O sol já havia se erguido no horizonte de arranha-céus há algumas horas. Quatro, exatamente. Afrodite as contou quase minuto a minuto, com os olhos azuis ardidos e pesados de sono pregados ao relógio na parede da sala.
Ainda vestido com as roupas da noite anterior, jeans surrado rasgado nos dois joelhos, camiseta branca e uma malha confortável, salvo pelas pantufas balofas em formato de ovelhas, as quais agora aqueciam seus pés no lugar dos tênis, tentava ao menos cochilar para agilizar o processo de cura dos excessos da festa, mas o desconforto do sofá, a claridade que transpassava as cortinas de tecido fino que encobriam a porta de vidro que levava à varanda, e principalmente o mau humor, eram rivais demasiadamente difíceis a enfrentar, e com os quais ele lutara, minuto a minuto, desde que tinha deixado seu quarto para ir para a sala, até que os ponteiros barulhentos do relógio, com seu dum dum dum cadenciado, tal qual os tambores da antiguidade anunciavam a chegada dos soldados ao campo de batalha os pondo em marcha, ditou sua derrota.
— Merda! — resmungou dando um salto do sofá. Não havia pregado os olhos um só segundo desde que Shion Bharani jogara-se em sua cama.
Afrodite chegou em seu apartamento por volta das 05:00h da manhã. Ainda um pouco inebriado pela bebida, sonolento e aborrecido, posto que mais uma vez seus planos envolvendo o anfitrião daquelas reuniões não haviam saído como planejara, caminhou cambaleante até o quarto, tirou os tênis e jogou-se de bruços na cama. Estava quase pegando no sono quando repentinamente sentiu um peso demasiado cair sobre a cama, a seu lado. Acordou com o susto e num sobressalto esticou o braço para o lado acendendo o abajur. Deu um grito quando a luz, acentuadamente quente, iluminou o perímetro e revelou a figura de Shion Bharani ali. Surpreso, correu rapidamente os olhos pelo homenzarrão espalhado nos seus lençóis, que deitado de bruços e completamente nu parecia desmaiado. O hálito que saia da boca dele tinha odor forte e ácido. Era como respirar perto de uma chaminé de usina de destilaria. Em um primeiro momento, tentou acordá-lo com chacoalhões o chamando pelo nome. O que teria acontecido? Teria ele se enganado de apartamento e entrado no seu? Isso que dava chegar em casa bêbado e esquecer-se de trancar a porta. Pensava. Olhou para ele por mais um instante. A cena inusitada imprimiu na fisionomia de seu rosto bonito um misto de espanto e confusão, mas ele não quis ficar ali para se decidir entre o alarme ou a curiosidade. Levantou-se de imediato, o cobriu com um pesado cobertor de lã, apagou o abajur e deixou o quarto às escuras.
Ainda se quem estivesse ali, desmaiado e pelado, fosse Camus... Também o cobriria com o cobertor e deixaria o quarto, essa era a verdade.
Enquanto via os primeiros raios da aurora suavizarem a penumbra da sala, Afrodite pensava em como Shion havia chegado até ali naquele estado. No dia seguinte descobriria que Camus e Milo o ajudaram a chegar até ali, em seu apartamento, depois da sétima rodada de tequila e muitas latinhas de cerveja. Os dois colocaram o executivo em seu sofá e seguiram cada um para sua casa. A escolha de seu apartamento e não o de Mu dera-se por motivos mais que óbvios. Todos sabiam que o estudante de cinema estava com o pianista, e um irmão bêbado na sala poderia gerar algum desconforto. Era de conhecimento geral também que Afrodite era o melhor amigo de Mu, logo, que ele ficasse com o fardo. No entanto, pouco depois de ser deixado ali, no sofá do sueco, desorientado Shion acordou pensando estar na casa do irmão. Levantou-se, retirou toda a roupa, por motivos que somente o álcool em seu sangue, fosse ele um indivíduo ou entidade mística, seria capaz de explicar a razão, e aos tropeços caminhou até o quarto, jogando-se na cama que acreditava ser a do irmão. Mas, por enquanto, tudo que o promissor estilista sabia era que tinha um homem nu em sua cama, e nenhum outro leito para si próprio, já que seus outros dois quartos eram inteiramente ocupados por seus materiais de costura e modelagem, cilindros e mais cilindros de tecidos, manequins diversos, e toda a sorte de entulhos tão imprescindíveis quanto utilizáveis.
