca.
Era mesmo necessário que falasse? Ele pensou enquanto tentava entender, com seu já atribulado raciocínio, até que ponto estava sendo invasivo, afinal era a privacidade do namorado que estava em questão, e o quanto estava se deixando levar pelo ciúmes.
De cabeça baixa, perdido em seus pensamentos, Shaka engoliu em seco. Um estranho e incômodo palpite deixava seu peito apertado, como se tivesse uma pedra pesada presa a ele.
Era esquisito ser capaz de sentir as coisas quando nem ao menos podia saber como elas são, mas ele sentia, e naquele momento era como se visse os homens que se deitaram naquela cama, como se visse as câmeras com suas lentes ávidas focadas neles.
De repente, experimentou algo que inicialmente julgou ser medo; seu estômago gelou como se tivesse a barriga encostada em uma parede de gelo, mas tratou logo de escapar daquela armadilha.
Não seria um joguete nas mãos de Kanon. Era exatamente isso que ele queria.
Se tinha algo a descobrir e tirar a limpo com Mu caberia a ele mesmo lhe dizer.
— Shaka, como assim? Por que está me perguntando isso? — Mu voltou a questiona-lo, preocupado com o demora do pianista, que tinha as mãos sobre o colo com as palmas voltadas para cima e os dedos inquietos a cutucar os cantinhos das unhas.
Shaka então respirou fundo e comprimiu os lábios prendendo o ar por breves segundos. Ponderava uma maneira sutil de tocar naquele assunto sem parecer que estivesse colocando Mu contra a parede, porque de fato não estava. Apenas precisava fazer com que ele entendesse o dilema pelo qual passava.
— Sabe, Mu... o que mais detesto é ter de constantemente lembrar a mim mesmo que, por não enxergar, a minha realidade é totalmente diferente da realidade das pessoas que enxergam, mas há coisas das quais não posso querer fugir. — disse voltando a levantar a cabeça e virar o rosto para o lado em que o namorado estava. Respirou fundo. — Se eu enxergasse, talvez também mandaria nudes ou até filmaria meus encontros sexuais, como Shijima mesmo já me disse que fez uma vez, como tanta gente deve fazer... e como você faz. Mas infelizmente eu nunca vou poder fazer isso, e não sei se quero fazer isso.
— O que? — a pergunta veio exaltada, misto de indignação e espanto. Com os olhos arregalados e a testa franzida, Mu encarou o namorado sem acreditar no que acabara de ouvir.
— Por isso eu perguntei se tinha algo importante para me dizer que eu devesse saber, já que considero isso bem importante. — Shaka fez uma pausa, aflito, então voltou a baixar a cabeça e fechou os olhos. — E você deve estar me olhando em choque nesse exato momento, porque nem sua respiração ouço mais, mas acredite, não estou começando uma DR ou algo do tipo... ou estou? Eu acho que não. Mas você pode achar que sim... Mas eu... eu só não quero ser filmado... Quer por favor dizer alguma coisa? — perguntou quase com um soluço.
A fala de Shaka soou tão absurda para Mu que nervoso, além de profundamente indignado, ele se levantou abruptamente da cama e se colocou de pé em frente a ele, o encarando com perplexidade.
— Quem foi que te falou isso? Foi o pulha do Kanon, não foi? — fez uma pausa fechando os punhos.
O pianista lhe respondeu com um fraco e tímido aceno de cabeça, afirmando que sim.
— Filho da puta! — Mu levou ambas as mãos ao rosto. Estavam geladas trêmulas. — Eu sabia! Sabia que você estava esquisito assim por causa dele. É claro que ele não iria perder a oportunidade de te falar alguma merda. Óbvio! Mas que cretino desgraçado!
Enquanto vociferava mais um tanto de ofensas contra Kanon, o cineasta andava de um lado para o outro arfando feito um animal inquieto e raivoso, sem poder acreditar no que estava acontecendo. Nunca imaginou que seu fetiche pessoal seria usado de forma tão baixa e vil pelo advogado. Maldizia a hora em que cedera aos encantos de Kanon e o permitira entrar em sua vida, ainda que por pouco tempo. Os vídeos caseiros existiam, eram reais, mas não havia motivo, ainda, para falar sobre eles com o pianista. Shaka era diferente, tudo com ele teria de ser diferente, e tinha consciência disso. Não que fosse esconder dele essa prática, que por sinal muito lhe aprazia, mas acharia o dia e a hora certa para dividi-la com ele. Ainda era cedo demais, invasivo demais...
E agora estava feito. Da pior forma, porque certamente Kanon fizera questão de expor o fato de forma a fomentar a insegurança do pianista e causar intriga entre eles.