As 09h30 da manhã, quando enfim perdeu a batalha e jogou a toalha, caminhou apressado e decidido até a estante embutida na parede e de dentro de uma caixinha de madeira trabalhada com folhas e arabescos retirou a chave do apartamento de Mu, que outrora ele mesmo havia lhe dado. Foi para lá sem pensar duas vezes. Quando chegou ainda tocou a campainha, afinal não estava fazendo uma invasão, nem queria atrapalhar o casal em sua tão esperada primeira vez juntos, mas além de perder uma manhã toda de sono, alguns pensamentos incômodos já começavam a ressoar em sua mente, lhe dando um sinal de alerta. Shion acabara de descobrir que o irmão é gay, ainda estava tentando se adaptar à essa realidade, obrigando-se a aceita-la, e de repente, acordar por si próprio na cama de outro homem, esse gay também, nu e de ressaca, dificilmente lembrando-se do que aconteceu na noite anterior, não seria nada bom para os poucos progressos que o executivo fizera. Tampouco seria para Mu e o pianista. Na verdade não seria bom nem para si mesmo.
Como havia presumido, Mu não atendeu a porta, por isso usou a chave e entrou. Silencioso como um camundongo, caminhou com suas pantufas balofas de ovelha até o quarto. Temia dar um flagrante no amigo com o namorado, por isso mesmo colou o ouvido na porta e só a abriu quando teve certeza de não ouvir ruído nenhum vindo de dentro. O ambiente estava mergulhado num breu profundo. As velas aromáticas já tinham sido todas consumidas, deixando apenas um suave e quase imperceptível perfume de lavanda no ar, e as cortinais blackout cor de chumbo barravam a luminosidade que entrava pela porta de vidro da varanda quase por completo.
Como sempre fazia quando entrava ali para acordar Mu, nos eventuais dias em que ele se atrasava para a faculdade ou algum outro compromisso que tivessem marcado juntos, Afrodite precisamente correu a mão pela parede até tocar no interruptor elétrico, porém antes de acioná-lo um pensamento lhe ocorreu, tão abrupto e ligeiro quanto um relâmpago a cortar o céu em noite de tormenta. Seria invasivo e deselegante acender a luz na cara do hóspede do estudante de cinema, e lhe presentear com uma cegueira abrupta quando abrisse os olhos? Na mesma hora o pensamento se desfez, o abandonando tão rápido quanto viera. Levaria tempo até acostumar-se com aquela realidade. Acionou, então, o interruptor, e quando a luz forte e fria banhou o ambiente revelando os corpos aninhados um no outro sobre o leito olhou para eles e sorriu dando um suave suspiro.
Era bom ver o amigo feliz. A felicidade dele era também a sua.
Por vezes preocupou-se deveras com Mu e a escolha que ele havia feito para o seu futuro. Se casaria com uma mulher, daria aos pais os netos que tanto lhe cobravam e viveria sua sexualidade proibida em segredo absoluto, arriscando-se, sabotando-se, fazendo infeliz a si e a família de fachada, até que chegasse o dia em que, não suportando mais, e não reconhecendo-se mais, perderia tudo, e a si mesmo. Shaka havia resgatado Mu de um futuro nefasto e dado a ele a força que lhe faltava para lutar pela vida, pela felicidade. Sabia que um futuro ao lado do pianista também não seria tarefa fácil para o amigo cineasta, tinha consciência de que ele enfrentaria tempos ruins, bem ruins, de que uma tempestade o aguardava dentro em poucos dias, quando resolvesse assumir-se para a família, mas sabia que com Shaka a seu lado, o apoio dos amigos, do irmão e da família do pianista, as nuvens carregadas da tormenta logo se dissipariam e o sol voltaria a brilhar e aquecer sua caminhada.
Pensando em tudo isso foi que Afrodite contornou o leito com um sorriso no rosto enquanto olhava para o pianista, que tinha uma das mãos espalmada no peito largo do estudante de cinema, a ressoar baixinho e doce como um passarinho. Lentamente acocorou-se do lado onde estava Mu, com cuidado, pois que não queria acordar Shaka, mas quando pensou em sussurrar próximo ao ouvido do cineasta, eis que o celular do pianista tocou, alto, repentino e forte como se espera que seja o som das trombetas dos anjos na derradeira hora em que anunciarem o apocalipse.
Com o susto Afrodite deu um grito, longo e ardido, e na mesma hora, e em sobressalto, o pianista despertou e sentou-se sobre o colchão, arrancado abruptamente do mundo colorido de sonhos no qual estava para voltar ao cárcere de chumbo.
— Quem está ai? — perguntou alarmado, enquanto ouvia o celular tocar insistentemente e cobria o corpo magro e alongado com o edredom.
Afrodite olhou fixamente para os olhos azuis hirtos e gélidos dele, os vendo assustados.
— Calma, Shaka. Sou eu, Afrodite! — disse o sueco assim que conseguiu engolir o grito e respirar normalmente.
— Afrodite? — o pianista perguntou surpreso.
— Sim, eu mesmo, querido.
— Está sozinho? — nem ele sabia o motivo de ter feito aquela pergunta. Talvez por estar em um lugar estranho, em uma casa estranha, em uma cama que não era a sua... e nu. Mesmo depois de quatorze anos sem enxergar ao menos um feixe de luz que fosse nunca sentiu-se tão vulnerável.
— Claro que estou sozinho, meu bem. Quer dizer, as duas bolsas horrorosas debaixo dos meus olhos vieram comigo. Estamos os três aqui! — suspirou se recuperando do susto. — Santa Donatella! Se eu não morri hoje não morro mais. Dois sustos por dia é a cota, heim!
— O que faz aqui? Que horas são? — perguntou em tom cordial ao mesmo tempo em que se inclinava para o lado para tatear afoito o criado mudo, onde antes de pegar no sono havia deixado o celular, justamente já prevendo uma ligação de casa, do irmão ou do pai.
— Eu vim acordar o Mu para ele ir buscar o javali do irmão dele na minha casa. — disse, e já que o estrago estava feito inclinou-se sobre a cama e espalmou ambas as mãos nos ombros do estudante de cinema, dando um chacoalhão. — Vamos, Mu, acorda! E não enrola não, que eu estou sem dormir, sem comer, sem transar e sem café! Ou seja, eu não tô bem não! Mu... MU!
Quando era criança, a mãe do estudante de cinema costumava dizer que o sono dele era mais pesado que um elevador com cinco elefantes dentro, e que a dificuldade que ela tinha para desperta-lo, especialmente nas manhãs frias e chuvosas de inverno, este teria para suspender tamanho peso até o alto do edifício fictício que residia em sua imaginação. Mu sempre ria quando a ouvia dizer isso, imaginando um condomínio inteiro habitado por elefantes, famílias inteiras deles. Quantas saudades das histórias da mãe ele sentia, de sua imaginação sonhadora e criativa.
Sentia saudades de quando a vida e suas escolhas não tinham o peso de um elevador cheio de elefantes.
Com um suspiro longo e profundo Mu remexeu-se entre os lençóis dando uma falsa esperança ao amigo sueco, pois que apenas virou-se de bruços metendo os braços por debaixo do travesseiro, aconchegando o rosto na fronha macia.
— Não. Não! Acorda, Mu, é sério! — insistiu Afrodite voltando a chacoalha-lo.
Ao lado deles, Shaka encontrou o celular e prontamente atendeu à chamada, ainda meio atrapalhando.
— Oi... Asmita... — disse, fazendo uma pausa para ouvir a reclamação do irmão acerca da demora em atender o aparelho — Não, o celular estava do meu lado sim, mas eu estava dormindo, né!
Ao lado, Mu voltou a se remexer quando sentiu ser puxado pelo braço. Afrodite tentava reboca-lo para fora da cama.
— Hmmm... ah não... só mais cinco minutinhos... — murmurou manhoso.