De olhos abertos, que vez ou outra piscavam agitados enquanto involuntariamente se mexiam seguindo o som dos passos desgovernados que ouvia junto do farfalhar de roupas e da respiração ofegante do cineasta, Shaka sentia a boca seca e o coração pesado.
— Mu... se acalma. — pediu com falsa tranquilidade na voz. — Eu... eu não... não me importo que tenha vídeos de sexo com os caras que você pegava antes da gente se conhecer, eu só não quero filmar nada. — deu de ombros. Nem sabia ao certo porque havia dito aquilo.
— Por que você está repetindo isso, Shaka? Que você não quer filmar. — Mu perguntou desconfiado, finalmente parando na frente do pianista, o qual levantou ligeiramente a cabeça para responder.
— Porque eu não quero, oras... porque... porque não me sentiria bem, e... — engasgou-se com as palavras por não conseguir dizer o óbvio. Porque era cego e lhe soava extremamente estranho aquela ideia. Novamente retirou o cabelo que caia por cima do galo na testa. O nervosismo parecia fazê-lo latejar ainda mais.
— O que mais aquele pulha te falou sobre mim, Shaka?
Estava feito.
Não havia mais como tornar aquela situação amena.
— Disse que me filmaria sem eu saber... Porque sou uma experiência para um futuro projeto cinematográfico mirabolante. Que você não é quem se mostra para mim... e que, além de outros caras, você fez muitos vídeos íntimos seus com ele. — lhe doeu mais do que imaginava dizer aquilo. Não que tivesse ciúmes de Kanon, pois testemunhou por si próprio a repulsa que o namorado sentia por ele, mas a ideia lhe era incômoda. A ideia, sim, lhe causava ciúmes.
Mu quedou-se imóvel. De pé, os olhos esgazeados fitos no rosto de fisionomia aflita do pianista, a boca aberta, muda e trêmula, os punhos cerrados e os braços em paralelo junto ao corpo. Estava pasmo, petrificado diante daquela verdade difícil de acreditar.
As palavras de Shaka o atingiram forte e doloroso tal qual o soco que dera na cara de Kanon.
No entanto, diferente do advogado, a pancada não lhe fomentou a raiva, mas causou profunda tristeza.
Desolado o estudante de cinema comprimiu os lábios e fechou os olhos, se negando a acreditar que as coisas tinham tomado aquele rumo. Quando os abriu novamente olhou para a estante na parede onde estavam as câmeras, para os tripés próximo à porta da varanda, e depois de um momento voltou a olhar para o rosto do pianista, que sentado na beirada de sua cama tinha o semblante visivelmente atormentado.
Engoliu em seco.
Nada naquele cenário era como havia planejado. Nada.
Por culpa de Kanon a primeira noite com o namorado havia sido transformada em uma armadilha subversiva de um jovem estudante de cinema depravado a um garoto cego e indefeso.
Sem forças, e nenhum ânimo até mesmo para enfurecer-se, visto que a raiva aos poucos se tornava pesar, Mu levou as mãos à cabeça cruzando os dedos atrás da nuca. Após um instante deu um longo suspiro e caminhou de volta para a cama sentando-se novamente ao lado de Shaka, dessa vez a uma distância segura.
Sentindo-se esgotado, diante de todo aquele absurdo, jogou-se de costas sobre o colchão.
— Shaka, eu não vou te filmar fazendo sexo comigo, não precisa ficar preocupado. — confessou com os olhos fitos no teto vazio. Sua voz era triste e cansada. — A verdade é que isso sequer passou pela minha cabeça... A única surpresa que eu tinha planejado para nos dois era uma trilha sonora romântica e velas aromáticas... Eu não sou esse tipo de cara. — a desconfiança do namorado o machucava.
Como se tivesse vista, de olhos escancarados o pianista voltou a face para trás, para a direção em que imaginava estar o estudante de cinema, percebendo no ato a mágoa que havia lhe causado, embora em momento algum tivesse acreditado de fato que Mu seria capaz de filma-lo sem sua autorização. No entanto, toda sua história de vida o levava a questionar-se incansavelmente sobre tudo, e mesmo quando sentia estar certo temia estar sendo apenas ingênuo, inocente, como Asmita sempre lhe fez acreditar que era, como o pai o fazia, como sua própria deficiência lhe obrigava a ser... Afinal, quantas dúvidas eram sanadas sob o julgamento, quase sempre infalível, dos olhos?
Ainda deitado de costas no colchão Mu olhou para ele, tenso e em desassossego. Percebeu que ele parecia querer lhe dizer algo, seu lábios perfeitos de um coral cor de pêssego maduro tremelicavam levemente, mas deles nenhum som saía, e após vários silêncios Mu deu um suspiro profundo e se sentou, cabisbaixo e desanimado.