O sueco perdeu a paciência, que já era pouca. Colocou-se de pé e aumentou o tom de voz.
— Mu, pelo amor de Deus! O seu irmão está pelado na minha cama! — berrou, em alto e bom tom, e tanto o volume de sua voz, quanto a revelação das palavras ditas, assustou o pianista, que deixou o celular cair da mão.
— O... que? — disse o estudante de cinema em um chiado confuso e desnorteado.
— Faça-me o favor de levantar daí e ir buscar aquela amoeba de cachaça do seu irmão na minha casa! Mas que inferno!... ELE MIJOU NA MINHA CAMA! — berrava o sueco, com as volumosas veias de seu pescoço alvo saltadas devido o destempero e o esforço que fazia para mover o cineasta. — Despacharam o Shion na minha casa, e eu não vim chamar você até agora para não estragar o seu momento tão esperado com o pianista bonitão, mas tudo nessa vida tem limite! Agora vá já tirar aquela bunda branca mijona da minha cama!
Imediatamente Mu abriu os olhos, desconcertado e ainda um tanto ensonado. Estava de atravessado no colchão, meio enroscado no edredom, quando num movimento brusco sentou-se e olhou para Afrodite, o vendo ali, visivelmente atarantado. Piscou os olhos algumas vezes e olhou para o lado. Viu Shaka apanhar afobado o celular entre os lençóis. Viu no display uma foto de Asmita, e então fez uma careta, cerrando fortemente os lábios e as pálpebras. Quando voltou a abrir os olhos, rapidamente encostou o indicador da mão esquerda nos lábios de Afrodite e o fitou sério pedindo silêncio.
— Shiii... fale baixo pelo amor de Deus! — sussurrou. — É o meu cunhado problemático no celular.
Ao lado, Shaka voltava a encostar o aparelho na orelha para falar com Asmita enquanto agora era observado por dois pares de olhos arregalados e atentos.
— Desculpe eu deixei o celular cair... Por que? Porque escorreu da minha mão, oras... O que?... Como assim, onde eu estou? Eu estou na casa do Mu, Asmita... Eu não bebi!... Asmita, eu não bebi... Pelado? Quem está pelado?... Eu não sei, Asmita, estou perguntando porque quem ouviu foi você... Que bagunça? Estamos sozinhos aqui, só eu e o Mu... e o Afrodite... Afrodite é o amigo do Mu... O que? Mijou na cama?... Ora, eu que te pergunto, quem mijou na cama?... Eu não sei, Asmita, deve ter sido o cachorro dele. Pelo amor de Deus, acabei de acordar e você me enche de perguntas sem sentido nenhum... — o pianista suspirou enfastiado, levando a mão na testa onde sentia dolorido ainda. — Não... não precisa chamar o pai... Oi pai... Está tudo bem, pai... Sim eu estou bem... Sim me trataram bem, mais ainda do que eu esperava. Os amigos do Mu são incríveis, depois eu conto tudo para o senhor... Eu comi sim pai... Não, eu não bebi... Eu sei que eu não posso beber, pai...
Enquanto a conversa no celular se prolongava, Mu e Afrodite voltaram a conversar, agora aos cochichos, pois pelas palavras de Shaka estava nítido que Asmita havia ouvido tudo que se passava ali e agora interrogava o irmão junto do pai.
— Tenha dó né, Dido, isso é jeito de acordar as pessoas? Mas que merda! — disse dando uma bronca no amigo.
— Hm... — fez o outro cruzando os braços ao encara-lo de volta. — Para o seu governo, eu fui acordado por uma jamanta, que passou por cima de mim sem nem me dar a chance de anotar a placa! Uma jamanta que está lá, no meu quarto, na minha cama, expelindo etanol pela boca e vazando óleo no meu colchão.
— Meu Deus! — Mu esfregou o rosto nervoso, então apressado livrou-se dos lençóis e saltou da cama já apanhando no chão as peças de roupa que estavam por ali jogadas — Shion não é de beber desse jeito, até perder a noção. Mas, que merda. O que deu nele?
— Todos têm os seus demônios, né Mu. Vai ver ele está com medo do que está por vir, quis escapar, se desconectar da realidade nem que fosse por uma noite. — disse o sueco enquanto aguardava o cineasta se vestir. — Pode parecer bobagem, mas posicionar-se em apoio do irmão gay decidido a se assumir para o pai homofóbico, de repente foi um pouco pesado demais para ele.
Mu abotoava o jeans quando de repente interrompeu o gesto para olhar para o sueco.
— Acha que ele vai mudar de ideia? Acha que ele vai desistir de ficar do meu lado? — perguntou. Sua voz tinha um tom aflito e temeroso.
Afrodite apanhou a camisa que jazia displicente sobre o carpete e a entregou ao cineasta. Nessa hora lhe sorriu ameno.
— Não. Ele não vai desistir. Seu irmão comprou sua causa, Mu. E ele sabe que dias difíceis virão. Por isso o porre. E outra, não deve ter sido fácil para ele te ver com outro cara, mãozinhas dadas, abraços, beijos... Ele sempre te viu com mulher, né. Da um desconto para ele. — deu de ombros. — Mas, chega de conversa e faça-me o favor ir logo com isso! Não quero o javali do seu irmão acordando pelado na minha cama e depois contestando a minha índole. Você sabe bem que todo homem hetero acha que nós, gays, somos uns promíscuos tarados que agimos como homens heteros diante de mulheres em estado de vulnerabilidade. Ele vai achar que faço a linha cu de bêbado não tem dono, e eu não quero o nome da minha pessoa na boca miúda.
— Deixa de ser tonto, o Shion nunca pensaria isso de você. — disse Mu colocando os tênis rapidamente, enquanto o fazia olhava furtivamente para Shaka, que mais ouvia do que falava ao celular. Certamente estava sendo bombardeado com perguntas e sermões.
— Querido, eu não coloco a minha mão caprichosa e talentosa no fogo por ninguém, nem por mim mesmo. — suspirou. — Ah, e pensar que cheguei tão perto essa noite... Tão perto... Não fosse o bendito do italiano sarado com cara de assassino em série...
— O calouro? — Mu se levantou para prender o cabelo, mas curioso aproximou-se do amigo e o encarou nos olhos — O bonitão que ninguém sabe o nome? Não me diga que você pegou ele de novo.
— Se você está pedindo para eu não te dizer então eu não digo. — fez um charminho, mas não conseguiu evitar as maçãs do rosto coradas e o sorrisinho matreiro que abriu-se em seus lábios.
— Tonto. Fala logo. — Mu riu dele.
— Eu estava lá, cozinhando o Camus em Banho-maria, né, jogando aquela conversa sobre arte e o vazio existencialista que alimenta a nós, artistas, já sentindo o gosto daquela boca vermelha, que nunca esteve tão próxima da minha quanto ontem, esperando só os pelinhos ruivos em torno daqueles mamilos afrontosos roçarem nos meus me fazendo cosquinha...
— Afrodite!
— Ah, sim, me desculpe... então, eu estava lá, conversando com o Camus na varanda, só eu e ele, quando o estupor do Milo chegou ali com uma proposta, até que super válida. Um sarau, com violino e piano, onde claro, o convidado ilustre para tocar o piano seria o Shaka, e o Camus ficou tão empolgado que já quis organizar tudo naquela hora mesmo... Ele e Milo então foram se juntar às meninas, que tocam violino, e eu fiquei ali... Com frio e com fome... Mas era uma fome de beijos... daí eu resolvi ir embora, e mais uma vez aquele italiano esquisito me achou pelo caminho e me acompanhou até em casa — deu um suspiro longo e resignado.
Mu riu. Que outra reação poderia ele ter?
— Então, a culpa não foi dele. Do italiano bonitão. O toco você já tinha recebido mesmo.
— Ah, muito obrigado pela parte que me toca. — disse Afrodite.
— Mas, e ai? Você beijou ele de novo? — Mu perguntou curioso. — O cara faz o tipo bad boy gostoso.
— Digamos que ele que me beijou.
— Hum... sei.