— Não era dessa forma que eu queria que soubesse. — disse em tom baixo, quase de uma confissão. — Eu não ia esconder isso de você, mas não era dessa forma, tampouco pelo Kanon, que deveria saber... Eu tenho sim, uma pequena coleção de vídeos caseiros de encontros meus com alguns caras, todos filmados em Super-8 e VHS. Não tem nada compartilhado em rede ou com ninguém. Estão todos comigo. Alguns desses vídeos eram com o Kanon sim, mas eu destruí os rolos quando rompi com ele. — fez uma pausa pensando no que diria. — Quanto às demais afirmações que ele fez a você... eu espero, do fundo do meu coração, que não tenha acreditado... Eu gosto de você, Shaka, meus sentimentos são verdadeiros, e não tenho outro interesse nessa relação que não seja apenas o que já dividi com você.
Naquele instante o pianista sufocou um soluço. A garganta já lhe doía, apertada, seca, dura.
Quem dera tivesse segurado o estudante de cinema naquele quarto quando chegaram ali e cabulado a festa. Teria evitado algumas cenas desagradáveis e um enorme galo na testa... Mas, se tivesse fugido da festa não teria experimentado a cordialidade genuína de Camus, nem teria rido às gargalhadas da irreverência de Milo, Aiolia e Aldebaran; não teria desfrutado das histórias divertidas contadas pelas meninas, June, Geisty, Marin, ou se aproximado um pouco mais de Shion; tampouco teria se encantado e se emocionado com a doçura e leveza de Afrodite...
Aos poucos o pianista descobria que viver exigia uma dose alta de coragem. Que pensando em evitar o sofrimento muitas vezes se fecha as portas para a felicidade; e que ao mesmo tempo que se ganhava também se perdia.
Mas ele não iria perder Mu. Não mesmo!
— Mu eu... — ensaiou dizer algo, mas de repente não soube como dar vida às palavras, não da maneira que desejava, não com a força e intensão que almejava, e voltando a se calar apertou com força os dedos contra a borda da cama.
— Não precisa dizer nada, Shaka. Eu entendo. — disse Mu se levantando do leito. Desnorteado olhou em volta enquanto passava a mão pelos cabelos e perdido em seus pensamentos procurava pela mochila do namorado, a qual havia deixado sobre o divã. Caminhou até lá para apanha-la. — Eu vou levar suas coisas para o quarto de hospedes. Acho que vai se sentir mais à vontade. Lá não tem nenhuma câmera, eu te garanto. Shion dorme no sofá quando chegar. Não se preocupe, ele está acostumado.
— O quarto de hospedes também cheira a campos de lavanda?
A pergunta pegou de surpresa o estudante de cinema, que ao virar-se, já com a mochila nas mãos, encontrou o pianista de pé. Olhou curioso para ele, para seu rosto alvo e belo, não mais encontrando nele a aflição e inquietude de momentos antes, apenas uma ansiedade afoita e aparente.
— Não. — Mu respondeu com um sorriso tímido, depois caminhou lento até ele parando a poucos palmos de distância. Então calado o observou por um momento.
Shaka tinha uma alma tão leve que era capaz de acalmar até o mais violento dos vulcões, afogar até a mais insistente e silente tristeza.
— Quando entrei aqui, no seu quarto, pela primeira vez, tudo o que consegui ver foi um enorme e infinito campo de lavanda... — disse, levantando ligeiramente o queixo e com os olhos azuis abertos, sem ver. Fez uma pausa breve e respirou fundo antes de dar um sorriso. — Conforme me conduzia aqui para dentro, lá, no campo, uma brisa fraca balançava os arbustos em fileiras infinitas, e eles dançavam... E esse balé em tons de roxo e lilás era regido pelo Noturno em Si bemol menor de Chopin, o primeiro dos três... e enquanto sua mão segurava a minha mão esquerda, com a direita eu repetia os padrões de sete, onze, vinte e vinte e duas notas, aqui na minha perna. — repetiu o gesto batendo os dedos no jeans surrado da calça, sobre a coxa.
Mu baixou o olhar para a mão do pianista, por um instante breve, depois voltou a fitar seu rosto.
— Depois um cheiro que ainda não conhecia invadiu o campo de lavanda. — o pianista continuou, agora estendendo para o cineasta a mão de palma virada para cima. — Você então me apresentou às fitas, às câmeras, à outra faceta que compõe o seu mundo, e eu a achei tão fascinante quanto a primeira... E como o dia, que não existe sem a noite, e necessitamos tanto de um quanto do outro para viver, porque ambos são parte de um todo maravilhoso, também você é feito de duas forças, Mu... que não se anulam e não se separam, mas fazem de você o homem único que é... E eu... eu desejo amar o todo, não apenas uma parte. — quando sentiu Mu lhe tomar a mão e entrelaçar os dedos nos seus, o pianista piscou os olhos e ficou sério. — Na minha visão, não há nada mais aqui além do campo de lavanda, você e eu.