— É sério, dessa vez foram só uns beijos e uns amassos. Eu estava cansado, bêbado, além de frustrado demais para qualquer outra coisa... — suspirou. — E foi bom que não rolou nada, porque, pelo jeito, o seu irmão se esparramou na minha cama pouco depois de eu ter me esparramado nela, porque nem cheguei a dormir. Ele ia me dar um flagra memorável!
Mu terminou de amarrar os cabelos ainda rindo da conversa.
— Por falar em flagra, eu ontem o peguei com aquela garota do teatro bem no meu sofá — riu se lembrando da cara de embaraço do irmão. — Te conto no caminho... De qualquer modo, me desculpe por isso, e pelo seu colchão.
— Está desculpado, mas me deve um colchão novo. Vou ter que botar fogo naquele.
Mu riu, concordando com a exigência e se agilizando para calçar os sapatos. Já vestido, caminhou apressado até a cama onde Shaka ainda falava ao celular e inclinando-se tocou delicadamente em seu braço, para avisa-lo de que estava ali. Mesmo com o toque tão sutil quanto o roçar de uma pluma, o pianista contraiu-se num reflexo mecânico, mas logo esticou a mão que tinha livre e a sentiu ser tomada pela do outro.
— Asmita, espera um segundo, eu já te ligo de volta. — pediu afastando o celular do rosto, o qual mantinha meio abaixado e voltado para a direção onde Mu estava. — Mu?
— Sim, sou eu. — disse o cineasta lhe tocando o queixo com as pontas dos dedos, o orientando para que levantasse a cabeça, então suave como um beija-flor lhe tomou os lábios num beijo calmo, gentil. Quando se afastou olhou para o rosto dele, para as sardas minúsculas em seu nariz fino, e sorriu.
— O que houve? Afrodite está aqui ainda? Por que ele estava gritando? Aconteceu alguma coisa? Ele disse que seu irmão mijou na cama dele? Foi isso mesmo que ouvi? O Asmita também ouviu e está me enchendo de perguntas. — indagou atarantado.
— É, pois é... Parece que sim. — disse meio atrapalhado. — Afrodite está aqui sim, amor. Ele veio me pedir para ajudá-lo a trazer meu irmão para cá. Parece que o Shion exagerou na bebida e, bem, essas coisas acontecem. Não foi a primeira, e pelo jeito nem vai ser a última vez.
— Mas ele está bem?
— Ah, sim. Ele está ótimo! Só está bêbado. Ouça... — fez uma pausa enquanto acariciava os cabelos do pianista e delineava os traços perfeitos de seu rosto com os olhos verdes atentos. Nessa hora sentiu uma felicidade tremenda. — Fique aqui, não saia da cama porque você não conhece a casa ainda e pode se machucar. Eu não vou demorar. Vou só trazer o Shion para cá e então vou preparar um café da manhã digno de celebridades para nós dois. Depois vamos fazer um tour caprichado pela casa, para você começar a memorizar o lugar, porque eu quero você aqui hoje, e amanhã, e depois, e depois, e para sempre...
Conforme repetia as palavras Mu salpicava beijos nos lábios de Shaka, eufórico com a presença dele ali, em sua cama, em seu quarto, em seu mundo, depois de tantos dias sonhando com o momento em que iria acordar nos braços do pianista, mesmo que o despertar de ambos não tivesse sido bem como imaginara.
— Hum... está bem... não se preocupe comigo, vá buscar o seu irmão. — disse Shaka sorrindo entre os beijos, preenchido pela mesma felicidade.
Logo então se separaram. Afrodite pediu desculpas ao pianista pela invasão e indelicadeza e seguiu junto de Mu de volta ao seu apartamento.
A despeito do despertar turbulento, o restante da manhã na casa do estudante de cinema transcorreu bem. Com a ajuda do amigo sueco ele trouxera o irmão, amarrotado e semiconsciente, para seu apartamento, o banharam e o colocaram para dormir no quarto de hospedes, depois subiu para o apartamento de Afrodite, o ajudou a limpar e virar o colchão, para que ele pudesse dormir nem que fosse por apenas algumas poucas horas, e voltou apressado para a casa, onde dedicou todo o resto da manhã ao pianista.
De volta ao quarto, Mu encontrou Shaka deitado de lado, no meio da cama, os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro e o ombro nu a subir e descer numa cadência suave. Respirava tranquilo, e parecia estar dormindo. Pudera, a missão de resgate ao irmão bêbado custou a si quase uma hora inteira. Silencioso, caminhou até a cama enquanto em sua cabeça estalavam as lembranças da noite anterior nos braços do pianista, e nessa hora no peito lhe ardeu uma sensação de bem estar que irradiava até o estômago e lhe causava frisson. O amor tinha deixado de ser uma ideia para se tornar também uma sensação. Retirou os tênis e meteu-se debaixo do edredom encaixando-se no corpo delgado e nu. Se quem estivesse ali fosse qualquer outro, já estaria ele também nu, insinuando-se para o sexo, pronto para toma-lo uma vez mais e satisfazer a ânsia urgente do desejo físico, mas ele estava certo de que teria a vida toda para gozar daquele anseio. Não era preciso pressa. Sua pressa residia mais em acertar-se com a família e poder viver plenamente aquela relação, sem ter de esconde-la de ninguém. Por isso, Mu abraçou Shaka e o despertou com suaves beijos na nuca e nos ombros. Trocaram algumas palavras e carícias, e depois seguiram juntos até o banheiro do quarto para tomarem uma ducha.
Não era muito fácil para o pianista lidar com toda aquela intimidade compartilhada, ainda que, durante grande parte de sua vida, fora obrigado a abrir mão da privacidade e do pudor por culpa da cegueira, mas, para Mu, sua timidez e recato só lhe conferia mais graça. Era adorável ver como ele, mesmo acanhado e inseguro, permitia-se gozar daquele momento. Era admirável sua coragem.
Depois do banho Mu passou uma pomada para contusão — ele tinha muitas em casa para quando chegava contundido dos jogos de Rugby — na testa do pianista, então vestiram-se e seguiram para a cozinha, onde se saciaram com um café da manhã caprichado, digno de celebridades, como o estudante de cinema havia prometido. Shaka nunca imaginara provar tantas variedades de frutas e geleias com torradas. Adorou, em particular, as uvas verdes e os mirtilos com panquecas. O mel quebrava um pouco o sabor ácido e azedo das bolinhas, que quando soube terem uma cor azul forte, quase roxa, achou graça. No parco acervo visual de sua memória não se recordava de nenhuma fruta possuir tal cor.
Após o dejejum, Mu apresentou mais uma vez o apartamento a Shaka, agora sem pressa, e se atentando aos detalhes que considerava importantes, como pequenos declives ou degraus no chão que poderiam ser perigosos e provocar uma queda, quinas de móveis, pequenos e inúteis tapetes espalhados por aqui e ali, um mero capricho de sua mãe, que vez ou outra lhe vinha com alguma peça de decoração. Um carinho, e a forma como ela encontrava de estar presente ali. Livrar-se-ia destes da próxima vez. Não precisava de nenhum objeto para recordar-se da mãe, pois que pensava nela todos os dias. Não fosse a mãe lhe ter ensinado a tocar o piano, talvez nunca tivesse se atrevido a aproximar-se do pianista que tocava na Grand Central, e dedilhado as teclas do piano junto dele.
Ainda faziam a tour pelo apartamento, pois que passavam a maior parte do tempo, entre um cômodo e outro, entre esse obstáculo e aquele, conversando e trocando beijos acalorados e carícias ousadas, quando à 13h30 da tarde Afrodite tocou a campainha. Mu havia convidado o sueco para almoçarem juntos, e Afrodite lhe disse que caso não conseguisse dormir desceria por volta daquele horário. Bom, ele não conseguiu. O colchão batizado e a presença do pianista ali o deixavam deveras ansioso. Queria passar mais tempo com ele, conhece-lo melhor, pois que agora era certo de que teria que dividir a atenção de Mu com Shaka, o que lhe era totalmente compreensível.
O estudante de cinema o recebeu com um sorriso, e então seguiram os três para a cozinha, para começar os preparativos para o almoço, mas poucos minutos depois Shion também apareceu ali, faminto e de ressaca, procurando por café.
Continua...