Naquele momento Mu quedou-se emocionado. Era admirável a facilidade com que Shaka conseguia mexer com todos seus sentidos e causar em si um turbilhão de sentimentos arrebatadores. Lentamente deixou que a mochila do pianista, a qual trazia na outra mão, escorregasse de seus dedos até jazer no chão ao lado de seus pés, sobre a refinada tapeçaria, e com a mão livre tocou gentil o rosto de Shaka lhe fazendo uma carícia na bochecha.
O pianista fechou os olhos e deu um suspiro ao sentir o toque.
— Em algum momento eu tive medo... confesso. — disse ele, e seus lábios desenharam um sorriso. — Mas esse foi tão passageiro quanto o vento que balança as infinitas fileiras de lavanda aqui, em torno de nós... Me perdoe se eu o magoei com minha insegurança, Mu. Talvez eu não esteja tão preparado para o mundo das pessoas que enxergam tanto quanto acho que estou, mas por favor, acredite... tudo o que eu sinto agora, e desde o momento em que toquei seu rosto pela primeira vez, é apenas amor. Eu te amo, Mu. Eu te amo muito. E nada, nem ninguém, conseguirá arrancar esse amor de dentro de mim.
Diante daquelas palavras, ditas com demasiada doçura e verdade, o estudante de cinema entreabriu os lábios e suspendeu a respiração sem sequer dar-se conta. Seu coração bateu mais forte, e o olhar vidrado fixou-se nos olhos do pianista, que agora abertos cintilavam vivazes, mesmo que não pudessem ver nada. E já que não podia enxergar, Mu procurou outra forma de mostrar a Shaka o quanto aquela confissão o havia arrebatado.
Com certa pressa e euforia o cineasta tomou ambas as mãos do pianista e as levou até o próprio rosto para que ele pudesse sentir que sorria, que tremia de emoção.
— Não há mais mágoa que precise ser perdoada... — sorriu. — Eu também amo você, Shaka. — disse entre sorrisos atrapalhados, com uma boa dose de euforia. Toda tristeza havia sido varrida para longe, levada pelo vento que soprava os arbustos do campo de lavanda, que agora também existia em seu coração. — Eu amo tanto você... e quis tanto te dizer isso muito antes, mas tinha receio de assustá-lo. — ria de si mesmo. — Meu Deus, você não faz ideia do medo que senti... Achei que tivesse perdido a confiança em mim.
— Eu confiei em você no dia que cedi espaço na baqueta para que se sentasse ao meu lado e tocasse o piano comigo na estação. E assim vai ser enquanto estivermos juntos... Tudo o que eu mais quero é ficar aqui com você, Mu... amar você...
Mu continuou olhando diretamente para ele, extasiado. O coração palpitava enlouquecidamente, com o frenesi dos apaixonados, e deixava seu rosto quente e o corpo instigado, mas foi sem pressa alguma, delicado como o pousar de uma abelha sobre a flor, na cadência lenta e dedicada de um adágio, que aproximou os lábios entreabertos dos de Shaka para que ele sentisse a proximidade e assim pudesse receber sua boca com igual paixão e enlevo.
Shaka sentiu-se estremecer diante daquele toque. Cada centímetro de seu corpo parecia vibrar em resposta ao beijo, e a respiração ficava cada vez mais rápida conforme este se aprofundava, até que sentiu Mu lhe envolver pela cintura e o conduzir vagarosamente de volta à cama.
— Não faz ideia do quanto eu te desejo, Shaka. — o estudante de cinema sussurrou próximo ao ouvido do pianista quando o fez se deitar sobre o edredom macio de seda branca, e sem conseguir se conter mais deitou-se sobre ele lhe beijando o pescoço quente. — Chego a sentir um aperto no peito, algo parecido com... uma dor, mas uma dor muito boa.
Com o rosto em brasa e o coração tão acelerado que podia jurar poder ouvi-lo em alto e bom som, Shaka riu nervosamente, tanto das palavras atrapalhadas do cineasta quanto de seu próprio nervosismo, então afoito correu as mãos para debaixo de sua camisa e lhe apertou a cintura.
— Acho que só existe um jeito de aplacar essa dor do desejo... — sussurrou, e sentindo o hálito de Mu próximo aos seus lábios lhe tomou novamente a boca, agora com um beijo cheio de volúpia, e quando este os fazia quase perder o fôlego, agarrou a barra da camisa junto da jaqueta que o cineasta vestia e com um puxão tencionou tirar a ambas de uma vez. Ansiava por sentir a pele quente dele contra a sua, o coração batendo colado ao seu, no mesmo compasso. — Me ame, Mu... e me deixe amá-lo... eu sonho com isso todos os dias.
